Poemas neste tema
Alma
Antônio Sales
Pesca da Pérola
O coração é concha bipartida:
Nós guardamos no peito uma metade,
E a outra, quem, o sabe? — anda perdida
Entre as vagas do mar da humanidade.
Do escafandro das ilusões vestida,
Rindo, mergulha a afoita mocidade,
Buscando um ser que lhe complete a vida,
Que lhe povoe do peito a soledade.
Encontra algum essa afeição sonhada
E à tona sobre erguendo a nacarada
Valva que guarda a pérola do amor...
outro, porém, debalde as águas sonda,
Desce, a rolar, aflito, de onda em onda...
E não mais torna o audaz mergulhador!
Nós guardamos no peito uma metade,
E a outra, quem, o sabe? — anda perdida
Entre as vagas do mar da humanidade.
Do escafandro das ilusões vestida,
Rindo, mergulha a afoita mocidade,
Buscando um ser que lhe complete a vida,
Que lhe povoe do peito a soledade.
Encontra algum essa afeição sonhada
E à tona sobre erguendo a nacarada
Valva que guarda a pérola do amor...
outro, porém, debalde as águas sonda,
Desce, a rolar, aflito, de onda em onda...
E não mais torna o audaz mergulhador!
1 899
Aristêo Seixas
Juízo Final
Raive o sol, pulse a dor, lateje o grito,
E o fel tragado seja, gole a gole.
Todo o amor, todo o bem seja proscrito,
Todo o perfume deste chão se evole...
Caia de cima o aerólito e, bendito,
Esmigalhando vá prole por prole...
E embaixo, a atroar em chamas o infinito,
Pedra por pedra sobre pedra role...
Senhor meu Deus! são vendilhões: matai-os!
Em vão se estorça a humanidade espúria!
E veja cada qual, nessa hora incerta,
O céu, em ódio, desprendendo raios,
O mar cuspindo vagalhões em fúria
E a terra inteira em túmulos aberta!...
E o fel tragado seja, gole a gole.
Todo o amor, todo o bem seja proscrito,
Todo o perfume deste chão se evole...
Caia de cima o aerólito e, bendito,
Esmigalhando vá prole por prole...
E embaixo, a atroar em chamas o infinito,
Pedra por pedra sobre pedra role...
Senhor meu Deus! são vendilhões: matai-os!
Em vão se estorça a humanidade espúria!
E veja cada qual, nessa hora incerta,
O céu, em ódio, desprendendo raios,
O mar cuspindo vagalhões em fúria
E a terra inteira em túmulos aberta!...
1 027
Bocage
Aspirações do liberalismo, excitadas pela Revolução Francesa
Aspirações do liberalismo, excitadas pela Revolução Francesa
e consolidação da República em 1797
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!) porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?
Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha . . . Oh!, venha, e trêmulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!
Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade
E em fingir, por temor, empenha estudo.
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do gênio e prazer, ó Liberdade!
e consolidação da República em 1797
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!) porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?
Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha . . . Oh!, venha, e trêmulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!
Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade
E em fingir, por temor, empenha estudo.
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do gênio e prazer, ó Liberdade!
1 890
Alfredo Castro
Psicologia do Adeus
Tempo de febre, tempo de loucura,
Esse tempo desfeito tão depressa,
Em que tua alma arrebatada e pura
Me vinha em festa, cheia de promessa.
Tempo de anseios, tempo de ventura,
Em que os teus sentimentos punhas nessa
Força que dava à minha mão, segura
No adeus, à tua. Era a paixão — confessa!
Era a paixão, que em teu olhar brilhava,
De radiosas visões te enchendo a vida,
Dos meus desejos te fazendo escrava.
Hoje, num gesto todo indiferente,
Tomando a minha mão na despedida,
Dás-me as pontas dos dedos, frouxamente!
Esse tempo desfeito tão depressa,
Em que tua alma arrebatada e pura
Me vinha em festa, cheia de promessa.
Tempo de anseios, tempo de ventura,
Em que os teus sentimentos punhas nessa
Força que dava à minha mão, segura
No adeus, à tua. Era a paixão — confessa!
Era a paixão, que em teu olhar brilhava,
De radiosas visões te enchendo a vida,
Dos meus desejos te fazendo escrava.
Hoje, num gesto todo indiferente,
Tomando a minha mão na despedida,
Dás-me as pontas dos dedos, frouxamente!
1 013
Batista de Lima
O Doce de Vitalina
Vitalina faz cocada
com mais alma do que coco
Uma semana de criação
onde leite açúcar e coco
não têm importância
como não têm importância
tição fogo e brasa
O mais importante
é que Vitalina
se ponha no caco
e vá na cocada
e que o sétimo dia
seja para descanso
como fez Deus na criação
com mais alma do que coco
Uma semana de criação
onde leite açúcar e coco
não têm importância
como não têm importância
tição fogo e brasa
O mais importante
é que Vitalina
se ponha no caco
e vá na cocada
e que o sétimo dia
seja para descanso
como fez Deus na criação
1 034
Carlos D’Alge
Re-invenção do Corpo
O corpo perdido precisa ser re-inventado
para que de se possa fazer o instrumento
com que cantar no ermo já instaurado.
Quem sabe se uma lira, qual o pastor antigo
que do osso da coxa, do que restou do filho amado,
fez o objeto para celebrar o corpo imolado.
O corpo não é apenas a carícia que afaga,
a amena enseada, o útero procurado, a quieta rua,
o repouso consentido, a desbravada plaga.
O corpo se transforma às vezes em fino aço,
em lâmina que fere sem deixar traço,
em riso que se esconde e se insinua,
O corpo é um ser em constante mutação,
zéfiro, borrasca, tempestade, cantochão.
O corpo perdido entre algas e brumas,
entre sinuosas, ínvias e obscuras fragas,
precisa ser re-criado entre paredes seladas
que abafem segredos, murmúrios e escumas.
Talvez fazer da costela mais saliente
um arco com que brandir o travo violino
ou a possível lira e escondê-la no cimo
da árvore onde repousa o corpo fremente.
Corpo ser móbil, móvel e serpentário,
úmido, fugidio, escampado sacrário.
para que de se possa fazer o instrumento
com que cantar no ermo já instaurado.
Quem sabe se uma lira, qual o pastor antigo
que do osso da coxa, do que restou do filho amado,
fez o objeto para celebrar o corpo imolado.
