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Poemas neste tema

Alma

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

É Breve o Dia

As nossas armas contemplam. propagam-se na difusão do ar. Instantâneas, encontram o diamante irrefrangível — a explosão estática.
*
No fulgor de uma lágrima, à beira... a rosa, uma, única, única — identifica-me.
*
É breve o dia no quarto. Não na montanha nem no atalho. É longo o esforço, inenarrável o cansaço. No cume, no fundo, na planura, a mão que liga quarto e montanha, o sono do cavador, o sonho da palavra.
*
Aproximamo-nos, instáveis — é a viveza do ar, o redemoinho breve e claro dos seixos, a palavra que surge viva na tranquilidade das ramagens.
*
Eis a secura. É um homem que caminha. Da sua oficina, na surpresa de um crepúsculo. O princípio de uma liberdade breve — a noite. As estrelas estranhas.
*
O sossego da lâmpada. Um dia. Uma cabeleira que se espraia até ao círculo da página. O quadrado mágico sob que se respira, trabalha — ondula. Hoje.
*
No pressentimento da inocência, de uma fresca fundura perpassam as vozes, circula-se enquanto o espaço se alarga, se aviva a cada canto.
*
A voz promete sobre as mãos, o canto — para além dos telhados, já sobre um mar nocturno. A mão ergue-se na claridade de um gesto e tudo se anima — ó voz fraterna e ágil— como sob uma bandeira transparente.
*
Contra a parede um corpo. Um corpo vivo na semiobscuridade bafejada por um vento anónimo de portal. A glória de um entendimento de acaso sob todos os ventos, sob todos os ventos. A brasa viva.
*
As casas respiram, o mar respira. A noite suspensa. Um coração respira, comunicando.
*
O poema regressa ao ponto de maior agitação e frescura, à ardência de uma proposta instável a que o desejo absoluto de um encontro responde. A nossa interrogação ofegante encontra a respiração própria, frente ao vazio.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Através da Memória

a Jorge de Sena

Apenas sei que o Verão em mim cantou
Um breve tempo, e já não canta mais.
EDNA St. VINCENT MILLAY*

Não é apenas o dom
extremo da delicada atenção,
a generosa paciência,
esse toque subtil que se desfere,
após o gosto cheio da palavra redonda,
na zona branca da perfeição.

A página
ali esperava.
Mas quanto antes
na azáfama alheia e neutra
duma viagem de eléctrico,
numa paragem,
num cinema,
numas escadas toscas, solitárias,
num gosto de café, nesse amargo especial
do cigarro, que é um convite, um sinal,
ela, a forma esplêndida,
com a miragem dum espelho,
com a auréola duma árvore brilhante,
nua como uma espada,
brilhara,
na mente fatigada, mas logo límpida,
sinal brusco, e, no entanto, liso,
a forma preciosa.

Não.
Não fora apenas esse dom inato,
nem essa pureza rápida da inspiração,
nem esse acalento sossegado à noite,
esse cerrar de lábios,
esse branco vazio,
esse tumultuar de palavras prontas
a passar pelo crivo.

Não.
Mas já no tempo, nesse longo ciciar
de folhas durando na memória,
de dicionários rotos e tristes,
mas que é gostoso desfolhar na impaciência,
já nessa amorosa e repetida paciência
com que se inclinara ao longo de crepúsculos
em que meninos atiravam pedras longe,
sim, sobretudo nos crepúsculos,
nessa limpa mágoa que nos vem de árvores ao frio
e dos seus braços magros,
já, já se adivinhara esse respirar de sílabas
fluindo em graça pura,
não plumas,
mas sílabas certas e claras,
sílabas onde o destino bate
com a grave leveza de quem dança
de noite, entre as estrelas.


essa saudade calma
alguma vez pousara
na fronte do poeta;
já esse Verão uma tarde
depusera
seu pó alegre e estático
como um pólen
nas suas mãos suaves.

