Lista de Poemas

O tempo é a sombra célere dos pássaros

Meus olhos escancarados em meio às suas imagens

Por sobre o verde ditoso das folhas
As borboletas vivem grandes peripécias

Entrementes a inocência
Despe sua última mentira

Doce doce peripécia
A Vida.
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Já não conheço a noite

Já não conheço a noite, terrível anonimato da morte
No porto de minha alma ancora uma frota de astros.
Estrela da tarde, sentinela a refulgir na brisa
Celeste de uma ilha que me sonha
A proclamar de seus altos rochedos a alvorada
Meus dois olhos num abraço te acolhem com ó astro
Do meu vero coração: Já não conheço a noite.

Já não conheço os nomes de um mundo que me nega
Leio as conchas, as folhas, os astros com clareza
Meu ódio é supérfluo nos caminhos do céu
A menos seja o sonho vendo-me cruzar de novo
com lágrimas o mar da imortalidade
Estrela do mar, sob o arco dourado de teus fogos
Já não conheço a noite que é só noite.
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Marinha das Rochas

Tens um gosto de tormenta nos lábios - Mas por onde andaste
O dia todo em duro devaneio a pedra e mar
Um vento portador de águias descalvou as colinas
Raspou até o osso teu desejo
E as meninas dos teus olhos tomaram o bastão à Quimera
Pautando com espumas a memória!
Onde a ladeira familiar de um breve setembro 
De rubra terra em que a brincar olhavas lá embaixo
Os densos ramalhetes de outras moças
As quinas onde os teus amigos depunham braçadas de abrótano.
- Mas por onde andaste
A noite toda em duro devaneio a pedra e mar
Eu te dizia que contasses dentro da água despida seus dias luminosos
Que de costas gozasses a alvorada das coisas
Ou que voltasses a correr campos de jalde
Com uma luz trifoliada em teu peito de iâmbica heroína.
Tens um gosto de tormenta nos lábios
E uma veste vermelha como sangue
Bem fundo no ouro do verão
E aroma de jacintos - Mas por onde andaste

Ao desceres às praias às baías com seu chão de calhaus
Havia ali algas marinhas frias e salinas
Porém mais fundo ainda um sentimento humano que sangrava
E com surpresa abriste os braços dizendo o nome teu
Enquanto ascendias ligeira até a limpidez do fundo
Onde brilhava a tua estrela do mar.

Ouve, a palavra é a prudência dos últimos
E o tempo frenético escultor dos homens
E alto paira o sol fero da esperança
E tu mais perto dele estreitas um amor
Que tem nos lábios um gosto amargo de tormenta.

Não há por que contares, azul até o osso, com outro verão
Com os rios mudarem de curso 
E levar-te à mãe deles
Para que possas outra vez beijar as cerejeiras
Ou cavalgar o vento noroeste

De pé nas rochas sem amanhã nem ontem
Sobre o perigo das rochas cabelos na tormenta
Irás dizer adeus ao teu enigma.
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Identificação e contexto básico

Odysséas Elýtis (em grego: Ὀδυσσέας Ἐλύτης) foi um dos mais proeminentes poetas gregos do século XX. Nascido em Heraklion, Creta, em 2 de novembro de 1911, faleceu em Atenas em 18 de março de 1996. A sua obra está intrinsecamente ligada à identidade grega, à luz do Egeu, ao mar e à natureza, elementos que ele celebrou com uma linguagem poética única e inovadora. É amplamente reconhecido como um dos pilares da poesia grega moderna, com uma influência que se estende para além das fronteiras da Grécia.

Infância e formação

Nascido numa família de origem da ilha de Lesbos, Elýtis passou a infância e juventude em Creta, um ambiente que marcou profundamente a sua sensibilidade poética com a luz, o mar e os aromas da ilha. A sua formação intelectual ocorreu em Atenas, onde estudou Direito na Universidade de Atenas, mas a sua verdadeira paixão sempre foi a literatura e a poesia. Desde cedo, demonstrou um grande interesse pelas vanguardas artísticas europeias, especialmente o Surrealismo, e pela cultura grega, tanto a antiga quanto a bizantina.

