Soneto à liberdade
Longa será, por certo, a estiagem:
fazem antever as nuvens e os ventos.
Que se encham pois as malas de viagem,
que a vida exige assim nesses momentos.
E é bom, também, que o "viver-tristonho",
tal um corcel alado e renovado,
salte do cerne universal do sonho
e voe pelas planícies - imaculado.
E que visões de cata-ventos e moinhos
encontrem o sentido exato desse agora
na selva de pedra dos caminhos.
E mude-se enfim o sonho de outrora,
que tem levado a vida aos descaminhos,
a cada passo, a cada instante e hora.
Do partir e do voltar
Partir. Voltar.
Outra vez partir
e outra vez voltar,
compõem somente
um quadro natural
do tentar-viver.
Se mais, talvez,
estranha sinfonia
de aflitos pés
buscando o tom da vida
com riscos de não ouvi-lo.
E assim,
para uma existência machucada
o sonho pode acabar numa única saída:
esquecer roteiros e apagar paisagens...
Obs:
Obs: sou médico. Escrevo nos jornais alagoanos, sobre temas de pol[itica internacional, maioria das vezes com páginas inteiras. Consócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Tenho dois livros publicado: "A Solidão dos Espaços Políticos", um ensaio sobre a história alagoana e suas implicações com a política nas décadas de 30 a 50, com revisão sobre o Ciclo dos góis Monteiro; e "O que se passa com o rei", uma fábula sobre a guerra, publicada no Rio de Janeiro. Aguardo publicação de outro livro "Crise do Pensamento", já aprovado pela Universidade de Alagoas.
Selecionei 5 poemas, como amostragem.
Desejo assinar o seu Jornal de Poesia. Indiquei a sua Home Page para Eduardo Bomfim, futuro secretário de cultura do município. Estou fazendo isto com relação a outros colegas da atividade intelectual, sobretudo os poetas.
Cordialmente
Luiz Nogueira Barros
Milagre
E operou-se o milagre do silêncio
na boca que para o mundo se fechou.
E nos sentidos, que descobriram transparências
escondidas nas muralhas de argamassa e pedras:
que os sonhos inda imaturos não percebiam,
enganados - por séculos de mentiras...
Viagem
Parto pleno de ventura e na aventura
da viagem empreendida levo o que sobrou
da infância, da juventude e do agora :
fantasia que um dia foi futuro.
Palavras ditas e juradas serão tolas
quando os momentos são de indiferenças.
Mas se o pensar a fala justifica
o tempo é grave amigo e jamais falha.
Hei de seguir assim a antevisão do olhar
e no desenho das paisagens presumidas
serei tudo o que vi, sofri e aprendi.
E tudo será novo como o sempre:
que os sonhos inatingidos não abortam,
pois são gestações que sabem esperar.
Do Lírio e da Estrela
De certezas foi a ponte construída.
E a estação, de aromas benfazejos,
fazia antesonhar a flor
nutrida do silêncio da procura.
Calmo rio, teu profundo olhar
ainda refletia lembranças delicadas
dos verdes vales dos caminhos que,
arriscando paisagens proseguiste,
trazendo em teu ventre o intocado
lírio para a festa das fronteiras
da madrugada consumida em chamas.
E quando despertamos era noite ainda:
e o lírio feito estrela já brilhava
- incorporado ao céu das nossas vidas.
O poder
Eis o poder :
É ali. Não é tão distante !
Mas digo-te que:
- por sua estrada
já passaram muitos homens,
com os seus sonhos,
deixando poeira
sobre as folhas e sobre as flores.
Aconteceu porém a muitos,
despreparados para essa viagem
que a fome, a sede e a desesperança,
aguardavam por eles no percurso.
E sabe-se que,
entre os poucos que ali chegaram,
alguns, despojados dos sonhos e mudados,
esqueceram-se da linguagem que falavam.
E será, talvez, por isso,
que gritam, urram e soltam bombas.
O poder é ali. Não é tão distante !...
Infortunística
A tragédia dos vôos
dos Dédalos e Ícaros improvisados
sob a fria fantasia das estrelas
para a soalheira dos dias causticantes...
Do cantar e do falar
Cantar,
talvez não seja tudo.
Falar,
ainda não sei.
Cantar,
as aves cantam
um canto eterno e ritimado
na ondulação das árvores
nos bosques e campinas.
Falar,
falam e falaram
homens comuns e incomuns,
nas ruas, nas praças e nos púlpitos.
Se essas coisas doem
ainda não sei.
O que sei que dói é o silêncio
e que um dia hei de cantar,
mas sobretudo hei de falar...
O fantasma e o vento
Pétalas sem cor
e sem perfume
da rosa
morta no ventre
da fantasia.
E no jardim
d’inesperado outono
ao sabor do vento
que passa leve
com passos de brisa
e sobre o chão
revolve os restos
do que foi sonho
há solidão.
E o vento diz
que ali um dia
houve uma rosa
que era a primeira,
tão grande e bela
mas só o projeto
que conheceu
no curto tempo
da duração
de ser botão.
E que ainda assim,
no tal jardim há o fantasma
de certo homem
que tenta em vão
compor com as pétalas
da rosa morta
o que foi sonho
de abrir-se ao mundo.
E que sempre fala
com a insistência
dos tresloucados
da morte inglória
do tal botão.
E em seus delírios
nas noites claras
chora a dor
da fantasia
que o enganou.