Poemas neste tema
Alma
Nielson Ricardo de Alencar Ferreira
Deusa do meu Ser
Deusa do meu Ser
Olhai para mim deusa do meu ser..
Deixai que a sombra de meu amor em tua alma entre..
Deixai que tua alma em meu coracão penetre.
Olhai o olhos de vida,
Olhai para este pobre sofredor.
Por que sofres perguntas malma
Sofres por amor?
Amais quem, o anjo de meu ser..
A quem despeja esta dor..
Dizei agora oque fazeres..
para aliviar esta dor.
Somente viva;
deixe que a vida a ti venha dizer;
Que este amor que agora te atormentas..
eis a grande razao de teu viver.
Olhai para mim deusa do meu ser..
Deixai que a sombra de meu amor em tua alma entre..
Deixai que tua alma em meu coracão penetre.
Olhai o olhos de vida,
Olhai para este pobre sofredor.
Por que sofres perguntas malma
Sofres por amor?
Amais quem, o anjo de meu ser..
A quem despeja esta dor..
Dizei agora oque fazeres..
para aliviar esta dor.
Somente viva;
deixe que a vida a ti venha dizer;
Que este amor que agora te atormentas..
eis a grande razao de teu viver.
890
Nogueira Tapety
A Teia de Penélope
Penélope tecendo e destecendo a trama,
Num trabalho incessante, improfícuo e exaustivo
Simboliza este amor fatal que nos inflama
A cuja ação ela há de viver, como eu vivo.
Ao seu lado fui sempre inexprimido e esquivo,
Entretanto hoje, ausente, em mim tudo a reclama
E ela que me foi sempre um vulto fugitivo,
Há de, a esta hora, sentir que sua alma me chama.
Ah! capricho cruel, como dói teu efeito
Que me isola inda mais na minha soledade
E um deserto sem fim vem semear no meu peito.
Agora, busco-a em vão na maior ansiedade;
Desgraçado que eu sou, pois nem sinto o direito
De invocá-la através desta amarga saudade.
Num trabalho incessante, improfícuo e exaustivo
Simboliza este amor fatal que nos inflama
A cuja ação ela há de viver, como eu vivo.
Ao seu lado fui sempre inexprimido e esquivo,
Entretanto hoje, ausente, em mim tudo a reclama
E ela que me foi sempre um vulto fugitivo,
Há de, a esta hora, sentir que sua alma me chama.
Ah! capricho cruel, como dói teu efeito
Que me isola inda mais na minha soledade
E um deserto sem fim vem semear no meu peito.
Agora, busco-a em vão na maior ansiedade;
Desgraçado que eu sou, pois nem sinto o direito
De invocá-la através desta amarga saudade.
1 258
Nielson Ricardo de Alencar Ferreira
Sonhos de Vida
Sonhos de Vida
Quando em ti penso..
A imagem de um ser minha mente vem atormentar..
Pergunto para o anjo que aqui esta..
Quem será??
Quem será??
Um ser perfeito minha fronte vem ofuscar..
Não consigo nem imaginar..
Quem será??
Quem será??
Depois de teus olhos fitar..
Consigo agora me deslumbrar..
Agora a resposta tenho para dar..
E o Ser mais perfeito que em meu sonho veio sonhar.
Deus!! Deus!! Ajudai pai aos que querem sonhar..
Este sonho lindo que a mim veio buscar..
Medo não tenho de sonhar..
Pois em sonho vivo..
Com medo de me enfrentar.
Olhai para mim sonho meu..
E me respondas com um simples olhar..
Queres comigo sonhar?
Lagrimas!! Lagrimas de meu sonho venho arrancar..
Porque choras perfeito sonho que aqui esta?..
E com os próprios olhos que minha alma reflete me responde..
Em algo e claro brado da vida..
Tenho medo!!! Tenho medo de contigo sonhar.
Um minuto de silêncio veio a me calar..
Somente uma pergunta há dentro de mim a perguntar..
Porque os sonhos a mim não querem sonhar?
Derrepente uma lágrima de vida comecei a derramar..
Sonhos não posso ter;
Pois sonhos não tenho para sonhar.
Quando em ti penso..
A imagem de um ser minha mente vem atormentar..
Pergunto para o anjo que aqui esta..
Quem será??
Quem será??
Um ser perfeito minha fronte vem ofuscar..
Não consigo nem imaginar..
Quem será??
Quem será??
Depois de teus olhos fitar..
Consigo agora me deslumbrar..
Agora a resposta tenho para dar..
E o Ser mais perfeito que em meu sonho veio sonhar.
Deus!! Deus!! Ajudai pai aos que querem sonhar..
Este sonho lindo que a mim veio buscar..
Medo não tenho de sonhar..
Pois em sonho vivo..
Com medo de me enfrentar.
Olhai para mim sonho meu..
E me respondas com um simples olhar..
Queres comigo sonhar?
Lagrimas!! Lagrimas de meu sonho venho arrancar..
Porque choras perfeito sonho que aqui esta?..
E com os próprios olhos que minha alma reflete me responde..
Em algo e claro brado da vida..
Tenho medo!!! Tenho medo de contigo sonhar.
Um minuto de silêncio veio a me calar..
Somente uma pergunta há dentro de mim a perguntar..
Porque os sonhos a mim não querem sonhar?
Derrepente uma lágrima de vida comecei a derramar..
Sonhos não posso ter;
Pois sonhos não tenho para sonhar.
859
Ona Gaia
A chuva cai
A chuva cai
conforme o clima
as nuvens dançam
ao sabor do vento
e o corpo esquenta
ao calor do toque.
conforme o clima
as nuvens dançam
ao sabor do vento
e o corpo esquenta
ao calor do toque.
867
Dunshee de Abranches
O Violino do Artista
Só lhe restava o mágico violino
nessa vida de eterno sofrimento;
único amigo, um outro peregrino
na rota desgraçada do talento.
Como sentia o mísero instrumento,
nessa alma rude, um lenho pequenino,
que tinha em mãos do dono um sentimento
que era "mais do que humano, era divino!"
E juntos iam no fulgor das cenas
confundir num adágio as suas penas,
irmãos na glória, gêmeos no tormento!...
Mas morto um dia o artista, gente absurda
quis tocá-lo... mas ah! tinha a alma surda...
já não sentia o mísero instrumento!...
nessa vida de eterno sofrimento;
único amigo, um outro peregrino
na rota desgraçada do talento.
Como sentia o mísero instrumento,
nessa alma rude, um lenho pequenino,
que tinha em mãos do dono um sentimento
que era "mais do que humano, era divino!"
E juntos iam no fulgor das cenas
confundir num adágio as suas penas,
irmãos na glória, gêmeos no tormento!...
