Poemas neste tema
Alma
Mário Hélio
5 - V (Cais sombrio)
eu te reparo nos olhos:
possuem um brilho intensamente mágico
e trágico
eu amo tua pele, cada traço,
cab:elos do mais fino fio
que desfio impulsivamente
tragicomicamente
em toda a extensão do teu ser
porque és maior do que a imaginação.
possuem um brilho intensamente mágico
e trágico
eu amo tua pele, cada traço,
cab:elos do mais fino fio
que desfio impulsivamente
tragicomicamente
em toda a extensão do teu ser
porque és maior do que a imaginação.
897
Mário Hélio
19-IX(Impulso)
o algo hediondo que as mulheres abominavam
era a pureza
oculta e incolor.
tudo cede um certo impulso ao nada,
todas as palavrasestãosoltas
por isso seguindo um autoimpulso peço-te
que não anoiteças mais
-- a última vez não me senti feliz
em ver-te estrelada e enluarada
te negavas o fio da razão.
o chão que pisas talvez um dia sejardim.
tu não choras choves, teus olhos são sóis enfurnados,
tua bocaverna úmida, teu sexo cratera mágica.
sigo a um certo impulso de amar-te,
não te amo por amor sigo a um impulso,
se te amodeio a medo e por mais que fantasies
este ódioamor contínuo continuo dizendo
que trovejas trevas retrocedendo torrentes
constantes espaços que se movem
és uma miniatura do exterior que absorvo,
átomos seguindo determinadas pulsações,
sóis e não olhos, cratera arguta não sexo
e o resto em ti são espasmos convulsos
meros impulsos
era a pureza
oculta e incolor.
tudo cede um certo impulso ao nada,
todas as palavrasestãosoltas
por isso seguindo um autoimpulso peço-te
que não anoiteças mais
-- a última vez não me senti feliz
em ver-te estrelada e enluarada
te negavas o fio da razão.
o chão que pisas talvez um dia sejardim.
tu não choras choves, teus olhos são sóis enfurnados,
tua bocaverna úmida, teu sexo cratera mágica.
sigo a um certo impulso de amar-te,
não te amo por amor sigo a um impulso,
se te amodeio a medo e por mais que fantasies
este ódioamor contínuo continuo dizendo
que trovejas trevas retrocedendo torrentes
constantes espaços que se movem
és uma miniatura do exterior que absorvo,
átomos seguindo determinadas pulsações,
sóis e não olhos, cratera arguta não sexo
e o resto em ti são espasmos convulsos
meros impulsos
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Mário Hélio
32-II(Persianas)
a cor da dúvida na pele
repele muitos carinhos
e as linhas compostas
em muitos caminhos
diferem apenas do homem sozinho
de estar-se solto e completo
apesar de ver de perto do mundo o outro mundor
que só engana ao homem só e às persianas
às vezes os ziguezagues tortos apelam às diferenças
e às divisões que as mentes fazem
mas o que eles ignoram
é que os cérebros apenas conhecem as diferenças
entre as cousas e as lousas
que eles ignoram
o instinto de bicho do homem só
e das múltiplas multidões aglomeradas em torno dele
e das lânguidas e insensíveis persianas
um homem fica mais só quando reflete
é assim que ficam todos os homens sós
e a solidão
mero deserto entre a palavra e o chão
estranha hora entre o clarão e a aurora
o teu aéreo olhar
que medes a distância
entre o provável e o improvável
e tudo sabes
o que não sabes é o sol que esconde
ou ofusca quem sabe a dor e a sede do homem só
e o linho das linhas das alheias persianas
repele muitos carinhos
e as linhas compostas
em muitos caminhos
diferem apenas do homem sozinho
de estar-se solto e completo
apesar de ver de perto do mundo o outro mundor
que só engana ao homem só e às persianas
às vezes os ziguezagues tortos apelam às diferenças
e às divisões que as mentes fazem
mas o que eles ignoram
é que os cérebros apenas conhecem as diferenças
entre as cousas e as lousas
que eles ignoram
o instinto de bicho do homem só
e das múltiplas multidões aglomeradas em torno dele
e das lânguidas e insensíveis persianas
um homem fica mais só quando reflete
é assim que ficam todos os homens sós
e a solidão
mero deserto entre a palavra e o chão
estranha hora entre o clarão e a aurora
o teu aéreo olhar
que medes a distância
entre o provável e o improvável
e tudo sabes
o que não sabes é o sol que esconde
ou ofusca quem sabe a dor e a sede do homem só
e o linho das linhas das alheias persianas
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Mário Hélio
15-V(Evangelho)
quantos poetas prováveis
inventam rimas prováveis
neste instante provável!
muitos disseram milhares de fórmulas,
mas quantos provaram
o simples sem teorias?
é isto escrever poesia?
tecer um camafeu absurdo, relativabsoluto?
morrer de medo no escuro,
escrever cartas de amor,
depois querer que a humanidade beba
esse cauim azedo?
quantos neste minuto improfíquo
gastam três minutos de alegria
num poema gasto
que depois de feito produz que efeito?
quantos tantos morrem de febre de pranto
e querem que a razão dos outros acate
esse momento tão pessoal.
quantos outros abarrotam as gavetas
de papéis manusados plenos de arabescos
a que chamam poesia.
felizmente são poucos os loucos
que cultivam esta arte mal dita poesia.
inventam rimas prováveis
neste instante provável!
muitos disseram milhares de fórmulas,
mas quantos provaram
o simples sem teorias?
