Poemas neste tema
Alma
António Quadros
Ode ao Cristo
das Janelas Verdes
Quem te pintou triste e secreto,
Ó Cristo de olhar vendado,
Ó Cristo misterioso,
Abandonado
No Museu das Janelas Verdes,
Quem te pintou saudoso,
Talvez do Céu, talvez do Homem,
Talvez da criação antes da prova,
Quem te pintou assim, sereno e encoberto,
Imagem nova
Que um povo a ti votado
Um dia descobriu?
Ninguém conhece o mestre que te viu
Enigmático, silencioso,
Um Deus, dir-se-ia, envergonhado,
Mais que humilhado,
Vexado
Porque a palavra se cumpriu,
Porque na hora precisa
Os seus irmãos eleitos
O julgaram,
O feriram,
O mataram
E porque ao longo deste tempo interminável,
Após a crucifixão,
Após a ressurreição
O julgamento prossegue,
A tortura, o crime,
A traição,
O deicídio constantemente perpetrado
Ao sabor da existência quotidiana.
Ninguém conhece o pintor, o iniciado,
O sabedor do mistério
Que é o longo movimento necessário
Do nosso universo imaginário,
Onde tudo é signo e símbolo,
Onde o olhar de Jesus, encoberto,
Ensina a suprema perfeição
De um Deus capaz de amar
E de chorar,
De um Deus assassinado capaz de ressurgir
E de voltar
Sem parábolas, sem cifras, sem véus
Na plenitude da final revelação.
Ah, não, bizantinos sonhadores,
Não estetas da Itália,
Da França,
Mestres da Flandria,
Da fria Inglaterra,
Da férrea Germânia,
Não pintores da Espanha,
Vossa não podia ser a exata imagem
Que um português criou e jaz sepulta
No Museu das janelas Verdes, em Lisboa!
De Ti, sábio Jesus,
Promotor do movimento necessário,
Homem secreto do futuro cumprido,
De Ti fizeram um diáfano celeste
De ouro ornado e neste mundo perdido,
Um reflexo do maravilhoso céu sonhado,
Entre nós caído
Para que místicamente o contemplássemos...
De Ti fizeram um Orfeu ou um Apolo,
Querendo idealizar-te à helênica medida,
A finita estrutura
Do sedutor, estético humanismo...
De Ti fizeram um racional justiceiro,
Um implacável profeta, um missionário
Da Lei divina,
Um Rei,
Um General,
Um Papa,
De Ti fizeram ainda um comerciante de almas
Demasiado carnal,
Demasiado terreno em cenas burguesas,
Em habituais paisagens holandesas,
De Ti fizeram um transcendente imperador
Que pela vontade e nela inteligência
Os homens foi capaz, de dominar...
De Ti fizeram um humano angustiado,
Primeiro Ator do teatro do mundo,
Aflito protagonisa de tragédia...
Mas Tu não choras, ó Cristo,
Pelo Teu padecimento,
Não sais fora de Ti em esgares de sofrimento,
Não és o magro asceta castelhano,
O torturado místico envolto em sombras,
O cadaveroso deformado!
Sofres, sereno,
Sofres, saudoso,
Sofres, sábio e santo
Mas não por Ti,
Se sofres é por nós, sempre e hoje,
Nos no longo, interminável tempo,
Nós em guerras, em doenças, em horrores,
Nós, infiéis de geração em geração,
Nós perdidos,
Nós esquecidos,
Nós, livres, libertos, todavia,
Senhores da invocação, da decisão,
Senhores da graça luminosa
Ou do erro gasto e repetido.
Sofres secreto
E o teu olhar de fogo ficará oculto
Até que à pureza humana o possas desvelar.
Este é o povo das grandes, longas quedas
E também das grandes, fundas intuições,
Este é o povo que em Cristo vê o Messias revelado
E também o Messias encoberto de porvir,
Este é o povo que ama o Deus menino
Porque até na maturidade do Cristo renascido
Descobre a virtualidade infinita, irrevelada,
O imenso Ser, para lá de toda a imagem,
O Espírito sem limites que a infância anuncia
E que jamais, num conceito, num olhar,
Jamais numa verdade humana se detém.
Ó Cristo de olhar vendado,
Ó Cristo misterioso,
Abandonado
No Museu das Janelas Verdes,
Ó Cristo encoberto e final,
Vem,
Traz até nós o que ainda não somos,
Ensina-nos a sermos o para que nos criastes,
Em nome do nosso apelo,
Em nome do nosso sonho,
Em nome do nosso almejar-te e conceber-te
Tu e Outro,
Patente e todavia encoberto
Como no Ecce Homo das Janelas Verdes,
Em nome do desejo de total superação
Que subsiste no coração de todos os humanos,
De todos sem exceção,
Vem
E consagra a matéria deste mundo,
O que em nós pesa e obsta
A luz imensa do Teu Espírito,
Que todos pressentimos,
Todos sem exceção,
Ainda quando três vezes Te negamos.
Ó Cristo próximo e distante,
Ó Cristo saudoso,
Misterioso,
Vem...
Conhecemos a dor,
Tarda-nos o amor,
Vem conosco no termos merecido
O império de paz que no mundo cindido
Entre gente próxima edificamos,
Vem conosco no olharmos ao espelho dos teus olhos desvelados.
A nossa clara imagem descoberta,
Vem conosco, Irmão,
Na alegria de cantar aos quatro ventos,
Nos cinco continentes, nas terras e nos céus,
Ecce Homo! Enfim, enfim, o Homem!
