Poemas neste tema
Alma
Paulo Lopes da Silva
Haicai
Metamorfose
A lagarta preta
Batendo as asas, se erguendo
Vira borboleta.
Apelo à natureza
Que o clima sagrado
Cresça o fruto e o amadureça
Bem adocicado!
A lagarta preta
Batendo as asas, se erguendo
Vira borboleta.
Apelo à natureza
Que o clima sagrado
Cresça o fruto e o amadureça
Bem adocicado!
1 367
Paulo Silva Ribeiro
A Morte Como Vida
A Morte Como Vida
Estranho sentido a vida tem,
Estranho os caminhos da felicidade,
Estranho a busca incessante pelo poder,
Estranho a morte como vida,
Estranho viver sem sofrer...
Desconheço todos os sentidos
Que a vida pode ter
Pelo simples motivo de já tê-los
Abolidos...
Vejo sereno agora
O verdadeiro sentido
Já a muito esquecido,
Saudade não se pode mais sentir...
A morte dona de toda sorte
Que de Súbito nos leva tudo
Amores, dores, angústias
E que sem nos avisar
Vem nos buscar...
Estranho sentido a vida tem,
Estranho os caminhos da felicidade,
Estranho a busca incessante pelo poder,
Estranho a morte como vida,
Estranho viver sem sofrer...
Desconheço todos os sentidos
Que a vida pode ter
Pelo simples motivo de já tê-los
Abolidos...
Vejo sereno agora
O verdadeiro sentido
Já a muito esquecido,
Saudade não se pode mais sentir...
A morte dona de toda sorte
Que de Súbito nos leva tudo
Amores, dores, angústias
E que sem nos avisar
Vem nos buscar...
877
Olegario Schmitt
O Nasimento
À Cecília Meirelles
(Saudades, Cecília, das tuas idéias no ar)
Como "assistir ao nascimento
mudo das formas", Cecília,
se as coisas quando nascem
largam um berro
mais alto do que um tiro?
Não percebes o rasgo
no mundo
que é o nascimento de tudo?
Espaço delimitado
—minha marca está presente
nas coisas
—existo.
A prova disto
é esse poema...
Não sentes o tremor
que paira no ar?
É esse poema, futucando
na tua orelha e dizendo:
Acorda, Cecília.
Santa Maria/RS
Brasil
(Saudades, Cecília, das tuas idéias no ar)
Como "assistir ao nascimento
mudo das formas", Cecília,
se as coisas quando nascem
largam um berro
mais alto do que um tiro?
Não percebes o rasgo
no mundo
que é o nascimento de tudo?
Espaço delimitado
—minha marca está presente
nas coisas
—existo.
A prova disto
é esse poema...
Não sentes o tremor
que paira no ar?
É esse poema, futucando
na tua orelha e dizendo:
Acorda, Cecília.
Santa Maria/RS
Brasil
888
Ona Gaia
Quando a alma
Quando a alma
parece despedir-se
e o corpo ficar
no centro do mundo
tudo gira e passa
tudo é circular
e nada sai do lugar.
O que haverá de fazer-se
quando a razão é dúvida
e a emoção é turva ?
Para além das mil besteiras
que povoam cada instante
( infinito )
da perplexidade,
a ação é ativa.
A Era celerada
- os egos cotidianos
só entram pelo cano -
e o eterno tempo
desenham nuvens ao vento!
parece despedir-se
e o corpo ficar
no centro do mundo
tudo gira e passa
tudo é circular
e nada sai do lugar.
O que haverá de fazer-se
quando a razão é dúvida
e a emoção é turva ?
Para além das mil besteiras
que povoam cada instante
( infinito )
da perplexidade,
a ação é ativa.
A Era celerada
- os egos cotidianos
só entram pelo cano -
e o eterno tempo
desenham nuvens ao vento!
834
Oscar Rosas
Visão
Tanto brilhava a luz da Lua clara,
Que para ti me fui encaminhando.
Murmurava o arvoredo, gotejando
Água fresca da chuva que estancara.
Longe de prata semeava a seara...
O teu castelo, à Lua crepitando,
Como um solar de vidros formidando,
Vi-o como ardentíssima coivara.
Cantigas de cigarra na devesa...
E, pela noite muda, parecia
Cantar o coração da natureza.
