Poemas neste tema
Alma
Antonio Roberval Miketen
For Simone
These hands of yours,
tiny little hands,
seaweeds in the silence,
bathed in light:
to what encounter,
tell me, daughter of mine,
to what fate
the fountain leads them?
tiny little hands,
seaweeds in the silence,
bathed in light:
to what encounter,
tell me, daughter of mine,
to what fate
the fountain leads them?
977
Antônio Ribeiro da Costa
Soneto
Em salva de esmeralda posta a neve,
escuma em verde mar, cristal vistoso,
um copo de diamante precioso,
bandeira que tremola ao vento leve;
estrela reduzida a termo breve,
de alabastro gomil aparatoso,
arminho, ou cisne, em campo deleitoso,
com seu pé a açucena se descreve:
se eu tivera ciência, que alcançara
a dizer como quero seus louvores,
o que a açucena é, eu o mostrara:
só direi que na vista, e nos candores,
se de noite a encontrasse, me assombrara,
parecendo-me ser alma das flores.
escuma em verde mar, cristal vistoso,
um copo de diamante precioso,
bandeira que tremola ao vento leve;
estrela reduzida a termo breve,
de alabastro gomil aparatoso,
arminho, ou cisne, em campo deleitoso,
com seu pé a açucena se descreve:
se eu tivera ciência, que alcançara
a dizer como quero seus louvores,
o que a açucena é, eu o mostrara:
só direi que na vista, e nos candores,
se de noite a encontrasse, me assombrara,
parecendo-me ser alma das flores.
602
José Armelim
Testamento
Um dia quando morrer (agora não)
Quero que me toquem guitarra.
Quero dizer: Qualquer coisa como variação.
Quero que chore a guitarra, mas com garra!
Venham senhoras e venham senhores!
Depois, por favor, façam-me um bem:
Que um a um deponha flores,
Na campa da minha mãe.
Essas flores que são dela,
Eu já não lhas poderei dar,
Pois já lá estarei com ela.
E a guitarra será fado.
O fado que hei-de cantar,
Lá longe do outro lado!
(... e assim foi!)
Quero que me toquem guitarra.
Quero dizer: Qualquer coisa como variação.
Quero que chore a guitarra, mas com garra!
Venham senhoras e venham senhores!
Depois, por favor, façam-me um bem:
Que um a um deponha flores,
Na campa da minha mãe.
Essas flores que são dela,
Eu já não lhas poderei dar,
Pois já lá estarei com ela.
E a guitarra será fado.
O fado que hei-de cantar,
Lá longe do outro lado!
(... e assim foi!)
1 013
Armindo Trevisan
Nudez Septenária
A primeira nudez
é a nudez apressada,
a nudez que cobre
a Amada.
A segunda nudez
é a nudez demorada,
a nudez que enfeita
a pausa.
A terceira nudez
é a nudez quase fixa,
a nudez que se insere
entre os amantes.
A quarta nudez
é a nudez extática,
a nudez que ingora
o Amor.
A quinta nudez
é a nudez sem espaço,
a nudez que divide
o enlace.
A sexta nudez
é a nudez sem tempo,
a nudez que sustenta
a memória
A sétima nudez
é a nudez eterna,
a nudez que acaba
em Deus.
é a nudez apressada,
a nudez que cobre
a Amada.
A segunda nudez
é a nudez demorada,
a nudez que enfeita
a pausa.
A terceira nudez
é a nudez quase fixa,
a nudez que se insere
entre os amantes.
A quarta nudez
é a nudez extática,
a nudez que ingora
o Amor.
A quinta nudez
é a nudez sem espaço,
a nudez que divide
o enlace.
A sexta nudez
é a nudez sem tempo,
a nudez que sustenta
a memória
A sétima nudez
é a nudez eterna,
a nudez que acaba
em Deus.
1 226
Artur Eduardo Benevides
Do Amor Final
Nos dejúrios do amor, quando dizemos
Tudo o que salva a humana condição,
A vida fica em grã levitação,
Mas, quase sempre, tontos, nos perdemos.
Quem não teve do amor a sagração?
Em nosso maisquerer, todos sofremos.
Quantas mágoas e penas recebemos
Ao sentirmos a força da paixão!
E agora vens, ó última esperança!
No fim da tarde, bailo a contradança
Das pavanas gentis de teu olhar.
No pas de deux que une as nossas almas,
Chegas plena de Deus e então me acalmas
E me mostras as ilhas de teu Mar.
Tudo o que salva a humana condição,
A vida fica em grã levitação,
Mas, quase sempre, tontos, nos perdemos.
Quem não teve do amor a sagração?
Em nosso maisquerer, todos sofremos.
Quantas mágoas e penas recebemos
Ao sentirmos a força da paixão!
E agora vens, ó última esperança!
No fim da tarde, bailo a contradança
Das pavanas gentis de teu olhar.
No pas de deux que une as nossas almas,
Chegas plena de Deus e então me acalmas
E me mostras as ilhas de teu Mar.
1 391
Antônio Nunes de Siqueira
Soneto Acróstico
Voe da fama, ao sempre merecido
Aplauso, que vos deve eternamente,
Sonora tuba com trinado ardente,
Clamor perpétuo de eco enobrecido;
O vosso nome aclame, (que esculpido
Firme de bronze lâmina eminente
Expende) eternizando felizmente
Raro assombro, e jamais nunca excedido
Zenit: Diga que sois o mais glorioso
César, prodígio insigne da eloqüência,
Exemplo singular do valeroso:
Sol, que com predigníssima excelência,
Ainda no Ocidente, luminoso
Repartis, sempre igual, vossa influência.