O corpo não é apenas a carícia que afaga,
a amena enseada, o útero procurado, a quieta rua,
o repouso consentido, a desbravada plaga.
O corpo se transforma às vezes em fino aço,
em lâmina que fere sem deixar traço,
em riso que se esconde e se insinua,
O corpo é um ser em constante mutação,
zéfiro, borrasca, tempestade, cantochão.
O corpo perdido entre algas e brumas,
entre sinuosas, ínvias e obscuras fragas,
precisa ser re-criado entre paredes seladas
que abafem segredos, murmúrios e escumas.
Talvez fazer da costela mais saliente
um arco com que brandir o travo violino
ou a possível lira e escondê-la no cimo
da árvore onde repousa o corpo fremente.
Corpo ser móbil, móvel e serpentário,
úmido, fugidio, escampado sacrário.
386
Aluízio Medeiros
Canto do Século
Nunca mais ouvirei violinos em surdina
nem pianos em surdina
nem cantos litúrgicos suavíssimos
nem músicas de sinos e de órgãos nunca mais.
O espírito mecânico do século esmagou as doces melodias
Nunca mais riscos de fogo de esferas vermelhas
nem a cabeleira azul de Olga flutuando no espaço
nem alvas gaivotas revoando nunca mais.
O céu está plúmbeo o céu está plúmbeo.
Nunca mais veleiros singrando serenamente os mares
nem canções de águas claras nunca mais.
O navio de aço levou a namorada para a distância
para a bruma silenciosa da distância.
Os mares estão revoltos os mares estão revoltos.
O barulho do mundo sólido desabou com estrondo.
Universo que desfalece que desfalece.
Ai de mim! Estou esmagado estou cego. Ai de mim!
Um anjo metálico com asas de hélices
me arrebatará para cima das nuvens.
nem pianos em surdina
nem cantos litúrgicos suavíssimos
nem músicas de sinos e de órgãos nunca mais.
O espírito mecânico do século esmagou as doces melodias
Nunca mais riscos de fogo de esferas vermelhas
nem a cabeleira azul de Olga flutuando no espaço
nem alvas gaivotas revoando nunca mais.
O céu está plúmbeo o céu está plúmbeo.
Nunca mais veleiros singrando serenamente os mares
nem canções de águas claras nunca mais.
O navio de aço levou a namorada para a distância
para a bruma silenciosa da distância.
Os mares estão revoltos os mares estão revoltos.
O barulho do mundo sólido desabou com estrondo.
Universo que desfalece que desfalece.
Ai de mim! Estou esmagado estou cego. Ai de mim!
Um anjo metálico com asas de hélices
me arrebatará para cima das nuvens.
967
Alceu de Freitas Wamosy
Ária Antiga
Chora o orvalho da luz sobre a rosa do dia
que se fecha. O jardim todo lembra um altar
para o qual sobe o incenso azul da nostalgia,
e onde os lírios estão de joelhos, a rezar.
Tu cantas para mim. Tua voz, triste e mansa,
vem trazendo, a gemer, dos confins da lembrança,
qualquer coisa de velho, onde a vida se esfume.
Quando a voz adormece um fantasma desperta.
A tua boca é como uma rosa entreaberta
que a saudade acalante e o passado perfume.
E essa velha canção que o teu lábio cicia,
no momento em que a tarde adormece no olhar,
enche o meu coração de uma vaga harmonia,
de um desejo pueril de ser bom, e chorar...
que se fecha. O jardim todo lembra um altar
para o qual sobe o incenso azul da nostalgia,
e onde os lírios estão de joelhos, a rezar.
Tu cantas para mim. Tua voz, triste e mansa,
vem trazendo, a gemer, dos confins da lembrança,
qualquer coisa de velho, onde a vida se esfume.
Quando a voz adormece um fantasma desperta.
A tua boca é como uma rosa entreaberta
que a saudade acalante e o passado perfume.
E essa velha canção que o teu lábio cicia,
no momento em que a tarde adormece no olhar,
enche o meu coração de uma vaga harmonia,
de um desejo pueril de ser bom, e chorar...
1 478
Bocage
Pena de Talião
Ao Padre José Agostinho de Macedo
Tu nihil invita dices, faciesve Minerva.
Horácio, Arte Poética, V, 385
Invidia rumpantur ut ilia Codro.
Virgílio, Écloga VII
(. . .)
Refalsado animal, das trevas sócio,
Depõe, não vistas de cordeiro a pele.
Da razão, da moral o tom que arrogas,
Jamais purificou teus lábios torpes,
Torpes do lodaçal, donde zunindo
(Nuvens de insetos vis) te sobem trovas
À mente erma de idéias, nua de arte.
(. . .)
Sanguessuga de pútridos autores,
Que vais com cobre vil remir das tendas,
Enquanto palavroso impõe aos néscios
E a crédulo tropel, roncando, afirmas
Que resolveste o que roçaste apenas
(Falo das Artes, das Ciências falo);
Enquanto a estátua da Ignorância elevas,
Os dias eu consumo, eu velo as noites
Nos desornados, indigentes lares;
Submisso aos fados meus ali componho
À pesada existência honesto arrimo,
Coa mão, que Febo estende aos seus, a
poucos.
Ali deveres, que não tens, nem prezas,
Com fraternal piedade acato, exerço;
Cultivo afetos à tua alma estranhos,
Dando à virtude quanto dás ao vício.
Não me envilece ali de um frade o soldo,
Ali me esforça ao gênio as ígneas asas
Coração benfazejo, e tanto e tanto
Que a ti, seu depressor, protege, acolhe;
Que em redondo caráter te propaga
A rapsódia servil, poema intruso,
Pilhagem que fizeste em mil volumes,
Atulhado armazém de alheios fardos,
Onde a Monotonia os mexe, os volve,
E onde teimosa Apóstrofe se esfalfa,
Já coos Céus intendendo e já coa Terra.
(. . .)
Prossegue em detrair-me, em praguejar-me,
Porque Délio dos prólogos te exclui:
Pregoa, espalha em sátiras, em lojas
Que Zoilos não mereço, e sê meu Zoilo:
Chama-me de Tisífone enteado,
Porque em fêmeo-belmírico falsete
Não pinto os zelos, não descrevo a morte;
Erra versos, e versos sentencia;
Condena-me a cantar de Ulina e danos.
