Poemas neste tema
Alma
Lenilde Freitas
A Sylvia Plath
Ouve os pombos, S...
o arrulho que eles fazem.
São sempre tão delicadas
as margaridas
e imprensada entre ladrilhos
cresce a grama.
Ouve os pombos, S...
se o tédio te aprisiona
entre estas asas úmidas
que não chegam às estrelas
nem vêem seu brilho.
Ouve, S... o arrulho que eles fazem.
Viver é doce. Cada dia tem seu som
cada som, sua gama.
1 012
Angela Santos
Serpente
Salvé
Eva
mãe de tudo o que é…
O teu gesto hábil
trouxe o gosto pela ousadia
e nos fez saber
ir pra além do medo..
Salvé Eva
teu corpo é fruto
que o fruto dá
Eva,
Mãe,
Mulher,
escrava libertadora
à força de o ser!
Eva
mãe de tudo o que é…
O teu gesto hábil
trouxe o gosto pela ousadia
e nos fez saber
ir pra além do medo..
Salvé Eva
teu corpo é fruto
que o fruto dá
Eva,
Mãe,
Mulher,
escrava libertadora
à força de o ser!
1 194
Lúcia Villares
Lua
Lua,
me ensina essa calma
branca,
sua.
Lua,
me beija a polpa da carne,
me inscreve
a maré.
(Iluminar areia
estender a onda,
é lua.)
Lua,
me ensina
essa tua cara aberta
descosida e nua.
Sua.
Lua,
me mostra
a estação das vindas,
os cestos de trigo,
a multidão dos bóias-frias.
me ensina essa calma
branca,
sua.
Lua,
me beija a polpa da carne,
me inscreve
a maré.
(Iluminar areia
estender a onda,
é lua.)
Lua,
me ensina
essa tua cara aberta
descosida e nua.
Sua.
Lua,
me mostra
a estação das vindas,
os cestos de trigo,
a multidão dos bóias-frias.
1 103
Angela Santos
Utopia
O
sonho mais longínquo
ou a mais utópica meta
se alcançam à força de tanto querer
o longe de mim se acerca
e o sonho irrompe em verdade
se for o querer bastante,
se minha alma crescer
e derrubar os limites
da mais crua realidade
Uma estrela pode então
não ser apenas o ponto
que brilha distante no espaço sideral
mas essa coisa bonita
que colho na luz dos teus olhos
ou o calor de hélio puro
que explode no meu coração.
sonho mais longínquo
ou a mais utópica meta
se alcançam à força de tanto querer
o longe de mim se acerca
e o sonho irrompe em verdade
se for o querer bastante,
se minha alma crescer
e derrubar os limites
da mais crua realidade
Uma estrela pode então
não ser apenas o ponto
que brilha distante no espaço sideral
mas essa coisa bonita
que colho na luz dos teus olhos
ou o calor de hélio puro
que explode no meu coração.
1 038
Angela Santos
Brumas
Via-te
chegar de manso
ao compasso da manhã
ainda coberta de
brumas
Via-te chegar
carregando luz aos cachos
no cabelo
e nos olhos o espanto,
sinal dos que olhando
acordam
Vinhas ao meu encontro,
serena, dir-se-ia
mas a tua alma, do signo da inquietação
espelhava-te sem o saberes
E ali quieta, olhando-me
com a impaciência
de quem carrega esperas,
procuravas no fundo de mim
o que lá não estava
e assustada
repelias o meu silencio.
Via-te partir
com mansidão igual à chegada
como se entre o chegar e partir
não existisse senão
o minúsculo "e" que os separa
Não sei bem
se partias ou ficavas
no fundo do fundo
que não vias em mim.
chegar de manso
ao compasso da manhã
ainda coberta de
brumas
Via-te chegar
carregando luz aos cachos
no cabelo
e nos olhos o espanto,
sinal dos que olhando
acordam
Vinhas ao meu encontro,
serena, dir-se-ia
mas a tua alma, do signo da inquietação
espelhava-te sem o saberes
E ali quieta, olhando-me
com a impaciência
de quem carrega esperas,
procuravas no fundo de mim
o que lá não estava
e assustada
repelias o meu silencio.
Via-te partir
com mansidão igual à chegada
como se entre o chegar e partir
não existisse senão
o minúsculo "e" que os separa
Não sei bem
se partias ou ficavas
no fundo do fundo
que não vias em mim.
