Poemas neste tema
Alma
Leila Mícollis
A seco
Tem coisas que a gente só diz de porre
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à toa e foi tolice.
Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez
responsáveis por tamanha estupidez.
E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao "estado normal",
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose... afetiva.
se não o outro corre;
mas passada a bebedeira,
a gente acha que fez besteira,
não devia ter falado,
que se expôs adoidado,
à toa e foi tolice.
Finge-se então que se esquece o que disse,
culpa-se a carência, a demência, a embriaguez
responsáveis por tamanha estupidez.
E é aceitando este estranho cabedal
que quando se volta ao "estado normal",
cada vez mais sós, na defensiva,
corroídos morremos de cirrose... afetiva.
1 086
Angela Santos
Diva
Não
sei se ainda habito
a tua memória
se nada mais que um acidente
um descuido
a cedência de um momento
algo que se apagou
para acalmar a consciência.
Sei que esse foi um tempo
com sabor a estio
na tua boca quente
e que o teu corpo foi meu
em plena primavera
O teu nome no ar paira
e me embebeda ainda
Vida,
um jogo de palavras
que é o teu nome e se te lembro
hoje é ontem ainda …
o breve instante em que tocamos
nossas vidas.
sei se ainda habito
a tua memória
se nada mais que um acidente
um descuido
a cedência de um momento
algo que se apagou
para acalmar a consciência.
Sei que esse foi um tempo
com sabor a estio
na tua boca quente
e que o teu corpo foi meu
em plena primavera
O teu nome no ar paira
e me embebeda ainda
Vida,
um jogo de palavras
que é o teu nome e se te lembro
hoje é ontem ainda …
o breve instante em que tocamos
nossas vidas.
1 048
Angela Santos
Estrela Guia
Vem
comigo
descobrir a estrela
que brilha num lugar
que não sabemos
Vem
a tua mão está quente
(é bom senti-la)
sinto-me nela…
Vem
a hora tarda, cedo cai a noite
e a lua não luz
na noite que atravessamos
Olho-te,
tu foges dos meus olhos
só a tua mão me diz que estás
aqui…
Eu,
eu estou lá longe
e aqui também,
já que firme a tua
minha mão presa tem.
comigo
descobrir a estrela
que brilha num lugar
que não sabemos
Vem
a tua mão está quente
(é bom senti-la)
sinto-me nela…
Vem
a hora tarda, cedo cai a noite
e a lua não luz
na noite que atravessamos
Olho-te,
tu foges dos meus olhos
só a tua mão me diz que estás
aqui…
Eu,
eu estou lá longe
e aqui também,
já que firme a tua
minha mão presa tem.
903
Angela Santos
Vibração
Toda
a verdade
é do domínio do sussurro
e telúricas as vozes da carne
segredam paisagens…
onde o ser à solta se revê em tudo
e em tudo está
As minhas mãos agitam-se
na busca do corpo que vibra
toco, sinto
poderosa e insubmissa
a Vida,
na macieza do teu ser
oculta.
a verdade
é do domínio do sussurro
e telúricas as vozes da carne
segredam paisagens…
onde o ser à solta se revê em tudo
e em tudo está
As minhas mãos agitam-se
na busca do corpo que vibra
toco, sinto
poderosa e insubmissa
a Vida,
na macieza do teu ser
oculta.
1 125
Angela Santos
Eva
Mordo
a tua boca
rosa, carne viva
provo o teu sabor
ao jeito de Eva
subversiva
Ousadia do gosto
meu fruto proibido
mordo o teu corpo
virgem
e reencontro o paraíso.
a tua boca
rosa, carne viva
provo o teu sabor
ao jeito de Eva
subversiva
Ousadia do gosto
meu fruto proibido
mordo o teu corpo
virgem
e reencontro o paraíso.
895
Maria Isabel
A hora vazia
Onde as humildes palavras
Que ingenuamente disseste?
Onde os gestos dos teus braços
Nascidos para enlaçar?
Cansaste. O sol do deserto
Secou tua alma de fonte.
Morreu nos dedos do inútil
A tua frágil canção.
Não mais ouvirás soluços,
Não mais na noite deserta
Descobrirás desesperos.
Corpos virão sobre as ondas,
Diante dos teus olhos secos.
Houve uma voz nos teus lábios
Quente e viva. Quando foi?
Hoje a fadiga, hoje o sono.
