Hilda Hilst

Hilda Hilst

Hilda Hilst foi uma poeta, ficcionista, cronista e dramaturga brasileira. É considerada pela crítica especializada como uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX.

1930-04-21 Jaú, São Paulo, Brasil
2004-02-04 Campinas
33696
7
19


Prémios e Movimentos

Jabuti 1984

Alguns Poemas

Teologia Natural

A cara do futuro ele não via. A vida, arremedo de nada. Então ficou pensando em ocos de cara, cegueira, mão corroida e pés, tudo seria comido pelo sal, brancura esticada da maldita, salgadura danada, infernosa salina, pensou óculos luvas galochas, ficou pensando vender o que, Tiô inteiro afundado numa cintilância, carne de sol era ele, seco salgado espichado, e a cara-carne do futuro onde é que estava? Sonhava-se adoçado, corpo de melaço, melhorança se conseguisse comprar os apetrechos, vende uma coisa, Tiô. Que coisa? Na cidade tem gente que compra até bosta embrulhada, se levasse concha, ostra, ah mas o pé não agüentava o dia inteiro na salina e ainda de noite à beira d'água salgada, no crespo da pedra, nas facas onde moravam as ostras. Entrou em casa. Secura, vaziez, num canto ela espiava e roia uns duros no molhado da boca, não era uma rata não, era tudo o que Tiô possuia, espiando agora os singulares atos do filho, Tiô encharcando uns trapos, enchendo as mãos de cinza, se eu te esfrego direito tu branqueia um pouco e fica linda, te vendo lá, e um dia te compro de novo, macieza na língua foi falando espaçado, sem ganchos, te vendo, agora as costas, vira, agora limpa tu mesma a barriga, eu me viro e tu esfrega os teus meios, enquanto limpas teu fundo pego um punhado de amoras, agora chega, espalhamos com cuidado essa massa vermelha na tua cara, na bochecha, no beiço, te estica mais pra esconder a corcova, óculos luvas galochas é tudo o que eu preciso, se compram tudo devem comprar a ti lá na cidade, depois te busco, e espanadas, cuidados, sopros no franzido da cara, nos cabelos, volteando a velha, examinando-a como faria exímio conhecedor de mães, sonhado comprador, Tiô amarrou às costas numas cordas velhas, tudo o que possuía, muda, pequena, delicada, um tico de mãe, e sorria muito enquanto caminhava.
("Pequenos Discursos. E um Grande" inFicções - SP: Quíron, 1977.)

Mula de Deus

I
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.
Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.
Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.
II
Há nojosos olhares sobre mim.
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo.
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.
Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há em mim um sentir deleitoso
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.
Há alguém que foi luz e escureceu.
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai. E era meu.
III
Escrituras de pena (diria mais, de pelos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma
Quem há de ouvir umas canções de mula?
Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão.
E por que não de ti, poeta-mula?
E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores
Alegrou-se de mim o coração.
IV
Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).
Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.
Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos
Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.
V
Ditoso amor de mula, Te ouvi murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo
De espessura e de feridas.
Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula
Este de mim, mas tão festivo e doce
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.
VI
Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.
Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...
Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.
VII
Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.
Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra
Como as mulas de Deus.
VIII
Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada
Essa sou eu.
Poeta e mula
(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura).
Hilda Hilst (Jaú SP 1930) formou-se em direito na Universidade de São Paulo – USP, em 1948. Em 1950 foi lançado seu primeiro livro de poesia, Presságio. Na década de 1960 produziu oito textos para teatro; sua peça O Verdugo ganhou o Prêmio Anchieta de Teatro, em 1969. Entre 1970 e 1993 publicou dez livros de ficção, entre os quais Ficções, que ganhou o prêmio de melhor livro do ano (ficção) em 1977, concedido pela Associação Paulista dos Críticos de Arte. Na década de 1990 foi cronista do jornal Correio Popular, de Campinas SP. Em 1984 foi laureada com o Prêmio Jabuti de Poesia, para o livro Cantares de Perda e Predileção (1983). É autora de extensa obra poética, que inclui os livros Baladas de Alzira (1951), Sete Cantos do Poeta para o Anjo (1962), Da Morte. Odes Mínimas (1980), Bufólicas (1992) e Do Amor (1999). A poesia de Hilda Hilst geralmente é filiada à terceira geração do Modernismo. No entanto, segundo o crítico Léo Gilson Ribeiro, "Hilda Hilst mantém a singularidade de se ter mantido incólume a todos os modismos que marcaram a nossa poesia a partir de 1922".
Hilda Hilst nasceu em Jaú, São Paulo, em 1930. Estudou direito no Largo São Francisco, na Universidade de São Paulo e publicou o primeiro livro em 1950. Ainda que seus primeiros trabalhos tenham chamado a atenção de um crítico como Sérgio Buarque de Holanda, ela passaria a reunir sua obra poética a partir do volumeRoteiro do silêncio, de 1959. Entre seus trabalhos poéticos mais conhecidos, podemos mencionar os volumesTrovas de muito amor para um amado senhor (1961),Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974),Da Morte. Odes mínimas (1980) eCantares do Sem Nome e de Partidas (1995).
 