é isto escrever poesia?
tecer um camafeu absurdo, relativabsoluto?
morrer de medo no escuro,
escrever cartas de amor,
depois querer que a humanidade beba
esse cauim azedo?
quantos neste minuto improfíquo
gastam três minutos de alegria
num poema gasto
que depois de feito produz que efeito?
quantos tantos morrem de febre de pranto
e querem que a razão dos outros acate
esse momento tão pessoal.
quantos outros abarrotam as gavetas
de papéis manusados plenos de arabescos
a que chamam poesia.
felizmente são poucos os loucos
que cultivam esta arte mal dita poesia.
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Mário Hélio
10- X- (Orfeurídice)
o corpo ardente.
tuas curvas tuas mãos
se perderam na vertigem
dos que quiseram dizer sim
ao amor que já não pulsa
à canção que já não vibra.
teu hálito perdeu-se
entre flores, calores e perfumes.
nós nos perdemos no caminho onde não há volta
porque não se pode olhar atrás.
atrás ficaram todos os carinhos.
atrás ficou a sede desmedida,
atrás ficaram todos os caminhos.
tuas curvas tuas mãos
se perderam na vertigem
dos que quiseram dizer sim
ao amor que já não pulsa
à canção que já não vibra.
teu hálito perdeu-se
entre flores, calores e perfumes.
nós nos perdemos no caminho onde não há volta
porque não se pode olhar atrás.
atrás ficaram todos os carinhos.
atrás ficou a sede desmedida,
atrás ficaram todos os caminhos.
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Mário Hélio
20-X-(Arrife)
não vinhas tu
com pontes e cais,
logradouros e vilas,
bairros perdidos na metrópole ensimesmada
por estradas e viadutos como multidões em arcos
não vinhas tu
do continente vasto chorando pelos negrinhos
dos morros que morrem de fome
nas caladas calados que anseiam farfalhas
nas grandes vilas favelas abismadas
não vinhas tu severa de amores muda e negra
cidade dos portos e dos cais
oco rr eco rre... os meninos
correndo com os comparsas
com passos magros e velhos
em toda multidão semesplendores
é o teu destino acender velas
aos mistérios e crendices do teu povo inquieto
que plasma no rasto e nas arestas
no atol atlântico de aspecto altivo
é o teu dever projetar as novas luzes
proteger as velhas sombras
pedras ruas e alamedas
petrificando os ambíguos heróis.
com pontes e cais,
logradouros e vilas,
bairros perdidos na metrópole ensimesmada
por estradas e viadutos como multidões em arcos
não vinhas tu
do continente vasto chorando pelos negrinhos
dos morros que morrem de fome
nas caladas calados que anseiam farfalhas
nas grandes vilas favelas abismadas
não vinhas tu severa de amores muda e negra
cidade dos portos e dos cais
oco rr eco rre... os meninos
correndo com os comparsas
com passos magros e velhos
em toda multidão semesplendores
é o teu destino acender velas
aos mistérios e crendices do teu povo inquieto
que plasma no rasto e nas arestas
no atol atlântico de aspecto altivo
é o teu dever projetar as novas luzes
proteger as velhas sombras
pedras ruas e alamedas
petrificando os ambíguos heróis.
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Mário Hélio
8 - VIII (Révora)
eu pensei que não seria o único
a penetrar sorrateiro em tua alcova
e beber o lume e a lama de tantos corpos.
nós estávamos um pouco tristes,
e nus sabíamos os últimos puros.
o suor saía dos teus poros,
e eu já para ti algum escudo
quando a luz da escuridão nos envolvia.
e tu volvias, amiga.
eu não sabia que vias poesia em tudo.
teu lábio, contudo, emudecia, umedecia-se de orvalho,
e nós estávamos mudos.
foi quando o anjo singular da fantasia
despiu-se mostrando-se todo.
e então em um ato sublime
também te deitaste em mim
como um jardim em espinhos.
tu não sabes que este não é o caminho?
não atinavas, estavas sozinha, e eu, sozinho,
brincando com a tua agonia.
eu não sabia que vias poesia em tudo.
mas o que esse tudo abrangia?
a mim? a nós? ou ao que me iludo
adaptando-me moldando-me à alegria
que existia sempre? sempre até quando?
e ser preciso morrer de vez em quando
e ser preciso precisar-te que preciso
e aguardo-te, e guardo teu riso no meu viso
que sem ter mais o que espelhar
vai-se espelhando narciso.
eu vi um vulto sem saber que via,
sem saber que vias poesia em tudo.
veneno doce que bebido mata
mas que embebido só numa canastra
arde e maltrata só.
mas que importa toda parafasia
ou monomania de dois nomes
se é substantivo poesia
e tudo é indefinido pronome?
a penetrar sorrateiro em tua alcova
e beber o lume e a lama de tantos corpos.
nós estávamos um pouco tristes,
e nus sabíamos os últimos puros.
o suor saía dos teus poros,
e eu já para ti algum escudo
quando a luz da escuridão nos envolvia.
e tu volvias, amiga.
eu não sabia que vias poesia em tudo.
teu lábio, contudo, emudecia, umedecia-se de orvalho,
e nós estávamos mudos.
foi quando o anjo singular da fantasia
despiu-se mostrando-se todo.
e então em um ato sublime
também te deitaste em mim
como um jardim em espinhos.
tu não sabes que este não é o caminho?
não atinavas, estavas sozinha, e eu, sozinho,
brincando com a tua agonia.
eu não sabia que vias poesia em tudo.
mas o que esse tudo abrangia?
a mim? a nós? ou ao que me iludo
adaptando-me moldando-me à alegria
que existia sempre? sempre até quando?
e ser preciso morrer de vez em quando
e ser preciso precisar-te que preciso
e aguardo-te, e guardo teu riso no meu viso
que sem ter mais o que espelhar
vai-se espelhando narciso.
eu vi um vulto sem saber que via,
sem saber que vias poesia em tudo.
veneno doce que bebido mata
mas que embebido só numa canastra
arde e maltrata só.
mas que importa toda parafasia
ou monomania de dois nomes
se é substantivo poesia
e tudo é indefinido pronome?