Aplauso, que vos deve eternamente,
Sonora tuba com trinado ardente,
Clamor perpétuo de eco enobrecido;
O vosso nome aclame, (que esculpido
Firme de bronze lâmina eminente
Expende) eternizando felizmente
Raro assombro, e jamais nunca excedido
Zenit: Diga que sois o mais glorioso
César, prodígio insigne da eloqüência,
Exemplo singular do valeroso:
Sol, que com predigníssima excelência,
Ainda no Ocidente, luminoso
Repartis, sempre igual, vossa influência.
547
Artur Eduardo Benevides
Numa Sexta-Feira de Junho
Saudades. Todas tuas. Quão sozinho!
Quão cheio de esperanças me perdi!
Ao ver-te em plenitude te sofri,
Sentindo-te mais forte do que o vinho.
Saudades. E não vens. Mas adivinho
Como estejas agora por aí.
E juro que ao olhar-te me senti
Como quem nuvens colhe num caminho.
És o sol que me guia ou que me aquece.
És a valsa distante, da quermesse.
És o trigo do sonho a florescer.
Penso em teu rosto fino e delicado
E mesmo ao ver-me assim, tão desolado,
Já quase morto estando, vou viver!
Quão cheio de esperanças me perdi!
Ao ver-te em plenitude te sofri,
Sentindo-te mais forte do que o vinho.
Saudades. E não vens. Mas adivinho
Como estejas agora por aí.
E juro que ao olhar-te me senti
Como quem nuvens colhe num caminho.
És o sol que me guia ou que me aquece.
És a valsa distante, da quermesse.
És o trigo do sonho a florescer.
Penso em teu rosto fino e delicado
E mesmo ao ver-me assim, tão desolado,
Já quase morto estando, vou viver!
1 267
Araripe Coutinho
O Amor Jaz
O amor jaz no cacto do jardim
e cada espinho exposto à luz do corpo
é um pedaço morto de cada um de nós
o corpo é feito de taças
- cheias e vazias -
vitrais de luas engolindo a noite
pousando gozos nas sombras das ruas,
Além das veias todo amor é sangue
sangue de um sorvete de solidão amarga
assim morrendo
assim tão suave inflama
dentro da alma
além da madrugada.
Rendidos já não buscamos a enseada
o sorvete que falo
vem das almas
das almas das mulheres nunca amadas
que sempre pelas taças
vertem lágrimas
e bebem gotas de amores mortos.
e cada espinho exposto à luz do corpo
é um pedaço morto de cada um de nós
o corpo é feito de taças
- cheias e vazias -
vitrais de luas engolindo a noite
pousando gozos nas sombras das ruas,
Além das veias todo amor é sangue
sangue de um sorvete de solidão amarga
assim morrendo
assim tão suave inflama
dentro da alma
além da madrugada.
Rendidos já não buscamos a enseada
o sorvete que falo
vem das almas
das almas das mulheres nunca amadas
que sempre pelas taças
vertem lágrimas
e bebem gotas de amores mortos.
1 339
António Arnaut
Portugal
Escrevo o teu nome, corpo inteiro
de uma saudade celular.
A imagem que me vem é de um pinheiro
numa fraga batida pelo mar.
Marinheiro
caminheiro
entre pélagos de noite e de luar.
Praia de vento à espera.
Ermas colinas, rugas do teu rosto,
cortadas por um longo veio de mosto
que traz em cada outono a primavera.
Trovador
lavrador
de um chão de saibro e quimera.
de uma saudade celular.
A imagem que me vem é de um pinheiro
numa fraga batida pelo mar.
Marinheiro
caminheiro
entre pélagos de noite e de luar.
Praia de vento à espera.
Ermas colinas, rugas do teu rosto,
cortadas por um longo veio de mosto
que traz em cada outono a primavera.
Trovador
lavrador
de um chão de saibro e quimera.
1 383
Artur Eduardo Benevides
Dos Caminhos e Descaminhos da Solidão
I
A solidão
é um grito selvagem
na infinita viagem
de nossa expectação.
Insulana e tirana
fere-nos com o sílex de sua maldição.
Ou dança às vezes crucial pavana
tornando mais escura a nossa habitação.
Ela vem de repente
com seu olhar parado, de serpente.
E nos põe em seus nichos
a ensinar-nos, com longos cochichos,
seu ofício final de penitente.
II
A solidão
é bailarina imóvel em cima de um tablado.
É o noivo enjeitado
que volta sozinho, em meio à multidão.
E semelha, às vezes, um velho trem parado.
Ou um rosto no espelho, aprisionado,
a ouvir, ao longe, o latido de um cão.
III
Oh, a disciplina dos que vivem sós
e dos que voam às cegas, como os noitibós!
E todos os poemas nascem dessa fonte.
Todos os nossos passos cruzarão sua ponte.
E como não temos para quem gritar
somos veleiros perdidos em seu mar.
IV
Já fui mais sozinho
do que os retratos de velhos casarões
onde se guarda, qual rubro vinho,
a soma imperial das solidões.
A solidão dos avós.
A solidão dos rondós.
A solidão da tia solteirona
adormecendo aos poucos, na poltrona.
Ou a solidão do negro acorrentado
por haver olhado a moça, no rio, desnuda.
A solidão graúda
dos que envelhecem em paz e castidade.
Ou planejam o amor, mas sem maldade,
e são logo feridos e esquecidos.
V
Ó solidão do desamor!
Solidão do Cristo no Tabor!
Solidão
dos que perderam as chuvas e a sazão!
E há um jogo de surpresas
quais passos pelas devesas
cheias de assombração.
Mastigamos, contudo, esse amargo pão
e há no corredor
do mundo interior
inexorável inavegação.
VI
Alma sozinha e perdida,
a solidão corre a toda a brida
para nada.
Mesmo assim, nasce a madrugada
sobre as casas vazias
e as penedias.
E tudo, em nós, verão ou primavera,
é uma vasta espera.