Hoje, trágica e vazia,
A hora de contemplar.
Que ingenuamente disseste?
Onde os gestos dos teus braços
Nascidos para enlaçar?
Cansaste. O sol do deserto
Secou tua alma de fonte.
Morreu nos dedos do inútil
A tua frágil canção.
Não mais ouvirás soluços,
Não mais na noite deserta
Descobrirás desesperos.
Corpos virão sobre as ondas,
Diante dos teus olhos secos.
Houve uma voz nos teus lábios
Quente e viva. Quando foi?
Hoje a fadiga, hoje o sono.
Hoje, trágica e vazia,
A hora de contemplar.
802
Angela Santos
Jardim das Delícias
Convido-te
a entrar no meu jardim,
devagarinho, primeiro
como quem chega pé ante pé...
dou-te a provar, a cheirar, a tocar
os frutos, as flores
laranjas, a orquídea , perfeitos amores
Levo-te aos recantos onde serenos
correm leves fios de água
e é aí que lavamos lembranças, memórias
e até nossas mágoas.
Lavados e nus, o corpo e a alma
se entregam depois a uma dança antiga
de antes dos tempos
e antes da vida
Aqui não sentimos
o tempo da demora, o espaço, ou a distância
este é lugar onde Deus
juntou almas prometidas
e que aguardam o adiado enlace
que una e sele suas vidas
Juntas e enamoradas nesse jardim das delicias,
não falamos, não é preciso
nossos olhos em si descobrem
o fio que nos traz unidas.
a entrar no meu jardim,
devagarinho, primeiro
como quem chega pé ante pé...
dou-te a provar, a cheirar, a tocar
os frutos, as flores
laranjas, a orquídea , perfeitos amores
Levo-te aos recantos onde serenos
correm leves fios de água
e é aí que lavamos lembranças, memórias
e até nossas mágoas.
Lavados e nus, o corpo e a alma
se entregam depois a uma dança antiga
de antes dos tempos
e antes da vida
Aqui não sentimos
o tempo da demora, o espaço, ou a distância
este é lugar onde Deus
juntou almas prometidas
e que aguardam o adiado enlace
que una e sele suas vidas
Juntas e enamoradas nesse jardim das delicias,
não falamos, não é preciso
nossos olhos em si descobrem
o fio que nos traz unidas.
1 067
Angela Santos
Mulher
Mulher,
num corpo mar
ser navio e aportar ao largo desse teu abrigo
Em minha mãos
deixar crescer a flor dos afectos mais fundos
e te entregar todos eles
ao toque delicado destas mãos de mulher
corpos irmãos em sua dança de heras,
orvalhados corpos de um amor matinal
mulher nos teus braços ser
mulher confirmada no teu seio irmão,
E sentir a grandeza do momento que nasce
no instante maior de sabermos ser
duas almas tocadas pela força do amor
dois corpos amantes que em si mesmo buscam
a razão suprema do acontecer.
num corpo mar
ser navio e aportar ao largo desse teu abrigo
Em minha mãos
deixar crescer a flor dos afectos mais fundos
e te entregar todos eles
ao toque delicado destas mãos de mulher
corpos irmãos em sua dança de heras,
orvalhados corpos de um amor matinal
mulher nos teus braços ser
mulher confirmada no teu seio irmão,
E sentir a grandeza do momento que nasce
no instante maior de sabermos ser
duas almas tocadas pela força do amor
dois corpos amantes que em si mesmo buscam
a razão suprema do acontecer.
1 082
Angela Santos
Estrada de Luz
Depois do assombro daqueles dias
sobre um mar de punhais feito caminho
cuidando não saber aonde iria,
secretos meus passos em busca foram
do porto onde fundear se achassem
despida dos grilhões que ao medo assomam
foi na nudez da alma reflectida
que desvendei de mim escuros cantos
onde acolhi, às vezes a alma ferida....
na estrada de luar que então se abria
por sobre um mar nocturno embarcava
toda a esperança que a aurora anuncia
depois do breu que veio sem esperar
não soube eu no instante em que ardia
a alma feita lava consumida
que dos porões cavados nesses dias
haveria de erguer-se a voz antiga
arauta do que havia de chegar....
