Poemas neste tema
Alma
Majela Colares
Verde Pelúcia
A semente vislumbra em breve tempo
irromper contra a terra umedecida
no húmus da manhã adormecida...
germinar e crescer e dar-se ao vento.
Fecundar neste chão rijo e sedento,
(ledo aroma de chuva acontecida)
no mormaço da véspera, confluída...
germinar e crescer e dar-se ao vento.
Mas a nômade nuvem rara e única
é que traz embuçada em frágil túnica,
o sagrado segredo derradeiro,
que ao certo, lançará feito neblina
a viçosa semente então germina,
na manhã, a saber, de algum janeiro.
irromper contra a terra umedecida
no húmus da manhã adormecida...
germinar e crescer e dar-se ao vento.
Fecundar neste chão rijo e sedento,
(ledo aroma de chuva acontecida)
no mormaço da véspera, confluída...
germinar e crescer e dar-se ao vento.
Mas a nômade nuvem rara e única
é que traz embuçada em frágil túnica,
o sagrado segredo derradeiro,
que ao certo, lançará feito neblina
a viçosa semente então germina,
na manhã, a saber, de algum janeiro.
1 043
Manuel Lima
São Meus Estes Rios
São meus estes rios
que buscam caminho
rastejando entre luar e silêncio,
sombra e madrugada,
até ao seu fim marítimo.
A minha alma está neles,
líquida e sonora
como a água entre o quissange das pedras,
o anoitecer nas fontes.
Tenho rios vermelhos e quentes
na minha dimensão física,
rios remotos, remotos como eu.
que buscam caminho
rastejando entre luar e silêncio,
sombra e madrugada,
até ao seu fim marítimo.
A minha alma está neles,
líquida e sonora
como a água entre o quissange das pedras,
o anoitecer nas fontes.
Tenho rios vermelhos e quentes
na minha dimensão física,
rios remotos, remotos como eu.
1 685
Mário Hélio
34-IV(Vegeptil)
lâmina de carne
carne de aço
expássaro vidrarte
rasga esse deus
tira a tua parte
o mundo é teu
a morte é uma arte
domina a dor
sereia de corpo na mão
centauro de nuvens azuis
braços nas mãos
lábios no fóssil
seios de vidro
musicacústica
baobás barrocos
vegetanimal
almas de metal
armas de ar puro
bizâncio lustral
cavaleiro eleito
nas mãos o cavalo
traga esse deus
arte da arte
a morte é uma parte
o mundo é teu
carne de aço
expássaro vidrarte
rasga esse deus
tira a tua parte
o mundo é teu
a morte é uma arte
domina a dor
sereia de corpo na mão
centauro de nuvens azuis
braços nas mãos
lábios no fóssil
seios de vidro
musicacústica
baobás barrocos
vegetanimal
almas de metal
armas de ar puro
bizâncio lustral
cavaleiro eleito
nas mãos o cavalo
traga esse deus
arte da arte
a morte é uma parte
o mundo é teu
795
Maria A. Oliveira
Insônia
Limbo inclinado de coisas perdidas,
algum mistério gozoso em mutação,
crispado e semimorto.
Melhor assim. O sono não me serve
o sono é um céu vazio
despedaçando as asas da memória
e suas aves de sonho fazem medo.
A noite singra o silencio mais alto e mais calado
sem naufrágios
e um lento espanto se estende sob o tempo,
um tempo oculto, inteiro e inconsútil
sobre as migalhas do dia.
A túnica do tempo e uma forma de paz
arrasta sobre nos sua paz de vento
e embala os gatos de tudo que lhes falta,
devolve a solidão a seus espelhos
e cala aos poucos os ecos das imagens.
Das mãos vazias as asas
tocam de leve as águas da aventura.
algum mistério gozoso em mutação,
crispado e semimorto.
Melhor assim. O sono não me serve
o sono é um céu vazio
despedaçando as asas da memória
e suas aves de sonho fazem medo.
A noite singra o silencio mais alto e mais calado
sem naufrágios
e um lento espanto se estende sob o tempo,
um tempo oculto, inteiro e inconsútil
sobre as migalhas do dia.
A túnica do tempo e uma forma de paz
arrasta sobre nos sua paz de vento
e embala os gatos de tudo que lhes falta,
devolve a solidão a seus espelhos
e cala aos poucos os ecos das imagens.
Das mãos vazias as asas
tocam de leve as águas da aventura.
919
Majela Colares
Outono de Pedra
O sol posto
em cada pálpebra
um sol posto
os cílios não terão amanhãs?
- Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva
só morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
........
João Cabral de Mello Neto
CANTO-II
Pau de arara em marés de asfalto
matolão aposentado na esquina
becos & guetos
aboios perdidos na avenida paulista
abstrato versus concreto
o dia morto rente ao viaduto
lágrimas de ocasos
suicídio das horas
chuvas cerebrais
penumbra ao meio dia
tatuada no olhar.