Quem te pintou triste e secreto,
Ó Cristo de olhar vendado,
Ó Cristo misterioso,
Abandonado
No Museu das Janelas Verdes,
Quem te pintou saudoso,
Talvez do Céu, talvez do Homem,
Talvez da criação antes da prova,
Quem te pintou assim, sereno e encoberto,
Imagem nova
Que um povo a ti votado
Um dia descobriu?
Ninguém conhece o mestre que te viu
Enigmático, silencioso,
Um Deus, dir-se-ia, envergonhado,
Mais que humilhado,
Vexado
Porque a palavra se cumpriu,
Porque na hora precisa
Os seus irmãos eleitos
O julgaram,
O feriram,
O mataram
E porque ao longo deste tempo interminável,
Após a crucifixão,
Após a ressurreição
O julgamento prossegue,
A tortura, o crime,
A traição,
O deicídio constantemente perpetrado
Ao sabor da existência quotidiana.
Ninguém conhece o pintor, o iniciado,
O sabedor do mistério
Que é o longo movimento necessário
Do nosso universo imaginário,
Onde tudo é signo e símbolo,
Onde o olhar de Jesus, encoberto,
Ensina a suprema perfeição
De um Deus capaz de amar
E de chorar,
De um Deus assassinado capaz de ressurgir
E de voltar
Sem parábolas, sem cifras, sem véus
Na plenitude da final revelação.
Ah, não, bizantinos sonhadores,
Não estetas da Itália,
Da França,
Mestres da Flandria,
Da fria Inglaterra,
Da férrea Germânia,
Não pintores da Espanha,
Vossa não podia ser a exata imagem
Que um português criou e jaz sepulta
No Museu das janelas Verdes, em Lisboa!
De Ti, sábio Jesus,
Promotor do movimento necessário,
Homem secreto do futuro cumprido,
De Ti fizeram um diáfano celeste
De ouro ornado e neste mundo perdido,
Um reflexo do maravilhoso céu sonhado,
Entre nós caído
Para que místicamente o contemplássemos...
De Ti fizeram um Orfeu ou um Apolo,
Querendo idealizar-te à helênica medida,
A finita estrutura
Do sedutor, estético humanismo...
De Ti fizeram um racional justiceiro,
Um implacável profeta, um missionário
Da Lei divina,
Um Rei,
Um General,
Um Papa,
De Ti fizeram ainda um comerciante de almas
Demasiado carnal,
Demasiado terreno em cenas burguesas,
Em habituais paisagens holandesas,
De Ti fizeram um transcendente imperador
Que pela vontade e nela inteligência
Os homens foi capaz, de dominar...
De Ti fizeram um humano angustiado,
Primeiro Ator do teatro do mundo,
Aflito protagonisa de tragédia...
Mas Tu não choras, ó Cristo,
Pelo Teu padecimento,
Não sais fora de Ti em esgares de sofrimento,
Não és o magro asceta castelhano,
O torturado místico envolto em sombras,
O cadaveroso deformado!
Sofres, sereno,
Sofres, saudoso,
Sofres, sábio e santo
Mas não por Ti,
Se sofres é por nós, sempre e hoje,
Nos no longo, interminável tempo,
Nós em guerras, em doenças, em horrores,
Nós, infiéis de geração em geração,
Nós perdidos,
Nós esquecidos,
Nós, livres, libertos, todavia,
Senhores da invocação, da decisão,
Senhores da graça luminosa
Ou do erro gasto e repetido.
Sofres secreto
E o teu olhar de fogo ficará oculto
Até que à pureza humana o possas desvelar.
Este é o povo das grandes, longas quedas
E também das grandes, fundas intuições,
Este é o povo que em Cristo vê o Messias revelado
E também o Messias encoberto de porvir,
Este é o povo que ama o Deus menino
Porque até na maturidade do Cristo renascido
Descobre a virtualidade infinita, irrevelada,
O imenso Ser, para lá de toda a imagem,
O Espírito sem limites que a infância anuncia
E que jamais, num conceito, num olhar,
Jamais numa verdade humana se detém.
Ó Cristo de olhar vendado,
Ó Cristo misterioso,
Abandonado
No Museu das Janelas Verdes,
Ó Cristo encoberto e final,
Vem,
Traz até nós o que ainda não somos,
Ensina-nos a sermos o para que nos criastes,
Em nome do nosso apelo,
Em nome do nosso sonho,
Em nome do nosso almejar-te e conceber-te
Tu e Outro,
Patente e todavia encoberto
Como no Ecce Homo das Janelas Verdes,
Em nome do desejo de total superação
Que subsiste no coração de todos os humanos,
De todos sem exceção,
Vem
E consagra a matéria deste mundo,
O que em nós pesa e obsta
A luz imensa do Teu Espírito,
Que todos pressentimos,
Todos sem exceção,
Ainda quando três vezes Te negamos.
Ó Cristo próximo e distante,
Ó Cristo saudoso,
Misterioso,
Vem...
Conhecemos a dor,
Tarda-nos o amor,
Vem conosco no termos merecido
O império de paz que no mundo cindido
Entre gente próxima edificamos,
Vem conosco no olharmos ao espelho dos teus olhos desvelados.
A nossa clara imagem descoberta,
Vem conosco, Irmão,
Na alegria de cantar aos quatro ventos,
Nos cinco continentes, nas terras e nos céus,
Ecce Homo! Enfim, enfim, o Homem!
1 204
Anderson Braga Horta
Balões
Por que é triste a beleza?
O belo perceptível
é uma ilusão de abraço
entre o aqui e o invisível.
É mera tentativa,
a beleza tocável,
de ponte — escassa e breve —
entre o real e o ilocável.
Por isso o belo é apenas
o sustentar de um dó,
e sua fruição
cabe num peito só.
É gesto solitário
antes que a ansiada união.
