Poemas neste tema
Alma
António Ramos Rosa
Entre Desejo E Sombra
entre desejo e sombra
umas pálidas pernas uma fugaz
fornalha o som
do orvalho
como te quero não sei
este veneno puro
esta alga incerta
são os números do fogo
corro com as perguntas e
as pedras ferozes
entravo o ritmo das
aves tempestuosas
que súbitas tenazes
vêm rodopiando
sobre a terra dos nomes
sobre o fogo dos caminhos
como renascer hoje
com uma imperícia atroz
o flanco esquerdo ferido
e a moribunda lua
seguirei este atalho
de formigas e fósseis
até ao anel de pedra
ao vislumbre da vespa
umas pálidas pernas uma fugaz
fornalha o som
do orvalho
como te quero não sei
este veneno puro
esta alga incerta
são os números do fogo
corro com as perguntas e
as pedras ferozes
entravo o ritmo das
aves tempestuosas
que súbitas tenazes
vêm rodopiando
sobre a terra dos nomes
sobre o fogo dos caminhos
como renascer hoje
com uma imperícia atroz
o flanco esquerdo ferido
e a moribunda lua
seguirei este atalho
de formigas e fósseis
até ao anel de pedra
ao vislumbre da vespa
611
António Ramos Rosa
A Esperança do Livro
Como um painel, soerguendo-se da névoa marinha, um busto vermelho, carcomido, a boca hiante, de um mistério vazio. A meus pés, um exército de formigas negras procura, num árido frenesim, o caminho para a pedra. A orla branca de espuma, as vagas que rolam violentas, impedem o acesso do negro exército de insectos.
Quem poderá escutar da boca daquela divindade algo para além da sua mudez de morte? O seu frio eco trespassa-me de horror, a distância perdida torna-se fúnebre. As máscaras encobrem em vão o inexorável.
«Onde está a esperança?» alguém grita ou seria apenas o amplo espaço que flamejara? Era um esplendor cruel e o grito, se alguém o gritara, logo fora varrido pela força do vento. Alguém no entanto gritara: «Não feches o livro.» Respondi: «Virei todas as páginas sem encontrar a esperança.» A voz pronunciara ainda algumas palavras de um além da bruma: «A esperança é talvez o livro.»
Cansara-me de fitar a carcaça de pedra vermelha, olhos e boca abertos por onde entravam o sol e a água. A tenacidade da ruína muda aterrorizava-me. Mas além da bruma eu ouvia a voz de uma possível esperança. Era preciso atravessar a inexorável claridade e procurar na tarde a merenda que me desse o alento para prolongar o livro. As folhas escritas pesavam sobre o dorso direito; as folhas brancas curvavam o ombro esquerdo. Desejava libertar-me das primeiras, como de um fardo, mas as outras, na vertigem do possível, tornam a marcha ébria, de um vagabundo prenhe do murmúrio de todas as palavras que um dia seriam o Livro, que já o eram no passo ligeiro em que caminhava através da bruma.
Quem poderá escutar da boca daquela divindade algo para além da sua mudez de morte? O seu frio eco trespassa-me de horror, a distância perdida torna-se fúnebre. As máscaras encobrem em vão o inexorável.
«Onde está a esperança?» alguém grita ou seria apenas o amplo espaço que flamejara? Era um esplendor cruel e o grito, se alguém o gritara, logo fora varrido pela força do vento. Alguém no entanto gritara: «Não feches o livro.» Respondi: «Virei todas as páginas sem encontrar a esperança.» A voz pronunciara ainda algumas palavras de um além da bruma: «A esperança é talvez o livro.»
Cansara-me de fitar a carcaça de pedra vermelha, olhos e boca abertos por onde entravam o sol e a água. A tenacidade da ruína muda aterrorizava-me. Mas além da bruma eu ouvia a voz de uma possível esperança. Era preciso atravessar a inexorável claridade e procurar na tarde a merenda que me desse o alento para prolongar o livro. As folhas escritas pesavam sobre o dorso direito; as folhas brancas curvavam o ombro esquerdo. Desejava libertar-me das primeiras, como de um fardo, mas as outras, na vertigem do possível, tornam a marcha ébria, de um vagabundo prenhe do murmúrio de todas as palavras que um dia seriam o Livro, que já o eram no passo ligeiro em que caminhava através da bruma.
1 012
António Ramos Rosa
A Palavra Transfigurada
Como incendiar a página com uma linguagem nua e frágil? Nada se escreve sem terror perante o inerte e a plenitude de uma linguagem vã. As folhas fatigam-se, envelhecem, e o bolor é o futuro condenado de todos os vocábulos. Como penetrar nos interstícios do invisível e aí buscar a libertação soberana de uma linguagem fulgurante? A criação é uma destruição em que os gritos e os murmúrios de uma insondável agonia são sufocados na garganta das palavras. Como libertar a palavra da passiva escravidão da morte? O que nos liga é o que nos liberta: a sede de um lugar livre sem o peso da servidão e dos discursos. Se cada palavra é o limiar de um deserto, como incendiar os grãos de areia para construir a casa de fogo que é o poema? Serão as palavras sombras sobre um invisível muro? Os vocábulos imitam as pedras e as estrelas e podem tornar-se a vivacidade feliz de uma festa miniatural. Mais do que as palavras, o que resta é o espaço que resta entre os vocábulos no branco da página. A linguagem é uma página de sinais esquecidos. Depois de todas as imagens, depois da última palavra, permanece o amor frágil de uma imagem suspensa, como que interdita sobre a aresta de um obstáculo. É a imagem que se apaga, que se perde, e no entanto caminha para o desconhecido e ganha o sombrio fulgor da palavra transfigurada.