CANTO-III
No divã
argamassa de cimento
vida quase morte
(o complexo das unhas...)
indelével memória
arredia hipnose
divagações:
naquela terra distante
muitos sonhos se evadiram
levados pela distância
de noites cosmopolitas
sob o império do sol
e barricadas de chuvas
muitas vidas sucumbiram
perante a gota de orvalho
naquela terra distante
na palma da mão sedenta
nos dedos dos meus avós
nos traçaram esse destino:
L
É
G
U
A
S
t
i
r
a
n
a
s
a fio
de caminho e de poeira
e de areia em vez de rio
- a vida sujigada entre os dentes.
CANTO-IV
E no entanto ainda salta
ritmada da garganta
verso/rima: poesia
no mormaço dos alpendres
sob a luz do candeeiro
ou da vela de 100 Watts
e se é lua e mês de abril
o repente é mais vibrante
se exalando no galope
caudaloso e repicado
da viola enamorada
do poeta e cantador:
quando digo das coisas do sertão
este solo que inunda o meu cantar
vem a lua silente me escutar
debruçada em perdida solidão
canto os vícios sublimes da paixão
aflorada no rosto feminino
também canto este povo e seu destino
a incerteza no tempo inconseqüente
refletido por alma, corpo e mente
saga-gênese do homem nordestino
o meu canto é de rima soletrada
dissidente da língua adormecida
na rudez da palavra convergida
nas pupilas do verso represada
é a voz, dessa gente, entresonhada
entoando um galope à beira-mar
vem de longe segredos desvendar
o meu canto é enfim de vida e morte
palmilhado no peito livre e forte
do poeta que sabe improvisar.
CANTO-V
Muros sombrios, limites
fantasmas de coronéis
no subsolo gargalham
choramingam velhas mágoas
na memória do porão
sopra um vento frio e brando
com um cheiro melancólico
condensando nas narinas
pesadelos ancestrais
(muita terra, poucos donos
de tão longe este refrão)
no porão, calada História:
espinho de xiquexique
atravessado na artéria
cravado no calcanhar
medula-farpa da História
transpassado sobre a pele
ressecada pelo sol
de sangue-suor tingida
espichada na caatinga
espectro de rija sombra
consumido no serrote
esculpido pela goiva
no repuxo de aroeira
estaca/roseta/arame
entrecasca do pau-darco
dura imagem pressentida
moldurando o latifúndio
a flor do mandacaru
estampa um sorriso largo
brotado por entre espinhos
na solidão dessas tardes
qual homem sofrido e pasmo
que se contenta com o nada
nessa miséria de morte
no rude rosto de cáctus
a seca consome léguas
retirantes pés ao pó
resumidas nas estradas
do silêncio ruminado
suplicantes romarias
clamando nuvens errantes
em nome de Deus cavalgam
palavras, desilusões
a chuva vem afagar
o sertão com água santa
afaga também os lábios
ressequidos, a garganta
um brilho reluz nos olhos
transbordantes de esperança
de ver o grão desolado
vingar no magro torrão
a terra seca ou molhada
pelo sol mais causticante
ou pela chuva mais densa
é sempre esta mesma terra
ou tão molhada ou tão seca
que não mata a seca-fome
da mente sã e semi-árida
nesta escassez e descaso.
CANTO-VI
Essa História
longa e árdua
vem escrita
vem traçada
pela tinta
vil e trágica
rascunhando
noutras linhas
transcrevendo
noutras páginas
falsas letras
desbotadas
no silêncio
das palavras.
CANTO-VII
Áspero corpo
qual pedra granizo
sôfrega alma
de sonhos marcada
as mãos para o céu
louvando a Deus
os pés sobre o chão
entre o tudo e o nada
a vista acesa
buscando horizontes
ofusca no cinza
dos olhos calados
singrando a vida
embora inerte
atentos momentos
em dias fadados
partido do ontem
sem rumo e sem medo
veredas seguidas
acasos remotos
desertos cortados
de fome e de sede
galgando na pedra
futuro ignoto
rastro incansável
o sol feito abrigo
silhueta sinistra
alçando o infinito
geométrica figura
sangrando o ocaso
tempo infecundo
instante proscrito
o sangue que corre
em veias opacas
vias serenas
oculta segredos
do tardo momento
esculpido na rocha
do efêmero viver
de ânsia e degredo.
CANTO-VIII
O cantador repentista
e peregrino da viola
conhece o rumor dos ventos:
inesquecíveis memórias
marcam homens e destinos
a saga dos nordestinos
entrelaça a mesma História
na parca crença irrisória
este caos mais se afigura
exposta em tosca moldura
na forma: fome e miséria
o tênue pulsar da artéria
esvai-se na desventura
nos três mundos consagrados
divisas separam vidas
opressoras, oprimidas,
limites bem demarcados
em marcos configurados
simbólica ideologia
predomina e contagia
de vício a humana gente
falsa idéia incoerente
de mortal hipocrisia.
poesia em tempo de fome
fome em tempo de poesia
.............