Mas morto um dia o artista, gente absurda
quis tocá-lo... mas ah! tinha a alma surda...
já não sentia o mísero instrumento!...
895
Núbia Marques
Sortilégio
tua boca tem mil noites
mil angústias
mil silêncios
dissipados rumos
rotineiros itinerários
tua boca tem mil lanças
mil dores
mil gritos lancinantes
mil tendões emparelhados
aparvalhados
emuralhados
tua boca morde auroras redentoras
polpa de fruto maldito
salivando veneno de extintos séculos
tempo haverá
e mil noites sazonadas
mil angústias apodrecidas
mil dores adormecidas
mil gritos já canção
serão vomitados e se cristalizarão
em mil estrelas candentes.
mil angústias
mil silêncios
dissipados rumos
rotineiros itinerários
tua boca tem mil lanças
mil dores
mil gritos lancinantes
mil tendões emparelhados
aparvalhados
emuralhados
tua boca morde auroras redentoras
polpa de fruto maldito
salivando veneno de extintos séculos
tempo haverá
e mil noites sazonadas
mil angústias apodrecidas
mil dores adormecidas
mil gritos já canção
serão vomitados e se cristalizarão
em mil estrelas candentes.
1 262
Dunshee de Abranches
A Selva
De pé, no tombadilho, olhos fitos no espaço,
Colombo, palpitante, estende o forte braço,
aos capitães mostrando, ao longe, sobre a esteira
dos negros vagalhões a luz de uma fogueira...
Há três noites velava, há três noites sentia
a esperança deixar-lhe o peito, e a fantasia
fugir-lhe já também. Rugiam os porões
de fome e de cansaço... e ocas conspirações
iam lentas mudando a bruta marinhagem
o amor do comandante em amor à carnagem.
Há três luas partira a frota de Castela;
e em cada uma lufada a enfunar a vela,
em toda a aurora nova, em todo o novo ocaso,
mais a pátria fugia, e mais e mais o acaso,
impávido matava as velhas tradições,
mostrando a cada instante aos crentes corações
que o Caos inda era a luz, que o Abismo inda era o mar!
jamais se vira um monstro, um só, se levantar
por sobre os vagalhões, grandíloquo, medonho,
como a Grécia sentiu nesse homérico sonho
que os templos levantou e fez as Odisséias.
Colombo, palpitante, estende o forte braço,
aos capitães mostrando, ao longe, sobre a esteira
dos negros vagalhões a luz de uma fogueira...
Há três noites velava, há três noites sentia
a esperança deixar-lhe o peito, e a fantasia
fugir-lhe já também. Rugiam os porões
de fome e de cansaço... e ocas conspirações
iam lentas mudando a bruta marinhagem
o amor do comandante em amor à carnagem.
Há três luas partira a frota de Castela;
e em cada uma lufada a enfunar a vela,
em toda a aurora nova, em todo o novo ocaso,
mais a pátria fugia, e mais e mais o acaso,
impávido matava as velhas tradições,
mostrando a cada instante aos crentes corações
que o Caos inda era a luz, que o Abismo inda era o mar!
jamais se vira um monstro, um só, se levantar
por sobre os vagalhões, grandíloquo, medonho,
como a Grécia sentiu nesse homérico sonho
que os templos levantou e fez as Odisséias.
1 045
Nilton Santos Filho
Poeta Baiano Contemporâneo
I
Enlouquecendo, observo o tempo passar
Num sucessivo desenho sem bússola a marcar...
Logo que percebo esta cadência de heróico astral,
Ocorre-me à idéia da captura do segundo capital
Um ímpeto gigante traduzido em furor
Que, embora intocável, mostra-me pavor. É o
Ultimato que recebo e percebo.
É a certeza de que o escore fossilizado é
Concentrado no seu próprio contexto impregnado
Entardece a minha consciência...
Navega a minha paciência...
Dissipam-se os meus conflitos...
Ofuscam-se os meus delitos...
Estou certo de que o instante
Se cornporta sendo gestação de juventude,
Tomado pela captura de um certo flagrante
Ou pela busca de máxima magnitude
Ultrapasso e solto meu laço.
II
Caminhado incansavelmente na direção,
Aposto na corrida pelo desempate...
Marco o labirinto, mas a minha afobação,
Idealizada numa fuga em arremate,
Não me proporciona histeria, somente alegria.
Hei de ser um fugitivo da instabilidade,
Apesar de ser socorrido pela fragilidade
Na hora em que me encontro distante
Do grito, do rito, da cura incessante!
Oro, às vezes choro, mas nunca demoro...
Vou exibindo uma forma com estrutura
Onde cada flanco se encaixa na conjuntura:
Uma honra, minha sombra, jamais cãibra.
III
Seguindo adiante,
Encontro, triste, a censura:
Gentileza ou sutileza do destino que me força à clausura,
Uma fadiga que tenta impedir-me avante.
Inconformado, porém não impune,
Necessito da denúncia que ora se reúne,
Ditando seu próprio neologismo,
Ofertando-me todo empenho do seu fisiologismo.
Esta castração é para mim mesmo apática...
Sequer necessita de dose homeopática. Ela é
Totalmente desvirtuada de propósito,
Apesar do seu domínio em mim não ter depósito.
Trilha de carência em decadência.
Rumo de vida, de opção assumida.
Inferno de pó, para quem está só.
Luta ferina de própria doutrina.
Hipérbole neurótica da lógica ou ótica.
Abismo sem luta para quem reluta.
IV
Jamais pensei que a força do improviso
Abandonasse a minha fome.
Mesmo que uma sede me venha como aviso,
Atravessarei, desatinadamente, um oceano
Inundado pelo nome, agitado pelo plano.
Serei seguido somente, sem ser suprimido.
Serei acerto e não fútil.
Experimentarei a ilusão útil.
Retratarei a razão por mim caricaturada
E, encontrarei a defensiva suturada,
Invertida, comprometida, machucada.
Ilha incendiando, impera-me a criatividade inesgotável
Limites são o meu calvário.
Habitualmente, são pontos de controle insuportável
Atirando-me de encontro ao meu desejo visionário.
V
Estarei assim, fazendo figa cirandar,
Sendo cópia de um choro,
Tomado por causa falada em coro:
Acrobacia de um filósofo do sonhar.
Repetirei a tentativa trêmula
E, agitarei esta pequena flâmula,
Inventando uma linguagem de tatuagem.
Espalhando a poesia como fermento,
Sentirei que o fenômeno é movimento
Paulatino que se exibe estratégico,
Afora seu comportamento léxico.
Lançarei ao vento a eutanásia evaporada,
Hipnotizada pela crença sem freio,
Aonde a inabilidade da escrita for encontrada
Num instante em que o devaneio
De um poeta seja a porta indiscreta,
Ou um arrobo gêmeo do seu próprio roubo.
