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Poemas neste tema

Alma

Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

Na Minha Terra

Amo o vento da noite sussurrante
A tremer nos pinheiros
E a cantiga do pobre caminhante
No rancho dos tropeiros;

E os monótonos sons de uma viola
No tardio verão,
E a estrada que além se desenrola
No véu da escuridão;

A restinga dareia onde rebenta
O oceano a bramir,
Onde a lua na praia macilenta
Vem pálida luzir;

E a névoa e flores e o doce ar cheiroso
Do amanhecer na serra,
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra;

E o longo vale de florinhas cheio
E a névoa que desceu,
Como véu de donzela em branco seio,
Às estrelas do céu.

II

Não é mais bela, não, a argêntea praia
Que beija o mar do sul,
Onde eterno perfume a flor desmaia
E o céu é sempre azul;

Onde os serros fantásticos roxeiam
Nas tardes de verão
E os suspiros nos lábios incendeiam
E pulsa o coração!

Sonho da vida que doirou e azula
A fala dos amores,
Onde a mangueira ao vento que tremula
Sacode as brancas flores,

E é saudoso viver nessa dormência
Do lânguido sentir,
Nos enganos suaves da existência
Sentindo-se dormir;

Mais formoso não é: não doire embora
O verão tropical
Com seus rubores e alvacenta aurora
Na montanha natal,

Nem tão doirada se levante a lua
Pela noite do céu,
Mas venha triste, pensativa - e nua
Do prateado véu -

Que me importa? se as tardes purpurinas
E as auroras dali
Não deram luz às diáfamas cortinas
Do leito onde eu nasci?

Se adormeço tranqüilo no teu seio
E perfuma-se a flor
Que Deus abriu no peito do Poeta,
Gotejante de amor?

Minha terra sombria, és sempre bela,
Inda pálida a vida
Como o sono inocente da donzela
No deserto dormida!

No italiano céu nem mais suaves
São as noites os amores,
Não tem mais fogo o cântigo das aves
Nem o vale mais flores!

III

Quando o gênio da noite vaporosa
Pela encosta bravia
Na laranjeira em flor toda orvalhosa
De aroma se inebria,

No luar junto à sombra recendente
De um arvoredo em flor,
Que Saudades e amor que influi na mente
Da montanha o frescor!

E quando à noite no luar saudoso
Minha pálida amante
Ergue seus olhos úmidos de gozo,
E o lábio palpitante...

Cheia de argêntea luz do firmamento
Orando por seu Deus,
Então... eu curvo a fronte ao sentimento
Sobre os joelhos seus...

E quando sua voz entre harmonias
Sufoca-se de amor,
E dobra a fronte bela de magias
Como pálida flor,

E a arma pura nos seus olhos brilha
Em desmaiado véu,
Como de um anjo na cheirosa trilha
Respiro o amor do céu!

Melhor a viração uma por uma
Vem as folhas tremer,
E a floresta saudosa se perfuma
Da noite no morrer,

E eu amo as flores e o doce ar mimoso
Do amanhecer da serra
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra!
5 058
Cláudio Alex

Cláudio Alex

Farol Escarlate

I

Ah sim... sou eu...
Estava aqui pensando que a tarde invernal
poderia, como solar, trazer-te.
Boa tarde... sempre te espero.
Tua voz de garota, agora, comendo bolo.
Sim... te amo toda
Toda te quero.
Sempre.

Ah! O feitiço do amor prometido eterno.
A certeza do Sol e Lua gêmeos.
Que se apague a luz no eclipse
para que se amem nos escuro
esses dois amantes.
Pois o destino aperta o laço.

Estás de volta?
Chegou agosto... como disseram as cartas.
As cartas de tarot.
De novo aquela proximidade de alma.
O elo sensorial das coisas
que te trazem para junto e te mantêm comigo.

Cá estou eu, sábado,
fones no ouvido,
na tua mesma freqüência.

Sim, estou de novo dentro de ti.
Sim, estou aqui de novo
com essa coisa que preenche tudo.

Sim, te amo, sempre te amo
isso nunca irá acabar.

II

Cansada de atender
ao que lhe exige o comportamento.
Na rigidez dos dias, sem motivo,
sem o sol das hora hipotéticas,
sem o sol do brilho das clarezas.

Confusa!
Espécie perdida entre os afazeres.
Numa casa perdida aos acasos.
Numa cidade menor do que o próprio instinto.
Um confinamento no ermo atrás das nuvens.

O que se encontra atrás das nuvens?
O amor perdido em páginas de mensagens?
Onde está ele agora?
Onde ela está?
O frio de todos os invernos
a carcomer as fibras dos nervos.

