Poemas neste tema
Alma
Angela Santos
Reconstrução
Prende-me
ao tempo
despido de história,
à memória branca,
à leveza de ser…
Prende-me a ti
desassossego, caos
viagem, maré ……
E desfaz-me, depois
para que me despoje e faça
à imagem do eu
que tiver que ser.
ao tempo
despido de história,
à memória branca,
à leveza de ser…
Prende-me a ti
desassossego, caos
viagem, maré ……
E desfaz-me, depois
para que me despoje e faça
à imagem do eu
que tiver que ser.
1 163
Angela Santos
Guerra
Já
nada os fazia seguir ou ficar…
lá ao longe o eco de explosões e gritos
O asfalto da guerra
e a vida distante
envolta em lembranças de sonhos perdidos,
O sonho tingido de fumos e negro
inventava cores desenhava horizontes
cada passo em frente era um passo
a menos
cada vez mais perto
do sonho acabar
Corpos e memória desnudos, exaustos
Cavados por dentro
por uma raiva lume,
funda de raiz…
um grito apertado
expresso nos olhos,
e no crispar da arma
nas mãos de crianças
sem tempo de o ser…
E os senhores do tempo
sem alma e sem Deus
perdidos nos jogos de ódios
e razões,
lembram novos Neros
saboreando pérfidos
a visão do sangue
invadindo a arena.
nada os fazia seguir ou ficar…
lá ao longe o eco de explosões e gritos
O asfalto da guerra
e a vida distante
envolta em lembranças de sonhos perdidos,
O sonho tingido de fumos e negro
inventava cores desenhava horizontes
cada passo em frente era um passo
a menos
cada vez mais perto
do sonho acabar
Corpos e memória desnudos, exaustos
Cavados por dentro
por uma raiva lume,
funda de raiz…
um grito apertado
expresso nos olhos,
e no crispar da arma
nas mãos de crianças
sem tempo de o ser…
E os senhores do tempo
sem alma e sem Deus
perdidos nos jogos de ódios
e razões,
lembram novos Neros
saboreando pérfidos
a visão do sangue
invadindo a arena.
762
Mauricio Segall
Inesperadamente lento
Inesperadamente
lento
um momento
entre um sorriso ameno
e o olhar atento
Franzir do cenho
mordiscar do beiço
sopro no cabelo
regendo o vento
Olho cristal do olho
boca trigo da boca
lábio néctar do lábio
levitar, quase um lamento
Do tormento, do langor
retornas ao tédio do momento
entre um sorriso ameno
e o olhar atento;
Curioso, paciente
mudo indago, contemplo;
neste segundo e século
separa-nos a mesa do tempo.
lento
um momento
entre um sorriso ameno
e o olhar atento
Franzir do cenho
mordiscar do beiço
sopro no cabelo
regendo o vento
Olho cristal do olho
boca trigo da boca
lábio néctar do lábio
levitar, quase um lamento
Do tormento, do langor
retornas ao tédio do momento
entre um sorriso ameno
e o olhar atento;
Curioso, paciente
mudo indago, contemplo;
neste segundo e século
separa-nos a mesa do tempo.
878
Angela Santos
Além-Limite
Partir
rumo ao
ser secreto
que espera
viagem sempre adiada…
Seguir…
reter rostos e vozes
embriagar os sentidos
a tragos de vida.
e partir…
Navegar…
oceanos que nuns olhos inventar,
descobrir
na terra passos irmãos
entender
da vida os sinais
e seguir…
Ousar…
ir além-limite
num golpe de asa que ousando
chega a tocar o infinito
rumo ao
ser secreto
que espera
viagem sempre adiada…
Seguir…
reter rostos e vozes
embriagar os sentidos
a tragos de vida.
e partir…
Navegar…
oceanos que nuns olhos inventar,
descobrir
na terra passos irmãos
entender
da vida os sinais
e seguir…
Ousar…
ir além-limite
num golpe de asa que ousando
chega a tocar o infinito
702
Nauro Machado
Cosa Mentale
Pode-se
viver de pensar?