Percurso literário

Elýtis iniciou a sua carreira literária na década de 1930, publicando os seus primeiros poemas em revistas literárias. A sua obra de estreia, "Orientações" (Προσανατολισμοί), publicada em 1939, revelou um poeta com uma voz distinta e um estilo inovador. Ao longo das décadas, a sua poesia evoluiu, mas manteve sempre uma forte ligação com os temas centrais da sua obra. Participou ativamente na vida literária grega, sendo uma figura de referência para várias gerações de poetas. Para além da poesia, Elýtis dedicou-se também à tradução de obras literárias e à escrita de ensaios.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Elýtis é vasta e multifacetada, abrangendo vários livros de poesia que exploram intensamente a relação entre o ser humano e o cosmos, a beleza da existência e a memória. "Sol Vermelho" (Ήλιος ο πρώτος), "O Canto de Jiro e de Asma" (Το Άσμα του Ιησού και της Ασμας), "Maria Nefeli" (Μαρία Νεφέλη), e a sua obra mais célebre, "O Axileu" (Το Άξιον Εστί), são alguns dos seus trabalhos mais importantes. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem lírica e imagética, onde a luz, a cor e os elementos naturais desempenham um papel fundamental. Utiliza frequentemente o verso livre, explorando uma musicalidade intrínseca e um ritmo particular. Temas como o amor, a morte, a identidade grega, a espiritualidade e a busca pela beleza absoluta são recorrentes. A sua poesia, embora profundamente enraizada na cultura grega, alcança uma dimensão universal, celebrando a condição humana e a resiliência do espírito.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Elýtis viveu num período conturbado da história grega e europeia, marcado pelas Guerras Mundiais, a Guerra Civil Grega e a ditadura militar. A sua poesia, no entanto, procurou sempre transcender o sofrimento e a destruição, encontrando na beleza da natureza e na força da identidade grega uma forma de resistência e esperança. Foi uma figura integrada nos círculos literários europeus, mantendo relações com outros escritores e artistas, e a sua obra reflete um diálogo constante com as correntes literárias da sua época, em particular o Surrealismo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Elýtis teve uma vida discreta, dedicada à sua arte. As suas relações pessoais e familiares, embora não tão publicamente exploradas como a sua obra, certamente informaram a sua visão do mundo e a sua sensibilidade poética. A sua profunda ligação com a Grécia, as suas ilhas e o seu mar, moldou a sua identidade e a sua expressão artística.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Odysséas Elýtis atingiu o seu ápice com a atribuição do Prémio Nobel da Literatura em 1979, "pela sua poesia, que, sobre um fundo de tradição, constrói com grande força sensorial e com subtileza intelectual a sua visão de um destino grego de sofrimento". Este prémio consolidou a sua posição como um dos grandes poetas do século XX, tanto na Grécia como a nível internacional. A sua obra é objeto de estudo e admiração por parte de críticos e académicos em todo o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Elýtis foi influenciado pela poesia grega antiga e bizantina, bem como pelas vanguardas europeias, especialmente o Surrealismo. A sua obra, por sua vez, influenciou profundamente a poesia grega moderna e contemporânea, e a sua abordagem à linguagem e aos temas continua a inspirar poetas em todo o mundo. A sua celebração da identidade grega e da beleza do Egeu tornou-se um marco na literatura.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Elýtis tem sido interpretada de diversas formas, frequentemente destacando-se a sua dimensão metafísica e a sua busca pela transcendência através da beleza. As suas explorações do sofrimento, da memória e da identidade grega, aliadas a uma linguagem de rara plasticidade, convidam a múltiplas leituras, tanto a nível estético quanto filosófico. A sua poesia é vista como um hino à vida e à esperança, mesmo perante as adversidades.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Embora reconhecido como um poeta de renome mundial, Elýtis manteve uma postura reservada quanto à sua vida pessoal. A sua paixão pela pintura, que praticou com dedicação, revela outra faceta do seu talento artístico. A forma como a luz e as cores do Egeu se traduzem na sua poesia é um dos aspetos mais fascinantes da sua obra, demonstrando uma profunda conexão sensorial com o seu ambiente.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Odysséas Elýtis faleceu pacificamente em Atenas, em 1996. A sua morte marcou o fim de uma era na poesia grega, mas o seu legado poético permanece vivo e vibrante. As suas obras continuam a ser lidas, estudadas e traduzidas, mantendo a sua relevância e a sua capacidade de inspirar novas gerações de leitores e escritores. O seu nome está gravado na história da literatura mundial.