1 213
António Ramos Rosa
A Diferença Desejada, a Página Prometida
Como que uma obrigação de renascer, de respirar. Algures, aqui, além, a sombra da frescura…
Tu escreves, percorres a igualdade da página, a sua inenarrável brancura. Qual a experiência que em parte se dissimula, oculta pelo visível-invisível véu da superfície insondavelmente branca?
Um animal de luz, um animal de sombra?
Tu não podes dizer ainda o teu nome. Tens de defender-te pelo risco, pela audácia, pela minuciosa avaliação que te conduzirá à diferença desejada, à página prometida.
O arco de aliança não é o arco de amanhã. Desviaste-te da estrada principal e procuras a disseminação do solo onde todos os caminhos conduzem aos caminhos que se perdem.
Essa, a tua perda, o teu risco, a possibilidade do renovo.
Há um tremor nas tuas mãos, és tu que tremes, não as palavras como fugidios desenhos, como lábios de uma ferida viva.
As palavras são sempre demasiado rígidas ou fluidas. O traço nunca é diáfano ou transparente.
Escreve-se sempre com as mãos nuas mas a nudez e a transparência da página é que permitem a penetração no obscuro, a revelação do invisível.
Quando todos os vocábulos são de água e de ar e terra e fogo…
Tu escreves, percorres a igualdade da página, a sua inenarrável brancura. Qual a experiência que em parte se dissimula, oculta pelo visível-invisível véu da superfície insondavelmente branca?
Um animal de luz, um animal de sombra?
Tu não podes dizer ainda o teu nome. Tens de defender-te pelo risco, pela audácia, pela minuciosa avaliação que te conduzirá à diferença desejada, à página prometida.
O arco de aliança não é o arco de amanhã. Desviaste-te da estrada principal e procuras a disseminação do solo onde todos os caminhos conduzem aos caminhos que se perdem.
Essa, a tua perda, o teu risco, a possibilidade do renovo.
Há um tremor nas tuas mãos, és tu que tremes, não as palavras como fugidios desenhos, como lábios de uma ferida viva.
As palavras são sempre demasiado rígidas ou fluidas. O traço nunca é diáfano ou transparente.
Escreve-se sempre com as mãos nuas mas a nudez e a transparência da página é que permitem a penetração no obscuro, a revelação do invisível.
Quando todos os vocábulos são de água e de ar e terra e fogo…
1 107
António Ramos Rosa
No Limiar da Claridade Móvel
No limiar da claridade móvel
um só trajecto até à opacidade
um frémito de abandono e de silêncio
nas vertentes
mais frescas e mais fundas
Impossível relatar o que tu vês
inesgotáveis são as folhas
as relações inúmeras gotas de água
os objectos sucessivos simultâneos
o corpo desagrega-se
recompõe-se
o mesmo corpo e outro e outro
a distância mantém-se e é abolida
Figura do desejo e da nudez
perseguida
a transparência é livre
à superfície de
uma escrita que se abre ao obscuro
Uma festa se promove
uma aliança do ar com um fogo de ervas
o combate pela claridade
na carne mesma do poema
Corpo a corpo
letra a letra
pelos sulcos não sulcados
algo que começa e é sem nome
e sem imagem
um só trajecto até à opacidade
um frémito de abandono e de silêncio
nas vertentes
mais frescas e mais fundas
Impossível relatar o que tu vês
inesgotáveis são as folhas
as relações inúmeras gotas de água
os objectos sucessivos simultâneos
o corpo desagrega-se
recompõe-se
o mesmo corpo e outro e outro
a distância mantém-se e é abolida
Figura do desejo e da nudez
perseguida
a transparência é livre
à superfície de
uma escrita que se abre ao obscuro
Uma festa se promove
uma aliança do ar com um fogo de ervas
o combate pela claridade
na carne mesma do poema
Corpo a corpo
letra a letra
pelos sulcos não sulcados
algo que começa e é sem nome
e sem imagem
1 070
António Ramos Rosa
A Partir do Deserto
Abre-se o espaço uma corola se abre
a partir do deserto
um silêncio se apaga outro silêncio de água
Desce a dançarina exacta
até ao extremo da brancura
A noite é verde
na distância dos cabelos
Nenhuma imagem subsiste
Nenhuma gota de sangue
O sol repousa numa obscura nuvem
Absoluta a suavidade sem espera
um aroma sem aroma
o silêncio entre os corpos
a partir do deserto
um silêncio se apaga outro silêncio de água
Desce a dançarina exacta
até ao extremo da brancura
A noite é verde
na distância dos cabelos
Nenhuma imagem subsiste
Nenhuma gota de sangue
O sol repousa numa obscura nuvem
Absoluta a suavidade sem espera
um aroma sem aroma
o silêncio entre os corpos
1 086
António Ramos Rosa
A (I)Legibilidade do Livro
O livro está aberto e há demasiada luz.
Tudo o que tu escreves está contido nesse livro de letras brancas como a tua morte.
Será possível ler o sol e o silêncio desse livro branco eternamente branco e silencioso?
Como conter a ávida necessidade de devorá-lo como se o livro pudesse matar-nos a irredutível fome de uma linguagem legível e luminosa?
Estamos perante a impossibilidade de ler por um excesso de luz que é a um tempo a nossa morte e a improvável possibilidade de escrever o que não vemos, de ler o que não lemos.
Devoramos o livro e com os olhos cegos de brancura transformamos a impossível leitura na escrita de uns signos imediatos que nos devolvem a linguagem da luz apagada pela luz.
Tudo o que tu escreves está contido nesse livro de letras brancas como a tua morte.
Será possível ler o sol e o silêncio desse livro branco eternamente branco e silencioso?
