Poemas neste tema
Alma
António Ramos Rosa
Um Cenário de Rochedos E de Mar
Um cenário de rochedos e de mar
(A água não cintila não reflecte)
é uma discreta superfície
ela
bruscamente vê-se figurada
pela presença de uma multidão
indivisível
Desliza ainda mas sem rosto
esperando vertical
Veloz caminha no ar negro e brilhante
afunda-se cada vez mais reduz-se
a um ponto luminoso
sem jamais desaparecer
Ouvem-se ao longe detonações surdas
de uma tempestade subterrânea
Eis o momento da primeira cintilação
A cena é apenas indicada nos limites
Não é o projecto de uma história
mas anuncia-o
Breves estilhas
segmentos separados poderiam reunir-se
noutro lado
Há o gesto de duas mãos que se encontram
os quartos o bosque uma sombria álea
o alvorecer numa praia deserta
Uma das mãos corre ao longo das pernas
à superfície do corpo buscando
apoderar-se de uma forma de um centro líquido
Surge uma clareira de ramos baixos
O gesto desfaz-se num refluxo
ouvem-se golpes passam sombras húmidas
traços cada vez mais desligados
antes que o outro desapareça sob o nome
Eis os nomes aprendidos em que se dissimula
o fundo sem nome em que ela se transforma
terra idêntica música ventre
tempestade matéria muro animal
azul vermelho chuva chão madeira…
(A água não cintila não reflecte)
é uma discreta superfície
ela
bruscamente vê-se figurada
pela presença de uma multidão
indivisível
Desliza ainda mas sem rosto
esperando vertical
Veloz caminha no ar negro e brilhante
afunda-se cada vez mais reduz-se
a um ponto luminoso
sem jamais desaparecer
Ouvem-se ao longe detonações surdas
de uma tempestade subterrânea
Eis o momento da primeira cintilação
A cena é apenas indicada nos limites
Não é o projecto de uma história
mas anuncia-o
Breves estilhas
segmentos separados poderiam reunir-se
noutro lado
Há o gesto de duas mãos que se encontram
os quartos o bosque uma sombria álea
o alvorecer numa praia deserta
Uma das mãos corre ao longo das pernas
à superfície do corpo buscando
apoderar-se de uma forma de um centro líquido
Surge uma clareira de ramos baixos
O gesto desfaz-se num refluxo
ouvem-se golpes passam sombras húmidas
traços cada vez mais desligados
antes que o outro desapareça sob o nome
Eis os nomes aprendidos em que se dissimula
o fundo sem nome em que ela se transforma
terra idêntica música ventre
tempestade matéria muro animal
azul vermelho chuva chão madeira…
1 071
António Ramos Rosa
Reconhecê-La É Feri-La Travejá-La
Reconhecê-la é feri-la Travejá-la
na pauta rígida transformá-la
em palavras e madeira em arvoredo à chuva
Aqui a violência lúcida penetra
no corpo fugidio que é já outro reflexo
e trabalha esse fragmento de vida errante
Não como um objecto tudo na água flui
e a rigidez articula-se em dicção metálica
Pedra é esse corpo o seu corpo marinho
mas também é água e vento nos meus dedos
Pedaço a pedaço desfibro um reflexo vivo
para construir um virtual fluxo ou linhas negras
Quem revolve a terra e nela acha um insecto
terá este prazer de inventar os cabelos
ao sol do muro alto na folhagem!
Maltrato-te Figura que foste imagem
corrente desabrida no frio de um outro mês
e dou-te as inflexões das sílabas do tempo
com a paciência dos dedos e dos dentes
para que neste exercício da paixão acordes nua
na pauta rígida transformá-la
em palavras e madeira em arvoredo à chuva
Aqui a violência lúcida penetra
no corpo fugidio que é já outro reflexo
e trabalha esse fragmento de vida errante
Não como um objecto tudo na água flui
e a rigidez articula-se em dicção metálica
Pedra é esse corpo o seu corpo marinho
mas também é água e vento nos meus dedos
Pedaço a pedaço desfibro um reflexo vivo
para construir um virtual fluxo ou linhas negras
Quem revolve a terra e nela acha um insecto
terá este prazer de inventar os cabelos
ao sol do muro alto na folhagem!
