Luiz de Aquino

Luiz de Aquino

n. 1945 BR BR

Poeta, contista, cronista e jornalista, radicado em Goiânia. Estreou-se na prosa com O Cerco e Outros Casos (1978) e na poesia com Sinais da Madrugada (1983). Publicou ainda Menina dos Olhos, Razões da Semente (1996), Sarau (2003) e As uvas, teus mamilos tenros (2005), além da antologia Meus Poemas do Século XX e do livro de entrevistas Deu no Jornal. Colaborou no Diário da Manhã e manteve o blogue Pena & Poesia.

n. 1945-09-15, Caldas Novas, Goiás

10 208 Visualizações

Harmonia

Harmonia

Essas mãos já se tocaram
antes
e se afagaram feito jeito
de criança sonolenta.

Essas mãos andaram juntas
muito tempo
e se desejaram tanto tempo.

Agora essas mãos se deram
de vez
e querem envelhecer
sempre unidas.

Ler poema completo
Biografia

Luiz de Aquino Alves Neto nasceu em 15 de setembro de 1945, às 8h, em Caldas Novas, em Goiás. Viveu na cidade até março de 1956, quando se mudou para o Rio de Janeiro para estudar. A decisão partiu de sua mãe, diante da falta de escolas secundárias acessíveis a famílias humildes em Goiás. Retornou à terra natal apenas no Natal de 1960, aos 15 anos.

Em 1958, foi aprovado em quarto lugar no Exame de Admissão do Colégio Estadual José Acioli, em Marechal Hermes, mas optou por estudar no tradicional Colégio Pedro II. Cursou o ginasial na unidade Tijuca e, posteriormente, o colegiado na sede da Avenida Marechal Floriano. Iniciou o curso Científico, mas precisou interromper os estudos em 1962 por motivos de saúde. Retomou no ano seguinte, migrando para o curso Clássico.

Em 1963, mudou-se para Goiânia e concluiu o ensino médio no Colégio Estadual de Goiânia, o Lyceu de Goiás, uma das instituições mais tradicionais do país.

Início profissional e teatro

Ainda em 1963, ingressou na Agremiação Goiana de Teatro (AGT), dirigida por Otavinho Arantes. Atuou em peças como Pinóquio e, em janeiro de 1964, integrou a Caravana da Cultura, promovida pelo Instituto Nacional do Teatro. No mesmo período, iniciou atividades profissionais informais: foi auxiliar em escritório de engenharia, cobrador e vendedor de livros.

A carreira bancária começou em 22 de fevereiro de 1965, ao ser aprovada em concurso do Banco do Estado de Goiás (BEG). No mesmo ano, casou-se com Odília, com quem teve três filhos: Élia Maria (1967), Leonardo (1968) e Fernando (1970). Também nesse período, iniciou sua atuação como jornalista, publicando textos no jornal O Anápolis e editando um jornal mimeografado de um grupo teatral.

Em 1994, contraiu novas núpcias com Mary Anne, com quem tem o filho Lucas (1995).

Vida acadêmica e produção literária

Em 1967, foi aprovado para o curso de Geografia na Universidade Católica de Goiás (UCG). Tornou-se professor em 1968, lecionando no Colégio Estadual Dom Abel, no Lyceu de Goiânia e no Instituto Presbiteriano de Educação. Em 1970, foi o primeiro professor de Educação Moral e Cívica em Goiás.

A partir de 1973, intensificou sua produção jornalística, com artigos e crônicas em jornais como O Popular , Folha de Goiás e Cinco de Março . No mesmo ano, tornou-se secretário da presidência do BEG. Enfrentou dificuldades para concluir o curso na UCG, colando grau apenas em dezembro de 1978.

A estreia na literatura veio também em 1978, com o livro O Cerco e Outros Casos . Nos anos seguintes, publicamos diversas obras de poesia e prosa.

Jornalismo e literatura em paralelo

Demitido do BEG em 1976, trabalhou na Telegoiás até 1979. Depois, atuou no Jornal Opção e no semanário Cinco de Março . No fim daquele ano, passei a integrar a assessoria de imprensa da Prefeitura de Goiânia.