Onde está a dona de si mesma?
Onde está a última tentação da carne?
Onde está o filho do acaso perdido na última morada?
A morada da última felicidade.
Percorrer as alamedas de volta prá casa.
Percorrer a aléas de volta prá si.
Tornar a encontrar-se, consigo, num dia futuro.
Beber aquela água, da mesma fonte,
até então envolta pela macegas de seus receios.

Estás de novo de volta.
Queres de novo a si mesma.
Retomar o tema do amor inacabado...
e a sinfonia da mulher que és.

Quem foi ela?
Onde estão aquelas manhãs?
Onde o sol brilhava diferente?
Quando a vida parecia ter a cor das horas?
Onde estiveste nesse exílio de ti?

Sim, percorrer os caminhos de volta...
É necessário ser.
Ou teu destino será ser apenas um resto de si?
E permanecer num eterno ter a fazer?

Eu hoje numa outra estação,
aguardo o comboio que te trás de volta.
Outra vida, outra plataforma.
Outra parada do além-sempre.
...da continuidade vital.
Da vida que sempre nos exige
o extrato contábil do ser nós mesmos.

Aguardo teu trem chegar
com a tranqüilidade na alma
de quem aprendeu que toda hora chega.
...e que o comboio sempre chega.

Tranqüilo na plataforma,
um homem diferente,
mas dentro de tua essência.
Dono de uma amor mais maduro.
Dono de mim, espero tua chegada.

Não, não é retorno.
É uma nova chegada.
É uma nova mulher
que encontra um novo homem
numa gare do destino.

O que persiste dentro de ambos é o amor.
O mesmo amado amor que ensinou a ser
Algo mais que a soma das vidas.
Que não se conteve dentro do frasco imposto
e, volátil, escapou, percolou os interstícios,
atravessou as distâncias e se misturou num éter
que sou eu e que és tu...
o dois-um transformado...
e que resiste a tudo.

Não... não existem recipientes que nos contenham!
Atravessaremos por todas as frestas...
Porque sempre haverá um meio
de recuperar a felicidade apenas adiada.

III

Você sabe onde está?
Ensina-me o caminho
para ir te buscar.
Eu preciso te encontrar
e te mostrar de ti.
Deitar minha voz em teus ouvidos.
Deitar meu olhar em seus olhos.
Sobre ti.
E fazer-te lembrar de ti.
Quem é você?
Ainda te lembra?
Percebes o exílio?
O que seria de ti
ao encontrar teu espelho
refletido em meus olhos.

Onde estão teus olhos?
Para onde olham agora?
E o que vêem?
Vislumbram o encanto das horas?
Percebem as cores da manhã?
Pressentem a magia dos momentos?
Sabem do toque intuído no bico do seio?
Sentem aquela emoção de encontrar o querido?
Do dia-após-dia que não cansa nunca?
Daquilo que sempre conduz a mais?

Ai... quanta saudade!
Quanta saudade de abranger-te, completa,
em meus braços.
Quanta ansiedade de saber-se pleno
de um amor infinito.

Não, não se corrói com a passagem das horas.
Não, não se dilui com o encanto das águas.
Eu estou aqui, renovado, mas teu.
Eu estou aqui e sou teu.
Espero o momento do reencontro,
pois sou teu,
permaneço teu,
sempre serei teu.

IV

Por que vacilas?
Fizestes tanto e agora
esboças desencanto.

Por que se embrenhar
nas malhas de seu medo?
Você já sabe que sempre é tarde,
Que nunca é cedo?

Que o momento é quando
se sente as veias palpitando.
E que o tempo deixado
jamais poderá ser reparado.

V

A noite traz-me o cheiro dos bálsamos.
O odor dos campos, a brisa das florestas.
As almas que pactuam o local do encontro,
acima das nuvens, por demais atalhos.

O fino eriçar dos pelos de tuas coxas.
O suave murmúrio oriundo de teu ventre.
De repente tudo é pele.
A seda das manhãs
tocadas pelo sol de inverno.
Noite e dia encontram-se no quarto.
O silêncio suburbano
entrecortado pelos fogos dos balões.

O fino estremecer dos músculos incautos.
O mover das pernas que abrem passagem
para que se mate a sede
de todos os dias aziagos.
O farfalhar das cobertas
num repente abandonadas ao lado.

VI

Um vale de luzes sob a janela.
Debruço na madrugada o meu hálito...
A febre de uma bronquite mal curada
a derramar espasmos sobre as estrelas.

Estou longe, sim, estou longe.
Nesta madrugada me perdes um pouco.
Sobra-me, no entanto, à luz das aparências...
Move-me a paz do silêncio através dos éteres.