Foi naquela hora precisa em que vieste
que os sonhos antigos se reverteram
aos olhos mergulhados na luz branca
do mistério anunciado onde jaziam
e agora são teus os passos que oiço
nos sonhos novos que em meus dias teço
e é tua a voz que vem
acordar o tempo que esperei.
sobre um mar de punhais feito caminho
cuidando não saber aonde iria,
secretos meus passos em busca foram
do porto onde fundear se achassem
despida dos grilhões que ao medo assomam
foi na nudez da alma reflectida
que desvendei de mim escuros cantos
onde acolhi, às vezes a alma ferida....
na estrada de luar que então se abria
por sobre um mar nocturno embarcava
toda a esperança que a aurora anuncia
depois do breu que veio sem esperar
não soube eu no instante em que ardia
a alma feita lava consumida
que dos porões cavados nesses dias
haveria de erguer-se a voz antiga
arauta do que havia de chegar....
Foi naquela hora precisa em que vieste
que os sonhos antigos se reverteram
aos olhos mergulhados na luz branca
do mistério anunciado onde jaziam
e agora são teus os passos que oiço
nos sonhos novos que em meus dias teço
e é tua a voz que vem
acordar o tempo que esperei.
1 117
Angela Santos
Pássaro
Azul a Horizonte
Lembrei
um horizonte
desenhado nos meus olhos
e um pássaro azul desprendeu-se do meu olhar..
sobrevoou o oceano
poisou aí onde estás e se deixou ficar
Olha através da vidraça da alma,
escuta o seu canto
e delicia teus olhos
no azul aveludado das asas
Nesse canto de pássaro
nessa asa azul,
eu sou
poisando nas flores ou no beiral da janela
ou de manso se aninhando em teu olhar
antes de bater asas
e iniciar o voo
de regresso ao alto mar.
Lembrei
um horizonte
desenhado nos meus olhos
e um pássaro azul desprendeu-se do meu olhar..
sobrevoou o oceano
poisou aí onde estás e se deixou ficar
Olha através da vidraça da alma,
escuta o seu canto
e delicia teus olhos
no azul aveludado das asas
Nesse canto de pássaro
nessa asa azul,
eu sou
poisando nas flores ou no beiral da janela
ou de manso se aninhando em teu olhar
antes de bater asas
e iniciar o voo
de regresso ao alto mar.
1 163
Angela Santos
Âmago
Estendo
os meus braços para ti
e de olhos cravados nos teus
sussurro-te:
vem, vem comigo ao centro
do que em nós é fundo e mais além
Vê, desce a tardinha sobre as nossas vidas
o sol é morno e doura este caminho…
ainda é tempo de olharmos os campos
sentir a terra e o vento no rosto
Vem
plantar uma flor e abrir os olhos da alma
ao desconhecido
adorar deus no alto de uma montanha
e doar-nos o amor nascido assim
um quase nada que se fez tudo
que nos ata à vida e à firme certeza
de o querer viver até ao fim.
Vem meu amor é hora de regressarmos
ao lugar que sente a nossa ausência
ao tempo de sermos nós
ao âmago da nossa essência
e sermos em cada uma esse pedaço de alma
que um dia se ausentou
e anseia regressar.
os meus braços para ti
e de olhos cravados nos teus
sussurro-te:
vem, vem comigo ao centro
do que em nós é fundo e mais além
Vê, desce a tardinha sobre as nossas vidas
o sol é morno e doura este caminho…
ainda é tempo de olharmos os campos
sentir a terra e o vento no rosto
Vem
plantar uma flor e abrir os olhos da alma
ao desconhecido
adorar deus no alto de uma montanha
e doar-nos o amor nascido assim
um quase nada que se fez tudo
que nos ata à vida e à firme certeza
de o querer viver até ao fim.
Vem meu amor é hora de regressarmos
ao lugar que sente a nossa ausência
ao tempo de sermos nós
ao âmago da nossa essência
e sermos em cada uma esse pedaço de alma
que um dia se ausentou
e anseia regressar.
1 345
Angela Santos
Nuances
Sacudo
o sono dos meus olhos
a manhã aparece iluminada
e sinto-me inusitadamente serena.
Este sentir-me assim, está preso a outra razão
estar aqui e ser noutro lugar
o longe que não é longe
se perto do coração
E é tão perto que o sinto
que parece ter vivido aqui sempre ao meu lado
e um dia de repente
eu tivesse acordado, e sobre ele pousasse
aquele olhar de menino
que olha todas coisas com o seu primeiro olhar
É uma coisa bonita que cresce
e eu quero cuidar
como o jardineiro trata e cuida de uma flor.