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Mário Hélio
7- VII (Confidência)
tua sombra persegue-me a todo instante,
visita-me no instante da demora.
não sabe que é sombra e breve o instante
e a eternidade é só uma demora.
mas tua sombra não descansa
e dança mansa e inquieta sobre mim,
mas avança tão sutil e tanto avança
que eu pressinto que voa sobre mim.
o meu protesto enfim é de esperar-te
por amar-te talvez? não sei se o amor
não é pura paixão de esperar-te
ou desespero de amar-te sem amor.
não sei talvez em que profundo abismo
lancei-me, enlacei-me, doido cego já sem asas,
mas o sonho de tê-las já é o abismo,
as tuas garras, águia, arrancaram-me as asas.
visita-me no instante da demora.
não sabe que é sombra e breve o instante
e a eternidade é só uma demora.
mas tua sombra não descansa
e dança mansa e inquieta sobre mim,
mas avança tão sutil e tanto avança
que eu pressinto que voa sobre mim.
o meu protesto enfim é de esperar-te
por amar-te talvez? não sei se o amor
não é pura paixão de esperar-te
ou desespero de amar-te sem amor.
não sei talvez em que profundo abismo
lancei-me, enlacei-me, doido cego já sem asas,
mas o sonho de tê-las já é o abismo,
as tuas garras, águia, arrancaram-me as asas.
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Mário Hélio
2 - II (Avis rara)
ser vontade de pássaro,
as asas adejar pelo infinito crocitante
e acenar aos mecenas de saturno
que eu também vôo!
mas é a fala que cala,
resvala no último ogro que há.
força mágica que assassina as estrelas,
riso de fogo que incendeia a alma,
no entanto feroz vejo-te calma,
e me olhas, eu te olho, e nos olhamos
num olhar patético e néscio até.
eu poderia dizer da tua voz doce e mansa
sáltria divina cavatina de delírio
sei porém que inadvertida
pela imagem da força da distância
irá impelida pelo amargor que envolve toda vida,
e tua boca que ora ri e me deleita
se abrirá como em rictus selvagem
sinto e pressinto
que ferirá minhalma
que busca a tua qual orfeu a amada
o teu olhar em negra claridade
ofuscando os sóis.
as asas adejar pelo infinito crocitante
e acenar aos mecenas de saturno
que eu também vôo!
mas é a fala que cala,
resvala no último ogro que há.
força mágica que assassina as estrelas,
riso de fogo que incendeia a alma,
no entanto feroz vejo-te calma,
e me olhas, eu te olho, e nos olhamos
num olhar patético e néscio até.
eu poderia dizer da tua voz doce e mansa
sáltria divina cavatina de delírio
sei porém que inadvertida
pela imagem da força da distância
irá impelida pelo amargor que envolve toda vida,
e tua boca que ora ri e me deleita
se abrirá como em rictus selvagem
sinto e pressinto
que ferirá minhalma
que busca a tua qual orfeu a amada
o teu olhar em negra claridade
ofuscando os sóis.
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Mário Hélio
18-VIII(Totmutações)
aceita o erebom prefere o erebom escolhe o mundumano
por mais turvo que seja
prefere a treva
deixem-me abandonem-me não me-ditem merdades
pu-
rezas e que-
rubins
eu prefrio a lama.
chega de felicidade poética
eu prefiro a cética
a herética a diabólica.
as coisas sagradas jamais foram ditas.
palavras divinas jamais proferidas.
eu sinto que o universo se limita
por ser infinito.
pudico é cada dia santo cada santa oferenda
cada riso contenda cada gesto feroz.
o sagrado é vulgar
ar e éter éter e ar
que se perdem na incompleta letal diabrura
alfomegamentescrita como uma crítica cítrica
por mais turvo que seja
prefere a treva
deixem-me abandonem-me não me-ditem merdades
pu-
rezas e que-
rubins
eu prefrio a lama.
chega de felicidade poética
eu prefiro a cética
a herética a diabólica.
as coisas sagradas jamais foram ditas.
palavras divinas jamais proferidas.
eu sinto que o universo se limita
por ser infinito.
pudico é cada dia santo cada santa oferenda
cada riso contenda cada gesto feroz.
o sagrado é vulgar
ar e éter éter e ar
que se perdem na incompleta letal diabrura
alfomegamentescrita como uma crítica cítrica
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Luiz Guimarães
Metamorfose
Meu coração repleto de esplendores
Como as grutas fantásticas do Oriente,
Será digno de ti. Por ti somente
Foi que eu junquei meu coração de flores.
Por ti despi-o das passadas cores,
Por ti sequei a lágrima pungente,
Que gotejava como o orvalho ardente,
Silenciosa sobre as minhas dores!
Entra. Percorre estes vergéis risonhos,
Calca a sorrir a terra umedecida
Onde palpita o mundo dos meus sonhos.
Fica, porém, atenta e prevenida;
Hás-de ouvir, muitas vezes, os medonhos
E surdos ais de uma ilusão perdida.