Maltrato-te Figura que foste imagem
corrente desabrida no frio de um outro mês
e dou-te as inflexões das sílabas do tempo
com a paciência dos dedos e dos dentes
para que neste exercício da paixão acordes nua
995
António Ramos Rosa
Escrevo-Te Com o Fogo E a Água
Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.
O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.
Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.
O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.
Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.
1 184
António Ramos Rosa
Imagem Quase Nula
Imagem quase nula ou tão sóbria e oculta
como uma lâmpada no dia, como uma folha entre as folhas.
Tenaz e fugidia, em subtis alentos
está e não está no seu domínio intacto.
Perfume obscuro do sangue do silêncio.
E todavia é clara, evidente e quase nítida.
Distrai-se no espaço, nos seus altos terraços.
Está talvez a meu lado gentil e sossegada.
Respiro sem o saber o hálito harmonioso.
Não há presença mais leve, nem há glória mais nua.
Entre os nomes e as árvores é um fulgor tranquilo
que anima as palavras simples e voluptuosas.
Entre ervas e saliva os sonhos são verdades
transformadas em madeira, em pedras, em insectos.
Nada se perde no sono das suas calmas sílabas.
como uma lâmpada no dia, como uma folha entre as folhas.
Tenaz e fugidia, em subtis alentos
está e não está no seu domínio intacto.
Perfume obscuro do sangue do silêncio.
E todavia é clara, evidente e quase nítida.
Distrai-se no espaço, nos seus altos terraços.
Está talvez a meu lado gentil e sossegada.
Respiro sem o saber o hálito harmonioso.
Não há presença mais leve, nem há glória mais nua.
Entre os nomes e as árvores é um fulgor tranquilo
que anima as palavras simples e voluptuosas.
Entre ervas e saliva os sonhos são verdades
transformadas em madeira, em pedras, em insectos.
Nada se perde no sono das suas calmas sílabas.
633
António Ramos Rosa
O Obscuro
Porque o obscuro cresce e cresce em ambíguas sombras,
porque a folhagem sobe já os declives, porque a boca
respira a árvore obscura, porque o suave clamor
das sombras se propaga no nocturno espaço.
Frases, que possíveis frases imediatas e seguras
oferecem os arcos da tranquilidade luminosa?
Onde a ternura e o perfume, onde o pulso
amoroso que navega na aragem?
Quando poderei consumar-me na certeza do espaço?
Algo oscila em mim como uma folha, algo diz sim.
É uma corrente de ar brilhante, é um lugar que emerge
de obscuras veias. Que leveza no vento! Estou no meio do espaço.
Oiço os murmúrios do sol. Saboreio o que sou.
Sou renovado pelo espaço, nasço num espaço verde.
O que eu amo está perto entre a terra e o ar.
porque a folhagem sobe já os declives, porque a boca
respira a árvore obscura, porque o suave clamor
das sombras se propaga no nocturno espaço.
Frases, que possíveis frases imediatas e seguras
oferecem os arcos da tranquilidade luminosa?
Onde a ternura e o perfume, onde o pulso
amoroso que navega na aragem?
Quando poderei consumar-me na certeza do espaço?
Algo oscila em mim como uma folha, algo diz sim.
É uma corrente de ar brilhante, é um lugar que emerge
de obscuras veias. Que leveza no vento! Estou no meio do espaço.
Oiço os murmúrios do sol. Saboreio o que sou.
Sou renovado pelo espaço, nasço num espaço verde.
O que eu amo está perto entre a terra e o ar.
1 110
António Ramos Rosa
Encontro No Vazio
Apenas uma luz ínfima num verde subterrâneo.
A textura mais secreta, o esplendor inerme.
Um corpo, um corpo ainda suavemente amoroso,
mas em ruínas, em cal, em transparência vazia.
Uma esfera partida em ombros e cabeças,
em volumes exíguos, em palavras esquecidas.