Foi então que te vi, formosa imagem,
Surgir entre roseiras, fria, fria,
Como um clarão da Lua na folhagem.
Que para ti me fui encaminhando.
Murmurava o arvoredo, gotejando
Água fresca da chuva que estancara.
Longe de prata semeava a seara...
O teu castelo, à Lua crepitando,
Como um solar de vidros formidando,
Vi-o como ardentíssima coivara.
Cantigas de cigarra na devesa...
E, pela noite muda, parecia
Cantar o coração da natureza.
Foi então que te vi, formosa imagem,
Surgir entre roseiras, fria, fria,
Como um clarão da Lua na folhagem.
1 068
Oliveira Roma
Avante!
Ao operário brasileiro
Operário, tem fé! Na oficina modesta
Em que vivo isolado e esquecido, moirejo,
Paciente mas tenaz, preso do alto desejo
De, como tu, ser bom e ter sempre a alma em festa.
Operário também, cheio de crença, nesta
Ânsia de progredir, humílimo, antevejo
A paz universal — o luminoso beijo
Em que o Infinito Amor, puro, se manifesta.
Não te causem vexame esses calos, que são
Em tuas mãos de herói, os emblemas fecundos
Do Labor, da Honradez e da Resignação.
Bendize o teu destino intenso, extraordinário.
Bendize-o porque Deus, arquitetando mundos,
Foi Ele — o próprio Deus — o primeiro operário.
Operário, tem fé! Na oficina modesta
Em que vivo isolado e esquecido, moirejo,
Paciente mas tenaz, preso do alto desejo
De, como tu, ser bom e ter sempre a alma em festa.
Operário também, cheio de crença, nesta
Ânsia de progredir, humílimo, antevejo
A paz universal — o luminoso beijo
Em que o Infinito Amor, puro, se manifesta.
Não te causem vexame esses calos, que são
Em tuas mãos de herói, os emblemas fecundos
Do Labor, da Honradez e da Resignação.
Bendize o teu destino intenso, extraordinário.
Bendize-o porque Deus, arquitetando mundos,
Foi Ele — o próprio Deus — o primeiro operário.
982
Pedro de Alcântara
A Imperatriz
Corda que estala em harpa mal tangida,
Assim te vais, ó doce companheira
Da fortuna e do exílio, verdadeira
Metade de minhalma entristecida.
De augusto e velho tronco, haste partida
E transplantada à terra brasileira,
Lá te fizeste à sombra hospitaleira
Em que todo o infortúnio achou guarida.
Feriu-te a ingratidão no seu delírio;
Caíste; e eu fico a sós neste abandono,
Do teu sepulcro vacilante círio.
Como foste feliz! Dorme o teu sono.
Mãe do povo, acabou-se-te o martírio;
Filha de reis, ganhaste um grande trono!
Assim te vais, ó doce companheira
Da fortuna e do exílio, verdadeira
Metade de minhalma entristecida.
De augusto e velho tronco, haste partida
E transplantada à terra brasileira,
Lá te fizeste à sombra hospitaleira
Em que todo o infortúnio achou guarida.
Feriu-te a ingratidão no seu delírio;
Caíste; e eu fico a sós neste abandono,
Do teu sepulcro vacilante círio.
Como foste feliz! Dorme o teu sono.
Mãe do povo, acabou-se-te o martírio;
Filha de reis, ganhaste um grande trono!
1 951
Paulo Henrique Góes Souza
Reminiscência
Um dia, o vento não soprará
E tu chegarás das cinzas,
Tal como Fênix
Saindo do álbum de retratos
Onde moras,
Que se foi há tempo
Nas chamas da ilusão...
Um dia, quando tu fizeres parte de mim,
E eu puder te tocar,
E fazer de ti minha mulher,
Serei eu o homem
Mais feliz de toda a corte,
Acho mesmo que de todo o mundo,
Pois voltarei ao tempo
Onde o passado será o presente,
E colherei o lírio que não te dei
E o beijo que não te roubei!...
Temo acordar de repente
E perceber em que século estou
E o olhar para as muralhas do tempo,
Aprisionando-me ao limite da memória
Onde a plena percepção chega apenas
Em forma de intuição
Nas brechas profundamente marcadas
Em minha alma...
