Poemas neste tema
Alma
Edmir Domingues
soneto XIV - Um mundo como o nosso
A caravana estranha, grave e estranha,
dos limpa-chaminés, dos desgraçados,
aves já quase não de tão cansados,
as sombras deste bairro morto assanha.
Seguem. E a angústia mórbida acompanha
aqueles a seus olhos bem-amados,
que sonham meigos risos sufocados
que a lua faz de antigos quando banha.
Os limpa-chaminés só têm a rua
onde tombam de sono, a luz da lua
e essas canções que são de um mundo louco,
leves, vazias, feitas de tão pouco.
Canções que repetir tento e não posso
porque não são de um mundo como o nosso.
dos limpa-chaminés, dos desgraçados,
aves já quase não de tão cansados,
as sombras deste bairro morto assanha.
Seguem. E a angústia mórbida acompanha
aqueles a seus olhos bem-amados,
que sonham meigos risos sufocados
que a lua faz de antigos quando banha.
Os limpa-chaminés só têm a rua
onde tombam de sono, a luz da lua
e essas canções que são de um mundo louco,
leves, vazias, feitas de tão pouco.
Canções que repetir tento e não posso
porque não são de um mundo como o nosso.
684
Edmir Domingues
Soneto à mulher do próximo
Fendida seja um dia, pólo a pólo,
no remo que há fendido as águas densas
de outros corpos de formas quase imensas,
cavalgue a flor de sangue a flor do solo.
Outro não seja então que um novo Apolo
no amor de outra intenção que não de ofensas.
Sejam sinal das transitórias crenças
andorinhas de fogo no teu colo.
Haja um leito de espuma e de sargaços
nos caminhos do mar, e quanto aos passos
a chuva apaga-os sempre, quando chove.
Sob os ventos do céu de lua cheia
desfaçam-se os desejos sobre a areia,
sobre as letras limite, sobre o nove.
no remo que há fendido as águas densas
de outros corpos de formas quase imensas,
cavalgue a flor de sangue a flor do solo.
Outro não seja então que um novo Apolo
no amor de outra intenção que não de ofensas.
Sejam sinal das transitórias crenças
andorinhas de fogo no teu colo.
Haja um leito de espuma e de sargaços
nos caminhos do mar, e quanto aos passos
a chuva apaga-os sempre, quando chove.
Sob os ventos do céu de lua cheia
desfaçam-se os desejos sobre a areia,
sobre as letras limite, sobre o nove.
768
Edmir Domingues
soneto XIII - Partiu a ave esperança
Nos soluços enfermos desta noite
as enlutadas vozes falam claro,
e há tormento, Senhor, e entre o tormento
desejo inconfessável de suicídio.
Asas curvas, partiu a ave esperança
entre um sopro de vento, envolta em nuvens,
e restou-nos a nós somente a bruma
desencanto que vem dos sonhos poucos.
Lembrança de outras vozes, sosseqadas,
rir deus flautas de outrora, nunca ouvidas
no silêncio da noite onipresente.
Sugestões de abandono se refletem
do abafamento enorme dos sentidos
nesta noite maior que sai dos olhos.
as enlutadas vozes falam claro,
e há tormento, Senhor, e entre o tormento
desejo inconfessável de suicídio.
Asas curvas, partiu a ave esperança
entre um sopro de vento, envolta em nuvens,
e restou-nos a nós somente a bruma
desencanto que vem dos sonhos poucos.
Lembrança de outras vozes, sosseqadas,
rir deus flautas de outrora, nunca ouvidas
no silêncio da noite onipresente.
Sugestões de abandono se refletem
do abafamento enorme dos sentidos
nesta noite maior que sai dos olhos.
664
Edmir Domingues
soneto XXXII - São catorze
Há príncipes deitados sobre a areia,
olhares tristes, bocas ofegantes.
São catorze, buscando a noite feia,
e deixando a chorar catorze amantes.
Loucos são, mais que loucos, inconstantes,
por trocarem castelos por aldeia,
até que tragam ventos navegantes
o barco de marfim da lua cheia.
O vento traz sabores de invernada,
e os príncipes, deitados sobre a estrada,
banham-se em frustração que os acompanha.
Pois vestindo-se em múltipla importância
não puderam reter a antiga infância
e perderam-se um dia, ante a montanha.
olhares tristes, bocas ofegantes.
São catorze, buscando a noite feia,
e deixando a chorar catorze amantes.
Loucos são, mais que loucos, inconstantes,
por trocarem castelos por aldeia,
até que tragam ventos navegantes
o barco de marfim da lua cheia.
O vento traz sabores de invernada,
e os príncipes, deitados sobre a estrada,
banham-se em frustração que os acompanha.
Pois vestindo-se em múltipla importância
não puderam reter a antiga infância
e perderam-se um dia, ante a montanha.
582
Edmir Domingues
soneto XXXV - A rua do vento norte
Servos do rei, tomemos nossa barca,
(pena que tem as velas muito escuras!)
que é mandado busquemos aventuras
longe dos claros céus desta comarca.