Saber-se coisa dentre um corpo
Como animal de pensamento?
Do pó não pode haver nada:
Apenas mãos, do pó nascidas,
No pó se chamam mãos...Ó Nada!
Ó esplendoroso Nada em ti
na luz do ser após nascido
para a grande noite depois:
teu corpo é um quarto mobilado
sobre quem dispo o pensamento
de todas as suas gavetas.
Minha memória te destrói
- prego por prego - nos ferrolhos,
para tirar-te inteira ao dentro.
Pode-se viver de pensar:
a matéria atrapalha tudo
pelo hábito de acabar-se.
viver de pensar?
Saber-se coisa dentre um corpo
Como animal de pensamento?
Do pó não pode haver nada:
Apenas mãos, do pó nascidas,
No pó se chamam mãos...Ó Nada!
Ó esplendoroso Nada em ti
na luz do ser após nascido
para a grande noite depois:
teu corpo é um quarto mobilado
sobre quem dispo o pensamento
de todas as suas gavetas.
Minha memória te destrói
- prego por prego - nos ferrolhos,
para tirar-te inteira ao dentro.
Pode-se viver de pensar:
a matéria atrapalha tudo
pelo hábito de acabar-se.
1 323
Mauricio Segall
Como é triste
Como é
triste
Admirar as garotas de Ipanema
Que pensam que sabem muito
Mas sabem apenas
Que o sol queima
E a praia brozeia
Que cuca é careta
Legal é o gozo
Na liberdade do corpo
Desnudo de tudo
No culto de si
No altar do formoso.
Na passarela as zona sul
O desfile contínuo
Das coxas carnudas
No andar lascivo
Das peles douradas
Das nádegas fofas
Da aerrogância pontuda
Dos bicos dos seios
Dos lábios salientes
Nas tangas colantes
Das pernas abertas
Das pernas fechadas no bar da patota
Das pernas vibrantes
No footing da areia.
A dureza precoce
Nos traços da face
Nos olhares sabidos
De sábia malícia
Mas burras do mundo
Ignorantes de tudo
Prenúncios do nada
Prenúncios doídos.
Quanto desejo frio/quente impregnados de pena
Suscitam as esplendorosas estátuas de Ipanema.
triste
Admirar as garotas de Ipanema
Que pensam que sabem muito
Mas sabem apenas
Que o sol queima
E a praia brozeia
Que cuca é careta
Legal é o gozo
Na liberdade do corpo
Desnudo de tudo
No culto de si
No altar do formoso.
Na passarela as zona sul
O desfile contínuo
Das coxas carnudas
No andar lascivo
Das peles douradas
Das nádegas fofas
Da aerrogância pontuda
Dos bicos dos seios
Dos lábios salientes
Nas tangas colantes
Das pernas abertas
Das pernas fechadas no bar da patota
Das pernas vibrantes
No footing da areia.
A dureza precoce
Nos traços da face
Nos olhares sabidos
De sábia malícia
Mas burras do mundo
Ignorantes de tudo
Prenúncios do nada
Prenúncios doídos.
Quanto desejo frio/quente impregnados de pena
Suscitam as esplendorosas estátuas de Ipanema.
937
Angela Santos
Ideologia
Vinham
de longe,
atravessavam desertos
tempestades resistiam,
e no coração guardada
a fórmula do alquimista
viandantes condenados
grilhões de ferro nos pés
vezes e vezes caíram,
seguir era a sua sina
fosse ou não razão ficar.
E cumpriam-se à chegada
exaustos, e sem sentido
um outro norte, a mesma senha…
por eles de novo se erguiam
por eles de novo partir…
Alvoradas, bandeiras, hinos
espadas em punho brandindo
contra o tempo contra os ventos,
sem resistência lá iam,
um novo mundo cumprir.
de longe,
atravessavam desertos
tempestades resistiam,
e no coração guardada
a fórmula do alquimista
viandantes condenados
grilhões de ferro nos pés
vezes e vezes caíram,
seguir era a sua sina
fosse ou não razão ficar.