VI
Meu caminho se lançará sem temer o adultério
Em ondas de acúmulo sem aborto:
Um bálsamo de etéreo acordo.
Canto, encanto, desato e afronto,
Assim conseguirei sobreviver
Num espaço onde a consciência
Toma conta da paciência,
Ordenando-lhe sua incansável fonte de saber.
Meu instante que sempre se renova
Está prestes a se tornar múltiplo :
Unitários mesmo só a vontade nova e o gesto último.
Mando celebrar a minha reza,
Acabando com a minha passividade
Num altar perfumado pela luz vermelha
Distorcida na verdade que se reveza,
Ocultando a imagem iniciando a minha nova viagem...
Enlouquecendo, observo o tempo passar
Num sucessivo desenho sem bússola a marcar...
Logo que percebo esta cadência de heróico astral,
Ocorre-me à idéia da captura do segundo capital
Um ímpeto gigante traduzido em furor
Que, embora intocável, mostra-me pavor. É o
Ultimato que recebo e percebo.
É a certeza de que o escore fossilizado é
Concentrado no seu próprio contexto impregnado
Entardece a minha consciência...
Navega a minha paciência...
Dissipam-se os meus conflitos...
Ofuscam-se os meus delitos...
Estou certo de que o instante
Se cornporta sendo gestação de juventude,
Tomado pela captura de um certo flagrante
Ou pela busca de máxima magnitude
Ultrapasso e solto meu laço.
II
Caminhado incansavelmente na direção,
Aposto na corrida pelo desempate...
Marco o labirinto, mas a minha afobação,
Idealizada numa fuga em arremate,
Não me proporciona histeria, somente alegria.
Hei de ser um fugitivo da instabilidade,
Apesar de ser socorrido pela fragilidade
Na hora em que me encontro distante
Do grito, do rito, da cura incessante!
Oro, às vezes choro, mas nunca demoro...
Vou exibindo uma forma com estrutura
Onde cada flanco se encaixa na conjuntura:
Uma honra, minha sombra, jamais cãibra.
III
Seguindo adiante,
Encontro, triste, a censura:
Gentileza ou sutileza do destino que me força à clausura,
Uma fadiga que tenta impedir-me avante.
Inconformado, porém não impune,
Necessito da denúncia que ora se reúne,
Ditando seu próprio neologismo,
Ofertando-me todo empenho do seu fisiologismo.
Esta castração é para mim mesmo apática...
Sequer necessita de dose homeopática. Ela é
Totalmente desvirtuada de propósito,
Apesar do seu domínio em mim não ter depósito.
Trilha de carência em decadência.
Rumo de vida, de opção assumida.
Inferno de pó, para quem está só.
Luta ferina de própria doutrina.
Hipérbole neurótica da lógica ou ótica.
Abismo sem luta para quem reluta.
IV
Jamais pensei que a força do improviso
Abandonasse a minha fome.
Mesmo que uma sede me venha como aviso,
Atravessarei, desatinadamente, um oceano
Inundado pelo nome, agitado pelo plano.
Serei seguido somente, sem ser suprimido.
Serei acerto e não fútil.
Experimentarei a ilusão útil.
Retratarei a razão por mim caricaturada
E, encontrarei a defensiva suturada,
Invertida, comprometida, machucada.
Ilha incendiando, impera-me a criatividade inesgotável
Limites são o meu calvário.
Habitualmente, são pontos de controle insuportável
Atirando-me de encontro ao meu desejo visionário.
V
Estarei assim, fazendo figa cirandar,
Sendo cópia de um choro,
Tomado por causa falada em coro:
Acrobacia de um filósofo do sonhar.
Repetirei a tentativa trêmula
E, agitarei esta pequena flâmula,
Inventando uma linguagem de tatuagem.
Espalhando a poesia como fermento,
Sentirei que o fenômeno é movimento
Paulatino que se exibe estratégico,
Afora seu comportamento léxico.
Lançarei ao vento a eutanásia evaporada,
Hipnotizada pela crença sem freio,
Aonde a inabilidade da escrita for encontrada
Num instante em que o devaneio
De um poeta seja a porta indiscreta,
Ou um arrobo gêmeo do seu próprio roubo.
VI
Meu caminho se lançará sem temer o adultério
Em ondas de acúmulo sem aborto:
Um bálsamo de etéreo acordo.
Canto, encanto, desato e afronto,
Assim conseguirei sobreviver
Num espaço onde a consciência
Toma conta da paciência,
Ordenando-lhe sua incansável fonte de saber.
Meu instante que sempre se renova
Está prestes a se tornar múltiplo :
Unitários mesmo só a vontade nova e o gesto último.
Mando celebrar a minha reza,
Acabando com a minha passividade
Num altar perfumado pela luz vermelha
Distorcida na verdade que se reveza,
Ocultando a imagem iniciando a minha nova viagem...
583
Oliveira Neto
Silhueta Pagã
Não sei donde surgiu. Mas de repente
se encontrava comigo conversando.
Os olhos nos meus olhos, frente a frente,
eram dois pintassilgos namorando.
De alto porte, bonita, inteligente,
a estirpe de fidalgos demonstrando,
não podia ocultar o ser ardente
na volúpia do amor se acrisolando.
Silhueta pagã. onde passou
a natureza em si paralisou
e o povo abriu honrosa passarela.
Silenciaram todos os ruídos.
E sinto que ficou nos meus ouvidos
a sonora canção dos lábios dela.
se encontrava comigo conversando.
Os olhos nos meus olhos, frente a frente,
eram dois pintassilgos namorando.
De alto porte, bonita, inteligente,
a estirpe de fidalgos demonstrando,
não podia ocultar o ser ardente
na volúpia do amor se acrisolando.
Silhueta pagã. onde passou
a natureza em si paralisou
e o povo abriu honrosa passarela.
Silenciaram todos os ruídos.
E sinto que ficou nos meus ouvidos
a sonora canção dos lábios dela.
884
Olinda Marques de Azevedo
Inverno
Como uma mortalha
branca geada
sobre o cafezal.
Céu iluminado
balões subindo
ao clarão da lua.
O velho casaco
esquecido no cabide.
Frio da ausência.
branca geada
sobre o cafezal.
Céu iluminado
balões subindo
ao clarão da lua.
O velho casaco
esquecido no cabide.
Frio da ausência.
1 059
Noel Nascimento
O Salvador
O céu
é o cenário
da Paixão de Cristo.
O sudário
que O retrata
é um retalho da noite.
Ele
insiste
em salvar almas no infinito.
Na Via Láctea
arrasta a cruz de estrelas
para o Calvário.
é o cenário
da Paixão de Cristo.
O sudário
que O retrata
é um retalho da noite.
Ele
insiste
em salvar almas no infinito.