nomeio o nome
nomeio o homem
no meio a fome
nomeio a fome
Haroldo de Campos
CANTO-IX
Unhas encravadas
fixadas
fichadas
no esmalte-sangue
do tijolo
subindo no asco da noite
possantes\imponentes\frias
colunas verticais
subindo no asco da noite
frágeis\humildes\tensas
colunas cervicais
andaimeandaime
\andaime
passaporte
para a vida extraida dos músculos
passaporte
para a morte fincada nos calos
antagônicos limites
sobem e descem
nas fibras de aço
nas fibras de nervos
CANTO-X
A colher alimenta
rica estrutura
substâncias imprescindíveis
para crescer
breve
para crescer
firme
para crescer
lorde
para crescer
nobre
para crescer
crescer para
pára crescer
cimento\ferro
pedra
tijolo
pedra\tijolo
ferro
cimento
tijolo
pedra
cimento\ferro
cimento
ferro
tijolo\pedra
homens\fome\homens
vida
poder\mais-valia
a l v e n a r i a
CANTO-XI
a
em cada pálpebra
um sol posto
os cílios não terão amanhãs?
- Desde que estou retirando
só a morte vejo ativa,
só a morte deparei
e às vezes até festiva
só morte tem encontrado
quem pensava encontrar vida,
........
João Cabral de Mello Neto
CANTO-II
Pau de arara em marés de asfalto
matolão aposentado na esquina
becos & guetos
aboios perdidos na avenida paulista
abstrato versus concreto
o dia morto rente ao viaduto
lágrimas de ocasos
suicídio das horas
chuvas cerebrais
penumbra ao meio dia
tatuada no olhar.
CANTO-III
No divã
argamassa de cimento
vida quase morte
(o complexo das unhas...)
indelével memória
arredia hipnose
divagações:
naquela terra distante
muitos sonhos se evadiram
levados pela distância
de noites cosmopolitas
sob o império do sol
e barricadas de chuvas
muitas vidas sucumbiram
perante a gota de orvalho
naquela terra distante
na palma da mão sedenta
nos dedos dos meus avós
nos traçaram esse destino:
L
É
G
U
A
S
t
i
r
a
n
a
s
a fio
de caminho e de poeira
e de areia em vez de rio
- a vida sujigada entre os dentes.
CANTO-IV
E no entanto ainda salta
ritmada da garganta
verso/rima: poesia
no mormaço dos alpendres
sob a luz do candeeiro
ou da vela de 100 Watts
e se é lua e mês de abril
o repente é mais vibrante
se exalando no galope
caudaloso e repicado
da viola enamorada
do poeta e cantador:
quando digo das coisas do sertão
este solo que inunda o meu cantar
vem a lua silente me escutar
debruçada em perdida solidão
canto os vícios sublimes da paixão
aflorada no rosto feminino
também canto este povo e seu destino
a incerteza no tempo inconseqüente
refletido por alma, corpo e mente
saga-gênese do homem nordestino
o meu canto é de rima soletrada
dissidente da língua adormecida
na rudez da palavra convergida
nas pupilas do verso represada
é a voz, dessa gente, entresonhada
entoando um galope à beira-mar
vem de longe segredos desvendar
o meu canto é enfim de vida e morte
palmilhado no peito livre e forte
do poeta que sabe improvisar.
CANTO-V
Muros sombrios, limites
fantasmas de coronéis
no subsolo gargalham
choramingam velhas mágoas
na memória do porão
sopra um vento frio e brando
com um cheiro melancólico
condensando nas narinas
pesadelos ancestrais
(muita terra, poucos donos
de tão longe este refrão)
no porão, calada História:
espinho de xiquexique
atravessado na artéria
cravado no calcanhar
medula-farpa da História
transpassado sobre a pele
ressecada pelo sol
de sangue-suor tingida
espichada na caatinga
espectro de rija sombra
consumido no serrote
esculpido pela goiva
no repuxo de aroeira
estaca/roseta/arame
entrecasca do pau-darco
dura imagem pressentida
moldurando o latifúndio
a flor do mandacaru
estampa um sorriso largo
brotado por entre espinhos
na solidão dessas tardes
qual homem sofrido e pasmo
que se contenta com o nada
nessa miséria de morte
no rude rosto de cáctus
a seca consome léguas
retirantes pés ao pó
resumidas nas estradas
do silêncio ruminado
suplicantes romarias
clamando nuvens errantes
em nome de Deus cavalgam
palavras, desilusões
a chuva vem afagar
o sertão com água santa
afaga também os lábios
ressequidos, a garganta
um brilho reluz nos olhos
transbordantes de esperança
de ver o grão desolado
vingar no magro torrão
a terra seca ou molhada
pelo sol mais causticante
ou pela chuva mais densa
é sempre esta mesma terra
ou tão molhada ou tão seca
que não mata a seca-fome
da mente sã e semi-árida
nesta escassez e descaso.
CANTO-VI
Essa História
longa e árdua
vem escrita
vem traçada
pela tinta
vil e trágica
rascunhando
noutras linhas
transcrevendo
noutras páginas
falsas letras
desbotadas
no silêncio
das palavras.
