Poemas neste tema
Alma
António Ramos Rosa
Foi No Horror Que Acordei
Foi no horror que acordei
e o meu rosto de lava
perguntava porquê.
Consumido no ventre,
cheio de sangue esquecido,
perguntava porquê.
Ninguém ouvia o grito
nesta cara de terra.
Um bicho silencioso,
o meu nome e uma pedra.
E eu queria a harmonia.
O sol no centro. E a lágrima
era dura e morria.
E a terra me levava
para dentro da terra.
No silêncio da terra
uma árvore respirava.
Eu quero regressar
à essencial frescura.
Eu quero renascer
na morte completa.
Eis-me um homem
de horror, silêncio, sol.
Eis um homem de cal.
Ninguém me queira ver
na minha câmara clara.
(Aí sou negro e puro.)
Com as portas abertas
eu sou o mar que entra.
Mas sem esquecer o sangue,
eu escuto e sei e espero.
e o meu rosto de lava
perguntava porquê.
Consumido no ventre,
cheio de sangue esquecido,
perguntava porquê.
Ninguém ouvia o grito
nesta cara de terra.
Um bicho silencioso,
o meu nome e uma pedra.
E eu queria a harmonia.
O sol no centro. E a lágrima
era dura e morria.
E a terra me levava
para dentro da terra.
No silêncio da terra
uma árvore respirava.
Eu quero regressar
à essencial frescura.
Eu quero renascer
na morte completa.
Eis-me um homem
de horror, silêncio, sol.
Eis um homem de cal.
Ninguém me queira ver
na minha câmara clara.
(Aí sou negro e puro.)
Com as portas abertas
eu sou o mar que entra.
Mas sem esquecer o sangue,
eu escuto e sei e espero.
1 185
Sully Prudhomme
O vaso partido
O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe subtil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.
Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.
A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.
Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;
Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou; não toquem não.
Le vase brisé
Le vase où meurt cette vervaine
D’un coup d’éventail fut fêlé;
Le coup dut l’effleurer à peine,
Aucun bruit ne l’a révélé.
Mais la légère meurtrissure,
Mordant le cristal chaque jour,
D’une marche invisible et sûre
En a fait lentement le tour.
Son eau fraîche a fui goutte à goutte,
Le suc des fleurs s’est épuisé;
Personne encore ne s’en doute,
N’y touchez pas, il est brisé.
Souvent aussi la main qu’on aime
Effleurant le coeur, le meurtrit;
Puis le coeur se fend de lui-même,
La fleur de son amour périt;
Toujours intact aux yeux du monde,
Il sent croître et pleurer tout bas
Sa blessure fine et profonde:
Il est brisé, n’y touchez pas.
tradução Guilherme de Almeida
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe subtil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.
Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.
A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.
Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;
Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou; não toquem não.
Le vase brisé
Le vase où meurt cette vervaine
D’un coup d’éventail fut fêlé;
Le coup dut l’effleurer à peine,
Aucun bruit ne l’a révélé.
Mais la légère meurtrissure,
Mordant le cristal chaque jour,
D’une marche invisible et sûre
En a fait lentement le tour.
Son eau fraîche a fui goutte à goutte,
Le suc des fleurs s’est épuisé;
Personne encore ne s’en doute,
N’y touchez pas, il est brisé.
Souvent aussi la main qu’on aime
Effleurant le coeur, le meurtrit;
Puis le coeur se fend de lui-même,
La fleur de son amour périt;
Toujours intact aux yeux du monde,
Il sent croître et pleurer tout bas
Sa blessure fine et profonde:
Il est brisé, n’y touchez pas.