Na Via Láctea
arrasta a cruz de estrelas
para o Calvário.
846
Noel Nascimento
RosAmor
Tenho um sentimento concreto,
objeto
que pode ser visto e tocado
como se fora o coração.
Contornos de abraços,
beijos encarnados,
sorrisos e lágrima amalgamados.
Novelo
de graças e rubor.
Aspecto
nem de brilhante nem de cristal,
mas de igual esplendor.
Tocha
de afetos que desabrocha
no meu peito.
Centelha
do belo universal.
Bem espesso, copado,
amorosa flor:
— A rosa, mas só a rosa vermelha
tem as formas do meu amor.
objeto
que pode ser visto e tocado
como se fora o coração.
Contornos de abraços,
beijos encarnados,
sorrisos e lágrima amalgamados.
Novelo
de graças e rubor.
Aspecto
nem de brilhante nem de cristal,
mas de igual esplendor.
Tocha
de afetos que desabrocha
no meu peito.
Centelha
do belo universal.
Bem espesso, copado,
amorosa flor:
— A rosa, mas só a rosa vermelha
tem as formas do meu amor.
865
Oliveira Neto
O Solitário
Tristonho e desolado, um homem solitário,
imitava, no aspecto, o Cristo no Calvário.
Em chagas tinha os pés, as mãos e o peito abertos,
e andava a mendigar o pão pelos desertos.
Na voz tinha a ternura e o amor do Nazareno,
prendendo todo mundo em doce olhar sereno.
Solícito e discreto a todos atendia.
Pregava o amor de Deus — o nosso Pai e Guia.
Tratava com carinho e amor as criancinhas,
em cuja voz ouvia a voz das andorinhas.
Cantava de manhã, "rezava a Ave-Maria",
um hino ao sol tecia ao fim de cada dia.
Sem ódio e sem rancor, na trilha da verdade,
pregava sem temor — justiça e Liberdade!
Chicoteado e preso ao tronco de madeira,
sincera a voz soltou no verso derradeiro:
— Não sou Nero, nem judas, nem Caim,
tenho a chaga do amor dentro de mim!
imitava, no aspecto, o Cristo no Calvário.
Em chagas tinha os pés, as mãos e o peito abertos,
e andava a mendigar o pão pelos desertos.
Na voz tinha a ternura e o amor do Nazareno,
prendendo todo mundo em doce olhar sereno.
Solícito e discreto a todos atendia.
Pregava o amor de Deus — o nosso Pai e Guia.
Tratava com carinho e amor as criancinhas,
em cuja voz ouvia a voz das andorinhas.
Cantava de manhã, "rezava a Ave-Maria",
um hino ao sol tecia ao fim de cada dia.
Sem ódio e sem rancor, na trilha da verdade,
pregava sem temor — justiça e Liberdade!
Chicoteado e preso ao tronco de madeira,
sincera a voz soltou no verso derradeiro:
— Não sou Nero, nem judas, nem Caim,
tenho a chaga do amor dentro de mim!
1 047
Otacílio de Azevedo
Carro de Boi
Rodam, tardas, gemendo, as rodas, arrastando
os pesados pranchões de pau-darco. Angustiado
ora altivo e roufenho, ora moroso e brando,
todo carro de bois é um soluço abafado...
A hora viúva e glacial do crepúsculo quando
o sol desce, o seu canto é tão doce e magoado
que ora nos prende à terra, ora nos vai levando
na asa de oiro de sonho a um longínquo passado.
Choram, tristes, à frente, os bois mortos de sono...
Há uma vaga tristeza, uma ansiedade em tudo
e a paisagem dir-se-ia um por-de-sol, no outono...
Oh! Natureza — Mãe! Sei quanto sofres, pois
vejo, ansioso, rolar todo o teu pranto mudo
pelos bons olhos melancólicos dos bois.
os pesados pranchões de pau-darco. Angustiado
ora altivo e roufenho, ora moroso e brando,
todo carro de bois é um soluço abafado...
A hora viúva e glacial do crepúsculo quando
o sol desce, o seu canto é tão doce e magoado
que ora nos prende à terra, ora nos vai levando
na asa de oiro de sonho a um longínquo passado.
Choram, tristes, à frente, os bois mortos de sono...
Há uma vaga tristeza, uma ansiedade em tudo
e a paisagem dir-se-ia um por-de-sol, no outono...
Oh! Natureza — Mãe! Sei quanto sofres, pois
vejo, ansioso, rolar todo o teu pranto mudo
pelos bons olhos melancólicos dos bois.
1 349
Noel Nascimento
Astrovate
Fazedor de artes,
no tempo dos aeroplanos
tornei-me um astrovate.
Em frente à igrejinha
ao lado da escola,
haviam arrancado o pinheiro
— uma Torre de Babel vegetal —
antes que alcançara o céu.
Fora lá a plataforma
(largo onde atracavam os circos)
dos meus vôos iniciais.
Eu subia as ruas do arco-íris
no meu carrinho.
Na pipa,
me levava o vento
até o fim do carretel.
No balão,
seguia com os da Via Láctea,
tocha — o coração.
Comigo no clarão do lombo
corcoveava no ar
o boitatá.
Espelhavam um céu estrelado
os campos
com o lume dos pirilampos.
Eu deslizava de patins
pelas nuvens,
e meu pai ia me buscar
com a vara de marmelo.
Nas asas de uma borboleta,
vi a Terra multicor.
Nos Andes
eram as asa de um condor,
e sobre o Oriente
apenas um tapete voador.
Antes,
muito antes dos astronautas
dei uma volta pelo universo
na cauda de um cometa.
Com tecnologia de brinquedo
inventei uma astronave,
aprendi a dirigi-la
com um bando de andorinhas.
No primeiro lançamento
houve explosão na plataforma:
nove soldadinhos de chumbo
morreram.
Num passe de poesia,
batuta, pena ou pincel
fazem o prodígio:
vôo pelas pautas
de compasso em compasso:
pelas tintas, pelas palavras.
Viajo entre contos e lendas.
Tudo é real:
o País de Alice,
deslumbra-me o dos sacis-pererês.
A Terra viajo tão rápido
que a Itália parece a bota de sete léguas
do gigante.
Em órbita flutua,
mas dispara além da lua;
aprendiz de feiticeiro,
não sei como pará-la.
Quanto mais se distancia,
surge mais perto
como se a saudade a impelira.
Aumenta o nariz de Pinóquio
com a mentira,
acorda a Bela Adormecida
com um beijo,
uma bruxa muda gente
em sapo ou serpente,
o astrovate faz a sua nave
um condão de versos.
Com a fuselagem a coruscar nas entrelinhas
das estrelas,
o poema peregrina anunciando
a revolução da Fraternidade
para salvar a vida na Terra
com os encantos das historinhas.
no tempo dos aeroplanos
tornei-me um astrovate.