E a noite não será das formas puras,
contracanto a canção jamais que parca,
tornará, para o rosto, a antiga marca
do sono, e as sugestões das desventuras.
Dirão que não me vá que a sombra é densa,
mas serei quando o mar vista a presença
a ausência que não quero e outra não posso,
e na rua onde o Vento Norte dança
somente uma canção, mas leve e mansa,
naquele Carnaval privado e nosso.
(pena que tem as velas muito escuras!)
que é mandado busquemos aventuras
longe dos claros céus desta comarca.
E a noite não será das formas puras,
contracanto a canção jamais que parca,
tornará, para o rosto, a antiga marca
do sono, e as sugestões das desventuras.
Dirão que não me vá que a sombra é densa,
mas serei quando o mar vista a presença
a ausência que não quero e outra não posso,
e na rua onde o Vento Norte dança
somente uma canção, mas leve e mansa,
naquele Carnaval privado e nosso.
790
Edmir Domingues
A bailarina dos sapatinhos de Andersen
De rua ou palco em sombras surge a imagem
que à festa das imagens comparece,
ao passo que por trás aranha tece
a teia complemento a essa paisagem
distante. Após, nos fumos, aparece
vestindo a prata e o cinza o estranho pajem
que a nós nos pareceu quase selvagem
se os sapatos vermelhos oferece.
E houve dança e houve morte, e morte e dança!
Enfim uma apatia suave e mansa
resposta a impulso de invisíveis molas.
E nós que fomos olhos, nunca passos,
desfizemos calores e cansaços
nos leques vegetais das castanholas.
que à festa das imagens comparece,
ao passo que por trás aranha tece
a teia complemento a essa paisagem
distante. Após, nos fumos, aparece
vestindo a prata e o cinza o estranho pajem
que a nós nos pareceu quase selvagem
se os sapatos vermelhos oferece.
E houve dança e houve morte, e morte e dança!
Enfim uma apatia suave e mansa
resposta a impulso de invisíveis molas.
E nós que fomos olhos, nunca passos,
desfizemos calores e cansaços
nos leques vegetais das castanholas.
635
Edmir Domingues
O espelho
Enfrento a face plana
assim como o faz quem
convoca os seus demônios
na calada da noite.
Mas não me reconheço
no duplo que me enfrenta.
Nos seus olhos amargos
nem na boca de febre
no amarelo da fronte
na mudez do semblante.
A fria superfície
de resto mineral,
não retrata o secreto
inconfessado anseio.
Que hiberna no silêncio
como a semente dorme
do trigo, sob a neve,
como o esporo invisível
no mar, da diatomácea,
os quais, cumprido o ciclo,
no vir da primavera,
rebentarão de vida
na força natural.
O espelho não conhece
o toque apenas cálido
do sol que a nuvem cobre.
E distorce o retrato,
se não supõe do estímulo
que avivará no breve
todo o anseio escondido.
Perdoo a estranha face
que inverte as realidades.
Porque sendo como é
só pode refletir
a amargura da febre,
que a face da esperança
escondida no íntimo
não pode ser sentida
no clima da inversão.
assim como o faz quem
convoca os seus demônios
na calada da noite.
Mas não me reconheço
no duplo que me enfrenta.
Nos seus olhos amargos
nem na boca de febre
no amarelo da fronte
na mudez do semblante.
A fria superfície
de resto mineral,
não retrata o secreto
inconfessado anseio.
Que hiberna no silêncio
como a semente dorme
do trigo, sob a neve,
como o esporo invisível
no mar, da diatomácea,
os quais, cumprido o ciclo,
no vir da primavera,
rebentarão de vida
na força natural.
O espelho não conhece
o toque apenas cálido
do sol que a nuvem cobre.
E distorce o retrato,
se não supõe do estímulo
que avivará no breve
todo o anseio escondido.
Perdoo a estranha face
que inverte as realidades.
Porque sendo como é
só pode refletir
a amargura da febre,
que a face da esperança
escondida no íntimo
não pode ser sentida
no clima da inversão.
674
Edmir Domingues
Cantiga, voltando-se.
Sendo os ventos alísios retomados
às margens deste rio nos tomamos
também, que embora em vozes de silêncio
o nosso longo amor foi dedicado
as águas do seu curso, há já decênios.
Nestas margens nos buscam, comovidos,
os príncipes, amigos de outro tempo,
os loucos, com seus passos muito vagos
pelas comuns heranças do abandono,
os pássaros do sono, com seus olhos
dos quais somente a sombra tem notícia.
No entanto essa estranheza nos persuade
de que a presença branca está conosco,
e com ela a lembrança das antigas
noites de amor, sem corpo, de inconcretas,
se avultava na sombra e na espessura
o exagero de algum comedimento.
Pois somos, e isto basta, nestas margens
de lama (para nós tão preciosa
como o mármore branco dos altares)
entre as palmas ao vento levantadas
e vivos e sensatos neste canto
E vivos e sensatos conhecendo
a solidão que somos e seremos
enquanto nos não chegue a madrugada
que há de vir, que por certo não demora,
tornando as mudas pedras das calçadas
em ninhos de andorinhas, por milagre.
