Poemas neste tema
Alma
Angela Santos
Em parte e no
todo
Serei, a
sereia,
mulher pla metade
metade no mar
outra metade
na areia...
mas é nesta cama
despida do mito
que me deito inteira....
E no abandono,
adentrando o todo
para tudo ser...
de que serei feita?
mulher, pele, medusa, mito,
metafísica das formas
que me ditam
seios
quadris
plexus,
olhos
boca
mãos,
instinto....
E alma...
alma presa a este chão
aspirando ao infinito.
Serei, a
sereia,
mulher pla metade
metade no mar
outra metade
na areia...
mas é nesta cama
despida do mito
que me deito inteira....
E no abandono,
adentrando o todo
para tudo ser...
de que serei feita?
mulher, pele, medusa, mito,
metafísica das formas
que me ditam
seios
quadris
plexus,
olhos
boca
mãos,
instinto....
E alma...
alma presa a este chão
aspirando ao infinito.
1 080
Angela Santos
Iris
de que tempo
ou de que profundeza obscura
haverias de surgir?
Que nada sei....
Ou sei apenas
que em minha vida incrustado
um diamante reflecte
a luz da íris
onde me espelho
E arrancada às entranhas
ao encontro do que em mim chamara
vieste
iluminar-me o sentido.
ou de que profundeza obscura
haverias de surgir?
Que nada sei....
Ou sei apenas
que em minha vida incrustado
um diamante reflecte
a luz da íris
onde me espelho
E arrancada às entranhas
ao encontro do que em mim chamara
vieste
iluminar-me o sentido.
715
Angela Santos
Ser ou Não
Ser
Das
pedras assoma um dizer.
Que não são mudas as pedras
E a arvore erecta, espraiando seus ramos
Exala o calor vivo de um ser
Há um canto que se eleva
No rumorejar das águas
Deste rio cujas margens me detém
E no silencioso bater de asa
Da ave rasgando o espaço
Eu leio a traço desenhado
O teu nome, liberdade
Não há silencio
Em tudo o que é
o inexpresso sentido
nos afronta
até no que julgamos não ser.
Das
pedras assoma um dizer.
Que não são mudas as pedras
E a arvore erecta, espraiando seus ramos
Exala o calor vivo de um ser
Há um canto que se eleva
No rumorejar das águas
Deste rio cujas margens me detém
E no silencioso bater de asa
Da ave rasgando o espaço
Eu leio a traço desenhado
O teu nome, liberdade
Não há silencio
Em tudo o que é
o inexpresso sentido
nos afronta
até no que julgamos não ser.
1 066
Angela Santos
Metáfora
Ainda
que uma vez e outra
o diga
o fogo que em mim
dorme
não se diz...
o que remoça
a cada dia
brota
do chão primordial,
onde da vida arde
a sagrada chama
e tu, meu amor,
fogo da consumação
de que renasço...
a vida e a própria chama
sendo
que uma vez e outra
o diga
o fogo que em mim
dorme
não se diz...
o que remoça
a cada dia
brota
do chão primordial,
onde da vida arde
a sagrada chama
e tu, meu amor,
fogo da consumação
de que renasço...
a vida e a própria chama
sendo
679
Angela Santos
Inominável
Escoam-se
as palavras
com que teça e urda
o sentido da corrente
parcos os vocábulos
assomam no afã de transparecer
ou desvelar
o que emerge
da explosão da Vida
Acerca-se do inominável
do silente corpo
a palavra ...
falha o intento de dizer
e é só limite
No hiato das palavras
consentido
habita o silêncio, indecifrável
acerto de luz e sussurros
fonte secreta do saber antigo
é vago e é tanto....
E tudo se ilumina,
nos indecifráveis signos nascentes
desse
saber pressentido.
as palavras
com que teça e urda
o sentido da corrente
parcos os vocábulos
assomam no afã de transparecer
ou desvelar
o que emerge
da explosão da Vida
Acerca-se do inominável
do silente corpo
a palavra ...
falha o intento de dizer
e é só limite
No hiato das palavras
consentido
habita o silêncio, indecifrável
acerto de luz e sussurros
fonte secreta do saber antigo
é vago e é tanto....
E tudo se ilumina,
nos indecifráveis signos nascentes
desse
saber pressentido.
1 062
Angela Santos
Confissão
Quando do
cansaço
é a hora
e ganha voz o grito
amordaçado
quando na mesmidade
se esgotam os dias
e o coração
pede que o solte
quando o que em mim
não tem tamanho
busca asas e o tempo
onde vive permanente
eu procuro
a tua voz
as tuas mãos
a tua boca
o teu abraço
a tua presença
em mim....
Mas nada,
nada acalma já
este meu ser pela metade
a vida à margem da vida
a vida à mingua
de ti.
cansaço
é a hora
e ganha voz o grito
amordaçado
quando na mesmidade
se esgotam os dias
e o coração
pede que o solte
quando o que em mim
não tem tamanho
busca asas e o tempo
onde vive permanente
eu procuro
a tua voz
as tuas mãos
a tua boca
o teu abraço
a tua presença
em mim....
