Poemas neste tema
Alma
Angela Santos
Asas
Do
cimo de uma falésia
olhou com olhos despidos de mágoa
dentro do sonho suspenso no tempo
e fez dos gestos um grito
de encontro ao silencio
dos que o olhavam.
Olhos abertos ao devir
e ao sonho,
esfinge resistindo ao tempo
afrontando o vago de almas
e o olhar sem deslumbre,
ao chão da evidência preso.
cimo de uma falésia
olhou com olhos despidos de mágoa
dentro do sonho suspenso no tempo
e fez dos gestos um grito
de encontro ao silencio
dos que o olhavam.
Olhos abertos ao devir
e ao sonho,
esfinge resistindo ao tempo
afrontando o vago de almas
e o olhar sem deslumbre,
ao chão da evidência preso.
731
Angela Santos
Conjugação
Sonhei
que era esta
que sou
e sendo esta
era ainda outra
que também sou
vi-me desdobrada
e una
e sonhei um tempo único
pretérito e espera
saber e adivinhação
Sonhei
tudo podia ser
a negação de limites
e a mutação contínua.
Sou, sendo
o conjugado verbo
do meu ser condicional imperfeito!
que era esta
que sou
e sendo esta
era ainda outra
que também sou
vi-me desdobrada
e una
e sonhei um tempo único
pretérito e espera
saber e adivinhação
Sonhei
tudo podia ser
a negação de limites
e a mutação contínua.
Sou, sendo
o conjugado verbo
do meu ser condicional imperfeito!
1 191
Angela Santos
Nau das Descobertas
Cantar
o agri-doce fado
dos que por destino têm
vastíssimos
os campos do mar
Velas, quilhas, mastros,
oceano a condição,
mas na bruma se perdeu
a seda, o ópio a canela
e o sonho imperial que no tempo
se esfumou.
Olhos de fogo cravados
no adensar dos nevoeiros
filhos deste mar tão perto
na orla das praias cansamos
as viagens adiadas,
e a espera do Encoberto
Navegar é preciso!
por dentro do corpo que respira
rente a este chão que somos
nova Nau das Descobertas
rumo a si, porto e destino…
Ausentes a Cruz de Cristo
o arcabuz e os grilhões
encontraremos ainda
esse longe que buscámos,
não na lança do inimigo
mas no regresso ao destino
da língua- mater e o mar
nos tornar tão só iguais.
o agri-doce fado
dos que por destino têm
vastíssimos
os campos do mar
Velas, quilhas, mastros,
oceano a condição,
mas na bruma se perdeu
a seda, o ópio a canela
e o sonho imperial que no tempo
se esfumou.
Olhos de fogo cravados
no adensar dos nevoeiros
filhos deste mar tão perto
na orla das praias cansamos
as viagens adiadas,
e a espera do Encoberto
Navegar é preciso!
por dentro do corpo que respira
rente a este chão que somos
nova Nau das Descobertas
rumo a si, porto e destino…
Ausentes a Cruz de Cristo
o arcabuz e os grilhões
encontraremos ainda
esse longe que buscámos,
não na lança do inimigo
mas no regresso ao destino
da língua- mater e o mar
nos tornar tão só iguais.
1 134
Angela Santos
Do Poeta
A
palavra do Poeta é um canto
arrancado à raiz do ser,
cifra encontrada
na opaca fundura do tempo
contínuo e sem medida…
Chão secreto é o ser do Poeta
onde o sentido germina
tempestade de clarões
que atravessa e torna prenhe
a palavra solta .. sibilina
Uma dor de punhais cresce
quando o silencio é rasgado
mas a alma do Poeta,
renascida a cada golpe fundo,
transfigurada revela
a própria dimensão
do mundo!
palavra do Poeta é um canto
arrancado à raiz do ser,
cifra encontrada
na opaca fundura do tempo
contínuo e sem medida…
Chão secreto é o ser do Poeta
onde o sentido germina
tempestade de clarões
que atravessa e torna prenhe
a palavra solta .. sibilina
Uma dor de punhais cresce
quando o silencio é rasgado
mas a alma do Poeta,
renascida a cada golpe fundo,
transfigurada revela
a própria dimensão
do mundo!