Agrega o magro Elmano ao fulho Esbarra;
Ignora o baquear, que é verbo antigo,
Dos Sousas, dos Arrais somente usado;
Metonímias, sinédoques dispensa;
Dá-me as pueris antíteses, que odeio;
De estafador de anáforas me encoima;
Faze (entre insânias) um prodígio, faze
Qual anda o caranguejo andar meus versos;
Supõe-me entre barris, entre marujos
(De alguns talvez teu sangue as veias honre):
Mas não desmaies na sua carreira; avante,
Eia, ardor, coração . . . vaidade, ao menos!
As oitavas ao Gama esconde embora,
Nisso não perdes tu nem perde o mundo;
Mas venha o mais: epístolas, sonetos,
Odes, canções, metamorfoses, tudo . . .
Na frente põe teu nome, e estou vingado.
Tu nihil invita dices, faciesve Minerva.
Horácio, Arte Poética, V, 385
Invidia rumpantur ut ilia Codro.
Virgílio, Écloga VII
(. . .)
Refalsado animal, das trevas sócio,
Depõe, não vistas de cordeiro a pele.
Da razão, da moral o tom que arrogas,
Jamais purificou teus lábios torpes,
Torpes do lodaçal, donde zunindo
(Nuvens de insetos vis) te sobem trovas
À mente erma de idéias, nua de arte.
(. . .)
Sanguessuga de pútridos autores,
Que vais com cobre vil remir das tendas,
Enquanto palavroso impõe aos néscios
E a crédulo tropel, roncando, afirmas
Que resolveste o que roçaste apenas
(Falo das Artes, das Ciências falo);
Enquanto a estátua da Ignorância elevas,
Os dias eu consumo, eu velo as noites
Nos desornados, indigentes lares;
Submisso aos fados meus ali componho
À pesada existência honesto arrimo,
Coa mão, que Febo estende aos seus, a
poucos.
Ali deveres, que não tens, nem prezas,
Com fraternal piedade acato, exerço;
Cultivo afetos à tua alma estranhos,
Dando à virtude quanto dás ao vício.
Não me envilece ali de um frade o soldo,
Ali me esforça ao gênio as ígneas asas
Coração benfazejo, e tanto e tanto
Que a ti, seu depressor, protege, acolhe;
Que em redondo caráter te propaga
A rapsódia servil, poema intruso,
Pilhagem que fizeste em mil volumes,
Atulhado armazém de alheios fardos,
Onde a Monotonia os mexe, os volve,
E onde teimosa Apóstrofe se esfalfa,
Já coos Céus intendendo e já coa Terra.
(. . .)
Prossegue em detrair-me, em praguejar-me,
Porque Délio dos prólogos te exclui:
Pregoa, espalha em sátiras, em lojas
Que Zoilos não mereço, e sê meu Zoilo:
Chama-me de Tisífone enteado,
Porque em fêmeo-belmírico falsete
Não pinto os zelos, não descrevo a morte;
Erra versos, e versos sentencia;
Condena-me a cantar de Ulina e danos.
Agrega o magro Elmano ao fulho Esbarra;
Ignora o baquear, que é verbo antigo,
Dos Sousas, dos Arrais somente usado;
Metonímias, sinédoques dispensa;
Dá-me as pueris antíteses, que odeio;
De estafador de anáforas me encoima;
Faze (entre insânias) um prodígio, faze
Qual anda o caranguejo andar meus versos;
Supõe-me entre barris, entre marujos
(De alguns talvez teu sangue as veias honre):
Mas não desmaies na sua carreira; avante,
Eia, ardor, coração . . . vaidade, ao menos!
As oitavas ao Gama esconde embora,
Nisso não perdes tu nem perde o mundo;
Mas venha o mais: epístolas, sonetos,
Odes, canções, metamorfoses, tudo . . .
Na frente põe teu nome, e estou vingado.
2 129
Carlyle Martins
Tapera
É quase ruína em meio à selva espessa e bruta,
Dentro da solidão, sem amparo e sem dono,
A tapera que, no ermo, unicamente escuta,
O vento a perpassar, na indolência do outono.
Noite morta. Em redor, o matagal se enluta.
Há um sombrio torpor de tristeza e abandono,
Como se a alma da terra, após contínua luta,
No silêncio dormisse um prolongado sono.
Passam, no alto, a cantar, aves de mau agouro...
Tudo quieto. Há uni mistério, uma angústia infinita,
No véu da escuridão, que no espaço se eleva.
Não brilham no céu plúmbeo e triste os astros de ouro!
E ela, na solitude em que a saudade habita,
É um es erro ue assombra o próprio horror da treva.
Dentro da solidão, sem amparo e sem dono,
A tapera que, no ermo, unicamente escuta,
O vento a perpassar, na indolência do outono.
Noite morta. Em redor, o matagal se enluta.
Há um sombrio torpor de tristeza e abandono,
Como se a alma da terra, após contínua luta,
No silêncio dormisse um prolongado sono.
Passam, no alto, a cantar, aves de mau agouro...
Tudo quieto. Há uni mistério, uma angústia infinita,
No véu da escuridão, que no espaço se eleva.
Não brilham no céu plúmbeo e triste os astros de ouro!
E ela, na solitude em que a saudade habita,
É um es erro ue assombra o próprio horror da treva.
914
Artur de Sales
Grega
Recordo as glórias imortais e as lendas
Da tua Pátria, ó bela peregrina...
Recordo Queronéia e Salamina,
Lanças, escudos e as guerreiras tendas.
Lembro Cassandra e as predições tremendas.
Passam, num sonho fúlgido, à retina,
Homero e as Musas, a legião divina,
Do Tempo, eternos, palmilhando as sendas.
Mas o sonho maior e mais radiante,
É essa visão remota e perturbante,
Esse plaino da Argólida deserta
De onde penso que vens, de mirto e louro
Coroado a fronte, e toda, toda do ouro
Do sepulcro dos Átridas coberta.
Da tua Pátria, ó bela peregrina...
Recordo Queronéia e Salamina,
Lanças, escudos e as guerreiras tendas.
Lembro Cassandra e as predições tremendas.
Passam, num sonho fúlgido, à retina,
Homero e as Musas, a legião divina,
Do Tempo, eternos, palmilhando as sendas.
Mas o sonho maior e mais radiante,
É essa visão remota e perturbante,
Esse plaino da Argólida deserta
De onde penso que vens, de mirto e louro
Coroado a fronte, e toda, toda do ouro
Do sepulcro dos Átridas coberta.