Tudo se perdeu no vazio, tudo se encontra no vazio.
Intacta é a matéria materna, a nocturna folhagem.
Fragilidade da montanha, aérea a brisa subterrânea.
Que idade recomeça no princípio da música?
Uma cálida cabeça ama as folhas de mercúrio
e sombra, a pausa harmoniosa, a linha de equilíbrio
e de repouso. Lentamente tudo se desloca
para uma luminosa boca de água e pedra.
Ó delicada pele, ó melodia nua do vazio!
A textura mais secreta, o esplendor inerme.
Um corpo, um corpo ainda suavemente amoroso,
mas em ruínas, em cal, em transparência vazia.
Uma esfera partida em ombros e cabeças,
em volumes exíguos, em palavras esquecidas.
Tudo se perdeu no vazio, tudo se encontra no vazio.
Intacta é a matéria materna, a nocturna folhagem.
Fragilidade da montanha, aérea a brisa subterrânea.
Que idade recomeça no princípio da música?
Uma cálida cabeça ama as folhas de mercúrio
e sombra, a pausa harmoniosa, a linha de equilíbrio
e de repouso. Lentamente tudo se desloca
para uma luminosa boca de água e pedra.
Ó delicada pele, ó melodia nua do vazio!
1 103
António Ramos Rosa
Quem Sabe Quem a Guia Através de Que Desvios
Quem sabe quem a guia através de que desvios
e que surpresas? Segue um traçado
que deveria conduzi-la ao ponto
de sentir-se ilimitada
Ela não decide nada neste momento
deixa-se levar enquanto corre o contínuo solo
do mundo Um modo não reflexivo
de participação Talvez não deixe
de nomear os acontecimentos que constroem o seu
itinerário Transições
Por mais longe que pareça de uma paisagem comum
há sempre silhuetas fachadas conhecidas
sobreposições pontos de referência
Estará ela no interior da sua história?
Não é ela o real antes da divisão
da consciência e do real? Ela busca reencontrar
uma parte sua visível e durável
e será a resposta parcial à pergunta
que formulei ao seu contacto.
Ela desvia-se sempre e detém-se em plena rua
é um sinal de assombro
uma unificação imediata e coerente
Mas o cansaço toma-a e ela afasta-se sempre
da sua história Não consegue jamais
captar a relação da sua existência
Por isso procura-se a si mesma continuamente
Quase sempre as suas palavras os seus actos
parecem convergir para uma unidade Mas logo
se descobrem sem tomar forma (será esquecimento
o esquecimento da sua fatalidade?)
Procura despertar para quem a compreender
Mas será sempre alheia aos outros
O que a determina talvez seja o desejo
da semelhança Mas para si mesma
é um enigma fugidio
que brilha e foge na transparência opaca
a surpresa viva entre todos os sinais
e que surpresas? Segue um traçado
que deveria conduzi-la ao ponto
de sentir-se ilimitada
Ela não decide nada neste momento
deixa-se levar enquanto corre o contínuo solo
do mundo Um modo não reflexivo
de participação Talvez não deixe
de nomear os acontecimentos que constroem o seu
itinerário Transições
Por mais longe que pareça de uma paisagem comum
há sempre silhuetas fachadas conhecidas
sobreposições pontos de referência
Estará ela no interior da sua história?
Não é ela o real antes da divisão
da consciência e do real? Ela busca reencontrar
uma parte sua visível e durável
e será a resposta parcial à pergunta
que formulei ao seu contacto.
Ela desvia-se sempre e detém-se em plena rua
é um sinal de assombro
uma unificação imediata e coerente
Mas o cansaço toma-a e ela afasta-se sempre
da sua história Não consegue jamais
captar a relação da sua existência
Por isso procura-se a si mesma continuamente
Quase sempre as suas palavras os seus actos
parecem convergir para uma unidade Mas logo
se descobrem sem tomar forma (será esquecimento
o esquecimento da sua fatalidade?)