Como as grutas fantásticas do Oriente,
Será digno de ti. Por ti somente
Foi que eu junquei meu coração de flores.
Por ti despi-o das passadas cores,
Por ti sequei a lágrima pungente,
Que gotejava como o orvalho ardente,
Silenciosa sobre as minhas dores!
Entra. Percorre estes vergéis risonhos,
Calca a sorrir a terra umedecida
Onde palpita o mundo dos meus sonhos.
Fica, porém, atenta e prevenida;
Hás-de ouvir, muitas vezes, os medonhos
E surdos ais de uma ilusão perdida.
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Mário Hélio
1-I-(Cabeçalho)
ergo este tributo às nossas almas
por tudo o que nós fomos no que somos,
na simples humildade do que expomos
- a débil e frágil luz, a lira calma -
à larga vastidão do que é finito,
num grito maior do que a própria voz,
o grifo triunfal, o grito:
nós!
por tudo o que nós fomos no que somos,
na simples humildade do que expomos
- a débil e frágil luz, a lira calma -
à larga vastidão do que é finito,
num grito maior do que a própria voz,
o grifo triunfal, o grito:
nós!
1 052
Mário Hélio
12 - II(Farol)
antes hera um pedaço de sombra num traço de sol
que se movia nas estepes silhueta de tal curupira
que o tempo esqueceu
escutava cantigas solenes poemas do céu
um golpe de risalegria tem pena de mim.
que tudo era um retrato de sombras não ousei dizer
que o meu amor era maior do que deus não ousei dizer.
e o vento bate bátega calçada
lá fora ainda haja passarada saiba cantar.
erantes o mormaço do que eu via um fragmento dar
uma flor menor do que a flor da flor no pomar
curupiraraponga risonho cão
coisas que o tempo ignorou e o esquecimento esqueceu
lição da morte que morreu imprevisto histórias de mefisto
em versiprosa
pausa
pousa num galho
retalho darvoredo devastado
resta esta réstia e a dor
herantes umolhar sobracidade porcimademim
tenta se libertar liberdade fugir como se ocultasse
o culto no obsclaro
como se a visão visse a si mesma
e as janelas namorassem outras janelas
mas o elemento não ousa em seu turbilhão de coisas.
meu amor é maior do que o amor habanera
se achará impossível o possível visivelin
coleção de rastros o infinito é maior que o infinito
o perdão se compadece do perdão mas não se perdoa
ouvirá o som o sumo o sim
o belo mais belo que a beleza
correnteza aventureza
o bem melhor do que o bem
narcisista a feiúra
não tem remédio pro seu tédio a cura
grande prisma
imagens fantasiosas liames figurações
a justiça é imparcial injustiça
certo erro berro trissura tristura
terá medo a coragem
o cansaço da mesa descansa.
neste ponto do espaço haves conversam
o irracional é racional no espaço deste ponto
a relação é relativa tudo é falso
o princípio em si mesmo é um fim
séculos de procura facha de treva na relvaga
alaquem uma forma amorfa
um acontecimento inesperado
está sendo aguardado por todos
as cadeiras do escritório têm sua própria dança
o neutro se anula o banal se fortalece
o mistério é mais misterioso do que o mistério
não existe mal mais maléfico do que o bem
ermotem toteminca antesera um pio sagrado
o passado passou para o passado
a gravidade repousa na antigravidade.
os cemitério são ermitérios e cassinos
os hinos sacros são canções profanas
deus é maior do que deus
neste pântano do espaço
contemplo o alcoice convento conventilho
a tarde rosna um diversion é igual a uma lousa
e tudo enfim é tudo a mesma coisa.
que se movia nas estepes silhueta de tal curupira
que o tempo esqueceu
escutava cantigas solenes poemas do céu
um golpe de risalegria tem pena de mim.
que tudo era um retrato de sombras não ousei dizer
que o meu amor era maior do que deus não ousei dizer.
e o vento bate bátega calçada
lá fora ainda haja passarada saiba cantar.
erantes o mormaço do que eu via um fragmento dar
uma flor menor do que a flor da flor no pomar
curupiraraponga risonho cão
coisas que o tempo ignorou e o esquecimento esqueceu
lição da morte que morreu imprevisto histórias de mefisto
em versiprosa
pausa
pousa num galho
retalho darvoredo devastado
resta esta réstia e a dor
herantes umolhar sobracidade porcimademim
tenta se libertar liberdade fugir como se ocultasse
o culto no obsclaro
como se a visão visse a si mesma
e as janelas namorassem outras janelas
mas o elemento não ousa em seu turbilhão de coisas.
meu amor é maior do que o amor habanera
se achará impossível o possível visivelin
coleção de rastros o infinito é maior que o infinito
o perdão se compadece do perdão mas não se perdoa
ouvirá o som o sumo o sim
o belo mais belo que a beleza
correnteza aventureza
o bem melhor do que o bem
narcisista a feiúra
não tem remédio pro seu tédio a cura
grande prisma
imagens fantasiosas liames figurações
a justiça é imparcial injustiça
certo erro berro trissura tristura
terá medo a coragem
o cansaço da mesa descansa.
neste ponto do espaço haves conversam
o irracional é racional no espaço deste ponto
a relação é relativa tudo é falso
o princípio em si mesmo é um fim
séculos de procura facha de treva na relvaga
alaquem uma forma amorfa
um acontecimento inesperado
está sendo aguardado por todos
as cadeiras do escritório têm sua própria dança
o neutro se anula o banal se fortalece
o mistério é mais misterioso do que o mistério
não existe mal mais maléfico do que o bem
ermotem toteminca antesera um pio sagrado
o passado passou para o passado
a gravidade repousa na antigravidade.
os cemitério são ermitérios e cassinos
os hinos sacros são canções profanas
deus é maior do que deus
neste pântano do espaço
contemplo o alcoice convento conventilho
a tarde rosna um diversion é igual a uma lousa
e tudo enfim é tudo a mesma coisa.