715
Weydson Barros Leal
O Que
o que nos vem
e o que deixamos;
o que nunca encontra
o que eternamente
é par,
o lar;
a comunhão;
o que nos é pedido
e o que nos leva;
o que damos;
o que precisamos;
o que é busca;
o que somente
nos procura;
o que ninguém concede;
o caminho;
o laço;
a cama;
o que lutamos
pelas mãos;
o que desperdiçamos;
o que nos é dado escrever;
o sonho
e o acontecimento;
o homem que ama;
os danos e o benfazejo;
o lucro;
a perda;
a falta;
o jogo;
o amor;
a flecha
e o conto;
a ficção;
os pés;
(a solidão);
o relógio;
a morte;
a música e a vela;
o ventre;o vão;a paixão;
o que queremos;
o que quer;
o que vivemos;
o que vive;
o orgasmo;
a espera;
a água;
a esperança ...
e o que deixamos;
o que nunca encontra
o que eternamente
é par,
o lar;
a comunhão;
o que nos é pedido
e o que nos leva;
o que damos;
o que precisamos;
o que é busca;
o que somente
nos procura;
o que ninguém concede;
o caminho;
o laço;
a cama;
o que lutamos
pelas mãos;
o que desperdiçamos;
o que nos é dado escrever;
o sonho
e o acontecimento;
o homem que ama;
os danos e o benfazejo;
o lucro;
a perda;
a falta;
o jogo;
o amor;
a flecha
e o conto;
a ficção;
os pés;
(a solidão);
o relógio;
a morte;
a música e a vela;
o ventre;o vão;a paixão;
o que queremos;
o que quer;
o que vivemos;
o que vive;
o orgasmo;
a espera;
a água;
a esperança ...
884
Waldomiro Siqueira Jr.
Haicai
O Sentenciado
Na cela minúscula
Contemplava, pensativo,
A mosca voando.
Restos
Casa ao abandono.
Telhado já desabado.
Uiva um cão sem dono.
Na cela minúscula
Contemplava, pensativo,
A mosca voando.
Restos
Casa ao abandono.
Telhado já desabado.
Uiva um cão sem dono.
1 820
Xavier de Carvalho
O Sino de São Pantaleão
Em minha terra, o sino mais sentido,
o mais triste de todo o Maranhão,
é o grande sino, há muito erguido
da velha e secular São Pantaleão...
Todo enterro ali passa... E ele dorido,
vendo-os passar, soluça na amplidão...
E é tão forte e é tão fundo o seu gemido
que a todos espedaça o coração!
Eu avalio a mágoa desse dobre,
quando meu velho Pai, vida tão nobre,
diante da Igreja, em seu caixão passou...
O sino gemeu tanto, nesse dia,
que, eu de tão longe, ouvi, na alma vazia,
os dolorosos ais que ele dobrou!
o mais triste de todo o Maranhão,
é o grande sino, há muito erguido
da velha e secular São Pantaleão...
Todo enterro ali passa... E ele dorido,
vendo-os passar, soluça na amplidão...
E é tão forte e é tão fundo o seu gemido
que a todos espedaça o coração!
Eu avalio a mágoa desse dobre,
quando meu velho Pai, vida tão nobre,
diante da Igreja, em seu caixão passou...
O sino gemeu tanto, nesse dia,
que, eu de tão longe, ouvi, na alma vazia,
os dolorosos ais que ele dobrou!
1 092
Weydson Barros Leal
E Deusas não Aravam Rosas
conto fantopoético ou
noturno em 6 movimentos
I. sonho
há hipnoses que podemos estudar
Para o entendimento do mundo, —
a paixão é uma delas.
haver os sentimentos
como relíquia do homem de sempre
e desnudá-los ao fogo para anotar as reações...
pintá-las nas pedras
que perseguem as ruas
e não haverá mais pedras —
a música dos olhos
é a única prisão
que mantemos em nós
II. madrugada da tarde
Conhecera uma mulher que criara teorias...
Doce mulher de olhos de amêndoa magoada e pele
noturna, que sobressegredos recriara o amor, o mal e o perdão.
Era um tempo antigo como os segredos...
Em seus olhos conhecera outra mulher. Era ouvi-la dizer de
um verde em que era a vida, que podia avistá-las na luz
consumida...
(talvez seja o equilíbrio — como a beleza ou uma amêndoa
— e precise tempo ao criá-las e destruí-las todas)
Duramente nua sua língua alimentava a palavra
que lentamente morria —
a morte como uma aula de rios ou
uma queda —
a alma e milhões de teorias —
a alma
e sua língua de sonhos...
III. note elementar
Todo mistério humano repousara em suas mãos quando
encontraram suas almas aprisionadas como pássaros.
Ficaram cegos.
O terceiro dia nos devora como um cárcere ou uma fome.
Sob suas unhas nasciam violetas: todas as conquistas de
seu pecado foram erguidas como uma água sobre a terra.
Havia um peito a semear outra vez.
A sua espada era uma planta renascida.
Há numa mulher algo que sufoca a eternidade
fazendo-a dormente.
Doce mulher, dizia, em que os lábios eram a cor
de sua alma,
passara rebelde em seu sorriso...
IV. noite fundamental
imaginarem sua noite
uma estrela que se desprenda
como uma confissão, e traze-la para perto
onde eu possa beber de suas mãos.
Há incertezas de trilhas como um trem na hora noturna; um
trem que despedaça a luz ou um beijo — mas eu serei entendido
como uma água que imanta os olhos.
Sua fala de lúcida beleza trago em mim como um retrato.
Fiz o seu corpo encoberto de cores como bandeiras que
houvesse tomado em batalhas — sua roupa é o despojo de
derrotados.
Partirei ainda por descrevê-la em sua pátria de pássara e
mulher — há tantos mortos sob cada trincheira que veste sua
intimidade, que é aqui onde deposito todos os algozes para
combatê-la.
O seu nome aprendi com uma rosa roubada e guardei em
meu melhor lugar.
Sinto-a perto corra uma coisa roubada.
Sinto-a roubada por mim.
V. noite
Docemente o tempo soava, ela contou, como a noite que
habitara seu corpo.
(as meninas choram quando perdem teorias.
os meninos também criam teorias.
as meninas e os meninos choram.)
Não sei se agora é acordada a menina,
pareceu mulher.
Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura,
não voltará a vê-la o beijo que imaginei...
Pintamos o outro com o que chamamos afinidade — ela
falou — e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos a cumplicida
de — lhe falei.
(há os olhos e os dentes ) por se tocar.
— a música dos gestos é sempre incerta como os corpos — esta
sinfonia de sons e de líquidos...)
É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou
amêndoa colhida.
É assim sua teoria.
VI. manhã
Dormirei uma noite
aos pés de Medusa
e pedirei seu perdão.
Sobre seus braços deitarei o meu sono
de arma esquecida,
e não usarei nem um sonho.
Cometi o pior dos amores. Cometi a paixão.
E todas as deusas em seu tribunal foram seus olhos.
Fora acusado por Euríale de adorar os segredos
que alimentam o negro: o verde, dissera, será tua pena, e o azul,
teu perdão.
Contará que foi pouco a todas as cores que serviu sob
exércitos de mares e noites, e que por fim, foi levado.
Soube Medusa as armas do Amor em seu reino de espadas,
e recordou as batalhas que se lançara sem seu ermo de deusa.
— Tantas vezes tivesse encontrado o teu sangue outorgado
sob a esfinge de um nome — ela disse — seriam mil pedras
teus olhos de homem!
Esteno sorria de seu último sonho...
Acordara num jardim de canteiros de górgones, e deusas
não aravam rosas como um dia pensou...
noturno em 6 movimentos
I. sonho
há hipnoses que podemos estudar
Para o entendimento do mundo, —
a paixão é uma delas.
haver os sentimentos
como relíquia do homem de sempre
e desnudá-los ao fogo para anotar as reações...
pintá-las nas pedras
que perseguem as ruas
e não haverá mais pedras —
a música dos olhos
é a única prisão
que mantemos em nós
II. madrugada da tarde
Conhecera uma mulher que criara teorias...
Doce mulher de olhos de amêndoa magoada e pele
noturna, que sobressegredos recriara o amor, o mal e o perdão.
Era um tempo antigo como os segredos...
Em seus olhos conhecera outra mulher. Era ouvi-la dizer de
um verde em que era a vida, que podia avistá-las na luz
consumida...
(talvez seja o equilíbrio — como a beleza ou uma amêndoa
— e precise tempo ao criá-las e destruí-las todas)
Duramente nua sua língua alimentava a palavra
que lentamente morria —
a morte como uma aula de rios ou
uma queda —
a alma e milhões de teorias —
a alma
e sua língua de sonhos...
III. note elementar
Todo mistério humano repousara em suas mãos quando
encontraram suas almas aprisionadas como pássaros.
Ficaram cegos.
O terceiro dia nos devora como um cárcere ou uma fome.
Sob suas unhas nasciam violetas: todas as conquistas de
seu pecado foram erguidas como uma água sobre a terra.
Havia um peito a semear outra vez.
A sua espada era uma planta renascida.
Há numa mulher algo que sufoca a eternidade
fazendo-a dormente.
Doce mulher, dizia, em que os lábios eram a cor
de sua alma,
passara rebelde em seu sorriso...
IV. noite fundamental
imaginarem sua noite
uma estrela que se desprenda
como uma confissão, e traze-la para perto
onde eu possa beber de suas mãos.
Há incertezas de trilhas como um trem na hora noturna; um
trem que despedaça a luz ou um beijo — mas eu serei entendido
como uma água que imanta os olhos.
Sua fala de lúcida beleza trago em mim como um retrato.
Fiz o seu corpo encoberto de cores como bandeiras que
houvesse tomado em batalhas — sua roupa é o despojo de
derrotados.
Partirei ainda por descrevê-la em sua pátria de pássara e
mulher — há tantos mortos sob cada trincheira que veste sua
intimidade, que é aqui onde deposito todos os algozes para
combatê-la.
O seu nome aprendi com uma rosa roubada e guardei em
meu melhor lugar.
Sinto-a perto corra uma coisa roubada.
Sinto-a roubada por mim.
V. noite
Docemente o tempo soava, ela contou, como a noite que
habitara seu corpo.
(as meninas choram quando perdem teorias.
os meninos também criam teorias.
as meninas e os meninos choram.)
Não sei se agora é acordada a menina,
pareceu mulher.
Doce mulher de pele noturna e olhos de amêndoa madura,
não voltará a vê-la o beijo que imaginei...
Pintamos o outro com o que chamamos afinidade — ela
falou — e há pessoas em que vivemos, em quem sabemos a cumplicida
de — lhe falei.
(há os olhos e os dentes ) por se tocar.
— a música dos gestos é sempre incerta como os corpos — esta
sinfonia de sons e de líquidos...)
É assim que lhe desperta sua fragilidade de deusa ou
amêndoa colhida.
É assim sua teoria.
VI. manhã
Dormirei uma noite
aos pés de Medusa
e pedirei seu perdão.
Sobre seus braços deitarei o meu sono
de arma esquecida,
e não usarei nem um sonho.
Cometi o pior dos amores. Cometi a paixão.
E todas as deusas em seu tribunal foram seus olhos.
Fora acusado por Euríale de adorar os segredos
que alimentam o negro: o verde, dissera, será tua pena, e o azul,
teu perdão.
Contará que foi pouco a todas as cores que serviu sob
exércitos de mares e noites, e que por fim, foi levado.
Soube Medusa as armas do Amor em seu reino de espadas,
e recordou as batalhas que se lançara sem seu ermo de deusa.
— Tantas vezes tivesse encontrado o teu sangue outorgado
sob a esfinge de um nome — ela disse — seriam mil pedras
teus olhos de homem!
Esteno sorria de seu último sonho...
Acordara num jardim de canteiros de górgones, e deusas
não aravam rosas como um dia pensou...
971
Ymah Théres
Acalanto
As cordas deste banjo,
tangê-las, uma a uma, num cantar de ninho
de pétalas tecido, rocejando a linho,
desatando em mornos braços o acalanto,
quisera.
O sopro de um arcanjo
no ar dormido, um ruflar tenuíssimo de asas,
macieza de penas - penas de meus cantos -
voejando em rodopios por ruas e campos,
pudera
ir velar-te onde estejas com teu riso claro
acendendo-me as noites de narciso e enfaro.
tangê-las, uma a uma, num cantar de ninho
de pétalas tecido, rocejando a linho,
desatando em mornos braços o acalanto,
quisera.