Pois quando as duras pedras se tornarem
nos pássaros mais leves do hemisfério
ao peito arrancaremos suave rosa
que ali nasceu, raízes no infinito,
para dá-la ao regente, a rosa branca
guardada tanto tempo avaramente.
Eis que estaremos mortos sem remédio.
E as nossas barcas siderais pintadas
pelas cores noturnas do horizonte,
seguindo o Cão Maior terão por bússola
o roteiro de prata dessas águas.
Que este rio de passos compassados
é para nos tão grande quanto o mundo.
O que vemos talvez mais claramente
quando, por nos sabermos na distância,
temos lua e conhaque em nossos olhos
e um rumor de saudade em nossa boca.
às margens deste rio nos tomamos
também, que embora em vozes de silêncio
o nosso longo amor foi dedicado
as águas do seu curso, há já decênios.
Nestas margens nos buscam, comovidos,
os príncipes, amigos de outro tempo,
os loucos, com seus passos muito vagos
pelas comuns heranças do abandono,
os pássaros do sono, com seus olhos
dos quais somente a sombra tem notícia.
No entanto essa estranheza nos persuade
de que a presença branca está conosco,
e com ela a lembrança das antigas
noites de amor, sem corpo, de inconcretas,
se avultava na sombra e na espessura
o exagero de algum comedimento.
Pois somos, e isto basta, nestas margens
de lama (para nós tão preciosa
como o mármore branco dos altares)
entre as palmas ao vento levantadas
e vivos e sensatos neste canto
E vivos e sensatos conhecendo
a solidão que somos e seremos
enquanto nos não chegue a madrugada
que há de vir, que por certo não demora,
tornando as mudas pedras das calçadas
em ninhos de andorinhas, por milagre.
Pois quando as duras pedras se tornarem
nos pássaros mais leves do hemisfério
ao peito arrancaremos suave rosa
que ali nasceu, raízes no infinito,
para dá-la ao regente, a rosa branca
guardada tanto tempo avaramente.
Eis que estaremos mortos sem remédio.
E as nossas barcas siderais pintadas
pelas cores noturnas do horizonte,
seguindo o Cão Maior terão por bússola
o roteiro de prata dessas águas.
Que este rio de passos compassados
é para nos tão grande quanto o mundo.
O que vemos talvez mais claramente
quando, por nos sabermos na distância,
temos lua e conhaque em nossos olhos
e um rumor de saudade em nossa boca.
706
Edmir Domingues
Flautas e mar
Que noite pode ser, conquanto dia
se veja de aparência e circunstância
e se faça um perfume de distância
quando o perto que está se não queria.
Que em fumo se transforme rosa fria
fulminada nos gelos a fragrância,
e em países distantes como a Infância
à sombra saiba a luz, de fugidia.
Mas ainda há ternura em nossos dedos,
há pedaços de infância nos brinquedos
a par de ouvida música de mágoas.
Sempre há flautas e mar, diante do muro,
e ê possível se grite contra o escuro
que os poetas se nutrem dessas águas.
se veja de aparência e circunstância
e se faça um perfume de distância
quando o perto que está se não queria.
Que em fumo se transforme rosa fria
fulminada nos gelos a fragrância,
e em países distantes como a Infância
à sombra saiba a luz, de fugidia.
Mas ainda há ternura em nossos dedos,
há pedaços de infância nos brinquedos
a par de ouvida música de mágoas.
Sempre há flautas e mar, diante do muro,
e ê possível se grite contra o escuro
que os poetas se nutrem dessas águas.
542
Edmir Domingues
Fala às flores e aos ventos
Flor de cristal, nascida para o assombro
e a cinza da planície onde moramos,
desfalecida ou morta sobre a argila,
terna e frágil, no entanto abandonada.
Sem o vento, esse vento do planalto,
que já não desce aos quadros do cimento
trazendo o cheiro humilde dos seus bichos
para as nossas narinas de granito.
Nas planícies do espanto os nossos passos
não nos parecem já dos passos nossos,
se as esferas do mundo estão trocadas
e as cartas de roteiro indecifráveis.
O perfume da vida se transmuda
no estímulo de noite que atravessa
a solidão dos paços, onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
Ó ventos que sabeis das inquietudes
que velas são, nas mãos dos tresnoitados,
impulsos para a fuga, residentes
nas fronteiras de sono da loucura.
Nas vossas mãos, ó vento, a rude oferta
do que somos, do que de nós vos fica,
o corpo enfraquecido, o resto atento
ao clamor que nos rompe as coronárias.
Junto a adarga e florim serão deixados
os versos, por palavras, que não dizem,
de vez que se dissessem toda a vida
estaria de muito transformada.
E então, por esses campos de vermelho
repousaria o azul que nos descansa,
e nos olhos dos homens se leria
a humildade que há no olhar dos bichos.
Se a humildade dos bichos, a humildade
que nos falta, sobeja no planalto,
e os confins da distância nos prometem
se faça de matéria o que promessa,
guardada em nosso olhar a luz da infância
seja a esperança então de que retorne
quando o alento que resta nos transporte
aos caminhos da serra e da vertigem.