Padeço
Pela mera possibilidade do fechamento desta fenda,
Agoira cavada por mim,
Neste instante de consciência,
Pois, se assim o for,
Perder-me-ei no amor reminiscente,
E o brilho dos teus olhos não se fará presente
Aos meus,
E tudo emudecerá,
Pois não mais ouvirei tua voz...
E tu chegarás das cinzas,
Tal como Fênix
Saindo do álbum de retratos
Onde moras,
Que se foi há tempo
Nas chamas da ilusão...
Um dia, quando tu fizeres parte de mim,
E eu puder te tocar,
E fazer de ti minha mulher,
Serei eu o homem
Mais feliz de toda a corte,
Acho mesmo que de todo o mundo,
Pois voltarei ao tempo
Onde o passado será o presente,
E colherei o lírio que não te dei
E o beijo que não te roubei!...
Temo acordar de repente
E perceber em que século estou
E o olhar para as muralhas do tempo,
Aprisionando-me ao limite da memória
Onde a plena percepção chega apenas
Em forma de intuição
Nas brechas profundamente marcadas
Em minha alma...
Padeço
Pela mera possibilidade do fechamento desta fenda,
Agoira cavada por mim,
Neste instante de consciência,
Pois, se assim o for,
Perder-me-ei no amor reminiscente,
E o brilho dos teus olhos não se fará presente
Aos meus,
E tudo emudecerá,
Pois não mais ouvirei tua voz...
915
Olegario Schmitt
Rotina
São seis horas da manhã
e acordo para a vida.
Vida... ou pura força de expressão?
São seis horas da manhã
e acordo para aquilo que subentende-se vida.
O sol dourado começa a anunciar a sua presença
no horizonte oposto àquele onde ontem se pôs.
Dez horas se passaram e cá está ele de novo.
Meu Deus, viver é repetir sempre as mesmas coisas
é sempre o mesmo sol
é sempre seis horas e eu acordo
é sempre o relógio apático, automático, como não deixaria de ser
berrando estridente:
SÃO SEIS HORAS, SÃO SEIS HORAS! ACORDA!
O SOL JÁ VAI NASCER!
No calendário se marca um dia a mais,
mas na verdade todos os dias são o mesmo dia,
todas as horas a mesma hora
todos os segundos, renitentes, ficam batendo no mesmo lugar.
Tudo anda em círculos, como a terra, como a lua em torno da terra,
como a terra em torno do sol
como o ponteiro dos segundos, na sua órbita: relógio.
São seis horas da manhã
e morro para o dia: volto a dormir e esqueço do sol.
e acordo para a vida.
Vida... ou pura força de expressão?
São seis horas da manhã
e acordo para aquilo que subentende-se vida.
O sol dourado começa a anunciar a sua presença
no horizonte oposto àquele onde ontem se pôs.
Dez horas se passaram e cá está ele de novo.
Meu Deus, viver é repetir sempre as mesmas coisas
é sempre o mesmo sol
é sempre seis horas e eu acordo
é sempre o relógio apático, automático, como não deixaria de ser
berrando estridente:
SÃO SEIS HORAS, SÃO SEIS HORAS! ACORDA!
O SOL JÁ VAI NASCER!
No calendário se marca um dia a mais,
mas na verdade todos os dias são o mesmo dia,
todas as horas a mesma hora
todos os segundos, renitentes, ficam batendo no mesmo lugar.
Tudo anda em círculos, como a terra, como a lua em torno da terra,
como a terra em torno do sol
como o ponteiro dos segundos, na sua órbita: relógio.
São seis horas da manhã
e morro para o dia: volto a dormir e esqueço do sol.