tradução Guilherme de Almeida
1 743
António Ramos Rosa
Para Sair da Pedra
Para sair da pedra
e desse frio instante jamais ultrapassado
oh que rosa de pedra
que aranha dura
extrema
final em cada pico
ó mole horror desse sorriso
Para sair da terra
morta na base
a haste
a raiz arranhando a parede ratada
a flácida nostalgia da timidez curvada
para sair no fim de cada indecisão
do adiado princípio
uma garra de fumo cobardia ante o ódio
ó praia sufocada ó impossível praia
nitidamente desenhada como um adeus-princípio
Um começar de água
a iluminar os dedos
em cada sulco árido
no ouvido da mão a rebentar o sol
a abandonada menina achada num sonho
é o sol do navio
o rouxinol na espuma
e o sabugo da rosa
o rebentar da pedra
e a andorinha
dizia o menino
O escuro rumor da casa
o miúdo calar de cada coisa
o claro romper das palavras
verticalmente duras
É preciso roer séculos para ajudar o verde
e desse frio instante jamais ultrapassado
oh que rosa de pedra
que aranha dura
extrema
final em cada pico
ó mole horror desse sorriso
Para sair da terra
morta na base
a haste
a raiz arranhando a parede ratada
a flácida nostalgia da timidez curvada
para sair no fim de cada indecisão
do adiado princípio
uma garra de fumo cobardia ante o ódio
ó praia sufocada ó impossível praia
nitidamente desenhada como um adeus-princípio
Um começar de água
a iluminar os dedos
em cada sulco árido
no ouvido da mão a rebentar o sol
a abandonada menina achada num sonho
é o sol do navio
o rouxinol na espuma
e o sabugo da rosa
o rebentar da pedra
e a andorinha
dizia o menino
O escuro rumor da casa
o miúdo calar de cada coisa
o claro romper das palavras
verticalmente duras
É preciso roer séculos para ajudar o verde
1 205
António Ramos Rosa
No Coração da Neve
No coração da neve
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
e no espaço
no silêncio e na infância
no amor na solidão na liberdade
na gentileza na fraternidade
o mesmo puro delírio
de iluminar as trevas
sem diminuir o sonho
e fazê-las cantar
à luz do dia
1 121
António Ramos Rosa
Ao Rés da Sombra
Je suis au bas des ombres
P.E.
Ao rés da sombra
auscultas o silêncio
os insectos crescem
as estrelas desaparecem
O mar repete-se ao longe
A bondade é uma caverna inútil
A solidão é inenarrável
A terra é grande
P.E.
Ao rés da sombra
auscultas o silêncio
os insectos crescem
as estrelas desaparecem
O mar repete-se ao longe
A bondade é uma caverna inútil
A solidão é inenarrável
A terra é grande
1 099
António Ramos Rosa
Que Cor ó Telhados de Miséria
Que cor ó telhados de miséria
onde nasci
de tanta pequenez de tão humildes ovos
de nenhum querer
a que horas nasceram as estrelas que
um dia foram
a que horas nasci?
Não vim embarcado não me encontrei
na rua
não nos vimos
não nos beijámos
nunca parti
Não sei que idade tenho
onde nasci
de tanta pequenez de tão humildes ovos
de nenhum querer
a que horas nasceram as estrelas que
um dia foram
a que horas nasci?