VII
Ai, solidão: a morte no último vagão.
Um longo e irrespondido olhar
ou um entreparar
de vento em nosso vão lamento.
Ela em nós se debruça
e soluça
enquanto uma seresta se afasta
qual canção azul e sempre casta
que jamais esquecemos
e em nós sofremos
igual à lembrança da infância perdida.
Ou da vida.
VIII
Triste é o nosso sorrir.
Às vezes, chegar é o mesmo que partir.
Somos uma longa viagem
em que vamos perdendo rumo e paisagem.
E no silêncio final dos caminhos
estaremos sozinhos.
Por isso, em minha alma indormida
o sonho é como o apito de despedida
de um navio tragado em rodopio.
IX
Ônix da ausência
a solidão é a consciência
do pélago nas almas mais sofridas.
Chuva molhando o rosto dos suicidas
é uma loba uivando sob o frio,
ou o cinzento do estio.
É o canto da araponga ao meio-dia.
O sol da noite. A dor da poesia.
O medo de alguém na multidão.
Um ser a fugir da escuridão.
E vem de Alba-Longa, talvez. Ou de Castela.
Ou do sertão, na Cantiga do Vilela.
Ou das longínquas ilhas
além dos horizontes das Antilhas.
Mas estando tão longe fica em nós tão perto
que sentimos seu abismo abrir-se num deserto.
X
Oh, a solidão dos espelhos
e do mugir dos bois na madrugada!
Ó solidão — batentes de uma escada
em que dormitam sete escaravelhos.
E há uma flauta triste no final de tudo.
Uma súplica em dor num espírito mudo.
Ou o grito inesperado. O final da lida.
O inalcançado amor. A alma já perdida
de um bêbado num bar. Ou de alguém a buscar
as cousas que deveriam estar e nunca estão.
E um punhal invisível se ergue: a solidão.
A solidão de Édipo e Narciso.
A solidão que chega sem aviso
ferindo os seios de luar da Amada.
E treme na balada
que em nós, qual soluço, sossegou.
Ou é um grou
voando ao solstício
sobre a boca fatal de um precipício.
E tudo parece o sono da verdade
qual cavalo cego em meio à tempestade.
Ainda assim, tentamos atravessar os nossos rios
vendo, nas lanternas, o lento apagar-se dos últimos pavios.
A solidão
é um grito selvagem
na infinita viagem
de nossa expectação.
Insulana e tirana
fere-nos com o sílex de sua maldição.
Ou dança às vezes crucial pavana
tornando mais escura a nossa habitação.
Ela vem de repente
com seu olhar parado, de serpente.
E nos põe em seus nichos
a ensinar-nos, com longos cochichos,
seu ofício final de penitente.
II
A solidão
é bailarina imóvel em cima de um tablado.
É o noivo enjeitado
que volta sozinho, em meio à multidão.
E semelha, às vezes, um velho trem parado.
Ou um rosto no espelho, aprisionado,
a ouvir, ao longe, o latido de um cão.
III
Oh, a disciplina dos que vivem sós
e dos que voam às cegas, como os noitibós!
E todos os poemas nascem dessa fonte.
Todos os nossos passos cruzarão sua ponte.
E como não temos para quem gritar
somos veleiros perdidos em seu mar.
IV
Já fui mais sozinho
do que os retratos de velhos casarões
onde se guarda, qual rubro vinho,
a soma imperial das solidões.
A solidão dos avós.
A solidão dos rondós.
A solidão da tia solteirona
adormecendo aos poucos, na poltrona.
Ou a solidão do negro acorrentado
por haver olhado a moça, no rio, desnuda.
A solidão graúda
dos que envelhecem em paz e castidade.
Ou planejam o amor, mas sem maldade,
e são logo feridos e esquecidos.
V
Ó solidão do desamor!
Solidão do Cristo no Tabor!
Solidão
dos que perderam as chuvas e a sazão!
E há um jogo de surpresas
quais passos pelas devesas
cheias de assombração.
Mastigamos, contudo, esse amargo pão
e há no corredor
do mundo interior
inexorável inavegação.
VI
Alma sozinha e perdida,
a solidão corre a toda a brida
para nada.
Mesmo assim, nasce a madrugada
sobre as casas vazias
e as penedias.
E tudo, em nós, verão ou primavera,
é uma vasta espera.
VII
Ai, solidão: a morte no último vagão.
Um longo e irrespondido olhar
ou um entreparar
de vento em nosso vão lamento.
Ela em nós se debruça
e soluça
enquanto uma seresta se afasta
qual canção azul e sempre casta
que jamais esquecemos
e em nós sofremos
igual à lembrança da infância perdida.
Ou da vida.
VIII
Triste é o nosso sorrir.
Às vezes, chegar é o mesmo que partir.
Somos uma longa viagem
em que vamos perdendo rumo e paisagem.
E no silêncio final dos caminhos
estaremos sozinhos.
Por isso, em minha alma indormida
o sonho é como o apito de despedida
de um navio tragado em rodopio.
IX
Ônix da ausência
a solidão é a consciência
do pélago nas almas mais sofridas.
Chuva molhando o rosto dos suicidas
é uma loba uivando sob o frio,
ou o cinzento do estio.
É o canto da araponga ao meio-dia.
O sol da noite. A dor da poesia.
O medo de alguém na multidão.
Um ser a fugir da escuridão.
E vem de Alba-Longa, talvez. Ou de Castela.
Ou do sertão, na Cantiga do Vilela.
Ou das longínquas ilhas
além dos horizontes das Antilhas.
Mas estando tão longe fica em nós tão perto
que sentimos seu abismo abrir-se num deserto.
X
Oh, a solidão dos espelhos
e do mugir dos bois na madrugada!
Ó solidão — batentes de uma escada
em que dormitam sete escaravelhos.