1 041
Pedro Henrique Saraiva Leão
Poema
estes olhos que vedes e que vos vêem
já viram olhos como eu vejo,
viram lábios mais vermelhos
(não aqui : noutros espelhos)
do que o encarnado do vosso beijo
estes olhos que ausentes me contemplam
agora, reconhecem, por certo, os de outrora
que vos olhavam olhavam, presentes,
vos olhavam da noite à aurora;
estes olhos, ora quedos, ora alados,
vezes ledos, outras tristes,
olhos de si amotinados, olhos
que cegastes pois tanto vistes,
olhos que vêem ermos, e
que se inundam de prazer, de dor,
olhos que querem ver -
estes olhos, são os mesmos, meu amor
já viram olhos como eu vejo,
viram lábios mais vermelhos
(não aqui : noutros espelhos)
do que o encarnado do vosso beijo
estes olhos que ausentes me contemplam
agora, reconhecem, por certo, os de outrora
que vos olhavam olhavam, presentes,
vos olhavam da noite à aurora;
estes olhos, ora quedos, ora alados,
vezes ledos, outras tristes,
olhos de si amotinados, olhos
que cegastes pois tanto vistes,
olhos que vêem ermos, e
que se inundam de prazer, de dor,
olhos que querem ver -
estes olhos, são os mesmos, meu amor
1 096
Pe. Osvaldo Chaves
Angelim Intacto
Cearense, 21.10.23, padre católico e
professor de línguas clássicas. Publicou
apenas parte de sua vasta obra poética, em
1986, sob o título Exíguas. Reside em
Sobral, CE., fone 088.611.06.68
A casa velha do Angelim,
Desfeita há muitos anos,
Resiste ao tempo, intacta, na memória.
O alpendre soma sombra
Com os cajueiros e o jenipapeiro,
Olhando ao sul o córrego da baixa.
Agora o quarto, com balcão e prateleiras,
Onde Gonçalo Pompe negociou.
A sala da varanda, a banca do oratório
Com São Gonçalo tosco esculpido em madeira.
O corredor e à esquerda a camarinha,
Alcova de uma porta só por onde muitas vezes,
Menina e moça, minha mãe passou:
E um dia, em 23, entrou para eu nascer.
E, depois da cozinha,
Os oito limoeiros que plantou
Julgando que os desejos de limão
Iriam muito além de nove meses.
O juazeiro ao poente e o chiqueiro das cabras.
Os pêlos encerados dos caprinos,
E o forte cheiro hircino
Misturado com o cheiro doce de melosas.
Cabritinhos robustos chiqueirados.
E as fêmeas de cria, em trêmulo, sofridas
Gemendo a dor do leite
Em úberes de tetas fartas apojando.
Cheiro bom de cajueiros carregados,
E o delírio dos pássaros no gozo
Da safra dos cajus e das goiabas.
A música das canas na vazante,
E junto ao engenho e à fornalha dos tachos
O cheiro do bagaço e do caldo e do mel.
O aroma dos jenipapos,
Moles de tão maduros,
Vazando suco e contra o chão se espatifando.
Fartura de água boa no verão,
Água abundante mesmo, à flor do chão.
Tudo verde em redor das cacimbas
Em pleno mês de outubro
E novembro e dezembro:
Cacimba Velha, Cacimbinha
E Cacimba das Camaúbas,
Abertas, a falar das grandes secas:
A seca de Novecentos
Do Quinze e do Dezenove.
O cheiro das ervas verdes,
Dos juncos, dos aguapés;
E o cheiro verde do lodo,
O suave buquê das algas das águas boas...
Nem tudo morre, muita coisa fica,
Intacta:
o aroma, o gosto, o som, a imagem e o contacto
São a alma imortal das coisas transitórias.
Depois de morto o olfato,
É vida, na memória, o aroma das coisas.
Apagada a visão,
É vida a imagem, o relevo e a cor.
Morta a audição, ficam vivos os sons
Gravados
Nos microssulcos do íntimo do espírito.
Sobral, setembro de 1985.
professor de línguas clássicas. Publicou
apenas parte de sua vasta obra poética, em
1986, sob o título Exíguas. Reside em
Sobral, CE., fone 088.611.06.68
A casa velha do Angelim,
Desfeita há muitos anos,
Resiste ao tempo, intacta, na memória.
O alpendre soma sombra
Com os cajueiros e o jenipapeiro,
Olhando ao sul o córrego da baixa.
Agora o quarto, com balcão e prateleiras,
Onde Gonçalo Pompe negociou.
A sala da varanda, a banca do oratório
Com São Gonçalo tosco esculpido em madeira.
O corredor e à esquerda a camarinha,
Alcova de uma porta só por onde muitas vezes,
Menina e moça, minha mãe passou:
E um dia, em 23, entrou para eu nascer.
E, depois da cozinha,
Os oito limoeiros que plantou
Julgando que os desejos de limão
Iriam muito além de nove meses.
O juazeiro ao poente e o chiqueiro das cabras.
Os pêlos encerados dos caprinos,
E o forte cheiro hircino
Misturado com o cheiro doce de melosas.
Cabritinhos robustos chiqueirados.
