Poemas neste tema
Alma
António Ramos Rosa
Linhas E Cores
Klee
Por umas escadas toscas, infantis, leves, subo à janela do velho que espreita para a rua. Uma aranha tece a claridade do vento. A janela solta evapora-se. Leves, leves, as escadas apoiam-se numa parede de ar.
Klee
No silêncio da caixa de vidro, o silêncio do ar e da luz, o ponto que se desvanece, a imobilidade do pássaro. A linha caminha, macia, firme. O homem caminha na linha, no meio da luz e do silêncio. Ao fim da linha há o espaço da página branca. Não há ponte e o sorriso do homem tremula ao vento como um fio.
Bissière
Dos quadradinhos coloridos, de breves trémulos riscos — exalava-se o cheiro do pão de outrora, uma parede de moinho, uma roda imóvel, um beijo no sol, a terra e a mão do menino.
Por umas escadas toscas, infantis, leves, subo à janela do velho que espreita para a rua. Uma aranha tece a claridade do vento. A janela solta evapora-se. Leves, leves, as escadas apoiam-se numa parede de ar.
Klee
No silêncio da caixa de vidro, o silêncio do ar e da luz, o ponto que se desvanece, a imobilidade do pássaro. A linha caminha, macia, firme. O homem caminha na linha, no meio da luz e do silêncio. Ao fim da linha há o espaço da página branca. Não há ponte e o sorriso do homem tremula ao vento como um fio.
Bissière
Dos quadradinhos coloridos, de breves trémulos riscos — exalava-se o cheiro do pão de outrora, uma parede de moinho, uma roda imóvel, um beijo no sol, a terra e a mão do menino.
1 091
António Ramos Rosa
Entre Hoje E Amanhã
Somos quantos? Uns e outros
construímos signos nos ventos
As nossas casas comunicam ao nível dos alicerces
A imaginação tem raízes nas mãos
A alegria que por vezes nasce como uma lufada
conhece todas as ranhuras do muro
Os nossos sonhos brilham nas valetas
construímos signos nos ventos
As nossas casas comunicam ao nível dos alicerces
A imaginação tem raízes nas mãos
A alegria que por vezes nasce como uma lufada
conhece todas as ranhuras do muro
Os nossos sonhos brilham nas valetas
961
António Ramos Rosa
A Lâmpada
As palavras em chamas queimam veias e árvores,
lâmpadas em turbilhão fluem nas calçadas
entre pernas vermelhas e caixotes e cães.
Corro sobre o mar, esta palavra lâmpada
aquece-me por dentro, é um ovo de esperança,
corro, corro à espera de nascer no meu povo.
*
Quem dirá o contorno, o colo que se debruça
na imóvel finura dum punho silencioso
o fruto vigilante e submerso seio?
*
No silêncio da mesa sobre a lisa
dureza
ela é a inundação sem tempo e a presença
da origem e alta dignidade humana.
*
Ó lâmpada, exemplo de poema,
quando aprenderemos a tua dócil sombra
e as tuas sílabas em que o silêncio ama?
*
A esperança é vigilante em tua luz.
A luz é vigilante em tua esperança.
lâmpadas em turbilhão fluem nas calçadas
entre pernas vermelhas e caixotes e cães.
Corro sobre o mar, esta palavra lâmpada
aquece-me por dentro, é um ovo de esperança,
corro, corro à espera de nascer no meu povo.
*
Quem dirá o contorno, o colo que se debruça
na imóvel finura dum punho silencioso
o fruto vigilante e submerso seio?
*
No silêncio da mesa sobre a lisa
dureza
ela é a inundação sem tempo e a presença
da origem e alta dignidade humana.
*
Ó lâmpada, exemplo de poema,
quando aprenderemos a tua dócil sombra
e as tuas sílabas em que o silêncio ama?
*
A esperança é vigilante em tua luz.
A luz é vigilante em tua esperança.
1 133
António Ramos Rosa
O Nascimento do Poema
O poema que surge
da vontade de ser
o ar sobre o fogo
a silenciosa casa
É ar novo nos olhos
é o espaço do dia
Tu ouves: não existe
Tu queres e continua
Nada é que tu oiças
Nem está lá dentro
Uma folha tão nova
tão verde imaginas
Nada é que esperes
e anseias que seja
porque queres viver
o sol que desejas
*
O sol é tão longe
e é toda a tua vida
o sol que tu negas
a terra inteira
E tu já foste
tua mão perdeu-se
ele intacto vive
*
Ele existe mas como
como o alcançar e ver
como ser a clareira
dardo e espiga viva
Tão alto e inteiro se eleva
tão só e pleno e próximo
Como um muro de fé
alheio à tua vida?
*
De nada apenas surge
e que avenidas rasga
que dia se desenha?
tudo é intacto e nu
Navio que a tua mão
conduz circularmente
é ele que te conduz
a si mesmo
*
Espero que ele me invente
onde e aqui eu estou
de novo a respirar
a folha imaginada
exacta e verde e viva
Esta aventura vale?