E há uma flauta triste no final de tudo.
Uma súplica em dor num espírito mudo.
Ou o grito inesperado. O final da lida.
O inalcançado amor. A alma já perdida
de um bêbado num bar. Ou de alguém a buscar
as cousas que deveriam estar e nunca estão.
E um punhal invisível se ergue: a solidão.
A solidão de Édipo e Narciso.
A solidão que chega sem aviso
ferindo os seios de luar da Amada.
E treme na balada
que em nós, qual soluço, sossegou.
Ou é um grou
voando ao solstício
sobre a boca fatal de um precipício.
E tudo parece o sono da verdade
qual cavalo cego em meio à tempestade.
Ainda assim, tentamos atravessar os nossos rios
vendo, nas lanternas, o lento apagar-se dos últimos pavios.
1 567
Antonio Roberval Miketen
Noche
Un viento ondula
hojas inmensas
en los más profundo
de mi silencio.
Una onda inunda
mi consciente
que se ahonda
en el agua intensa.
Memorias brillan
de una estrella
jamás descrita.
Brama, aquí dentro,
el eterno grito
de la tierra en tinieblas.
hojas inmensas
en los más profundo
de mi silencio.
Una onda inunda
mi consciente
que se ahonda
en el agua intensa.
Memorias brillan
de una estrella
jamás descrita.
Brama, aquí dentro,
el eterno grito
de la tierra en tinieblas.
642
Antunes da Silva
Senhor Vento
Senhor Vento, ó Senhor Vento,
já não me posso conter,
veio a seca, tanto sol,
que anda por aqui a fazer?
Vá-se embora Senhor Vento,
não são horas daqui estar,
não há trevo nem há água
para o gado apascentar.
Tudo seco, Senhor Vento,
ai que morte, que morrer,
não há suco nem há seiva,
cinco meses sem chover...
Se cá ficar, Senhor Vento,
não tempera, só destapa
os horizontes de nuvens,
não há chuva neste mapa.
Tape a chaga, Senhor Vento,
siga siga para o mar,
já lhe disse, vá-se embora,
não são horas daqui estar!
Dou-lhe um tiro, Senhor Vento,
se andar aqui mais um dia,
gira gira, fora fora,
mande a chuva, não se ria.
Obrigado, Senhor Vento,
Empurre a nuvens, agora,
isso mesmo, traga as águas!
De contente, a terra chora.
já não me posso conter,
veio a seca, tanto sol,
que anda por aqui a fazer?
Vá-se embora Senhor Vento,
não são horas daqui estar,
não há trevo nem há água
para o gado apascentar.
Tudo seco, Senhor Vento,
ai que morte, que morrer,
não há suco nem há seiva,
cinco meses sem chover...
Se cá ficar, Senhor Vento,
não tempera, só destapa
os horizontes de nuvens,
não há chuva neste mapa.
Tape a chaga, Senhor Vento,
siga siga para o mar,
já lhe disse, vá-se embora,
não são horas daqui estar!
Dou-lhe um tiro, Senhor Vento,
se andar aqui mais um dia,
gira gira, fora fora,
mande a chuva, não se ria.
Obrigado, Senhor Vento,
Empurre a nuvens, agora,
isso mesmo, traga as águas!
De contente, a terra chora.
1 248
Antonio Roberval Miketen
Octava Cantiga de Amigo
Junto a las olas del mar de Vigo,
vengo al recuerdo de un amigo.
Aves ponen plumas en el horizonte
y las plumas, aguas de una fuente,
en Vigo, en las algas del mar,
del amigo me traen el tardar.
De más allá del mar viene, leve por plumas,
el dolor que no quiero llorar.
Sin embargo, las gaviotas ponen brumas
en lo profundo de mi penar,
donde, a orillas del mar de Vigo,
vengo al recuerdo de un amigo.
vengo al recuerdo de un amigo.
Aves ponen plumas en el horizonte
y las plumas, aguas de una fuente,
en Vigo, en las algas del mar,
del amigo me traen el tardar.
De más allá del mar viene, leve por plumas,
el dolor que no quiero llorar.
Sin embargo, las gaviotas ponen brumas
en lo profundo de mi penar,
donde, a orillas del mar de Vigo,
vengo al recuerdo de un amigo.
858
Arthur Fortes
Esfinge
Fico-me só, horas mais horas, triste,
Nesta piedosa evocação do Outr´ora,
Em face ao quadro a que se não resiste:
Sonhos de então, desenganos de agora.
Na vida o mal tem também sua aurora
Que na alegria para mim consiste,
De amar alguém que me repele e adora
E que, ai de mim, existe e não existe.
Alguém que em meigos sonhos me aparece
Com a imácula pureza de uma prece
Em lábios virginais por noite clara;
E outras vezes me quer e me tortura
E sofre como eu sofro essa amargura
Desta paixão de forma estranha e rara!.
Nesta piedosa evocação do Outr´ora,
Em face ao quadro a que se não resiste:
Sonhos de então, desenganos de agora.
Na vida o mal tem também sua aurora
Que na alegria para mim consiste,
De amar alguém que me repele e adora
E que, ai de mim, existe e não existe.
Alguém que em meigos sonhos me aparece
Com a imácula pureza de uma prece
Em lábios virginais por noite clara;
E outras vezes me quer e me tortura
E sofre como eu sofro essa amargura
Desta paixão de forma estranha e rara!.
763
Américo Pellegrini Filho
Haicai
Tão grande árvore
da semente pequenininha
— uma árvore!
Início do ano
futuro que chegou.
Preparado estou?
da semente pequenininha
— uma árvore!
Início do ano
futuro que chegou.
Preparado estou?