Procura despertar para quem a compreender
Mas será sempre alheia aos outros
O que a determina talvez seja o desejo
da semelhança Mas para si mesma
é um enigma fugidio
que brilha e foge na transparência opaca
a surpresa viva entre todos os sinais
1 037
António Ramos Rosa
Maravilha Imóvel
Ninguém responde, nada responde. Não, tu não existes.
E todavia conheço as tuas pausas, o teu ardor, as vogais
incandescentes. Contigo escrevo na água, permaneço,
vibro, ondulo. Dilato-me. Alcanço o solo.
A minha boca ascende lentamente fulgurando.
És tu o corpo já sem distância, sem fronteiras?
O informulável, inacessível, ausente já?
O olhar penetrou até ao fundo o corpo amado.
Múltiplas as figuras multiplicam o deserto.
Que palavras se incendeiam, que cinzas ainda ardem?
Tudo se consumou. A maravilha imóvel
é agora uma cabeleira apagada, e não o azul
e não o verde. E no entanto algo flui e continua.
Como se a mão tocasse as veias negras da figura
ou as veias brancas, o silêncio desenhado.
E todavia conheço as tuas pausas, o teu ardor, as vogais
incandescentes. Contigo escrevo na água, permaneço,
vibro, ondulo. Dilato-me. Alcanço o solo.
A minha boca ascende lentamente fulgurando.
És tu o corpo já sem distância, sem fronteiras?
O informulável, inacessível, ausente já?
O olhar penetrou até ao fundo o corpo amado.
Múltiplas as figuras multiplicam o deserto.
Que palavras se incendeiam, que cinzas ainda ardem?
Tudo se consumou. A maravilha imóvel
é agora uma cabeleira apagada, e não o azul
e não o verde. E no entanto algo flui e continua.
Como se a mão tocasse as veias negras da figura
ou as veias brancas, o silêncio desenhado.
1 089
António Ramos Rosa
Violenta Vaga E o Esquecimento Subsequente
Violenta vaga e o esquecimento subsequente
Violência que é preciso discernir
de cada vez que a Figura se mostra
(Ela não é mais que um tecido vermelho
impelido pelo vento)
É pela violência repetida que se pode conquistar
as marcas legíveis da sua presença aqui
A corrente repele-a Mas que dizer
da luz
que a fere dos cabelos flutuantes
Ela deixa-se arrastar responde apenas
por movimentos de superfície
aos reflexos que se afastam dela
Ela repele as semelhanças Tudo
se torna esplendor ou linhas negras
Vidraças brilhantes palavras
de metal e aquele olhar (temor?
consentimento?) antes da calma
O corpo liquefeito consumido
Água diferente em que penetro
para chegar ao esquecido rectângulo
que lhe cobre o peito a boca os olhos
Violência que é preciso discernir
de cada vez que a Figura se mostra
(Ela não é mais que um tecido vermelho
impelido pelo vento)
É pela violência repetida que se pode conquistar
as marcas legíveis da sua presença aqui
A corrente repele-a Mas que dizer
da luz
que a fere dos cabelos flutuantes
Ela deixa-se arrastar responde apenas
por movimentos de superfície
aos reflexos que se afastam dela
Ela repele as semelhanças Tudo
se torna esplendor ou linhas negras
Vidraças brilhantes palavras
de metal e aquele olhar (temor?
consentimento?) antes da calma
O corpo liquefeito consumido
Água diferente em que penetro
para chegar ao esquecido rectângulo
que lhe cobre o peito a boca os olhos
529
António Ramos Rosa
Mediadora Apagada
Acolhe na sua língua
um veneno de lâmpadas.
Apaga-se e
centra-se
na obscura falha.
Onde os nomes nas ervas
da noite?
Um silêncio de ilha
propaga-se nas palavras.
Uma boca desaparece
no fulgor
de uma nuvem.
um veneno de lâmpadas.
Apaga-se e
centra-se
na obscura falha.
Onde os nomes nas ervas
da noite?
Um silêncio de ilha
propaga-se nas palavras.
Uma boca desaparece
no fulgor
de uma nuvem.
