Lista de Poemas

De Esboços para um verão

A cada manhã me lembra a água morna
que não tenho junto a mim nada mais vivo.
589

De Solstício de verão - VIII

Duro espelho o papel em branco
restitui apenas o que eras.
O papel em branco fala com a tua voz
a tua própria voz
não com a que te agrada;
tua música é a vida
que dissipaste.
Podes recuperá-la se quiseres
se te apegares ao que indiferente
te atira para trás
ao ponto de partida.
Viajaste, viste muitas luas muitos sóis
tocaste vivos e mortos
sentiste a dor do jovem
e o gemido da mulher
e o amargor do menino ainda imaturo —
o que sentiste rui sem fundamento
se não te confias ao vazio.
Talvez ali encontres o que julgavas já perdido:
o renovo da juventude, o justo sossobro da idade.
Tua vida é o que deste
esse vazio é o que deste
o papel em branco.
775

VIII

Mas que procuram nossas almas viajando
sobre conveses de navios arrasados
espremidas com mulheres amarelas e bebês que choram
sem poder distrair-se nem com os peixes-voadores
nem com as estrelas que os mastros apontam.
Gastas pelos discos dos fonógrafos
amarradas involuntariamente a peregrinações inexistentes
murmurando pensamentos quebrados de línguas
estrangeiras.

Mas que procura nossas almas viajando
nesses cascos podres
de porto em porto?

Movendo pedras quebradas, respirando
com mais dificuldade a cada dia o frescor do pinheiro,
nadando nas águas desse mar
e daquele mar,
sem tato
sem homens
em uma pátria que não é mais nossa
nem vossa.

Sabíamos que eram belas as ilhas
em algum lugar aqui perto que tateamos

um pouco mais baixo ou um pouco mais alto
um ínfimo espaço.
555

SÃO ASSIM OS TÚMULOS

São assim os túmulos. Cheios de flores, no princípio,
com a chama do pesar acesa por sobre a sua alvura.

E tudo quanto a vida inventa de consolo – as mãos caídas,
a cabeça baixa, a fonte dos lamentos –
acompanha as horas pétreas dos que jazem.

Depois, sob o sol indiferente, os passos vão-se embora
para que cada qual possa viver
a sua própria morte.

São assim os túmulos.
E das sombras da noite, com um sorriso mau,
eis que a velha aparece.

Juntando os dedos, ela apaga a chama
e recolhe as flores para seu amante.
685

X

Nossa terra é cerrada, só montanhas
quem tem o céu baixo como teto dia e noite.
Não temos rios não temos poços não temos fontes,
apenas poucas cisternas, também vazias, que ecoam e que
adoramos.
Som estagnado oco, idêntico a nossa solidão
idêntico ao nosso amor, idêntico aos nossos corpos.
Parece-nos estranho que outrora pudéssemos construir
nossas casas, cabanas e currais.
E nossas bodas, as frescas grinaldas e os anéis
tornam-se enigmas inexplicáveis para nossa alma.
Como nasceram, como criaram-se nossos filhos?

Nossa terra é cerrada, Encerram-na
as duas Simplégades negras. Nos portos
quando descemos para respirar ao Domingo
vemos iluminarem-se no pôr-do-sol
madeiras quebradas de viagens que não terminaram
corpos que não sabem mais como amar.
629

Comentários

Já escurecera na sacada
junto a nós uma urgência esvoaçava
nos dois corações, bem aninhada,
uma confissão correspondida.

Vã, murchou a voz. Enxame de erros
nossos lábios, e nas profundezas
do corpo, Deus, só estava acesa
nossa espera da benção pedida.

Dentro da casa os sonhos zumbiam
e da luz da tarde até o ímã
dos cabelos teus, tudo trazia
à memória o anjo inalcançável
de para com os anéis subitâneos
de chofre caídos, dos abanos
no pensamento que, o mesmo orando,
líamos, evangelho inefável.

Mulher que na minha alma te hospedas
tua surpresa é o que me resta
formosa mulher amada, nesta
tarde que absurdamente definha,
e os teus olhos de círculos negros
e a noite e seu calafrio ligeiro…

Quimera, espada do meu silêncio,
curva-te e entra outra vez na bainha.
629

VI

O jardim com suas fontes na chuva
verás somente da janela baixa
de trás da vidraça embaçada. Teu quarto
será iluminado apenas pela chama da lareira
e por vezes, nos relâmpagos distantes aparecerão
as rugas de tua fronte, meu velho Amigo.

O jardim com as fontes que eram em tua mão
o ritmo de outra vida, fora dos mármores
quebrados e das colunas trágicas
e uma dança em meio aos oleandros
próximo às novas pedreiras,
um vidro opaco o terá cortado de tuas horas.
Não respirarás; a terra e a seiva das árvores
rebentarão da tua memória para bater
nessa vidraça onde bate a chuva
do mundo lá fora.
763

EXISTE

Existe, pelos deuses cruéis predestinada,
uma dor universal,
e cada um de nós dela pega a sua parte,
quanto aguente levar.