Iremos ao planalto, onde não subam
as aves de metal desta planície,
que o peso dos seus ovos assassinos
as deterá na terra onde nasceram.
0 planalto e seus homens e seus bichos
e suas águas leves e seus pássaros,
não nos esperarão quando subirmos
e nos darão surpresa á nossa vinda.
Às mulheres seremos pouco estranhos,
pois dançarão conosco, os braços dados,
toda a dança de paz que nós soubermos,
quando virem, que nós lhes mostraremos,
as nossas mãos de lágrima e silêncio.
Rosa de fogo, os risos do planalto
serão os risos nossos muito breve
e a nossa voz de sono e de tortura
será feita de nova consistência.
Pois nós, os homens novos, na altitude
dos novos pensamentos que teremos,
seremos do planalto devolvidos
aos caminhos de luz que nos esperam.
Ao perfume da vida, aos planos onde
o azul que foi plantado frutifica,
à solidão dos paços onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
e a cinza da planície onde moramos,
desfalecida ou morta sobre a argila,
terna e frágil, no entanto abandonada.
Sem o vento, esse vento do planalto,
que já não desce aos quadros do cimento
trazendo o cheiro humilde dos seus bichos
para as nossas narinas de granito.
Nas planícies do espanto os nossos passos
não nos parecem já dos passos nossos,
se as esferas do mundo estão trocadas
e as cartas de roteiro indecifráveis.
O perfume da vida se transmuda
no estímulo de noite que atravessa
a solidão dos paços, onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
Ó ventos que sabeis das inquietudes
que velas são, nas mãos dos tresnoitados,
impulsos para a fuga, residentes
nas fronteiras de sono da loucura.
Nas vossas mãos, ó vento, a rude oferta
do que somos, do que de nós vos fica,
o corpo enfraquecido, o resto atento
ao clamor que nos rompe as coronárias.
Junto a adarga e florim serão deixados
os versos, por palavras, que não dizem,
de vez que se dissessem toda a vida
estaria de muito transformada.
E então, por esses campos de vermelho
repousaria o azul que nos descansa,
e nos olhos dos homens se leria
a humildade que há no olhar dos bichos.
Se a humildade dos bichos, a humildade
que nos falta, sobeja no planalto,
e os confins da distância nos prometem
se faça de matéria o que promessa,
guardada em nosso olhar a luz da infância
seja a esperança então de que retorne
quando o alento que resta nos transporte
aos caminhos da serra e da vertigem.
Iremos ao planalto, onde não subam
as aves de metal desta planície,
que o peso dos seus ovos assassinos
as deterá na terra onde nasceram.
0 planalto e seus homens e seus bichos
e suas águas leves e seus pássaros,
não nos esperarão quando subirmos
e nos darão surpresa á nossa vinda.
Às mulheres seremos pouco estranhos,
pois dançarão conosco, os braços dados,
toda a dança de paz que nós soubermos,
quando virem, que nós lhes mostraremos,
as nossas mãos de lágrima e silêncio.
Rosa de fogo, os risos do planalto
serão os risos nossos muito breve
e a nossa voz de sono e de tortura
será feita de nova consistência.
Pois nós, os homens novos, na altitude
dos novos pensamentos que teremos,
seremos do planalto devolvidos
aos caminhos de luz que nos esperam.
Ao perfume da vida, aos planos onde
o azul que foi plantado frutifica,
à solidão dos paços onde pousam
os olhares dos anjos e dos pássaros.
700
Edmir Domingues
Galope à beira mar
Na beira do verde, do imenso, do eterno
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.
Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.
Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.
Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.
Recife. 1954.
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.
Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.
Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.
Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.
Recife. 1954.
829
Edmir Domingues
Onde se põe na lua as mágoas íntimas
Quando as asas do espanto, desfolhadas
sobre os muros do sono e do silêncio
foscas de tanto musgo que as invade
imergirem das pétalas do tempo,
noite, profunda e vasta como o sono,
como a névoa do chão, vasta e profunda,
se alongue sobre a prata dessas ondas
que guardam nossa fronte e nosso mundo.
E os sentimentos mudos, no silêncio,
tornando para o frêmito das salas,
sejam novos por fim, quando os idênticos
forem mortos da tanta antiguidade.
Noite de vozes roucas, precipícios
disfarçados no chão que não se espera,
onde deverá haver leve carícia
e mãos de carne em vez de mãos de pedra.
A luz resvala e é pouca, das esquinas
vem um vento sem cores e sem ritmos,
o junco nos espera e nós não vamos
quando nada nos prende à nossa cama.
Das nossas mãos, inermes da procura,
o sentido do tempo se desprende,
das viagens não viajadas por descuido
vêm tímidos fantasmas nesse vento,
e em tudo noite, e vasta e sem limite,
sem piscina e sem Lua e sem cantiga,
que o sentido do tempo se desprende
quando faltam sussurro e confidência.
Quando fosse vedado dizer Lua
nós diríamos Lua, com veemência,
que em mundo de aparência a face pura
(nos lagos em que dorme o nosso sangue)
Lua será na treva, sobre as águas,
o refúgio do parco pensamento,
cansado da suposta eternidade
que não resiste ao sopro inconsistente.