E lindo mesmo é olhar, sentir e deixar brotar
nas suas subtis formas,
tons e nuances de cor
sem perguntar.. sem querer saber
como nasce, porque nasce
e cuidar apenas de a ver crescer.
o sono dos meus olhos
a manhã aparece iluminada
e sinto-me inusitadamente serena.
Este sentir-me assim, está preso a outra razão
estar aqui e ser noutro lugar
o longe que não é longe
se perto do coração
E é tão perto que o sinto
que parece ter vivido aqui sempre ao meu lado
e um dia de repente
eu tivesse acordado, e sobre ele pousasse
aquele olhar de menino
que olha todas coisas com o seu primeiro olhar
É uma coisa bonita que cresce
e eu quero cuidar
como o jardineiro trata e cuida de uma flor.
E lindo mesmo é olhar, sentir e deixar brotar
nas suas subtis formas,
tons e nuances de cor
sem perguntar.. sem querer saber
como nasce, porque nasce
e cuidar apenas de a ver crescer.
1 077
Angela Santos
Retrato
De
mim traço este retrato, pela cabeça guiada
faltam-me as cores de Van Gogh e as manchas de Monet
os riscos, os traços e os tons
que fidelizem o dentro se visto de fora é
Como traços de carvão as palavras, que são míngua,
ousam trazer esse dentro, para o outro lado de si
e buscam, na imperfeição, fazer a vez da impressão
que se tem quando o objecto diante de nós se põe…
a cor do trigo no rosto, que o tempo conserva bem
cabelo de tom marron e olhos a condizer
estatura mediana que em mulher não se crê mal…
de Ruben não tenho as formas, nem de Modigliani a esfinge
fico num ponto intermédio, que me dá o que preciso
para me saber mulher
ter no erotismo um quê,
na fome de pele meu pecado – e se isso pecado for
mil vezes pecadora ser.
E diria ter no simples o meu modo preferido,
amo o Barroco e a Fuga, um certo pendor da alma,
no azul estendo os olhos
a cor que digo ser minha
E na alma trago a luz, essa luz sempre está lá
ainda que às vezes a cubra um véu cinzento de nuvens
E já que a vida é acaso, que lá do fundo me trouxe
do obscuro sou crente, da natureza sou filha
e da liberdade amante,
venero Isis, Baco, Cristo, Buda
e isso faz do que sou
um todo que não se explica
na ínfima porção de mim.
mim traço este retrato, pela cabeça guiada
faltam-me as cores de Van Gogh e as manchas de Monet
os riscos, os traços e os tons
que fidelizem o dentro se visto de fora é
Como traços de carvão as palavras, que são míngua,
ousam trazer esse dentro, para o outro lado de si
e buscam, na imperfeição, fazer a vez da impressão
que se tem quando o objecto diante de nós se põe…
a cor do trigo no rosto, que o tempo conserva bem
cabelo de tom marron e olhos a condizer
estatura mediana que em mulher não se crê mal…
de Ruben não tenho as formas, nem de Modigliani a esfinge
fico num ponto intermédio, que me dá o que preciso
para me saber mulher
ter no erotismo um quê,
na fome de pele meu pecado – e se isso pecado for
mil vezes pecadora ser.
E diria ter no simples o meu modo preferido,
amo o Barroco e a Fuga, um certo pendor da alma,
no azul estendo os olhos
a cor que digo ser minha
E na alma trago a luz, essa luz sempre está lá
ainda que às vezes a cubra um véu cinzento de nuvens
E já que a vida é acaso, que lá do fundo me trouxe
do obscuro sou crente, da natureza sou filha
e da liberdade amante,
venero Isis, Baco, Cristo, Buda
e isso faz do que sou
um todo que não se explica
na ínfima porção de mim.
1 034
Angela Santos
Oferenda
Infinitamente,
com o meu coração desprendido, e cativo,
amo-te
com o meu corpo de mulher,
que só do teu tem sede,
com a alma plena de ti,
amo-te
por seres e existires...
amo o que em mim vive e percorre
Vida, memória, sabor a ti
e como a vida és oferenda
que trago guardada dentro de mim.
com o meu coração desprendido, e cativo,
amo-te
com o meu corpo de mulher,
que só do teu tem sede,
com a alma plena de ti,
amo-te
por seres e existires...
amo o que em mim vive e percorre
Vida, memória, sabor a ti
e como a vida és oferenda
que trago guardada dentro de mim.
