Poemas neste tema
Alma
António Ramos Rosa
Mediadora Simples
Demora em sossegos fundos
sonoros o seu fogo azul
por simples caminhos de erva,
talvez cristal, mas argila.
Sempre amiga e silenciosa
inunda a sombra dos quartos
sem esplendor nem coroa vã
mas em suas flores de água.
Não irrompe, surge plácida
entre a surdina das coisas.
Límpida, intensa, suave
cheia de fulgores minúsculos.
Mulher de serenidade,
sem grutas nem sombras ácidas,
abre o âmbito mais suave
na simplicidade de ser.
sonoros o seu fogo azul
por simples caminhos de erva,
talvez cristal, mas argila.
Sempre amiga e silenciosa
inunda a sombra dos quartos
sem esplendor nem coroa vã
mas em suas flores de água.
Não irrompe, surge plácida
entre a surdina das coisas.
Límpida, intensa, suave
cheia de fulgores minúsculos.
Mulher de serenidade,
sem grutas nem sombras ácidas,
abre o âmbito mais suave
na simplicidade de ser.
1 030
António Ramos Rosa
Mediadora da Coincidência
Escreve sobre paisagens de areia.
Conversa confiante com a pedra.
Solidária do sílex e dos campos
luminosos. Trabalha
nos flancos do mundo, na medula
obscura. Conhece os mínimos
movimentos, os íntimos
tecidos, a pupila,
o sexo da terra. Vibra
discreta e lancinante, espera
coincidir.
Conversa confiante com a pedra.
Solidária do sílex e dos campos
luminosos. Trabalha
nos flancos do mundo, na medula
obscura. Conhece os mínimos
movimentos, os íntimos
tecidos, a pupila,
o sexo da terra. Vibra
discreta e lancinante, espera
coincidir.
1 020
António Ramos Rosa
Mediadora do Jardim
Nenhuma cabeça emerge
das linhas que germinam
nenhum corpo é o corpo
visível voo de um pássaro
incendiando o branco.
Mas os ângulos verdes
vibram. Silêncio cintilante.
É talvez o jardim.
Devagar sobre a pedra
um deslumbrado instrumento
cria o signo volátil
para que se abra a esfera.
das linhas que germinam
nenhum corpo é o corpo
visível voo de um pássaro
incendiando o branco.
Mas os ângulos verdes
vibram. Silêncio cintilante.
É talvez o jardim.
Devagar sobre a pedra
um deslumbrado instrumento
cria o signo volátil
para que se abra a esfera.
546
António Ramos Rosa
Mediadora do Sono
É uma nuvem que repousa? Um barco
no jardim?
A sombra da música resplandece.
O centro do mundo dorme num rumor de sossego.
Há um lado do silêncio iluminado,
há um sol das folhas nas veias do jardim.
Que ócio e que segredo nas corolas de água!
Leves densidades de um incêndio branco.
Adormeceu a voz. O encanto é sossego.
Amorosa lentidão de uma infinita espera.
A nuvem repousa. A sombra da música resplandece.
O centro do mundo dorme num rumor de sossego.
no jardim?
A sombra da música resplandece.
O centro do mundo dorme num rumor de sossego.
Há um lado do silêncio iluminado,
há um sol das folhas nas veias do jardim.
Que ócio e que segredo nas corolas de água!
Leves densidades de um incêndio branco.
Adormeceu a voz. O encanto é sossego.
Amorosa lentidão de uma infinita espera.
A nuvem repousa. A sombra da música resplandece.
O centro do mundo dorme num rumor de sossego.
1 146
António Ramos Rosa
Mediadora do Princípio
Na primeira porta a primeira página.
Respiram escadas numa elipse frágil.
A mão é cega. As sombras esvaziam-se.
Escreve-se na pele de um planeta incerto.
Urgência de sílabas e de lábios.
Urgência de um fulgor, de uma matéria lúcida.
Alegria limpa. Lábios, lábios
sem ecos nem sombras, puríssimos, actuais.
O coração ascende. O pulso de um rio
freme. A folhagem acende-se.
Areia e sangue. Pedras ou pássaros.