Não podes desistir
dizer que nada vale
se o nada mesmo enfrentas
Esse nada que ele é
se tu mesmo não forças
se tu mesmo não queres
ser nada para ele
*
Nada nada eu quero
para ele surgir
dele mesmo em mim
tão evidente e nu
como tudo o que vejo
*
Escrevo para ouvi-lo
e vê-lo desenhar-se
justificar-se abrir-se
como eu próprio sou
só onde ele se ergue
Não acredito nele
antes de surgir
Nunca sei que vai ser
nem quando é se é
nunca sei ele sabe
e eu só sei quando inteiro
ele passou antes de mim
*
Esse rosto exacto
que incompleto vive
essa certeza nova
nos próprios passos viva
essa esperança louca
que de si mesma vive
e a sombra que tu és
feliz porque tu brilhas
onde ele mesmo é
*
Irás onde ele te espera
Serás o que ele diz
Sabes a sua força
E tremes de alegria
Quem sabe alguma vez
de tanto o procurares
verás que nada és
senão a voz que passa
*
Sem ele nada vale
e não suportas ser
a repetida igual
e contínua passagem
Por ele nada é certo
a não ser ele mesmo
no momento em que surge
negando-te inteiro
*
Por isso desesperas
tão diferente é
do dia que tu vives
e tão súbito igual
a tudo o que vais sendo
e em que brilha ao passar
*
Quiseste que ele fosse
Desejaste-o evidente
Ele aí está tremendo
na sua audácia nova
de ser tão ser em si
a verde folha viva
que tu vês e respiras
da vontade de ser
o ar sobre o fogo
a silenciosa casa
É ar novo nos olhos
é o espaço do dia
Tu ouves: não existe
Tu queres e continua
Nada é que tu oiças
Nem está lá dentro
Uma folha tão nova
tão verde imaginas
Nada é que esperes
e anseias que seja
porque queres viver
o sol que desejas
*
O sol é tão longe
e é toda a tua vida
o sol que tu negas
a terra inteira
E tu já foste
tua mão perdeu-se
ele intacto vive
*
Ele existe mas como
como o alcançar e ver
como ser a clareira
dardo e espiga viva
Tão alto e inteiro se eleva
tão só e pleno e próximo
Como um muro de fé
alheio à tua vida?
*
De nada apenas surge
e que avenidas rasga
que dia se desenha?
tudo é intacto e nu
Navio que a tua mão
conduz circularmente
é ele que te conduz
a si mesmo
*
Espero que ele me invente
onde e aqui eu estou
de novo a respirar
a folha imaginada
exacta e verde e viva
Esta aventura vale?
Não podes desistir
dizer que nada vale
se o nada mesmo enfrentas
Esse nada que ele é
se tu mesmo não forças
se tu mesmo não queres
ser nada para ele
*
Nada nada eu quero
para ele surgir
dele mesmo em mim
tão evidente e nu
como tudo o que vejo
*
Escrevo para ouvi-lo
e vê-lo desenhar-se
justificar-se abrir-se
como eu próprio sou
só onde ele se ergue
Não acredito nele
antes de surgir
Nunca sei que vai ser
nem quando é se é
nunca sei ele sabe
e eu só sei quando inteiro
ele passou antes de mim
*
Esse rosto exacto
que incompleto vive
essa certeza nova
nos próprios passos viva
essa esperança louca
que de si mesma vive
e a sombra que tu és
feliz porque tu brilhas
onde ele mesmo é
*
Irás onde ele te espera
Serás o que ele diz
Sabes a sua força
E tremes de alegria
Quem sabe alguma vez
de tanto o procurares
verás que nada és
senão a voz que passa
*
Sem ele nada vale
e não suportas ser
a repetida igual
e contínua passagem
Por ele nada é certo
a não ser ele mesmo
no momento em que surge
negando-te inteiro
*
Por isso desesperas
tão diferente é
do dia que tu vives
e tão súbito igual
a tudo o que vais sendo
e em que brilha ao passar
*
Quiseste que ele fosse
Desejaste-o evidente
Ele aí está tremendo
na sua audácia nova
de ser tão ser em si
a verde folha viva
que tu vês e respiras
1 132
António Ramos Rosa
O Único Sabor
a Manuel Pinto
Sabor, sabor oculto,
submerso,
sabor adormecido, ó rosas, ó antes, primaveras,
sabor só abruptamente surto
na queda do sono, no fulgor dum relâmpago,
surto, submerso,
ó sabor antes da consciência, antes de tudo,
ó sabor só nascido sobre a paz última de tudo para além de tudo,
sabor da terra ainda antes dos olhos,
sabor a nascer, sabor-desejo, antes do beijo, sabor de beijo,
sabor mais lento, mais fundo, mais de dentro,
sabor a marulhar, cálido, denso, como a cor,
sabor de estar, sabor de ser,
ó tranquila degustação sem mandíbulas,
sabor de dentro como de um cheiro imemorial presente,
ó colinas esparsas, ó veios de águas sussurrantes,
somente ouvidos, nem sequer ouvidos, mas presentes, esparsos,
ó presença da terra nas pálpebras, num sabor acre da garganta,
ó estrelas, ó verdadeiras estrelas da infância,
ó sabor do escuro, do ventre, da espessura da noite,
ó profundo sono de raízes,
ó água bebida ao rés da terra, ó sono da vida,
ó som de bichos, de tudo e nada, num só obscuro silêncio,
ó terra junto a mim, ó grande e estranha terra,
ó perdida proximidade, ó perdida longinquidade,
ó enorme som de búzio do mar,
ó tranquilos jardins, ó sabor de cansaço,
ó sabor antes de mim,
ó quando eu não sabia e tudo em mim sabia,
ó noite, ó espessura, ó outra vez a noite,
outra vez esse sabor submerso, esse sabor do fundo,
esse sabor bem longe, esse sabor total,
esse sabor onde eu sinto a terra num só gosto,
esse sabor original, fonte de todo o sabor,
surto submerso,
ó único sabor.
Sabor, sabor oculto,
submerso,
sabor adormecido, ó rosas, ó antes, primaveras,
sabor só abruptamente surto
na queda do sono, no fulgor dum relâmpago,
surto, submerso,
ó sabor antes da consciência, antes de tudo,
ó sabor só nascido sobre a paz última de tudo para além de tudo,
sabor da terra ainda antes dos olhos,
sabor a nascer, sabor-desejo, antes do beijo, sabor de beijo,
sabor mais lento, mais fundo, mais de dentro,
sabor a marulhar, cálido, denso, como a cor,
sabor de estar, sabor de ser,
ó tranquila degustação sem mandíbulas,
sabor de dentro como de um cheiro imemorial presente,
ó colinas esparsas, ó veios de águas sussurrantes,
somente ouvidos, nem sequer ouvidos, mas presentes, esparsos,
ó presença da terra nas pálpebras, num sabor acre da garganta,
ó estrelas, ó verdadeiras estrelas da infância,
ó sabor do escuro, do ventre, da espessura da noite,
ó profundo sono de raízes,
ó água bebida ao rés da terra, ó sono da vida,
ó som de bichos, de tudo e nada, num só obscuro silêncio,
ó terra junto a mim, ó grande e estranha terra,
ó perdida proximidade, ó perdida longinquidade,
ó enorme som de búzio do mar,
ó tranquilos jardins, ó sabor de cansaço,
ó sabor antes de mim,
ó quando eu não sabia e tudo em mim sabia,
ó noite, ó espessura, ó outra vez a noite,
outra vez esse sabor submerso, esse sabor do fundo,
esse sabor bem longe, esse sabor total,
esse sabor onde eu sinto a terra num só gosto,
esse sabor original, fonte de todo o sabor,
surto submerso,
ó único sabor.