Como conter a ávida necessidade de devorá-lo como se o livro pudesse matar-nos a irredutível fome de uma linguagem legível e luminosa?
Estamos perante a impossibilidade de ler por um excesso de luz que é a um tempo a nossa morte e a improvável possibilidade de escrever o que não vemos, de ler o que não lemos.
Devoramos o livro e com os olhos cegos de brancura transformamos a impossível leitura na escrita de uns signos imediatos que nos devolvem a linguagem da luz apagada pela luz.
1 025
António Ramos Rosa
Ignorância do Caminho
Ignoro o caminho, a mais pura ciência de viver. Não importa já a razão dominadora com o seu cerco que expulsa o silêncio e disseca o próprio ar que se respira. A palavra só existe em função da realidade que cria e à qual se furta. A palavra viva é a impossível nudez do corpo, a lâmpada do silêncio, o retorno ao aqui. Estar aqui, voltar aqui é recomeçar o começo, é começar o que ainda e sempre está por começar. Todas as palavras são pedras de um exílio e todas nos abrem os lábios da ferida. Todo o vocábulo é nascimento e morte. O branco é cúmplice do exílio e do milagre da linguagem. Nenhuma sombra poderia respirar se não fosse a ficção nula da brancura da página. A página acende o obscuro sangue de uma lâmpada, de um corpo ou de um silêncio, e logo o apaga para reavivar a mesma chama de silêncio, a própria língua do corpo.
1 136
António Ramos Rosa
A Distracção do Vento
A distracção do vento ou a despreocupação pelos obstáculos até à dissipação no ar. Vento, esquecimento vivo, cegueira activa do ar. As palavras terão alguma vez esta respiração fluida de uma dança rebelde, livre? A sede do ar sufoca as palavras ou liberta-as? É o branco sempre, errante e puro, que lavra este grande lábio mutilado que é a palavra no limiar do vazio e do silêncio? A linguagem é um animal equívoco que voa sobre a areia do deserto num voo raso de elipse ou a sombra de um puro momento de ruptura indescritível? A ausência devasta a linguagem, até que ela se torne o sopro da brancura e da única vida que não soçobra na sua própria sombra? Os vocábulos respiram quando a distância os liberta da sua presença opaca restituindo-os à fragilidade de um sopro e de uma transparência livre e nunca literal. No corpo das palavras pressente-se o imperceptível ardor de um fluxo discreto, mínimo, como a pulsação de um pulso de insecto, indemonstrável, secreto.
1 070
António Ramos Rosa
O Poder E o Fazer da Linguagem
O caminho surgirá na página, um caminho há-de surgir talvez, um caminho durável, um caminho fugaz. As palavras fogem ao pensamento e ao dito, abrem um caminho no escuro. O verbo é sempre inaugural, porque desagrega e se desagrega, porque (re)começa sempre de dúvida em dúvida, de ferida em ferida, de interrogação em interrogação. Os vocábulos vivos são os que se ligam ao vazio, às margens, à ausência, ao silêncio. A linguagem da sombra e do fogo, da água e das ervas, da luz e da terra, é uma música despojada, quase inaudível. As palavras perdem o sentido da generalidade e do conceito, caminham no obscuro para encontrarem a vitalidade dos vocábulos. Assim, encontram o seu verdadeiro corpo de sangue e sombra. É o princípio do mundo, uma reconquista do outro no nulo, do um no outro. As palavras vão ao encontro das palavras para descobrirem os vértices da intensidade, as superfícies das diferenças puras. Este é o tempo da criação (des)contínua, o tempo da palavra que inaugura a palavra. Não há nada a dizer, tudo está dito e por isso tudo está por dizer. A palavra escava continuamente o sentido, estabelece o espaço do silêncio, desmorona as significações, provoca abalos sísmicos na linguagem. A escrita é uma estrela em perpétua deflagração.
1 082
António Ramos Rosa
Na Sequência Viva
O que tu lês é/será uma música da folhagem, não do lábio sôfrego, não do fôlego exausto. O que procuramos está no vento que se vai levantar, na seiva e no sangue dos dois lábios amantes, o teu e o meu, na sequência viva da substância escrita, homogénea, heterogénea. O que arde é a chama do silêncio do não-lugar que é clareira e cimo, vértice e prumo de uma linguagem enamorada do rosto de cada palavra, das veias da árvore que nos ergue à transparência oculta de cada folha. O instante, na sua aérea fugacidade, o espaço na sua disseminação amante, requer a confiança sem delírio nem vertigem, um silêncio que não é o silêncio mas a sombra da claridade que cada palavra cria no seu descoberto caminho.
1 198
António Ramos Rosa
O Amor da Pedra
O amor da pedra é um amor de sílabas graves, intactas. De uma matéria grave, intacta, ardente e fria. Sílabas densas condensando a sombra e o espaço. Pedra intacta, pedra opaca, fogo e ritmo, água e ritmo da unidade fragmentada. Respira a pedra na palma. Outra palavra se lhe junta: ombro. O espaço inteiro se abre entre a pedra e o ombro. A pedra tem lábios de sombra e o fogo neutro e limpo habita-a no silêncio da sua inimitável pose. A pedra tem lábios de água para quem a ama tal qual no solo ou na palma da mão. As pedras no deserto ou no caminho são companheiras do silêncio e do espaço. Cada pedra é uma palavra viva de uma linguagem única: a linguagem do intacto.
1 293
António Ramos Rosa
Como Se Uma Só Palavra
Como se uma só palavra tumultuasse no deserto, uma palavra em branco, uma palavra devorada pelo branco.
Não há outro lugar para a palavra, ombro, sombra, sol, mulher, ritmo, inteligência…
Todas as letras respiram e morrem asfixiadas no deserto da página.