1 243
Angela Santos
Cismos
Eu
havia prometido que a palavra estancaria.
Prometi
mas nem todas as promessas são cumpriveis,
a fortaleza da razão cede ao terramoto do coração.
Veloz e livre corre o pensamento, porque é livre....
e livre das amarras da lógica e da razão
sai desgarrado potro livre, selvagem, indomável....
Que fazer se o coração de si mesmo é senhor?
Este alvoroço, essa revolução dos sentidos,
acordaram de repente,
à força não sei de quê,
o vulcão adormecido.
Não sei a extensão do cismo, nem das fendas que abriu
não sei o mal que causou,
se algum mal deixou...
dele só conheço agora
o bem , que ao passar, em mim deixou
havia prometido que a palavra estancaria.
Prometi
mas nem todas as promessas são cumpriveis,
a fortaleza da razão cede ao terramoto do coração.
Veloz e livre corre o pensamento, porque é livre....
e livre das amarras da lógica e da razão
sai desgarrado potro livre, selvagem, indomável....
Que fazer se o coração de si mesmo é senhor?
Este alvoroço, essa revolução dos sentidos,
acordaram de repente,
à força não sei de quê,
o vulcão adormecido.
Não sei a extensão do cismo, nem das fendas que abriu
não sei o mal que causou,
se algum mal deixou...
dele só conheço agora
o bem , que ao passar, em mim deixou
928
Angela Santos
O acordar dos sentidos
Emudecida,
ante a nudez da alma que o corpo espelha,
sigo os meus olhos
na busca de cada movimento, ou arquejo do peito
sigo o ouvido
atenta ao sussurro e ao suspiro
sigo a minha boca
em busca do sal de cada maré viva que sobe à orla do desejo
sigo as minhas mãos
que em cada esquina do teu corpo reencontram o tempo
que um dia foi de todos os sentidos
que de novo emergem à tona dos meus dias.
ante a nudez da alma que o corpo espelha,
sigo os meus olhos
na busca de cada movimento, ou arquejo do peito
sigo o ouvido
atenta ao sussurro e ao suspiro
sigo a minha boca
em busca do sal de cada maré viva que sobe à orla do desejo
sigo as minhas mãos
que em cada esquina do teu corpo reencontram o tempo
que um dia foi de todos os sentidos
que de novo emergem à tona dos meus dias.
1 139
Angela Santos
Poema Atravessado
Escrevo, atravessando
o sentido inscrito
nas palavras, as tuas.
As minhas vêm invadir
o corpo onde repousa
o sentido que às palavras restituis.
Sou nas palavras
que atravessam as tuas e nelas se fundem,
assim como à noite somos uma só,
abraço que nos ata até que nos aparte a luz
que nos devolve à maré dos dias
onde inscrevemos de novo o sentido.
o sentido inscrito
nas palavras, as tuas.
As minhas vêm invadir
o corpo onde repousa
o sentido que às palavras restituis.
Sou nas palavras
que atravessam as tuas e nelas se fundem,
assim como à noite somos uma só,
abraço que nos ata até que nos aparte a luz
que nos devolve à maré dos dias
onde inscrevemos de novo o sentido.
1 117
Angela Santos
Cama Lavada
Estendo-te
uma cama de orquídeas
e rosas
perfumo meu corpo com lavanda e jasmim
Estendo-te meus braços,
enlaças meu corpo de mulher e nos deitamos na cama
perfumada de aromas
o nosso e o das flores
Nessa cama lavada
lavaremos as feridas, do corpo e da alma
esqueceremos o tempo e o longe que faz doer
na celebração do amor
que quisemos e esperamos acontecer
Mergulhar no fundo do mar dos sentidos
esquecer o mundo que oprime a razão
e no enlace único
seremos raízes que se agarram firmes
a um mesmo chão.
uma cama de orquídeas
e rosas
perfumo meu corpo com lavanda e jasmim
Estendo-te meus braços,
enlaças meu corpo de mulher e nos deitamos na cama
perfumada de aromas
o nosso e o das flores
Nessa cama lavada
lavaremos as feridas, do corpo e da alma
esqueceremos o tempo e o longe que faz doer
na celebração do amor
que quisemos e esperamos acontecer
Mergulhar no fundo do mar dos sentidos
esquecer o mundo que oprime a razão
e no enlace único
seremos raízes que se agarram firmes
a um mesmo chão.