1 334
Armindo Trevisan
Se Fosse Dia Amor
Se fosse dia Amor e o espinho rebentasse
da terra dos claros olhos da terra
e fosse espinho em silêncio no meio
das palavras e as palavras doessem
no lugar dos dedos onde a lisura da pele
estoura em rocio sob o casco dos cavalos
ah se fosse silêncio entre a carne
e o espírito e a flama cobrisse os lábios
e os nervos atrelassem ao sol as coisas
e elas ardessem na língua do mundo
eu te apertaria Amor contra uma nebulosa
e te extrairia da boca de Deus
quando Ele te soprou para a morte
em meus braços em meus braços cobertos
do musgo de mil outros braços.
da terra dos claros olhos da terra
e fosse espinho em silêncio no meio
das palavras e as palavras doessem
no lugar dos dedos onde a lisura da pele
estoura em rocio sob o casco dos cavalos
ah se fosse silêncio entre a carne
e o espírito e a flama cobrisse os lábios
e os nervos atrelassem ao sol as coisas
e elas ardessem na língua do mundo
eu te apertaria Amor contra uma nebulosa
e te extrairia da boca de Deus
quando Ele te soprou para a morte
em meus braços em meus braços cobertos
do musgo de mil outros braços.
968
Araripe Coutinho
Face Morta
Trazes nas mãos o verso adormecido
que ao poente desce murmurante
trazes também a procissão dos atos
no amarelo ácido dos instantes
Quando circundam frestas e anseios
no peito pardo da mulher calada
águias e feras, vultos permanentes,
insistem em despertar a madrugada
Enquanto a vida acarícia a morte
vertidas lágrimas cristalizam a noite
espaços vagos por perdido amante
nutrem de solidão a cavalgada
E nos segredos dos cofres dos amores
a noite enclausura suas vítimas
no coito da manhã assassinada
Amores intermináveis vão rolando
na areia namorada da saudade
e beijos tombam em hálitos venenosos
beijando a face do horizonte amado
E o verso despe-se às escâncaras
mesmo existindo sentimentos amordaçados
e caem pétalas das orquídeas vespertinas
enquanto em silêncio fecham pálpebras
no útero da manhã que ainda dorme.
que ao poente desce murmurante
trazes também a procissão dos atos
no amarelo ácido dos instantes
Quando circundam frestas e anseios
no peito pardo da mulher calada
águias e feras, vultos permanentes,
insistem em despertar a madrugada
Enquanto a vida acarícia a morte
vertidas lágrimas cristalizam a noite
espaços vagos por perdido amante
nutrem de solidão a cavalgada
E nos segredos dos cofres dos amores
a noite enclausura suas vítimas
no coito da manhã assassinada
Amores intermináveis vão rolando
na areia namorada da saudade
e beijos tombam em hálitos venenosos
beijando a face do horizonte amado
E o verso despe-se às escâncaras
mesmo existindo sentimentos amordaçados
e caem pétalas das orquídeas vespertinas
enquanto em silêncio fecham pálpebras
no útero da manhã que ainda dorme.
1 460
Argemiro de Paula Garcia Filho
Imola 1
Em Imola se imola
um sonho
um mito
um herói.
Em Imola se esfola
a pele
a carne
e dói,
como dói,
saber que a vida segue
ainda que o sonho acabe.
Mas se os sonhos são etéreos,
se os mitos são lendas
e os heróis tem sangue,
nos restam apenas
as mãos,
os calos,
as cãs,
resta-nos erguer o destino.
Porque as pirâmides foram erguidas
por homens
e os nossos heróis sempre morrem,
no final.
Macaé, 29/06/94
um sonho
um mito
um herói.
Em Imola se esfola
a pele
a carne
e dói,
como dói,
saber que a vida segue
ainda que o sonho acabe.
Mas se os sonhos são etéreos,
se os mitos são lendas
e os heróis tem sangue,
nos restam apenas
as mãos,
os calos,
as cãs,
resta-nos erguer o destino.
Porque as pirâmides foram erguidas
por homens
e os nossos heróis sempre morrem,
no final.
Macaé, 29/06/94
924
Amasilde Rehwagen
O Banco da Praça
Com peraltice e graça,
ouvi meu filho cantando
aquela música da Praça!
Era um gorjeio de ave
na sua vozinha suave
o banco da solidão...
Cantava alegre o menino,
como se fosse um hino
aquela linda versão!
Mas, na sua ingenuidade,
só conhece alacridade
seu pequeno coração!
Que no decorrer dos anos
não lhe venham desenganos
roubar-lhe a bela canção!
ouvi meu filho cantando
aquela música da Praça!
Era um gorjeio de ave
na sua vozinha suave
o banco da solidão...
Cantava alegre o menino,
como se fosse um hino
aquela linda versão!
Mas, na sua ingenuidade,
só conhece alacridade
seu pequeno coração!
Que no decorrer dos anos
não lhe venham desenganos
roubar-lhe a bela canção!
927
Artur Eduardo Benevides
Dos Mortos e de seus Veleiros Invisíveis
I
Os que vão morrer
não sabem o que é a morte.
Só os mortos são grandes. E fortes.
Artifícios não têm. Ou sarabandas.
E imóveis estão, em finíssimas varandas,
atrás dos vitrais de sua solidão.
O seu ficar-em-si
é como um espelho entrando num espelho
ou os reflexos da tarde num rubi.
Ninguém os turbará. Eles já são
iguais a velas, à noite, nos conventos,
ou a imóveis e puros pensamentos
ao brilho estelar das estações.
De seu sono nos vêm. Na realidade
são semáforos quase evanescentes
da verdade.
E todos estão
bem mais em nossa dor do que no chão.
II
Livres de mágoas ou de precisões,
ou do incessante ulular das multidões,
os mortos são iguais aos talismãs
ou aos ventos gemendo nas manhãs
sem saber que gemem.