1 049
Angela Santos
Aguarela
Matizes
cinza suspensos,
em eco passos e risos
mistura de fumo
e nuvens
que se cruzam apressadas
Gritos, ecos e latidos
a lembrar a vida , breve……
e a suave batida do gotejar
da água
sobre os remendos de musgo
que cresceram nos beirais…
Contínuo o som da chuva
é um adagio na vidraça,
como cinzento é o dia
que o sopro da tarde arrasta
e lentas se desprendendo
de um relógio de parede
as horas gastam o dia,
escoando devagar o tempo.
Da varanda da memória
colhem-se pedaços de azul.
e um quadro de girassóis
lembra estios passados,
enquanto a palavra emerge
e vai traçando os contornos
que compõem a aguarela
que com o dia se vai.
cinza suspensos,
em eco passos e risos
mistura de fumo
e nuvens
que se cruzam apressadas
Gritos, ecos e latidos
a lembrar a vida , breve……
e a suave batida do gotejar
da água
sobre os remendos de musgo
que cresceram nos beirais…
Contínuo o som da chuva
é um adagio na vidraça,
como cinzento é o dia
que o sopro da tarde arrasta
e lentas se desprendendo
de um relógio de parede
as horas gastam o dia,
escoando devagar o tempo.
Da varanda da memória
colhem-se pedaços de azul.
e um quadro de girassóis
lembra estios passados,
enquanto a palavra emerge
e vai traçando os contornos
que compõem a aguarela
que com o dia se vai.
1 028
Nauro Machado
IF
Há um se
na vida de cada um,
Um se de depois do fóceps
(no tempo em que a dor cumpria a Bíblia)
e um se de depois da cesariana
(no tempo em que apodrece o fruto
no gozo da emurchecida árvore).
Ah! Se o se negasse o se, e tudo
Fosse um único sim, certeza
De aceitarmos o ser e o fato
E o espelho reflita a imagem caída
Das mãos de imponderável Deus.
na vida de cada um,
Um se de depois do fóceps
(no tempo em que a dor cumpria a Bíblia)
e um se de depois da cesariana
(no tempo em que apodrece o fruto
no gozo da emurchecida árvore).
Ah! Se o se negasse o se, e tudo
Fosse um único sim, certeza
De aceitarmos o ser e o fato
E o espelho reflita a imagem caída
Das mãos de imponderável Deus.
1 204
Mauricio Segall
Lento, curto o momento
Lento,
curto o momento
quando vedas as tochas de felino
e tudo em ti
se reduz ao enleio dos teus lábios
(entre parênteses).
São pêssegos misto de maça e amora
raviólis com recheio cheio
quarto crescente e quarto minguante
sorvedouro e onda
corrente e areia
arco e flecha,
serpente e piano
imã e espora,
nascente e vento,
ventosa e piranha.
Contemplo e questiono
esta voracidade
de morder a carne
macerar as frutas
esmagar a lua
queimar o sol
afogar a tempestade
beber o mar
comer a areia
e afrontar os perigos do rio e da montanha.
Entre o furacão e a calmaria
poente e aurora
orvalho e pântano
da prosa só resta a poesia
curto o momento
quando vedas as tochas de felino
e tudo em ti
se reduz ao enleio dos teus lábios
(entre parênteses).
São pêssegos misto de maça e amora
raviólis com recheio cheio
quarto crescente e quarto minguante
sorvedouro e onda
corrente e areia
arco e flecha,
serpente e piano
imã e espora,
nascente e vento,
ventosa e piranha.
Contemplo e questiono
esta voracidade
de morder a carne
macerar as frutas
esmagar a lua
queimar o sol
afogar a tempestade
beber o mar
comer a areia
e afrontar os perigos do rio e da montanha.