A palavra é um animal que se revela contra a sua sombra. Mas a sombra habita-a e é a sua opacidade que lhe dá espessura.
Assim a palavra luta contra o branco.
Mas o branco da página é também o que impele a palavra a alimentar-se do vazio e a procurar aí a nudez e a transparência do ilegível.
A palavra deverá ser um animal de luz. O animal branco da página.
A página por vezes é toda negra ou completamente branca. Se algo respira, se algo vive, algo principia e é talvez uma palavra que encontra outra palavra.
A escrita é um jogo de luzes e de sombras.
A ascensão da palavra é sempre plana. Ela respira pelo contacto com a superfície.
A respiração da palavra é a respiração do deserto.
O que subsiste, como o rosto da página, sem imagens, é um lampejo da luz ou uma sombra esparsa.
A sede infinita, o vazio do deserto.
Não há outro lugar para a palavra, ombro, sombra, sol, mulher, ritmo, inteligência…
Todas as letras respiram e morrem asfixiadas no deserto da página.
A palavra é um animal que se revela contra a sua sombra. Mas a sombra habita-a e é a sua opacidade que lhe dá espessura.
Assim a palavra luta contra o branco.
Mas o branco da página é também o que impele a palavra a alimentar-se do vazio e a procurar aí a nudez e a transparência do ilegível.
A palavra deverá ser um animal de luz. O animal branco da página.
A página por vezes é toda negra ou completamente branca. Se algo respira, se algo vive, algo principia e é talvez uma palavra que encontra outra palavra.
A escrita é um jogo de luzes e de sombras.
A ascensão da palavra é sempre plana. Ela respira pelo contacto com a superfície.
A respiração da palavra é a respiração do deserto.
O que subsiste, como o rosto da página, sem imagens, é um lampejo da luz ou uma sombra esparsa.
A sede infinita, o vazio do deserto.
1 181
António Ramos Rosa
A Superfície da Página
Seule l’écriture maintient le regard de
l’écrivain à la surface.
EDMOND JABÈS
Escrevo com estas moedas que nada simbolizam e que se elevam e avançam na superfície lisa da página, no dorso ondulante do deserto. É esta superfície que me tenta, como se uma escrita de água percorresse o deserto em cada sílaba, como se em cada letra deflagrasse o escuro sol da sombra. Escrevo sem acreditar, escrevo, isto é, vou de sombra em sombra, apago-me e apago a ordem do discurso, as peremptórias leis dos homens. Há uma palavra que viaja no mar, há uma palavra viva no espaço, no rumor da vida, no silêncio inominável das coisas. Essa palavra não está longe de nenhuma palavra, todas as palavras se dirigem para ela, todas elas morrem e estremecem por essa única palavra que povoa os espaços e os vocábulos. O sol e o mar, os animais, as estrelas, a luz e a noite, tudo se contém, freme e adeja como se na página um pássaro de vento de súbito surgisse, visível, invisível, vivo e apagado como uma sombra branca. Entre as margens e os intervalos das linhas gera-se uma comunicação e é o branco que raia num sentido ou as sombras de súbito se encontram e resplandecem. Este fogo, esta luz, esta pulsação animal, esta sombra fulgurante são a própria substância escrita mas igualmente o segredo incomunicável, a palpitação única de um lábio materno, de uma vegetação elementar, de uma terra secreta e original. Eis que sinto a vida nova dos vocábulos, a sua vocação vocálica, a sua alma livre, a sua orientação seminal. São os vocábulos que perpassam sobre os abismos brancos e as espirais da loucura, são eles que, nas suas volutas, na sua corrente vivaz e obstinada abrem um caminho e criam a possibilidade da infinita palavra impossível.
l’écrivain à la surface.
EDMOND JABÈS
Escrevo com estas moedas que nada simbolizam e que se elevam e avançam na superfície lisa da página, no dorso ondulante do deserto. É esta superfície que me tenta, como se uma escrita de água percorresse o deserto em cada sílaba, como se em cada letra deflagrasse o escuro sol da sombra. Escrevo sem acreditar, escrevo, isto é, vou de sombra em sombra, apago-me e apago a ordem do discurso, as peremptórias leis dos homens. Há uma palavra que viaja no mar, há uma palavra viva no espaço, no rumor da vida, no silêncio inominável das coisas. Essa palavra não está longe de nenhuma palavra, todas as palavras se dirigem para ela, todas elas morrem e estremecem por essa única palavra que povoa os espaços e os vocábulos. O sol e o mar, os animais, as estrelas, a luz e a noite, tudo se contém, freme e adeja como se na página um pássaro de vento de súbito surgisse, visível, invisível, vivo e apagado como uma sombra branca. Entre as margens e os intervalos das linhas gera-se uma comunicação e é o branco que raia num sentido ou as sombras de súbito se encontram e resplandecem. Este fogo, esta luz, esta pulsação animal, esta sombra fulgurante são a própria substância escrita mas igualmente o segredo incomunicável, a palpitação única de um lábio materno, de uma vegetação elementar, de uma terra secreta e original. Eis que sinto a vida nova dos vocábulos, a sua vocação vocálica, a sua alma livre, a sua orientação seminal. São os vocábulos que perpassam sobre os abismos brancos e as espirais da loucura, são eles que, nas suas volutas, na sua corrente vivaz e obstinada abrem um caminho e criam a possibilidade da infinita palavra impossível.