522
António Ramos Rosa
Mediadora Negra Iii
Germina ainda um desenho
de alegria? Quem ouve as densas
raízes, as constelações
do pólen?
de alegria? Quem ouve as densas
raízes, as constelações
do pólen?
1 040
António Ramos Rosa
Mediadora Imediata
Com as ancas da terra, num sopro
de poeira e sol, um despertar
profuso. Um sonho de estuário.
Solstício no quarto. Flagrante
corpo imediato. Cabeleira
habitada. Mecânica matinal
das mãos e da água. Magia
do mínimo. Tranquilidade verde.
Cinza e espuma, o simples
perfume do ar, levíssima.
No limiar sempre onde nasce
tudo está salvo sem história.
de poeira e sol, um despertar
profuso. Um sonho de estuário.
Solstício no quarto. Flagrante
corpo imediato. Cabeleira
habitada. Mecânica matinal
das mãos e da água. Magia
do mínimo. Tranquilidade verde.
Cinza e espuma, o simples
perfume do ar, levíssima.
No limiar sempre onde nasce
tudo está salvo sem história.
1 032
António Ramos Rosa
O Lugar
Alegria na madeira na claridade do ritmo
ímpeto redondo livremente circulando
aqui nas pedras e na língua e nos olhos
música do espaço terrível e feliz
perfeita confiança que se eleva em chamas
Tudo é liso tudo é vazio ou lúcido
Nenhuma agitação distrai a imóvel luz
O teu nome silencioso encanta-me os ouvidos
Vibram ao vento as surpresas simples
Estamos no lugar que não é uma miragem
O jardim junto à torre a claridade azul
A água treme no umbigo de uma pedra
Entramos na imobilidade de uma melodia nua.
ímpeto redondo livremente circulando
aqui nas pedras e na língua e nos olhos
música do espaço terrível e feliz
perfeita confiança que se eleva em chamas
Tudo é liso tudo é vazio ou lúcido
Nenhuma agitação distrai a imóvel luz
O teu nome silencioso encanta-me os ouvidos
Vibram ao vento as surpresas simples
Estamos no lugar que não é uma miragem
O jardim junto à torre a claridade azul
A água treme no umbigo de uma pedra
Entramos na imobilidade de uma melodia nua.
1 143
António Ramos Rosa
Mediadora da Construção
Construir um corpo com as sílabas
do álcool. Contornar
o incompreensível.
Que grande dissonância azul e negra.
No limiar móvel
abarcar a cinza e o fruto,
passar pela brecha
branca.
Prelúdio
de sombras lúcidas.
Volumes de aromas,
ecos de espelhos.
Um trabalho de portas
e palavras. A nova epiderme
construída
pela água. Esquecimento
ardente obscuro solar.
Surpresa de uma ondulante
sombra.
Corola de um grito de água.
do álcool. Contornar
o incompreensível.
Que grande dissonância azul e negra.
No limiar móvel
abarcar a cinza e o fruto,
passar pela brecha
branca.
Prelúdio
de sombras lúcidas.
Volumes de aromas,
ecos de espelhos.
Um trabalho de portas
e palavras. A nova epiderme
construída
pela água. Esquecimento
ardente obscuro solar.
Surpresa de uma ondulante
sombra.
Corola de um grito de água.
522
António Ramos Rosa
Mediadora Dos Frutos Nocturnos
Estão acesos os obscuros
frutos. É o espaço da noite.
As ruas ascendem por escadas verdes.
O viajante viu de longe cintilar um dorso.
Rede cinzenta e ainda azul
como se fosse a casa em oscilação tranquila.
Entre lâmpadas e sombras
respira-se o unânime.
Os ombros pulsam. O corpo confia
na música nocturna. Plenitude
de uma esfera de água. Opulência
suave. Cresce o fulgor dos frutos.
frutos. É o espaço da noite.
As ruas ascendem por escadas verdes.
O viajante viu de longe cintilar um dorso.
Rede cinzenta e ainda azul
como se fosse a casa em oscilação tranquila.
Entre lâmpadas e sombras
respira-se o unânime.