1 216
António Ramos Rosa
Um Dia Perfeito. Um Ombro…
Um dia perfeito
Um ombro
E treme a flor
Nenhum vento
nos objectos leves
Apenas
a reticência duns cílios
*
Ó rosa imóvel
a lâmpada dum seio
Ó tenebrosa e clara
suavidade
de mulher
*
O quarto sem espelho
Um jardim só de nome
Pousam os objectos
na mesa sem cuidados
Tudo está consumido
Ó glória dum insecto
silencioso no quarto
*
Impenetrável nome
a meio do livro aberto
A noite é uma presença
sem perfil flutuante
Mas o dia ordenou-se
na fímbria duma rosa
Bola de escaravelho
*
Claro e sem destino
se perfaz este dia
arrumado em silêncios
e sombras sombras leves
Um ombro
E treme a flor
Nenhum vento
nos objectos leves
Apenas
a reticência duns cílios
*
Ó rosa imóvel
a lâmpada dum seio
Ó tenebrosa e clara
suavidade
de mulher
*
O quarto sem espelho
Um jardim só de nome
Pousam os objectos
na mesa sem cuidados
Tudo está consumido
Ó glória dum insecto
silencioso no quarto
*
Impenetrável nome
a meio do livro aberto
A noite é uma presença
sem perfil flutuante
Mas o dia ordenou-se
na fímbria duma rosa
Bola de escaravelho
*
Claro e sem destino
se perfaz este dia
arrumado em silêncios
e sombras sombras leves
1 061
António Ramos Rosa
Voz Inicial
Quem sou já não interessa
se o disse na certeza
que começa outro ser
se o disse na certeza
que começa outro ser
699
António Ramos Rosa
Onde Ainda É Possível
A maravilha, onde a maravilha já perfeitamente deposta, na memória árida, onde luziu ela? Não luz agora nas faces agrestes, no testemunho voluntarioso das fés das parangonas. Não luz na solidão nem na amizade, não luz já no amor nem na poesia. A maravilha, nem na pobreza nem no chão nem na aridez nem na esperança. Um vazio se abre, e é vazio, um branco... aí respiras... aí onde ainda é vazio, onde ainda é pobreza, onde ainda é possível.
*
Não cantes vitorioso nem a galope: deixa as palavras virem ao nível do seu vagaroso peso, do seu chão de água. Planas, não cantarão. Não dirão a segurança de uma esperança invejosa e dura. Caídas, quase neutras, um vento de pobreza as percorre, pobre mistério da sua existência, da sua breve espessura trémula.
*
Não cantes vitorioso nem a galope: deixa as palavras virem ao nível do seu vagaroso peso, do seu chão de água. Planas, não cantarão. Não dirão a segurança de uma esperança invejosa e dura. Caídas, quase neutras, um vento de pobreza as percorre, pobre mistério da sua existência, da sua breve espessura trémula.
1 213
António Ramos Rosa
A Palavra
A que mais se prolonga
termina e continua
A que abre um espaço e dança
a que quebra e é uma
e só lisa espada
Ó palavra que duras
no teu ar e nas pedras
brilhas só quando passas
respiras continuas
ó palavra sem mais
termina e continua
A que abre um espaço e dança
a que quebra e é uma
e só lisa espada
Ó palavra que duras
no teu ar e nas pedras
brilhas só quando passas
respiras continuas
ó palavra sem mais
1 020
António Ramos Rosa
Sobre o Rosto da Terra
a Maria Alberta Menéres
e E.M. de Melo e Castro
Sobe da nossa condição uma vontade de brancura. Até ao interior das casas, até à evidência dos rostos. A brancura iguala a liberdade do dia ao ascendermos à planura onde se respira de pé, rosto a rosto, na facilidade do vento.
*
Entre fios luminosos, rasteiros. Perpassa o vento baixo (o solo tem essa rugosidade amorosa que o dedo declina). As narinas respiram a paz na memória longínqua dum galo, fonte de eternidade. Estar, estar assim sobre o rosto da terra.
*
As evidências comovem-se. No acompanhamento do mar, animados pelo sussurro unânime. Os poucos que somos constelamo-nos estrela do mar. Em cada bico geramos um irmão futuro que canta a nossa liberdade.
*
De um quarto quente, corremos a uma varanda, uma praia ou uma janela. O mar visita-nos mesmo no espelho. Ao crepúsculo, um sangue alaranjado aflui ao rosto das casas. Depois do mar, sulcamos a terra, a caminho da noite, viajamos na brisa, na fugitiva liberdade dos nossos sonhos.
*
Escolho a vaga breve, a súbita, que emerge na planura fatigante. A aridez da luz irisa os arabescos móveis. Estendo a rede de sombra, onde os sonhos afluem. O breve tempo de construir a casa de vento onde circula a paz viva entre clareiras de espaço e corpos libertos.
*
Semeamos no mar os grãos da sede. O seu bafo transporta-nos a uma frescura milenária. O mar devasta-nos as ruínas, os muros, as construções míopes. Regressamos a uma idade nova onde as habitações não ignoram a pureza dos joelhos.
*
Há um caminho que te conduz até ao sono, ao nível do mar.