786
Edmir Domingues
Soneto ao boi
A grande voz das longas avenidas
não consegue abafar esse murmúrio
(sussurro de papoulas tenras, gritos
de agapantos azuis como a ternura)
derramado no chão. 0 campo cresce
na direta razão da nossa mágoa
com sorrisos de mágicas quermesses
multiplicando passos pela estrada.
A carne dos açougues, ainda viva,
se nutre desse verde, à luz da tarde,
os ossos dos botões passeiam tristes
protegidos no couro dos sapatos.
Alonga o olhar ao campo que perdemos
o boi que existe em nós, porque o comemos.
não consegue abafar esse murmúrio
(sussurro de papoulas tenras, gritos
de agapantos azuis como a ternura)
derramado no chão. 0 campo cresce
na direta razão da nossa mágoa
com sorrisos de mágicas quermesses
multiplicando passos pela estrada.
A carne dos açougues, ainda viva,
se nutre desse verde, à luz da tarde,
os ossos dos botões passeiam tristes
protegidos no couro dos sapatos.
Alonga o olhar ao campo que perdemos
o boi que existe em nós, porque o comemos.
722
Edmir Domingues
Memória de amor
Um grande amor resiste aos sofrimentos
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.
Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.
Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,
o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.
Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.
Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,
o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
720
Edmir Domingues
Sobre um tema de Li Tai Pó.
Na noite (se profunda) as nossas asas
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
se dissolvem num campo de perguntas,
que o desespero desce com seus passos
assim sejam cerradas as cortinas.
De seda não, de sombra, estranho musgo
que se projeta no longo das paredes
e tinge de cinzento as nossas almas
e derrama cinzento em nossa boca.
Por quanto tempo, quanto? o ouro, a prata,
por nossas leves mãos serão tocados?
E quanto durará, se a vida é breve,
a possessão das ânforas de jade?
Cem anos, não, não tanto. A esperança
nos não conduza às portas do exagero.
Vivemos por morrer. Esta a certeza
em tanto tempo aos homens ofertada.
Escutai! Na distância (é noite ainda
e a Lua por sinal se faz de prata)
um soturno macaco solitário
chora lágrimas tristes, sobre túmulos.
(A noite está profunda, as nossas asas
dissolvidas num campo de perguntas).
Enchei a nossa taça, a vida é breve,
ê tempo de esvaziá-la num momento.
788
Edmir Domingues
Corcel de espuma
Tordilhos, alazãos, cavalos baios
neste campo de mar nos são de espanto,
que é rosa a rosa, canto apenas canto,
e os cavalos são rendas, contemplai-os.
Jazem despertos, lúcidos lacaios
de vestes vagas cuidam no entretanto
do seu possível sono a bem de manto
para que os não de ventos e de raios.
Há cavalos vermelhos, mas não esses
porquanto quase azuis. Se os conhecesses –
não teria o meu reino e os meus cavalos.
Que ao fim seriam teus, que és feita em bruma,
esses que são de mim corcéis de espuma
de quem só sabe azul no contemplá-los.
neste campo de mar nos são de espanto,
que é rosa a rosa, canto apenas canto,
e os cavalos são rendas, contemplai-os.
Jazem despertos, lúcidos lacaios
de vestes vagas cuidam no entretanto
do seu possível sono a bem de manto
para que os não de ventos e de raios.
Há cavalos vermelhos, mas não esses
porquanto quase azuis. Se os conhecesses –
não teria o meu reino e os meus cavalos.
Que ao fim seriam teus, que és feita em bruma,
esses que são de mim corcéis de espuma
de quem só sabe azul no contemplá-los.
791
Edmir Domingues
Ao infante navegador
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
E as nossas faces, nossas frontes,
as nossas cãs da insônia tanta,
jazem despertas, debruçadas
neste outro mar dos instrumentos.
Onde andarão as nossas naves
no mar da bruma e da incerteza?
Onde andarão irmãos, amigos,
no mar de breu, de sorvedouros?
O Infante espia e cisma e sonha.
Eu, sacerdote do mistério,
sempre a seu lado, apuro os filtros,
espanto os gatos e os morcegos
avivo os fogos do braseiro.
(Viva bem vivo o sortilégio
para espantar os monstros feros
que habitam sempre o Tenebroso).
Zarco, Tris tão, Eanes, Velho,
Bartolomeu, Diogo Cão,
onde estarão na noite imensa?
(Dizem que quem no mar de trevas
haja por hem se aventurar
em pouco instante será velho
já não terá noção do tempo).
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
O Infante espia o espaço e cisma.
Onde andarão as nossas naves
em meio aos vórtices do espaço?
Será que acaso já dobraram
O Cabo Não e Marte, e Vênus
e o Bojador, e acaso acharam
Catay, Saturno, Taprohana,
Cipango e o Décimo Planeta,
Lua e o País do Preste João?
Caminho líquido das índias
aérea rota para Andrômeda.
Sagres então, Canaveral
agora, e sempre, e em toda a vida.