E as fêmeas de cria, em trêmulo, sofridas
Gemendo a dor do leite
Em úberes de tetas fartas apojando.
Cheiro bom de cajueiros carregados,
E o delírio dos pássaros no gozo
Da safra dos cajus e das goiabas.
A música das canas na vazante,
E junto ao engenho e à fornalha dos tachos
O cheiro do bagaço e do caldo e do mel.
O aroma dos jenipapos,
Moles de tão maduros,
Vazando suco e contra o chão se espatifando.
Fartura de água boa no verão,
Água abundante mesmo, à flor do chão.
Tudo verde em redor das cacimbas
Em pleno mês de outubro
E novembro e dezembro:
Cacimba Velha, Cacimbinha
E Cacimba das Camaúbas,
Abertas, a falar das grandes secas:
A seca de Novecentos
Do Quinze e do Dezenove.
O cheiro das ervas verdes,
Dos juncos, dos aguapés;
E o cheiro verde do lodo,
O suave buquê das algas das águas boas...
Nem tudo morre, muita coisa fica,
Intacta:
o aroma, o gosto, o som, a imagem e o contacto
São a alma imortal das coisas transitórias.
Depois de morto o olfato,
É vida, na memória, o aroma das coisas.
Apagada a visão,
É vida a imagem, o relevo e a cor.
Morta a audição, ficam vivos os sons
Gravados
Nos microssulcos do íntimo do espírito.
Sobral, setembro de 1985.
1 143
Orlando Neves
1954
Este rosto de hoje,
assim triste, assim magro,
é a memória.
Estas mãos de hoje,
assim vãs, asssssim frias,
são o silêncio.
Esta boca de hoje,
assim branca, assim breve,
é a ausência.
Este olhar de hoje,
assim ágil, assim mudo,
é o cansaço.
Este corpo de hoje,
assim remoto, assim seco,
é apenas um grito
de socorro.
assim triste, assim magro,
é a memória.
Estas mãos de hoje,
assim vãs, asssssim frias,
são o silêncio.
Esta boca de hoje,
assim branca, assim breve,
é a ausência.
Este olhar de hoje,
assim ágil, assim mudo,
é o cansaço.
Este corpo de hoje,
assim remoto, assim seco,
é apenas um grito
de socorro.
1 049
Papiniano Carlos
Bom Dia, Afonso Duarte
Nas ruas exaustas de morte e silêncio,
entre rios mortos e áspera solidão,
passeio contigo, Afonso Duarte.
Sob teu rosto grave, teus nevados cabelos,
seara cansada de tantas espigas,
couves e rosas, Afonso Duarte.
Um galo canta longínquo, ou é tua voz
a seiva do chão, oculta e milenária,
a cantar ainda, Afonso Duarte?
Em teu jardim de angústia (ao longe o mar) colho
no ramo quebrado nossa ave imperecível
e a dor da Pátria, Afonso Duarte.
E vendo-te, raiz e flor, a meio do teu povo,
(eu mesmo cavo e sou quem poda a vida)
só te digo: Bom-dia, Afonso Duarte.
entre rios mortos e áspera solidão,
passeio contigo, Afonso Duarte.
Sob teu rosto grave, teus nevados cabelos,
seara cansada de tantas espigas,
couves e rosas, Afonso Duarte.
Um galo canta longínquo, ou é tua voz
a seiva do chão, oculta e milenária,
a cantar ainda, Afonso Duarte?
Em teu jardim de angústia (ao longe o mar) colho
no ramo quebrado nossa ave imperecível
e a dor da Pátria, Afonso Duarte.
E vendo-te, raiz e flor, a meio do teu povo,
(eu mesmo cavo e sou quem poda a vida)
só te digo: Bom-dia, Afonso Duarte.
1 700
Olegario Schmitt
Imagens
Naquele prado verde
onde nunca estive
tem uma árvore, que nunca vi,
mais abaixo uma fonte
da qual quero beber
um riacho e o banho
o banho
o banho no riacho...
Que mais posso sentir
senão querer lá estar?
onde nunca estive
tem uma árvore, que nunca vi,
mais abaixo uma fonte
da qual quero beber
um riacho e o banho
o banho
o banho no riacho...
Que mais posso sentir
senão querer lá estar?
920
Ona Gaia
Aos Nubentens
Ao falar agora
não serei breve no sentimento
- de início já vou dizendo -
como é belo e glamouroso este momento !