*
Regresso a um tempo de insecto. Este ar de montanha — o meu quarto, como a vida surda dum planeta. Aos meus ouvidos, a planície propaga-se de planície em planície, num silêncio de página.
*
Fresca amargura, fruto de erva. Terra indecisa, terra de nuvem.
*
De cada lado do caminho, o acompanhamento do branco. O cotovelo do muro.
*
Muro de ataque
resto para viver
deflagração seca
*
Garganta na terra. Mãos rasas na extensão do vento, livre na pele, coágulo, raiz do tempo.
*
Sobre a pedra de ferro, reunido na espessura de osso, refrescado pelas ervas, tão flexíveis, acordo com o rosto de ar.
*
Olho nascente à beira do chão, húmido de penugens, de uma pureza de dedo, de um sono lúcido sobre o solo, numa manhã de claridade ao rés de tudo.
*
Saio da sombra à ardência do vento. Uma lâmpada se acende na planura oscilante.
*
Cabeça de lâmpada, punho reflexo. Olhos de água abertos, atravessa a cidade derrotada, a caminho do dia de água. Um homem de ervas, com uma arma de pedra, dá-me o bom dia da flor do vento.
*
Sou filho do primeiro dia que vem, da primeira hora sem memória. O pão branco da manhã da terra, ei-lo coração, língua do presente salvo na tua mão.
*
Percorro esse braço de sofrimento, esse promontório sulcado. As flores espalmadas de sangue, a incisão das unhas, os sulcos das algemas. Terra de memória abrupta, veias subterrâneas, acesas.
*
Neste deserto de lua, sem fronteiras, na unidade do vento. Uma palavra renova-se da margem de um ouvido a outro, ó memória nova.
*
O muro basta-me para conter a sede. A terra dá-me a certeza da sua vontade, o seu pão de pedras. A fronte recebe o vento. Vivo devorado de espaço, aberto à luz, como um tronco a que uma cabeça assoma, voltada ao horizonte.
*
Bebi a cor do mar e regressei às ervas, ao espelho dos muros. Deitei-me na terra, todas as sílabas eram de ar, o vento tecia a seda de uma pausa livre.
*
Dureza de estrada, paciência de um caminhar sem árvores, voluntário de passo a passo. Nenhum rosto. A luz inclina-se até se debruçar sobre os montículos de terra. Neste silêncio raso a terra não respira.
*
O ar tremula seco sobre as barreiras. Caminho em direcção às pedras. Um tronco rugoso como uma paragem no silêncio.
*
Da superfície emerge a cabeça duma lâmpada, a casca dum fruto. A fenda do muro mostra a terra que se esboroa. O vento passa como uma pá.
*
A terra fresca humedecendo a pedra, o campo abandonado onde o ar se suspende e seca contra o muro.
e E.M. de Melo e Castro
Sobe da nossa condição uma vontade de brancura. Até ao interior das casas, até à evidência dos rostos. A brancura iguala a liberdade do dia ao ascendermos à planura onde se respira de pé, rosto a rosto, na facilidade do vento.
*
Entre fios luminosos, rasteiros. Perpassa o vento baixo (o solo tem essa rugosidade amorosa que o dedo declina). As narinas respiram a paz na memória longínqua dum galo, fonte de eternidade. Estar, estar assim sobre o rosto da terra.
*
As evidências comovem-se. No acompanhamento do mar, animados pelo sussurro unânime. Os poucos que somos constelamo-nos estrela do mar. Em cada bico geramos um irmão futuro que canta a nossa liberdade.
*
De um quarto quente, corremos a uma varanda, uma praia ou uma janela. O mar visita-nos mesmo no espelho. Ao crepúsculo, um sangue alaranjado aflui ao rosto das casas. Depois do mar, sulcamos a terra, a caminho da noite, viajamos na brisa, na fugitiva liberdade dos nossos sonhos.
*
Escolho a vaga breve, a súbita, que emerge na planura fatigante. A aridez da luz irisa os arabescos móveis. Estendo a rede de sombra, onde os sonhos afluem. O breve tempo de construir a casa de vento onde circula a paz viva entre clareiras de espaço e corpos libertos.
*
Semeamos no mar os grãos da sede. O seu bafo transporta-nos a uma frescura milenária. O mar devasta-nos as ruínas, os muros, as construções míopes. Regressamos a uma idade nova onde as habitações não ignoram a pureza dos joelhos.
*
Há um caminho que te conduz até ao sono, ao nível do mar.
*
Regresso a um tempo de insecto. Este ar de montanha — o meu quarto, como a vida surda dum planeta. Aos meus ouvidos, a planície propaga-se de planície em planície, num silêncio de página.
*
Fresca amargura, fruto de erva. Terra indecisa, terra de nuvem.
*
De cada lado do caminho, o acompanhamento do branco. O cotovelo do muro.
*
Muro de ataque
resto para viver
deflagração seca
*
Garganta na terra. Mãos rasas na extensão do vento, livre na pele, coágulo, raiz do tempo.
*
Sobre a pedra de ferro, reunido na espessura de osso, refrescado pelas ervas, tão flexíveis, acordo com o rosto de ar.
*
Olho nascente à beira do chão, húmido de penugens, de uma pureza de dedo, de um sono lúcido sobre o solo, numa manhã de claridade ao rés de tudo.
*
Saio da sombra à ardência do vento. Uma lâmpada se acende na planura oscilante.
*
Cabeça de lâmpada, punho reflexo. Olhos de água abertos, atravessa a cidade derrotada, a caminho do dia de água. Um homem de ervas, com uma arma de pedra, dá-me o bom dia da flor do vento.
*
Sou filho do primeiro dia que vem, da primeira hora sem memória. O pão branco da manhã da terra, ei-lo coração, língua do presente salvo na tua mão.
*
Percorro esse braço de sofrimento, esse promontório sulcado. As flores espalmadas de sangue, a incisão das unhas, os sulcos das algemas. Terra de memória abrupta, veias subterrâneas, acesas.