 
 Foi ao fim da década de 60 e início da década de 70, no entanto, que Hilda Hilst transformou-se na escritora plural e versátil que faria dela uma das figuras mais produtivas da literatura brasileira das últimas décadas. Em dois anos, entre 1967 e 69, ela produz seus textos para o teatro. Em 1970, publica o primeiro trabalho em prosa, intituladoFluxo-Floema, que seria seguido por aquele que é um dos livros mais assombrosos do pós-guerra:Qadós (1973), além de A obscena senhora D (1982) eCom meus olhos de cão e outras novelas (1986).
 
 Já se escreveu algumas vezes sobre uma possível separação contraditória que alguns sentem entre sua prosa e sua poesia, cada qual apontando para tradições aparentemente distintas. Hilda Hilst costumava citar o senhor Caio ValérioCatulo (84 a.C. - 54 a.C.) como uma de suas principais referências poéticas. Quando se tratava da prosa, Hilst citava Samuel Beckett (1906 - 1989). Talvez os críticos que vêem esta aparente "contradição" entre sua poesia, muitas vezes classicizante, e sua prosa altamente experimental, deixem-se levar em demasiado pela "distância temporal" entre suas referências.
 
 
 Catulo, entre os chamados "poetas novos", privilegiava uma linguagem direta, e havia nele, a meu ver, uma alta consciência das limitações do ser humano, uma tentativa de aceitação de sua carnalidade e mortalidade, uma recusa da sublimação metafísica. Isto não estaria muito distante, talvez, do projeto de escritores "modernos" (o próprio Catulo foi assim chamado) como Samuel Beckett, milênios depois. Tanto Catulo como Beckett demonstravam suspeitar de grandiosidades metafísicas que, por ignorarem muitas vezes estas limitações carnais e mortais humanas, a eles pareciam falácias, ilusões que eles não se cansariam de satirizar.
 
 
 Gosto de pensar no trabalho de Hilda Hilst como um instante sutil de apagamento das fronteiras entre os gêneros literários. É claro que isso não ocorre em todos os seus textos. Mas seu trânsito entre gêneros nos romances é muito patente. Se o poeta é aquele que apresenta completa consciência da materialidade da linguagem, podemos sentir tal fator em todos os textos de Hilda Hilst, tanto os que apresentam quebras-de-linha (sendo assim chamados de poemas) ou os que se expandem em linhas até a margem direita da página, sendo chamados de textos em prosa. Ao mesmo tempo, se a poesia de Hilda Hilst apresenta uma limpidez sintática que a aproxima da prosa, sua prosa lança mão de uma densidade semântica que geralmente associamos à poesia. Em versos ou em sentenças, a textualidade em Hilda Hilst alcança um alto teor de materialidade linguística. São textos tesos e densos (talvez mais que concretos), como em Catulo e Beckett.
 
 
 E, como Catulo e Beckett, Hilst é uma escritora do riso angustiado. Pois é umaangst/angústia que perpassa toda a obra de Hilda Hilst, na qual a carnalidade e mortalidade humanas são reconhecidas, mas estão longe de serem aceitas.
 
--- Ricardo Domeneck
 
 
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