Julgamos insensatos
os que, carregando pressurosamente nos ombros
mais do que podiam carregar,
aliviam assim a carga comum:
os heróis, os mártires, os criminosos.

Rogo-lhes que nos perdoem.
Recordamos.
696

XXI

Nós que partimos para essa peregrinação
olhamos as estátuas quebradas
esquecemo-nos e falamos que a vida não se assim tão
fácil
que a morte tem caminhos inexplorados
e uma justiça própria,

que quando em pé nós morremos
dentro da pedra irmanados
unidos com a dureza e a fraqueza,
os velhos mortos fugiram do círculo e ressuscitaram
e sorriem em meio a uma estranha calma.
658

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Identificação e contexto básico

Giorgos Seferis, pseudónimo de Giorgos Stylianou Seferiadis, nasceu em Vourla, na Ásia Menor (atual Turquia), e faleceu em Atenas, Grécia. Era cidadão grego e escrevia em grego moderno. A sua vida e obra estiveram intrinsecamente ligadas à turbulenta história grega do século XX, incluindo as guerras balcânicas, a Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil Grega e a ditadura militar.

Infância e formação

Nascido numa família de classe média com ligações à atividade comercial e cultural, Seferis mudou-se com a família para Atenas ainda jovem, fugindo da convulsão na Ásia Menor. Realizou os seus estudos secundários em Atenas e, posteriormente, estudou Direito na Universidade de Paris. Durante o seu período em Paris, absorveu influências literárias, artísticas e filosóficas da Europa, que moldariam a sua visão de mundo e a sua escrita.

Percurso literário

O início da sua carreira poética foi marcado pela publicação de "Strofi" (O Turno) em 1931, obra que já anunciava a sua voz única. Ao longo das décadas seguintes, Seferis publicou várias coleções de poesia que solidificaram a sua reputação, como "Mythistorema" (1935) e "Kichli" (A Lebre, 1947). Paralelamente à sua carreira literária, Seferis teve uma longa e distinta carreira diplomática ao serviço da Grécia, o que lhe permitiu viver em diversos países e ter um contacto alargado com outras culturas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Seferis incluem "Strofi" (1931), "Mythistorema" (1935), "Kichli" (1947), "Logbook I-III" (1940-1955), e "The King of Asine" (1958). Os temas dominantes na sua poesia são a identidade grega, a busca por um sentido de pertença, a memória coletiva e individual, o mar Egeu como espaço mítico e geográfico, a solidão, a mortalidade e a relação entre o passado e o presente. Formalmente, Seferis combinou a linguagem grega moderna com a tradição, utilizando frequentemente o verso livre, mas com uma musicalidade e um rigor estrutural notáveis. O seu estilo é caracterizado pela clareza aparente, mas com profundidade simbólica e ambiguidade, evocando imagens fortes e um tom melancólico e contemplativo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Seferis viveu e escreveu em períodos de intensa transformação histórica e política na Grécia e na Europa. A Segunda Guerra Mundial, a ocupação da Grécia, a Guerra Civil e a Guerra Fria deixaram marcas profundas na sua consciência e na sua obra, refletindo a fragilidade da existência e a necessidade de encontrar permanência em meio à mudança. Foi contemporâneo de outros grandes poetas gregos como Konstantinos Kavafis e Odysseas Elytis, com quem estabeleceu um diálogo literário e geracional.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Giorgos Seferis casou-se com Maria Zannou. A sua carreira diplomática levou-o a residir em Londres, Ancara e outras capitais, experiências que enriqueceram a sua perspetiva cosmopolita. Era conhecido pela sua discrição e pela profunda dedicação à poesia e à cultura grega.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Seferis obteve um reconhecimento internacional significativo, culminando com a atribuição do Prémio Nobel de Literatura em 1963 "pela sua lírica escrita sob a influência da tradição grega e com a força do espírito e da sensibilidade gregas". Recebeu inúmeros outros prémios e distinções ao longo da sua vida, consolidando o seu lugar como um dos poetas gregos mais importantes do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Seferis foi influenciado pela poesia grega antiga e bizantina, pelos poetas simbolistas franceses e por pensadores existenciais. O seu legado é imenso, tendo influenciado gerações de poetas gregos e não gregos, que encontraram na sua obra uma profunda meditação sobre a identidade, a história e a condição humana. A sua obra continua a ser estudada e admirada internacionalmente.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Seferis tem sido objeto de vasta análise crítica, explorando a sua complexa relação com a história grega, a mitologia clássica e a busca pela identidade num mundo em constante mutação. As suas reflexões sobre o exílio, a memória e a linguagem são centrais nas interpretações críticas.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Seferis era conhecido pela sua paixão pela música clássica e pela arte. A sua vasta correspondência revela um homem profundamente reflexivo e um observador atento do mundo à sua volta. Os seus cadernos de notas e manuscritos oferecem um vislumbre fascinante do seu processo criativo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Giorgos Seferis faleceu em Atenas e o seu funeral foi um evento de grande comoção nacional. A sua memória é celebrada através de edifícios e instituições que levam o seu nome, e a sua obra continua a ser publicada e estudada em todo o mundo, mantendo viva a sua profunda influência na literatura e na cultura.