Arremedo de céu
que estoura ao rés do chão.
O belo perceptível
é uma ilusão de abraço
entre o aqui e o invisível.
É mera tentativa,
a beleza tocável,
de ponte — escassa e breve —
entre o real e o ilocável.
Por isso o belo é apenas
o sustentar de um dó,
e sua fruição
cabe num peito só.
É gesto solitário
antes que a ansiada união.
Arremedo de céu
que estoura ao rés do chão.
1 124
Antônio Nunes de Siqueira
Soneto Acróstico
Voe da fama, ao sempre merecido
Aplauso, que vos deve eternamente,
Sonora tuba com trinado ardente,
Clamor perpétuo de eco enobrecido;
O vosso nome aclame, (que esculpido
Firme de bronze lâmina eminente
Expende) eternizando felizmente
Raro assombro, e jamais nunca excedido
Zenit: Diga que sois o mais glorioso
César, prodígio insigne da eloqüência,
Exemplo singular do valeroso:
Sol, que com predigníssima excelência,
Ainda no Ocidente, luminoso
Repartis, sempre igual, vossa influência.
Aplauso, que vos deve eternamente,
Sonora tuba com trinado ardente,
Clamor perpétuo de eco enobrecido;
O vosso nome aclame, (que esculpido
Firme de bronze lâmina eminente
Expende) eternizando felizmente
Raro assombro, e jamais nunca excedido
Zenit: Diga que sois o mais glorioso
César, prodígio insigne da eloqüência,
Exemplo singular do valeroso:
Sol, que com predigníssima excelência,
Ainda no Ocidente, luminoso
Repartis, sempre igual, vossa influência.
539
Antonio Roberval Miketen
Night
A breeze ripples
huge leaves
in the depth
of my silence.
A wave floods
my conscience
that submerges
in the tense waters.
Memories shine
from a star
at no time traced.
Deep inside
roars the eternal scream
of earth covered by darkness.
huge leaves
in the depth
of my silence.
A wave floods
my conscience
that submerges
in the tense waters.
Memories shine
from a star
at no time traced.
Deep inside
roars the eternal scream
of earth covered by darkness.
889
Antonio Roberval Miketen
Lição da Luz
I
De súbito o silêncio tornou-se de luz,
em tecido de música, em súdito azul.
II
Acha nas sílabas a luz,
a harmonia, o som do universo,
para que ouçamos o silêncio,
este nosso humano silêncio,
para que possamos, poeta,
pisar a página do sangue.
III
Quase visível rosa tocável do pomo,
uma ogiva, no assombro, nos ombros da pomba.
IV
Nós abandonamos as coisas
porque crescemos para o sol.
Entre o que deixamos atrás,
sem piedade, sem remorso,
existe a inocência, o menino;
existe o passarinho triste,
que canta da nudez da luz
a elegia da consciência.
V
Que música, que música apaga-se ao longe,
regida pelas asas da ave no horizonte?
VI
Escreve somente o que é breve,
na breve luz de nossa vida,
que nunca aborrece as crianças
e não molha margens no olhar.
Assim queremos teus cadernos,
para mergulharmos nas algas,
naquelas raízes mais fundas
que acendem o verde do mar.
VII
Chega da lucidez, a claridade, o busto,
a puberdade lenta, no seio do susto.
VIII
A pupila de uma gazela
rasga os rochedos do horizonte.
Violeta, a janela da noite,
para o lado leste do azul,
onde no anil se esconde o ventre.
IX
No outono: o bruxuleio de polpa,; enxutas;
no vestígio do sangue, a luxúria da fruta.
X
No silêncio que se abre entre dobres de sinos,
há um passarinho morto, em lugar de um menino.
De súbito o silêncio tornou-se de luz,
em tecido de música, em súdito azul.
II
Acha nas sílabas a luz,
a harmonia, o som do universo,
para que ouçamos o silêncio,
este nosso humano silêncio,
para que possamos, poeta,
pisar a página do sangue.
III
Quase visível rosa tocável do pomo,
uma ogiva, no assombro, nos ombros da pomba.
IV
Nós abandonamos as coisas
porque crescemos para o sol.
Entre o que deixamos atrás,
sem piedade, sem remorso,
existe a inocência, o menino;
existe o passarinho triste,
que canta da nudez da luz
a elegia da consciência.
V
Que música, que música apaga-se ao longe,
regida pelas asas da ave no horizonte?
VI
Escreve somente o que é breve,
na breve luz de nossa vida,
que nunca aborrece as crianças
e não molha margens no olhar.
Assim queremos teus cadernos,
para mergulharmos nas algas,
naquelas raízes mais fundas
que acendem o verde do mar.
VII
Chega da lucidez, a claridade, o busto,
a puberdade lenta, no seio do susto.
VIII
A pupila de uma gazela
rasga os rochedos do horizonte.
Violeta, a janela da noite,
para o lado leste do azul,
onde no anil se esconde o ventre.
IX
No outono: o bruxuleio de polpa,; enxutas;
no vestígio do sangue, a luxúria da fruta.
X
No silêncio que se abre entre dobres de sinos,
há um passarinho morto, em lugar de um menino.
970
Antunes da Silva
Senhor Vento
Senhor Vento, ó Senhor Vento,
já não me posso conter,
veio a seca, tanto sol,
que anda por aqui a fazer?
Vá-se embora Senhor Vento,
não são horas daqui estar,
não há trevo nem há água
para o gado apascentar.
Tudo seco, Senhor Vento,
ai que morte, que morrer,
não há suco nem há seiva,
cinco meses sem chover...
Se cá ficar, Senhor Vento,
não tempera, só destapa
os horizontes de nuvens,
não há chuva neste mapa.