CANTO-VII
Áspero corpo
qual pedra granizo
sôfrega alma
de sonhos marcada
as mãos para o céu
louvando a Deus
os pés sobre o chão
entre o tudo e o nada
a vista acesa
buscando horizontes
ofusca no cinza
dos olhos calados
singrando a vida
embora inerte
atentos momentos
em dias fadados
partido do ontem
sem rumo e sem medo
veredas seguidas
acasos remotos
desertos cortados
de fome e de sede
galgando na pedra
futuro ignoto
rastro incansável
o sol feito abrigo
silhueta sinistra
alçando o infinito
geométrica figura
sangrando o ocaso
tempo infecundo
instante proscrito
o sangue que corre
em veias opacas
vias serenas
oculta segredos
do tardo momento
esculpido na rocha
do efêmero viver
de ânsia e degredo.
CANTO-VIII
O cantador repentista
e peregrino da viola
conhece o rumor dos ventos:
inesquecíveis memórias
marcam homens e destinos
a saga dos nordestinos
entrelaça a mesma História
na parca crença irrisória
este caos mais se afigura
exposta em tosca moldura
na forma: fome e miséria
o tênue pulsar da artéria
esvai-se na desventura
nos três mundos consagrados
divisas separam vidas
opressoras, oprimidas,
limites bem demarcados
em marcos configurados
simbólica ideologia
predomina e contagia
de vício a humana gente
falsa idéia incoerente
de mortal hipocrisia.
poesia em tempo de fome
fome em tempo de poesia
.............
nomeio o nome
nomeio o homem
no meio a fome
nomeio a fome
Haroldo de Campos
CANTO-IX
Unhas encravadas
fixadas
fichadas
no esmalte-sangue
do tijolo
subindo no asco da noite
possantes\imponentes\frias
colunas verticais
subindo no asco da noite
frágeis\humildes\tensas
colunas cervicais
andaimeandaime
\andaime
passaporte
para a vida extraida dos músculos
passaporte
para a morte fincada nos calos
antagônicos limites
sobem e descem
nas fibras de aço
nas fibras de nervos
CANTO-X
A colher alimenta
rica estrutura
substâncias imprescindíveis
para crescer
breve
para crescer
firme
para crescer
lorde
para crescer
nobre
para crescer
crescer para
pára crescer
cimento\ferro
pedra
tijolo
pedra\tijolo
ferro
cimento
tijolo
pedra
cimento\ferro
cimento
ferro
tijolo\pedra
homens\fome\homens
vida
poder\mais-valia
a l v e n a r i a
CANTO-XI
a
1 059
Mário Hélio
46-III-(Feitura)
criança magra e feia
homem brabo e feio
mulher velha e feia
criança inesperança
homem sem ânsia
mulher sem crença
e tudo horrendo e feio
alma feia deus feio
homem brabo e feio
mulher velha e feia
criança inesperança
homem sem ânsia
mulher sem crença
e tudo horrendo e feio
alma feia deus feio
1 076
Marcelo Almeida de Oliveira
Física insana
Verdade ou mentira,
dualidade onda-partícula;
cruel realidade,
relatividade da felicidade.
Se Erwin soubesse
que quando anoitece
seu gato zumbi anda
pra debaixo de minha cama...
Incertezas quânticas
em minhalma sub-atômica.
dualidade onda-partícula;
cruel realidade,
relatividade da felicidade.
Se Erwin soubesse
que quando anoitece
seu gato zumbi anda
pra debaixo de minha cama...
Incertezas quânticas
em minhalma sub-atômica.
859
Majela Colares
A Sombra da Mão
Ferro
fogo
nau
e firmamento...
mentes de enxofre
olhos de laser
anjos de aço circundam a órbita
pairam no ar
bailam no ar
o céu é cinza
os homens, loucos, caem vorazmente
decepcionados com a sua própria crença
desesperados
recorrem, quem sabe, a Shakespeare:
Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio,
do que pode sonhar a nossa vã filosofia.
É tarde.
A humanidade implode graças a sua duvidosa crença
o último grito
(último lamento)
não chega a transcender à sua debilitada existência
não vai além dos seus rudimentares tímpanos
jamais chegará
ao aguçado ouvido do universo.
É tarde.
Muito tarde.
Coisa nenhuma subsiste,
bem dizia Lucrécio,
mas tudo flui.
Uma gota de orvalho
cai cristalina e lentamente
no eterno e abissal azul
a terra move-se
séculos recomeçam...
anjos de aço,
pairam no ar,
bailam no ar...
quousque tanden?
Quousque tanden?
fogo
nau
e firmamento...
mentes de enxofre
olhos de laser
anjos de aço circundam a órbita
pairam no ar
bailam no ar
o céu é cinza
os homens, loucos, caem vorazmente
decepcionados com a sua própria crença
desesperados
recorrem, quem sabe, a Shakespeare:
Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio,
do que pode sonhar a nossa vã filosofia.
É tarde.
A humanidade implode graças a sua duvidosa crença
o último grito
(último lamento)
não chega a transcender à sua debilitada existência
não vai além dos seus rudimentares tímpanos
jamais chegará
ao aguçado ouvido do universo.
É tarde.
Muito tarde.
Coisa nenhuma subsiste,
bem dizia Lucrécio,
mas tudo flui.
Uma gota de orvalho
cai cristalina e lentamente
no eterno e abissal azul
a terra move-se
séculos recomeçam...
anjos de aço,
pairam no ar,
bailam no ar...
quousque tanden?