717
Mário Hélio
30-X-(Dos que vivem na sombra)
ontem suspeitei o cego em mim
andei errante por ruas e não encontrei luas
e me castiguei com medo de mim
ontem descobri o monstro hurrando em mim
quisera que meu corpo fosse vosso corpo
o sombrio vagalume por pousadas de mim.
ontem suspeitei o descoberto em mim
e pensei em andar pra sempre nutando
pra ver o rosto vasto que se esmaga em mim
vencido contrafeito morto
me agarrei ao quindavia de intato em mim
há muito eu constatei a insegurânsia em mim
o anjo rebelde que havia em mim
o estranho prisioneiro nas masmorras em mim
escrevi versos duros de dura ansiedade
mas não constatei verdade alguma
escrevi versos pálidos num suspiro
mas não encontrei nenhuma só lição
à tona tropeçando nos meus passos
penso que é angústia o sentimento vácuo
mas não sei ao certo se existe angústia.
quisera que meu bálsamo fosse o vosso beijo
tendes lábios enormes e eu não os vejo
mas no alto do rosto se incendeia
a mesma luz sombria que me guia.
as forças me forçam a fins que desconheço
mas suspeito que está no universo falido
ontem descobri o pouco que conheço
e me vi trancado pelo avesso
não sei se foi remorso o que passou por mim
ou foi vontade de fugir de mim.
ontem descobri o desespero em mim
verti meu sangue no vasto mundo
amorte doido feito busquei
rasguei papéis desfiz contratos
que com meu ego o tempo fez,
sonhei loucuras calei-me há tempo
meu sofrimento é tão imenso e tão presente
que nem notei
é lodo e mundo ida sem volta
amorte é sangue maldiçoado
corpo do livro pastirrasgado
amorte é medo nunca explicado
há sempre uma possibilidade de não me esconder,
e vocês sorririam se eu dissesse que a tristeza
é supérflua enquanto importa esta análise?
deixa nua a verdade do medo todos temos medo
talvez seja pela cereja que tenho no corpo
e ninguém a colheu.
nunca mais amorte amarei
nunca direi sim direi sempre talvez.
ontem suspeitei o inacabado em mim
orgasma prometida à minha estrela
à custa da revolta que houve sempre em mim
os conhecidos seres conformados como eu
inconformado que apesar da fraqueza
nunca olhei pro fim
às vezes penso que somos frutos das ondas dos instantes
que arrebatadas nos levam distante
mas é bastante pra da tal verdade ficar mais distante
ontem constatei o espectro em mim
com sua mão de fogo exorcizando a dor
mas sei e muito sei que não existem santos
apesar do ódio que sou eu amo tanto.
ontem cobri redescobri grotescos arabescos
ridículo estranho e iníquo eu era para mim.
há sempre uma possibilidade (mesmo que longínqua)
de esquecer a culpa e escapar de mim.
andei errante por ruas e não encontrei luas
e me castiguei com medo de mim
ontem descobri o monstro hurrando em mim
quisera que meu corpo fosse vosso corpo
o sombrio vagalume por pousadas de mim.
ontem suspeitei o descoberto em mim
e pensei em andar pra sempre nutando
pra ver o rosto vasto que se esmaga em mim
vencido contrafeito morto
me agarrei ao quindavia de intato em mim
há muito eu constatei a insegurânsia em mim
o anjo rebelde que havia em mim
o estranho prisioneiro nas masmorras em mim
escrevi versos duros de dura ansiedade
mas não constatei verdade alguma
escrevi versos pálidos num suspiro
mas não encontrei nenhuma só lição
à tona tropeçando nos meus passos
penso que é angústia o sentimento vácuo
mas não sei ao certo se existe angústia.
quisera que meu bálsamo fosse o vosso beijo
tendes lábios enormes e eu não os vejo
mas no alto do rosto se incendeia
a mesma luz sombria que me guia.
as forças me forçam a fins que desconheço
mas suspeito que está no universo falido
ontem descobri o pouco que conheço
e me vi trancado pelo avesso
não sei se foi remorso o que passou por mim
ou foi vontade de fugir de mim.
ontem descobri o desespero em mim
verti meu sangue no vasto mundo
amorte doido feito busquei
rasguei papéis desfiz contratos
que com meu ego o tempo fez,
sonhei loucuras calei-me há tempo
meu sofrimento é tão imenso e tão presente
que nem notei
é lodo e mundo ida sem volta
amorte é sangue maldiçoado
corpo do livro pastirrasgado
amorte é medo nunca explicado
há sempre uma possibilidade de não me esconder,
e vocês sorririam se eu dissesse que a tristeza
é supérflua enquanto importa esta análise?
deixa nua a verdade do medo todos temos medo
talvez seja pela cereja que tenho no corpo
e ninguém a colheu.
nunca mais amorte amarei
nunca direi sim direi sempre talvez.
ontem suspeitei o inacabado em mim
orgasma prometida à minha estrela
à custa da revolta que houve sempre em mim
os conhecidos seres conformados como eu
inconformado que apesar da fraqueza
nunca olhei pro fim
às vezes penso que somos frutos das ondas dos instantes
que arrebatadas nos levam distante
mas é bastante pra da tal verdade ficar mais distante
ontem constatei o espectro em mim
com sua mão de fogo exorcizando a dor
mas sei e muito sei que não existem santos
apesar do ódio que sou eu amo tanto.
ontem cobri redescobri grotescos arabescos
ridículo estranho e iníquo eu era para mim.
há sempre uma possibilidade (mesmo que longínqua)
de esquecer a culpa e escapar de mim.