E cumpriam-se à chegada
exaustos, e sem sentido
um outro norte, a mesma senha…
por eles de novo se erguiam
por eles de novo partir…
Alvoradas, bandeiras, hinos
espadas em punho brandindo
contra o tempo contra os ventos,
sem resistência lá iam,
um novo mundo cumprir.
1 073
Angela Santos
Condição
Se
de um mistério me queres falar
lembra-me a semente prenhe
acoitada no seio da terra
em silencio a germinar
Se me queres falar
do amor – dor
fala-me do tenro tronco
que em grito rasga
o corpo da mulher
Se me queres falar da alegria
lembra-me um rútila boca pequenina
que sem sombra de cuidado
ri ainda
Se me queres falar de paz
leva-me ao fim do dia
junto ao esplendor de um sol
em brasa
sobre a mansidão do mar.
Se me queres falar da vida
mostra-me o homem que procura
fala-me do amor, da dor
e às vezes da alegria!
de um mistério me queres falar
lembra-me a semente prenhe
acoitada no seio da terra
em silencio a germinar
Se me queres falar
do amor – dor
fala-me do tenro tronco
que em grito rasga
o corpo da mulher
Se me queres falar da alegria
lembra-me um rútila boca pequenina
que sem sombra de cuidado
ri ainda
Se me queres falar de paz
leva-me ao fim do dia
junto ao esplendor de um sol
em brasa
sobre a mansidão do mar.
Se me queres falar da vida
mostra-me o homem que procura
fala-me do amor, da dor
e às vezes da alegria!
1 001
Angela Santos
A um Suicída
(11/12/85)
A
manhã chegava
de orlas nocturnas adornada
Nos trilhos de um comboio
a vida parara de correr…
A manhã chegava
e despontava negro
o dia
a lógica e o absurdo
sob o manto matinal de brumas
nas letras a preto e branco
de um jornal.
A
manhã chegava
de orlas nocturnas adornada
Nos trilhos de um comboio
a vida parara de correr…
A manhã chegava
e despontava negro
o dia
a lógica e o absurdo
sob o manto matinal de brumas
nas letras a preto e branco
de um jornal.
1 101
Nauro Machado
O Piano dos Afogados
Reténs
a forma para um outro espaço.
Nascem de ti as estranhas madrugadas.
Noturnas chuvas, dos céus mais órfãos,
banham-te as teclas de álgidos artelhos.
Nasce de ti a roupagem das vertentes
que a primeira mulher se despe intacta
para a ressurreição da sua inocência.
Ó azulejo, ó piano de outras mãos:
retém meu mundo pela última vez!
retém meu tempo que esgarça outro tempo!
Retém meu sopro de fugacidade.
a forma para um outro espaço.
Nascem de ti as estranhas madrugadas.
Noturnas chuvas, dos céus mais órfãos,
banham-te as teclas de álgidos artelhos.
Nasce de ti a roupagem das vertentes
que a primeira mulher se despe intacta
para a ressurreição da sua inocência.
Ó azulejo, ó piano de outras mãos:
retém meu mundo pela última vez!
retém meu tempo que esgarça outro tempo!
Retém meu sopro de fugacidade.
1 332
Nauro Machado
Com os dez dedos da mão
Falhei
de tudo o pouco que ainda pude:
se o ser real não pôde ser virtude,
e o irreal ser só pôde , em represália
dizer ao ser real, sem que o abale a
vida em mim a ser só da ilusão:
de ti já sou, por fim, teu falso irmão,
eis o peso da angústia, o enxofre do ouro,
onde enterrei meu possível tesouro.
Feito de quê? De sombra mais que luz,
na assombração debaixo de uma cruz.
descobri-me à verdade, enfim capaz
de oferecer-se a mim - dela incapaz -
mas, sobretudo, pão, rosa ou dejeto,
Uma verdade feita de alfabeto.
de tudo o pouco que ainda pude:
se o ser real não pôde ser virtude,
e o irreal ser só pôde , em represália
dizer ao ser real, sem que o abale a
vida em mim a ser só da ilusão:
de ti já sou, por fim, teu falso irmão,
eis o peso da angústia, o enxofre do ouro,
onde enterrei meu possível tesouro.