Em frente à igrejinha
ao lado da escola,
haviam arrancado o pinheiro
— uma Torre de Babel vegetal —
antes que alcançara o céu.
Fora lá a plataforma
(largo onde atracavam os circos)
dos meus vôos iniciais.
Eu subia as ruas do arco-íris
no meu carrinho.
Na pipa,
me levava o vento
até o fim do carretel.
No balão,
seguia com os da Via Láctea,
tocha — o coração.
Comigo no clarão do lombo
corcoveava no ar
o boitatá.
Espelhavam um céu estrelado
os campos
com o lume dos pirilampos.
Eu deslizava de patins
pelas nuvens,
e meu pai ia me buscar
com a vara de marmelo.
Nas asas de uma borboleta,
vi a Terra multicor.
Nos Andes
eram as asa de um condor,
e sobre o Oriente
apenas um tapete voador.
Antes,
muito antes dos astronautas
dei uma volta pelo universo
na cauda de um cometa.
Com tecnologia de brinquedo
inventei uma astronave,
aprendi a dirigi-la
com um bando de andorinhas.
No primeiro lançamento
houve explosão na plataforma:
nove soldadinhos de chumbo
morreram.
Num passe de poesia,
batuta, pena ou pincel
fazem o prodígio:
vôo pelas pautas
de compasso em compasso:
pelas tintas, pelas palavras.
Viajo entre contos e lendas.
Tudo é real:
o País de Alice,
deslumbra-me o dos sacis-pererês.
A Terra viajo tão rápido
que a Itália parece a bota de sete léguas
do gigante.
Em órbita flutua,
mas dispara além da lua;
aprendiz de feiticeiro,
não sei como pará-la.
Quanto mais se distancia,
surge mais perto
como se a saudade a impelira.
Aumenta o nariz de Pinóquio
com a mentira,
acorda a Bela Adormecida
com um beijo,
uma bruxa muda gente
em sapo ou serpente,
o astrovate faz a sua nave
um condão de versos.
Com a fuselagem a coruscar nas entrelinhas
das estrelas,
o poema peregrina anunciando
a revolução da Fraternidade
para salvar a vida na Terra
com os encantos das historinhas.
888
Nielson Ricardo de Alencar Ferreira
O ti Amar
O ti Amar
Quando,defronte de meus olhos vejo os teus a me fitar..
Imagino o quanto posso te dar.
Nada sei sem pensar..
Mas oque fazer então..
Se a virtude comigo esta.
Aonde a virtude esta? Pergunta minha alma sem hesitar..
E eu respondo com um simples te olhar..
Que ela esta dentro do te AMAR.
Quando,defronte de meus olhos vejo os teus a me fitar..
Imagino o quanto posso te dar.
Nada sei sem pensar..
Mas oque fazer então..
Se a virtude comigo esta.
Aonde a virtude esta? Pergunta minha alma sem hesitar..
E eu respondo com um simples te olhar..
Que ela esta dentro do te AMAR.
970
Noel de Arriaga
Ao Menos Hoje
Não me batas à porta, Poesia!
Ao menos hoje quero ter coragem
Para poder esquivar-me
De ouvir a tua mensagem.
Não me batas à porta, Poesia!
Ao menos hoje quero não sentir,
Não conviver, não pensar,
Mas apenas existir!
Não me batas à porta, Poesia!
Ao menos hoje quero ser um homem
Dos que nascem, crescem, vivem,
E sem arder se consomem ...
Ao menos hoje quero ter coragem
Para poder esquivar-me
De ouvir a tua mensagem.
Não me batas à porta, Poesia!
Ao menos hoje quero não sentir,
Não conviver, não pensar,
Mas apenas existir!
Não me batas à porta, Poesia!
Ao menos hoje quero ser um homem
Dos que nascem, crescem, vivem,
E sem arder se consomem ...
888
Nascimento Moraes Filho
Homem
homem,
a vida é como a vênus de milo;
— faltam-lhe os braços!
aperfeiçoa-a!
plasma no sonho a sua perfeição:
— o sonho é o mármore de páros!...
talvez entre as ruínas do teu eu
estejam escondidos os seus braços
olha!
um rastro de auroras mortas
marca o caminho da tua crença...
empunha a flama da fé
e desce aos subterrâneos da existência,
como os primitivos cristãos,
às galerias esquecidas das catacumbas!
e, de volta,
com teus olhos pregados no infinito,
rompe a mortalha de crepúsculo que te envolve,
e marcha!
na tua marcha ascendente,
esmaga com teus pés de titã o incognoscível
e faze-o explodir aos teus passos
numa erupção de novas auroras!...
então, empolgando os mundos e os astros coruscantes,
bradarás:
—levanta-te — ó sol sem poente!
e uma luz de arrebóis brilhará para sempre!...
......................................................................................
síncope da luz!
angústia do verde nas esperanças!
há um sino dobrando em cada coração
e uma cruz de esqueleto de ilusões abre seus braços
sobre cada pensamento
— é a hora do crepúsculo do amor
— a hora do crepúsculo do sonho!
a vida é como a vênus de milo;
— faltam-lhe os braços!
aperfeiçoa-a!
plasma no sonho a sua perfeição:
— o sonho é o mármore de páros!...
talvez entre as ruínas do teu eu
estejam escondidos os seus braços
olha!
um rastro de auroras mortas
marca o caminho da tua crença...
empunha a flama da fé
e desce aos subterrâneos da existência,
como os primitivos cristãos,
às galerias esquecidas das catacumbas!
e, de volta,
com teus olhos pregados no infinito,
rompe a mortalha de crepúsculo que te envolve,
e marcha!
na tua marcha ascendente,
esmaga com teus pés de titã o incognoscível
e faze-o explodir aos teus passos
numa erupção de novas auroras!...
então, empolgando os mundos e os astros coruscantes,
bradarás:
—levanta-te — ó sol sem poente!
e uma luz de arrebóis brilhará para sempre!...
......................................................................................
síncope da luz!
angústia do verde nas esperanças!
há um sino dobrando em cada coração
e uma cruz de esqueleto de ilusões abre seus braços
sobre cada pensamento
— é a hora do crepúsculo do amor
— a hora do crepúsculo do sonho!
948
Myriam Fraga
Calendário
Janeiro
Verão
E esta cidade como um sáurio,
Como um réptil,
Emergindo das águas
Verão...
E esta cidade
Como um pássaro
Renascendo das brasas
Verão...
E esta cidade como um signo,
Astrolábio ou mandala,
Esta cidade
Como um dado
Atirado ao acaso
De males nunca dantes
Confessados.
Verão
E esta cidade como um sáurio,
Como um réptil,
Emergindo das águas
Verão...