1 068
Angela Santos
Flores Orvalhadas
De
toques suaves
são feitos os momentos
em que olho o corpo que amo
e desnudo
Vibrações, vozes, sussurros
os dias e as noites se enchem
feitos em clarões que abrasam
inteiros o corpo e a alma…
e são pétalas orvalhadas que embelezam
nossos corpos e perfumam como essências
a alma límpida que emerge em nós
depois do amor
Do querer que em nós é grito
cúmplice é o silêncio e a noite
que nos abriga em seu seio
e nos segreda em murmúrio
que o sonho é esse lugar que não é longe nem perto
e dentro de nós está
como o caminho mais certo.
toques suaves
são feitos os momentos
em que olho o corpo que amo
e desnudo
Vibrações, vozes, sussurros
os dias e as noites se enchem
feitos em clarões que abrasam
inteiros o corpo e a alma…
e são pétalas orvalhadas que embelezam
nossos corpos e perfumam como essências
a alma límpida que emerge em nós
depois do amor
Do querer que em nós é grito
cúmplice é o silêncio e a noite
que nos abriga em seu seio
e nos segreda em murmúrio
que o sonho é esse lugar que não é longe nem perto
e dentro de nós está
como o caminho mais certo.
1 157
Angela Santos
Além-Mar
Perco-me
nas avenidas do mundo, busco o longe
que me chama
coração em desalinho e a alma de sol e bruma
espraiam-se lá na lonjura
no outro lado do mar..
Aqui, onde sou raiz
as ruelas se estreitam, nelas minha alma se roça
como rio emparedado que em torrente desagua
no outro lado do mar..
Sabe-me a sol e a sal, esse chamado de longe
não o sei dizer... pressinto-o só
e esse pouco é bastante para me agitar o peito
e de mansinho lembrar essa doce vibração
que assoma à flor da pele
Não sei o longe, que me seduz e me chama,
sei apenas que o busco, sem a razão querer saber
como se buscasse, enfim, a coincidência perfeita
desse pedaço de alma que sinto faltar em mim
Ligam Língua e Oceano, esses dois lugares perdidos
Mar.. Mar.. Mar…. imenso Mar
que nos separa e aproxima
Língua - Mater que desnuda e revela devagar,
como o gesto feminino que sem pressa
vai despindo outro ser
a si igual.
nas avenidas do mundo, busco o longe
que me chama
coração em desalinho e a alma de sol e bruma
espraiam-se lá na lonjura
no outro lado do mar..
Aqui, onde sou raiz
as ruelas se estreitam, nelas minha alma se roça
como rio emparedado que em torrente desagua
no outro lado do mar..
Sabe-me a sol e a sal, esse chamado de longe
não o sei dizer... pressinto-o só
e esse pouco é bastante para me agitar o peito
e de mansinho lembrar essa doce vibração
que assoma à flor da pele
Não sei o longe, que me seduz e me chama,
sei apenas que o busco, sem a razão querer saber
como se buscasse, enfim, a coincidência perfeita
desse pedaço de alma que sinto faltar em mim
Ligam Língua e Oceano, esses dois lugares perdidos
Mar.. Mar.. Mar…. imenso Mar
que nos separa e aproxima
Língua - Mater que desnuda e revela devagar,
como o gesto feminino que sem pressa
vai despindo outro ser
a si igual.
763
Angela Santos
Compromisso
Esquecerei
a Poesia
com que me digo e a ti chego
mas Poética será sempre minha forma de sentir......
assim moldada, forjada, foi.
Se devo sufocar o grito, sufocarei!
se devo estancar o rio
onde corre a força que me faz dizer, estancarei!
se devo sentir,
só por dentro de mim, sentirei !
mas guardarei acesa, ainda que só lembrança
a Clara Luz
em que um dia mergulhei.
a Poesia
com que me digo e a ti chego
mas Poética será sempre minha forma de sentir......
assim moldada, forjada, foi.
Se devo sufocar o grito, sufocarei!
se devo estancar o rio
onde corre a força que me faz dizer, estancarei!
se devo sentir,
só por dentro de mim, sentirei !
mas guardarei acesa, ainda que só lembrança
a Clara Luz
em que um dia mergulhei.