Palavras de uma áspera primavera.
Respiram escadas numa elipse frágil.
A mão é cega. As sombras esvaziam-se.
Escreve-se na pele de um planeta incerto.
Urgência de sílabas e de lábios.
Urgência de um fulgor, de uma matéria lúcida.
Alegria limpa. Lábios, lábios
sem ecos nem sombras, puríssimos, actuais.
O coração ascende. O pulso de um rio
freme. A folhagem acende-se.
Areia e sangue. Pedras ou pássaros.
Palavras de uma áspera primavera.
1 096
António Ramos Rosa
Mediadora da Presença
E continua o fogo aqui
o fogo tácito
no seu som de espaço abrindo.
Aqui tão só aqui
o prodígio verde de um início
inesperado. Que frágil
a folhagem
e como abriga a veemência
da vigília. O simples
estar aqui
deixa livre a ausência.
A presença confunde-se com o vazio exacto.
o fogo tácito
no seu som de espaço abrindo.
Aqui tão só aqui
o prodígio verde de um início
inesperado. Que frágil
a folhagem
e como abriga a veemência
da vigília. O simples
estar aqui
deixa livre a ausência.
A presença confunde-se com o vazio exacto.
1 044
António Ramos Rosa
Mediadora da Escrita
Precipita-se ou vacila cintilante
subterrânea selvagem
a transparente espuma atravessando.
Desenhando os obstinados traços
busca a figura do desejo e do repouso
numa superfície plana e verde.
Espessa e subtil entre o fulgor e a névoa,
interrompe, acumula, esquece,
forma a sua própria forma. Contornos
mais vibrantes do que o círculo.
A face que ela imprime é a do corpo.
subterrânea selvagem
a transparente espuma atravessando.
Desenhando os obstinados traços
busca a figura do desejo e do repouso
numa superfície plana e verde.
Espessa e subtil entre o fulgor e a névoa,
interrompe, acumula, esquece,
forma a sua própria forma. Contornos
mais vibrantes do que o círculo.
A face que ela imprime é a do corpo.
578
António Ramos Rosa
Mediadora Irrevelada
Descalça e fulgurante
passageira das sombras.
Lâmpada sonâmbula
interrompendo as águas.
Não pousam pássaros
nos seus ombros escuros.
Corpo ainda aéreo
opaco e cristalino.
Não música nem pintura.
Eclipse do espelho.
Silenciosa energia
de um voo irrevelado.
passageira das sombras.
Lâmpada sonâmbula
interrompendo as águas.
Não pousam pássaros
nos seus ombros escuros.
Corpo ainda aéreo
opaco e cristalino.
Não música nem pintura.
Eclipse do espelho.
Silenciosa energia
de um voo irrevelado.
1 110
António Ramos Rosa
Mediadora do Dia
Sai do ventre da sombra,
de sonâmbulas nuvens.
A alma está no ar,
nas luminosas grutas,
nas brancas estridências.
Seus frutos de alegria,
suas alvas corolas
sobre a mesa do sol.
No acaso do ar vago
os nascimentos minúsculos,
efervescências, miríades,
as grandes áreas serenas.
Tudo é excesso e delícia,
evidências e acordes
num harmonioso tumulto.
Altos terraços da luz.
Frescor unânime, triunfo
de um confiante naufrágio
entre colinas e praias
em avidez fulgurante.
Figuras e figuras
nascem no imponderável.
Volúveis, frágeis
em galerias cálidas.
Ilhas, quantas ilhas
de felicidade viva,
tão verdes e claras,
selvagens, delicadas.
O corpo, só o corpo
é alma imediata.
Que maravilha total
na volúpia do ar!
de sonâmbulas nuvens.
A alma está no ar,
nas luminosas grutas,
nas brancas estridências.
Seus frutos de alegria,
suas alvas corolas
sobre a mesa do sol.
No acaso do ar vago
os nascimentos minúsculos,
efervescências, miríades,
as grandes áreas serenas.
Tudo é excesso e delícia,
evidências e acordes
num harmonioso tumulto.
Altos terraços da luz.