E esta cidade
Como um pássaro
Renascendo das brasas
Verão...
E esta cidade como um signo,
Astrolábio ou mandala,
Esta cidade
Como um dado
Atirado ao acaso
De males nunca dantes
Confessados.
1 229
Myriam Fraga
Sete Poemas
I
Não me deixes ficar,
Não me abandones
Neste ninho de abutres,
Neste burgo
Que espreita o mar
De cima de seus montes
Como fera que espreita,
Ave de rapina,
Atenta aos inimigos
Que surgem no horizonte.
Não me deixes ficar,
Não espedaces
O que ainda resta de mim,
Não abandones
A quem te deu o corpo
E o pensamento
E a quem pisaste um dia
Como pisa o dono
O chão de seus alquebres.
Não me esqueças aqui.
Arrasta com teu fado
Este bicho inocente
Que fareja teu rastro,
Esta pobre coisa triste
Que existe porque existes.
Ai, não me deixes não.
Apaga nos espelhos
A imagem que criaste,
O sono e o pesadelo.
Horas de sofrimento,
Instantes de alegria,
O açoite da chibata
E o bálsamo dos dedos,
O caminho para as Índias
E o rastro para o abismo
A curva de meu seio
Em tua mão tremendo,
Minha boca em tua boca
As sílabas repetindo
Deste amor que me trouxe
Como dote e destino,
Horas de sofrimento,
Instantes de alegria.
II
... às vezes o teu amor
É como o mel que embriaga
Mas às vezes como açoite,
Me corta o corpo em pedaços
E então me olhas com raiva,
Me humilhas, me maltratas
E tua língua tem o frio
Fino corte das navalhas.
Tuas palavras são farpas,
Punhal que fere e que mata.
Me desprezas como coisa
Que se usa e se despreza,
Como uma negra fugida
Que o feitor persegue e caça.
Triste amor que me separa
De minha terra e de tudo,
Amor que engole os minutos
Como cobra engole o rabo,
Amor que aponta o caminho
Mas não dá o itinerário,
Amor que arma suas velas
Mas depois afunda o barco,
Amor que arde em meu corpo
Como círio nos altares,
Como lâmpada na parede,
Lanternas que o vento apaga.
III
Maria de Póvoas,
Maria dos Povos,
Maria, alma ardente
E as mãos tão vazias...
Que vida enganosa
A tua, Maria,
Tecendo as esperas,
Somando as partilhas,
O sexo em chamas
E a fala macia.
Maria ... a cinza na testa,
A oração na madrugada,
Maria, um lobo na espreita,
Um verso como cilada,
O amor é como veneno,
Como sombra na calçada,
Assombração que faz medo,
Maria, é só um poeta
Caminhando pela estrada
E a noite esconde o segredo
De tua pele alvoroçada,
De tua língua, de seus dedos
Somente um poeta
E a chama
Que te confunde e reclama
O ontem já tão distante...
Tantos dias, longos anos,
Maria, tanto abandono,
Somente o vento nas folhas
E no peito... desenganos.
IV
Eu sou o avesso do mundo,
Eu sou a terra
Que pisaste, cuspiste, que esmagaste,
A poder de ferraduras
E de açoite.
Eu sou a terra
A quem amaste tanto
Que caíste a sangrar
Em suas pedras
E onde rolaste, porco,
A charfurdar na lama.
Eu sou a flor escura
De teu sexo
Buscando outras canalhas,
Outros usos,
Por desejares demais
E além da conta...
Não pode o amor humano
Ser medido
Senão na intemperança,
Na luxúria?
Neste bornal de pústulas
Tamanhas
Que criaste a teu gozo
E meu martírio?
Ó amor feito de nada
O que desejo
É apenas o côncavo do escuro,
Apenas
Habitar os teus olhos como pássaro
Que habita nestas torres,
Nestes altos
Campanários que soam pela tarde
Quando a tarde é como um pano
Que desatas
Ao vento deste mar,
Apenas uma vela
Neste oceano sem fim onde navegas,
Ó navegante bêbado!
Sem norte, sem destino, sem chegada...
V
Esta cidade tão suja
E tão deserta,
Esta cidade que ladra
À minha porta
Como um cachorro faminto
E que desperta
A lembrança de coisas
Tão remotas...
Esta Cidade-abismo
Que devora
O amor, a esperança, a mocidade...
E converte a beleza que cantaste
Em cinza fria, em pó,
Em sombra, em nada.
Esta cidade que arde
Como um câncer,
Como um cautério na carne
E que arrebata
A nós todo futuro
E a mim divide a vida
Em dois pedaços.
Esta Cidade, meu amor,
E como um claustro
Onde te ausentas de ti,
Do teu cansaço
De inventar equilíbrio
Ao desacerto.
Esta Cidade é como
Um corpo aceso,
Ofegante de mágoa e de desejo
Colado à tua boca que blasfema
De amor, de impiedade
E que arrebenta
Os diques do silêncio
Nestas tardes
Em que galopam soltos pelas veias
Meu sangue, meus desejos, meus alarmes,
Aves reinventando minhas mágoas.
VI
Como posso, Poeta,
Decifrar-te
Se és sempre a incerteza,
A dissonante
Face dupla do amor,
Sombria e clara?
E como maldizer
O sofrimento
Se ao martírio de amar
Me fiz constante,
Companheira da dor,
Irmã do engano?
Como posso, meu Poeta,
Nesta hora,
Desvendar em silêncio
Teus segredos
Inventando entrelinhas
Na escritura
Vacilante e indecisa
De teus dedos?
Como posso falar
Do desespero
Se a força do desejo
Em tua boca
É um delírio de pragas
E de beijos,
Se a angústia de perder
O que me mata
Faz-me a vida odiar
Mais do que a morte,
Pois que ao perder-te
Perco mais que a vida,
Perco o sonho, a memória,
A fantasia...
E este gosto de viver
Como quem morre.
VII
Caminhos, encruzilhadas,
Becos, vielas, quebradas,
Ladeiras que se despencam,
Caminhos que se bifurcam,
Beijo salobro das praias,
Beijo doce das nascentes,
Brejos, diques, atalaias...
Uma cidade é como gente
Que se alisa e maltrata,
Como uma fêmea deitada
Que o amante navega e sente...
Assim se fez de meu sangue
Esta cidade encantada,
Este burgo, esta alimária
Como uma fera empinada,
Esfinge que espia o Outro
Surgindo da encruzilhada...
Me devoras, te devoro,
No fim não restará nada.
Só a sombra na parede,
Somente o nó da laçada,
Ou melhor:
Resta o que resta,
A tua boca de brasa,
O sinal desta passagem
Como uma gesta tatuada.
Como um vendaval de açoite,
Vento sul de madrugada.
