Hilda Hilst

Hilda Hilst

1930–2004 · viveu 73 anos BR BR

Hilda Hilst foi uma das mais singulares e transgressoras vozes da literatura brasileira. Sua obra, que transita entre a poesia, o romance e o teatro, é marcada por uma exploração visceral da sexualidade, da religiosidade, da morte e da própria linguagem, num estilo denso, onírico e de grande intensidade lírica.

n. 1930-04-21, Jaú · m. 2004-02-04, Campinas

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Como se te perdesse

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Hilda Hilst, nascida Hilda Míriam Gonçalves Hilst, foi uma escritora brasileira de renome, conhecida pela sua obra multifacetada que abrange poesia, ficção e teatro. Figura ímpar na literatura brasileira, a sua escrita é reconhecida pela ousadia temática e pela experimentação formal. Escreveu em língua portuguesa.

Infância e formação

Nascida em Jaú, no interior de São Paulo, Hilda Hilst teve uma infância marcada por uma saúde frágil e por uma educação que lhe proporcionou contato com a música e a literatura. Formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), mas logo se dedicou integralmente à carreira literária. A sua formação intelectual foi amplamente autodidata, com uma vasta cultura literária e filosófica.

Percurso literário

O percurso literário de Hilda Hilst começou na poesia, com a publicação de "Outros Cantos" em 1961. Ao longo das décadas seguintes, expandiu o seu leque de gêneros, explorando o romance, o conto e o teatro. Sua obra é marcada por uma constante busca por novas formas de expressão, desafiando convenções e explorando os limites da linguagem. Publicou em diversas revistas literárias e antologias, consolidando sua posição como uma das vozes mais originais de sua geração.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Hilda Hilst é complexa e densa, caracterizada pela exploração de temas como a sexualidade, o desejo, a solidão, a morte, a religiosidade, a loucura e a busca pelo transcendente. A sua linguagem é marcada pela intensidade, pelo lirismo visceral, pela fusão do sagrado e do profano, do erótico e do místico. Utiliza recursos como a metalinguagem, a fragmentação, a repetição e um vocabulário rico e por vezes inusitado. O verso livre é predominante na sua poesia, e na prosa, experimenta com estruturas narrativas não lineares. O "Balada da Praia dos Cães" e "Da Morte. O Roteiro" são exemplos de sua prosa que mescla ficção, ensaio e lirismo. É frequentemente associada a uma estética que flerta com o existencialismo e o surrealismo, mas com uma identidade muito própria.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Hilda Hilst produziu sua obra num período de grandes transformações no Brasil, incluindo a ditadura militar. Sua postura transgressora e a ousadia de sua escrita a colocaram, por vezes, em contraponto com a sociedade e a crítica mais conservadora. Pertenceu a uma geração de escritores que buscavam renovar a literatura brasileira, dialogando com as vanguardas internacionais e explorando novas temáticas e formas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Hilda Hilst viveu intensamente, embora sua vida pessoal tenha sido marcada por períodos de reclusão voluntária, especialmente em sua casa em Itu, onde fundou a Casa de Cultura Hilda Hilst. Suas relações afetivas e familiares, assim como suas crises pessoais, frequentemente transparecem na intensidade de sua obra. Manteve amizades com outros escritores e artistas, mas sua singularidade a fez, por vezes, solitária em seu percurso criativo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora em vida tenha enfrentado dificuldades de reconhecimento e publicação, Hilda Hilst é hoje amplamente considerada uma das maiores escritoras brasileiras do século XX. Sua obra tem recebido crescente atenção crítica e acadêmica, sendo objeto de teses, livros e artigos. Ganhou diversos prêmios literários ao longo de sua carreira e sua obra é traduzida para várias línguas, indicando um reconhecimento internacional cada vez maior.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Hilst foi influenciada por poetas como Fernando Pessoa, Cecília Meireles e por pensadores como Jean-Paul Sartre. Seu legado é imenso, marcado pela coragem de explorar os recantos mais profundos da alma humana, pela ousadia formal e pela capacidade de criar uma linguagem poética inconfundível. Influenciou gerações de escritores pela sua originalidade e pela sua liberdade criativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Hilda Hilst tem sido interpretada sob diversas óticas, destacando-se a análise da sua exploração da relação entre corpo e espírito, do sagrado e do erótico, e da condição humana em sua busca por sentido. A sua escrita é vista como um testemunho da complexidade da existência, marcada pela angústia, pelo desejo e pela transcendência.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade é o fato de ter se formado em Direito, embora nunca tenha exercido a profissão, preferindo dedicar-se inteiramente à literatura. Sua "casa-atelier" em Itu tornou-se um símbolo de sua reclusão criativa e um espaço dedicado à cultura. Sua obra "Da Morte. O Roteiro" foi escrita em um período de intensa crise pessoal.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Hilda Hilst faleceu em 2004, em São Paulo, deixando um legado literário inestimável. Sua obra continua a ser estudada, editada e a inspirar novos leitores e escritores, perpetuando sua memória como uma das vozes mais potentes e originais da literatura em língua portuguesa.