Não vim embarcado não me encontrei
na rua
não nos vimos
não nos beijámos
nunca parti
Não sei que idade tenho
1 212
António Ramos Rosa
Estou Como Se Não Houvesse Mais Para Dizer Que Uma Palavra
Estou como se não houvesse mais para dizer que uma palavra
uma interminável palavra
no interminável silêncio
Estou como um cavalo esquelético à beira dum horizonte
perdidos todos os caminhos
Estou no entanto familiar
e rodeado de presenças
Escarvo no chão absurdo
e uma pedra dá-me confiança
Na solidão da terra encontro
como o vestígio dum segredo
uma interminável palavra
no interminável silêncio
Estou como um cavalo esquelético à beira dum horizonte
perdidos todos os caminhos
Estou no entanto familiar
e rodeado de presenças
Escarvo no chão absurdo
e uma pedra dá-me confiança
Na solidão da terra encontro
como o vestígio dum segredo
1 099
Francisco Mallmann
V
esse é um exercício de morte
e vida esse é um exercício de
nascimento dentro e fora
do encerramento um
exercício de furar o tempo
esse é um exercício
de imaginar-me sem o
desgaste de ter que
me explicar porque eu
fernando na verdade
como já sabes sou essa
crueza tanto de perto
como de longe
e vida esse é um exercício de
nascimento dentro e fora
do encerramento um
exercício de furar o tempo
esse é um exercício
de imaginar-me sem o
desgaste de ter que
me explicar porque eu
fernando na verdade
como já sabes sou essa
crueza tanto de perto
como de longe
779
António Ramos Rosa
Da Inocência à Confiança
Da inocência à confiança
da claridade à fidelidade
do sonho à consciência
da beleza à bondade
da poesia ao amor
do amor à verdade
da solidão à harmonia
da angústia à liberdade
todas as cores uniste
num arco-íris fraternal
da claridade à fidelidade
do sonho à consciência
da beleza à bondade
da poesia ao amor
do amor à verdade
da solidão à harmonia
da angústia à liberdade
todas as cores uniste
num arco-íris fraternal
1 117
António Ramos Rosa
Deixas Passar os Barcos e as Nuvens
Je laisse passer les bateaux les nuages.
P.E.
Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas
Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes
O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada
O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera
O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada
P.E.
Deixas passar os barcos e as nuvens
e a chuva molha-te
e o sol inunda-te
Deixas passar o tempo e o amor
deixas passar os homens e os templos
deixas passar os exércitos e as lágrimas
Dormes sobre calhaus
sobre o convés dos teatros
sobre árvores descarnadas
sobre crianças informes
O teu suor é negro
como o dum cadáver
Do teu lenço escorrem os vermes da aventura
mais triste
do naufrágio mais lento
da hora petrificada
O teu corpo é um muro
onde a urina floresce
os teus braços tocam o fundo dum pântano
o teu desespero inventa os corais da cera
O teu barco desliza agora sobre a pedra
e o tempo é como um templo onde o presente
jaz como uma longa serpente fascinada
904
Francisco Mallmann
III
não te esquece hora alguma
fernando que estamos
em terra invadida
pisas em ossos e sangue
de gente minha fernando
não te esquece hora
alguma que foram os
teus quem te trouxeram
aqui eu nada tenho a
ver com isso só estou
fernando pegando o
que é meu e o desejo
de te ver morto
fernando é só
o início de uma
nova ordem
da visão
fernando que estamos
em terra invadida
pisas em ossos e sangue
de gente minha fernando
não te esquece hora
alguma que foram os
teus quem te trouxeram
aqui eu nada tenho a
ver com isso só estou
fernando pegando o
que é meu e o desejo
de te ver morto
fernando é só
o início de uma
nova ordem
da visão
688
António Ramos Rosa
Aqui Nesta Cave Dos Soluços
Aqui nesta cave dos soluços
como um ventre vazio
deixo entrar o sol
e um mínimo insecto
me distrai
como um ventre vazio
deixo entrar o sol
e um mínimo insecto
me distrai
620
António Ramos Rosa
A Ciência Das Canções
a Alberto de Lacerda
A ciência das canções
o saber alegre