Resta a poesia nascendo
De tua língua danada,
Resta o poema crescendo
Como flor e como espada,
Resta o que resta, restolho,
Que de mim não restou nada
Além do verso e da mágoa.
Não me deixes ficar,
Não me abandones
Neste ninho de abutres,
Neste burgo
Que espreita o mar
De cima de seus montes
Como fera que espreita,
Ave de rapina,
Atenta aos inimigos
Que surgem no horizonte.
Não me deixes ficar,
Não espedaces
O que ainda resta de mim,
Não abandones
A quem te deu o corpo
E o pensamento
E a quem pisaste um dia
Como pisa o dono
O chão de seus alquebres.
Não me esqueças aqui.
Arrasta com teu fado
Este bicho inocente
Que fareja teu rastro,
Esta pobre coisa triste
Que existe porque existes.
Ai, não me deixes não.
Apaga nos espelhos
A imagem que criaste,
O sono e o pesadelo.
Horas de sofrimento,
Instantes de alegria,
O açoite da chibata
E o bálsamo dos dedos,
O caminho para as Índias
E o rastro para o abismo
A curva de meu seio
Em tua mão tremendo,
Minha boca em tua boca
As sílabas repetindo
Deste amor que me trouxe
Como dote e destino,
Horas de sofrimento,
Instantes de alegria.
II
... às vezes o teu amor
É como o mel que embriaga
Mas às vezes como açoite,
Me corta o corpo em pedaços
E então me olhas com raiva,
Me humilhas, me maltratas
E tua língua tem o frio
Fino corte das navalhas.
Tuas palavras são farpas,
Punhal que fere e que mata.
Me desprezas como coisa
Que se usa e se despreza,
Como uma negra fugida
Que o feitor persegue e caça.
Triste amor que me separa
De minha terra e de tudo,
Amor que engole os minutos
Como cobra engole o rabo,
Amor que aponta o caminho
Mas não dá o itinerário,
Amor que arma suas velas
Mas depois afunda o barco,
Amor que arde em meu corpo
Como círio nos altares,
Como lâmpada na parede,
Lanternas que o vento apaga.
III
Maria de Póvoas,
Maria dos Povos,
Maria, alma ardente
E as mãos tão vazias...
Que vida enganosa
A tua, Maria,
Tecendo as esperas,
Somando as partilhas,
O sexo em chamas
E a fala macia.
Maria ... a cinza na testa,
A oração na madrugada,
Maria, um lobo na espreita,
Um verso como cilada,
O amor é como veneno,
Como sombra na calçada,
Assombração que faz medo,
Maria, é só um poeta
Caminhando pela estrada
E a noite esconde o segredo
De tua pele alvoroçada,
De tua língua, de seus dedos
Somente um poeta
E a chama
Que te confunde e reclama
O ontem já tão distante...
Tantos dias, longos anos,
Maria, tanto abandono,
Somente o vento nas folhas
E no peito... desenganos.
IV
Eu sou o avesso do mundo,
Eu sou a terra
Que pisaste, cuspiste, que esmagaste,
A poder de ferraduras
E de açoite.
Eu sou a terra
A quem amaste tanto
Que caíste a sangrar
Em suas pedras
E onde rolaste, porco,
A charfurdar na lama.
Eu sou a flor escura
De teu sexo
Buscando outras canalhas,
Outros usos,
Por desejares demais
E além da conta...
Não pode o amor humano
Ser medido
Senão na intemperança,
Na luxúria?
Neste bornal de pústulas
Tamanhas
Que criaste a teu gozo
E meu martírio?
Ó amor feito de nada
O que desejo
É apenas o côncavo do escuro,
Apenas
Habitar os teus olhos como pássaro
Que habita nestas torres,
Nestes altos
Campanários que soam pela tarde
Quando a tarde é como um pano
Que desatas
Ao vento deste mar,
Apenas uma vela
Neste oceano sem fim onde navegas,
Ó navegante bêbado!
Sem norte, sem destino, sem chegada...
V
Esta cidade tão suja
E tão deserta,
Esta cidade que ladra
À minha porta
Como um cachorro faminto
E que desperta
A lembrança de coisas
Tão remotas...
Esta Cidade-abismo
Que devora
O amor, a esperança, a mocidade...
E converte a beleza que cantaste
Em cinza fria, em pó,
Em sombra, em nada.
Esta cidade que arde
Como um câncer,
Como um cautério na carne
E que arrebata
A nós todo futuro
E a mim divide a vida
Em dois pedaços.
Esta Cidade, meu amor,
E como um claustro
Onde te ausentas de ti,
Do teu cansaço
De inventar equilíbrio
Ao desacerto.
Esta Cidade é como
Um corpo aceso,
Ofegante de mágoa e de desejo
Colado à tua boca que blasfema
De amor, de impiedade
E que arrebenta
Os diques do silêncio
Nestas tardes
Em que galopam soltos pelas veias
Meu sangue, meus desejos, meus alarmes,
Aves reinventando minhas mágoas.
VI
Como posso, Poeta,
Decifrar-te
Se és sempre a incerteza,
A dissonante
Face dupla do amor,
Sombria e clara?
E como maldizer
O sofrimento
Se ao martírio de amar
Me fiz constante,
Companheira da dor,
Irmã do engano?
Como posso, meu Poeta,
Nesta hora,
Desvendar em silêncio
Teus segredos
Inventando entrelinhas
Na escritura
Vacilante e indecisa
De teus dedos?
Como posso falar
Do desespero
Se a força do desejo
Em tua boca
É um delírio de pragas
E de beijos,
Se a angústia de perder
O que me mata
Faz-me a vida odiar
Mais do que a morte,
Pois que ao perder-te
Perco mais que a vida,
Perco o sonho, a memória,
A fantasia...
E este gosto de viver
Como quem morre.
VII
Caminhos, encruzilhadas,
Becos, vielas, quebradas,
Ladeiras que se despencam,
Caminhos que se bifurcam,
Beijo salobro das praias,
Beijo doce das nascentes,
Brejos, diques, atalaias...
Uma cidade é como gente
Que se alisa e maltrata,
Como uma fêmea deitada
Que o amante navega e sente...
Assim se fez de meu sangue
Esta cidade encantada,
Este burgo, esta alimária
Como uma fera empinada,
Esfinge que espia o Outro
Surgindo da encruzilhada...
Me devoras, te devoro,
No fim não restará nada.
Só a sombra na parede,
Somente o nó da laçada,
Ou melhor:
Resta o que resta,
A tua boca de brasa,
O sinal desta passagem
Como uma gesta tatuada.
Como um vendaval de açoite,
Vento sul de madrugada.
Resta a poesia nascendo
De tua língua danada,
Resta o poema crescendo
Como flor e como espada,
Resta o que resta, restolho,
Que de mim não restou nada
Além do verso e da mágoa.