Quousque tanden?
893
Marcelo Almeida de Oliveira
Só mais um
Mais um dia de concreto;
passos certos de quem tem destino;
olhos vão ao chão entre pés e sombras
que não ouvem a tempestade que ronda
na cabeça dos que são como eu,
ossos, carne e dor,
exalando palavras de amor
neste mundo que já se esqueceu
de quão bonito e perfeito poderia ser.
Mas no momento tenho que parar,
o sofrer agora é fadiga, e me consome.
Só nos braços dela encontro a cura.
Só os beijos dela podem me refazer.
Em passos tristes sigo
ao ver o irmão
que a fome roubou o orgulho;
por ele e por outros eu juro
que em breve retornarei mais forte;
mesmo que ainda me fira, ainda me corte,
deixar meu amor dormindo, no escuro,
depois de tudo...
Da esquina chegam notícias distantes,
do irmão que teve a paz tomada pela guerra;
que nem o silêncio nem a distância me deixem esquecer,
Mesmo depois de ser amado por ela,
muito perto agora, ouço você
me abre a porta e um sorriso
que me esquenta em paz e alegria;
a tempestade se vai salgada em teu colo;
agora sonho, sonho de seria, e será... um dia.
passos certos de quem tem destino;
olhos vão ao chão entre pés e sombras
que não ouvem a tempestade que ronda
na cabeça dos que são como eu,
ossos, carne e dor,
exalando palavras de amor
neste mundo que já se esqueceu
de quão bonito e perfeito poderia ser.
Mas no momento tenho que parar,
o sofrer agora é fadiga, e me consome.
Só nos braços dela encontro a cura.
Só os beijos dela podem me refazer.
Em passos tristes sigo
ao ver o irmão
que a fome roubou o orgulho;
por ele e por outros eu juro
que em breve retornarei mais forte;
mesmo que ainda me fira, ainda me corte,
deixar meu amor dormindo, no escuro,
depois de tudo...
Da esquina chegam notícias distantes,
do irmão que teve a paz tomada pela guerra;
que nem o silêncio nem a distância me deixem esquecer,
Mesmo depois de ser amado por ela,
muito perto agora, ouço você
me abre a porta e um sorriso
que me esquenta em paz e alegria;
a tempestade se vai salgada em teu colo;
agora sonho, sonho de seria, e será... um dia.
800
Marcelo Almeida de Oliveira
Adormecendo
O cansaço é tanto
que as lágrimas saem da pena
em camera lenta.
.
.
.
Tudo é turvo
até o estorvo.
.
.
.
Não tenho mais forças
para fingir.
que as lágrimas saem da pena
em camera lenta.
.
.
.
Tudo é turvo
até o estorvo.
.
.
.
Não tenho mais forças
para fingir.
925
Majela Colares
Vertigem
Já se ouviam, de estrelas, rebramidos
entre as sombras da noite camuflada.
Rumores de horas mortas... tempos idos.
- Era a tarde batendo em retirada.
Lábios mudos fendidos pelos gestos...
pálida boca (a noite escancarada).
Consumidos olhares, quase restos.
- Era a tarde batendo em retirada.
A voz frágil, o braço já pendia.
Vago, inerte, rumando pela estrada,
raios cegos o sol oferecia.
- Era a tarde batendo em retirada.
Os ecos projetados no futuro.
Vã imagem, figura rebuscada.
Na linha do horizonte um traço escuro.
- Era a tarde batendo em retirada.
As palavras... a frase repetida,
denso texto, linguagem retratada.
Verso e verbo, no entanto, morte e vida.
Sempre a tarde batendo em retirada.
As medidas da mão, agora ausente,
conduzidas para hora anunciada.
A vertigem, por fim, não se pressente?
Quando é tarde batendo em retirada.
entre as sombras da noite camuflada.
Rumores de horas mortas... tempos idos.
- Era a tarde batendo em retirada.
Lábios mudos fendidos pelos gestos...
pálida boca (a noite escancarada).
Consumidos olhares, quase restos.
- Era a tarde batendo em retirada.
A voz frágil, o braço já pendia.
Vago, inerte, rumando pela estrada,
raios cegos o sol oferecia.
- Era a tarde batendo em retirada.
Os ecos projetados no futuro.
Vã imagem, figura rebuscada.
Na linha do horizonte um traço escuro.
- Era a tarde batendo em retirada.
As palavras... a frase repetida,
denso texto, linguagem retratada.
Verso e verbo, no entanto, morte e vida.
Sempre a tarde batendo em retirada.
As medidas da mão, agora ausente,
conduzidas para hora anunciada.
A vertigem, por fim, não se pressente?
Quando é tarde batendo em retirada.
1 014
Majela Colares
Soneto Para uma Estação
Estas sombras antigas de poente
guardam arcos de sol - dias de outono -
desfolhados na noite, nunca ausente,
quando as horas bocejam voz de sono.
São instantes maduros de nascente
na surpresa incessante do mês nono,
concebidos em gestos, mão silente,
quando as horas bocejam cor de sono.
Entre os cílios, o mundo em movimento,
sob as asas dos olhos morre um vento
para não ser sequer restos de sono.