880
Lya Luft
Tão sutilmente em tantos breves anos
do livro Mulher no Palco
Tão sutilmente em tantos breves anos
foram se trocando sobre os muros
mais que desigualdades, semelhanças,
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
o filho que se faz, uma árvore plantada,
o tempo gotejando do telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
o pó de um cotidiano desencanto.
Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
que uma em outra pode se trocar,
sem que alguém de fora o percebesse nunca.
Tão sutilmente em tantos breves anos
foram se trocando sobre os muros
mais que desigualdades, semelhanças,
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
o filho que se faz, uma árvore plantada,
o tempo gotejando do telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
o pó de um cotidiano desencanto.
Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
que uma em outra pode se trocar,
sem que alguém de fora o percebesse nunca.
1 377
Machado de Assis
A Flor do Embiroçu
Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
Fil. Elis.
Quando a noturna sombra envolve a terra
E à paz convida o lavrador cansado,
À fresca brisa o seio delicado
A branca flor do embiroçu descerra.
E das límpidas lágrimas que chora
A noite amiga, ela recolhe alguma;
A vida bebe na ligeira bruma,
Até que rompe no horizonte a aurora.
Então, à luz nascente, a flor modesta,
Quando tudo o que vive alma recobra,
Languidamente as suas folhas dobra,
E busca o sono quando tudo é festa,
Suave imagem da alma que suspira
E odeia a turba vã! da alma que sente
Agitar-se-lhe a asa impaciente
E a novos mundos transportar-se aspira!
Também ela ama as horas silenciosas,
E quando a vida as lutas interrompe,
Ela da carne os duros elos rompe,
E entrega o seio às ilusões viçosas.
É tudo seu, — tempo, fortuna, espaço,
E o céu azul e os seus milhões de estrelas;
Abrasada de amor, palpita ao vê-las,
E a todas cinge no ideial abraço.
O rosto não encara indiferente,
Nem a traidora mão cândida aperta;
Das mentiras da vida se liberta
E entra no mundo que jamais não mente.
Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
Labor ingrato, agitação, fadiga,
Tudo faz esquecer tua asa amiga
Que a alma nos leva onde a ventura a chama.
Ama-te a flor que desabrocha à hora
Em que o último olhar o sol lhe estende,
Vive, embala-se, orvalha-se, rescende,
E as folhas cerra quando rompe a aurora.
Fil. Elis.
Quando a noturna sombra envolve a terra
E à paz convida o lavrador cansado,
À fresca brisa o seio delicado
A branca flor do embiroçu descerra.
E das límpidas lágrimas que chora
A noite amiga, ela recolhe alguma;
A vida bebe na ligeira bruma,
Até que rompe no horizonte a aurora.
Então, à luz nascente, a flor modesta,
Quando tudo o que vive alma recobra,
Languidamente as suas folhas dobra,
E busca o sono quando tudo é festa,
Suave imagem da alma que suspira
E odeia a turba vã! da alma que sente
Agitar-se-lhe a asa impaciente
E a novos mundos transportar-se aspira!
Também ela ama as horas silenciosas,
E quando a vida as lutas interrompe,
Ela da carne os duros elos rompe,
E entrega o seio às ilusões viçosas.
É tudo seu, — tempo, fortuna, espaço,
E o céu azul e os seus milhões de estrelas;
Abrasada de amor, palpita ao vê-las,
E a todas cinge no ideial abraço.
O rosto não encara indiferente,
Nem a traidora mão cândida aperta;
Das mentiras da vida se liberta
E entra no mundo que jamais não mente.
Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
Labor ingrato, agitação, fadiga,
Tudo faz esquecer tua asa amiga
Que a alma nos leva onde a ventura a chama.
Ama-te a flor que desabrocha à hora
Em que o último olhar o sol lhe estende,
Vive, embala-se, orvalha-se, rescende,
E as folhas cerra quando rompe a aurora.
1 745
Mário Hélio
31-I(Sol Incompleto)
a manhã
lilases lilases
perdizes e avestruzes
aprisionadas em minha mente
e as marcas dorvalho descoram descrentes
na minha casa o sol é incompleto
o dia cresce na face e a noite nasce
para-
lela-
mente
porque não há escolha
no templo há somente hastes e naves inconseqüentes
as flores não nascem
existem pura e simplesmente
porque não há escolha
a manhã recebeu a angústia
dos primeiros raios que ressecam as folhas
lilases lilases
perdizes e avestruzes
aprisionadas em minha mente
e as marcas dorvalho descoram descrentes
na minha casa o sol é incompleto
o dia cresce na face e a noite nasce
para-
lela-
mente
porque não há escolha
no templo há somente hastes e naves inconseqüentes
as flores não nascem
existem pura e simplesmente
porque não há escolha
a manhã recebeu a angústia
dos primeiros raios que ressecam as folhas
835
Lupe Cotrim Garaude
Ars Poética
Da desordem nunca
erguerei um verso.
Bem sei
que na bela superfície de um momento,
existe o alento
da Poesia.
Mas é do futuro,
é do instante que serve
a continuidade da vida
em sentimento,
que desejo o meu poema.