Pois por abundância de emoções sublimes
atraio um mundo inteiro de visões
e no meio do turbilhão destas atrações
o amor uni-versos e corações.
Que seja terna enquanto dura sua existência.
Que lá do fundo brote o fruto da sua potência.
E por acaso existe erro aqui em alguém ?
Hoje é um dia pra vida suntuoso
dois corpos unidos no mundo é virtuoso
e nada há mais certo pra mim ou pra ninguém !
Na arena solar das sensações
encontram a felicidade entre clarões
os que fazem o futuro além nações.
E muito antes de conhecer o seu lar
de um sonho pouco antes de acordar
você já conhecia o seu par.
Estas palavras pra ele e pra ela
até mesmo numa hora paralela
durante o dia, à noite ou no inverno
serão as cores de um verão eterno.
não serei breve no sentimento
- de início já vou dizendo -
como é belo e glamouroso este momento !
Pois por abundância de emoções sublimes
atraio um mundo inteiro de visões
e no meio do turbilhão destas atrações
o amor uni-versos e corações.
Que seja terna enquanto dura sua existência.
Que lá do fundo brote o fruto da sua potência.
E por acaso existe erro aqui em alguém ?
Hoje é um dia pra vida suntuoso
dois corpos unidos no mundo é virtuoso
e nada há mais certo pra mim ou pra ninguém !
Na arena solar das sensações
encontram a felicidade entre clarões
os que fazem o futuro além nações.
E muito antes de conhecer o seu lar
de um sonho pouco antes de acordar
você já conhecia o seu par.
Estas palavras pra ele e pra ela
até mesmo numa hora paralela
durante o dia, à noite ou no inverno
serão as cores de um verão eterno.
718
Ona Gaia
A chuva cai
A chuva cai
conforme o clima
as nuvens dançam
ao sabor do vento
e o corpo esquenta
ao calor do toque.
conforme o clima
as nuvens dançam
ao sabor do vento
e o corpo esquenta
ao calor do toque.
856
Ona Gaia
Não sei qual a forma
Não sei qual a forma
da sorte que me aguarda
mas o desejo é tanto
que sem sonhar já canto
a matéria da minha visão.
da sorte que me aguarda
mas o desejo é tanto
que sem sonhar já canto
a matéria da minha visão.
786
Orlando Neves
1935
Vou alimentar-te à mão, ternura,
até que morras negada
pelos fantasmas que são, vivas,
as pessoas. Vou alimentar-te
como a um animal feroz
que guardo, amo e temo.
Vou alimentar-te de mim,
ternura.
até que morras negada
pelos fantasmas que são, vivas,
as pessoas. Vou alimentar-te
como a um animal feroz
que guardo, amo e temo.
Vou alimentar-te de mim,
ternura.
1 077
Ona Gaia
Que amor não se explica
Que amor não se explica
e na vida permanece?
é a noite que passa
e o coração não envelhece.
Que faço no mundo
repetindo o mesmo fim?
é a espera celerada
de sermos sempre assim.
Que poder é todo em mim
coisa que não saiba?
é inexistir no céu as sombras
dos receios onde tudo caiba.
Que será após vivido
corpo-alma conhecido?
será algo parecido
como o porvir ter sido.
e na vida permanece?
é a noite que passa
e o coração não envelhece.
Que faço no mundo
repetindo o mesmo fim?
é a espera celerada
de sermos sempre assim.
Que poder é todo em mim
coisa que não saiba?
é inexistir no céu as sombras
dos receios onde tudo caiba.
Que será após vivido
corpo-alma conhecido?
será algo parecido
como o porvir ter sido.
840
Pedro Henrique Saraiva Leão
Não Tenho Medo de Câncer
Não tenho medo de Câncer
temo que canses de mim;
não temo ficar mudo
mas que não fales em mim
temo, que não me vejas
não que me vazem os olhos;
ser decapitado não temo
temo que não penses em mim;
não temo ficar surdo
e sim que não me ouças;
não temo o ventre da baleia
nem a cama do faquir, as brumas do passado
ou aquelas do porvir;
não temo a febre amarela,
mas não amar-me um dia
friamente, com calor
ou o marfim do teu dente, temo;
não temo as estatísticas
os riscos que corremos:
temo que não celebremos o erro certo
o incerto acerto que tecemos,
que como estátuas fiquemos
para abraços braços não tenhamos
para beijos bocas não mostremos
que não nos pertençam os sonhos que sonhamos.