O sopro de um arcanjo
no ar dormido, um ruflar tenuíssimo de asas,
macieza de penas - penas de meus cantos -
voejando em rodopios por ruas e campos,
pudera
ir velar-te onde estejas com teu riso claro
acendendo-me as noites de narciso e enfaro.
913
Alcides Freitas
Hamlet
Não sei que estranha dor meu peito dilacera,
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!
Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!
Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...
Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!
Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!
Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...
Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...
867
Weydson Barros Leal
O Teu Sorriso é uma Dança
O teu sorriso é uma dança
tua boca nasce a cada dia
como a faca e a fruta.
há nos teus dentes uma cor
que não há noutra forma de tempo —
a brancura dos teus olhos é irmã e cai
em teu brilho de ursa
e em cada anel.
o teu sorriso é uma forma de vencer as guerras
e as tuas mãos sobre os joelhos
uma arquitetura de gregos.
dei to sobre tudo que desperto
em tua aura de prataria cega
e o meu deleite e a minha dor
copulam numa fogueira pública.
penso que caiu alguma lua no jardim que andaste aqui
e a própria queda dos impérios
é uma predição de ti —
o teu passado é uma praia
onde nasceram as conchas
e o teu presente uma eternidade de luz e de ondas
onde as conchas cantam
teu dom e tua luz.
II
— até quando seremos felizes?
até quando seremos a mira
que o espelho espera?
o duplo multiplicado?
— lembra quando rasgamos o peito e o tempo escoou?
eram moedas e flores
e um hálito de pedras ...
— hoje a flauta doce foi buscada;
o amargo do vinho; a noite;
e uma barca de espelhos
que navega cegamente para guerra...
III
há um poeta rindo no portal da tua casa
que não sou eu mas o eu que te acompanha
e eu estar em ti é lembrar de mim
quando penso que és minha casa.
permaneço em sonho
enquanto tu me navegas,
e existir em ti é realizar os planos
de quando existires
saberes como sofrem os sonhos —
amor é mar
que sempre subexiste
e quando queremos navegar
a vela nos devora
e o vento é sempre triste.
IV - MANHÃ NA LUA
haverás, amada,
de recordar a hora em que éramos felizes:
há poesia no passado
mas não há tempo —
há a dor
a praia e a pedra
onde ancorar o dia
e acordar sobre o teu lado
sem saber
que o sonho é um círculo finito
que sem meios de tecer
tu fias
e colhes a noite
como um manto sobre os braços
uma nau descomunal
ou um verbo que cria.
V - PORTRAIT
sonhávamos tanto que éramos doces
e nosso último disfarce
foi tornarmo-nos amigos
sob a fé de toda balaustrada
de lustres e alaúdes lúgubres
que terminam
quando nua e com flores
cantas
e transbordas os açudes...
acordamos e corremos aos jornais
em busca de poemas
limpamos toda casa onde o sonho é moradia
o sonho que buscamos, o sonho que nos cria
apenas uma trégua
quando a guerra
é a única maneira de se conquistar
e a bandeira só por cada jogo se jogar
porque só é o cadafalso
e falso o laço
do ar.
VI - AUGEN
verde a luzidia forma que encontrares no poema
que verde é seu encanto
enquanto canto sua pena
que a vida nunca estabelece
rara, sem sua medida de tristeza.
talvez a fala
que emudece espaços
a ausência pressentida ou as horas
medirão o tempo da distância...
talvez o olhar
que umedece os passos
o brilho docemente agudo
das pérolas
o jogo
ou as conchas
serão em mim a tua proteção.
as mãos
como os limites de um deus
ou urna pomba absurdamente nua ou despetalada
sobre minha cabeça pousas
nesta sombra que enriquece a luz.
VII - SAL
quando esqueces o meu nome
é poesia a minha dor que se constrói...
— tanta tristeza em sabermos o que seríamos...
e se não fosse a poesia ? — o sonho da noite
é o medo do dia
e o teu sonho é um barco que irá chegar
e o seu vento a minha esperança
que também é sua praia.
vê esta pedra — sim, a que guarda sob o tempo
o pulso das vidas; —
ergue tua mão agora,
sorve o lampejo
que esqueci de esconder sob a pedra:
nesta praia só há um lugar onde o amor sobrevive,
e a fé e a fidelidade
caminham utopicamente
banhando os pés.
VIII
somos fundamente tristes quando amamos em segredo...
— o que buscamos em nossa lida?...
todas as ilhas sofrem de ser só
e sempre amar por último o penúltimo engano...
adulo duelos no ancoradouro que há em mim...
há mulheres debruçadas sobre a lua
e o tempo e o traço, se hão,
são partes da mão
e o poeta um pedaço
do espaço e do chão...
o sonho é apenas a espera a vida inteira...
num canto em mim todos os homens agonizam
e o deus e a voz
é o eu em nós...
ri, para que eu pense que o mundo acabou!...
teremos que cantar enquanto fundas
as avenidas foscas todas toscas fenecem,
jardins se amontoam sobre os muros
e crianças criam mundos...
canto enquanto sabes que podemos amar...
o amor é um costela que sangra...
o amor é um cortejo sobre o mar...
IX - JORNADA
haverá de nos suportar o tempo da lida,
tudo quanto de tristeza e alegria não cabem no poema —
o verso deve ser comedido
para não comprometer a irmandade
dos solitários poetas.
e haverá a força para não amar e
a tarde para recriar os sapatos — os pés
representam asseados a alma do poeta,
quando sujos, sua coragem e abnegação.
haverá todo tempo para construir o verso
limpar a casa e escrever
literatura —
haverá música e pêssegos
quando o espaço entre o chão e a alma
for um preenchimento apenas de coisas velhas
e com nós
for surdamente esquecido
entre as estações.
tua boca nasce a cada dia
como a faca e a fruta.
há nos teus dentes uma cor
que não há noutra forma de tempo —
a brancura dos teus olhos é irmã e cai
em teu brilho de ursa
e em cada anel.
o teu sorriso é uma forma de vencer as guerras
e as tuas mãos sobre os joelhos
uma arquitetura de gregos.
dei to sobre tudo que desperto
em tua aura de prataria cega
e o meu deleite e a minha dor
copulam numa fogueira pública.
penso que caiu alguma lua no jardim que andaste aqui
e a própria queda dos impérios
é uma predição de ti —
o teu passado é uma praia
onde nasceram as conchas
e o teu presente uma eternidade de luz e de ondas
onde as conchas cantam
teu dom e tua luz.