Mas ao leste dos lábios pousa a aurora
fogem sombras antigas, vão-se embora...
surgem arcos de sol - dias de outono.
guardam arcos de sol - dias de outono -
desfolhados na noite, nunca ausente,
quando as horas bocejam voz de sono.
São instantes maduros de nascente
na surpresa incessante do mês nono,
concebidos em gestos, mão silente,
quando as horas bocejam cor de sono.
Entre os cílios, o mundo em movimento,
sob as asas dos olhos morre um vento
para não ser sequer restos de sono.
Mas ao leste dos lábios pousa a aurora
fogem sombras antigas, vão-se embora...
surgem arcos de sol - dias de outono.
978
Marcelo Almeida de Oliveira
Podem tentar, mas o homem não cabe
Dr. Hermínio?
O melhor mindinhologista que conheço.
Francisco?
O melhor mecânico de corcel 73.
Afonso?
A melhor feijoada da cidade.
Manuel?
Campeão estadual de pinball.
Alfredo?
Pintava peixes como ninguém.
Ford?
Último modelo.
Da Vinci?
Desculpa, tô sem dinheiro.
Vida, competição.
Vence a menor alma.
O melhor mindinhologista que conheço.
Francisco?
O melhor mecânico de corcel 73.
Afonso?
A melhor feijoada da cidade.
Manuel?
Campeão estadual de pinball.
Alfredo?
Pintava peixes como ninguém.
Ford?
Último modelo.
Da Vinci?
Desculpa, tô sem dinheiro.
Vida, competição.
Vence a menor alma.
733
Olympia Mahu
Inspiração
Preciso Estar comigo mesma
Me encontrar comigo para por tudo em pratos limpos novamente
Preciso encontrar o tempo que me falta
Que há muito busco, mas não procurei intensamente
Talvez por isso e aridez, a inércia, a inconstância...
Como fazer para te encontrar e te deixar comigo?
Não preciso de nada... de luz, de tempo, de paixão...
Preciso apenas encontrar-te.
Por favor, fica comigo...
Eu nada tenho a te prometer...
Apenas fica...
É tudo do que eu preciso para ser firme.
Quando estás comigo, Sou criativa, altiva, brava
Só de pensar em ti já estou repleta.
Estou livre novamente, gigante...
Feliz por te encontrar... inspiração!
Me encontrar comigo para por tudo em pratos limpos novamente
Preciso encontrar o tempo que me falta
Que há muito busco, mas não procurei intensamente
Talvez por isso e aridez, a inércia, a inconstância...
Como fazer para te encontrar e te deixar comigo?
Não preciso de nada... de luz, de tempo, de paixão...
Preciso apenas encontrar-te.
Por favor, fica comigo...
Eu nada tenho a te prometer...
Apenas fica...
É tudo do que eu preciso para ser firme.
Quando estás comigo, Sou criativa, altiva, brava
Só de pensar em ti já estou repleta.
Estou livre novamente, gigante...
Feliz por te encontrar... inspiração!
906
Majela Colares
O Soldador de Palavras
Fazer poemas é soldar palavras,
fundir o signo - literal sentido -
do verbo frio, transformado em chama,
aceso verso, pensado e medido
sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema,
fuga do verbo não mais definido.
Criado o texto, com idéia e tinta,
forma e figura na linguagem extinta,
quebrando regras de comuns fonemas.
A idéia é fogo. Fogo... o verbo aquece.
A tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas e, por fim, poemas.
fundir o signo - literal sentido -
do verbo frio, transformado em chama,
aceso verso, pensado e medido
sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema,
fuga do verbo não mais definido.
Criado o texto, com idéia e tinta,
forma e figura na linguagem extinta,
quebrando regras de comuns fonemas.
A idéia é fogo. Fogo... o verbo aquece.
A tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas e, por fim, poemas.
2 137
Mário Hélio
36-VI-(Litografia)
que voz sopra os sons
nessas horas sincopadas
no silêncio dos homens?
que voz assoprará
o assombro
o sombrio ressumbro
os sobrolhos selvagens
da solidão?
e sobrará um silvo
seda e sono solto.
nessas horas sincopadas
no silêncio dos homens?
que voz assoprará
o assombro
o sombrio ressumbro
os sobrolhos selvagens
da solidão?
e sobrará um silvo
seda e sono solto.
918
Majela Colares
O Pastor e Sua Aldeia
a Altino Caixeta de Castro
Eu creio que a eternidade nasceu na aldeia
Lucian Blaga
O ladrido infinito de um cão morto
nas vozes de outros cães é repetido
muito além, incessante ao nosso ouvido
mais além, muito além da voz de um cão
trago a lua no bolso e o sol na mão
e um rebanho de cabras e de estrelas
no desejo incomum de sempre tê-las
na distante lembrança de uma aldeia
pervagando a memória das areias
onde estrelas e cabras pastam sonhos
trago à sombra de alpendres breve sono
pressentindo o rangido da tramela
despertado ao contorno da janela
no silêncio imortal da noite fria
canta o galo, outra vez, e denuncia
(seu cantar tem a cor da lua cheia)
o prenúncio de um dia em outro dia
da eterna solidão - eterna aldeia.