a vitória dos olhos sobre o rosto
o calmo suporte dum entusiasmo perpétuo
a tua nova medida que te pesa no futuro
o pequenino grão de fogo sob a cinza de vários anos
sustentando esta aurora ainda por nascer
dedos que desenhados fazem o gesto
da fluida pressão fraternal
Brusco passado liso no lago dum momento
que se renova incessante
ó brilhante segredo exterior
que ninho mais claro que o meu corpo em repouso
liberto de todas as esperas desesperadas
passado futuro
o mesmo círculo calmo
que o rubro núcleo do desejo liberto
irradia
A ciência das canções
o saber alegre
a vitória dos olhos sobre o rosto
o calmo suporte dum entusiasmo perpétuo
a tua nova medida que te pesa no futuro
o pequenino grão de fogo sob a cinza de vários anos
sustentando esta aurora ainda por nascer
dedos que desenhados fazem o gesto
da fluida pressão fraternal
Brusco passado liso no lago dum momento
que se renova incessante
ó brilhante segredo exterior
que ninho mais claro que o meu corpo em repouso
liberto de todas as esperas desesperadas
passado futuro
o mesmo círculo calmo
que o rubro núcleo do desejo liberto
irradia
1 152
António Ramos Rosa
Porque Não Soube Merecer a Glória, a Mais Suave
Porque não soube merecer a glória, a mais suave
de me deitar a teu lado
e que do sangue a palavra
abolisse a diferença entre o meu corpo e a minha voz
porque te perdi
não sei quem sou
de me deitar a teu lado
e que do sangue a palavra
abolisse a diferença entre o meu corpo e a minha voz
porque te perdi
não sei quem sou
630
António Ramos Rosa
Queda
Meus membros rotos
esta agulha de claridade
um nome de estrela
A terra não se abre ao segredo das noites
as árvores insurgiram-se nos olhos do meu amor
eu soluço à noite e não ouço o teu grito
Há terra fria em minhas mãos sem nervos
Um rochedo de força suspensa
vela enquanto tombo sobre o meu rosto
esta agulha de claridade
um nome de estrela
A terra não se abre ao segredo das noites
as árvores insurgiram-se nos olhos do meu amor
eu soluço à noite e não ouço o teu grito
Há terra fria em minhas mãos sem nervos
Um rochedo de força suspensa
vela enquanto tombo sobre o meu rosto
652
António Ramos Rosa
Em Miseráveis Quartos
Em miseráveis quartos
eu descobri a luz
os bêbedos sorriam
por vezes
Entre a fome e o medo
entre a fome e o medo
meu corpo respirava
a tua luz
E o pão era de sangue
com restos de cinza
Apenas os telhados
ondulavam ao sol
Perdido pelas calçadas
um íntimo suor
escorria-me pela cara
Esse suor dizia
mais sobre a verdade
que todas as palavras
eu descobri a luz
os bêbedos sorriam
por vezes
Entre a fome e o medo
entre a fome e o medo
meu corpo respirava
a tua luz
E o pão era de sangue
com restos de cinza
Apenas os telhados
ondulavam ao sol
Perdido pelas calçadas
um íntimo suor
escorria-me pela cara
Esse suor dizia
mais sobre a verdade
que todas as palavras
1 179
Natasha Tinet
Mãe
A pele viscosa de marisco contra a correnteza
de umbigos, pernas ásperas, suores salobres
hálitos embriagados pela urgência de cervejas
mulheres de biquínis molhados sob as roupas
coçam discretamente suas virilhas e vulvas
sonham morar com vista pro mar, cooper toda a manhã
a maresia corroendo os eletrodomésticos seria a grande tragédia
do horário nobre, assim que o ônibus lotado desvia do cartão postal,
os intervalos comerciais as trazem à realidade, a cada curva
sua mão aperta meus dedos contra a barra de alumínio,
faço biquinho, peço socorro, quero voltar ao mar
onde me perco e me confundo com outros banhistas
e seus olhos anseiam por mim
ela me ama como perda,
não para de apertar minhas mãos entre as suas
mesmo em casa, quando me ensina a expulsar o sal da cabeça
esfregando shampoo de babosa debaixo do chuveiro, alguns fios
se despedem pelo ralo, não umedecerão o travesseiro, não
receberão o sermão: “não deite de cabelo molhado”.
ela me ama como doença crônica
ela me ama como peso de porta: eu
uma tartaruga marinha encalhada
engasgada com uma lista de compras.