Frescor unânime, triunfo
de um confiante naufrágio
entre colinas e praias
em avidez fulgurante.
Figuras e figuras
nascem no imponderável.
Volúveis, frágeis
em galerias cálidas.
Ilhas, quantas ilhas
de felicidade viva,
tão verdes e claras,
selvagens, delicadas.
O corpo, só o corpo
é alma imediata.
Que maravilha total
na volúpia do ar!
1 017
António Ramos Rosa
Mediadora da Coincidência Nupcial
Conheço a flora do seu corpo
e a sua cabeleira cintilante.
Dorme sob as axilas da água.
Nos seus olhos cintilam coincidências.
Claro apogeu de dança horizontal.
Evidência e enigma imediato.
Um sabor inesgotável, o mundo num só arco.
Oferta, já não promessa, lâmpada profunda.
Veemência de cimo à superfície,
pele e palavra, pálpebras e pétalas.
Um tumulto acende-se em relâmpagos de água.
Aflui a harmonia na violência calma.
Júbilo no vento, alegres coincidências
no movimento azul. Livre insensatez
de gestos nupciais. Frescura transparente.
Inocência absoluta.
e a sua cabeleira cintilante.
Dorme sob as axilas da água.
Nos seus olhos cintilam coincidências.
Claro apogeu de dança horizontal.
Evidência e enigma imediato.
Um sabor inesgotável, o mundo num só arco.
Oferta, já não promessa, lâmpada profunda.
Veemência de cimo à superfície,
pele e palavra, pálpebras e pétalas.
Um tumulto acende-se em relâmpagos de água.
Aflui a harmonia na violência calma.
Júbilo no vento, alegres coincidências
no movimento azul. Livre insensatez
de gestos nupciais. Frescura transparente.
Inocência absoluta.
1 073
António Ramos Rosa
Mediadora do Silêncio
Onde o incandescente
centro das flores?
Entre margens de água
onde a alma se encurva?
Voz próxima do chão
onde estremecem palavras
na indivisa espera
de um vinho negro.
Respiram minuciosas
entre detritos verdes
e lâmpadas quebradas.
Não dizem a palavra.
Calar, calar talvez.
Querer dizer é demais.
centro das flores?
Entre margens de água
onde a alma se encurva?
Voz próxima do chão
onde estremecem palavras
na indivisa espera
de um vinho negro.
Respiram minuciosas
entre detritos verdes
e lâmpadas quebradas.
Não dizem a palavra.
Calar, calar talvez.
Querer dizer é demais.
993
António Ramos Rosa
Mediadora Árida
Que pedra de música
subsiste
na argila cega?
Que navios no subsolo?
Ouço a sombra árida
do corpo, ouço os animais
sem água
nas caves clandestinas.
Onde as vogais do fogo
no fulgor do vento?
subsiste
na argila cega?
Que navios no subsolo?
Ouço a sombra árida
do corpo, ouço os animais
sem água
nas caves clandestinas.
Onde as vogais do fogo
no fulgor do vento?
1 039
António Ramos Rosa
Mediadora Sonâmbula
Dançarina do sono,
a que raízes se ligam as pupilas
nocturnas? Obedece
à árvore dos seus passos.
Conduz os animais
minuciosos
do desejo errante.
Sua inocência
tem a forma do silêncio.
O vazio vibra na leveza
do andar.
Desenha o astro em que caminha.
a que raízes se ligam as pupilas
nocturnas? Obedece
à árvore dos seus passos.
Conduz os animais
minuciosos
do desejo errante.
Sua inocência
tem a forma do silêncio.
O vazio vibra na leveza
do andar.
Desenha o astro em que caminha.
1 056
António Ramos Rosa
Mediadora da Totalidade Secreta
Alguma ressonância, alguma esquiva
sílaba de água. Não desígnios.
Um ar ignorado, um arco
por nascer.
Algum vislumbre mas obscuro.
Algum halo ou hálito pressentido.
Alguma vibração antes da luz.
Algo mais que um silêncio de pedra.
A promessa do pulso imediata.
O arco inesperado do impenetrável.