temo que canses de mim;
não temo ficar mudo
mas que não fales em mim
temo, que não me vejas
não que me vazem os olhos;
ser decapitado não temo
temo que não penses em mim;
não temo ficar surdo
e sim que não me ouças;
não temo o ventre da baleia
nem a cama do faquir, as brumas do passado
ou aquelas do porvir;
não temo a febre amarela,
mas não amar-me um dia
friamente, com calor
ou o marfim do teu dente, temo;
não temo as estatísticas
os riscos que corremos:
temo que não celebremos o erro certo
o incerto acerto que tecemos,
que como estátuas fiquemos
para abraços braços não tenhamos
para beijos bocas não mostremos
que não nos pertençam os sonhos que sonhamos.
1 071
Paulo F. Cunha
Pseudônimos
Amor tem vários pseudônimos :
Se longe se chama saudade
Se perto se chama desejo,
concomitante se chama cópula
com raiva se chama desgosto
Feliz se chama de enlevo
Desconfiado se chama desespero,
São tantos os nomes , tantos
que melhor seria p’ra todo mundo
guardar , no armário , o dicionário
e apenas falar em amor
Se longe se chama saudade
Se perto se chama desejo,
concomitante se chama cópula
com raiva se chama desgosto
Feliz se chama de enlevo
Desconfiado se chama desespero,
São tantos os nomes , tantos
que melhor seria p’ra todo mundo
guardar , no armário , o dicionário
e apenas falar em amor
996
Oliveira Roma
Ciência Humana
Sentindo quanto ardor um visionário sente,
Sonhando uma verdade ideal mas fugidia,
Segue o Homem, a lutar, por essa estranha via
Que liga o berço ansioso ao túmulo silente.
Perscruta, indaga, inquire e, dolorosamente,
Vacila a cada passo, e vaga em fantasia,
Pois a meta final é como a orla sombria
Do horizonte, que foge, inconstante, da gente.
Um momento parece alcançar o que quer;
Logo, porém, resvala, impróvido e impotente,
Num engano grosseiro e insólito qualquer.
E nessas mutações os dias se consomem...
Na dúvida consiste, inevitavelmente,
O resumo total de toda a ciência do Homem!
Sonhando uma verdade ideal mas fugidia,
Segue o Homem, a lutar, por essa estranha via
Que liga o berço ansioso ao túmulo silente.
Perscruta, indaga, inquire e, dolorosamente,
Vacila a cada passo, e vaga em fantasia,
Pois a meta final é como a orla sombria
Do horizonte, que foge, inconstante, da gente.
Um momento parece alcançar o que quer;
Logo, porém, resvala, impróvido e impotente,
Num engano grosseiro e insólito qualquer.
E nessas mutações os dias se consomem...
Na dúvida consiste, inevitavelmente,
O resumo total de toda a ciência do Homem!
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Oliveira Roma
Em u’a Festa Matuta
Nhá Quitéra! Nhá Quitéra!
Cuma tá bom hoje aqui!
Parece inté sambação
Lá da roça onde nasci!
Num pensei qui esta fonção
Tivesse o forte condão
De me fazê recordá
Aquelas noites de lá,
Condo a gente inté se esquece
Da própria vida, pensando
Qui o samba também é prece
Qui pro céu vai se elevando...
Nhá Quitéra! venha cá
Uvi minha alma gemê
No meio das alegria,
Bendo sonho e prazê!
Venha iscutá do meu peito
A ladainha da dó.
Cuma tá bom hoje aqui!
Parece inté sambação
Lá da roça onde nasci!
Num pensei qui esta fonção
Tivesse o forte condão
De me fazê recordá
Aquelas noites de lá,
Condo a gente inté se esquece
Da própria vida, pensando
Qui o samba também é prece
Qui pro céu vai se elevando...
Nhá Quitéra! venha cá
Uvi minha alma gemê
No meio das alegria,
Bendo sonho e prazê!
Venha iscutá do meu peito
A ladainha da dó.
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Papiniano Carlos
Cântico
Belo é ver florir os galhos
das velhas árvores.
E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.
E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:
Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza
é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.
das velhas árvores.
E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.
E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:
Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza
é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.
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