Tape a chaga, Senhor Vento,
siga siga para o mar,
já lhe disse, vá-se embora,
não são horas daqui estar!
Dou-lhe um tiro, Senhor Vento,
se andar aqui mais um dia,
gira gira, fora fora,
mande a chuva, não se ria.
Obrigado, Senhor Vento,
Empurre a nuvens, agora,
isso mesmo, traga as águas!
De contente, a terra chora.
já não me posso conter,
veio a seca, tanto sol,
que anda por aqui a fazer?
Vá-se embora Senhor Vento,
não são horas daqui estar,
não há trevo nem há água
para o gado apascentar.
Tudo seco, Senhor Vento,
ai que morte, que morrer,
não há suco nem há seiva,
cinco meses sem chover...
Se cá ficar, Senhor Vento,
não tempera, só destapa
os horizontes de nuvens,
não há chuva neste mapa.
Tape a chaga, Senhor Vento,
siga siga para o mar,
já lhe disse, vá-se embora,
não são horas daqui estar!
Dou-lhe um tiro, Senhor Vento,
se andar aqui mais um dia,
gira gira, fora fora,
mande a chuva, não se ria.
Obrigado, Senhor Vento,
Empurre a nuvens, agora,
isso mesmo, traga as águas!
De contente, a terra chora.
1 240
Antonio Roberval Miketen
Es Tarde para la Mañana
A Simone
Pobre pollito indefenso,
apoyado en la lata de basura,
en la descontracción de una chaqueta
de lujo, viniendo de una secreta
sibelina, más fina
que la piel humana.
En lo alto, las nubes
acaban de teñirse
en el amarillo de tu suavidad.
La tarde atardeció en la mañana.
Tus ojitos, todavia abiertos,
querían mis manos
en el dorso de tu plumón.
Querían que yo todavia
fuese niño, niño
que ofreciese mi inocencia
sólo para el niño
que piaba en ti.
Gentil era tu mansedumbre,
inclinada sobre una rosa rota,
pues descansabas tu eternidad
sobre un bouquet despreciado
por haberse marchitado.
Pero debajo de ti
cada pétalo todavía sangraba,
dejando una mancha de vino
en el descanso de tu vientre.
Fué cuando yo pasé,
ya estabas muerto cuando yo pasé
enamorado por el poniente,
olvidado de la mañana
que subía de tus ojitos.
Pobre pollito indefenso,
apoyado en la lata de basura,
en la descontracción de una chaqueta
de lujo, viniendo de una secreta
sibelina, más fina
que la piel humana.
En lo alto, las nubes
acaban de teñirse
en el amarillo de tu suavidad.
La tarde atardeció en la mañana.
Tus ojitos, todavia abiertos,
querían mis manos
en el dorso de tu plumón.
Querían que yo todavia
fuese niño, niño
que ofreciese mi inocencia
sólo para el niño
que piaba en ti.
Gentil era tu mansedumbre,
inclinada sobre una rosa rota,
pues descansabas tu eternidad
sobre un bouquet despreciado
por haberse marchitado.
Pero debajo de ti
cada pétalo todavía sangraba,
dejando una mancha de vino
en el descanso de tu vientre.
Fué cuando yo pasé,
ya estabas muerto cuando yo pasé
enamorado por el poniente,
olvidado de la mañana
que subía de tus ojitos.
638
Antônio Massa
Voar
O vero ato de voar
é ir de encontro
à lancinante escala
da escalada vítrea da vida,
abusando do sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
é preciso morrer
no todo poderoso som da ânima
e reerguer-se nas sombras
das harmoniosas cadências
para descobrir o sentido,
o sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
som:
narcótico necessário,
vício complementar
dos ruídos medonhos e fanhos
da estatelada alma;
primeira, sexta e sempre,
una no céu do sentir
é ir de encontro
à lancinante escala
da escalada vítrea da vida,
abusando do sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
é preciso morrer
no todo poderoso som da ânima
e reerguer-se nas sombras
das harmoniosas cadências
para descobrir o sentido,
o sexto sentido;
primeiro da música
- extensão da alma
som:
narcótico necessário,
vício complementar
dos ruídos medonhos e fanhos
da estatelada alma;
primeira, sexta e sempre,
una no céu do sentir
864
Antonio Roberval Miketen
Oitava Cantiga de Amigo
Junto às vagas do mar de Vigo,
venho ao relembrar de um amigo.
Aves põem plumas no horizonte
e as plumas, águas de uma fonte,
em Vigo, nas algas do mar,
do amigo, trazem-me o tardar.
Do além-mar vem, leve por plumas,
a dor que não quero chorar.
Porém as gaivotas põem brumas,
no profundo de meu penar,
onde, às margens do mar de Vigo,
venho ao relembrar de um amigo.
venho ao relembrar de um amigo.
Aves põem plumas no horizonte
e as plumas, águas de uma fonte,
em Vigo, nas algas do mar,
do amigo, trazem-me o tardar.
Do além-mar vem, leve por plumas,
a dor que não quero chorar.
Porém as gaivotas põem brumas,
no profundo de meu penar,
onde, às margens do mar de Vigo,
venho ao relembrar de um amigo.
1 104
Anderson Braga Horta
Oração
A Casa de meu Pai tem muitas moradas.
O universo é meu lar.
Não conheço fronteiras.
Pequeno verme num pomar de estrelas,
deu-me o pai infinitas vidas
para em todas ardê-las.
No seio de meu Pai estou, mesmo na queda.
Sem desespero encaro
minha pobre verdade.
E sei, por este mesmo anseio de alto,
que — além da eternidade —
me espera a eternidade.
O universo é meu lar.
Não conheço fronteiras.