Mas nada,
nada acalma já
este meu ser pela metade
a vida à margem da vida
a vida à mingua
de ti.
683
Angela Santos
Secreta Morada
Vem,
e assume a força de um grito amordaçado,
irrompe nas minhas veias, lateja na minha cabeça
e no meu peito é incandescência .
Vem, e assoma à boca em palavras sussurradas
ditas não a medo, mas em sons transfigurados
perceptíveis no silencio só,
inaudíveis palavras
que o ar atravessam e buscam chegar às margens
de outro ser que em mim é.
Vem, debruado com orlas de saudade
isso que em mim
tem um nome que não sei dizer
que é meu mar de calmaria
minha raiva, minha crença, meu ir além
fome e saciar do meu ser.
Veio....como haveria de vir
de manso, sem pré-aviso
como quem chega a um lugar que soube sempre foi seu
veio para me deixar assim,
para sempre acompanhada pela certeza
de que em mim ergueu
sua secreta morada
abrigo do que não tem nome
e nem precisa de ter,
feito de um sentir mais fundo
que é sentir e saber.
Veio e em mim ficou
porque tinha que ser!
e assume a força de um grito amordaçado,
irrompe nas minhas veias, lateja na minha cabeça
e no meu peito é incandescência .
Vem, e assoma à boca em palavras sussurradas
ditas não a medo, mas em sons transfigurados
perceptíveis no silencio só,
inaudíveis palavras
que o ar atravessam e buscam chegar às margens
de outro ser que em mim é.
Vem, debruado com orlas de saudade
isso que em mim
tem um nome que não sei dizer
que é meu mar de calmaria
minha raiva, minha crença, meu ir além
fome e saciar do meu ser.
Veio....como haveria de vir
de manso, sem pré-aviso
como quem chega a um lugar que soube sempre foi seu
veio para me deixar assim,
para sempre acompanhada pela certeza
de que em mim ergueu
sua secreta morada
abrigo do que não tem nome
e nem precisa de ter,
feito de um sentir mais fundo
que é sentir e saber.
Veio e em mim ficou
porque tinha que ser!
1 126
Angela Santos
Eu Não Sei
Dizer Adeus
Eu
não sei dizer adeus.
Adeus tem o som laminado de farpa
atravessando o ar
directa ao cerne da ferida
Nunca soube dizer adeus.
Abri rasgos nas veredas do sentir
para reconhecer nelas as marcas impressas
e Identificar meus sinais
Como dizer adeus?
Em alerta me quedo ao som de um adeus,
lembra-me viagem que não tem retorno
e por determinismo regresso às indeléveis marcas deixadas
ao jeito de revisitação
Não direi adeus, jamais....creio!
Quem sabe tão só
adeus por enquanto
se um adeus sem coragem
espreitar nos gestos quotidianos
se um esboço de adeus
inexpresso ou omisso
me acenar do outro lado
Eu não sei dizer adeus...
quiçá adeus por enquanto!
(28.12.99)
Eu
não sei dizer adeus.
Adeus tem o som laminado de farpa
atravessando o ar
directa ao cerne da ferida
Nunca soube dizer adeus.
Abri rasgos nas veredas do sentir
para reconhecer nelas as marcas impressas
e Identificar meus sinais
Como dizer adeus?
Em alerta me quedo ao som de um adeus,
lembra-me viagem que não tem retorno
e por determinismo regresso às indeléveis marcas deixadas
ao jeito de revisitação
Não direi adeus, jamais....creio!
Quem sabe tão só
adeus por enquanto
se um adeus sem coragem
espreitar nos gestos quotidianos
se um esboço de adeus
inexpresso ou omisso
me acenar do outro lado
Eu não sei dizer adeus...
quiçá adeus por enquanto!
(28.12.99)
1 295
Angela Santos
Dança do
Sol
Esperei o sol
chegar
sabendo que como flor desabrochando
a ele se abriria o coração
E no meio da dança
eu então me vi
qual adoradora da estrela-rainha,
evocar teu nome.
e claramente à luz do meu dia
límpidos emergiram
contornos, sinais, nuances da alma
que te fazem estar dentro e fora de mim
É à luz do sol
que o coração vive e se dá em oferenda
à mulher amada e ao chão que pisa.
esse lugar que de longe me chama
a cumprir o que foi
inscrito em minha sina.
Esperei o sol
chegar
sabendo que como flor desabrochando
a ele se abriria o coração
E no meio da dança
eu então me vi
qual adoradora da estrela-rainha,
evocar teu nome.
e claramente à luz do meu dia
límpidos emergiram
contornos, sinais, nuances da alma
que te fazem estar dentro e fora de mim
É à luz do sol
que o coração vive e se dá em oferenda
à mulher amada e ao chão que pisa.
esse lugar que de longe me chama
a cumprir o que foi
inscrito em minha sina.