Eu creio que a eternidade nasceu na aldeia
Lucian Blaga
O ladrido infinito de um cão morto
nas vozes de outros cães é repetido
muito além, incessante ao nosso ouvido
mais além, muito além da voz de um cão
trago a lua no bolso e o sol na mão
e um rebanho de cabras e de estrelas
no desejo incomum de sempre tê-las
na distante lembrança de uma aldeia
pervagando a memória das areias
onde estrelas e cabras pastam sonhos
trago à sombra de alpendres breve sono
pressentindo o rangido da tramela
despertado ao contorno da janela
no silêncio imortal da noite fria
canta o galo, outra vez, e denuncia
(seu cantar tem a cor da lua cheia)
o prenúncio de um dia em outro dia
da eterna solidão - eterna aldeia.
1 047
Mário Hélio
35-V-(Esparsa)
desculpa meu edgar poe
mas talvez a tua dor
não tenha sensibilizado os nossos corações
meu caro edgar
mas ensinam muito
a quem tem mente e a quem não tem também
é pela sede de alguma coisa a mais
que buscamos refúgio no verso
só por isso
meu raro edgar
é para regar as nossas almas
para preencher velhos esparsos
somos os que pintam a morte
o medo de muitos
a dor de muitos
tamanhos
confusos horários
daqui à tua terra
à eternidade
até a eternidade
espero que não haja barreiras
desculpe meu claro edgar
mas esqueci que se eu errasse o caminho
só ouviria um longínquo pavoroso
silêncio
não despertem quem pensa
mas talvez a tua dor
não tenha sensibilizado os nossos corações
meu caro edgar
mas ensinam muito
a quem tem mente e a quem não tem também
é pela sede de alguma coisa a mais
que buscamos refúgio no verso
só por isso
meu raro edgar
é para regar as nossas almas
para preencher velhos esparsos
somos os que pintam a morte
o medo de muitos
a dor de muitos
tamanhos
confusos horários
daqui à tua terra
à eternidade
até a eternidade
espero que não haja barreiras
desculpe meu claro edgar
mas esqueci que se eu errasse o caminho
só ouviria um longínquo pavoroso
silêncio
não despertem quem pensa
793
Marcelo Almeida de Oliveira
Dom quixote I
Se demônios te atormentam,
em casa ou na rua,
quando sol ou quando lua,
olhe para qualquer lado e me veja,
espelho de carne;
escute os murmuros que o vento carrega e me ouça,
eco distante;
certeza que desta vez não é sua cabeça
que doente te prega peças;
esqueça a paranóia e perceba
que louco, você me é,
louco, você sou eu,
louco, você e eu.
Penso naquilo que você pensa, mas não fala;
temo aquilo que você teme, mas não demonstra;
sei das flores na sua cabeça, mas você não as mostra;
sei que sua vontade é gritar, então apenas o faça,
como tiro de fuzil,
alívio como nunca sentiu,
na língua, baioneta,
como lança, uma caneta;
espantando os demônios...
guerreiro, você sou eu,
guerreiro, você e eu.
em casa ou na rua,
quando sol ou quando lua,
olhe para qualquer lado e me veja,
espelho de carne;
escute os murmuros que o vento carrega e me ouça,
eco distante;
certeza que desta vez não é sua cabeça
que doente te prega peças;
esqueça a paranóia e perceba
que louco, você me é,
louco, você sou eu,
louco, você e eu.
Penso naquilo que você pensa, mas não fala;
temo aquilo que você teme, mas não demonstra;
sei das flores na sua cabeça, mas você não as mostra;
sei que sua vontade é gritar, então apenas o faça,
como tiro de fuzil,
alívio como nunca sentiu,
na língua, baioneta,
como lança, uma caneta;
espantando os demônios...
guerreiro, você sou eu,
guerreiro, você e eu.
940
Marcelo Almeida de Oliveira
Paradoxo racional
Determino universo preciso;
material, natural;
resumo, árido número;
amor químico, hormonal;
sem mágica, mito, ou rito;
nem + , nem - ; só = .
E da razão nasce o instinto:
para que respiro, afinal?
certa, reta, vem a resposta:
para satisfazer o animal.
Logo, amo...
rio...
choro...
sinto...
sentir por sentir,
sem razão...
Ah! Tudo é tão lógico!
material, natural;
resumo, árido número;
amor químico, hormonal;
sem mágica, mito, ou rito;
nem + , nem - ; só = .
E da razão nasce o instinto:
para que respiro, afinal?
certa, reta, vem a resposta:
para satisfazer o animal.
Logo, amo...
rio...
choro...
sinto...
sentir por sentir,
sem razão...
Ah! Tudo é tão lógico!