Pequeno verme num pomar de estrelas,
deu-me o pai infinitas vidas
para em todas ardê-las.
No seio de meu Pai estou, mesmo na queda.
Sem desespero encaro
minha pobre verdade.
E sei, por este mesmo anseio de alto,
que — além da eternidade —
me espera a eternidade.
1 139
Antonio Roberval Miketen
For Simone
These hands of yours,
tiny little hands,
seaweeds in the silence,
bathed in light:
to what encounter,
tell me, daughter of mine,
to what fate
the fountain leads them?
tiny little hands,
seaweeds in the silence,
bathed in light:
to what encounter,
tell me, daughter of mine,
to what fate
the fountain leads them?
974
Américo Pellegrini Filho
Haicai
Tão grande árvore
da semente pequenininha
— uma árvore!
Início do ano
futuro que chegou.
Preparado estou?
da semente pequenininha
— uma árvore!
Início do ano
futuro que chegou.
Preparado estou?
1 319
Antonio Roberval Miketen
Opportunioty of the Rose
I
The Song of João Moura
The bullfighter shouted in the center of the arena
and the horse danced in the depth of fear.
II
Picasso wanted to paint an arena,
full-sized, accurate,
with miuras with needle-sharp horns, carved
under the sleek black mountains.
On the canvas of the painter bad omens show:
in Guernica, did he paint the victory of the bull?
Consider that the arenas are human roses
ready to burst with the rage of the blood.
If Picassos dream were not so absurd,
Manolete, for sure, in his gala outfit
remembering Linares, would give himself to the bull:
would he repeat, once again, the faena of the rose?
III
Why do we trust the bull with the evidence of the wait,
on this chancy dove, innocent yet a beast?
IV
At the very moment when the body is dressed in gala
the heat of the shroud increases its nakednes.
V
Tragedy of "YIYO"
The mortal spike ripping the flesh
of the bullfighter makes sprout a brutal beauty.
VI
Will I see the day when the bull will find its luck
in the prime of the fake womb of the reckless veronica?
The Song of João Moura
The bullfighter shouted in the center of the arena
and the horse danced in the depth of fear.
II
Picasso wanted to paint an arena,
full-sized, accurate,
with miuras with needle-sharp horns, carved
under the sleek black mountains.
On the canvas of the painter bad omens show:
in Guernica, did he paint the victory of the bull?
Consider that the arenas are human roses
ready to burst with the rage of the blood.
If Picassos dream were not so absurd,
Manolete, for sure, in his gala outfit
remembering Linares, would give himself to the bull:
would he repeat, once again, the faena of the rose?
III
Why do we trust the bull with the evidence of the wait,
on this chancy dove, innocent yet a beast?
IV
At the very moment when the body is dressed in gala
the heat of the shroud increases its nakednes.
V
Tragedy of "YIYO"
The mortal spike ripping the flesh
of the bullfighter makes sprout a brutal beauty.
VI
Will I see the day when the bull will find its luck
in the prime of the fake womb of the reckless veronica?
754
Antonio Roberval Miketen
It is Late to be Morning
For Simone
Poor little helpless baby chick,
leaning against the thrash can,
at ease in a coat of sheer luxury,
derived from a secret sable fur,
finer
than human skin.
High up, the clouds
are becoming the color
of the yellow of your softness.
The evening turned the morning late.
Your little eyes still open
want my hands
touching the back of your feathers.
They want me to be a small boy,
a small boy offering my innocence
to the little child that chirps inside you.
Sweet was your tameness
bent over a defeated rose,
while you rested your eternity
on a bouquet of roses, despised
because withered.
But under you each petal bleeded,
leaving a stain of wine
in the rniddle of your belly.
I then passed by,
you were already dead when I passed by
enamored of the sunset,
oblivious of the morning
that was rising in your little eyes.
Poor little helpless baby chick,
leaning against the thrash can,
at ease in a coat of sheer luxury,
derived from a secret sable fur,
finer
than human skin.
High up, the clouds
are becoming the color
of the yellow of your softness.
The evening turned the morning late.
Your little eyes still open
want my hands
touching the back of your feathers.
They want me to be a small boy,
a small boy offering my innocence
to the little child that chirps inside you.
Sweet was your tameness
bent over a defeated rose,
while you rested your eternity
on a bouquet of roses, despised
because withered.
But under you each petal bleeded,
leaving a stain of wine
in the rniddle of your belly.
I then passed by,
you were already dead when I passed by
enamored of the sunset,
oblivious of the morning
that was rising in your little eyes.
937
Antonio Roberval Miketen
Lesson of Light
I
Suddenly the silence turns into light,
as if strains of music, as if a subject in blue.
II
To find light within phrases,
the harmony, the sound of the universe,
so that we can hear the silence,
our own human silence,
so that we can, poet,
step on a page of blood.
III
Almost visible touchable pink of the poem,
an ogive, bewitched, on the shoulders of a dove.
IV
We forsake many things
because we grow towards the sun.
Amongst what we leave behind,
without piety, without remorse,
exists the innocence, the child;
like a sad little bird,
which sings in the bare light
the elegy of conscience.
V
What music, what music fades away in the distance,
ruled by the wings of the bird on the horizon?
VI
Write only what is brief,
in the short light of our life,
that never disturbs the children
and does not wet the margins of one’s vision.
So we need your notebooks,
to dive among the seaweeds,
within the deepest roots
that will light the green of the sea.
VII
Comes from the lucidness, the shine, the breast,
the slow puberty, within the center of scare.
VIII
The pupil of a gazelle
tears the rocks in the horizon.
Violet, the reflexion of the light,
to the east side of the sky,
where the deepest blue hides within the womb.