Saio de mim, percorro as asas.
As vagas que incendeiam
as torres das refinarias
ao longe desse horizonte.

As contas dos colares das luzes da cidade.
O vento frio do último estertor de inverno.
O farol escarlate da usina.
A fumaça fabril do céu suburbano.

Estou aqui... estou aqui...
Estou longe do alcance de tuas buscas.
Longe do teu olhar e ouvido perscrutador.
Mas eu estou em teu silêncio
dessa noite de solidão,
vivência do desperdício,
da cidade, um precipício,
de ser mais uma noite vazia.

VII

As nuvens construíram um teto baixo...
sei que teu vôo perfura o céu
acima das nuvens.
Enquanto permaneço aqui
onde tudo é tão longe
e a viagem nunca começa.

Estou preso ao meu nada.
Atado ao rodapé dos vazios.
Onde eu tenho para ir?
Quais são os caminhos do vácuo?

Resta o amanhã de tudo:
as horas mortas de tuas tardes,
onde te lembres de ti;
onde juntas os fragmentos
e refaz-se o todo de ti.

Como se perder no cotidiano?
Fácil... quando o dia-a-dia apaga
o fogo de até mesmo existir.
- Não sou infeliz!
Mas não és feliz!

O que te resta na abundância?
Diga-me o dia de ir.
Abre a porta do teu endere
1 065
Alberico Carneiro

Alberico Carneiro

As Damas Negras em Noite de Núpcias

1
talvez um poema seja
simples sobra de palavras
impronunciadas por pessoas
na inútil Babel da fala
mas impressas como em tábuas
da sarça do Verbo em chamas
nessa partida de Damas
Negras em Noite de Núpcias
que num lance de dados e de dedos
o acaso não abolirá

2
talvez um poema seja
simples poeira de palavras
projetadas de pessoas
imprimidas como trevas
bem no coração da névoa
que acaso num lance de dedos e dados
como silhuetas que se projetam
como penumbra esfumada
que o acaso não abolirá

3
talvez um poema seja
simples sombras de pessoas
transformadas em palavras
silhuetas tatuagendadas
por invisíveis carimbos
que explodem na claridade
a pista de rastros e restos
de cacos caos e resíduos
do simulacro das lágrimas
mumificadas em larvas
de adeuses e últimos gestos
salvo após o rescaldo
em caligramas e símbolos
que de súbito num lance de dedos e de dados
o acaso não abolirá

4
talvez um poema seja
simples escombros de palavras
projetadas de pessoas
balbuciados pedaços
de silêncios e silícios
de gritos amordaçados
silenciosos ideogramas
gritos dos olhos dos mudos
barulho de dedos dos surdos
o supertato dos cegos
na visão dos surdomudos
aprisionados em páginas
imagens anônimas das almas
mensagens psicografadas
na comunhão dos sentidos
que num lance de dados e de dedos
o acaso não abolirá

5
talvez um poema seja
simples sobra de palavras
projeção de suas sombras
ou o espectro de suas auras
que da escassez ou da falta
ingressam na noite e tombam
no elíptico canto deságuam
no despenhadeiro da ascensão
que por um lance de dados e de dedos
o acaso não abolirá

6
talvez um poema seja
simples sobras de palavras
impronunciadas por pessoas
projetadas como sombras
tatuagendadas na pele
tangenciadas na neve
com impressões digitais
silhuetas que despreendem
oscilam dos corpos e tombam
num lance de dados e dedos
que o acaso não abolirá

7
talvez um poema seja
simples sobras de pessoas
encantadas em palavras
projetadas como sombras
tatuagendadas incisões
como impressões digitais
de cicatrizes em ronda
que se despreendem da pele
oscilam dos corpos e tombam
num lance de dedos e dados
que o acaso não apagará

8
talvez um poema seja
somente sombras de palavras
pó que despreende dos corpos
como poeira de estrelas
que viola a gravidade
do Cosmo e telescópios
e foge de apelos celestes
viaja a mil anos-luz
e à noite poleniza as folhas
em suas densas corolas
e no coração das trevas
inscreve-se em simples larva
e deixa aí manuscrito
todo o poema da Terra
que nos charcos enfim enfloresce
como num lance de dedos e de dados
que o acaso não abolirá

9
talvez um poema assim
seja simples
como sombras de palavras
simples silhuetas ímpares
de simples pessoas pares
anônimo canto dos párias
que no caminho meio desta vida
entre lances de dedos e de dados
como as Damas súbitas da partida
o acaso não abolirá

talvez o poema assim seja

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