Feito de quê? De sombra mais que luz,
na assombração debaixo de uma cruz.
descobri-me à verdade, enfim capaz
de oferecer-se a mim - dela incapaz -
mas, sobretudo, pão, rosa ou dejeto,
Uma verdade feita de alfabeto.
1 506
Mauricio Segall
Descalço e nu
Descalço
e nu
na escuridão de cada madrugada,
quando meus olhos em água
nem conseguem enxergar a caminhada,
Do quarto à sala
da sala ao quarto
Tropeço minha maratona,
treinando não sei por que
nem para que medalha
só pensando chegar à alvorada.
e nu
na escuridão de cada madrugada,
quando meus olhos em água
nem conseguem enxergar a caminhada,
Do quarto à sala
da sala ao quarto
Tropeço minha maratona,
treinando não sei por que
nem para que medalha
só pensando chegar à alvorada.
975
Angela Santos
Inscrição
Por
todos os sinais
por desvendar
gestos, palavras, caminhos
pelo obscuro ventre da verdade
por tudo o que somos,
ou ainda não…
por todas as noites
grávidas de luzes subtis,
auroras, alvoradas
ansiadas…
por aquilo que faremos,
caminhos reinventados,
por aquilo que ainda é sonho
e é urgente cumprir…
do fundo em nós se erguerão
gritos rasgando silêncios
lanças guerreiras
de encontro ao que nega
a ousadia a vida,
o devir, o crer.
Transfigurados os olhos,
volta-se à raiz de tudo
e a singular forma Humana,
no âmago do ser inscrita,
emergirá lá do fundo
noutra imagem reflectida.
todos os sinais
por desvendar
gestos, palavras, caminhos
pelo obscuro ventre da verdade
por tudo o que somos,
ou ainda não…
por todas as noites
grávidas de luzes subtis,
auroras, alvoradas
ansiadas…
por aquilo que faremos,
caminhos reinventados,
por aquilo que ainda é sonho
e é urgente cumprir…
do fundo em nós se erguerão
gritos rasgando silêncios
lanças guerreiras
de encontro ao que nega
a ousadia a vida,
o devir, o crer.
Transfigurados os olhos,
volta-se à raiz de tudo
e a singular forma Humana,
no âmago do ser inscrita,
emergirá lá do fundo
noutra imagem reflectida.
676
Angela Santos
Sentidos
Cheiro,
provo, toco
Terra,
sal,
fogo,
desejo e cismo
a indomável força
do cosmos em mim
vivo.
provo, toco
Terra,
sal,
fogo,
desejo e cismo
a indomável força
do cosmos em mim
vivo.
1 323
Angela Santos
Ausência
Falta-me
O norte
Uma estrela
O caminho
Faltam-me os olhos
Com que me olhe
Falta-me a razão
De saber razões
Falta-me o instante
A mão que rasgue
semeie
Falta-me o quê?
O norte
Uma estrela
O caminho
Faltam-me os olhos
Com que me olhe
Falta-me a razão
De saber razões
Falta-me o instante
A mão que rasgue
semeie
Falta-me o quê?
1 104
Angela Santos
Aspiração
Que
seja de luar a fonte
gota a gota sorvida,
sede inesgotável só amansada…
Que seja de luz o caminho
passo a passo percorrido
viandante ou peregrino
nele imprime seu destino.
seja de luar a fonte
gota a gota sorvida,
sede inesgotável só amansada…
Que seja de luz o caminho
passo a passo percorrido
viandante ou peregrino
nele imprime seu destino.
1 229
Odylo Costa Filho
Soneto da Tarde
Não digo que o sol pare, nem suplico
que teu cabelo não se faça branco.
Nos segredos serenos que fabrico
vive um pouco de mago e saltimbanco.