O Homem,
sofrido a prosseguir
na sua eternidade construída —
— eis o meu tema.
erguerei um verso.
Bem sei
que na bela superfície de um momento,
existe o alento
da Poesia.
Mas é do futuro,
é do instante que serve
a continuidade da vida
em sentimento,
que desejo o meu poema.
O Homem,
sofrido a prosseguir
na sua eternidade construída —
— eis o meu tema.
1 101
Mário Hélio
29-IX(Choro e luz)
num dia de festa de muita alegria
lavei meus sonhos na velha pia
e tive medo de quem sorria
e do segredo de quem morria
mas era festa de só um dia
já não bastava tanta agonia?
eu precisava da tal fatia
de choro e luz de fantasia
mas a batalha era que ardia
a sarça ardente na mente fria
meu ser uma linha já que seguia
seu próprio passo de travessia
e para longe do espaço ia
e até bastante cedo descobria
não era amor o que se amou um dia
era outra alegria que irônica ria
era o nome do bicho que verônica via
que me espantava mas não fugia
que me matava mas nãomorria
era outra alegria... e é triste toda alegria
lavei meus sonhos na velha pia
e tive medo de quem sorria
e do segredo de quem morria
mas era festa de só um dia
já não bastava tanta agonia?
eu precisava da tal fatia
de choro e luz de fantasia
mas a batalha era que ardia
a sarça ardente na mente fria
meu ser uma linha já que seguia
seu próprio passo de travessia
e para longe do espaço ia
e até bastante cedo descobria
não era amor o que se amou um dia
era outra alegria que irônica ria
era o nome do bicho que verônica via
que me espantava mas não fugia
que me matava mas nãomorria
era outra alegria... e é triste toda alegria
906
Luiz Guimarães
Visita a Casa Paterna
Como a ave que volta ao ninho antigo,
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.
Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma talvez do amor materno,
Tomou-me as mãos — olhou-me grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo.
Era esta sala... (Oh! se me lembro! e quanto!)
Em que da luz noturna à claridade,
Minhas irmãs e minha mãe... O pranto
Jorrou-me em ondas... Resistir quem há-de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade.
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.
Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma talvez do amor materno,
Tomou-me as mãos — olhou-me grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo.
Era esta sala... (Oh! se me lembro! e quanto!)
Em que da luz noturna à claridade,
Minhas irmãs e minha mãe... O pranto
Jorrou-me em ondas... Resistir quem há-de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade.
1 111
Mário Hélio
23-III(Estático)
uma estrela cai no mar
um silêncio enche o mundo
um pavor se compenetra.
um poema cai no mar
uma gota d’água se misturva
ao mormaço.
um silêncio enche o mundo
um pavor se compenetra.
um poema cai no mar
uma gota d’água se misturva
ao mormaço.
1 123
Lya Carvalho Jardim
Essa Sou Eu
Se perguntarem por mim
diga que estou pastoreando estrelas
na via-láctea.
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui Nefertiti nos templos de Karnak
Se perguntarem por mim
diga que estou semeando
rosas de vento nos campos da lua
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui Muntaz sofrendo de solidão
no Taj-Mahal
Se perguntarem por mim
diga que estou colhendo flores em Jerusalém
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui artesã de seda e jade
Se perguntarem por mim
diga que estou passageira em uma nave estelar
a caminho doinfinito.
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui uma sacerdotisa do sol
na cidade perdida.
Se perguntarem por mim
diga que estou tecelã de sonhos
urdindo a trama da vida
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui rainha e mulher de um castelo.
Se perguntarem por mim
diga que estou voando nas asas de algum pássaro
Se perguntarem
quem fui
Diga que havia lumes atrelados a meus passos
Se perguntarem por mim
diga que estou colhendo estrelas no mar
flores no céu para enfeitar a barca de Caronte
Se perguntarem quem fui
diga que me viu viver
trôpega, bêbada de horizonte em horizonte.
diga que estou pastoreando estrelas
na via-láctea.
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui Nefertiti nos templos de Karnak
Se perguntarem por mim
diga que estou semeando
rosas de vento nos campos da lua
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui Muntaz sofrendo de solidão
no Taj-Mahal
Se perguntarem por mim
diga que estou colhendo flores em Jerusalém
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui artesã de seda e jade
Se perguntarem por mim
diga que estou passageira em uma nave estelar
a caminho doinfinito.
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui uma sacerdotisa do sol
na cidade perdida.
Se perguntarem por mim
diga que estou tecelã de sonhos
urdindo a trama da vida
Se perguntarem
quem fui
Diga que fui rainha e mulher de um castelo.
Se perguntarem por mim
diga que estou voando nas asas de algum pássaro
Se perguntarem
quem fui
Diga que havia lumes atrelados a meus passos
Se perguntarem por mim
diga que estou colhendo estrelas no mar
flores no céu para enfeitar a barca de Caronte
Se perguntarem quem fui
diga que me viu viver
trôpega, bêbada de horizonte em horizonte.