de umbigos, pernas ásperas, suores salobres
hálitos embriagados pela urgência de cervejas
mulheres de biquínis molhados sob as roupas
coçam discretamente suas virilhas e vulvas
sonham morar com vista pro mar, cooper toda a manhã
a maresia corroendo os eletrodomésticos seria a grande tragédia
do horário nobre, assim que o ônibus lotado desvia do cartão postal,
os intervalos comerciais as trazem à realidade, a cada curva
sua mão aperta meus dedos contra a barra de alumínio,
faço biquinho, peço socorro, quero voltar ao mar
onde me perco e me confundo com outros banhistas
e seus olhos anseiam por mim
ela me ama como perda,
não para de apertar minhas mãos entre as suas
mesmo em casa, quando me ensina a expulsar o sal da cabeça
esfregando shampoo de babosa debaixo do chuveiro, alguns fios
se despedem pelo ralo, não umedecerão o travesseiro, não
receberão o sermão: “não deite de cabelo molhado”.
ela me ama como doença crônica
ela me ama como peso de porta: eu
uma tartaruga marinha encalhada
engasgada com uma lista de compras.
785
António Ramos Rosa
O Tempo Concreto
O tempo duro
com estas unhas de pedra
este hálito pobre
de órgãos esfomeados
estas quatro paredes de cinza e álcool
este rio negro correndo nas noites como um esgoto
O tempo magro
em que minhas mãos divididas
nitidamente separadas e caídas
ao longo dum corpo de cansaço
pedem o precipício a hecatombe clara
o acontecimento decisivo
O tempo fecundo
dos sonhos embrulhados repetidos como um hálito de febres
repassadas no travesseiro igual das noites e dos dias
das ruas agrestes e pequenas da mágoa
familiar e precisa como uma esmola certa
O tempo escuro
da peste consentida do vício proclamado
da sede amarfanhada pelas mãos dos amigos
da fome concreta dum sonho proibido
e do sabor amargo não sei de que remorso
O tempo ausente
dos olhos dum desejo de claras cidades
em que acenamos perdidos às soluções erguidas
com vozes bem distintas de cadáveres opressores
com gritos sufocados de problemas supostos
O tempo presente
das circunstâncias ferozes que erguem muros reais
dos fantasmas de carne que nos apertam as mãos
das anedotas contadas num outro mundo de cafés
e das vidas dos outros sempre fracassadas
O tempo dos sonhos
sem coragem para poder vivê-los
com muralhas de mortos que não querem morrer
com razões demais para poder viver
com uma força tão grande que temos de abafar
no fragor dos versos disfarçados
O tempo implacável
onde jurámos de pé viver até ao fim
maiores do que nós ser todo o grito nu
pureza conquistada no seio da vida impura
um raio de sol de sangue na face devastada
O tempo das palavras
numa circulação sombria como um poço
de ecos incontrolados
de timbres inesperados
como moedas de sangue cunhadas numa noite
demasiado curta e com luar demais
O tempo impessoal
em que fingimos ter um destino qualquer
para que nos conheçam os amigos forçados
para que nós próprios nos sintamos humanos
e este fardo de trevas esta dor sem limites
a possamos levar numa mala portátil
O tempo do silêncio
em que o riso postiço dos fregueses da vida
finge ignorá-lo enquanto soluçamos
de raiva de razão reprimida revolta
e os senhores de bom senso passeiam divertidos
O tempo da razão
em que os versos são soldados comprimidos
que guardam as armas dentro do coração
que rasgam os seus pulsos para fazer do sangue
a tinta de escrever duma nova canção
com estas unhas de pedra
este hálito pobre
de órgãos esfomeados
estas quatro paredes de cinza e álcool
este rio negro correndo nas noites como um esgoto
O tempo magro
em que minhas mãos divididas
nitidamente separadas e caídas
ao longo dum corpo de cansaço
pedem o precipício a hecatombe clara
o acontecimento decisivo
O tempo fecundo
dos sonhos embrulhados repetidos como um hálito de febres
repassadas no travesseiro igual das noites e dos dias