Mas te desejo simples, natural,
e que o dia na tarde amadureça.
Venceste muita noite e temporal.
Confia em que outra vez ainda amanheça.
O teu reino da infância sempre aberto
guarda o campo e os brinquedos infinitos
nas cores puras, sob o céu coberto.
Nos cajueiros, os pássaros... Os gritos
infantis... Mas a ronda neles nasce
e embranquece o cabelo em tua face.
que teu cabelo não se faça branco.
Nos segredos serenos que fabrico
vive um pouco de mago e saltimbanco.
Mas te desejo simples, natural,
e que o dia na tarde amadureça.
Venceste muita noite e temporal.
Confia em que outra vez ainda amanheça.
O teu reino da infância sempre aberto
guarda o campo e os brinquedos infinitos
nas cores puras, sob o céu coberto.
Nos cajueiros, os pássaros... Os gritos
infantis... Mas a ronda neles nasce
e embranquece o cabelo em tua face.
1 560
Angela Santos
Cume
E
tudo o que eu quiser
posso!
fronteiras a mim cabe
derrubá-las…
rasgo um voo que me leva
a rasar a tempestade,
de mim parto a mim regresso
não sei onde está o fim
da ousadia que teço..
sem grilhões o voo é plano,
olho os escombros de cima
o lance ousado deu-me asas
para sobrevoar o abismo..
Do voo raso ensaio
o voo que a águia lança
e do cimo da montanha,
que passo a passo é subida,
vejo quão longe se alcança
quão fundo e alto se atinge
o fundo de onde viemos
o cume que pressentimos.
tudo o que eu quiser
posso!
fronteiras a mim cabe
derrubá-las…
rasgo um voo que me leva
a rasar a tempestade,
de mim parto a mim regresso
não sei onde está o fim
da ousadia que teço..
sem grilhões o voo é plano,
olho os escombros de cima
o lance ousado deu-me asas
para sobrevoar o abismo..
Do voo raso ensaio
o voo que a águia lança
e do cimo da montanha,
que passo a passo é subida,
vejo quão longe se alcança
quão fundo e alto se atinge
o fundo de onde viemos
o cume que pressentimos.
1 188
Angela Santos
Vozes
Dos
confins se ergue a voz
ouvidos e mente
cerrei ao apelo
Ergue –se um grito
no fundo de mim…
que verdade fala,
onde está o tempo
que a vai cumprir?
confins se ergue a voz
ouvidos e mente
cerrei ao apelo
Ergue –se um grito
no fundo de mim…
que verdade fala,
onde está o tempo
que a vai cumprir?
1 209
Angela Santos
Mordaça
Quanto
grito amordaçado
à garganta preso trago …
quanto desejo amortalhado
sem razão
quanto de mim renegado
à força de um qualquer não.
Força em tumulto
que me traz inquieta
e a ânsia em sinais que não decifro,
grades douradas que não quis
e contudo vivo.
grito amordaçado
à garganta preso trago …
quanto desejo amortalhado
sem razão
quanto de mim renegado
à força de um qualquer não.
Força em tumulto
que me traz inquieta
e a ânsia em sinais que não decifro,
grades douradas que não quis
e contudo vivo.
1 203
Odylo Costa Filho
Soneto da Revisitação
Partamos juntos a rever o rio
onde primeiro o nosso amor nasceu
e acalentando o meu humor sombrio
entre os teus seios amadureceu.
Nasceu tão pleno quanto um sol de estio
mas sobre a dor e a morte ainda cresceu,
embora a prata tenha posto um fio
no teu cabelo, e muitos neste meu.
Vamos em busca de um repouso fundo
que nos envolva de uma leve areia
no banho antigo, em meio aos juçarais.
Que a viagem nos cure deste mundo,
cheia de vozes de teus filhos, cheia
desta alegria de te amar demais.
onde primeiro o nosso amor nasceu
e acalentando o meu humor sombrio
entre os teus seios amadureceu.