Durante uma década de 1980, publicou livros como Sinais da Madrugada (1983) e De Mãos Dadas com a Lua (1984). Retornou ao BEG em 1985 e chegou até sua retirada, em 1995. Também lançou obras como Canto de Amar (1986), Menina dos Olhos (1987) e Isso de Nós (1990). Alguns de seus poemas foram musicados por artistas como Gilberto Correia e Amauri Garcia.

Foi eleito para a Academia Goiana de Letras em outubro de 1996, tomando posse em fevereiro de 1997. No mesmo ano, participou de um encontro internacional de escritores em Israel.

Expansão com a era digital

Nos anos 1990, sua produção alcançou o público internacional. Seus poemas foram publicados em Portugal, e sua página pessoal integra o portal de poesia da Unesco.

Lançou Deu no Jornal (2000) e Meus Poemas do Século XX (2001). Em 2003, participou da Bienal do Livro do Rio de Janeiro, comemorando 25 anos de carreira com o lançamento do livro Sarau . Atuou ainda na cooperação do Memorial José J. Veiga, no SESC Goiânia (2007), e participou de diversos eventos acadêmicos e literários pelo país.

Reconhecimento e homenagens

Em 17 de setembro de 2009, recebeu o título de Cidadão Pienopolino da Câmara Municipal de Pirenópolis. No mesmo ano, publicou Meia Ponte do Rosário, Pirenópolis .

Durante uma década de 2010, avançou ativo na literatura, com lançamentos como Ah, Língua Brasileira! e novas edições de obras anteriores. Seu livro A Noite Dormiu Mais Cedo teve segunda edição externa ao público do ensino médio.

Poemas

7

Harmonia

Harmonia

Essas mãos já se tocaram
antes
e se afagaram feito jeito
de criança sonolenta.

Essas mãos andaram juntas
muito tempo
e se desejaram tanto tempo.

Agora essas mãos se deram
de vez
e querem envelhecer
sempre unidas.