*
Neste deserto de lua, sem fronteiras, na unidade do vento. Uma palavra renova-se da margem de um ouvido a outro, ó memória nova.
*
O muro basta-me para conter a sede. A terra dá-me a certeza da sua vontade, o seu pão de pedras. A fronte recebe o vento. Vivo devorado de espaço, aberto à luz, como um tronco a que uma cabeça assoma, voltada ao horizonte.
*
Bebi a cor do mar e regressei às ervas, ao espelho dos muros. Deitei-me na terra, todas as sílabas eram de ar, o vento tecia a seda de uma pausa livre.
*
Dureza de estrada, paciência de um caminhar sem árvores, voluntário de passo a passo. Nenhum rosto. A luz inclina-se até se debruçar sobre os montículos de terra. Neste silêncio raso a terra não respira.
*
O ar tremula seco sobre as barreiras. Caminho em direcção às pedras. Um tronco rugoso como uma paragem no silêncio.
*
Da superfície emerge a cabeça duma lâmpada, a casca dum fruto. A fenda do muro mostra a terra que se esboroa. O vento passa como uma pá.
*
A terra fresca humedecendo a pedra, o campo abandonado onde o ar se suspende e seca contra o muro.
1 326
António Ramos Rosa
No Vagar da Terra
Serão nossos os nomes nesta pausa,
mas ela é a própria luz do campo que persiste
com sua seiva concentrada em nós tranquilos,
a madeira em que silêncio e força se conjugam
para a dicção diurna das fragrâncias visíveis.
mas ela é a própria luz do campo que persiste
com sua seiva concentrada em nós tranquilos,
a madeira em que silêncio e força se conjugam
para a dicção diurna das fragrâncias visíveis.
1 005
António Ramos Rosa
Terra Dos Silêncios Grandes
Terra dos silêncios grandes
e numerosos quartos
livros e homens dormem
e prolongam-se os arcos
nas memórias e nos sonhos
pastam cavalos nas
nuvens rente ao horizonte
cantam mulheres na branca
tranquilidade do mundo
e nos espelhos velhos
corpos novos resplendem
e numerosos quartos
livros e homens dormem
e prolongam-se os arcos
nas memórias e nos sonhos
pastam cavalos nas
nuvens rente ao horizonte
cantam mulheres na branca
tranquilidade do mundo
e nos espelhos velhos
corpos novos resplendem
1 162
António Ramos Rosa
A Voz do Pulso
a Vergílio Ferreira
Se eu penso que é um crime
a luz clara nasce
deste não que suspendo
Não saber até onde
e claramente abrir
o começo tão certo
deste pulso que afirmo
*
A noite me confunde
e nela retempero
a flor que não distingo
de um destino sem olhos
*
Mas o dia de sol
a prumo
fere meus dedos
na página deserta
*
A música começa
no deserto do não
(no túmulo do quarto
as sílabas são mudas)
O delírio é só um
e a esperança é arriscar-se
nesta pedra de som
*
Eu me abro eu me levanto
à janela à mesa ao dia
Sou esse outro que anda
com um destino aos ventos
entre claras lâmpadas
O homem que aconteço
casualmente certo
e se afirma no dia
na igualdade pura
(Ó deserto tão simples)
*
Música alheia minha
Afirmação dos outros
Ao lado deles vou
Tenho um espelho no quarto
O dia é alto quando
na mesa nada espera
que não seja poesia
*
É verdade o que digo
Com a justa rapidez
Breve dureza
a luz
que abre o espaço tão certo
de cada um
a cada um
*
É uma rosa que surge
na mesa a contemplar
É uma forma onde
um mar pequeno sonha
onde recomeçar
a maravilha simples
*
A voz que subsiste
mas só nasce inesperada
A tua mão é larga
Limpa a tua vida
afirma-a sem nada
Se eu penso que é um crime
a luz clara nasce
deste não que suspendo
Não saber até onde
e claramente abrir
o começo tão certo
deste pulso que afirmo
*
A noite me confunde
e nela retempero
a flor que não distingo
de um destino sem olhos
*
Mas o dia de sol
a prumo
fere meus dedos
na página deserta
*
A música começa
no deserto do não
(no túmulo do quarto
as sílabas são mudas)
O delírio é só um
e a esperança é arriscar-se
nesta pedra de som
*
Eu me abro eu me levanto
à janela à mesa ao dia
Sou esse outro que anda
com um destino aos ventos
entre claras lâmpadas
O homem que aconteço
casualmente certo
e se afirma no dia
na igualdade pura
(Ó deserto tão simples)
*
Música alheia minha
Afirmação dos outros
Ao lado deles vou
Tenho um espelho no quarto
O dia é alto quando
na mesa nada espera
que não seja poesia
*
É verdade o que digo
Com a justa rapidez
Breve dureza
a luz
que abre o espaço tão certo
de cada um
a cada um
*
É uma rosa que surge
na mesa a contemplar
É uma forma onde
um mar pequeno sonha
onde recomeçar
a maravilha simples
*
A voz que subsiste
mas só nasce inesperada
A tua mão é larga
Limpa a tua vida
afirma-a sem nada
536
António Ramos Rosa
Febre Feliz
Febre feliz, de entre a sombra me incita,
na fome de palavras plenas,
exactas como um crime,
iguais, penetrantes.
Ó espessa água obscura
no seio da qual me movo,
oiço e ouvindo escrevo
o que não vejo ainda.
*
Escrever para sentir ou para ver
a verdade do sol mais visível,
uma verde sombra, uma face perplexa e pura,
a ondulação do dia,
arcos ligeiros, longos…
Escrever para sentir ou ver a terra
tomar a forma declinante de um ombro,
lustroso pêlo violento e verde
de um animal novo entre ervas frescas.
*
Alongam-se os dedos na carícia obscura
de uma relva insistente onde um focinho escabuja
e rompe entre os dedos afilados, trémulos,
na delícia amarga e sequiosa
do beijo húmido,
violenta massa erguendo-se na sombra,
braços anelantes
ao corpo branco, já moldado tronco.