No promontório o Infante cisma
e a guerra santa nos promete.
Aos habitantes das esferas
em breve luta sujeitados -
temos de impor a fé de Cristo
e difundir nosso Evangelho.
penetra o Mar do Fim do Mundo.
E as nossas faces, nossas frontes,
as nossas cãs da insônia tanta,
jazem despertas, debruçadas
neste outro mar dos instrumentos.
Onde andarão as nossas naves
no mar da bruma e da incerteza?
Onde andarão irmãos, amigos,
no mar de breu, de sorvedouros?
O Infante espia e cisma e sonha.
Eu, sacerdote do mistério,
sempre a seu lado, apuro os filtros,
espanto os gatos e os morcegos
avivo os fogos do braseiro.
(Viva bem vivo o sortilégio
para espantar os monstros feros
que habitam sempre o Tenebroso).
Zarco, Tris tão, Eanes, Velho,
Bartolomeu, Diogo Cão,
onde estarão na noite imensa?
(Dizem que quem no mar de trevas
haja por hem se aventurar
em pouco instante será velho
já não terá noção do tempo).
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
O Infante espia o espaço e cisma.
Onde andarão as nossas naves
em meio aos vórtices do espaço?
Será que acaso já dobraram
O Cabo Não e Marte, e Vênus
e o Bojador, e acaso acharam
Catay, Saturno, Taprohana,
Cipango e o Décimo Planeta,
Lua e o País do Preste João?
Caminho líquido das índias
aérea rota para Andrômeda.
Sagres então, Canaveral
agora, e sempre, e em toda a vida.
No promontório o Infante cisma
e a guerra santa nos promete.
Aos habitantes das esferas
em breve luta sujeitados -
temos de impor a fé de Cristo
e difundir nosso Evangelho.
773
Edmir Domingues
A mascarada
Senhora, se do amor a mascarada
os olhos meus me cega e me angústia,
que sejam vossos olhos alegria
àqueles onde a mágoa está guardada
Que sejam como a luz da chama pura
do sol, que às vezes cega a vista humana,
mas que ê da mesma e sempre soberana
se a prefere ao sabor da noite escura.
Que sejam o horizonte manifesto
que a promessa de vida revigora,
expresso ou por um riso ou por um gesto
de natural calor, gentil senhora
Dizendo ao céu e ao mar e à chuva e ao vento
que todo mal de amor tem valimento .
os olhos meus me cega e me angústia,
que sejam vossos olhos alegria
àqueles onde a mágoa está guardada
Que sejam como a luz da chama pura
do sol, que às vezes cega a vista humana,
mas que ê da mesma e sempre soberana
se a prefere ao sabor da noite escura.
Que sejam o horizonte manifesto
que a promessa de vida revigora,
expresso ou por um riso ou por um gesto
de natural calor, gentil senhora
Dizendo ao céu e ao mar e à chuva e ao vento
que todo mal de amor tem valimento .
773
Edmir Domingues
Soneto de Arquiduques
Arquiduques de um reino soterrado
na planície de cal que nada altera,
bebamos essa luz de primavera
que desponta e que cresce a nosso lado.
Arquiduques sem fâmulos a espera,
sem a paz que respira o arquiducado,
residentes no sono prolongado
onde atua a mais lúcida atmosfera.
De um reino de glicínias arquiduques
não sorrimos às flores que são truques
de ébrios e maus prestidigitadores,
como as vossas, terrestres ou submersas,
nas terras e nas águas são diversas
das que estão sob a cal preciosas flores.
na planície de cal que nada altera,
bebamos essa luz de primavera
que desponta e que cresce a nosso lado.
Arquiduques sem fâmulos a espera,
sem a paz que respira o arquiducado,
residentes no sono prolongado
onde atua a mais lúcida atmosfera.
De um reino de glicínias arquiduques
não sorrimos às flores que são truques
de ébrios e maus prestidigitadores,
como as vossas, terrestres ou submersas,
nas terras e nas águas são diversas
das que estão sob a cal preciosas flores.
683
Edmir Domingues
A bailarina dos sapatinhos de Andersen
De rua ou palco em sombras surge a imagem
que à festa das imagens comparece,
ao passo que por trás aranha tece
a teia complemento a essa paisagem
distante. Após, nos fumos, aparece
vestindo a prata e o cinza o estranho pajem
que a nós nos pareceu quase selvagem
se os sapatos vermelhos oferece.
E houve dança e houve morte, e morte e dança!
Enfim uma apatia suave e mansa
resposta a impulso de invisíveis molas.
E nós que fomos olhos, nunca passos,
desfizemos calores e cansaços
nos leques vegetais das castanholas.
que à festa das imagens comparece,
ao passo que por trás aranha tece
a teia complemento a essa paisagem
distante. Após, nos fumos, aparece
vestindo a prata e o cinza o estranho pajem
que a nós nos pareceu quase selvagem
se os sapatos vermelhos oferece.
E houve dança e houve morte, e morte e dança!
Enfim uma apatia suave e mansa
resposta a impulso de invisíveis molas.
E nós que fomos olhos, nunca passos,
desfizemos calores e cansaços
nos leques vegetais das castanholas.