2 335
Natércia Freire
O Rosto que não tem Rosto
Eu tinha uns olhos de neve
no tempo do vendaval;
sob os olhos, flores geladas;
por sobre o espelho tremente
finas bagas de cristal.
O tempo do vendaval
governa ainda os meus dias.
E um arrais de neves frias
põe cansaços de metal
nas doces melancolias.
Nas noites de lume fosco
sobre a água corredia,
um rosto que não tem rosto
e que se esfuma no dia
preside ao branco cenário
de uma única harmonia ...
Vendaval de mãos tão frias:
deslaça-me estes cabelos,
abre-me os braços sem elos,
faz de mim águas sombrias,
sem canto de rouxinóis
nem folhagem protetora,
nem melodias de aurora,
nem mansos beijos de sóis.
Inunda-me estes ouvidos
de raízes muito velhas;
põe longe as festas vermelhas
que eu tive nos meus sentidos,
e de uma vez para sempre
livra-me toda de mim.
no tempo do vendaval;
sob os olhos, flores geladas;
por sobre o espelho tremente
finas bagas de cristal.
O tempo do vendaval
governa ainda os meus dias.
E um arrais de neves frias
põe cansaços de metal
nas doces melancolias.
Nas noites de lume fosco
sobre a água corredia,
um rosto que não tem rosto
e que se esfuma no dia
preside ao branco cenário
de uma única harmonia ...
Vendaval de mãos tão frias:
deslaça-me estes cabelos,
abre-me os braços sem elos,
faz de mim águas sombrias,
sem canto de rouxinóis
nem folhagem protetora,
nem melodias de aurora,
nem mansos beijos de sóis.
Inunda-me estes ouvidos
de raízes muito velhas;
põe longe as festas vermelhas
que eu tive nos meus sentidos,
e de uma vez para sempre
livra-me toda de mim.
1 282
Nelson Nunes
Clarice
Clara mente a se alimentar do plasma.
Plástica sensação a vibrar-me o corpo.
Paralelo traçado entre o perfeito e o sublime.
Cada palavra composta no fluxo do instante-já.
Entre mentes sobressai a ponta da estrela
a brilhar em girassóis da terra distante.
Sangue sangue sugo tinto vinho verde musgo
da veia aberta de teu coração de riso russo.
Ferido feliz perto do coração selvagem,
desperto na noite de um sonho acredoce.
E do parto sofrido das entranhas do tempo
parto pungido na direção de tua claridade.
Plástica sensação a vibrar-me o corpo.
Paralelo traçado entre o perfeito e o sublime.
Cada palavra composta no fluxo do instante-já.
Entre mentes sobressai a ponta da estrela
a brilhar em girassóis da terra distante.
Sangue sangue sugo tinto vinho verde musgo
da veia aberta de teu coração de riso russo.
Ferido feliz perto do coração selvagem,
desperto na noite de um sonho acredoce.
E do parto sofrido das entranhas do tempo
parto pungido na direção de tua claridade.
908
Nauro Machado
Apenas uma Coisa
Existe amor?
Palpável como o dia,
como a matéria com que é feito o objeto
chamado mesa, catedral ou baço
nitrindo em tantas coisas?
Como amar
esta incorpórea substância carnal,
este lampejo de chão no infinito?
Existe amor?
Palpável como a terra?
Debaixo ou sobre a terra, ainda carne,
algum finado saberá do amor,
essa chama votiva a brilhar ainda?
Amou Torquato a Maria? Amou deveras?
Digam-nos os anjos corcundas do além,
a ave agoureira ao céu crucificada,
o revoar de asas na papal coroa.
Amou Torquato a Maria, ainda carne?
Ama Maria a esse pó apenas nome
legado aos filhos como letra morta,
como moeda gasta em mão mendiga?
Chupando um dedo só, o amor se alimenta.
Palpável como o dia,
como a matéria com que é feito o objeto
chamado mesa, catedral ou baço
nitrindo em tantas coisas?
Como amar
esta incorpórea substância carnal,
este lampejo de chão no infinito?
Existe amor?
Palpável como a terra?
Debaixo ou sobre a terra, ainda carne,
algum finado saberá do amor,
essa chama votiva a brilhar ainda?
Amou Torquato a Maria? Amou deveras?
Digam-nos os anjos corcundas do além,
a ave agoureira ao céu crucificada,
o revoar de asas na papal coroa.
Amou Torquato a Maria, ainda carne?
Ama Maria a esse pó apenas nome
legado aos filhos como letra morta,
como moeda gasta em mão mendiga?
Chupando um dedo só, o amor se alimenta.
1 616
Natalício Barroso
De manhã eu sei que o sol vai morrer
De manhã eu sei que o sol vai morrer
depois das dezoito horas.
Mas não me apavoro.
Ele pode morrer antes, se quiser.
Há muito tempo que a minha vida é uma sucessão de expectativas.
Nenhuma delas realizada.
Por isso espero o sol morrer depois das dezoito horas
e ele morre.
Uma tarde, quando o sol era uma estrela cadente,
eu pedi para uma bailarina nascer no lugar da lua.
Mas não nasceu.
Primeiro porque nenhuma bailarina vai nascer no lugar da lua.
Depois porque, se nascesse, não seria uma bailarina.
Mas uma deusa. Eu ri. Não porque fosse impossível
uma deusa nascer no lugar da lua.
Mas porque as deusas não nascem mais.
Elas se afogaram nos Lusíadas e nunca mais emergiram.
Estão lá, no fundo de um poema,
presas às barbas e aos cabelos de Netuno.
Camões que o diga. Ele que teceu
os raios de luar no rosto de Netuno
e deu-lhe o nome de Vasco da Gama.
depois das dezoito horas.
Mas não me apavoro.
Ele pode morrer antes, se quiser.
Há muito tempo que a minha vida é uma sucessão de expectativas.
Nenhuma delas realizada.
Por isso espero o sol morrer depois das dezoito horas
e ele morre.
Uma tarde, quando o sol era uma estrela cadente,
eu pedi para uma bailarina nascer no lugar da lua.
Mas não nasceu.
Primeiro porque nenhuma bailarina vai nascer no lugar da lua.
Depois porque, se nascesse, não seria uma bailarina.
Mas uma deusa. Eu ri. Não porque fosse impossível
uma deusa nascer no lugar da lua.
Mas porque as deusas não nascem mais.
Elas se afogaram nos Lusíadas e nunca mais emergiram.
Estão lá, no fundo de um poema,
presas às barbas e aos cabelos de Netuno.
Camões que o diga. Ele que teceu
os raios de luar no rosto de Netuno
e deu-lhe o nome de Vasco da Gama.
1 016