Entre o furacão e a calmaria
poente e aurora
orvalho e pântano
da prosa só resta a poesia
807
Angela Santos
Profecias
Vêm
de longe
e trazem nas mãos
o desenho da rosa
milénios sepultada nas mãos
a eterna forma da rosa
Vêm de longe
e sabem o nome de todas as coisas,
olhos de mar sereno
repousam no fundo de um sonho
antigo.
vêm de longe
e pelos caminhos há estrelas,
profetas do sol
espalham enigmas e gravam sinais.
nos templos, nos livros,
nos olhos de lume
que perscrutam cifras
dum tempo perene
insana tarefa
perdida na busca do sentido
vago
deste tempus breve.
de longe
e trazem nas mãos
o desenho da rosa
milénios sepultada nas mãos
a eterna forma da rosa
Vêm de longe
e sabem o nome de todas as coisas,
olhos de mar sereno
repousam no fundo de um sonho
antigo.
vêm de longe
e pelos caminhos há estrelas,
profetas do sol
espalham enigmas e gravam sinais.
nos templos, nos livros,
nos olhos de lume
que perscrutam cifras
dum tempo perene
insana tarefa
perdida na busca do sentido
vago
deste tempus breve.
800
Angela Santos
Recusa
Hábeis,
as vozes dos arautos
anunciam o jugo
num canto de inocência
simulado
e as nossas asas presas
perdem o jeito de voar.
Guarda o fundo da memória
um bater de asas
que o verdugo não profana,
e devagar vai esboçando
a forma de uma falésia antiga
sobrevoada
Inúteis fontes e oásis
prometidos
à nossa sede sem cura…
num gesto ousado
a alma se desprende
com o voo por destino.
as vozes dos arautos
anunciam o jugo
num canto de inocência
simulado
e as nossas asas presas
perdem o jeito de voar.
Guarda o fundo da memória
um bater de asas
que o verdugo não profana,
e devagar vai esboçando
a forma de uma falésia antiga
sobrevoada
Inúteis fontes e oásis
prometidos
à nossa sede sem cura…
num gesto ousado
a alma se desprende
com o voo por destino.
1 139
Angela Santos
Contradição
Não
me lembres o tempo
que me lembras de mim
e eu quero a amnésia
não sentir…não pensar…
eu louca em busca
da paz e do silencio
quando a tempestade
é que me contagia.
me lembres o tempo
que me lembras de mim
e eu quero a amnésia
não sentir…não pensar…
eu louca em busca
da paz e do silencio
quando a tempestade
é que me contagia.
1 025
Angela Santos
Orientação
Ainda
que perdidos
meus passos pareçam…
ainda que a alma segrede
o desencontro dos exilados,
eu sei de uma razão…
e por ela sigo,
busca incessante
teimando o caminho.
leva-me o sonho
que em mim ganhou voz…
minha estrela, meu norte,
meu rumo, meu trilho
minha barca d´Alva
levando na proa
o mapa dos ventos que
lhe dá sentido.
que perdidos
meus passos pareçam…
ainda que a alma segrede
o desencontro dos exilados,
eu sei de uma razão…
e por ela sigo,
busca incessante
teimando o caminho.
leva-me o sonho
que em mim ganhou voz…
minha estrela, meu norte,
meu rumo, meu trilho
minha barca d´Alva
levando na proa
o mapa dos ventos que
lhe dá sentido.
1 189
Angela Santos
À Margem
Expiro
numa praia longínqua
dentro de mim
Expiro
à margem de mim
onda desfeita no movimento
incessante
Expiro
aspirando à luz
que não alcanço.
numa praia longínqua
dentro de mim
Expiro
à margem de mim
onda desfeita no movimento
incessante
Expiro
aspirando à luz
que não alcanço.
1 135
Angela Santos
Desnorte
Irrompe
à força
este sentir que não sei,
não domino,
e em canto brota em mim
o grito
meus passos agitam-se
nas sombras do caminho,
meus braços animam-se
ensaiando gestos,
amputados na busca
contorcidos na forma de abraçar
meus olhos,
silenciados mares
drenaram torrentes,
esgotaram seu sal.
e a besta acoitada em mim
rasga o que esperei
e em pedaços me devolve
a vida.
à força
este sentir que não sei,
não domino,
e em canto brota em mim
o grito
meus passos agitam-se
nas sombras do caminho,
meus braços animam-se
ensaiando gestos,
amputados na busca
contorcidos na forma de abraçar
meus olhos,
silenciados mares
drenaram torrentes,
esgotaram seu sal.
e a besta acoitada em mim
rasga o que esperei
e em pedaços me devolve
a vida.
1 144
Pedro Tierra
Carandiru: Pavilhão 111
Minha matéria
são os diários.