656
Angela Santos
Sinais
Nas
dobras dos lençois
gravadas as marcas
do amor que fizemos
No ar, inaudíveis, agora
suspiros e o cheiro a nós
rondando os lugares
onde nos amamos
No corpo, sentida a ausência
de uma na outra
partes unas que se buscam
à força de uma razão
que não se sabe
Nos olhos, nos nossos
Que se irmanam
o muito que dissemos
sem uma palavra ousar
E no coração,
no meu coração inquieto
Voga imensa, a saudade
barca que de novo sente
o ímpeto que a lança
em busca do teu mar.
dobras dos lençois
gravadas as marcas
do amor que fizemos
No ar, inaudíveis, agora
suspiros e o cheiro a nós
rondando os lugares
onde nos amamos
No corpo, sentida a ausência
de uma na outra
partes unas que se buscam
à força de uma razão
que não se sabe
Nos olhos, nos nossos
Que se irmanam
o muito que dissemos
sem uma palavra ousar
E no coração,
no meu coração inquieto
Voga imensa, a saudade
barca que de novo sente
o ímpeto que a lança
em busca do teu mar.
1 211
Fernando Tavares Rodrigues
Verbo
Amar a
mulher
É também sentir
Antes de a beijar, antes de a despir,
Esse sabor doce
Como se ela fosse uma rosa a arder
Esse verbo tão difícil e tão fácil de dizer...
mulher
É também sentir
Antes de a beijar, antes de a despir,
Esse sabor doce
Como se ela fosse uma rosa a arder
Esse verbo tão difícil e tão fácil de dizer...
1 223
Angela Santos
Tecedeira
Redes
de pescadora, eu teço
quem sabe, pescadora de palavras e sentido
Caminho, não sobre as águas
mas por dentro das palavras, e do sentir
por dentro das gentes
que abrem um sulco
e por dentro de si me deixam entretecer mais um fio
um subtil fio compondo o inegualável desenho da vida.
As palavras chegam
como? de onde? porque?
chegam...como som de riacho entre rochedos
como linho colhido para tecer brancos lençóis
onde o presente se deita
desfiando memórias...
e lançar a ponte entre os irrepetíveis
momentos do ser.
de pescadora, eu teço
quem sabe, pescadora de palavras e sentido
Caminho, não sobre as águas
mas por dentro das palavras, e do sentir
por dentro das gentes
que abrem um sulco
e por dentro de si me deixam entretecer mais um fio
um subtil fio compondo o inegualável desenho da vida.
As palavras chegam
como? de onde? porque?
chegam...como som de riacho entre rochedos
como linho colhido para tecer brancos lençóis
onde o presente se deita
desfiando memórias...
e lançar a ponte entre os irrepetíveis
momentos do ser.
1 160
Angela Santos
Rumores
Sentem-se os rumores
os gestos que anunciam
a liberdade que chega
e se faz anunciar
no tempo em que tudo irrompe
e renasce à flor da terra
E do corpo ressalta a chama
a vivacidade que sai
pelos poros, pelo coração
e uma serenidade fluida se improvisa
nos gestos em tom de azul…
Lembram - se os dias de sol
agosto vivo no meu tempo,
quando só a Primavera
emerge na sagração
E há odes de luz e som
que se derramam dos olhos
que bebem já do futuro
pressentido a cada passo
que leva mais adiante
O teu sonho em mim guardado
como corpo em gestação
este sentir já um só
este cruzar de destino
o mesmo sonho, o mesmo caminho.
os gestos que anunciam
a liberdade que chega
e se faz anunciar
no tempo em que tudo irrompe
e renasce à flor da terra
E do corpo ressalta a chama
a vivacidade que sai
pelos poros, pelo coração
e uma serenidade fluida se improvisa
nos gestos em tom de azul…
Lembram - se os dias de sol
agosto vivo no meu tempo,
quando só a Primavera
emerge na sagração
E há odes de luz e som
que se derramam dos olhos
que bebem já do futuro
pressentido a cada passo
que leva mais adiante
O teu sonho em mim guardado
como corpo em gestação
este sentir já um só
este cruzar de destino
o mesmo sonho, o mesmo caminho.