1 029
Angela Santos
A Sós
Vai!
hoje só preciso de mim
Vai!
deixa ficar a tua imagem
o teu riso
teus gestos infantis
para que neles eu beba
a nostalgia
do tempo sem memória
Vai!
hoje só me quero a mim!
hoje só preciso de mim
Vai!
deixa ficar a tua imagem
o teu riso
teus gestos infantis
para que neles eu beba
a nostalgia
do tempo sem memória
Vai!
hoje só me quero a mim!
1 102
Angela Santos
Declaração
Amo!
Decidi escrever em todos os cantos
e muros por onde passasse
e até riscar teu nome a grafitti,
quem sabe desenhar uma tatuagem
ao jeito dos marinheiros,
escrever um artigo de jornal sobre o amor
e nele desenhar o teu nome e o meu
e um coração a envolvê-los
Mas pensei
que amar-te é um facto
coisa que mexe por dentro
e por assim ser, por fora se vê
o que dentro do coração vive
Pensei, repensei , concluí
todos sabiam, todos notavam
que um nome e um sentir
bordavam meus dias
de azul e luz
Decidi sem pudores confessar-me a ti,
soltar em voz alta
o que vezes calei
para deixar que os olhos, a alma e o desejo
em suas explosões imprimissem marcas,
as que eu quis deixar gravadas por aí
Mas foi em sussurro que à boca aflorou
a palavra mel …
uma só palavra que em si contém
o sentido todo,
mesmo que a tragam por aí prostituída
e imprimam nela o cunho das palavras gastas,
"Meu Amor" é uma expressão
que guarda o brilho de pedras raras.
Decidi escrever em todos os cantos
e muros por onde passasse
e até riscar teu nome a grafitti,
quem sabe desenhar uma tatuagem
ao jeito dos marinheiros,
escrever um artigo de jornal sobre o amor
e nele desenhar o teu nome e o meu
e um coração a envolvê-los
Mas pensei
que amar-te é um facto
coisa que mexe por dentro
e por assim ser, por fora se vê
o que dentro do coração vive
Pensei, repensei , concluí
todos sabiam, todos notavam
que um nome e um sentir
bordavam meus dias
de azul e luz
Decidi sem pudores confessar-me a ti,
soltar em voz alta
o que vezes calei
para deixar que os olhos, a alma e o desejo
em suas explosões imprimissem marcas,
as que eu quis deixar gravadas por aí
Mas foi em sussurro que à boca aflorou
a palavra mel …
uma só palavra que em si contém
o sentido todo,
mesmo que a tragam por aí prostituída
e imprimam nela o cunho das palavras gastas,
"Meu Amor" é uma expressão
que guarda o brilho de pedras raras.
1 063
Angela Santos
Dança
E
se um dia eu chegasse
ao jeito dos bandidos,
e sem notícia,
acordasse os teu sentidos?
Há um corpo que vibra em segredo
o teu,
e o meu que o pressente
sem ousar arrancar-te ao sono
e trazer-te para a praça
onde Afrodite nos convida
a entrar na dança…
Vem que se adivinha
no teu olhar negro, fugidio
a indiferença simulada
do desejo.
Vem!
é tempo de acontecer
amor!
se um dia eu chegasse
ao jeito dos bandidos,
e sem notícia,
acordasse os teu sentidos?
Há um corpo que vibra em segredo
o teu,
e o meu que o pressente
sem ousar arrancar-te ao sono
e trazer-te para a praça
onde Afrodite nos convida
a entrar na dança…
Vem que se adivinha
no teu olhar negro, fugidio
a indiferença simulada
do desejo.
Vem!
é tempo de acontecer
amor!
1 091
Nathálie Pottier Gama Duarte
Traição
Na escuridão,
Vejo a luz
Nesta descompaixão,
Vejo o amor
Como podes
Falar mentira?
Enquanto emana a verdade
Como podes
Jurar amor?
Enquanto fico aqui
Na saudade
Seu amor é uma mentira
Juras de amor e traição
Você me beija com ternura
Depois me machuca no coração
Enquanto penso estar segura
Nos seus braços
Você me deixa no vazio
Vai embora
Sem dizer nada
O que me diz? O que me diz?
Dessa grande solidão
O que me conta? O que me conta?
Vem amor, Me ajude
Te peço
Assim não vai dar não.
Vejo a luz
Nesta descompaixão,
Vejo o amor
Como podes
Falar mentira?
Enquanto emana a verdade
Como podes
Jurar amor?