1 272
António Ramos Rosa
A Transparência
a Maria da Glória Padrão
Desejava o fogo alto da manhã verde. Mas a terra estava rígida e negra como um cadáver. A minha ficção tinha de ser breve, entrecortada, mas de tal maneira sensível que pudesse despertar alguém ou alguma presença — eu ou a figura do Livro eternamente inacessível? O céu vazio e ilimitado não prometia nada. As casas teriam talvez habitantes mas apresentavam-se-me desertas, baixas e como devastadas pelo tempo e pela vacuidade do céu. Olhava as ruas e as encruzilhadas e era muito viva a sensação de uma funda frescura vinda da folhagem do arvoredo próximo. A memória de uma límpida manhã de inverno de algum modo avivava esta sensação a um tempo pungente e revivificante. Chegar a casa, poder ainda escrever a ficção impossível (impossível devido ao próprio vazio que a exigia), iniciar o texto enfim. A minha casa está só, e já os amigos raramente me visitam, observando cada vez mais o meu gosto pela solidão. Esta solidão é o meu estigma, a marca da vida no limiar da morte. Mas também a marca da morte. Sinto que esta vida é recente, uma vida de renascimento em que cada dia conta, inevitável, breve e lúcido como se a morte me rechaçasse todas as manhãs para a soberania de uma ilimitada transparência. E assim vivo pela morte e pela vida. Esta transparência é de uma evidência de assombro mas à luz do quotidiano é invisível e impenetrável. Assim, tudo passa por mim com a igualdade de ser tal qual é. Arranquei ou arrancaram-me todas ou quase todas as armaduras e resguardos. É como não ter ombros nem omoplatas. Mal sinto o corpo e no entanto sinto-me solidário, obliquamente unido a todo o ser vivente, quer ele me pareça imune e alheio, quer indefeso e ameaçado. O imperativo já não é viver mas escrever para viver e viver para escrever. Vivo como se não tivesse dito jamais uma palavra ou como se as que escrevi para sempre se tivessem desvanecido. Como inaugurar esta manhã verde que é já o princípio de uma promessa no princípio do texto? A terra está cada vez mais negra como um cadáver. Todos os dias os mortos vêm tornar mais negro o húmus da terra. Mas são os mortos que aligeiram a terra também. Esta brisa fina, subtil que mal perpassa, este esvoaçar imperceptível de algo que já não lembra nada e é a memória esparsa de tudo, é o espaço neutro que a morte filtrou sem deixar a sua marca negativa. Por isso pode-se viajar pela cidade vendo os namorados dançar e beijarem-se livremente nas avenidas. Também eu me esqueço quase desta devoração íntima, pois a minha transparência irisa-se com a dança dos jovens e os ruídos alegres da cidade. Sinto que os contrários se reúnem e algo vem à tona, que não é morte nem vida, mas a invisível flor do vazio. A nenhuma outra exigência me submeto, não escrevo senão para viver esses momentos em que respiro como se nunca tivesse nascido ou começasse de novo a viver noutra dimensão — diáfana mas compacta e tão estranhamente imponderável que o esplendor de súbito apaga ou dilui as fugidias sombras do tempo.
Desejava o fogo alto da manhã verde. Mas a terra estava rígida e negra como um cadáver. A minha ficção tinha de ser breve, entrecortada, mas de tal maneira sensível que pudesse despertar alguém ou alguma presença — eu ou a figura do Livro eternamente inacessível? O céu vazio e ilimitado não prometia nada. As casas teriam talvez habitantes mas apresentavam-se-me desertas, baixas e como devastadas pelo tempo e pela vacuidade do céu. Olhava as ruas e as encruzilhadas e era muito viva a sensação de uma funda frescura vinda da folhagem do arvoredo próximo. A memória de uma límpida manhã de inverno de algum modo avivava esta sensação a um tempo pungente e revivificante. Chegar a casa, poder ainda escrever a ficção impossível (impossível devido ao próprio vazio que a exigia), iniciar o texto enfim. A minha casa está só, e já os amigos raramente me visitam, observando cada vez mais o meu gosto pela solidão. Esta solidão é o meu estigma, a marca da vida no limiar da morte. Mas também a marca da morte. Sinto que esta vida é recente, uma vida de renascimento em que cada dia conta, inevitável, breve e lúcido como se a morte me rechaçasse todas as manhãs para a soberania de uma ilimitada transparência. E assim vivo pela morte e pela vida. Esta transparência é de uma evidência de assombro mas à luz do quotidiano é invisível e impenetrável. Assim, tudo passa por mim com a igualdade de ser tal qual é. Arranquei ou arrancaram-me todas ou quase todas as armaduras e resguardos. É como não ter ombros nem omoplatas. Mal sinto o corpo e no entanto sinto-me solidário, obliquamente unido a todo o ser vivente, quer ele me pareça imune e alheio, quer indefeso e ameaçado. O imperativo já não é viver mas escrever para viver e viver para escrever. Vivo como se não tivesse dito jamais uma palavra ou como se as que escrevi para sempre se tivessem desvanecido. Como inaugurar esta manhã verde que é já o princípio de uma promessa no princípio do texto? A terra está cada vez mais negra como um cadáver. Todos os dias os mortos vêm tornar mais negro o húmus da terra. Mas são os mortos que aligeiram a terra também. Esta brisa fina, subtil que mal perpassa, este esvoaçar imperceptível de algo que já não lembra nada e é a memória esparsa de tudo, é o espaço neutro que a morte filtrou sem deixar a sua marca negativa. Por isso pode-se viajar pela cidade vendo os namorados dançar e beijarem-se livremente nas avenidas. Também eu me esqueço quase desta devoração íntima, pois a minha transparência irisa-se com a dança dos jovens e os ruídos alegres da cidade. Sinto que os contrários se reúnem e algo vem à tona, que não é morte nem vida, mas a invisível flor do vazio. A nenhuma outra exigência me submeto, não escrevo senão para viver esses momentos em que respiro como se nunca tivesse nascido ou começasse de novo a viver noutra dimensão — diáfana mas compacta e tão estranhamente imponderável que o esplendor de súbito apaga ou dilui as fugidias sombras do tempo.