1 173
Angela Santos
Meu Bem Querer
Surge
diante de mim
como um lampejo de luz
e claramente eu vejo
que é ela…
Deusa do meu amor
Venus como todas
as mulheres
que trazem as mãos
e o peito carregados
de amor
Clara Luz
essa que me invade
a vida e o desejo
meu bem querer
meu bem me quer
diante de mim
como um lampejo de luz
e claramente eu vejo
que é ela…
Deusa do meu amor
Venus como todas
as mulheres
que trazem as mãos
e o peito carregados
de amor
Clara Luz
essa que me invade
a vida e o desejo
meu bem querer
meu bem me quer
1 215
Angela Santos
Parêntesis
Há dias em
que se acorda com a cabeça repleta,
o peito querendo explodir por todos os seus ângulos,
como se ao regressarmos do fundo da noite,
retornássemos da safra de um qualquer campo que existe
num lugar que não sabemos,
onde revisitamos os lugares só possíveis enquanto
o manto da noite cobre a razão, amacia ânsias,
disfarça nas vestes do sonho
medos, limites e nos devolve à luz da manhã,
vindos dessa "terra de ninguém
e do todo", renovados, renascidos,
já que cada dia se morre um pouco, e se
renasce em igual medida.
O pensamento em suas pausas,
deixa então que me sente junto á corrente do coração,
sempre a transbordar.
Há muito que busco esse diálogo que não é
concorrente,
antes cooperante, da razão e das emoções.
Em seus avanços o coração galga as margens
e os limites do espaço
do possível, porque nele não é contido.
Por vezes não sei, se nesses instantes regresso à infância,
ao domínio absoluto do sonho e do imaginário,
ou a um qualquer tipo de consciente demência,
que me induz a surrealizar,
tão certa de ser essa a brecha por onde a minha sanidade mental
e o meu equilíbrio,
obrigatoriamente devem passar.
Não chego nunca a entender
(e para que preciso?)
se é o lado melhor do pensar misturado com o sentir
que ali se mesclam, já que esse é o instante
que nos torna maiores,
e nos faz pairar numa dimensão
onde a rosa dos ventos enlouqueceria
no seu imparávelrodopiar.
Momentos de tudo ser, tudo sentir. Mistura-se o
pretérito, o instante e o que desejamos que venha.
E o que há-de vir virá.
Mesmo se o que quisemos se transmuda e surge como
o que não esperávamos.
Ainda assim, surge o que haveria de vir.
Não vou dar às palavras a toada de
um qualquer "fatum", nem adorná-las de um qualquer determinismo:
se o que esperamos não se revela
com a face do esperado, é
porque confundimos a mascara com o rosto,
ou porque o verdadeiro rosto só o lapidará o tempo.
A luz entra de repente pela janela do meu
habitáculo. Faço de novo um parêntesis no curso
do meu pensamento, no instante em que estava
de novo tentada a parar,
ou pairar sobre os episódios da dimensão
"o que poderia ter sido".
Não quis ficar suspensa
sobre esses momentos em que em rewind surgiam
os momentos em que esperei "acontecer"
e acabei por viver o inesperado.
Suspendo a corrente do pensar,
sentindo esse chamado da luz para as coisas simples.
A nesga de sol me distrai da corrente sem norte
e sem lei , onde mergulho.
Receio, por vezes o destino dos navios que sulcam
os mares de sargaços.
A ousadia me seduz a descer, ou a subir
(como sabê-lo?),
já que se faz caminho ao andar.
É no compasso do passo que é
preciso ficar atenta,
é no movimento invisível das coisas
que tudo se joga e esse só o entende quem está atento
de uma outra forma.
Um dia de sol...é um dia de sol, talvez não seja
melhor nem pior do que um dia de chuva.
Afinal na sua sabedoria umas vezes simples,
chã, outras nem tanto,
Pessoa dizia que ambos são bons porque
existem. Aí reside quiçá a razão de tudo
ter razão de ser.
Mas um dia de sol, faz a diferença:
é que é de luz que vivem meus olhos,
porque é no calor que vibram meus nervos
e é nesse morno caldo em que estão mergulhadas, que sobrevivem
minhas células.
Um dia de sol a descoberto, é um dia de sol e
isso eu sinto-o por dentro de mim,
sem outra explicação.
E eu sei que todos os dias são dias de sol.
Mesmo que não o seja no lugar onde eu esteja.
É que um dia de sol que se descobre diante dos meus olhos,
existe aos meus olhos
e por dentro de mim.
E nada é igual à luz de um sol que se não abriu.
Quem sabe se um dia não velei o sol,
nos templos dos druidas, ou fui simples
adoradora da luz primordial?
Despertar assim, trazendo a cabeça e o peito
repletos de coisas, vagas ou não,
depois de atravessar esse campo imenso
onde se dilui a consciência em alerta,
requer uma espécie de exercício de equilibrista.
O dia nos toma inteiros, nos chamando,
requerendo a nossa atenção permanente.
É o vermelho que aparece ao cruzar de uma rua,
o choro ou riso de uma criança que atravessa nossa parede,
esse imenso mar de gente em que mergulhamos,
o louco vai e vem desse todo indefinido
sem contornos da multidão,
que nos dilui no seu atropelo, onde de repente
não somos mais nós,
somos mais um; as pequenas solicitações do quotidiano,
no encadeamento de actos, escolhas e decisões,
em que a cada momento construímos futuro.