IX
In Autumn: the flicks of dry pulps;
on the remains of the life blood, the richness of the fruit.
X
In the silence which opens among the bell knell,
there is a dead little bird, to replace the child.
Suddenly the silence turns into light,
as if strains of music, as if a subject in blue.
II
To find light within phrases,
the harmony, the sound of the universe,
so that we can hear the silence,
our own human silence,
so that we can, poet,
step on a page of blood.
III
Almost visible touchable pink of the poem,
an ogive, bewitched, on the shoulders of a dove.
IV
We forsake many things
because we grow towards the sun.
Amongst what we leave behind,
without piety, without remorse,
exists the innocence, the child;
like a sad little bird,
which sings in the bare light
the elegy of conscience.
V
What music, what music fades away in the distance,
ruled by the wings of the bird on the horizon?
VI
Write only what is brief,
in the short light of our life,
that never disturbs the children
and does not wet the margins of one’s vision.
So we need your notebooks,
to dive among the seaweeds,
within the deepest roots
that will light the green of the sea.
VII
Comes from the lucidness, the shine, the breast,
the slow puberty, within the center of scare.
VIII
The pupil of a gazelle
tears the rocks in the horizon.
Violet, the reflexion of the light,
to the east side of the sky,
where the deepest blue hides within the womb.
IX
In Autumn: the flicks of dry pulps;
on the remains of the life blood, the richness of the fruit.
X
In the silence which opens among the bell knell,
there is a dead little bird, to replace the child.
977
Antonio Roberval Miketen
Noite
Um vento ondula
folhas imensas
no mais profundo
do meu silêncio.
Uma onda inunda
meu consciente
que se afunda
na água intensa.
Memórias brilham
de uma estrela
jamais descrita.
Brama, cá dentro,
o eterno grito
da terra em trevas.
folhas imensas
no mais profundo
do meu silêncio.
Uma onda inunda
meu consciente
que se afunda
na água intensa.
Memórias brilham
de uma estrela
jamais descrita.
Brama, cá dentro,
o eterno grito
da terra em trevas.
860
Antônio Massa
Nocturno
Em adágio sustenuto
Céu
campo melódico
regido pelo ruflar
das asas da noite
O tom
lua cheia
relativa maior
da cativa nua
Violar a sinfonia
da sua alva pele
é transcender o curso
o corpoo som
escutar seu brilho
é compor a alma
recompor a calma
depois do contraponto
O acorde é inverso;
a escala
diminuta;
a partitura, cega,
quando é nuda a lua
Céu
campo melódico
regido pelo ruflar
das asas da noite
O tom
lua cheia
relativa maior
da cativa nua
Violar a sinfonia
da sua alva pele
é transcender o curso
o corpoo som
escutar seu brilho
é compor a alma
recompor a calma
depois do contraponto
O acorde é inverso;
a escala
diminuta;
a partitura, cega,
quando é nuda a lua
936
Antonio Roberval Miketen
Eight Song of Friendship
Close to the waves of the sea of Vigo
I come to remember a friend.
Birds shed feathers at the horizon
and the feathers, water from a spring
in Vigo, on the seaweeds
of the friend announce his delay.
From beyond comes, light as feathers,
the pain I do not want to lament.
But the svagulls fill with mist
the depth of my sorrow,
when, on the shores of the sea of Vigo
I come to remember a friend.
I come to remember a friend.
Birds shed feathers at the horizon
and the feathers, water from a spring
in Vigo, on the seaweeds
of the friend announce his delay.
From beyond comes, light as feathers,
the pain I do not want to lament.
But the svagulls fill with mist
the depth of my sorrow,
when, on the shores of the sea of Vigo
I come to remember a friend.
1 008
Antonio Roberval Miketen
Octava Cantiga de Amigo
Junto a las olas del mar de Vigo,
vengo al recuerdo de un amigo.
Aves ponen plumas en el horizonte
y las plumas, aguas de una fuente,
en Vigo, en las algas del mar,
del amigo me traen el tardar.
De más allá del mar viene, leve por plumas,
el dolor que no quiero llorar.
Sin embargo, las gaviotas ponen brumas
en lo profundo de mi penar,
donde, a orillas del mar de Vigo,
vengo al recuerdo de un amigo.
vengo al recuerdo de un amigo.
Aves ponen plumas en el horizonte
y las plumas, aguas de una fuente,
en Vigo, en las algas del mar,
del amigo me traen el tardar.
De más allá del mar viene, leve por plumas,
el dolor que no quiero llorar.
Sin embargo, las gaviotas ponen brumas
en lo profundo de mi penar,
donde, a orillas del mar de Vigo,
vengo al recuerdo de un amigo.
854
Antonio Roberval Miketen
É Tarde para a Manhã
A Simone
Pobre pintinho indefeso,
encostado na lata de lixo,
na descontração de um casaco
de luxo, vindo de uma secreta
zibelina, mais fina
do que a pele humana.
No alto, as nuvens
acabam de tingir-se
no amarelo da tua maciez.
A tarde entardeceu na manhã.
Os teus olhinhos ainda abertos
queriam as minhas mãos
no dorso da tua penugem.
Queriam que eu ainda
fosse menino, menino
que oferecesse a minha inocência
só para a criança
que piava em ti.
Gentil era a tua mansidão,
debruçada sobre uma rosa rota,
pois descansavas a tua eternidade
sobre um buquê desprezado
por ser trazido de murcho.
Mas debaixo de ti
cada pétala ainda sangrava,
deixando uma mancha de vinho
no descanso do teu ventre.
Foi quando eu passei,
já estavas morto quando eu passei
enamorado pelo poente,
esquecido da manhã
que subia dos teus olhinhos.