das ruas agrestes e pequenas da mágoa
familiar e precisa como uma esmola certa
O tempo escuro
da peste consentida do vício proclamado
da sede amarfanhada pelas mãos dos amigos
da fome concreta dum sonho proibido
e do sabor amargo não sei de que remorso
O tempo ausente
dos olhos dum desejo de claras cidades
em que acenamos perdidos às soluções erguidas
com vozes bem distintas de cadáveres opressores
com gritos sufocados de problemas supostos
O tempo presente
das circunstâncias ferozes que erguem muros reais
dos fantasmas de carne que nos apertam as mãos
das anedotas contadas num outro mundo de cafés
e das vidas dos outros sempre fracassadas
O tempo dos sonhos
sem coragem para poder vivê-los
com muralhas de mortos que não querem morrer
com razões demais para poder viver
com uma força tão grande que temos de abafar
no fragor dos versos disfarçados
O tempo implacável
onde jurámos de pé viver até ao fim
maiores do que nós ser todo o grito nu
pureza conquistada no seio da vida impura
um raio de sol de sangue na face devastada
O tempo das palavras
numa circulação sombria como um poço
de ecos incontrolados
de timbres inesperados
como moedas de sangue cunhadas numa noite
demasiado curta e com luar demais
O tempo impessoal
em que fingimos ter um destino qualquer
para que nos conheçam os amigos forçados
para que nós próprios nos sintamos humanos
e este fardo de trevas esta dor sem limites
a possamos levar numa mala portátil
O tempo do silêncio
em que o riso postiço dos fregueses da vida
finge ignorá-lo enquanto soluçamos
de raiva de razão reprimida revolta
e os senhores de bom senso passeiam divertidos
O tempo da razão
em que os versos são soldados comprimidos
que guardam as armas dentro do coração
que rasgam os seus pulsos para fazer do sangue
a tinta de escrever duma nova canção
760
António Ramos Rosa
Tal Como Antigamente
Tal como antigamente
tal como agora
essa estrela esse muro
esse lento
esse morto
sorrir
nenhum acaso
nenhuma porta
impossível sair
tal como agora
essa estrela esse muro
esse lento
esse morto
sorrir
nenhum acaso
nenhuma porta
impossível sair
1 061
Odysséas Elýtis
O tempo é a sombra célere dos pássaros
Meus olhos escancarados em meio às suas imagens
Por sobre o verde ditoso das folhas
As borboletas vivem grandes peripécias
Entrementes a inocência
Despe sua última mentira
Doce doce peripécia
A Vida.
Por sobre o verde ditoso das folhas
As borboletas vivem grandes peripécias
Entrementes a inocência
Despe sua última mentira
Doce doce peripécia
A Vida.
901
Natasha Tinet
mice follies
nunca tive um olho mágico que funcionasse
atrás da porta, há sempre um aquário opaco
com peixes que não sabem que respiram
eu toco o relevo das minhas guelras
e abro todas as torneiras da casa
os pés envelhecidos se abrem em cortes de pele morta
deslizam no rinque de gelo da cozinha
já assistimos a esse desenho
torcíamos pelo rato, crescemos
somos o gato achatado contra a parede
preciso fazer um telefonema que não quero
me desculpe esse domingo no peito
eu não esperava escrever agora
mas, na esquina, uma cega disputa trocados
com um saxofonista, conheço esse jazz
você sabe, deus é um sádico
o diabo só tem uma grande autoestima.
atrás da porta, há sempre um aquário opaco
com peixes que não sabem que respiram
eu toco o relevo das minhas guelras
e abro todas as torneiras da casa
os pés envelhecidos se abrem em cortes de pele morta
deslizam no rinque de gelo da cozinha
já assistimos a esse desenho
torcíamos pelo rato, crescemos
somos o gato achatado contra a parede
preciso fazer um telefonema que não quero
me desculpe esse domingo no peito
eu não esperava escrever agora
mas, na esquina, uma cega disputa trocados
com um saxofonista, conheço esse jazz
você sabe, deus é um sádico
o diabo só tem uma grande autoestima.