Nada mais verdadeiro. Objetivo.
E nada mais falso.
Nada mais verdadeiro
na sua falsidade.
Nada mais falso
na sua verdade perecível,
Vendida na banca,
O que me reserva
a verdade do dia seguinte?
A verdade dos aços?
do fogo
cuspido cela adentro?
Ou a verdade da carne
mastigada, sem fuga possível?
A alva verdade dos dentes
dos cães?
Ou a verdade da marcha
dos homens de cinza,
escopeta no gancho do braço,
metralhadoras?
Ou a verdade dos nus?
A verdade da batalha
narrada pelos gatilhos,
ou a desamparada verdade
dos corpos
empilhados
pelos que vão morrer
com tiros na nuca?
Que verdade afinal me apazigua?
autoriza-me a seguir reproduzindo
impotente, os minuciosos gestos diários
- essa forma imperceptível de morte -,
a presumir que apesar de toda ruína
permanecemos todos
inalteradamente humanos?
são os diários.
Nada mais verdadeiro. Objetivo.
E nada mais falso.
Nada mais verdadeiro
na sua falsidade.
Nada mais falso
na sua verdade perecível,
Vendida na banca,
O que me reserva
a verdade do dia seguinte?
A verdade dos aços?
do fogo
cuspido cela adentro?
Ou a verdade da carne
mastigada, sem fuga possível?
A alva verdade dos dentes
dos cães?
Ou a verdade da marcha
dos homens de cinza,
escopeta no gancho do braço,
metralhadoras?
Ou a verdade dos nus?
A verdade da batalha
narrada pelos gatilhos,
ou a desamparada verdade
dos corpos
empilhados
pelos que vão morrer
com tiros na nuca?
Que verdade afinal me apazigua?
autoriza-me a seguir reproduzindo
impotente, os minuciosos gestos diários
- essa forma imperceptível de morte -,
a presumir que apesar de toda ruína
permanecemos todos
inalteradamente humanos?
2 004
Angela Santos
Resistência
No caminhar silente
cresce um ventre
prenhe de vozes que não sei
mas adivinho,
eco sussurrante, tão perto , tão irmão…
ainda te oiço…
rompe o silencio
rasga as paredes de solidão
a estreitarem dentro de mim…
quase cedo…
à impotência de gestos,
à recusa de passos,
à inutilidade de cada grito que amordaço.
cresce um ventre
prenhe de vozes que não sei
mas adivinho,
eco sussurrante, tão perto , tão irmão…
ainda te oiço…
rompe o silencio
rasga as paredes de solidão
a estreitarem dentro de mim…
quase cedo…
à impotência de gestos,
à recusa de passos,
à inutilidade de cada grito que amordaço.
1 014
Nauro Machado
A Rosa Total
Amo, como
ilusão do gesto,
a presença que se desfaz,
para florescer de novo
sobre o inexaurível nada.
Amo, como debalde quero,
apenas o odor do ser:
essa presença, breve e etérea,
logo restrita á eternidade.
ilusão do gesto,
a presença que se desfaz,
para florescer de novo
sobre o inexaurível nada.
Amo, como debalde quero,
apenas o odor do ser:
essa presença, breve e etérea,
logo restrita á eternidade.
1 627
Hilda Hilst
IX
Ilharga,
osso, algumas vezes é tudo o que se tem.
Pensas de carne a ilha, e majestoso o osso.
E pensas maravilha quando pensas anca
Quando pensas virilha pensas gozo.
Mas tudo mais falece quando pensas tardança
E te despedes.
E quando pensas breve
Teu balbucio trêmulo, teu texto-desengano
Que te espia, e espia o pouco tempo te rondando a ilha.
E quando pensas VIDA QUE ESMORECE. E retomas
Luta, ascese, e as mós vão triturando
Tua esmaltada garganta... Mesmo assim mesmo
Canta! Ainda que se desfaçam ilhargas, trilhas...
Canta o começo e o fim. Como se fosse verdade
A esperança.
osso, algumas vezes é tudo o que se tem.
Pensas de carne a ilha, e majestoso o osso.
E pensas maravilha quando pensas anca
Quando pensas virilha pensas gozo.
Mas tudo mais falece quando pensas tardança
E te despedes.