Sede de palavras subterrâneas.
Secreta totalidade respirada.
sílaba de água. Não desígnios.
Um ar ignorado, um arco
por nascer.
Algum vislumbre mas obscuro.
Algum halo ou hálito pressentido.
Alguma vibração antes da luz.
Algo mais que um silêncio de pedra.
A promessa do pulso imediata.
O arco inesperado do impenetrável.
Sede de palavras subterrâneas.
Secreta totalidade respirada.
1 067
António Ramos Rosa
Mediadora do Inicial Constante
Fuga que restitui: ritmo
de cinzas. Obscuro
destino na aragem
das artérias.
O longínquo respira num corpo
de penumbra.
No alento se abre
o labirinto.
Visão do ilimite compacto.
Surge
o inicial constante.
Unidade vertical de um convertido abismo.
de cinzas. Obscuro
destino na aragem
das artérias.
O longínquo respira num corpo
de penumbra.
No alento se abre
o labirinto.
Visão do ilimite compacto.
Surge
o inicial constante.
Unidade vertical de um convertido abismo.
1 003
António Ramos Rosa
Mediadora Caminhante
Perdida em suave lucidez
na dolência do vazio. Nada
decifra, caminha claramente
nas diurnas arenas derradeiras.
Um inesgotável desejo de nascer
ou ser o odor da terra. Quem é a incógnita
soberana? Uma vigília
de praias. Uma tranquilidade de árvores.
Tudo é liso e repousa. Escuta
os ramos do silêncio, a simplicidade
do sangue. Perdida em suave
lucidez.
na dolência do vazio. Nada
decifra, caminha claramente
nas diurnas arenas derradeiras.
Um inesgotável desejo de nascer
ou ser o odor da terra. Quem é a incógnita
soberana? Uma vigília
de praias. Uma tranquilidade de árvores.
Tudo é liso e repousa. Escuta
os ramos do silêncio, a simplicidade
do sangue. Perdida em suave
lucidez.
1 108
António Ramos Rosa
Mediadora da Sombra
A que dissemina o sal
da sombra,
a que circula sem nome
portas sobre
portas.
A que dissemina a sombra
de um incêndio.
A que procura
uma nocturna
pedra.
A que segue
paralelamente à água.
Procura sombra, mais sombra.
da sombra,
a que circula sem nome
portas sobre
portas.
A que dissemina a sombra
de um incêndio.
A que procura
uma nocturna
pedra.
A que segue
paralelamente à água.
Procura sombra, mais sombra.
1 061
António Ramos Rosa
Mediadora Leve
De que suaves declives
ela desce, tão efémera
em sua fresca lucidez.
Imediata fluência
perfumada. Com um hálito
de espuma transparece
entre vertentes e vértices.
Não é mais que folha ou água.
Nada pesa e tudo queda
no seu círculo subtil:
cada vez mais leve o ar
entre a penumbra dos músculos.
Nada oculta sob as pedras
do vento. A claridade lisa.
O espaço escuta. Uma fábula
de calma profundidade.
Tão próxima sempre, aviva
o fulgor dos ângulos, o brilho
do pensamento das lâmpadas.
Rosa de um círculo latente.
Ninguém a espera e é esperada
no seu fluxo de inocência.
A densidade é mais leve.
Carne da luz e da alma.
Enquanto dura o seu estar
tudo é sossego e visão
ama-se a água na água.
Amam-se as veias da sombra.
ela desce, tão efémera
em sua fresca lucidez.
Imediata fluência
perfumada. Com um hálito
de espuma transparece
entre vertentes e vértices.
Não é mais que folha ou água.
Nada pesa e tudo queda
no seu círculo subtil:
cada vez mais leve o ar
entre a penumbra dos músculos.
Nada oculta sob as pedras
do vento. A claridade lisa.
O espaço escuta. Uma fábula
de calma profundidade.
Tão próxima sempre, aviva
o fulgor dos ângulos, o brilho
do pensamento das lâmpadas.
Rosa de um círculo latente.
Ninguém a espera e é esperada
no seu fluxo de inocência.
A densidade é mais leve.