Enquanto fico aqui
Na saudade
Seu amor é uma mentira
Juras de amor e traição
Você me beija com ternura
Depois me machuca no coração
Enquanto penso estar segura
Nos seus braços
Você me deixa no vazio
Vai embora
Sem dizer nada
O que me diz? O que me diz?
Dessa grande solidão
O que me conta? O que me conta?
Vem amor, Me ajude
Te peço
Assim não vai dar não.
869
Angela Santos
Cansaço
Desejado
Nas
dobras dos lençóis de linho
exala-se um suspiro
que enche a tarde de languidez
e paz
Aromas de paixão soltos pelo ar
corpos que se abandonam
à volúpia e ao amor.
A serenidade sobrevem
ao cansaço desejado
e invade a tarde morna que cai
Longe do mundo e tão perto de si,
dois corpos amantes esquecem que há tempo
e retêm só o mágico instante
do total abandono
de seus corpos irmãos no reencontro.
Nas
dobras dos lençóis de linho
exala-se um suspiro
que enche a tarde de languidez
e paz
Aromas de paixão soltos pelo ar
corpos que se abandonam
à volúpia e ao amor.
A serenidade sobrevem
ao cansaço desejado
e invade a tarde morna que cai
Longe do mundo e tão perto de si,
dois corpos amantes esquecem que há tempo
e retêm só o mágico instante
do total abandono
de seus corpos irmãos no reencontro.
1 103
Angela Santos
Volúpia
Noite
mansamente me convidas…
e um instante mágico
te transforma num enlace
de mulher…
E por dentro de mim
oiço só o coração…
e agitada abandono-me
à volúpia do amor na noite.
na noite…
mansamente me convidas…
e um instante mágico
te transforma num enlace
de mulher…
E por dentro de mim
oiço só o coração…
e agitada abandono-me
à volúpia do amor na noite.
na noite…
1 168
Lenilde Freitas
A Alfonsina Storni
O bulício do amanhecer
destranca as portas da sabedoria.
É o mesmo e não é o mesmo
o destino dos homens.
Com a chuva vigorosa,
as enredadeiras se desvencilham
dos muros os ventos recuam e
poucas cigarras sobrevivem.
Assim, agora.
A mulher
– passante -
se desveste da cor cambiante do sonho.
destranca as portas da sabedoria.
É o mesmo e não é o mesmo
o destino dos homens.
Com a chuva vigorosa,
as enredadeiras se desvencilham
dos muros os ventos recuam e
poucas cigarras sobrevivem.
Assim, agora.
A mulher
– passante -
se desveste da cor cambiante do sonho.
921
Lúcia Villares
Cynthia
Após menstruar
sou generosa em atos exteriores
propícia a arriscar tudo que tenho.
Pontadas despertam meu seio,
o vento da rua é quente
e amar é conquista.
O décimo quinto dia passa sem que eu perceba.
Depois,
sou propensa à provisão
e à placenta.
O corpo desce rente à terra,
inflamado de dor.
Amar é reconhecer
um grão de milho,
essas coisas túrgidas.
sou generosa em atos exteriores
propícia a arriscar tudo que tenho.
Pontadas despertam meu seio,
o vento da rua é quente
e amar é conquista.
O décimo quinto dia passa sem que eu perceba.
Depois,
sou propensa à provisão
e à placenta.
O corpo desce rente à terra,
inflamado de dor.
Amar é reconhecer
um grão de milho,
essas coisas túrgidas.
1 176
Angela Santos
Alma-Gémea
Tu
que não oiço, não vejo
só pressinto
és o pedaço que pode refazer
minha alma mutilada
Tu por quem desfio esperas
Deus sabe,
se a este encontro virás.
Deus sabe
se um dia ao acordar,
tua alma sentirá o frémito
de um outro pedaço,
o meu
gémea-alma
nela a vibrar.
que não oiço, não vejo
só pressinto
és o pedaço que pode refazer
minha alma mutilada
Tu por quem desfio esperas
Deus sabe,
se a este encontro virás.
Deus sabe
se um dia ao acordar,
tua alma sentirá o frémito
de um outro pedaço,
o meu
gémea-alma
nela a vibrar.
1 104
Angela Santos
Noite
Do
fundo da noite
se erguem meus olhos
alucinados……
salto do sonho.. e vivo
meus braços estendem-se
à transparência azul
que se acerca e julgo-me
tocada pelo infinito
Néon rasgando os meus olhos,
metamorfose de luz em mim…
Noite, noite..
teu fogo sou meu cio extingues
noite, dentro de ti
o meu sonho vive.
fundo da noite
se erguem meus olhos
alucinados……
salto do sonho.. e vivo
meus braços estendem-se
à transparência azul
que se acerca e julgo-me
tocada pelo infinito
Néon rasgando os meus olhos,
metamorfose de luz em mim…
Noite, noite..
teu fogo sou meu cio extingues
noite, dentro de ti
o meu sonho vive.