748
Odysséas Elýtis
Já não conheço a noite
Já não conheço a noite, terrível anonimato da morte
No porto de minha alma ancora uma frota de astros.
Estrela da tarde, sentinela a refulgir na brisa
Celeste de uma ilha que me sonha
A proclamar de seus altos rochedos a alvorada
Meus dois olhos num abraço te acolhem com ó astro
Do meu vero coração: Já não conheço a noite.
Já não conheço os nomes de um mundo que me nega
Leio as conchas, as folhas, os astros com clareza
Meu ódio é supérfluo nos caminhos do céu
A menos seja o sonho vendo-me cruzar de novo
com lágrimas o mar da imortalidade
Estrela do mar, sob o arco dourado de teus fogos
Já não conheço a noite que é só noite.
No porto de minha alma ancora uma frota de astros.
Estrela da tarde, sentinela a refulgir na brisa
Celeste de uma ilha que me sonha
A proclamar de seus altos rochedos a alvorada
Meus dois olhos num abraço te acolhem com ó astro
Do meu vero coração: Já não conheço a noite.
Já não conheço os nomes de um mundo que me nega
Leio as conchas, as folhas, os astros com clareza
Meu ódio é supérfluo nos caminhos do céu
A menos seja o sonho vendo-me cruzar de novo
com lágrimas o mar da imortalidade
Estrela do mar, sob o arco dourado de teus fogos
Já não conheço a noite que é só noite.
832
António Ramos Rosa
Agora estou entre Sombras e Sombras
Agora estou entre sombras e sombras
deitado sobre a minha sombra fresca
Já não recordo o abandonado
Durmo no centro vazio do mundo
na estéril matriz
Da entranha da terra saí
e como pálida evidência vivi
Desertei da biografia e dos relógios
Há uma sombra fresca há um olhar que me vê
um olhar que procura na sombra centrar-se nos meus olhos
Eu sou o fugitivo incerto desse olhar
sobre a linha do mar
sobre o cimo das ondas
sobre a alta distância das estrelas
Porque ando e ando esperando em quê
com indecisões de um lado e com pedras do outro
com os involuntários gestos que nada significam
com esperas e encontros que atraiçoei no mais íntimo
com um coração soterrado há muito
sob mil Primaveras?
Quem ouviu tal silêncio
quem viu tal deserto
quem dormiu nesta cama
só poderá desejar
o súbito milagre
do mundo
muito para além dos olhos sujos dos homens
deitado sobre a minha sombra fresca
Já não recordo o abandonado
Durmo no centro vazio do mundo
na estéril matriz
Da entranha da terra saí
e como pálida evidência vivi
Desertei da biografia e dos relógios
Há uma sombra fresca há um olhar que me vê
um olhar que procura na sombra centrar-se nos meus olhos
Eu sou o fugitivo incerto desse olhar
sobre a linha do mar
sobre o cimo das ondas
sobre a alta distância das estrelas
Porque ando e ando esperando em quê
com indecisões de um lado e com pedras do outro
com os involuntários gestos que nada significam
com esperas e encontros que atraiçoei no mais íntimo
com um coração soterrado há muito
sob mil Primaveras?
Quem ouviu tal silêncio
quem viu tal deserto
quem dormiu nesta cama
só poderá desejar
o súbito milagre
do mundo
muito para além dos olhos sujos dos homens
1 112
Francisco Mallmann
I
trago-lhe boas notícias
finalmente será demolida
a parede e instalarão
para mim uma janela
nem posso acreditar
depois do tanto
que insisti
agora verei a ponte
agora verei o caminho
que fizeste ao fugir
fernando a vida é terrível
mas disseram-me que
às vezes se descansa eu
daqui mal posso esperar
finalmente será demolida
a parede e instalarão
para mim uma janela
nem posso acreditar
depois do tanto
que insisti
agora verei a ponte
agora verei o caminho
que fizeste ao fugir
fernando a vida é terrível
mas disseram-me que
às vezes se descansa eu
daqui mal posso esperar
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