O Múltiplo Uno
Eu que , como todos , sou feito
de matéria igual às estrelas
e às pedras , não posso
ser o mesmo , nunca !
Sou dual triplo às vezes uno .
Cristalizo-me em matéria ,
,ou vibro em ondas infinitas
adequando-me às condições
e aos infinitos ambientes .
Se com uma vibro e com
a outra me torno sólido ,
não é culpa minha , mas
das infinitas probabilidades
que ser pedra e ser estrela
me conferem .
Vagando na verdade da incerteza
não me oponho- por não poder-
à inexorável submissão à natureza .
E é dentro dela que
me realizo e penso que sendo
uno dual ou triplo ,
jamais perco a essência mesma
de ser eu.
Sexus, Nexus Plexos
sexus , nexus , plexus
pensava Henry Miller .
Mas , para mim , mais que tudo ,
quero sexus sem muito nexus
e com muito , muito plexus
ou vários e inusitados amplexos .
Plexo solar , central , umbilical
e todas as adajacências acima e abaixo
descobertas e hiperfuncionais
ao simples toque dos dedos ,
curiosos , desejosos , ledos .
Quero sexus sem nexus algum ,
pois não há nexus nesse desejo
que me move amedronta e alimenta
na estrada tomentosa
em que me desacorrento
Homem Terra
Nordestino é feito de terra ,
terra é feita de homem ,
todos da mesma matéria .
Se a terra seca o homem estiola ,
se a terra se molha o homem se afoga ,
se a terra se irriga o homem produz ,
( e se reproduz ).
Nordestino é feito de terra ,
terra é feita de homem ,
todos do mesmo pó ,
todos da mesma seca ,
todos do mesmo irrigar ,
a ponto de não se saber
se a terra colhe do homem ,
ou o homem colhe da terra .
Nordestino é feito de terra ,
terra é feita de homem .
Secam juntos, afogam juntos ,
germinam juntos .
E se colhem um ao outro
até que morrem , dois defuntos ,
a terra e a mortalha de couro.
AIDS
Essa nova geração de vivos-mortos
antecipando ,em vida . a decomposição
de seus corpos e mentes transfigurados ,
perambulam sem como nem porque
pelo deslize do instinto ou sentimento .
Chacoteados , excluídos , isolados ,
pagam promissórias não aceitas ,
mesmo que , ao fim , executados
por misteriosos tribunais nunca escatológicos ,
sejam a luz e a sombra de si mesmos .
Aprendem , na carne , a eterna culpa
quem fez como todos , sem desculpa ,
e por sorteio ilógico escolhidos para exemplo
de todos que apenas vivem o seu tempo
e ao temor e prevenção não se recolhem
Recifetebas
Deito-me ao lado de Jocasta
sem remorsos
purificado por esta Recifetebas
da esfinge Jomard decifrada.
O’meu poeta que - bem mais que
tantos Penas, Bandeiras e Cabrais
me chega, por Recifetebas,
ao coração silente.
Pois me ensinaste como, quando
e onde amar de vez e melhor,
a mulher - cidade Recifenda
Há tanto abandonada, vilipendiada
com a metade má do amoródio
e , finalmente,(re)visitada
(re)conquistada, (re)morada.
Ah! Este reencontro com as ruas
da União, Concórdia, Creoulas, Sossego
Ah! O reencontro com o gosto da comida
e com o gosto do desgosto da chupada
da puta Rita, na praia, entre cinco dividida.
Obrigado meu poeta por decifrar-te
e ser Édipo sem remorso e sem cegueira
Comendo mangues, marés , coqueiros
desta sonhada cidade Recifetebas.
Transparência
Por que , quando estás perto ,
sou transparente à ti ?
Por que , quando estás longe
sou transparente ao mundo ?
Por que não sou sólido , opaco
como os outros ?
Ou será que não vejo os outros ,
preocupado com minha transparência . ,
Ora Danem-se
Que importa que me digam
liso , pobre , feio ou chato
se sei que sou , talvez
o contrário de tudo
e dono de mim mesmo ?
Que me importa que se vão
pessoas , coisas e cargos
se eu ( e meus olhos ) ficamos ?
Os outros , ora os outros
são apenas cegos falantes
e eu não sou guia de cegos
pois com eles - meu defeito ? -
não tenho a menor paciência ,
nem necessito dos seus olhos ,
pois só vejo com os meus
e com os de quem vale a pena.
O mundo é maior que isso
e ( principalmente ) o futuro também.
as coisas pequenas passam .
As em verdade grandes
que os cegos e parados não vêm ,
ficam , ou melhor , frutificam.
Quero comer agora estes frutos
para não sentirsaudades mais tarde
Sou Só
Sou só
Sou infinitamente só
dentro de mim mesmo.
Não era, dependia, queria...
Mas aprendi nos ramos
da Árvore da Vida que
não se consegue ser todo
sem primeiro ser total
e profundamente só,
até que eu seja apenas
uma nuvem branca
levada pelos ventos
e mudando , ao leu, a forma.
Tantos degraus, tantos
galhos devo passar.
Talvez nunca chegue a sê-lo
Mas, em havendo vida, vou tentar
Insônia
Tanta insônia, tanta ,
o relógio passando eu ficando
que eu nem sabia para que
servia minha insônia.
Mas agora sei! Para que
encontre a multidão
que vive dentro de mim.
Noites silentes, tardias, cansadas,
que batiam à porta
do meu corpo.
E eu, ignaro a detestá-las
tanto quanto, agora, passo a amá-las
Não mais o “nhec-nhec”
das opiniões pre-fabricadas
pobres, secas, estioladas,
de quem não entende nada
da vida, das coisas, da gente.
Pensar que sabe :
eis a primeira e a ultima
ilusão do beócio que
repete o que lhe disseram,
sofre o que lhe fizeram,
e nunca chega a entender
que a pensar não pode pretender,
pois pensar é coisa de gente
gente que vê, lá na frente .
Pois mente demais o que pensa
que o que pensa é verdadeiro.
Mas só agora eu soube
que a insônia é meu dom
Não fosse ela eu jamais saberia
e que aquilo que tanto combatia,
era, na verdade , o que eu queria.