Mesmo assim se cumprem. E vão
pelos entardeceres da canção
pondo o seu olhar que tudo diz
ao pé de um invisível chafariz.
E alguns são belos
como um vago cantar que não cantamos.
E se os lembramos,
há uma chuva lá fora, mesmo que não chova,
e tudo, semelhando alguém que nos socorra,
busca levar-nos aos seus mediterrâneos.
III
Os mortos nada pedem, mas pesam no silêncio
de sua ausência e pura transcendência.
Em seu vasto doer e solidão,
são versos exaustos da canção de velha serenata.
Em sua face inexata
tudo é exílio qual coche a se afastar
ao final de delírios,
tentando retornar.
Mas, para quê? Para onde?
O que lhes pertencia já em nós se esconde.
E em todas as salas do nosso infortúnio
crescem plenilúnios.
IV
Os mortos preservam-se. E prosseguem
com a força do frio em largos icebergs.
Seus gestos já desaconteceram,
mas alguns, de tão jovens, reamanheceram
como romãs nas árvores de Deus.
Outros, viraram camafeus
que senhoras carregam pregados as vestidos.
Muitos, contudo, permanecem esquecidos.
E a morte é noturna. É uma invisível urna
de cristal.
Ou um solo de órgão
em catedral.
E os mortos escutam sem medo
as chaconas que cobrem os dobres e segredos.
Alguns, às vezes, passam, em perdição,
e numa asa de canção
sorriem.
V
Ai, na morte
surpresas não há: só grandeza.
Acima do tempo ou das navegações,
ela alimenta a noite
em nossa dimensão.
É igual às crianças que jamais nasceram
ou não chegaram nunca com seu riso.
E num vôo, na tarde, se perderam
e só retomarão no Grande Juízo.
Virão tristes, alegres, ou caladas?
Ou ficarão para sempre encantadas?
Mas, alguns saem da paz dos ataúdes
seguindo os sons de estranhos alaúdes
que procuram endormir profundamente
as almas já cansadas.
VI
Eles não necessitam de relógios,
ou dos ruídos das solenidades.
São simples e belos, iguais à irrealidade
de seu silêncio sempre tão real.
Mesmo alados, estão paralisados
ante córregos imóveis a olhar
o Mar do mar.
E por eles choraram assírios e hebreus,
macedônios, caldeus e babilônios,
as mulheres de Esparta e os lutadores jônios,
ou as violas sensuais de Andaluzia
no final do dia.
Ou as cornamusas nas noites de Sião.
E tudo é solidão. Tudo são fráguas.
E o cadáver de Ofélia sobre as águas?
Os escravos de Jó? Ou os que em Jericó
feriram as cabeças junto aos muros
em momentos terríveis ou escuros?
E enquanto atravessamos lonjuras e fronteiras,
as chamas se apagam, lentas, nas fogueiras.
VII
Os mortos, nas camarinhas de sua hospedaria,
sustêm a ponte pênsil de longa travessia,
amarrando-a em réquiens e em gestos piedosos
daqueles que, au delà, esperam todo dia
seu nunca regressar.
E a verdade da morte, tão única e púnica?
Às vezes, é mais terrível do que um grito nas muralhas,
ao trágico esplendor de chamas e batalhas.
E tudo em silêncio e abandono cai,
nas tardes de Avignon, nas ruas de Xangai,
em terras de Espanha e areias de Portugal,
na Serra da Aratanha e no Canal
da Mancha. Ou em Bruxelas.
E o vento, soturno, bate nas janelas
enquanto a morte, sempre insaciada,
sorve o néctar que molha
os ramos, em alvoradas.
Oh, os mortos, nas arcas da história,
ou na obscura nudez de sua vã memória!
Quantos sonetos e epitáfios
gravados a seus pés!
De seu grande convés eles nos olham
a barlavento e a sotavento, além.
E continuam a olhar, às vezes com desdém,
e com tal força de convencimento,
que amadurecem qual grave pensamento
ante a visão do mar.
Tudo neles é um túnel
circular. Ou uma árvore
sem água e sem ar.
À luz de suas lanternas
a eternidade hiberna.
E é nossa missão cantar seu cantochão.
Ou mastigar, em nossa consciência,
as amêndoas amargas ou o sal
de sua inexistência.
VIII
Os mortos
(os únicos seres que não envelhecem)
chorados não sejam, mas amados.
Cada dia devemos imaginar
que eles de repente podem retornar.
E são iguais a borboletas no chifre de um bisão
ou a esquilos a saltar, nas sombras, sobre a vida,
enquanto os santos e os monges rezam
e o inverno aproxima-se fatal
como em despedida.
IX
Praticamos lágrimas.
Somos hóspedes
do fluir de vãs recordações.
E solitudes sentam-se em nós
e alteram nossa voz
como o vento da terra se altera nos verões.
Mas tudo, afinal, é um infindo
morrer. Um quefazer
sem fim. Ou um trampolim
de nada.
Não há sol entre os mortos.
Só lampadas de azeite
entre as brumas e os ócios
de seus vagos portos.
E as cores são baças. Ou lânguidas. E há
entre portões cinzentos uma indizível
paz.
Muito mais do que nós eles estão
completamente sós.
E não há notícias de novas madrugadas.
As portas estão entrecerradas.
E pelas frestas percebe-se lá fora
a triste beleza de sua imóvel aurora.
Os que vão morrer
não sabem o que é a morte.
Só os mortos são grandes. E fortes.
Artifícios não têm. Ou sarabandas.
E imóveis estão, em finíssimas varandas,
atrás dos vitrais de sua solidão.
O seu ficar-em-si
é como um espelho entrando num espelho
ou os reflexos da tarde num rubi.