E quando pensas breve
Teu balbucio trêmulo, teu texto-desengano
Que te espia, e espia o pouco tempo te rondando a ilha.
E quando pensas VIDA QUE ESMORECE. E retomas
Luta, ascese, e as mós vão triturando
Tua esmaltada garganta... Mesmo assim mesmo
Canta! Ainda que se desfaçam ilhargas, trilhas...
Canta o começo e o fim. Como se fosse verdade
A esperança.
1 762
Cruz e Sousa
Visionários
Amam batalhas
pelo mundo adiante
Os que vagam no mundo visionários
Abrindo as áureas portas de sacrários
Do mistério soturno e palpitante
O coração flameja a cada instante
Com brilho estranho, com fervores vários,
Sente a febre dos bons missionários
Da ardente catequese fecundante
Os visionários vão buscar frescura
De água celeste na cisterna pura
Da esperança por horas nebulosas...
Buscam frescura, um outro novo encanto...
E livres , belos através do pranto,
Falam baixo com as almas misteriosas!
pelo mundo adiante
Os que vagam no mundo visionários
Abrindo as áureas portas de sacrários
Do mistério soturno e palpitante
O coração flameja a cada instante
Com brilho estranho, com fervores vários,
Sente a febre dos bons missionários
Da ardente catequese fecundante
Os visionários vão buscar frescura
De água celeste na cisterna pura
Da esperança por horas nebulosas...
Buscam frescura, um outro novo encanto...
E livres , belos através do pranto,
Falam baixo com as almas misteriosas!
1 534
Armindo Trevisan
Carícia
Há no corpo
uma carícia
que ele mesmo a si se nega
a mão a aguarda por dentro,
jóia magra e deliciosa.
Se no banho, se na pressa,
ninguém a arranca, ciosa
só se pertence a si mesma
vazia de dimensão e agrado
Dá-se gratuita no raro,
no momento impessoal
no aperto da mão perdida
no recolher em pleno sono
Ninguém experimentará jamais
esse afago onipresente,
contudo subtraído
ao contato, á doação.
Talvez no estremecer
da pupila que alça vôo,
ela se dê – a deus , ao diabo
total, linda, inacessível.
uma carícia
que ele mesmo a si se nega
a mão a aguarda por dentro,
jóia magra e deliciosa.
Se no banho, se na pressa,
ninguém a arranca, ciosa
só se pertence a si mesma
vazia de dimensão e agrado
Dá-se gratuita no raro,
no momento impessoal
no aperto da mão perdida
no recolher em pleno sono
Ninguém experimentará jamais
esse afago onipresente,
contudo subtraído
ao contato, á doação.
Talvez no estremecer
da pupila que alça vôo,
ela se dê – a deus , ao diabo
total, linda, inacessível.
1 171
Mauricio Segall
Gostaria de Chegar
Gostaria
de chegar ao século vinte e um
cavalgando um rojão de velas
acompanhado da minha fada
aureolada por uma chuva de estrelas.
Por isto é que é tão, tão triste,
meu braço desnudo, já com a lua desligada,
explorar todo universo
e encontrar somente o frio da alvorada.
Com quem despertar na manhã seguinte?
eis a angústia que me testa
pois não sei se paga a pena
afrontar, gelado, o resto de vida que ainda resta.
de chegar ao século vinte e um
cavalgando um rojão de velas
acompanhado da minha fada
aureolada por uma chuva de estrelas.
Por isto é que é tão, tão triste,
meu braço desnudo, já com a lua desligada,
explorar todo universo
e encontrar somente o frio da alvorada.
Com quem despertar na manhã seguinte?
eis a angústia que me testa
pois não sei se paga a pena
afrontar, gelado, o resto de vida que ainda resta.
785
Cruz e Sousa
Mundo Inacessível
Tua alma
lembra um mundo inacessível
Onde só astros e águias vão pairando
Onde se escuta, trágica, cantando,
A sinfonia da amplidão terrível
Toda a alma que não seja alta e sensível
Que asas não tenha para as ir vibrando,
Nessa região secreta penetrando,
Falece, morre, dum pavor incrível!
É preciso ter asas e ter garras
Para atingir aos ruídos de fanfarras
Do mundo da tua alma augusta e forte.
