Elogio às putas de meu Recife
Que seria desta cidade sem suas putas?
Doces, dolentes,carinhosas putas da juventude
Quando só com elas tudo era permitido
Quando só haviam missas, aniversários
e -moças- de- família, nem sempre família?
Que seria de nós, imberbes ansiosos que,
destinados à Zona dela receàvamos e nela
tudo aprendíamos?
Putas, extensão universitária dos jovens
do meu tempo, aprendendo com elas
a difícil ciência das mulheres.
Das boas mulheres que, na cama,
aspiravam aperfeiçoamentos putológicos
para defender os maridos das putas verdadeiras
Que seria de nós, jovens do Recife
sem a geografia das escadas urinadas
e o chamamento das "professoras" dos balcões
dos velhos sobrados carcomidos,
( tão Recife eles eram )
Romances com putas não existem?
Existem sim nos dengos sem compromisso
e nas histórias que elas contavam
de como tinham caído "na vida"
e que nós gostávamos tanto de ouvir,
embora fosse sempre a mesma história.
Putas do Recife: eu, reconhecido, agradeço pois,
se não fossem vocês, a humanidade de vocês,
eu não deixaria de ser homem, é certo
mas quanta coisa eu deixaria de saber?
As faces da solidão
Minha solidão tem mil faces
e entre todas me escondo
pretendendo que a coragem
que existe , está em mim .
Que a vida não é
insuportavelmente longa
e que eu não quero
que ela acabe.
A fuga noturna
de um sono intranqüilo
que custa a me achar
e , se me encontra ,
sabe ao fim
de tal maneira que duplica
minha insônia .
Minha solidão tem a face
(entre tantas outras )
da moça que me acorda
todos os dias
apesar de meus rogos em contrário ,
Mas ela não me sabe ,
ela só pensa que sabe .
Mas se engana ,
como se enganam
todos que porventura tentem
um esboço que seja de mim .
Recifetebas
Deito-me ao lado de Jocasta
sem remorsos
purificado por esta Recifetebas
da esfinge Jomard decifrada.
O’meu poeta que - bem mais que
tantos Penas, Bandeiras e Cabrais
me chega, por Recifetebas,
ao coração silente.
Pois me ensinaste como, quando
e onde amar de vez e melhor,
a mulher - cidade Recifenda
Há tanto abandonada, vilipendiada
com a metade má do amoródio
e , finalmente,(re)visitada
(re)conquistada, (re)morada.
Ah! Este reencontro com as ruas
da União, Concórdia, Creoulas, Sossego
Ah! O reencontro com o gosto da comida
e com o gosto do desgosto da chupada
da puta Rita, na praia, entre cinco dividida.
Obrigado meu poeta por decifrar-te
e ser Édipo sem remorso e sem cegueira
Comendo mangues, marés , coqueiros
desta sonhada cidade Recifetebas.
Pseudônimos
Amor tem vários pseudônimos :
Se longe se chama saudade
Se perto se chama desejo,
concomitante se chama cópula
com raiva se chama desgosto
Feliz se chama de enlevo
Desconfiado se chama desespero,
São tantos os nomes , tantos
que melhor seria p’ra todo mundo
guardar , no armário , o dicionário
e apenas falar em amor
Sou Só
Sou só
Sou infinitamente só
dentro de mim mesmo.
Não era, dependia, queria...
Mas aprendi nos ramos
da Árvore da Vida que
não se consegue ser todo
sem primeiro ser total
e profundamente só,
até que eu seja apenas
uma nuvem branca
levada pelos ventos
e mudando , ao leu, a forma.
Tantos degraus, tantos
galhos devo passar.
Talvez nunca chegue a sê-lo
Mas, em havendo vida, vou tentar
Te Quero
Te quero , te preciso .
Estás longe e te sinto perto ,
estás perto e te sinto longe .
Te quero , te preciso ,
e nada mais quero
que queiras à mim
Te quero , te preciso
e sei que me queres
mas não queres querer .
Te quero , te preciso ,
fogem passado e futuro
e fica o presente ... em ti .
Te quero , te preciso .
Te espero , te gosto , te amo ,
te olho , te abraço , te beijo
Solidão
Eu me examino na solidão ,
abro todos os contatos
comigo mesmo
Quantas vezes me envaideço ,
outras tantas me entristeço ,
com a visão que tenho de mim.
Ouço os ruídos da rua
que me arranham o corpo ,
que me ferem os tímpanos ,
que me apertam a cabeça
quando estou posto em solidão .
Os ruidos são tão claros
quanto escura a percepção
de mim mesmo .
Solidão é guerrear sem armadura ,
fazendo do coração a bomba
e da cabeça ,em riste , a lança .
Solidão , como te evito ,
solidão como te quero .
Insônia
Tanta insônia, tanta ,
o relógio passando eu ficando
que eu nem sabia para que
servia minha insônia.
Mas agora sei! Para que
encontre a multidão
que vive dentro de mim.
Noites silentes, tardias, cansadas,
que batiam à porta
do meu corpo.
E eu, ignaro a detestá-las
tanto quanto, agora, passo a amá-las
Não mais o “nhec-nhec”
das opiniões pre-fabricadas
pobres, secas, estioladas,
de quem não entende nada
da vida, das coisas, da gente.
Pensar que sabe :
eis a primeira e a ultima
ilusão do beócio que
repete o que lhe disseram,
sofre o que lhe fizeram,
e nunca chega a entender
que a pensar não pode pretender,
pois pensar é coisa de gente
gente que vê, lá na frente .
Pois mente demais o que pensa
que o que pensa é verdadeiro.
Mas só agora eu soube
que a insônia é meu dom
Não fosse ela eu jamais saberia
e que aquilo que tanto combatia,
era, na verdade , o que eu queria.
Sexus, Nexus Plexos
sexus , nexus , plexus
pensava Henry Miller .
Mas , para mim , mais que tudo ,
quero sexus sem muito nexus
e com muito , muito plexus
ou vários e inusitados amplexos .
Plexo solar , central , umbilical
e todas as adajacências acima e abaixo
descobertas e hiperfuncionais
ao simples toque dos dedos ,
curiosos , desejosos , ledos .
Quero sexus sem nexus algum ,
pois não há nexus nesse desejo
que me move amedronta e alimenta
na estrada tomentosa
em que me desacorrento
Ah!
Ah! A lembrança da moça
que me tirou o peso
da alma.
Ah , a lembrança da moça
que me soltou o coração
pôr um instante .
Ah , a lembrança da moça
que olhei e que me fez
homem
de novo
Ah , o instante ( horas , talvez)
que passou, ou me engano eu
quando penso
( e quero ? )
que pensam em mim .
que marcou
que ficou .
Ah , a impossibilidade do concreto
contra a extrema possibilidade
do momento
que virou passada fantasia
e que assim será lembrado
com minhas duas metades
e elas se encontram com as tuas
nas circunvoluções da nossa vida .