*
O punho não palpita, apenas cede
ao tumulto suave que o inunda.
Mas a mão suspende-se sem sangue,
não há luva que calce a febre obscura
e a palavra rompe numa sacada brusca,
arbitrária linfa, a que um sopro aviva,
o próprio punho amolda, quase extinta…
*
Não morre esta sede, quando o vibrar já cessa
no pulso incendiado.
De si mesmo se ergue e se encabrita,
cavalo desmoronando-se de patas para o sol,
onda rolando, lentamente viva,
despedaçada, monótona, rediviva.
na fome de palavras plenas,
exactas como um crime,
iguais, penetrantes.
Ó espessa água obscura
no seio da qual me movo,
oiço e ouvindo escrevo
o que não vejo ainda.
*
Escrever para sentir ou para ver
a verdade do sol mais visível,
uma verde sombra, uma face perplexa e pura,
a ondulação do dia,
arcos ligeiros, longos…
Escrever para sentir ou ver a terra
tomar a forma declinante de um ombro,
lustroso pêlo violento e verde
de um animal novo entre ervas frescas.
*
Alongam-se os dedos na carícia obscura
de uma relva insistente onde um focinho escabuja
e rompe entre os dedos afilados, trémulos,
na delícia amarga e sequiosa
do beijo húmido,
violenta massa erguendo-se na sombra,
braços anelantes
ao corpo branco, já moldado tronco.
*
O punho não palpita, apenas cede
ao tumulto suave que o inunda.
Mas a mão suspende-se sem sangue,
não há luva que calce a febre obscura
e a palavra rompe numa sacada brusca,
arbitrária linfa, a que um sopro aviva,
o próprio punho amolda, quase extinta…
*
Não morre esta sede, quando o vibrar já cessa
no pulso incendiado.
De si mesmo se ergue e se encabrita,
cavalo desmoronando-se de patas para o sol,
onda rolando, lentamente viva,
despedaçada, monótona, rediviva.
1 061
António Ramos Rosa
Tentando a Possibilidade
Com o gosto obscuro da terra
de um corpo que abracei
— mais lento espero
mais dentro da noite estou.
Obscuro e nu procuro
esta evidência nova
— um rosto que consinto
ao ar presente, incerto.
O quarto não é uma caverna verde
— bate-lhe o sol tranquilamente.
Há um canto onde me insiro como um lagarto
entre duas pedras
mas nesta cadeira móvel
procuro dirigir os raios
tão lentamente quanto me é possível
sobre um objecto vivo
Que ele fale
que eu fale por ele
ou ele fale por mim
— que esta distância fale,
novo equilíbrio entre diferenças.
*
Violento o corpo,
água entre paredes, estrela presa
e firme, dentes claros,
água renovada surgindo boca a boca
— e firme e novo, água subindo,
paredes altas,
água que o vento alastra sobre as árvores,
cabelos que esvoaçam ao ar livre
e firme, um corpo novo entre a espuma.
de um corpo que abracei
— mais lento espero
mais dentro da noite estou.
Obscuro e nu procuro
esta evidência nova
— um rosto que consinto
ao ar presente, incerto.
O quarto não é uma caverna verde
— bate-lhe o sol tranquilamente.
Há um canto onde me insiro como um lagarto
entre duas pedras
mas nesta cadeira móvel
procuro dirigir os raios
tão lentamente quanto me é possível
sobre um objecto vivo
Que ele fale
que eu fale por ele
ou ele fale por mim
— que esta distância fale,
novo equilíbrio entre diferenças.
*
Violento o corpo,
água entre paredes, estrela presa
e firme, dentes claros,
água renovada surgindo boca a boca
— e firme e novo, água subindo,
paredes altas,
água que o vento alastra sobre as árvores,
cabelos que esvoaçam ao ar livre
e firme, um corpo novo entre a espuma.
1 017
António Ramos Rosa
E Certas Palavras
a Fernand Verhesen
E certas palavras prazer
mágoa água plenitude
a cor navegando alta
a casa com flores e chamas
este jardim da verdade
duro pão água da vida
calado o tempo vencido
amor desta mão clara
*
Onde regresso renasço
à mesa onde o trabalho
é uma flor que sopro
Aqui respiro o tempo
da madeira e do insecto
Aqui penetro o gosto
da água lisa e da ânfora
aqui demoro um momento
*
Sonho no branco do tempo
a chama ténue suspensa
Sonho calado este espaço
sem palavras claridade
*
Um dia tentando o branco
encontrarás chama alta
prumo e nível verdadeiro
círculo inteiro alma intacta
E certas palavras prazer
mágoa água plenitude
a cor navegando alta
a casa com flores e chamas
este jardim da verdade
duro pão água da vida
calado o tempo vencido
amor desta mão clara
*
Onde regresso renasço
à mesa onde o trabalho
é uma flor que sopro
Aqui respiro o tempo
da madeira e do insecto
Aqui penetro o gosto
da água lisa e da ânfora
aqui demoro um momento
*
Sonho no branco do tempo
a chama ténue suspensa
Sonho calado este espaço
sem palavras claridade
*
Um dia tentando o branco
encontrarás chama alta
prumo e nível verdadeiro
círculo inteiro alma intacta
1 030
António Ramos Rosa
Eis Os Instrumentos
Eis os instrumentos
no vagar da terra
A ordem é do mar
com seu repouso manso
Os objectos e os dias
têm as suas pontes
onde a leveza é densa
Há pratos onde o silêncio
salvou o tempo
e faixas de luz
que a mão bebe
no vagar da terra
A ordem é do mar
com seu repouso manso
Os objectos e os dias
têm as suas pontes
onde a leveza é densa
Há pratos onde o silêncio
salvou o tempo
e faixas de luz
que a mão bebe
959
António Ramos Rosa
Nós Somos
Como uma pequena lâmpada subsiste
e caminha no vento, nestes dias,
na vereda da noite, sob as pálpebras do tempo.
Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra.
Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo dum corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos, nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol.
Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem.
e caminha no vento, nestes dias,
na vereda da noite, sob as pálpebras do tempo.
Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra.
Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo dum corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos, nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol.
Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem.
795
António Ramos Rosa
Seis Poemas da Terra
Ó verde caminho de ouro,
pequeno na memória
de duas lágrimas.
Bebo pelos olhos as linhas
desse caminho de vinho.
*
Terra nos joelhos
quente
até às axilas.
Terra como um mar
e montes
palmas de simplicidade bêbeda
terra nas mãos seios
de alegria.
Em pé estou de borco sobre a terra.
*
Abro os olhos
e a terra é verde.
Enlaço troncos
e o mundo é meu.
Beijo folhas
e o amor é meu.
*
Vinho contido em si mesmo
por ti bebo o vinho do teu corpo.
Bebo a terra pelos ombros.
*
É uma claridade de página
matinal.
*
Estou deitado em ti como na terra.
Respiro a suavidade dum monte.
pequeno na memória
de duas lágrimas.
Bebo pelos olhos as linhas
desse caminho de vinho.
*
Terra nos joelhos
quente
até às axilas.
Terra como um mar
e montes
palmas de simplicidade bêbeda
terra nas mãos seios
de alegria.
Em pé estou de borco sobre a terra.
*
Abro os olhos
e a terra é verde.
Enlaço troncos
e o mundo é meu.
Beijo folhas
e o amor é meu.
*
Vinho contido em si mesmo
por ti bebo o vinho do teu corpo.
Bebo a terra pelos ombros.
*
É uma claridade de página
matinal.
*
Estou deitado em ti como na terra.
Respiro a suavidade dum monte.
1 180
António Ramos Rosa
Corpo E Terra
Vejo o corpo grande, na solidão ignorada,
na sua alvura larga, toalha viva e água,
na banheira cantando como é larga a mulher!
Sem destino oiço o sol e as janelas abertas,
oiço um corpo extenso, branco, volumoso,
abraçando a madeira, abraço a carne, a terra viva.
Entrar em ti, mulher, ó lâmpada de seda,
abrir-me na paisagem de um só tronco com boca,
encrespar as planícies da tua pele ondulada,
oh como o mar é claro nesta onda deitada!
Oh como eu sou um homem no meio-dia claro!
*
Os seus seios louros (ó cor só de sonhá-la)
entre o branco e o negro, ó rósea sedução,
deitado à sombra respiro mamilos plenos
a obscura densa suave oscilação
*
(mulheres de Picasso)
Estou preso a estas linhas de espaço e de ternura
tremendo na montanha fina da carne plena
*
Murmúrio tão intenso e a água sempre bela!
A casa branca, gloriosa e simples.
Aberto o vale diante da janela,
a mesa com os frutos e a claridade da água
na jarra ao centro, as flores no azul!
na sua alvura larga, toalha viva e água,
na banheira cantando como é larga a mulher!
Sem destino oiço o sol e as janelas abertas,
oiço um corpo extenso, branco, volumoso,
abraçando a madeira, abraço a carne, a terra viva.
Entrar em ti, mulher, ó lâmpada de seda,
abrir-me na paisagem de um só tronco com boca,
encrespar as planícies da tua pele ondulada,
oh como o mar é claro nesta onda deitada!
Oh como eu sou um homem no meio-dia claro!
*
Os seus seios louros (ó cor só de sonhá-la)
entre o branco e o negro, ó rósea sedução,
deitado à sombra respiro mamilos plenos
a obscura densa suave oscilação
*
(mulheres de Picasso)
Estou preso a estas linhas de espaço e de ternura
tremendo na montanha fina da carne plena
*
Murmúrio tão intenso e a água sempre bela!
A casa branca, gloriosa e simples.
Aberto o vale diante da janela,
a mesa com os frutos e a claridade da água
na jarra ao centro, as flores no azul!
1 143
António Ramos Rosa
Sequência
Palpita sobre a página
desejo de olhar nu
Ó lucidez sem forma
Gruta fresca em silêncio
Golpes secos retumbam
onde deslizam dedos
na pelagem dum bicho
inerme oco à escuta
verde te espera alguém
*
Ave minúscula núcleo
radical obscuro
caroço dum soluço
dura sombra do sol
Na garganta redondo
visível quase nu
se escrevo e tento só
desmembrá-lo. Soluço.
*
Breves ramos visíveis
verde, móvel folhagem
respiro neste silêncio
de ar e luz.
Nas veias desta árvore
percorro lentamente
o silêncio da seiva.
Agora posso ver-te.
*
Movimentos que entronco
em palpitantes feixes
de fibras enervadas
num só corpo direito
afirmo esta presença
mais verde e intacta
como árvore ao ar que abraça.
*
Soluço ou semente
irredutível,
presença obscura mínima
sombra sempre tangente
de súbito só vento
deslizando
ausente.
desejo de olhar nu
Ó lucidez sem forma
Gruta fresca em silêncio
Golpes secos retumbam
onde deslizam dedos
na pelagem dum bicho
inerme oco à escuta
verde te espera alguém
*
Ave minúscula núcleo
radical obscuro
caroço dum soluço
dura sombra do sol
Na garganta redondo
visível quase nu
se escrevo e tento só
desmembrá-lo. Soluço.
*
Breves ramos visíveis
verde, móvel folhagem
respiro neste silêncio
de ar e luz.
Nas veias desta árvore
percorro lentamente
o silêncio da seiva.
Agora posso ver-te.
*
Movimentos que entronco
em palpitantes feixes
de fibras enervadas
num só corpo direito
afirmo esta presença
mais verde e intacta
como árvore ao ar que abraça.
*
Soluço ou semente
irredutível,
presença obscura mínima
sombra sempre tangente
de súbito só vento
deslizando
ausente.