1 214
António Ramos Rosa
Ruptura/Continuidade
Cansei-me não das palavras, nem da vida, cansei-me. Cansei-me da linguagem, não do real. Cansei-me da realidade, não da linguagem. Nunca me cansei, nunca pude cansar-me na (da) realidade. Impossível ter-me cansado se nunca caminhei sobre a língua, sobre a lande, sobre a glande. Que digo eu, que diz a linguagem? Diz a língua urgente, a beleza urgente a pique, a orientação viva? Que é o poema, que é a língua? Perguntas só por perguntar ou porque não há respostas, não há caminho, não há cama, não há coma? O que há é linguagem, é a visão de um ininteligível fragmento do real. Tu viajaste. Nunca saíste do teu quarto. Nunca viajaste no teu quarto. Ignoras o espaço, o eros do espaço. Ignoras o espaço. A linguagem apresenta-te, representa-te a árvore, a pedra, a água, o linho e a seda de um corpo, o rictus da máscara, o ritmo do real inatingível. A linguagem é um corpo vivo, mas também é eloquência, grandiloquência, verbo inflado, empolamento de útero sem nascimento, válvula de hemorragias. Cansaste-te não do sémen nem da disseminação (da utopia) da linguagem, mas das suas versões eloquentes, demasiado belas para poderem corresponder ao (quase) imperceptível murmúrio da realidade? A realidade é linguagem, a linguagem é realidade? Porque te emaranhas nos círculos do inferno cerebral? Não é a realidade que procuras, a realidade natural, a realidade animal, a realidade sensual? Sai, se puderes, deste poema vicioso, abre a janela (abre-a, se puderes) abre e respira. Respira a linguagem (do real), respira o poema (real), não, não podes respirar sem a linguagem, não podes abrir a janela sem romperes o cordão que te liga ao umbigo deste poema fétido que se cerra e que se abre mas que não é como uma pálpebra nem como um lábio, que não é nada, nada, nada, pois nem é um grito, nem uma gruta, nem uma trave, nem uma pedra. A linguagem desdiz tudo o que diz e desdizendo diz. É preciso apagar este poema, enterrá-lo na areia como um animal e que dele reste só a areia redemoinhando acima do focinho que tenta a sufocada respiração. Acima da respiração. A linguagem que respira é o verbo da erva, a palavra verde que murmura e nada diz se diz o nada, o imperceptível sorriso das coisas que não choraram, a alacridade eterna ( efémera) de uma chama, de um espaço, de um corpo.
1 165
António Ramos Rosa
O Duelo de Um Braço
O duelo de um braço
lutando pelo contrário
no seu duplo ou duo
branco ou negro ou negro e branco
forma do obscuro
e nu
e nulo
lutando pelo contrário
no seu duplo ou duo
branco ou negro ou negro e branco
forma do obscuro
e nu
e nulo
1 191
António Ramos Rosa
Olhar Sem Olhar
Em qualquer parte, talvez, uma palavra arde. Um acto do universo, não uma palavra, mas uma palavra ainda: a chuva cai sobre as cores, lava os pórticos, refresca os deuses. O que me atrai são os confusos indícios de uma prosa marinha, os fluxos, os matizes, as pausas, as minúcias de uma música que se esvai ao mesmo tempo que se abate sobre a muralha a grande ressaca de uma outra escrita ou contra-escrita. Quero seguir o bulício mais vivo de uma outra cidade que nunca vi. As manchas das casas revelariam as relações que só se distinguem nos indefiníveis intervalos em que a morte de súbito se extingue e um rosto intacto se entremostra. Há uma limpidez exacta e uma vivacidade mate nos murmúrios e nas cenas, nas sombras e surpresas. Então, num impulso de atenção outra, cega e vidente, a mão levanta-se e compreende o intenso e inenarrável momento de aliança completa entre o corpo e a terra, entre as sombras e a claridade.
1 041
António Ramos Rosa
Entre o Sol E a Lua
procura-se um segredo solar
atrás de cadeiras empoeiradas. um perfume arcaico.
uma sabedoria de portas circunstanciais.
sobre a mesa uma crusta
nova. a lâmpada e a elipse.
a chama de uma frase negra.
há vibrações quase imperceptíveis.
uma laranja sobre uma cadeira.
os anéis incessantes em torno das cinturas.
a noite emite os seus signos.
uma música de lua e de silêncio
multiplica-se na seda dos espelhos.
os ventos são azuis sobre a beleza
incerta. as palavras vão
do esplendor à música.
uma porta lunar abriu-se
sobre um quarto. na mesa está a chave
de todas as imagens esquecidas.
atrás de cadeiras empoeiradas. um perfume arcaico.
uma sabedoria de portas circunstanciais.
sobre a mesa uma crusta
nova. a lâmpada e a elipse.
a chama de uma frase negra.
há vibrações quase imperceptíveis.
uma laranja sobre uma cadeira.
os anéis incessantes em torno das cinturas.
a noite emite os seus signos.
uma música de lua e de silêncio
multiplica-se na seda dos espelhos.
os ventos são azuis sobre a beleza
incerta. as palavras vão
do esplendor à música.
uma porta lunar abriu-se
sobre um quarto. na mesa está a chave
de todas as imagens esquecidas.