1 108

Discurso de posse

A cidade — era assim que a chamávamos — não era mais que meia dúzia de ruas casca-lhadas, vermelhas, determinadas por casas hu-mildes onde habitavam pessoas igualmente hu-mildes, além de uns poucos e austeros senhores que jamais imaginávamos em mangas de cami-sa. Na praça, a única praça, o maior edifício era a igreja, mutilada em uma das torres, presidindo o largo onde, poucos anos antes, um jovem prefeito começara a construir o jardim. Aborta-do o projeto pela redemocratização que se se-guiu ao término da Segunda Grande Guerra, fi-cou apenas um calçamento em quadrado, já de-lineadas as alas de travessia.
Aquele começo de urbanização do único logradouro público de convívio e lazer — início inevitável de dezenas de novas famílias e que se resumia ao quadrado de cimento, postes orna-mentais e mudas crescentes de fícus em cada canto — é o cartão-postal que mais evoca a in-fância na remota e esquecida Caldas Novas das boas imagens. O despertar para o turismo nos anos 20 de mim, ou, se preferirem, a casa do tempo que vai de 1965 a 1975, foi significativo. Amadureceu o homem, transfigurou a cidadela.
Hoje, a lembrança dos anos verdes não confere com o cartão-postal que lhe deveria equivaler. As lembranças da paisagem são re-motas. Ficou o recordar do modo de sentir, do jeito de crescer. Há a lembrança das histórias contadas por minha mãe e que serviam para evocar o sono, um livro de páginas amareladas e capa dura, os Contos da Carochinha lidos com voz de acalanto, o beijo na testa, a oração de pedir que Deus nos protegesse e de esperar per-dão pelo dia de alegrias, como se fosse pecado ser criança e feliz.
Desde os mais tenros anos, os acordes em saraus musicais e suas inevitáveis conseqüênci-as, as serenatas, mostravam a carícia dos versos, vestidos em vestes as mais nobres, quais sejam as linhas melódicas. Era ainda um tempo de re-viver preciosidades de Chiquinha Gonzaga, Er-nesto Nazaré, Zequinha de Abreu, Noel Rosa e Lamartine Babo, mas sem desprezar as novida-des, e a novidade mais interessante era Luiz Gonzaga, cantando versos de Humberto Teixei-ra.
A esse ambiente, atribuo a razão de fugir das escalações para o joguinho de bola ao lado da igreja, preferindo dedicar-me a um novo e solitário passatempo, a leitura de imensas pilhas de gibis, descobertos entre os tesouros do primo Rogério, estudante interno em Araguari. Aquele acervo me convenceria, anos depois, que seu dono não teria sido um aluno 0brilhante, mas sempre o respeitaria por ser o responsável, entre outras qualidades e valores morais, pelo prazer descoberto do manuseio dessas coisas feitas em papel e tinta, pelas inebriantes viagens pelo des-conhecido e pelo inusitado a partir das páginas dos livros.
Tanta delonga sobre a infância para tentar justificar o ofício de escriba, a qualidade que me permitiu a sobrevivência nesta terra em que o berro do boi e a extensão monótona dos arais e dos vergéis valem mais que o cultivo das letras.
Acredito nas letras e nas mulheres e ho-mens de letras. E essa crença remonta aos anos dos primeiros aprendizados. Sou do tempo em que estudar os versos era indispensável, mas versejar era considerado uma prática afeminada. Nos primórdios do curso ginasial, no sempre amado Colégio Pedro II, questionava esse con-ceito ao observar que os versos que nos davam de beber foram, em sua quase totalidade abso-luta, criados por homens. E homens que tiveram força na história e geraram famílias que deles se orgulhavam. Já naquela época, no chacoalhar do trem de todos os dias a caminho do colégio, o ritmo das rodas duras sobre os rijos trilhos e o jogar inquieto dos vagões insinuavam versos. Imaginava-me Bandeira a criar a onomotopéia: "Café-com-pão, café-com-pão, café-com-pão... Voa fumaça, corre cerca, ai, seu foguista, bota fogo na fornalha que eu preciso muita força, muita força, muita força..."
Sim, o menino precisava força. Não a for-ça dos tenazes conquistadores de espaços geo-gráficos, nem a força dos que erguem obras físi-cas ou constroem impérios. Geógrafo de forma-ção, parece que nasci para historiar. E como a força de que precisava não era para construir maravilhas da engenharia, o jornalismo foi cres-cendo como opção e prazer, tornando-se profis-são pouco após ter vindo a lume meu livro de estréia.
Leitor de colunistas como Adalgiza Nery, Stanislaw Ponte Preta e Nelson Rodrigues, em tempos da vivência adolescente na velha capital federal, encontrei em Anatole Ramos e Carmo Bernardes meus preferidos após o retorno ao Planalto Central, ambos cronistas no semanário Cinco de Março, depois no matutino O Popu-lar, teimosos em contestar o regime, hábeis em dizer pensamentos em letras de forma de modo a engambelar os censores.
Com o tempo, aprenderia a apreciar ou-tros notáveis homens de letras de nossa terra, em textos de jornais e de livros, e vou restringi-los aos membros desta Casa para não fazer desta peça, escrita para a fala, um enfadonho desfilar de nomes a que sou grato pelo bem que me fizeram ao espírito e pelo aprendizado. Fi-quemos, pois, em Bariani, Eli, Bernardo, Castro Quinta, os irmãos Mendonça Teles, meu velho amigo Coelho Vaz, meu quase irmão Brasigóis, Eliézer Penna — meu editor no já citado Cinco de Março —, Asmar e Bittencourt — compa-nheiros na Folha de Goiaz — e Eurico Barbosa — com quem convivi no Diário da Manhã.
A Carmo Bernardes atribuo o ato da pro-vocação para que me oferecesse ante as senho-ras e os senhores membros desta Academia. Demorei-me a tomar a decisão, e o fiz no mo-mento em que vagava a Cadeira número 8, do meu velho mestre José Sizenando Jayme, sendo vencido pelo notável Isócrates de Oliveira, vigá-rio de minha infância na pacata Caldas Novas. Naquela disputa, uma certeza nos norteava — assegurar um lampejo de continuidade na Cadei-ra, pois que o eleito, como seu antecessor, nas-ceram em Pirenópolis, cidade natal de meu pai e meu torrão preferido pelo sedimento das ori-gens.
Acredito que o fato de vir a ocupar a Ca-deira número 10, a mesma que ocupava Carmo Bernardes, cumpre uma ação de destino. Acom-panhei seus escritos de resistência desde os primórdios de 1963; preocupei-me quando de seu exílio nas lezírias do Araguaia, nos tempos tumultuados do golpe militar de 1964, e pude rir, feliz, ao ouvir que o general Riograndino Kruel, um dos líderes do sectário golpe, o teve por guia de pescaria, sem saber de sua vida. So-zinhos, na solidão dos lagos piscosos do Bana-nal, no limitado espaço de uma canoa, tendo entre ambos não mais que varas, linhas, iscas e molinete e uma espingarda. Talvez providencial, fosse Carmo sanguinário.
Carmo Bernardes trazia na índole a tradi-ção do bom mineiro, o homem da terra, o caipi-ra, na mais pura das acepções do termo, o ho-mem silencioso, observador, que pisa com segu-rança o terreno porque sabe que o mato reserva surpresas ao pé descalço. Mas corajoso o bas-tante para expor sua opinião, espalhar ao mundo sua indignação e mostrar aos que se julgam po-derosos que o poder de verdade é maior que a chance que conseguem alguns de manipular o patrimônio público a bel-prazer. A estes, a his-tória reserva a verdade de suas naturezas; a ho-mens como Carmo, fica assegurado o lugar que lhes cabe por direito de vida, qual seja o reco-nhecimento e o respeito de seus pósteros.
Não gostaria de biografá-lo; muito já se escreveu sobre ele.
Não tenho estatura crítica para apreciar sua obra, e isto já se fez no âmbito acadêmico, até mesmo em redações de mestrado e teses de doutorado. Nunca fui mais que um mero leitor , aprendiz de sua verve. Com ele, em suas crôni-cas e artigos da década de 60, tive excelentes lições de jornalismo — a principal delas talvez seja a prática que cultivo de não pôr em letras de forma o nome de quem não o mereça.
Por patrono, tenho o também jornalista Moisés Augusto de Santana. Vilaboense, nasci-do no dia 7 de fevereiro de 1879, quis ser mili-tar. O temperamento irrequieto e a indisciplina de homem
932