1 029
António Ramos Rosa
Traços
Eu não vos sei dizer
à claridade
um grito
sobre a mesa o pão
contém tranquilo som
sobre a casa ninguém
só a luz do muro
o traço duro na parede
*
Jacto claro
que rompe
dum seio de pedra
É novo e alto metal
é o sol nos sulcos secos
brechas por onde bebo
só nesta cegueira branca
*
A porta onde houve um anjo
mas só na memória ou na sombra
a porta hoje rachada
*
A casa que compus
ao longo de anos fresca
vazia como um túmulo
como um cavalo o tempo
parou neste silêncio
duma janela aberta
onde há ao fundo um monte
à claridade
um grito
sobre a mesa o pão
contém tranquilo som
sobre a casa ninguém
só a luz do muro
o traço duro na parede
*
Jacto claro
que rompe
dum seio de pedra
É novo e alto metal
é o sol nos sulcos secos
brechas por onde bebo
só nesta cegueira branca
*
A porta onde houve um anjo
mas só na memória ou na sombra
a porta hoje rachada
*
A casa que compus
ao longo de anos fresca
vazia como um túmulo
como um cavalo o tempo
parou neste silêncio
duma janela aberta
onde há ao fundo um monte
575
António Ramos Rosa
Ex-Voto
Pelo muito que oiço
pelo nada que sou
pelo galo que cantou
pelos meus ossos.
Pela simples paz
duma terra ao sol.
Pelo dia que nasce.
*
Melodia rente
à pobreza inerente
ao frágil caule
da vida desnuda.
Esplende no solo
da terra sem gente
de grãos para pombos,
miúdos escombros.
Na mínima renda
de pedras e pó,
sol de amor e paz.
*
Pela hora vagarosa,
pela mão do amigo,
pela colina ondulada.
Pelas ondas do corpo
da amada.
Pelas ervas, pelo tronco
e pela copa
de grande tranquilidade.
Pelo sono bem merecido
dum chão de terra batido,
pelo macadame da praia
e pela lisura das plantas
pés e palmas.
*
Pela verde melodia
de como é cedo viver.
Quando ainda era verde
um canavial de esperança.
E quando ainda cantava
um pássaro na espessura.
E entre o amor e a pedra
o brilho de um rio havia.
Quando ainda era que seja
o pó de oiro e o ar de abelhas.
*
Pela invenção do teu corpo
e pela paz que dorme nele.
É um país de pupilas
sobre dunas.
E pelos ombros das árvores
que não abraço.
pelo nada que sou
pelo galo que cantou
pelos meus ossos.
Pela simples paz
duma terra ao sol.
Pelo dia que nasce.
*
Melodia rente
à pobreza inerente
ao frágil caule
da vida desnuda.
Esplende no solo
da terra sem gente
de grãos para pombos,
miúdos escombros.
Na mínima renda
de pedras e pó,
sol de amor e paz.
*
Pela hora vagarosa,
pela mão do amigo,
pela colina ondulada.
Pelas ondas do corpo
da amada.
Pelas ervas, pelo tronco
e pela copa
de grande tranquilidade.
Pelo sono bem merecido
dum chão de terra batido,
pelo macadame da praia
e pela lisura das plantas
pés e palmas.
*
Pela verde melodia
de como é cedo viver.
Quando ainda era verde
um canavial de esperança.
E quando ainda cantava
um pássaro na espessura.
E entre o amor e a pedra
o brilho de um rio havia.
Quando ainda era que seja
o pó de oiro e o ar de abelhas.
*
Pela invenção do teu corpo
e pela paz que dorme nele.
É um país de pupilas
sobre dunas.
E pelos ombros das árvores
que não abraço.
1 161
António Ramos Rosa
Do Mar Para Terra
Impreparado ainda
te procuro na sombra.
Venho adiante,
proa que deslizas,
maré que me renova.
Destroçado, um torso
lavado e límpido,
da própria água obscura,
eis o que à praia jogo,
na líquida impulsão,
atirado na areia,
de sede mais ardente.
*
E na água me envolvo,
me afundo, corpo novo,
e movimento, abraço,
e me confundo e abarco,
os nomes me atravessam,
outros nomes procuro,
iguais ao dia que desejo,
à mulher que ondula
e da salsugem surge,
mais branca, mais real.
*
E é um torso, um dorso
que a água move,
trabalha,
donde despontam brancos
membros,
que na superfície ondeiam
e altos se levantam
cheios de luz.
*
Assim nasce o possível,
se mais fundo o procuro
e se largo demoro
na sede do ar,
no côncavo da água,
se mais fundo respiro
e formo os membros livres.
*
Aprendo a prender-te
soltando-te
e impelindo-me
para a forma que desato
— rígida e macia
seiva que transluz.
*
Tronco é que te quero,
redondo animal
de delicadas palmas,
afeito às ondas
— largas ancas
rodopiantes pernas
— sobre a terra,
mas formado no mar.
te procuro na sombra.
Venho adiante,
proa que deslizas,
maré que me renova.
Destroçado, um torso
lavado e límpido,
da própria água obscura,
eis o que à praia jogo,
na líquida impulsão,
atirado na areia,
de sede mais ardente.
*
E na água me envolvo,
me afundo, corpo novo,
e movimento, abraço,
e me confundo e abarco,
os nomes me atravessam,
outros nomes procuro,
iguais ao dia que desejo,
à mulher que ondula
e da salsugem surge,
mais branca, mais real.
*
E é um torso, um dorso
que a água move,
trabalha,
donde despontam brancos
membros,
que na superfície ondeiam
e altos se levantam
cheios de luz.
*
Assim nasce o possível,
se mais fundo o procuro
e se largo demoro
na sede do ar,
no côncavo da água,
se mais fundo respiro
e formo os membros livres.
*
Aprendo a prender-te
soltando-te
e impelindo-me
para a forma que desato
— rígida e macia
seiva que transluz.
*
Tronco é que te quero,
redondo animal
de delicadas palmas,
afeito às ondas
— largas ancas
rodopiantes pernas
— sobre a terra,
mas formado no mar.
623