II
— até quando seremos felizes?
até quando seremos a mira
que o espelho espera?
o duplo multiplicado?
— lembra quando rasgamos o peito e o tempo escoou?
eram moedas e flores
e um hálito de pedras ...
— hoje a flauta doce foi buscada;
o amargo do vinho; a noite;
e uma barca de espelhos
que navega cegamente para guerra...
III
há um poeta rindo no portal da tua casa
que não sou eu mas o eu que te acompanha
e eu estar em ti é lembrar de mim
quando penso que és minha casa.
permaneço em sonho
enquanto tu me navegas,
e existir em ti é realizar os planos
de quando existires
saberes como sofrem os sonhos —
amor é mar
que sempre subexiste
e quando queremos navegar
a vela nos devora
e o vento é sempre triste.
IV - MANHÃ NA LUA
haverás, amada,
de recordar a hora em que éramos felizes:
há poesia no passado
mas não há tempo —
há a dor
a praia e a pedra
onde ancorar o dia
e acordar sobre o teu lado
sem saber
que o sonho é um círculo finito
que sem meios de tecer
tu fias
e colhes a noite
como um manto sobre os braços
uma nau descomunal
ou um verbo que cria.
V - PORTRAIT
sonhávamos tanto que éramos doces
e nosso último disfarce
foi tornarmo-nos amigos
sob a fé de toda balaustrada
de lustres e alaúdes lúgubres
que terminam
quando nua e com flores
cantas
e transbordas os açudes...
acordamos e corremos aos jornais
em busca de poemas
limpamos toda casa onde o sonho é moradia
o sonho que buscamos, o sonho que nos cria
apenas uma trégua
quando a guerra
é a única maneira de se conquistar
e a bandeira só por cada jogo se jogar
porque só é o cadafalso
e falso o laço
do ar.
VI - AUGEN
verde a luzidia forma que encontrares no poema
que verde é seu encanto
enquanto canto sua pena
que a vida nunca estabelece
rara, sem sua medida de tristeza.
talvez a fala
que emudece espaços
a ausência pressentida ou as horas
medirão o tempo da distância...
talvez o olhar
que umedece os passos
o brilho docemente agudo
das pérolas
o jogo
ou as conchas
serão em mim a tua proteção.
as mãos
como os limites de um deus
ou urna pomba absurdamente nua ou despetalada
sobre minha cabeça pousas
nesta sombra que enriquece a luz.
VII - SAL
quando esqueces o meu nome
é poesia a minha dor que se constrói...
— tanta tristeza em sabermos o que seríamos...
e se não fosse a poesia ? — o sonho da noite
é o medo do dia
e o teu sonho é um barco que irá chegar
e o seu vento a minha esperança
que também é sua praia.
vê esta pedra — sim, a que guarda sob o tempo
o pulso das vidas; —
ergue tua mão agora,
sorve o lampejo
que esqueci de esconder sob a pedra:
nesta praia só há um lugar onde o amor sobrevive,
e a fé e a fidelidade
caminham utopicamente
banhando os pés.
VIII
somos fundamente tristes quando amamos em segredo...
— o que buscamos em nossa lida?...
todas as ilhas sofrem de ser só
e sempre amar por último o penúltimo engano...
adulo duelos no ancoradouro que há em mim...
há mulheres debruçadas sobre a lua
e o tempo e o traço, se hão,
são partes da mão
e o poeta um pedaço
do espaço e do chão...
o sonho é apenas a espera a vida inteira...
num canto em mim todos os homens agonizam
e o deus e a voz
é o eu em nós...
ri, para que eu pense que o mundo acabou!...
teremos que cantar enquanto fundas
as avenidas foscas todas toscas fenecem,
jardins se amontoam sobre os muros
e crianças criam mundos...
canto enquanto sabes que podemos amar...
o amor é um costela que sangra...
o amor é um cortejo sobre o mar...
IX - JORNADA
haverá de nos suportar o tempo da lida,
tudo quanto de tristeza e alegria não cabem no poema —
o verso deve ser comedido
para não comprometer a irmandade
dos solitários poetas.
e haverá a força para não amar e
a tarde para recriar os sapatos — os pés
representam asseados a alma do poeta,
quando sujos, sua coragem e abnegação.
haverá todo tempo para construir o verso
limpar a casa e escrever
literatura —
haverá música e pêssegos
quando o espaço entre o chão e a alma
for um preenchimento apenas de coisas velhas
e com nós
for surdamente esquecido
entre as estações.
1 147
Walter Queiroz
Formação
Nem pétala nem pano
corpo
embora rosa
breve
sopro
resiste à cruz
e vive
nem posse nem plano
sonho
embora sombra
queda
o caos
evola em verde
canta
nem arma nem arte
sentido
embora pasmo
amplo
e alvo
inventa a ponte
passa
nem torna nem tarda
noturna
embora estrela
nova
dalva
assume a cruz
e sangra
nem luto nem lírio
cicatriz
embora marca
funda
e grave
explode em grito
batalha
corpo
embora rosa
breve
sopro
resiste à cruz
e vive
nem posse nem plano
sonho
embora sombra
queda
o caos
evola em verde
canta
nem arma nem arte
sentido
embora pasmo
amplo
e alvo
inventa a ponte
passa
nem torna nem tarda
noturna
embora estrela
nova
dalva
assume a cruz
e sangra
nem luto nem lírio
cicatriz
embora marca
funda
e grave
explode em grito
batalha
880
Ana Maria Ramiro
Lembranças
Em um final de tarde ensolarado
sigo por uma estrada poeirenta
meus dedos tocam galhos rebuscados
art nouveau do acaso e do momento.
E se um belo caboclo, com malícia
me acenar ainda, à distância
Ansiarei seu toque, uma carícia
que guardarei como paixão de infância.
Mas tudo não passa de lembranças
enquanto eu piso a pedra fria
e o sol da tarde, e a bonança
se foram em um nebuloso dia.
Assim a vida passa indiferente
levando o viço, o gozo e a emoção
Ficam porém as lembranças gravadas na mente,
e a dor das paixões, cravada no coração.
sigo por uma estrada poeirenta
meus dedos tocam galhos rebuscados
art nouveau do acaso e do momento.
E se um belo caboclo, com malícia
me acenar ainda, à distância
Ansiarei seu toque, uma carícia
que guardarei como paixão de infância.