Poemas

33

Como se te perdesse

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

1 601

Poesia I

Corroendo
As grandes escadas
Da minha alma.
Água. Como te chamas?
Tempo.

Vivida antes
Revestida de laca
Minha alma tosca
Se desfazendo.
Como te chamas?
Tempo.

Águas corroendo
Caras, coração
Todas as cordas do sentimento.
Como te chamas?
Tempo.

Irreconhecível
Me procuro lenta
Nos teus escuros.
Como te chamas, breu?
Tempo.


1 789

O anão triste

De pau em riste
O anão Cidão
Vivia triste.
Além do chato de ser anão
Nunca podia
Meter o ganso na tia
Nem na rodela do negrão.
É que havia um problema:
O porongo era longo
Feito um bastão.
E quando ativado
Virava... a terceira perna do anão.
Um dia... sentou-se o anão triste
Numa pedra preta e fria.
Fez então uma reza
Que assim dizia:
Se me livrasses, Senhor,
Dessa estrovenga
Prometo grana em penca
Pras vossas igrejas.
Foi atendido.
No mesmo instante
Evaporou-se-lhe
O mastruço gigante.
nenhum tico de pau
Nem bimba nem berimbau
Pra contá o ocorrido.
E agora
Além do chato de ser anão
Sem mastruço nem fole
Foi-se-lhe todo o tesão.
Um douto bradou: Ó céus!
Por que no pedido que fizeste
Não especificaste pras Alturas
Que lhe deixasse um resto?
Porque pra Deus
O anão respondeu
Qualquer dica
É compreensão segura.
Ah, é, negão? Então procura.

E até hoje
Sentado na pedra preta
O anão procura as partes pudendas...
Olhando a manhã fria.

Moral da história:
Ao pedir, especifique tamanho
Grossura quantia.

5 127

Porque há desejo em mim

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.
2 021

É crua a vida. Alça de tripa e metal.

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.
1 093

Poesia XXII

Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho

Pedra, semente, sal
Passos da vida. Procura-me ali.
Viva.



2 859

II

E só
me veja
No não
merecimento das conquistas.
De pé. Nas plataformas, nas escadas
Ou através de umas janelas baças:
Uma mulher no trem: perfil desabitado de carícias
E só me veja no não merecimento e interdita:
Papéis, valises, tomos, sobretudos
Eu-alguém
travestida de luto. (E um olhar
de púrpura e desgosto, vendo através de mim
navios e dorsos).
Dorsos
de luz de águas mais profundas. Peixes.
Mas sobre mim, intensas, ilhargas juvenis
Machucadas de gozo.
E que jamais
perceba o rocio da chama:
Este molhado fulgor sobre o meu rosto.

1 402

IV

E por que,
também não doloso e penitente?
Dolo pode ser punhal. E astúcia, logro.
E isso sem nome, o despedir-se sempre
Tem muito de sedução, armadilhas, minúcias
Isso sem nome fere e faz feridas.
Penitente e algoz:
Como se só na morte abraçasses a vida.
É
pomposo e pungente. Com ares de santidade
Odores de cortesã, pode ser carmelita
ou Catarina, ser menina ou malsã.
Penitente
e doloso
Pode ser o sumo de um instante.
Pode ser tu-outro pretendido, teu adeus, tua sorte.
Fêmea-rapaz, ISSO sem nome pode ser um todo
Que só se ajusta ao Nunca. Ao Nunca Mais.

1 570

VIII

Aquela
que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente
é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.

Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, "Esse"
Que bem me sabe inteira pertencida.

1 429

I

Que este
amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este
amor me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este
amor só me veja de partida.

1 357

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