1 051
António Ramos Rosa
O Desejo a Surpresa
O desejo A surpresa
Ou a maravilha
Não pela igual imagem
mas destroçando-a
Resíduos só ou a passagem dos sinais
que dizem a passagem
do que será
se for o contacto imprevisível
do obscuro
inacessível corpo em outro corpo vivo
Ou a maravilha
Não pela igual imagem
mas destroçando-a
Resíduos só ou a passagem dos sinais
que dizem a passagem
do que será
se for o contacto imprevisível
do obscuro
inacessível corpo em outro corpo vivo
1 058
António Ramos Rosa
A Metamorfose Branca
Por toda a parte
um corpo
o mesmo corpo
Para mutilar
Para eliminar
Por toda a parte
a anarquia do canto
dos nervos
da escrita
do único corpo?
O universo escreve-se no corpo
Tudo se escreve no corpo
A mulher o animal a noite intacta
a morte
a ferida permanente
(A mão fora do abismo tenta escrever ainda mas quê? Com que instrumento subtil paciente impaciente? Com que matéria? Em que rectângulo do ar recortado no vazio?)
Tudo desaparece
A nitidez da letra
apaga-se
no papel
Uma palavra subsiste uma marca
no corpo
no texto
A marca do corpo desfaz
o texto
que se apaga
e arde
de letra em letra
de ferida em ferida
Cruel nudez do texto e do corpo
do corpo perdido
fixo
na letra do texto
que o devora
que o desnuda
anula
O texto apaga-se
e acende-se
no limite
metamorfose da morte do corpo
vida do corpo impossível
em cada letra flui o sangue novo
da palavra do corpo
Uma ferida só uma longa ferida
de terra
vocábulo de sangue e pedra
………………………………………………
Este é o espaço mortal do corpo
Este é o corpo nascente e branco do vocábulo
Esta é a respiração da página
Constelações navios promessas
Sangue da metamorfose da palavra
No limiar do deserto as palavras de fogo branco são a cinza de um fogo perdido de um fogo a acender com a respiração do deserto ou do mar.
As palavras encrespam-se acendem-se ao vento que as despe e as despoja avivando com o ar vivo do sal e da areia a rosa de um dizer que nasce da incessante solidão da sua sede.
Os vocábulos são como um rumor de cavalos
adormecidos
e a sua brancura é vida
através da morte e do branco
Cada caminho de palavras na página
conduz-nos
a uma pedra
Esta pedra é a do sepulcro ou o sinal de um perpétuo adiamento
uma espera indefinida sem esperança
sinal de suspensão
que se anula
para que o caminho prossiga
de novo
as palavras vivem solitárias
o sal o vento e o sol despertam
uma boca ressequida e verde uma boca lenta longínqua de ócio fresco
Vivem as palavras
do suicídio da brancura
renascem brancas
espuma breve
de que pureza mortal
para que sede sempre insatisfeita
de um início de água
de uma linguagem de água
(A morte das palavras na página será a metamorfose que não foge à morte a vida a outra vida que seria o início sempre possível e impossível do nosso nascimento.)
Mas que palavras dirão a morte impossível inominável? Que morte é a morte da linguagem e do corpo? Simulacro aparência espectáculo fumo de palavras sem sangue e sem corpo
infinita e ridícula hemorragia em torno de um ponto
morto que nada reflecte nem o eco sequer de qualquer vida. Por momentos e num espaço que logo se olvida a palavra morre com a morte sem a morte irrecuperável soberana
o hiato aqui é inenarrável
A linguagem renascerá além na margem fria da manhã
A linguagem será o corpo o corpo nu(lo)
O corpo de metamorfose é o corpo que já não pertence à vida nem à morte tornou-se na linguagem obscura e branca de cada vocábulo fechado e aberto como uma ferida. Quem fala é a língua desta morte-vida aqui e para além sempre no limiar do inacessível. Milhares de pálpebras se fecham sob cada palavra que se levanta e o silêncio desses olhos perturba a palavra, torna-a ilegível na sua legibilidade
O vocábulo não é plano e liso Nos seus subterrâneos milhares de vozes se calaram para que o vocábulo emergisse como a palavra da metamorfose no limiar do nada
Na sua impossibilidade esta é a única voz que atravessa o inexorável a voz paciente e sôfrega ardente e impaciente a voz que espera sem esperança
um corpo
o mesmo corpo
Para mutilar
Para eliminar
Por toda a parte
a anarquia do canto
dos nervos
da escrita
do único corpo?
O universo escreve-se no corpo
Tudo se escreve no corpo
A mulher o animal a noite intacta
a morte
a ferida permanente
(A mão fora do abismo tenta escrever ainda mas quê? Com que instrumento subtil paciente impaciente? Com que matéria? Em que rectângulo do ar recortado no vazio?)
Tudo desaparece
A nitidez da letra
apaga-se
no papel
Uma palavra subsiste uma marca
no corpo
no texto
A marca do corpo desfaz
o texto
que se apaga
e arde
de letra em letra
de ferida em ferida
Cruel nudez do texto e do corpo
do corpo perdido
fixo
na letra do texto
que o devora
que o desnuda
anula
O texto apaga-se
e acende-se
no limite
metamorfose da morte do corpo
vida do corpo impossível
em cada letra flui o sangue novo
da palavra do corpo
Uma ferida só uma longa ferida
de terra
vocábulo de sangue e pedra
………………………………………………
Este é o espaço mortal do corpo
Este é o corpo nascente e branco do vocábulo
Esta é a respiração da página
Constelações navios promessas
Sangue da metamorfose da palavra
No limiar do deserto as palavras de fogo branco são a cinza de um fogo perdido de um fogo a acender com a respiração do deserto ou do mar.
As palavras encrespam-se acendem-se ao vento que as despe e as despoja avivando com o ar vivo do sal e da areia a rosa de um dizer que nasce da incessante solidão da sua sede.