Mas tudo não passa de lembranças
enquanto eu piso a pedra fria
e o sol da tarde, e a bonança
se foram em um nebuloso dia.
Assim a vida passa indiferente
levando o viço, o gozo e a emoção
Ficam porém as lembranças gravadas na mente,
e a dor das paixões, cravada no coração.
928
Vernaide Wanderley
Forragens e Desertos, nos
Versos da Escrivaninha
Minha escrivaninha é túmulo
e reboliço de lembranças;
armário entulhado de tormentas
e águas que retraçam rumos
e barram a invasão do tempo.
Sua desordem é castelo
e sertão dos meus desvelos;
redemoinho e povo desterrado,
exílio que modela dunas
e barra a invasão do tempo.
Minha escrivaninha é mistério
nos fiapos do novelo que me tecem;
amor de gavetas, velhas bastilhas
e medo ou lucidez de resistências,
que barram a invasão do tempo.
Minha escrivaninha é túmulo
e reboliço de lembranças;
armário entulhado de tormentas
e águas que retraçam rumos
e barram a invasão do tempo.
Sua desordem é castelo
e sertão dos meus desvelos;
redemoinho e povo desterrado,
exílio que modela dunas
e barra a invasão do tempo.
Minha escrivaninha é mistério
nos fiapos do novelo que me tecem;
amor de gavetas, velhas bastilhas
e medo ou lucidez de resistências,
que barram a invasão do tempo.
752
Antônio de Godói
Do Mês de Maria
O sagrado esplendor de curvas cinzeladas
No relevo imortal do corpo alabastrino!
(Maio é todo um cendal de violetas dobradas...
Roçam asas no azul adelgaçado e fino...)
Rosto feito a buril de espumas congeladas
Na redoma de luz de um luar opalino!
(Reflorescem rosais... nas noites consteladas
Erra um doce rumor de citara e violino...)
Ó Senhora, de olhar claro e puro de Santa,
Virgem pura do Céu que minha alma quebranta
(A brisa corre, o ambiente é fresco, o sol não arde.)
Dá-me o fulgor que bóia em teu olhar tristonho,
Para assim clarear a noite do meu Sonho...
(Vão cantando no azul as citaras da tarde... )
No relevo imortal do corpo alabastrino!
(Maio é todo um cendal de violetas dobradas...
Roçam asas no azul adelgaçado e fino...)
Rosto feito a buril de espumas congeladas
Na redoma de luz de um luar opalino!
(Reflorescem rosais... nas noites consteladas
Erra um doce rumor de citara e violino...)
Ó Senhora, de olhar claro e puro de Santa,
Virgem pura do Céu que minha alma quebranta
(A brisa corre, o ambiente é fresco, o sol não arde.)
Dá-me o fulgor que bóia em teu olhar tristonho,
Para assim clarear a noite do meu Sonho...
(Vão cantando no azul as citaras da tarde... )
818
Adriana Abdenur
Pátria
Pátria
Era pequenininha. Bebia no leite de minha mãe
os resquícios de sua nostalgia,
e à noite, embriagada, chorava de saudades
de uma terra que tampouco conhecia.
Cresci fabricando números para contar a nossa distância:
falava de léguas e de nós, de jardas infinitas.
Vivia uma vida centrífuga em torno do teu turbilhão,
fazendo de conta que meu eixo
era mais que uma ilusão.
Falava em voltar sem jamais ter ido,
fingindo que te pertencia.
Via teu rosto imprimido
nos jornais da tarde, nos cartões postais, e ria:
-- Vou morar lá um dia, eu dizia.
Mas a vida fez-se ao meu redor,
e ancorou-me no lado de fora.
Vivo agora com a angústia de saber
que a saudade que não se mata
tampouco vai-se embora.
Vejo-me de casa feita e filha no colo.
Sei que lhe passo no leite sedes mais atrozes
do que aquela que sacio:
a vontade de relembrar
um passado ainda vazio,
e a saudade que nos persegue
por esta vida no exílio.
Era pequenininha. Bebia no leite de minha mãe
os resquícios de sua nostalgia,
e à noite, embriagada, chorava de saudades
de uma terra que tampouco conhecia.
Cresci fabricando números para contar a nossa distância:
falava de léguas e de nós, de jardas infinitas.
Vivia uma vida centrífuga em torno do teu turbilhão,
fazendo de conta que meu eixo
era mais que uma ilusão.
Falava em voltar sem jamais ter ido,
fingindo que te pertencia.
Via teu rosto imprimido
nos jornais da tarde, nos cartões postais, e ria:
-- Vou morar lá um dia, eu dizia.
Mas a vida fez-se ao meu redor,
e ancorou-me no lado de fora.
Vivo agora com a angústia de saber
que a saudade que não se mata
tampouco vai-se embora.
Vejo-me de casa feita e filha no colo.
Sei que lhe passo no leite sedes mais atrozes
do que aquela que sacio:
a vontade de relembrar
um passado ainda vazio,
e a saudade que nos persegue
por esta vida no exílio.
1 042
Wanda Cristina
Poema do Ser Assim
Você precisa conhecer a solidão.
Ela é baixinha como eu,
e é magra, e é triste
e fuma todas as melancolias
que, um dia, alguém fumou.
E faz poesia em espírito gonçalvino,
e adentra o Modernismo sem saber inglês...
Já foi boêmia como Baudelaire,
e bebeu a multidão de um gole,
embriagando-se do perdido
pra nunca mais deixar de ser
a bêbada predileta
dos bares de todos os homens.
Você precisa conhecer a solidão.
....................................................
Ela é a consciência,
o abrigo, a chave de todas as portas
que guardam o segredo do SER ASSIM...
Ela nunca morreu em alguém,
antes desse alguém ter morrido.
Ela é baixinha como eu,
e é magra, e é triste
e fuma todas as melancolias
que, um dia, alguém fumou.
E faz poesia em espírito gonçalvino,
e adentra o Modernismo sem saber inglês...
Já foi boêmia como Baudelaire,
e bebeu a multidão de um gole,
embriagando-se do perdido
pra nunca mais deixar de ser
a bêbada predileta
dos bares de todos os homens.
Você precisa conhecer a solidão.
....................................................
Ela é a consciência,
o abrigo, a chave de todas as portas
que guardam o segredo do SER ASSIM...
Ela nunca morreu em alguém,
antes desse alguém ter morrido.
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