É preciso subir ígneas montanhas
E emudecer entre visões estranhas,
Num sentimento mais sutil que a morte!
lembra um mundo inacessível
Onde só astros e águias vão pairando
Onde se escuta, trágica, cantando,
A sinfonia da amplidão terrível
Toda a alma que não seja alta e sensível
Que asas não tenha para as ir vibrando,
Nessa região secreta penetrando,
Falece, morre, dum pavor incrível!
É preciso ter asas e ter garras
Para atingir aos ruídos de fanfarras
Do mundo da tua alma augusta e forte.
É preciso subir ígneas montanhas
E emudecer entre visões estranhas,
Num sentimento mais sutil que a morte!
2 176
Armindo Trevisan
Repreensão a Uma Lâmpada
O rumor
da boca traria pitangas
O vermelho do bico fora do azul
A gravaria na terra e seríamos dois
Num corpo quieto que avançasse
Para um pôr-de-sol. Ela ocultaria
O pescoço do que a pudesse violar
E domaria entre as mãos
O ar não ferido pelas palavras.
Inclinaria o peito sobre
O que jamais lavrara em si
E pediria um movimento
De vegetal austero. Eu
A abraçaria e cairíamos
no bojo de um fogão tão lento
Que da carne ao seu ofício
não descobriríamos um vão
e sim um rio a cruzar duas vezes
o mesmo leito.
da boca traria pitangas
O vermelho do bico fora do azul
A gravaria na terra e seríamos dois
Num corpo quieto que avançasse
Para um pôr-de-sol. Ela ocultaria
O pescoço do que a pudesse violar
E domaria entre as mãos
O ar não ferido pelas palavras.
Inclinaria o peito sobre
O que jamais lavrara em si
E pediria um movimento
De vegetal austero. Eu
A abraçaria e cairíamos
no bojo de um fogão tão lento
Que da carne ao seu ofício
não descobriríamos um vão
e sim um rio a cruzar duas vezes
o mesmo leito.
1 149
Armindo Trevisan
O Círculo
Que ela
estivesse lá e sózinhos
Palpássemos o coração e desaprendêssemos
Como as ancas teriam a natural vacilação
E caminhasse para o ar desabotoando
O perito em silêncio e oferecesse
O corpo à natureza da terra e lhe sentisse
Os lábios mortos e desenrolasse a escuridão
De suas pernas livres e depois fêmea
Reclinasse a cabeça sobre a minha sombra
Ah nem os pássaros devorarão
A inconsciência de frutos como soube
Perdê-la e juntos sairmos para
A carnalidade do dia.
estivesse lá e sózinhos
Palpássemos o coração e desaprendêssemos
Como as ancas teriam a natural vacilação
E caminhasse para o ar desabotoando
O perito em silêncio e oferecesse
O corpo à natureza da terra e lhe sentisse
Os lábios mortos e desenrolasse a escuridão
De suas pernas livres e depois fêmea
Reclinasse a cabeça sobre a minha sombra
Ah nem os pássaros devorarão
A inconsciência de frutos como soube
Perdê-la e juntos sairmos para
A carnalidade do dia.
947
Carlos Nejar
Clara Onda
Este amor em meadas e triciclos
que nunca se divide, confluindo
e torna noite, este sapato findo
e o firmamento, silencioso ciclo.
Este amor em meadas, infinito.
Em meadas de orvalho, desavindo,
em meadas e quedas, rugas, trincos
e rusgas, trinos, pios e sóis contritos.
Este amor me retece e configura.
Tem pressa de crescer, fogo calado.
Apenas queima, quando não se apura.
Parece interminável, quando tomba.
E só se apura, quando despertado.
Dissolvido me solve em clara onda.
que nunca se divide, confluindo
e torna noite, este sapato findo
e o firmamento, silencioso ciclo.
Este amor em meadas, infinito.
Em meadas de orvalho, desavindo,
em meadas e quedas, rugas, trincos
e rusgas, trinos, pios e sóis contritos.
Este amor me retece e configura.
Tem pressa de crescer, fogo calado.
Apenas queima, quando não se apura.
Parece interminável, quando tomba.
E só se apura, quando despertado.
Dissolvido me solve em clara onda.
1 001