Pobre pintinho indefeso,
encostado na lata de lixo,
na descontração de um casaco
de luxo, vindo de uma secreta
zibelina, mais fina
do que a pele humana.
No alto, as nuvens
acabam de tingir-se
no amarelo da tua maciez.
A tarde entardeceu na manhã.
Os teus olhinhos ainda abertos
queriam as minhas mãos
no dorso da tua penugem.
Queriam que eu ainda
fosse menino, menino
que oferecesse a minha inocência
só para a criança
que piava em ti.
Gentil era a tua mansidão,
debruçada sobre uma rosa rota,
pois descansavas a tua eternidade
sobre um buquê desprezado
por ser trazido de murcho.
Mas debaixo de ti
cada pétala ainda sangrava,
deixando uma mancha de vinho
no descanso do teu ventre.
Foi quando eu passei,
já estavas morto quando eu passei
enamorado pelo poente,
esquecido da manhã
que subia dos teus olhinhos.
830
Anderson Braga Horta
Música
Sombra de Deus, modulações do Nada,
que os anjos colhem do chão, com reverência.
O pó que fecundaste infiltra-se nas fendas
do Cosmo, pólen de ouro
em asas de invisíveis borboletas.
Louvamos-te, Senhor: o rastro de tua sombra
desce e ilumina as nossas trevas.
que os anjos colhem do chão, com reverência.
O pó que fecundaste infiltra-se nas fendas
do Cosmo, pólen de ouro
em asas de invisíveis borboletas.
Louvamos-te, Senhor: o rastro de tua sombra
desce e ilumina as nossas trevas.
1 137
Antônio Massa
Gozo
o poetasonhaabsorveamadespeama de novoadornae eterniza a palavra com o suor do seu íntimo
1 064
Araripe Coutinho
Face Morta
Trazes nas mãos o verso adormecido
que ao poente desce murmurante
trazes também a procissão dos atos
no amarelo ácido dos instantes
Quando circundam frestas e anseios
no peito pardo da mulher calada
águias e feras, vultos permanentes,
insistem em despertar a madrugada
Enquanto a vida acarícia a morte
vertidas lágrimas cristalizam a noite
espaços vagos por perdido amante
nutrem de solidão a cavalgada
E nos segredos dos cofres dos amores
a noite enclausura suas vítimas
no coito da manhã assassinada
Amores intermináveis vão rolando
na areia namorada da saudade
e beijos tombam em hálitos venenosos
beijando a face do horizonte amado
E o verso despe-se às escâncaras
mesmo existindo sentimentos amordaçados
e caem pétalas das orquídeas vespertinas
enquanto em silêncio fecham pálpebras
no útero da manhã que ainda dorme.
que ao poente desce murmurante
trazes também a procissão dos atos
no amarelo ácido dos instantes
Quando circundam frestas e anseios
no peito pardo da mulher calada
águias e feras, vultos permanentes,
insistem em despertar a madrugada
Enquanto a vida acarícia a morte
vertidas lágrimas cristalizam a noite
espaços vagos por perdido amante
nutrem de solidão a cavalgada
E nos segredos dos cofres dos amores
a noite enclausura suas vítimas
no coito da manhã assassinada
Amores intermináveis vão rolando
na areia namorada da saudade
e beijos tombam em hálitos venenosos
beijando a face do horizonte amado
E o verso despe-se às escâncaras
mesmo existindo sentimentos amordaçados
e caem pétalas das orquídeas vespertinas
enquanto em silêncio fecham pálpebras
no útero da manhã que ainda dorme.
1 451
Anderson Braga Horta
Fragmentos da Paixão
I
Certo dia, no meio do caminho
que me arrastava os pés no Templo alado,
deparei junto a mim o burburinho
de um turbilhão de seres extasiado
ante a férrea, magnética presença
de alta torre de vidro. Fascinado
pelo esplendor da aparição imensa
— sombrio resplandor de negra opala —
também eu, que ao cantochão da descrença
me embalava, já cansado, já farto
de
de arrastar pelo Planeta os andrajos
de minha solidão, entrei cantando
no torvelim das almas que em ciranda,
ébrias, descendo, trêmulas, em bando,
iam o adro da Torre demandando.
Ali paramos ante os negros vidros.
Abriram-se-nos portas densamente aliciantes.
Envolvia-nos algo como um olhar pegajoso
de hipnose. Dançando ainda, entramos
nos amplos elevadores. Apertamos
os botões para o último andar. E lentamente
fomos descendo.
II
Apagaram-se os sóis. Ficamos sabendo,
sem que voz o dissesse, que a alegria
era infração à Norma. Mas autônoma,
senhora de nossos corpos, prosseguia-se a dança,
e era música o contínuo terror, o temor expectante em
que nos fizéramos,
regente atra Presença,
opressão de pressentida Espreita rapinante no escuro,
surda Vibração de ala implume.
Lá fora o claro dia era um sonho remoto.
Nas trevas, no pavor, Suas invisíveis milícias,
Seus ocultos exércitos
espancavam a multidão em fuga para Nenhures.
Esquecidos na entrada os amuletos!
Total desamparo! Começava
o sem-sentido, o sem-nexo,
o mergulho real.
Eu me apagava.
III
E de repente estava só de novo,
e descia. Meus andrajos de púrpura cintilavam
torvamente. E descia.
Entre seis paredes de ar pesado,
corte vertical na rocha,
solitário descia.
Os muros me estreitavam. Eu me espessava.
E descia.
IV
Oh solidão da vida!
Oh solidão da morte!
Oh solidão amarga!
Nas paredes da rocha em descendente fuga,
vou escandindo
às pedrarias abissais, de faiscações inversas
— invertida luz, caliginosa
luz, antiluz
que só o negror desvela —,
as sílabas terríveis
do terrível grafito.