E longe, diluídos na torrente do dia e de suas repetições,
o eco dos sonhos maiores, pacientemente
aguardando a vez na fila de espera.
De esperas e adiamentos se faz o correr da vida.
Porque há momentos e eles surgem do nada.
Não os esperamos e aí estão diante de nós,
puxando-nos para a vivência do inesperado,
vestindo outras vestes e
de um modo tal irreconhecíveis
que nem damos conta de que chegou o que
vivemos a esperar, trazendo em si outras esperas.
E a cabeça, que exige respostas simples se questiona,
sem devolução de resposta e cede, aguardando
um lampejo que chegue pela via da lucidez pressentida.
E é assim que podemos chegar a esse ponto da
existência, cujo estádio se não define claramente,
porque nada necessita de grande clarificação:
as coisas são, tal como são, nem sempre as entendemos,
e aceitar não saber é de algum modo
um certo começo de sabedoria.
Não é indiferença, não é renuncia,
nem resignação,
o que sobrevem ao tumulto do coração,
à rebelião da carne, à fome de querer e não
ter.
Não tem nome porque se dê esse momento,
em que sobre a vida se abre um parêntesis e nele
contido fica talvez o essencial, porque sem resposta.
Quem sabe,
se a elementar razão de todo o resto ser.
que se acorda com a cabeça repleta,
o peito querendo explodir por todos os seus ângulos,
como se ao regressarmos do fundo da noite,
retornássemos da safra de um qualquer campo que existe
num lugar que não sabemos,
onde revisitamos os lugares só possíveis enquanto
o manto da noite cobre a razão, amacia ânsias,
disfarça nas vestes do sonho
medos, limites e nos devolve à luz da manhã,
vindos dessa "terra de ninguém
e do todo", renovados, renascidos,
já que cada dia se morre um pouco, e se
renasce em igual medida.
O pensamento em suas pausas,
deixa então que me sente junto á corrente do coração,
sempre a transbordar.
Há muito que busco esse diálogo que não é
concorrente,
antes cooperante, da razão e das emoções.
Em seus avanços o coração galga as margens
e os limites do espaço
do possível, porque nele não é contido.
Por vezes não sei, se nesses instantes regresso à infância,
ao domínio absoluto do sonho e do imaginário,
ou a um qualquer tipo de consciente demência,
que me induz a surrealizar,
tão certa de ser essa a brecha por onde a minha sanidade mental
e o meu equilíbrio,
obrigatoriamente devem passar.
Não chego nunca a entender
(e para que preciso?)
se é o lado melhor do pensar misturado com o sentir
que ali se mesclam, já que esse é o instante
que nos torna maiores,
e nos faz pairar numa dimensão
onde a rosa dos ventos enlouqueceria
no seu imparávelrodopiar.
Momentos de tudo ser, tudo sentir. Mistura-se o
pretérito, o instante e o que desejamos que venha.
E o que há-de vir virá.
Mesmo se o que quisemos se transmuda e surge como
o que não esperávamos.
Ainda assim, surge o que haveria de vir.
Não vou dar às palavras a toada de
um qualquer "fatum", nem adorná-las de um qualquer determinismo:
se o que esperamos não se revela
com a face do esperado, é
porque confundimos a mascara com o rosto,
ou porque o verdadeiro rosto só o lapidará o tempo.
A luz entra de repente pela janela do meu
habitáculo. Faço de novo um parêntesis no curso
do meu pensamento, no instante em que estava
de novo tentada a parar,
ou pairar sobre os episódios da dimensão
"o que poderia ter sido".
Não quis ficar suspensa
sobre esses momentos em que em rewind surgiam
os momentos em que esperei "acontecer"
e acabei por viver o inesperado.
Suspendo a corrente do pensar,
sentindo esse chamado da luz para as coisas simples.
A nesga de sol me distrai da corrente sem norte
e sem lei , onde mergulho.
Receio, por vezes o destino dos navios que sulcam
os mares de sargaços.
A ousadia me seduz a descer, ou a subir
(como sabê-lo?),
já que se faz caminho ao andar.
É no compasso do passo que é
preciso ficar atenta,
é no movimento invisível das coisas
que tudo se joga e esse só o entende quem está atento
de uma outra forma.
Um dia de sol...é um dia de sol, talvez não seja
melhor nem pior do que um dia de chuva.
Afinal na sua sabedoria umas vezes simples,
chã, outras nem tanto,
Pessoa dizia que ambos são bons porque
existem. Aí reside quiçá a razão de tudo
ter razão de ser.
Mas um dia de sol, faz a diferença:
é que é de luz que vivem meus olhos,
porque é no calor que vibram meus nervos
e é nesse morno caldo em que estão mergulhadas, que sobrevivem
minhas células.
Um dia de sol a descoberto, é um dia de sol e
isso eu sinto-o por dentro de mim,
sem outra explicação.
E eu sei que todos os dias são dias de sol.