Carne da luz e da alma.
Enquanto dura o seu estar
tudo é sossego e visão
ama-se a água na água.
Amam-se as veias da sombra.
1 131
António Ramos Rosa
Mediadora do Deserto
Cegueira límpida. Silêncio
de um incêndio. Que odor
nas áridas axilas!
Ela escuta a música do sol.
Divagações, figuras
esvaem-se na brancura.
Cegas frases de areia
no deserto da mesa.
Nada, ninguém. Retorno
à matriz branca. Ausência.
Espaços nus e inertes.
Mineral simplicidade.
Querer e não querer no início.
O risco é apenas um sopro
para incendiar o vento
no esquecimento do mundo.
de um incêndio. Que odor
nas áridas axilas!
Ela escuta a música do sol.
Divagações, figuras
esvaem-se na brancura.
Cegas frases de areia
no deserto da mesa.
Nada, ninguém. Retorno
à matriz branca. Ausência.
Espaços nus e inertes.
Mineral simplicidade.
Querer e não querer no início.
O risco é apenas um sopro
para incendiar o vento
no esquecimento do mundo.
548
António Ramos Rosa
Mediadora do Não Lugar
Múltiplas vozes anulam-se
no branco. A visão não é
da vibração dos actos
mas de máscaras brancas
invioláveis. A perspectiva
muda por momentos. Súbitas
muralhas fulgurantes,
uma mão tão antiga como a terra.
De súbito enegrece
a paisagem do mar. Nenhum rosto
ou palavra
ascende da terra.
Apenas uma árvore solitária
e um fogo negro na espuma
enevoada. É o lugar da
disparidade e da cegueira.
A opressão é permanente,
as relações indiscerníveis.
no branco. A visão não é
da vibração dos actos
mas de máscaras brancas
invioláveis. A perspectiva
muda por momentos. Súbitas
muralhas fulgurantes,
uma mão tão antiga como a terra.
De súbito enegrece
a paisagem do mar. Nenhum rosto
ou palavra
ascende da terra.
Apenas uma árvore solitária
e um fogo negro na espuma
enevoada. É o lugar da
disparidade e da cegueira.
A opressão é permanente,
as relações indiscerníveis.
715
António Ramos Rosa
Mediadora Dos Dias
Cada página um dia
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas
do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.
Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.
No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.
Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas
do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.
Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.
No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.
Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.
1 000
António Ramos Rosa
Mediadora Negra I
A que diz não e nunca
inexorável e negra
a impossível e só
pedra desolação.
Quando imensamente cresce
abraçando desmembrando
toda a distância obscura
estéril inútil cega.
Que silêncios alucinam
a já nunca mensageira
dos obscuros relâmpagos
de um pensamento sem música.
Já nos cinzentos abismos
sem jardim nem horizonte.
Ávida, inerme, enorme
delira palavras vãs.
inexorável e negra
a impossível e só
pedra desolação.
Quando imensamente cresce
abraçando desmembrando
toda a distância obscura
estéril inútil cega.
Que silêncios alucinam
a já nunca mensageira
dos obscuros relâmpagos
de um pensamento sem música.
Já nos cinzentos abismos
sem jardim nem horizonte.
Ávida, inerme, enorme
delira palavras vãs.
1 057
António Ramos Rosa
Mediadora Para Além Das Imagens
O olhar sucumbe ante as imagens.
Fulgor de desordem, dança, ecos,
acorde e graça, silenciosa
tempestade. A vibração
contínua do espaço,
uma imensa praia vertical
azul.
Entrechoques, densidade, alegria,
imagens irmãs atravessadas
atravessando, sufocadas, sufocantes,
é preciso detê-las numa curva de frase,
numa equivalência que será o seu reverso.
Fulgor de desordem, dança, ecos,
acorde e graça, silenciosa
tempestade. A vibração
contínua do espaço,
uma imensa praia vertical
azul.
Entrechoques, densidade, alegria,
imagens irmãs atravessadas
atravessando, sufocadas, sufocantes,
é preciso detê-las numa curva de frase,
numa equivalência que será o seu reverso.
1 058