Ninguém os turbará. Eles já são
iguais a velas, à noite, nos conventos,
ou a imóveis e puros pensamentos
ao brilho estelar das estações.
De seu sono nos vêm. Na realidade
são semáforos quase evanescentes
da verdade.
E todos estão
bem mais em nossa dor do que no chão.
II
Livres de mágoas ou de precisões,
ou do incessante ulular das multidões,
os mortos são iguais aos talismãs
ou aos ventos gemendo nas manhãs
sem saber que gemem.
Mesmo assim se cumprem. E vão
pelos entardeceres da canção
pondo o seu olhar que tudo diz
ao pé de um invisível chafariz.
E alguns são belos
como um vago cantar que não cantamos.
E se os lembramos,
há uma chuva lá fora, mesmo que não chova,
e tudo, semelhando alguém que nos socorra,
busca levar-nos aos seus mediterrâneos.
III
Os mortos nada pedem, mas pesam no silêncio
de sua ausência e pura transcendência.
Em seu vasto doer e solidão,
são versos exaustos da canção de velha serenata.
Em sua face inexata
tudo é exílio qual coche a se afastar
ao final de delírios,
tentando retornar.
Mas, para quê? Para onde?
O que lhes pertencia já em nós se esconde.
E em todas as salas do nosso infortúnio
crescem plenilúnios.
IV
Os mortos preservam-se. E prosseguem
com a força do frio em largos icebergs.
Seus gestos já desaconteceram,
mas alguns, de tão jovens, reamanheceram
como romãs nas árvores de Deus.
Outros, viraram camafeus
que senhoras carregam pregados as vestidos.
Muitos, contudo, permanecem esquecidos.
E a morte é noturna. É uma invisível urna
de cristal.
Ou um solo de órgão
em catedral.
E os mortos escutam sem medo
as chaconas que cobrem os dobres e segredos.
Alguns, às vezes, passam, em perdição,
e numa asa de canção
sorriem.
V
Ai, na morte
surpresas não há: só grandeza.
Acima do tempo ou das navegações,
ela alimenta a noite
em nossa dimensão.
É igual às crianças que jamais nasceram
ou não chegaram nunca com seu riso.
E num vôo, na tarde, se perderam
e só retomarão no Grande Juízo.
Virão tristes, alegres, ou caladas?
Ou ficarão para sempre encantadas?
Mas, alguns saem da paz dos ataúdes
seguindo os sons de estranhos alaúdes
que procuram endormir profundamente
as almas já cansadas.
VI
Eles não necessitam de relógios,
ou dos ruídos das solenidades.
São simples e belos, iguais à irrealidade
de seu silêncio sempre tão real.
Mesmo alados, estão paralisados
ante córregos imóveis a olhar
o Mar do mar.
E por eles choraram assírios e hebreus,
macedônios, caldeus e babilônios,
as mulheres de Esparta e os lutadores jônios,
ou as violas sensuais de Andaluzia
no final do dia.
Ou as cornamusas nas noites de Sião.
E tudo é solidão. Tudo são fráguas.
E o cadáver de Ofélia sobre as águas?
Os escravos de Jó? Ou os que em Jericó
feriram as cabeças junto aos muros
em momentos terríveis ou escuros?
E enquanto atravessamos lonjuras e fronteiras,
as chamas se apagam, lentas, nas fogueiras.
VII
Os mortos, nas camarinhas de sua hospedaria,
sustêm a ponte pênsil de longa travessia,
amarrando-a em réquiens e em gestos piedosos
daqueles que, au delà, esperam todo dia
seu nunca regressar.
E a verdade da morte, tão única e púnica?
Às vezes, é mais terrível do que um grito nas muralhas,
ao trágico esplendor de chamas e batalhas.
E tudo em silêncio e abandono cai,
nas tardes de Avignon, nas ruas de Xangai,
em terras de Espanha e areias de Portugal,
na Serra da Aratanha e no Canal
da Mancha. Ou em Bruxelas.
E o vento, soturno, bate nas janelas
enquanto a morte, sempre insaciada,
sorve o néctar que molha
os ramos, em alvoradas.
Oh, os mortos, nas arcas da história,
ou na obscura nudez de sua vã memória!
Quantos sonetos e epitáfios
gravados a seus pés!
De seu grande convés eles nos olham
a barlavento e a sotavento, além.
E continuam a olhar, às vezes com desdém,
e com tal força de convencimento,
que amadurecem qual grave pensamento
ante a visão do mar.
Tudo neles é um túnel
circular. Ou uma árvore
sem água e sem ar.
À luz de suas lanternas
a eternidade hiberna.
E é nossa missão cantar seu cantochão.
Ou mastigar, em nossa consciência,
as amêndoas amargas ou o sal
de sua inexistência.
VIII
Os mortos
(os únicos seres que não envelhecem)
chorados não sejam, mas amados.
Cada dia devemos imaginar
que eles de repente podem retornar.
E são iguais a borboletas no chifre de um bisão
ou a esquilos a saltar, nas sombras, sobre a vida,
enquanto os santos e os monges rezam
e o inverno aproxima-se fatal
como em despedida.
IX
Praticamos lágrimas.
Somos hóspedes
do fluir de vãs recordações.
E solitudes sentam-se em nós
e alteram nossa voz
como o vento da terra se altera nos verões.
Mas tudo, afinal, é um infindo
morrer. Um quefazer
sem fim. Ou um trampolim
de nada.
Não há sol entre os mortos.
Só lampadas de azeite
entre as brumas e os ócios
de seus vagos portos.
E as cores são baças. Ou lânguidas. E há
entre portões cinzentos uma indizível
paz.
Muito mais do que nós eles estão
completamente sós.
E não há notícias de novas madrugadas.
As portas estão entrecerradas.
E pelas frestas percebe-se lá fora
a triste beleza de sua imóvel aurora.