Mesmo que não o seja no lugar onde eu esteja.
É que um dia de sol que se descobre diante dos meus olhos,
existe aos meus olhos
e por dentro de mim.
E nada é igual à luz de um sol que se não abriu.
Quem sabe se um dia não velei o sol,
nos templos dos druidas, ou fui simples
adoradora da luz primordial?
Despertar assim, trazendo a cabeça e o peito
repletos de coisas, vagas ou não,
depois de atravessar esse campo imenso
onde se dilui a consciência em alerta,
requer uma espécie de exercício de equilibrista.
O dia nos toma inteiros, nos chamando,
requerendo a nossa atenção permanente.
É o vermelho que aparece ao cruzar de uma rua,
o choro ou riso de uma criança que atravessa nossa parede,
esse imenso mar de gente em que mergulhamos,
o louco vai e vem desse todo indefinido
sem contornos da multidão,
que nos dilui no seu atropelo, onde de repente
não somos mais nós,
somos mais um; as pequenas solicitações do quotidiano,
no encadeamento de actos, escolhas e decisões,
em que a cada momento construímos futuro.
E longe, diluídos na torrente do dia e de suas repetições,
o eco dos sonhos maiores, pacientemente
aguardando a vez na fila de espera.
De esperas e adiamentos se faz o correr da vida.
Porque há momentos e eles surgem do nada.
Não os esperamos e aí estão diante de nós,
puxando-nos para a vivência do inesperado,
vestindo outras vestes e
de um modo tal irreconhecíveis
que nem damos conta de que chegou o que
vivemos a esperar, trazendo em si outras esperas.
E a cabeça, que exige respostas simples se questiona,
sem devolução de resposta e cede, aguardando
um lampejo que chegue pela via da lucidez pressentida.
E é assim que podemos chegar a esse ponto da
existência, cujo estádio se não define claramente,
porque nada necessita de grande clarificação:
as coisas são, tal como são, nem sempre as entendemos,
e aceitar não saber é de algum modo
um certo começo de sabedoria.
Não é indiferença, não é renuncia,
nem resignação,
o que sobrevem ao tumulto do coração,
à rebelião da carne, à fome de querer e não
ter.
Não tem nome porque se dê esse momento,
em que sobre a vida se abre um parêntesis e nele
contido fica talvez o essencial, porque sem resposta.
Quem sabe,
se a elementar razão de todo o resto ser.
836
Angela Santos
De Profundis
Diante
da Beleza, do Amor, de Deus
emudecemos
As palavras são excrescências
e despropositadas vêm
invadir a densa profundidade do silêncio
onde se vive a dimensão do essencial.
da Beleza, do Amor, de Deus
emudecemos
As palavras são excrescências
e despropositadas vêm
invadir a densa profundidade do silêncio
onde se vive a dimensão do essencial.
973
Sandra Falcone
Sherezhade
Pudesse
eu,
de alguma forma,
modificar a minha íntima estrutura de mulher...
Ah, esta ambigüidade me alucina!
Não saber nada,
absolutamente nada,
apavora, amedronta.
Maldito cotidiano psíquico!
Deixar-me assim,
tomada por todos os mins.
Minha vontade. Minha imaginação.
Pedaços de mulher. Espelho de sonhos.
Ah!, quantas e quantas vezes,
ainda,
Sherezhade de mim mesma?
eu,
de alguma forma,
modificar a minha íntima estrutura de mulher...
Ah, esta ambigüidade me alucina!
Não saber nada,
absolutamente nada,
apavora, amedronta.
Maldito cotidiano psíquico!
Deixar-me assim,
tomada por todos os mins.
Minha vontade. Minha imaginação.
Pedaços de mulher. Espelho de sonhos.
Ah!, quantas e quantas vezes,
ainda,
Sherezhade de mim mesma?
961
Fernando Fabião
Em Louvor do Silêncio
Em louvor
do silencio
Lembro os peixes mudos percorrendo o sono
Um fruto que cai grave
No corpo da terra
Lembro o aroma das glicínias
O murmúrio dos mortos povoando as casas
Os versos obscuros onde habita a delicadeza do amor.
É nos estilhaços do mundo
Que o indizível se escreve
Invade as folhas, as mãos pousadas na orla do mar.
do silencio
Lembro os peixes mudos percorrendo o sono
Um fruto que cai grave
No corpo da terra
Lembro o aroma das glicínias
O murmúrio dos mortos povoando as casas
Os versos obscuros onde habita a delicadeza do amor.
É nos estilhaços do mundo
Que o indizível se escreve
Invade as folhas, as mãos pousadas na orla do mar.
962
Angela Santos
Do Amor
(Para
C., meu amor)
Assim , de repente,
como todas as coisas que vêm sem aviso,
quis falar-te "disto" que cresceu dentro de mim,
este querer feito de coisas que só se sentem,
e ficam no limbo das definições,
porque definir é limitar.