1 086
Carla Dias
Suicida
Seria suicídio
se eu levantasse, derrubasse os lençóis
e dançasse?
Os homens dançam
enquanto doem!
Enquanto caçam uma lembrança
para transformá-la
em virtual realidade.
Será que você entende?
Você que me escuta
sem pluralizar minhas palavras?
Você, tão cuidadoso com seu dia,
sem querer desperdiçá-lo
com instantes...
Seria um milagre
se eu revirasse as gavetas
e encontrasse um sonho?
Onde eu pudesse cantar,
exorcizar o silêncio...
Venha...
Venha dançar e acredite,
ainda sei encontrar alguém
e olhar dentro dos olhos dele!
Ainda...
se eu levantasse, derrubasse os lençóis
e dançasse?
Os homens dançam
enquanto doem!
Enquanto caçam uma lembrança
para transformá-la
em virtual realidade.
Será que você entende?
Você que me escuta
sem pluralizar minhas palavras?
Você, tão cuidadoso com seu dia,
sem querer desperdiçá-lo
com instantes...
Seria um milagre
se eu revirasse as gavetas
e encontrasse um sonho?
Onde eu pudesse cantar,
exorcizar o silêncio...
Venha...
Venha dançar e acredite,
ainda sei encontrar alguém
e olhar dentro dos olhos dele!
Ainda...
972
Angela Santos
Desprendimento
Voa
o pensamento para lá dos dias
e trazem consigo momentos eternos
vividos a rodos de sofreguidão
receosos do tempo, e sua verdade,
lento a escoar-se na imensidão
E o pensamento voa
e regressa ao lugar onde te vejo
ao chão onde te amo
ao sofá onde deitas o teu corpo e o teu cansaço
ao cigarro que fumamos
ao toque de nossas mãos
a vibração de nossos corpos trémulos
rasgados de desejo
Voa o pensamento
e bebe na memória e nos sinais
no cheiro que trago em mim
na melodia que ecoa na minha alma
e até das margens do meu silêncio
onde nebulosas se erguem as palavras
que eu calo por amor.
o pensamento para lá dos dias
e trazem consigo momentos eternos
vividos a rodos de sofreguidão
receosos do tempo, e sua verdade,
lento a escoar-se na imensidão
E o pensamento voa
e regressa ao lugar onde te vejo
ao chão onde te amo
ao sofá onde deitas o teu corpo e o teu cansaço
ao cigarro que fumamos
ao toque de nossas mãos
a vibração de nossos corpos trémulos
rasgados de desejo
Voa o pensamento
e bebe na memória e nos sinais
no cheiro que trago em mim
na melodia que ecoa na minha alma
e até das margens do meu silêncio
onde nebulosas se erguem as palavras
que eu calo por amor.
1 207
Angela Santos
Geografia Humana
Na
geografia de um corpo
de mulher
distinta em cada ponto da viagem
igual na ânsia da busca
desse porto antigo
onde a mim me achei
Abrem-se os corpos
aos gestos que ensaiam
o acontecer…
firo-me na estranheza
deste corpo irmão
essa dor instante
que se torna um bem
Cedo à corrente sem leis
no fugaz esquecimento
das muralhas da cidadela
e no corpo desconhecido
que abraço
regresso ao sentir ausente
de um outro corpo
que amei.
geografia de um corpo
de mulher
distinta em cada ponto da viagem
igual na ânsia da busca
desse porto antigo
onde a mim me achei
Abrem-se os corpos
aos gestos que ensaiam
o acontecer…
firo-me na estranheza
deste corpo irmão
essa dor instante
que se torna um bem
Cedo à corrente sem leis
no fugaz esquecimento
das muralhas da cidadela
e no corpo desconhecido
que abraço
regresso ao sentir ausente
de um outro corpo
que amei.