620
Edmir Domingues
Soneto da vinda
Venha quando não possa (quando possa
nos não será valor porque podia)
que as ilhas da neblina são tangíveis
no mundo de intangíveis fundamentos,
a que se tenha então por flecha e folha
sem o mundo de asfalto e de alumínio
e esses prefira, essência em sombra e vento,
aos cogumelos neutros da avenida,
para a veste do amor, que amor dá veste
a quem por seu amor se despe e deixa
o seu porto de velas e de mastros,
e outras sombras prefere que essa sombra
de ventos que nos varrem da memória
aos cogumelos neutros da avenida
nos não será valor porque podia)
que as ilhas da neblina são tangíveis
no mundo de intangíveis fundamentos,
a que se tenha então por flecha e folha
sem o mundo de asfalto e de alumínio
e esses prefira, essência em sombra e vento,
aos cogumelos neutros da avenida,
para a veste do amor, que amor dá veste
a quem por seu amor se despe e deixa
o seu porto de velas e de mastros,
e outras sombras prefere que essa sombra
de ventos que nos varrem da memória
aos cogumelos neutros da avenida
668
Edmir Domingues
Os esquecidos azuis de cobalto
No horizonte de sono das palavras
os sete monges magros pontificam.
E a voz das pregações que sempre cantam
não sabe compreensão nem ressonância,
se nas terras de inverno e areia morta
os que guardam de ouvidos não residem.
Porém silêncio, em dobras incontáveis,
onde repousam árvores de pedra
de longos braços nus dependurados
sobre o solo de pedra em que se ergueram.
Cujas sementes sete magos vesgos
fabricaram na sombra dos escombros
e as entregaram presto aos ventos loucos
que em danças de loucura as sacudiram
nas planícies de pedra e de silêncio.
É pois perdido o canto de ternura
que havíamos composto, (no intervalo
dessas horas de sangue e sacrifício),
que o uníssono das vozes cantaria
quando os nobres cansados da nobreza
sentindo-se descalços se sorrissem.
Pois os pastores bêbedos e os magos
tão bêbedos também quanto os pastores,
uns contra os outros lutam nas esquinas
e engendram cogumelos, do cobalto
que a nós nos pertencia, e era guardado
para fazer o azul quanto alimenta.
E cortam nossa voz que sabem fraca
se guardam ferro e fogo e nós só temos
um canteiro de rosas desmanchadas,
a noite e os seus mastins de pelo negro.
Mas eis que a noite já não nos pertence.
A noite, que era nossa, se ressente
da invasão das risadas dos estranhos
que vestem roupa preta e andam de noite
sem que o amor da poesia os leve à sombra.
Mas que buscam no escuro a integração
dos seus corpos vazios nesse escuro
quando a luz os ofusca e os entontece
e esses não são de bem que os incomodem.
Não nos importam nossas cinco chagas
se os espinhos da rosa que as fizeram
nas nossas frágeis mãos foram perfume.
Mas dói-nos quando o mal que nos atinja
não traga o seu perfume entre o cinzento.
Pois outrora era o amor, e de cobalto
se preparava azul, enquanto agora
são feitos cogumelos de cobalto
e as tintas do cinzento se difundem.
Daí o desamor que nos atinge
a nós que só de amor temos vivido,
o horrível desespero que nos ronda
a pouquíssima chama que nos mostra
que deve haver num ponto além do espaço
a ilha de esperança que buscamos.
Nessa ilha de ternura, quando a achemos,
a laranjeira exista e frutifique,
que em torno todos nós semearemos
os azuis de cobalto que tivermos.
Que em país de laranjas e outros pomos
poremos nosso reino incipiente,
e às bordas do seu mar descansaremos
deitados sobre a face do impossível.
os sete monges magros pontificam.
E a voz das pregações que sempre cantam
não sabe compreensão nem ressonância,
se nas terras de inverno e areia morta
os que guardam de ouvidos não residem.
Porém silêncio, em dobras incontáveis,
onde repousam árvores de pedra
de longos braços nus dependurados
sobre o solo de pedra em que se ergueram.
Cujas sementes sete magos vesgos
fabricaram na sombra dos escombros
e as entregaram presto aos ventos loucos
que em danças de loucura as sacudiram
nas planícies de pedra e de silêncio.
É pois perdido o canto de ternura
que havíamos composto, (no intervalo
dessas horas de sangue e sacrifício),
que o uníssono das vozes cantaria
quando os nobres cansados da nobreza
sentindo-se descalços se sorrissem.
Pois os pastores bêbedos e os magos
tão bêbedos também quanto os pastores,
uns contra os outros lutam nas esquinas
e engendram cogumelos, do cobalto
que a nós nos pertencia, e era guardado
para fazer o azul quanto alimenta.
E cortam nossa voz que sabem fraca
se guardam ferro e fogo e nós só temos
um canteiro de rosas desmanchadas,
a noite e os seus mastins de pelo negro.
Mas eis que a noite já não nos pertence.
A noite, que era nossa, se ressente
da invasão das risadas dos estranhos
que vestem roupa preta e andam de noite
sem que o amor da poesia os leve à sombra.