Eu quis falar
do que ao jeito de "milagre" aconteceu
uma palavra, gerou outra e outra e outra,
e essas palavras traziam em si o que nelas colocamos
e era a gente que fluía nessas palavras
Tantas palavras… para dizer o possível de tanto sentir
palavras como corpos gestantes, revelando, desnudando,
quantas vezes se erguendo como muro
tantas vezes nos fartando, nos faltando, sobrando
à mingua de não nos termos e fazermos com as palavras
a vez do corpo, do coração, do suspiro, do sorriso,
do toque, do abraço, da entrega, do desejo, da saudade.
E ainda assim, as palavras
são o que tenho para dizer "te amo",
palavras que entreteço com gestos e sinais
com que se enchem o meu e o teu quotidiano,
meus dias e minhas noites, repletos da tua presença,
antes de mais neste sentir que abrigo
e se encaminha para ti
Se as palavras são o que me resta,
se um vago perfume se te pega às mãos
e por ele me lembras,
se num fio de telefone alivio a fome de ti,
se até no silêncio eu me oiço chamar-te,
que assim seja!
Um dia tudo será diferente e tão igual
ao que sinto, digo, faço
porque o que faço, digo e sinto,
vem do fundo onde te guardo
esse lugar de onde brota
a verdade com que digo
o tanto que quero dizer, se simplesmente digo
"Te amo"
C., meu amor)
Assim , de repente,
como todas as coisas que vêm sem aviso,
quis falar-te "disto" que cresceu dentro de mim,
este querer feito de coisas que só se sentem,
e ficam no limbo das definições,
porque definir é limitar.
Eu quis falar
do que ao jeito de "milagre" aconteceu
uma palavra, gerou outra e outra e outra,
e essas palavras traziam em si o que nelas colocamos
e era a gente que fluía nessas palavras
Tantas palavras… para dizer o possível de tanto sentir
palavras como corpos gestantes, revelando, desnudando,
quantas vezes se erguendo como muro
tantas vezes nos fartando, nos faltando, sobrando
à mingua de não nos termos e fazermos com as palavras
a vez do corpo, do coração, do suspiro, do sorriso,
do toque, do abraço, da entrega, do desejo, da saudade.
E ainda assim, as palavras
são o que tenho para dizer "te amo",
palavras que entreteço com gestos e sinais
com que se enchem o meu e o teu quotidiano,
meus dias e minhas noites, repletos da tua presença,
antes de mais neste sentir que abrigo
e se encaminha para ti
Se as palavras são o que me resta,
se um vago perfume se te pega às mãos
e por ele me lembras,
se num fio de telefone alivio a fome de ti,
se até no silêncio eu me oiço chamar-te,
que assim seja!
Um dia tudo será diferente e tão igual
ao que sinto, digo, faço
porque o que faço, digo e sinto,
vem do fundo onde te guardo
esse lugar de onde brota
a verdade com que digo
o tanto que quero dizer, se simplesmente digo
"Te amo"
731
Sandra Falcone
Não Chorou
quando
nasceu
não desperdiçava nada
nem lágrimas
não era triste
nem alegre
pra quê?
se nem menino
chegou a ser?
nasceu a assim
pronto pra vida
e da vida
que já sabia tudo
já não pedia quase mais nada
pra quê?
se até da fome
que já era tanta
nem mais lembrava?
nasceu
não desperdiçava nada
nem lágrimas
não era triste
nem alegre
pra quê?
se nem menino
chegou a ser?
nasceu a assim
pronto pra vida
e da vida
que já sabia tudo
já não pedia quase mais nada
pra quê?
se até da fome
que já era tanta
nem mais lembrava?
787
Fernando Tavares Rodrigues
Corpo
Que não
seja estátua!
Seja às vezes carne
Entre rosa e sangue
Entre forma e fundo.
Saiba ser o fruto
Sem ser só o gomo
Seja vinho novo
Seja apenas sumo.
Seja nevoeiro.
Venha nu, mas venha
Envolto na bruma....
Possa ser mistério...
Seja cais à espera
Seja barco à vela;
Possa ser mar alto
Possa ainda ser espuma.
(Traga o encanto de ser
impossívekl e longinquo
como um postal colorido
de uma cidade qualquer)
Que para além da imagem
Haja madrugada.
Seja uma viagem
Entre tudo e nada.
Como o álcool puro
Quando se evapora
E risca o futuro
Do lado de fora...
seja estátua!
Seja às vezes carne
Entre rosa e sangue
Entre forma e fundo.
Saiba ser o fruto
Sem ser só o gomo
Seja vinho novo
Seja apenas sumo.
Seja nevoeiro.
Venha nu, mas venha
Envolto na bruma....
Possa ser mistério...
Seja cais à espera
Seja barco à vela;
Possa ser mar alto
Possa ainda ser espuma.