Os ombros pulsam. O corpo confia
na música nocturna. Plenitude
de uma esfera de água. Opulência
suave. Cresce o fulgor dos frutos.
1 092
António Ramos Rosa
Mediadora de Estar
A paz é de sombra. Imóvel
a torrente da pedra abandonada.
Ressonância da luz, do bulício
longínquo do sangue. As armas nuas.
Áreas cintilantes das gramíneas
nocturnas. O veludo de um pássaro
na folhagem. O longo mutismo
das cores. Ritmo, repouso,
espaços limpos. Lucidez
de vidro. Densidade branca
do silêncio. Nomes, dedos,
clareira do sossego sem miragem.
Imóvel o poder que não cintila
no ar depurado: ócio, princípio puro,
murmúrios de arvoredos e águas vivas,
lúcida nudez de embriagada vida.
a torrente da pedra abandonada.
Ressonância da luz, do bulício
longínquo do sangue. As armas nuas.
Áreas cintilantes das gramíneas
nocturnas. O veludo de um pássaro
na folhagem. O longo mutismo
das cores. Ritmo, repouso,
espaços limpos. Lucidez
de vidro. Densidade branca
do silêncio. Nomes, dedos,
clareira do sossego sem miragem.
Imóvel o poder que não cintila
no ar depurado: ócio, princípio puro,
murmúrios de arvoredos e águas vivas,
lúcida nudez de embriagada vida.
1 200
António Ramos Rosa
Mediadora Iminente I
A que não vem não virá?
De súbito acesa. Como?
Sem nimbos e sem volume
num rumor enamorado.
Que silêncio de murmúrios,
que tremor de dedos finos!
Zona delgada no céu
de irredutível distância.
Ardente pausa submersa
translúcida. Amante
mas tão longínqua, dentro
da sua azul espessura.
Ó profunda, ó fugitiva,
em seu olvido parada,
em sua evidência oculta!
Como resplandece na sombra?
De súbito acesa. Como?
Sem nimbos e sem volume
num rumor enamorado.
Que silêncio de murmúrios,
que tremor de dedos finos!
Zona delgada no céu
de irredutível distância.
Ardente pausa submersa
translúcida. Amante
mas tão longínqua, dentro
da sua azul espessura.
Ó profunda, ó fugitiva,
em seu olvido parada,
em sua evidência oculta!
Como resplandece na sombra?
1 014
António Ramos Rosa
Mediadora Mínima
É quase imperceptível.
No halo mais antigo
germina silenciosa.
Seu coração, folhagem.
Pobre sombra habitada
pela água da pedra,
mas líquida, liberta,
no seu breve horizonte.
No halo mais antigo
germina silenciosa.
Seu coração, folhagem.
Pobre sombra habitada
pela água da pedra,
mas líquida, liberta,
no seu breve horizonte.
1 118
António Ramos Rosa
Mediadora do Corpo
Vive no meio de um incêndio
entre o silêncio e a água.
Azul veloz, o sangue do desejo.
Ninguém a defende da perfeita
noite. Move-se entre espelhos
e sombras. Cumpre-se a matéria
com as feridas do vento.
Incendeia os sulcos dos acordes.
Um tremor de planeta, um som negro,
reflexos de um confuso esplendor.
Pólen de pedra nos flancos.
Um voo permanente, submerso,
através dos dédalos, dos círculos,
das móveis dunas do deserto.
Estrela, sim, estrela de argila
em núpcias consigo e com o mundo.
entre o silêncio e a água.
Azul veloz, o sangue do desejo.
Ninguém a defende da perfeita
noite. Move-se entre espelhos
e sombras. Cumpre-se a matéria
com as feridas do vento.
Incendeia os sulcos dos acordes.
Um tremor de planeta, um som negro,
reflexos de um confuso esplendor.
Pólen de pedra nos flancos.
Um voo permanente, submerso,
através dos dédalos, dos círculos,
das móveis dunas do deserto.
Estrela, sim, estrela de argila
em núpcias consigo e com o mundo.
1 107
António Ramos Rosa
Mediadora Terrestre
A sua língua é um jovem animal.