Oh! Que esperança para a humana raça
não é por estes subterrâneos astros!
V
Na Planície sinistra
cuja monotonia apenas quebra
um torvo rio, de mim mesmo apeio-me.
A atra, oculta Presença
comigo se confunde.
E solene olho em torno os meus domínios.
Glebas de solidão.
Províncias de ódio.
Sesmarias de escuro.
Céus tombados.
Sombra. Medo. Pavor. Angústia. Inferno.
E em meu Domínio eis-me senhor escravo.
Aniquila-me, ó Deus! Antes o Nada
que a privação do Sonho e da Esperança!
VI
E as falsas ascensões!... Elevadores que parecem subir
mas não chegam, não se abrem, ou sobem no vazio,
ou param ameaçadores, ou se escancaram sobre estruturas
instáveis, e despencam para um poço que tarda,
para um fim que não vem, que não vem, que não vem!
VII
Mas num relâmpago,
fugitiva fração do escoar da areia,
descuido do Diabo, após milênios,
de milênios de abismo,
de um infinito negar do clarão, da centelha,
eis que, de abscônditas
nebulosas em flor desabrochada estrela,
estrela de beleza, do mistério
de ser o homem uma luz que tenta brilhar,
a Tua Face, ó Deus, lúcida Se revela!
Já não me desespera,
vislumbrado o Teu sol, Senhor, se agora,
em vez da redenção, ainda me espera
o surdo recomeça
da negra eternidade.
Daqui, do mais profundo deste inferno,
fadado ao Teu Amor,
sonho-te, ó Deus, essência cristalina.
E sei que alfim, ao fim da Eternidade,
ascendo a Ti, ascendo a Ti, Senhor!
Certo dia, no meio do caminho
que me arrastava os pés no Templo alado,
deparei junto a mim o burburinho
de um turbilhão de seres extasiado
ante a férrea, magnética presença
de alta torre de vidro. Fascinado
pelo esplendor da aparição imensa
— sombrio resplandor de negra opala —
também eu, que ao cantochão da descrença
me embalava, já cansado, já farto
de
de arrastar pelo Planeta os andrajos
de minha solidão, entrei cantando
no torvelim das almas que em ciranda,
ébrias, descendo, trêmulas, em bando,
iam o adro da Torre demandando.
Ali paramos ante os negros vidros.
Abriram-se-nos portas densamente aliciantes.
Envolvia-nos algo como um olhar pegajoso
de hipnose. Dançando ainda, entramos
nos amplos elevadores. Apertamos
os botões para o último andar. E lentamente
fomos descendo.
II
Apagaram-se os sóis. Ficamos sabendo,
sem que voz o dissesse, que a alegria
era infração à Norma. Mas autônoma,
senhora de nossos corpos, prosseguia-se a dança,
e era música o contínuo terror, o temor expectante em
que nos fizéramos,
regente atra Presença,
opressão de pressentida Espreita rapinante no escuro,
surda Vibração de ala implume.
Lá fora o claro dia era um sonho remoto.
Nas trevas, no pavor, Suas invisíveis milícias,
Seus ocultos exércitos
espancavam a multidão em fuga para Nenhures.
Esquecidos na entrada os amuletos!
Total desamparo! Começava
o sem-sentido, o sem-nexo,
o mergulho real.
Eu me apagava.
III
E de repente estava só de novo,
e descia. Meus andrajos de púrpura cintilavam
torvamente. E descia.
Entre seis paredes de ar pesado,
corte vertical na rocha,
solitário descia.
Os muros me estreitavam. Eu me espessava.
E descia.
IV
Oh solidão da vida!
Oh solidão da morte!
Oh solidão amarga!
Nas paredes da rocha em descendente fuga,
vou escandindo
às pedrarias abissais, de faiscações inversas
— invertida luz, caliginosa
luz, antiluz
que só o negror desvela —,
as sílabas terríveis
do terrível grafito.
Oh! Que esperança para a humana raça
não é por estes subterrâneos astros!
V
Na Planície sinistra
cuja monotonia apenas quebra
um torvo rio, de mim mesmo apeio-me.
A atra, oculta Presença
comigo se confunde.
E solene olho em torno os meus domínios.
Glebas de solidão.
Províncias de ódio.
Sesmarias de escuro.
Céus tombados.
Sombra. Medo. Pavor. Angústia. Inferno.
E em meu Domínio eis-me senhor escravo.
Aniquila-me, ó Deus! Antes o Nada
que a privação do Sonho e da Esperança!
VI
E as falsas ascensões!... Elevadores que parecem subir
mas não chegam, não se abrem, ou sobem no vazio,
ou param ameaçadores, ou se escancaram sobre estruturas
instáveis, e despencam para um poço que tarda,
para um fim que não vem, que não vem, que não vem!
VII
Mas num relâmpago,
fugitiva fração do escoar da areia,
descuido do Diabo, após milênios,
de milênios de abismo,
de um infinito negar do clarão, da centelha,
eis que, de abscônditas
nebulosas em flor desabrochada estrela,
estrela de beleza, do mistério
de ser o homem uma luz que tenta brilhar,
a Tua Face, ó Deus, lúcida Se revela!
Já não me desespera,
vislumbrado o Teu sol, Senhor, se agora,
em vez da redenção, ainda me espera
o surdo recomeça
da negra eternidade.
Daqui, do mais profundo deste inferno,
fadado ao Teu Amor,
sonho-te, ó Deus, essência cristalina.
E sei que alfim, ao fim da Eternidade,
ascendo a Ti, ascendo a Ti, Senhor!
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