1 060
Mário Hélio
11-I(Formas)
vou deixar de fazer poema
para as estrelas.
hei de cantar as formas duras e abscônditas,
as formas brutas,
a fome e o desespero tão irmãos,
as pequeninas mortes, o imodelável,
as normas brancas.
o poema deve falar à alma e aos sentidos.
nós somos deuses:
deuses não destroem.
o mistério da imensidade não me ofusca,
talvez o mundo nem saiba,
e é isto o que me espanta e me exulta --
a fonte que há dentro de mim.
nós somos deuses, mas ainda não
fizemos a descoberta.
diferente de todos semelhante a todos
sou mais poderoso
todas as coisas me servem eu sou as coisas
a dor não me espanta eu sou a dor.
o homem só é grande quando constrói.
não fiz mais poema para as estéreis estrelas.
desde a última vez que te vi em vaivém com a vida
não sabias da essência forte
que habitava o teu corpo nessas noites
naquelas noites em que te fiz tão minha
que era difícil conjugar quem eu era quem tu eras
já não éramos.
teu sorriso já não encherá as salas.
a palavra resiste a alturas ainda maiores.
mas que eram os ais mulher por quem te calas,
tu sabes que eram sinfonias de amores.
ah sagrada mulher, dorme em meu peito,
talvez o mundo te desperte amanhã.
o que é a vida sem o aroma do teu leito,
sem os hinos de afagos que me entoas no afã?
cantarei simplesmente o momento esgotado
como tributo.
neste mundo jamais conceberemos as formas puras.
são as impurezas que fazem as formas belas,
e as formas são sempre figuras
real ilusão
talvez não haja a negação da negação.
não é a dignidade moral que nos faz deuses,
é o ato de criar, nos lambusar nas formas.
o mundo é maravilhoso, a vida, a criação,
tudo é uma grande massa de modelar
na aparente harmonia que rege cada coisa.
a areia da praia é a parede celular,
o zumbidoecatombe é um sussurrotrovão
e todos são irmãos
nas divisas entrevalux intervalus.
fico pensando na alma das formigas,
nas mais diversas formas do criador.
deus é um grande artista plástico,
poeta músico seresteiro de noites não pensadas.
não farei mais versos às estrelas.
elas têm o seu vate.
cantarei as nossas formas
e mais a mais
existem gritos grifando a multidão,
é preciso perseguir as coisas e alcansá-las
mudá-las moldá-las mandálas acabálas.
nenhum halo se acendera em tua cabeça.
repito que a aparente sensação de vislumbre
é só visão.
através do atrazo destes anos atrozes
são como cem deuses sem ritos sem infinitos
sem eleuses
abaixo todos os mitos.
para as estrelas.
hei de cantar as formas duras e abscônditas,
as formas brutas,
a fome e o desespero tão irmãos,
as pequeninas mortes, o imodelável,
as normas brancas.
o poema deve falar à alma e aos sentidos.
nós somos deuses:
deuses não destroem.
o mistério da imensidade não me ofusca,
talvez o mundo nem saiba,
e é isto o que me espanta e me exulta --
a fonte que há dentro de mim.
nós somos deuses, mas ainda não
fizemos a descoberta.
diferente de todos semelhante a todos
sou mais poderoso
todas as coisas me servem eu sou as coisas
a dor não me espanta eu sou a dor.
o homem só é grande quando constrói.
não fiz mais poema para as estéreis estrelas.
desde a última vez que te vi em vaivém com a vida
não sabias da essência forte
que habitava o teu corpo nessas noites
naquelas noites em que te fiz tão minha
que era difícil conjugar quem eu era quem tu eras
já não éramos.
teu sorriso já não encherá as salas.
a palavra resiste a alturas ainda maiores.
mas que eram os ais mulher por quem te calas,
tu sabes que eram sinfonias de amores.
ah sagrada mulher, dorme em meu peito,
talvez o mundo te desperte amanhã.
o que é a vida sem o aroma do teu leito,
sem os hinos de afagos que me entoas no afã?
cantarei simplesmente o momento esgotado
como tributo.
neste mundo jamais conceberemos as formas puras.
são as impurezas que fazem as formas belas,
e as formas são sempre figuras
real ilusão
talvez não haja a negação da negação.
não é a dignidade moral que nos faz deuses,
é o ato de criar, nos lambusar nas formas.
o mundo é maravilhoso, a vida, a criação,
tudo é uma grande massa de modelar
na aparente harmonia que rege cada coisa.
a areia da praia é a parede celular,
o zumbidoecatombe é um sussurrotrovão
e todos são irmãos
nas divisas entrevalux intervalus.
fico pensando na alma das formigas,
nas mais diversas formas do criador.
deus é um grande artista plástico,
poeta músico seresteiro de noites não pensadas.
não farei mais versos às estrelas.
elas têm o seu vate.
cantarei as nossas formas
e mais a mais
existem gritos grifando a multidão,
é preciso perseguir as coisas e alcansá-las
mudá-las moldá-las mandálas acabálas.
nenhum halo se acendera em tua cabeça.
repito que a aparente sensação de vislumbre
é só visão.
através do atrazo destes anos atrozes
são como cem deuses sem ritos sem infinitos
sem eleuses
abaixo todos os mitos.
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Mário Hélio
24-IV (Espaçonavegavelar)
num acúmulo de horas vejo coisa rodopiar
através de cabeça por se desvendar
através do espaçoar
do mar
num acúmulo de oras vejo rosto corar
vejo a prece do medo do modo do homem gritar
através do escaçomar
do ar
num acúmulo de ras tos nareia domar
vejo gente morrendo ao se procurar
anular
num acúmulo de ascosturandoobarcomopodeumsóhomem
tanta coisa desvendar?
através de cabeça por se desvendar
através do espaçoar
do mar
num acúmulo de oras vejo rosto corar
vejo a prece do medo do modo do homem gritar
através do escaçomar
do ar
num acúmulo de ras tos nareia domar
vejo gente morrendo ao se procurar
anular
num acúmulo de ascosturandoobarcomopodeumsóhomem
tanta coisa desvendar?
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