O seu sono um fruto transparente.
Uma criança vive sobre os ombros.
Ó evidência de fábula terrestre!
Alegria branca. Solidão verde.
Vagar feliz. Vendaval claríssimo.
Maravilha contínua. Juventude
das pedras. Aliança intacta.
O seu sono um fruto transparente.
Uma criança vive sobre os ombros.
Ó evidência de fábula terrestre!
Alegria branca. Solidão verde.
Vagar feliz. Vendaval claríssimo.
Maravilha contínua. Juventude
das pedras. Aliança intacta.
1 009
António Ramos Rosa
Mediadora da Água
Cúmplice da água
num caminho que envolve e não domina,
ágil, tácito, na demora plena
segredo em dócil fluência.
Suspendem-se os nomes. E na sombra
adormecem as coisas. Um latido fulgurante
cria a imprevista ressonância
de um encontro.
As armas de uma aliança resguardam o silêncio.
A mão segreda e aproxima-se
de um pequeno país de música.
A água desliza para dentro da sombra.
num caminho que envolve e não domina,
ágil, tácito, na demora plena
segredo em dócil fluência.
Suspendem-se os nomes. E na sombra
adormecem as coisas. Um latido fulgurante
cria a imprevista ressonância
de um encontro.
As armas de uma aliança resguardam o silêncio.
A mão segreda e aproxima-se
de um pequeno país de música.
A água desliza para dentro da sombra.
1 056
António Ramos Rosa
Mediadora Das Alturas
Clara ligeireza
na mais clara distância.
Silêncio ardente e suave.
Subtil incêndio.
Que tão leve tumulto
nas ligeiras alturas!
Tão íntima e calada
no imponderável.
Nos ares constrói a fábula
de um suavíssimo surgir.
Que cálidas certezas
entre nuvens e ares!
Nascer sempre, nascer
em errantes delícias,
na fácil transparência.
Que grácil equilíbrio!
na mais clara distância.
Silêncio ardente e suave.
Subtil incêndio.
Que tão leve tumulto
nas ligeiras alturas!
Tão íntima e calada
no imponderável.
Nos ares constrói a fábula
de um suavíssimo surgir.
Que cálidas certezas
entre nuvens e ares!
Nascer sempre, nascer
em errantes delícias,
na fácil transparência.
Que grácil equilíbrio!
1 008
António Ramos Rosa
Jardim Sol
A lucidez é uma música da água
a respiração compreende sem imagens
Estamos dentro do incessante enigma
Somos a claridade do enigma
A facilidade é um rio
e um silêncio animal
Luz fácil
luz feliz
sol sem ruído jardim
sol
O caminho é uma pausa
o silêncio sem caminho
a respiração compreende sem imagens
Estamos dentro do incessante enigma
Somos a claridade do enigma
A facilidade é um rio
e um silêncio animal
Luz fácil
luz feliz
sol sem ruído jardim
sol
O caminho é uma pausa
o silêncio sem caminho
1 135
António Ramos Rosa
Mediadora da Perfeição Aberta
Entre a luz e o vento as praias
emigram. Vaivém imóvel.
A substância do segredo aérea e cálida.
Satélite ou desejo, perfeição aberta.
Pela alegria e pelo ócio, o voo
das nuvens e dos pássaros oblíquos.
Cálido poder oferece o espaço.
Ao nível da fábula o ar segreda.
Um animal sinuoso ou a língua do fogo
arde e desliza no exacto inviolável.
As praias não cessam. Frases livres deslumbrantes
deslumbradas. O aroma total da claridade.
emigram. Vaivém imóvel.
A substância do segredo aérea e cálida.
Satélite ou desejo, perfeição aberta.
Pela alegria e pelo ócio, o voo
das nuvens e dos pássaros oblíquos.
Cálido poder oferece o espaço.
Ao nível da fábula o ar segreda.
Um animal sinuoso ou a língua do fogo
arde e desliza no exacto inviolável.
As praias não cessam. Frases livres deslumbrantes
deslumbradas. O aroma total da claridade.
948