1 210
Angela Santos
Imagem
Não
sei porque vou de encontro
ao que não sei.. sei da pulsão
e da imagem esculpida nos meus olhos
vislumbrei crendo esquecer…mas ficou
Indeléveis são as marcas do que um dia
a alma atravessou e julgamos sem história
perdido, ou apagado
no limbo da memória
Um passeio imaginário
sobre o que poderia ser.. ao teu lado
a tua mão na minha
olhos fundindo-se em lago
e um caminho junto ao mar…
Assim de uma forma simples
encontro de gestos feito
as palavras nos deixaram o leve sabor do vago...
e só o silencio sobrou
E a vida que não
espera por quem se demora
ou detém
acena da outra margem de onde se fica parado.
sei porque vou de encontro
ao que não sei.. sei da pulsão
e da imagem esculpida nos meus olhos
vislumbrei crendo esquecer…mas ficou
Indeléveis são as marcas do que um dia
a alma atravessou e julgamos sem história
perdido, ou apagado
no limbo da memória
Um passeio imaginário
sobre o que poderia ser.. ao teu lado
a tua mão na minha
olhos fundindo-se em lago
e um caminho junto ao mar…
Assim de uma forma simples
encontro de gestos feito
as palavras nos deixaram o leve sabor do vago...
e só o silencio sobrou
E a vida que não
espera por quem se demora
ou detém
acena da outra margem de onde se fica parado.
687
Angela Santos
Cardos e Rosas
De
rosas e cardos se adornam os dias
na alegria exaltante, na duvida nascente
no querer desmedido, no desejo sem limite
na lúcida consciência de um amanhã
que não sabemos se vem…
De rosas e cardos se faz este amor
que dói com razão por se saber ser
tão perto e tão longe
tão tudo e tão nada
quando a mão estende para tocar
e sente que o longe lá está.......
De rosas e cardos são feitos meus dedos
buscando tocar com leveza de rendas
ou a fúria do bicho em seu cio aceso
um corpo amado num lugar que é lá.....
A alma se enche e esvazia assim....
o longe cansa-me, canso–me de mim
e desse grito aflito,
da busca incessante com que bordo meus dias,
dor de filigrana fina…. entrelaçada,
noites que desfio numa longa espera.
Ah! Cansa-me esse longe….quero repousar!
rosas e cardos se adornam os dias
na alegria exaltante, na duvida nascente
no querer desmedido, no desejo sem limite
na lúcida consciência de um amanhã
que não sabemos se vem…
De rosas e cardos se faz este amor
que dói com razão por se saber ser
tão perto e tão longe
tão tudo e tão nada
quando a mão estende para tocar
e sente que o longe lá está.......
De rosas e cardos são feitos meus dedos
buscando tocar com leveza de rendas
ou a fúria do bicho em seu cio aceso
um corpo amado num lugar que é lá.....
A alma se enche e esvazia assim....
o longe cansa-me, canso–me de mim
e desse grito aflito,
da busca incessante com que bordo meus dias,
dor de filigrana fina…. entrelaçada,
noites que desfio numa longa espera.
Ah! Cansa-me esse longe….quero repousar!
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Angela Santos
Subtileza
Num
gesto subtil
ao olhar de quem passa
desenho um sussurro em minha boca
que só tu entendes
Nos meus olhos desenhado
há um pássaro
silenciosamente namorado
o que nos teus vejo pousado
E num ritual antigo
nossa dança de amor
enche o ar
com esse canto silencioso
Mulher pássaro
aninhada nos meus olhos
mulher amante
minha sede, minha fonte
minha doce prisão
em ti vejo o lugar
onde cresce sem freios
a minha liberdade
E dos nossos olhos salta para o azul
esse voo de pássaro no afã da busca
de um lugar qualquer
que seja só nosso.
gesto subtil
ao olhar de quem passa
desenho um sussurro em minha boca
que só tu entendes
Nos meus olhos desenhado
há um pássaro
silenciosamente namorado
o que nos teus vejo pousado
E num ritual antigo
nossa dança de amor
enche o ar
com esse canto silencioso
Mulher pássaro
aninhada nos meus olhos
mulher amante
minha sede, minha fonte
minha doce prisão
em ti vejo o lugar
onde cresce sem freios
a minha liberdade
E dos nossos olhos salta para o azul
esse voo de pássaro no afã da busca
de um lugar qualquer
que seja só nosso.
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