Mas que buscam no escuro a integração
dos seus corpos vazios nesse escuro
quando a luz os ofusca e os entontece
e esses não são de bem que os incomodem.
Não nos importam nossas cinco chagas
se os espinhos da rosa que as fizeram
nas nossas frágeis mãos foram perfume.
Mas dói-nos quando o mal que nos atinja
não traga o seu perfume entre o cinzento.
Pois outrora era o amor, e de cobalto
se preparava azul, enquanto agora
são feitos cogumelos de cobalto
e as tintas do cinzento se difundem.
Daí o desamor que nos atinge
a nós que só de amor temos vivido,
o horrível desespero que nos ronda
a pouquíssima chama que nos mostra
que deve haver num ponto além do espaço
a ilha de esperança que buscamos.
Nessa ilha de ternura, quando a achemos,
a laranjeira exista e frutifique,
que em torno todos nós semearemos
os azuis de cobalto que tivermos.
Que em país de laranjas e outros pomos
poremos nosso reino incipiente,
e às bordas do seu mar descansaremos
deitados sobre a face do impossível.
624
Edmir Domingues
Canção amarga
A pompa e a circunstância não me tentam.
Sei dos males do mundo, da humildade
que devem ter os que andam pelo Vale.
Se a vida é breve e vã, como sabermos,
se vamos, se não vamos para a morte?
A morte ê a companheira cotidiana.
A segurança ê um mito, a rosa esconde
o novelo das línguas bipartidas
das áspides que estão sob a folhagem.
A traição é o Nome, a permanência
nestes tempos de coisas provisórias,
o uisque das garrafas é tão falso
quanto a moeda com que foi comprado.
0 mar da mágoa é vivo e vai tragando
o escuro barco nosso, que desaba.
Náufrago. Exista, pois, essa coragem
de assim reconhecer, porque é preciso.
0 resto é a noite, a noite imensa, a noite,
a noite dos mais trágicos fantasmas,
onde vêm ecoar risos convulsos
da convulsa histeria onipresente,
a circunstância e a pompa que a outros tentam.
Sei dos males do mundo, da humildade
que devem ter os que andam pelo Vale.
Se a vida é breve e vã, como sabermos,
se vamos, se não vamos para a morte?
A morte ê a companheira cotidiana.
A segurança ê um mito, a rosa esconde
o novelo das línguas bipartidas
das áspides que estão sob a folhagem.
A traição é o Nome, a permanência
nestes tempos de coisas provisórias,
o uisque das garrafas é tão falso
quanto a moeda com que foi comprado.
0 mar da mágoa é vivo e vai tragando
o escuro barco nosso, que desaba.
Náufrago. Exista, pois, essa coragem
de assim reconhecer, porque é preciso.
0 resto é a noite, a noite imensa, a noite,
a noite dos mais trágicos fantasmas,
onde vêm ecoar risos convulsos
da convulsa histeria onipresente,
a circunstância e a pompa que a outros tentam.
769
Edmir Domingues
O espelho retrovisor
Vejo o presente de há pouco
no espelho retrovisor.
A casa passada, a árvore
passada, o tempo passado,
no espelho retrovisor,
espelho que me devolve
o meu presente de há pouco.
Eis reflito. Ou quem reflete
é o espelho da viatura?
Siqo em frente. Vale a pena
acaso seguir-se em frente?
Mas há que às vezes não há
sequer um outro caminho.
Nossas pernas de borracha,
nossas pernas circulares,
nos levam irremediável-
mente em frente, sempre em frente.
As nossas pernas de carne
acaso não serviriam
para o andarmos em círculo?
Marchar a ré faz-se inútil
no engano do reencontro.
Não é o mesmo o momento,
nem ê a mesma a paisagem,
cairam folhas das árvores
e pensamentos da fronte.
O espelho retrovisor
é apenas um engano
a mais, no jogo de enganos.
Espelho, luz apresada
nos seus limites estreitos,
espelho que não devolve
o infante na sua infância,
nos mostra o inda há pouco e mostra
o inevitável caminho.
no espelho retrovisor.
A casa passada, a árvore
passada, o tempo passado,
no espelho retrovisor,
espelho que me devolve
o meu presente de há pouco.
Eis reflito. Ou quem reflete
é o espelho da viatura?
Siqo em frente. Vale a pena
acaso seguir-se em frente?
Mas há que às vezes não há
sequer um outro caminho.
Nossas pernas de borracha,
nossas pernas circulares,
nos levam irremediável-
mente em frente, sempre em frente.
As nossas pernas de carne
acaso não serviriam
para o andarmos em círculo?
Marchar a ré faz-se inútil
no engano do reencontro.
Não é o mesmo o momento,
nem ê a mesma a paisagem,
cairam folhas das árvores
e pensamentos da fronte.
O espelho retrovisor
é apenas um engano
a mais, no jogo de enganos.
Espelho, luz apresada
nos seus limites estreitos,
espelho que não devolve
o infante na sua infância,
nos mostra o inda há pouco e mostra
o inevitável caminho.
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