(Traga o encanto de ser
impossívekl e longinquo
como um postal colorido
de uma cidade qualquer)
Que para além da imagem
Haja madrugada.
Seja uma viagem
Entre tudo e nada.
Como o álcool puro
Quando se evapora
E risca o futuro
Do lado de fora...
1 107
Angela Santos
Gingle Bells
Gingle
Bells
Segundo dia do mês da celebração
Natividade, a alegria…
mas não se esquece
o que escorre por fora dos dias da festa
Luzes, ruas serpenteadas, tristeza e alegria
olhos de agua rasos, fartura, falta,
miséria, desperdício,descaminhos,
almas vazias e a imensa solidão…
dos que vão sozinhos
pelas avenidas feridas de Neóns
Gingle Bells
nas vitrines, nos corações que comerciam
na imaginação pura e sem enfeites das crianças,
nos olhos de quem vai ao frio
sentir que está longe de tudo
e guarda esbatida, a memória longínqua
de uma noite de Natal.
"We Wish a Merry Christmas"
cantam sorridentes pais-natais
dentro de redomas longe do alcance
de quem não sabe outra língua
e fixa com olhos de espanto
o boneco barbudo articulado
Perdidos, apressados, massificados
não reparamos…
atiramos os dias pela janela
guardando o brilho nos olhos
para a festa marcada nos calendários.
Natal
quotidianamente impresso
em nossas vidas e gestos
diária celebração, era o Natal que eu queria
ter
sem uivos que rompam a nossa surdez
ou ilusórios mundos de luz
sem marcas na agenda que insistem lembrar
que é dia da vida acontecer.
Bells
Segundo dia do mês da celebração
Natividade, a alegria…
mas não se esquece
o que escorre por fora dos dias da festa
Luzes, ruas serpenteadas, tristeza e alegria
olhos de agua rasos, fartura, falta,
miséria, desperdício,descaminhos,
almas vazias e a imensa solidão…
dos que vão sozinhos
pelas avenidas feridas de Neóns
Gingle Bells
nas vitrines, nos corações que comerciam
na imaginação pura e sem enfeites das crianças,
nos olhos de quem vai ao frio
sentir que está longe de tudo
e guarda esbatida, a memória longínqua
de uma noite de Natal.
"We Wish a Merry Christmas"
cantam sorridentes pais-natais
dentro de redomas longe do alcance
de quem não sabe outra língua
e fixa com olhos de espanto
o boneco barbudo articulado
Perdidos, apressados, massificados
não reparamos…
atiramos os dias pela janela
guardando o brilho nos olhos
para a festa marcada nos calendários.
Natal
quotidianamente impresso
em nossas vidas e gestos
diária celebração, era o Natal que eu queria
ter
sem uivos que rompam a nossa surdez
ou ilusórios mundos de luz
sem marcas na agenda que insistem lembrar
que é dia da vida acontecer.
737
António Botto
Canções
Pedir
amparo a alguém é uma loucura.
Pedir amor,
Também nada resolve – e para quê?
O amor corre – e em seus próprios movimentos
Isola-se, e de tudo parece que descrê;
E quando vem dizer-nos que é verdade,
Vê-se a mentira
Em que ele a rir afirma o que não vê.
amparo a alguém é uma loucura.
Pedir amor,
Também nada resolve – e para quê?
O amor corre – e em seus próprios movimentos
Isola-se, e de tudo parece que descrê;
E quando vem dizer-nos que é verdade,
Vê-se a mentira
Em que ele a rir afirma o que não vê.
2 968
Angela Santos
Relatividade
O
belo e o vulgar se misturam
e um dia é belo o que não vi,
vulgar o que esgotou em cansaços meu olhar.
Desempoeirando meus olhos, olhei um dia
e o que não via ou parecia vulgar
o vi cheio de uma outra luz
e seus contornos antes inalcançaveis
tinham um não sei que me bordavam a alma.
Aquele objecto o olhei e quis um dia
pelas formas, harmonia e cor,
nada mais que um vulgar biblot
hoje cansa-me o olhar
Neste mesmo lugar, quotidianamente,
olho as coisas que enchem meus dias
olho hoje, e sei ver o que meus olhos
transfigurados, nem eu sei porquê.
não verão amanhã.
belo e o vulgar se misturam
e um dia é belo o que não vi,
vulgar o que esgotou em cansaços meu olhar.
Desempoeirando meus olhos, olhei um dia
e o que não via ou parecia vulgar
o vi cheio de uma outra luz
e seus contornos antes inalcançaveis
tinham um não sei que me bordavam a alma.
Aquele objecto o olhei e quis um dia
pelas formas, harmonia e cor,
nada mais que um vulgar biblot
hoje cansa-me o olhar
Neste mesmo lugar, quotidianamente,
olho as coisas que enchem meus dias
olho hoje, e sei ver o que meus olhos
transfigurados, nem eu sei porquê.
não verão amanhã.
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