Precognição

Precognição

Gosto da vida e deixo
que a noite me vista
de escuro.

Nem sempre é de justo
mostrar-se às claras:
hoje sou como era
quando ainda sonhava
com o futuro.

Pode ser que ainda cresça,
mas é bom ser criança
de gris e de rugas.

942

Poema da aceitação

Eu prefiro ficar de cá, cobrindo co’as mãos a própria boca
para evitar microfonia.
Um dia, se me deixar levar, posso perder-me
e sofrer, porque nunca perco a noção do tempo.
Esta noite,
sonharei contigo e vou ver-te neste sonho
onde estivemos antes, há poucas horas,
porque o tempo te parece enorme num instante
e posso saber-te distante
uma eternidade entre duas doses.

A angústia, eu sei,
eu a criei
e me apego a ela.
A mágoa existe,
cresceu em meu peito
e não sou josés
porque não fui o primeiro nem serei último.
A dor, por mais profunda,
não te interessa: houve dores maiores
e não as senti em mim.

1 973

Clave de Lua

Clave de Lua

Cantar é tão longe
como o encontro efêmero
num verso travesso
acontecido infeliz.

Cantar é tão doce
como o encontro esperado
e demorado
num pentagrama, dois por dois.

Cantar é a clave
de sol crescente
em fundo de lua
cheia de amor
perfeito pra nós.

Cantar é te ver
cantando esperanças
pros meus sentidos.

1 254

Alguém, se Não Vieres

Alguém, se Não Vieres

Eu preciso que me olhes nos olhos
e decifres a angústia
que te atrai e me tortura.
Eu preciso te dizer certas coisas
que se calaram em mim quando te vi
na manhã imprevista
e indecisa,
mas dizer estas coisas custa ânsias
incontroláveis.

Eu preciso de vez que te chegues a mim
e não me digas bom-dia
e nem me cobres os dias e noites
da nossa ausência.

Eu preciso de alguém
que converse comigo
no amanhecer.

992

Mudanças

Mudanças

Eu tenho uma vaga lembrança
deste prédio, desta casa.
Fui feliz aqui, eu sei,
mas me lembro pouco de ter estado aqui,
me lembro pouco de ter-te assim
tão próxima
e até de ter sido feliz.

Eu tenho uma vaga lembrança
de ter estado aqui
mas gosto de estar aqui.
E te convido para estar comigo
sempre
para estar comigo ao meu lado,
do meu lado,
onde estou daqui para sempre.

976

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.