Mas nunca
ele cantara assim.
* Estes versos são extraídos de uma tradução do soneto «What lips my lips have kissed», da autoria de Jorge de Sena, inserta na página «Cultura e Arte», de O Comércio do Porto, de 12 de Agosto de 1958. O poema «Através da Memória» foi publicado na página «Artes e Letras» do Diário de Notícias, em homenagem a Jorge de Sena por essa tradução. A expressão «saudade calma», empregada neste poema, é também extraída da referida tradução.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Visão Ausência Presença Encontro

No vento inteira
No vento nua
Plena e branca

À beira d’água
verga suavemente ou é presença grave
cabeleira compacta
pernas harmoniosas justas

Demasiado duras
Demasiado inteiras
No vento ainda
esta presença obcecante branca
à beira d’água
*
A sua mão diz o amor das folhas
as suas ancas chamam os cavalos
Que inquietação te move, incorporada
ao vento, à água, ao sol?

Se me ignoras, porque não te despes
e não procuras confundir-te na água
ou não te deitas na erva, preciosa?

Sou livre e só, procuro-te, compacta.
Neste silêncio do sol e da água lisa
declino-te os braços que me inundam.
*
Se nos teus seios as chamas me queimassem
a água lavaria o duro fogo
o vento o corpo inteiro gravar-te-ia.

Se nos teus olhos os olhos se me perdessem
nova água, sol e vento se fariam
através de um só corpo de alegria.
*
Ausente nas folhagens
no rumor do vento,
o vestido branco
ou um cavalo?
*
Ela
entre as árvores
precipitada
ou o vento apenas
dizendo a crueldade clara?

Ela, a vida
banhando-se na água
pleno odor de fêmea
corpo grave?
*
Se ela é plena na água
e se os meus olhos a vêem
se pleno me confundo
na própria água que a rodeia
na delícia infinita que ela vive?

Se todo o corpo entre o ar e a água
é um tronco que vibra
na verdura plenitude?

Se todo eu sou a água
deliciada em extensão perfeita?
*
Na água
deitada ou levantada!
*
Erguida como um jorro
ou plena plana sobre a águacomo um barco

Ao sabor da água
ao gosto do ar
cabeleira desatada sobre os ombros
árvore culminada.
*
Regressar a terra
vir aos braços do vento
e às carícias da folhagem
abraçar o tronco
cabeleira exausta

Caminhar sobre a terra
ou sobre a água
ou nos braços do vento?
*
No ombro côncavo
meu rosto encontra
plena inserção

puro abandono
mas não do sono
de vida encontrada
*
Vitória propagada pela sombra
cabeleira compacta, firmes membros,
uma respiração feliz ombro a ombro
um caminhar sem solidão na noite.
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Odysséas Elýtis

Odysséas Elýtis

Marinha das Rochas

Tens um gosto de tormenta nos lábios - Mas por onde andaste
O dia todo em duro devaneio a pedra e mar
Um vento portador de águias descalvou as colinas
Raspou até o osso teu desejo
E as meninas dos teus olhos tomaram o bastão à Quimera
Pautando com espumas a memória!
Onde a ladeira familiar de um breve setembro 
De rubra terra em que a brincar olhavas lá embaixo
Os densos ramalhetes de outras moças
As quinas onde os teus amigos depunham braçadas de abrótano.
- Mas por onde andaste
A noite toda em duro devaneio a pedra e mar
Eu te dizia que contasses dentro da água despida seus dias luminosos
Que de costas gozasses a alvorada das coisas
Ou que voltasses a correr campos de jalde
Com uma luz trifoliada em teu peito de iâmbica heroína.
Tens um gosto de tormenta nos lábios
E uma veste vermelha como sangue
Bem fundo no ouro do verão
E aroma de jacintos - Mas por onde andaste

Ao desceres às praias às baías com seu chão de calhaus
Havia ali algas marinhas frias e salinas
Porém mais fundo ainda um sentimento humano que sangrava
E com surpresa abriste os braços dizendo o nome teu
Enquanto ascendias ligeira até a limpidez do fundo
Onde brilhava a tua estrela do mar.

Ouve, a palavra é a prudência dos últimos
E o tempo frenético escultor dos homens
E alto paira o sol fero da esperança
E tu mais perto dele estreitas um amor
Que tem nos lábios um gosto amargo de tormenta.