Os vocábulos são como um rumor de cavalos
adormecidos
e a sua brancura é vida
através da morte e do branco
Cada caminho de palavras na página
conduz-nos
a uma pedra
Esta pedra é a do sepulcro ou o sinal de um perpétuo adiamento
uma espera indefinida sem esperança
sinal de suspensão
que se anula
para que o caminho prossiga
de novo
as palavras vivem solitárias
o sal o vento e o sol despertam
uma boca ressequida e verde uma boca lenta longínqua de ócio fresco
Vivem as palavras
do suicídio da brancura
renascem brancas
espuma breve
de que pureza mortal
para que sede sempre insatisfeita
de um início de água
de uma linguagem de água
(A morte das palavras na página será a metamorfose que não foge à morte a vida a outra vida que seria o início sempre possível e impossível do nosso nascimento.)
Mas que palavras dirão a morte impossível inominável? Que morte é a morte da linguagem e do corpo? Simulacro aparência espectáculo fumo de palavras sem sangue e sem corpo
infinita e ridícula hemorragia em torno de um ponto
morto que nada reflecte nem o eco sequer de qualquer vida. Por momentos e num espaço que logo se olvida a palavra morre com a morte sem a morte irrecuperável soberana
o hiato aqui é inenarrável
A linguagem renascerá além na margem fria da manhã
A linguagem será o corpo o corpo nu(lo)
O corpo de metamorfose é o corpo que já não pertence à vida nem à morte tornou-se na linguagem obscura e branca de cada vocábulo fechado e aberto como uma ferida. Quem fala é a língua desta morte-vida aqui e para além sempre no limiar do inacessível. Milhares de pálpebras se fecham sob cada palavra que se levanta e o silêncio desses olhos perturba a palavra, torna-a ilegível na sua legibilidade
O vocábulo não é plano e liso Nos seus subterrâneos milhares de vozes se calaram para que o vocábulo emergisse como a palavra da metamorfose no limiar do nada
Na sua impossibilidade esta é a única voz que atravessa o inexorável a voz paciente e sôfrega ardente e impaciente a voz que espera sem esperança
1 045
António Ramos Rosa
O Rosto Sob As Águas
as intempéries talharam este rosto.
de chama. calcinada.
o seu silêncio é um latido do tempo.
por vezes é uma forma que cintila.
um talismã. e um desejo de
um fundo inesgotável.
por vezes vemo-lo branco. a vertigem
faz-nos desfolhar as páginas.
e ele irrompe como uma água surda.
é uma cabeça de terra. de árvore e pedra.
a sua ironia tem o sabor das estações.
por ele passaram já todas as águas.
pela água límpida a nitidez aviva-se
e é a matriz de todos os nomes que cintila.
de chama. calcinada.
o seu silêncio é um latido do tempo.
por vezes é uma forma que cintila.
um talismã. e um desejo de
um fundo inesgotável.
por vezes vemo-lo branco. a vertigem
faz-nos desfolhar as páginas.
e ele irrompe como uma água surda.
é uma cabeça de terra. de árvore e pedra.
a sua ironia tem o sabor das estações.
por ele passaram já todas as águas.
pela água límpida a nitidez aviva-se
e é a matriz de todos os nomes que cintila.
780
António Ramos Rosa
O Deus Dos Teus Dedos
Repara, o teu deus não é mais que o deus dos teus dedos, o silêncio da tua mão nua.
A impossível brancura.
Tu caminhas e segredas.
O que desejas, para passar a noite, é encontrar um pobre caminho de cabras, uma vereda de pedras solitária.
Tu persistes e insistes, como se a distância se abrisse luminosa e ao mesmo tempo fosse a secreta sombra dos vocábulos.
O que te separa das mãos e dos ombros, o que mais te dói sem o saberes, é a separação da ferida que a palavra abre e renova em cada sílaba.
O murmúrio do branco combina-se com o murmúrio da sombra e assim se forma uma penumbra das mãos, esse silencioso vagar do silêncio do sol.
Mas há uma urgência do grito que é urgência da vida. Tudo se constrói em torno da ferida.
A tua mão corre à procura da mão que se forma, a mão viva que é mais do que uma chave e do que uma porta.
Tudo o que escreves nasce do campo móvel e branco da página. É essa a tua morte, o secreto vazio que desnuda, que deixa a ferida aberta em cada sílaba.
Se uma boca ou uma mão se desenha neste rectângulo de água, és tu e eu que se tocam, se interpenetram e mutuamente se dessedentam.
Todo o encontro é a dicção de um silêncio.
A impossível brancura.
Tu caminhas e segredas.
O que desejas, para passar a noite, é encontrar um pobre caminho de cabras, uma vereda de pedras solitária.
Tu persistes e insistes, como se a distância se abrisse luminosa e ao mesmo tempo fosse a secreta sombra dos vocábulos.
O que te separa das mãos e dos ombros, o que mais te dói sem o saberes, é a separação da ferida que a palavra abre e renova em cada sílaba.
O murmúrio do branco combina-se com o murmúrio da sombra e assim se forma uma penumbra das mãos, esse silencioso vagar do silêncio do sol.
Mas há uma urgência do grito que é urgência da vida. Tudo se constrói em torno da ferida.
A tua mão corre à procura da mão que se forma, a mão viva que é mais do que uma chave e do que uma porta.
Tudo o que escreves nasce do campo móvel e branco da página. É essa a tua morte, o secreto vazio que desnuda, que deixa a ferida aberta em cada sílaba.
Se uma boca ou uma mão se desenha neste rectângulo de água, és tu e eu que se tocam, se interpenetram e mutuamente se dessedentam.
Todo o encontro é a dicção de um silêncio.
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