Nasceu tão pleno quanto um sol de estio
mas sobre a dor e a morte ainda cresceu,
embora a prata tenha posto um fio
no teu cabelo, e muitos neste meu.
Vamos em busca de um repouso fundo
que nos envolva de uma leve areia
no banho antigo, em meio aos juçarais.
Que a viagem nos cure deste mundo,
cheia de vozes de teus filhos, cheia
desta alegria de te amar demais.
1 071
Mauricio Segall
O voraz saboreio
O voraz
saboreio de cada milímetro
da tua epiderme cor de centeio
das costas aos seios da fronte aos poros
dispostos nas teias de veios azulados
que tateio com lábios sem peias
e leio com olhos que seguem amorosos
todo meneio ameno e ondular sereno do laceio
dos músculos e do recheio carnudo pleno que mordo com dentes afiados
de permeio aos suspiros dolentes na procura do odor perfumado
nas grutas dispersas que cheiro em todo teu corpo macio e cheio
desejado sofregamente na expressão máxima
do meu inexaurível amor anseio.
saboreio de cada milímetro
da tua epiderme cor de centeio
das costas aos seios da fronte aos poros
dispostos nas teias de veios azulados
que tateio com lábios sem peias
e leio com olhos que seguem amorosos
todo meneio ameno e ondular sereno do laceio
dos músculos e do recheio carnudo pleno que mordo com dentes afiados
de permeio aos suspiros dolentes na procura do odor perfumado
nas grutas dispersas que cheiro em todo teu corpo macio e cheio
desejado sofregamente na expressão máxima
do meu inexaurível amor anseio.
968
Angela Santos
Estranheza
Mãe
que distancia é esta
que vai de mim a ti
distancia crescida
se um dia fomos
uma quase - única forma
uma quase única vida
Mãe
estranho sentir o meu
que te vejo estrangeira
e a palavra
mais não é que limite…
Mãe
que desconforto é este
se teus braços um dia foram
repouso, refúgio
e hoje
apenas braços…os teus
abraço que recuso
Mãe
que nome tem o que sinto
espada que pra ti volto
muralha que eu mesmo ergo
por já não saber dizer-me…
Mãe
razão desta dor que nutro
taça do meu amargo néctar,
oferenda do nosso grito mútuo.
que distancia é esta
que vai de mim a ti
distancia crescida
se um dia fomos
uma quase - única forma
uma quase única vida
Mãe
estranho sentir o meu
que te vejo estrangeira
e a palavra
mais não é que limite…
Mãe
que desconforto é este
se teus braços um dia foram
repouso, refúgio
e hoje
apenas braços…os teus
abraço que recuso
Mãe
que nome tem o que sinto
espada que pra ti volto
muralha que eu mesmo ergo
por já não saber dizer-me…
Mãe
razão desta dor que nutro
taça do meu amargo néctar,
oferenda do nosso grito mútuo.
817
Odylo Costa Filho
A Meu Filho
Recorro a ti para não separar-me
deste chão de sargaços mas de flores,
onde há bichos que amaste e mais os frutos
que com tuas mãos plantavas e colhias.
Por essas mãos te peço que me ajudes
e que afastes de mim com os dentes alvos
do teu riso contido mas presente
a tentação da morte voluntária.
Não deixes, filho meu, que a dor de amar-te
me tire o gosto do terreno barro
e a coragem dos lúcidos deveres.
Que estas árvores guardam, no céu puro,
entre rastros de estrelas, a lembrança
dos teus humanos olhos deslumbrados.
deste chão de sargaços mas de flores,
onde há bichos que amaste e mais os frutos
que com tuas mãos plantavas e colhias.
Por essas mãos te peço que me ajudes
e que afastes de mim com os dentes alvos
do teu riso contido mas presente
a tentação da morte voluntária.
Não deixes, filho meu, que a dor de amar-te
me tire o gosto do terreno barro
e a coragem dos lúcidos deveres.
Que estas árvores guardam, no céu puro,
entre rastros de estrelas, a lembrança
dos teus humanos olhos deslumbrados.
1 220