Não há por que contares, azul até o osso, com outro verão
Com os rios mudarem de curso 
E levar-te à mãe deles
Para que possas outra vez beijar as cerejeiras
Ou cavalgar o vento noroeste

De pé nas rochas sem amanhã nem ontem
Sobre o perigo das rochas cabelos na tormenta
Irás dizer adeus ao teu enigma.
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Knut Hamsun

Knut Hamsun

Em cem anos, tudo estará esquecido

Reviro-me insone por noites a fio,
qual náufrago num barco adernando,
e tudo por que tanto tenho sofrido
ao fim sempre vem dar em pranto.
Mas por que sofrer tanto?
Em cem anos, tudo estará esquecido.

Num sobressalto me vejo cantando
personagem da própria labuta.
Comungo com Deus qual gigante desperto
e a mesa com o diabo divido.
Por que, afinal, tamanha disputa?
Em cem anos, tudo estará esquecido.

Eis que então cessa enfim o conflito
e de alma enlevada ao mar eu me faço.
Nas vagas amargas me lanço
e assisto a meu mundo ser engolido.
Por que preferir um tal ranço?
Em cem anos, tudo estará esquecido.

Oh, não, antes flanar pela vida,
lançar um livro a cada Natal,
ombrear-se com os grandes poetas
e morrer como um lorde das letras.
É isto então que me faz decidido:
Em cem anos, tudo estará esquecido.

Trad.: Leonardo Pinto Silva

Knut Hamsun – Om Hundrede År Er Alting Glemt

Jeg driver i aften og tænker og strider,
jeg synes jeg er som en kantret båt,
og alt hvad jeg jamrer og alt hvad jeg lider
det ender vel gjerne med gråt.
Men hvi skal jeg være så hårdt beklemt?
Om hundrede år er alting glemt.

Da hopper jeg heller og synger en vise
og holder mit liv for en skjøn roman.
Jeg æter ved Gud som en fuldvoksen rise
og drikker som bare fan.
Men hvi skal jeg fare med al den skjæmt?
Om hundrede år er alting glemt.

Så stanser jeg virkelig heller striden
og ganger til sjøs med min pinte sjæl.
Der finder nok verden mig engang siden
så bitterlig druknet ihjæl.
Men hvi skal jeg ende så altfor slemt?
Om hundrede år er alting glemt.

Å nei, det er bedre at rusle og leve
og skrive en bok til hver kommende jul
og stige tilslut til en versets greve
og dø som en romanens mogul.
Da er det nu dette som gjør mig forstemt:
Om hundrede år er alting glemt.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Poema de Duas Faces

Quando havia antes um antigamente
havia uma esperança
agora no próprio coração da ilusão
onde a água limpa as pedras das ruínas
entre destroços límpidos
deito-me sobre a minha sombra e durmo
e durmo

Quando havia antes um amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio coração do coração
durmo estrangulando um monstro inerme
um palhaço de palha seco e pálido
quando havia antes um caminho

Não houve nunca amigos nem pureza
nem carinhos de mãe salvam a noite
É preciso ir mais longe na incerteza
É preciso no silêncio não escutar

A manhã que eu procuro não foi sonhada
Uma árvore me ignora na raiz
Perfeitamente desesperado é o meu sonho
Os pássaros insultam-me na cama
Só com doidos com doidos amaria
perfeitamente presente na frescura
do mar

Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço
a líquida frescura duma jarra
um passo leve e certo em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas

Uma casa uma caixa de música e sossego
Um violão adormecido na doçura
Um mar longínquo à volta atrás do campo
Uma inundação de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta constelação de grilos
e os galos alacres do silêncio
Um mar de espuma e alegria obscura
Um mar de espuma e alegria clara
entre o verde e a brisa

Na brancura dos quartos
a inocência poderá sonhar desnuda
os insectos poderão entrar
juntamente com as plantas e as aves
Uma longa asa passará
o mundo e o silêncio a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo e fresco
faiscará entre o verde as lâminas solares
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