725
Mário Hélio
13-III(Quid Novi)
a velhice das plantas
acostumadas a serem o que são
sem perguntarem o que são?
quid novi?
o ovni que sobrevvvvou rapidamente a mente
da cidade sumiu depois com o vazio?
quid novi?
o velho sempre argumentar-se que há de novo?
a velha olhada no espelho
depois estilhaçado e volvido ao que era antes
de ser?
quid novi? a morte aditiva? a vida minutiva?
quid novi? a velocidade? a passivilidade? as idades
todas?
e depois de tantotempo perdido em procurar ven-
cer o tempo constatar que não há tempo nunca houve
quid novi?
a morte?
morremos todo dia e não percebemos
eu não sei porque nos preocupamos
tu não existes insistes
ecoas coas asas ásperas do nada
entretanto sentimorste presente
irreconhecível irrepreensível.
não falas com ninguém, te ouvimos.
quem dera fôssemos eli-
eli-
minando tudo
e não restasse morte
pra manchar ávida a vida.
quid novi?
nada há,
e passa a existir
ao se negar.
acostumadas a serem o que são
sem perguntarem o que são?
quid novi?
o ovni que sobrevvvvou rapidamente a mente
da cidade sumiu depois com o vazio?
quid novi?
o velho sempre argumentar-se que há de novo?
a velha olhada no espelho
depois estilhaçado e volvido ao que era antes
de ser?
quid novi? a morte aditiva? a vida minutiva?
quid novi? a velocidade? a passivilidade? as idades
todas?
e depois de tantotempo perdido em procurar ven-
cer o tempo constatar que não há tempo nunca houve
quid novi?
a morte?
morremos todo dia e não percebemos
eu não sei porque nos preocupamos
tu não existes insistes
ecoas coas asas ásperas do nada
entretanto sentimorste presente
irreconhecível irrepreensível.
não falas com ninguém, te ouvimos.
quem dera fôssemos eli-
eli-
minando tudo
e não restasse morte
pra manchar ávida a vida.
quid novi?
nada há,
e passa a existir
ao se negar.
878
Mário Hélio
22-II(Poema para ayer)
onde havia teus olhos
grandes e dois
uma lâmpada de neon
fonte estranha e incompreendida
ponte achada e para sempre perdida
como um matagal de idéias incontaminadas
por isso incompreendidas
por um grito maior que a própria voz
por isso inaudível
por um amor sem nomes nem partidos
por isso tolo e desinteressante
por um grande mistério claro e simples
por isso profundo e sem sentido
grandes e dois
uma lâmpada de neon
fonte estranha e incompreendida
ponte achada e para sempre perdida
como um matagal de idéias incontaminadas
por isso incompreendidas
por um grito maior que a própria voz
por isso inaudível
por um amor sem nomes nem partidos
por isso tolo e desinteressante
por um grande mistério claro e simples
por isso profundo e sem sentido
588
Mário Hélio
26-VI(Expássaro)
ícaro sem asa
pássaro sem casa
trovador
trova
dor
a
caro em as
ássaro em asa
rovador
rova
or
a v
aro ma
ssaro m sa
ovador
ova
r
a vi
ros
saro as
vador
va
a v id
o s
aro s
a dor
a
a v id a
o
aro
a or
a vida a
a
a
a vida a v
a
a vida a vi
a vida: ávida ave do ar
pássaro sem casa
trovador
trova
dor
a
caro em as
ássaro em asa
rovador
rova
or
a v
aro ma
ssaro m sa
ovador
ova
r
a vi
ros
saro as
vador
va
a v id
o s
aro s
a dor
a
a v id a
o
aro
a or
a vida a
a
a
a vida a v
a
a vida a vi
a vida: ávida ave do ar
909
Mário Hélio
9-IX (Odores)
pobres flores que fiam
filhas finitas
e se des pet alam
olhando o po m ar
e em enormes tristezas se calam
e resv alam as pét alas
suprindo a fome do oceano de ar.
flores selvagens que se desfloram
e se confragem frágeis imperfeitas
vestidas, sorvidas, vertidas,
em pouca vida e muita ilusão,
e não repousam nunca, não descansam
o cansaço de há séculos serem sempre vivas
esquivas, cativas, passivas,
e dançam em delírio, dançam
esquecendo que são flores -- fenescem
melhor do que enterarrarassementes
dispersá-las à tarde
despertálas é tarde
já se transformaram em cardos
na tarde longa e oblonga por trás dos rochedos.
eu não canto a saudade, desconheço o degredo.
o meu sonho é um segredo improfíquo que segrego.
podres odres das flores que nascem pra definhar,
pobres dos homens que vivem para sonhar.
filhas finitas
e se des pet alam
olhando o po m ar
e em enormes tristezas se calam
e resv alam as pét alas
suprindo a fome do oceano de ar.
flores selvagens que se desfloram
e se confragem frágeis imperfeitas
vestidas, sorvidas, vertidas,
em pouca vida e muita ilusão,
e não repousam nunca, não descansam
o cansaço de há séculos serem sempre vivas
esquivas, cativas, passivas,
e dançam em delírio, dançam
esquecendo que são flores -- fenescem
melhor do que enterarrarassementes
dispersá-las à tarde
despertálas é tarde
já se transformaram em cardos
na tarde longa e oblonga por trás dos rochedos.
eu não canto a saudade, desconheço o degredo.
o meu sonho é um segredo improfíquo que segrego.
podres odres das flores que nascem pra definhar,
pobres dos homens que vivem para sonhar.
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