1 396
Antonio Roberval Miketen
It is Late to be Morning
For Simone
Poor little helpless baby chick,
leaning against the thrash can,
at ease in a coat of sheer luxury,
derived from a secret sable fur,
finer
than human skin.
High up, the clouds
are becoming the color
of the yellow of your softness.
The evening turned the morning late.
Your little eyes still open
want my hands
touching the back of your feathers.
They want me to be a small boy,
a small boy offering my innocence
to the little child that chirps inside you.
Sweet was your tameness
bent over a defeated rose,
while you rested your eternity
on a bouquet of roses, despised
because withered.
But under you each petal bleeded,
leaving a stain of wine
in the rniddle of your belly.
I then passed by,
you were already dead when I passed by
enamored of the sunset,
oblivious of the morning
that was rising in your little eyes.
Poor little helpless baby chick,
leaning against the thrash can,
at ease in a coat of sheer luxury,
derived from a secret sable fur,
finer
than human skin.
High up, the clouds
are becoming the color
of the yellow of your softness.
The evening turned the morning late.
Your little eyes still open
want my hands
touching the back of your feathers.
They want me to be a small boy,
a small boy offering my innocence
to the little child that chirps inside you.
Sweet was your tameness
bent over a defeated rose,
while you rested your eternity
on a bouquet of roses, despised
because withered.
But under you each petal bleeded,
leaving a stain of wine
in the rniddle of your belly.
I then passed by,
you were already dead when I passed by
enamored of the sunset,
oblivious of the morning
that was rising in your little eyes.
939
Antonio Roberval Miketen
Lección de Luz
I
De súbito el silencio se tornó luz,
en tejido de música, en súbdito azul.
II
Haya en las sílabas la luz,
la armonía, el sonido del universo,
para que oigamos el silencio,
este nuestro humano silencio,
para que podamos, poeta,
pisar la página de sangre.
III
Casi visible rosa tocable del pomo,
una ojiva, en el asombro, en los hombros de la paloma.
IV
Nosotros abandonamos las cosas
porque crecemos para el sol.
Entre lo que dejamos atrás,
sin piedad, sin remordimiento,
existe la inocência, el niño;
existe el pajarito triste,
que canta de la desnudez de la luz
la elegía de la conciencia.
V
Qué música, quê música se apaga a lo lejos,
regida por las alas del ave en el horizonte?
VI
Escribe solamente lo que es breve,
en la breve luz de nuestra vida,
que nunca aborrece a los niños
y no moja márgenes en el mirar.
Así queremos tus cuadernos,
para sumergirnos en las algas,
en aquellas raíces más hondas
que encienden el verde del mar.
VII
Basta de lucidez, de claridad, de busto,
de pubertad lenta, en el seno del susto.
VIII
La pupila de una gacela
rasga las rocas del horizonte.
Violeta, la ventana de la noche,
para el lado este del azul,
donde en el añil se esconde el vientre.
IX
En el otoño: el brujuleo de pulpas enjutas;
en el vestigio de la sangre, la lujuria de la fruta.
X
En el silencio que se abre entre doblar de campanas,
hay un pajarito muerto, en lugar de un niño.
De súbito el silencio se tornó luz,
en tejido de música, en súbdito azul.
II
Haya en las sílabas la luz,
la armonía, el sonido del universo,
para que oigamos el silencio,
este nuestro humano silencio,
para que podamos, poeta,
pisar la página de sangre.
III
Casi visible rosa tocable del pomo,
una ojiva, en el asombro, en los hombros de la paloma.
IV
Nosotros abandonamos las cosas
porque crecemos para el sol.
Entre lo que dejamos atrás,
sin piedad, sin remordimiento,
existe la inocência, el niño;
existe el pajarito triste,
que canta de la desnudez de la luz
la elegía de la conciencia.
V
Qué música, quê música se apaga a lo lejos,
regida por las alas del ave en el horizonte?
VI
Escribe solamente lo que es breve,
en la breve luz de nuestra vida,
que nunca aborrece a los niños
y no moja márgenes en el mirar.
Así queremos tus cuadernos,
para sumergirnos en las algas,
en aquellas raíces más hondas
que encienden el verde del mar.
VII
Basta de lucidez, de claridad, de busto,
de pubertad lenta, en el seno del susto.
VIII
La pupila de una gacela
rasga las rocas del horizonte.
Violeta, la ventana de la noche,
para el lado este del azul,
donde en el añil se esconde el vientre.
IX
En el otoño: el brujuleo de pulpas enjutas;
en el vestigio de la sangre, la lujuria de la fruta.
X
En el silencio que se abre entre doblar de campanas,
hay un pajarito muerto, en lugar de un niño.
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António Arnaut
Os Títulos
Rei de Portugal e dos Algarves
e o resto que o mar te deu.
Agora tens o aquém
Porque o além se perdeu.
Agora tens o que é teu!
e o resto que o mar te deu.
Agora tens o aquém
Porque o além se perdeu.
Agora tens o que é teu!
1 308
Antonio Roberval Miketen
Eight Song of Friendship
Close to the waves of the sea of Vigo
I come to remember a friend.
Birds shed feathers at the horizon
and the feathers, water from a spring
in Vigo, on the seaweeds
of the friend announce his delay.
From beyond comes, light as feathers,
the pain I do not want to lament.
But the svagulls fill with mist
the depth of my sorrow,
when, on the shores of the sea of Vigo
I come to remember a friend.
I come to remember a friend.
Birds shed feathers at the horizon
and the feathers, water from a spring
in Vigo, on the seaweeds
of the friend announce his delay.
From beyond comes, light as feathers,
the pain I do not want to lament.
But the svagulls fill with mist
the depth of my sorrow,
when, on the shores of the sea of Vigo
I come to remember a friend.
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