1 086
Angela Santos
Lua
Nocturna
silenciosamente vens
ò Lua
deitar-te sobre o meu corpo
límpida e nua
Banhada de luar, assim
Já de mim não sou
mas tua
Ò lua, longe, miragem
digo o quê quando te digo?…
A que há-de vir
viva latejante
ao compasso do coração
descompassado
que vibra em mim
silenciosamente vens
ò Lua
deitar-te sobre o meu corpo
límpida e nua
Banhada de luar, assim
Já de mim não sou
mas tua
Ò lua, longe, miragem
digo o quê quando te digo?…
A que há-de vir
viva latejante
ao compasso do coração
descompassado
que vibra em mim
1 151
Angela Santos
Eros
A
face juvenil de Eros
levemente roça o corpo de Vénus
fundem-se nos olhos
e resplandecem
incêndios crepúsculos
nas bocas, nas mãos nos corações
frementes
E sempre, assim, acontece
no momento do encontro
nesse mágico instante
de dois olhares que atravessam
do que houver para atravessar
alma, mares, muros, espadas…
vencido o Amor não será
Como força que nasce
não se sabe bem de onde
como vaga que nos leva
à orla de um oceano
como vulcão que incendeia
o peito e o corpo todo,
assim Eros renascido
com seu rosto de menino
se roça em nós como em Vénus
E nada então é maior do que o amor
que em si junta beleza,
erotismo vida
no instante único em que o amor
se transmuda em amar!
face juvenil de Eros
levemente roça o corpo de Vénus
fundem-se nos olhos
e resplandecem
incêndios crepúsculos
nas bocas, nas mãos nos corações
frementes
E sempre, assim, acontece
no momento do encontro
nesse mágico instante
de dois olhares que atravessam
do que houver para atravessar
alma, mares, muros, espadas…
vencido o Amor não será
Como força que nasce
não se sabe bem de onde
como vaga que nos leva
à orla de um oceano
como vulcão que incendeia
o peito e o corpo todo,
assim Eros renascido
com seu rosto de menino
se roça em nós como em Vénus
E nada então é maior do que o amor
que em si junta beleza,
erotismo vida
no instante único em que o amor
se transmuda em amar!
1 246
Cristina Lacerda
Tem uma outra cabeça
Tem uma outra cabeça
na minha cama
faz barulho de motor
às vezes ronrona
às vezes tem pesadelos
às vezes me estende a mão
tem uma outra cabeça
na minha cama
e me é às vezes desconhecida
tem barulho de gente
na minha cama
não é metade de mim
mas me acompanha
- e eu estou aqui
tem corpo conhecido
na minha cama
há séculos eu o escuto dormir
e isso
me emociona
na minha cama
faz barulho de motor
às vezes ronrona
às vezes tem pesadelos
às vezes me estende a mão
tem uma outra cabeça
na minha cama
e me é às vezes desconhecida
tem barulho de gente
na minha cama
não é metade de mim
mas me acompanha
- e eu estou aqui
tem corpo conhecido
na minha cama
há séculos eu o escuto dormir
e isso
me emociona
933
Eugénia Tabosa
Esse olhar
Esse olhar parado
sem hoje nem passado
Esse olhar sem espera
como canto preso
em boca entreaberta
Esse olhar cansado
desfeito
sem jeito
não grita
não chora
Esse olhar desarmado
como barco sem leme
Existe
Não posso ignorá-lo!
sem hoje nem passado
Esse olhar sem espera
como canto preso
em boca entreaberta
Esse olhar cansado
desfeito
sem jeito
não grita
não chora
Esse olhar desarmado
como barco sem leme
Existe
Não posso ignorá-lo!
1 033
Hilda Hilst
Que este amor não me cegue nem me siga
Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.
1 620
Angela Santos
Pulsão
Falo
sem nome que te designe
sabendo de ti tão só o sinal
És fome de mãos
que as minhas segurem
és fome de um corpo
onde o meu se encontre
és fome de ser,
és fome de vida
e fome de mim…
Pressinto-te
convulsiva pulsão
que me refaz
à medida que se desfaz,
no meu ser estilhaçado,
explosões comedidas…adiadas…
Esta fome é a minha
e não tem nome..
esta fome sou eu
feita ou desfeita em pedaços
ausências, esperas,
gritos e silêncios
adiamentos, cansaços.
sem nome que te designe
sabendo de ti tão só o sinal
És fome de mãos
que as minhas segurem
és fome de um corpo
onde o meu se encontre
és fome de ser,
és fome de vida
e fome de mim…
Pressinto-te
convulsiva pulsão
que me refaz
à medida que se desfaz,
no meu ser estilhaçado,
explosões comedidas…adiadas…
Esta fome é a minha
e não tem nome..
esta fome sou eu
feita ou desfeita em pedaços
ausências, esperas,
gritos e silêncios
adiamentos, cansaços.
1 112