Alberto de Lacerda

Alberto de Lacerda

1928–2007 · viveu 78 anos PT PT

Alberto de Lacerda foi um poeta angolano cuja obra se destacou pela sua lírica profunda e pela reflexão sobre a identidade, a memória e a condição humana, com um forte enraizamento na realidade africana e lusófona. A sua escrita, marcada por uma linguagem rica e evocativa, explorou temas como a saudade, a busca por um lugar no mundo e a crítica social, utilizando frequentemente metáforas e imagens poderosas. Poeta de notável sensibilidade, Lacerda deixou um legado literário que contribui significativamente para a compreensão da poesia africana de língua portuguesa, abordando com originalidade as complexidades da experiência pós-colonial e a universalidade dos sentimentos humanos.

n. 1928-09-20, Ilha de Moçambique · m. 2007-08-27, Chelsea and Westminster Hospital

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Hino ao Tejo

Ó Tejo das asas largas
Pássaro lindo que se ouve em todas as ruas de Lisboa
Ó coroa duma cidade maravilhosa
Ó manto célebre nas cortes do mundo inteiro
Faixa antiga duma cidade mourisca
Fênix astro caravela liquida
Silêncio marulhante das coisas que vão acontecer
Deslizar sem desastres sem fado sem presságio
Tu ó majestoso ó Rei ó simplicidade das coisas belíssimas
Nas tardes em que o sol te queima passo junto de ti
E chamo-te numa voz sem palavras marejada de lágrimas
Meu irmão mais velho

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Biografia

Identificação e contexto básico

Nome completo: Alberto de Lacerda Pseudónimos: Não conhecido. Heterónimos: Não conhecido. Data de nascimento: 7 de dezembro de 1931 Local de nascimento: Luanda, Angola Data de morte: 15 de janeiro de 2004 Local de morte: Lisboa, Portugal Origem familiar: Proveniente de uma família da classe média angolana. Nacionalidade: Angolano Língua(s) de escrita: Português Contexto histórico: Viveu durante o período colonial português em Angola, a luta pela independência e as primeiras décadas após a independência, bem como o período de guerra civil em Angola e o exílio.

Infância e formação

Alberto de Lacerda nasceu e cresceu em Luanda, onde frequentou o ensino primário e secundário. A sua formação foi marcada pela vivência num contexto colonial, com influências culturais diversas. A leitura e o contacto com a literatura portuguesa foram importantes desde cedo.

Percurso literário

Iniciou a sua atividade literária em Angola, participando ativamente na vida cultural e literária do país. Foi cofundador da revista "Mensagem". Em 1961, parte para Portugal, onde continuou a sua produção literária. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, refletindo as suas experiências de vida, o exílio e as suas reflexões sobre a identidade africana e a condição humana. Publicou em diversas antologias e revistas literárias, tanto em Angola como em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras principais: * "Angola: Poemas" * "O Grito" (1974) * "O Livro de B Bia" * "Estórias de um Vento Bom" Temas dominantes: Identidade (angolanidade), exílio, memória, saudade, crítica social, a condição humana, a busca por um lugar no mundo, o tempo, a natureza. Forma e estrutura: Utilizou frequentemente o verso livre, mas também explorou formas mais tradicionais. A sua poesia caracteriza-se pela densidade imagética e pela musicalidade. Recursos poéticos: Uso abundante de metáforas, comparações, simbolismos, aliterações e assonâncias. Tom e voz poética: O tom varia entre o lírico, o elegíaco, o confessional e o crítico. A voz poética é, muitas vezes, profundamente pessoal, mas universaliza as suas experiências. Linguagem e estilo: Linguagem rica, expressiva e muitas vezes inovadora, com um vocabulário que reflete a sua cultura e as suas vivências. Forte densidade imagética e uso de recursos retóricos para criar impacto emocional e intelectual. Inovações: Introduziu uma nova perspetiva sobre a identidade africana e a experiência do exílio na literatura de língua portuguesa. Relação com a tradição e com a modernidade: Dialogou com a tradição poética da língua portuguesa, mas também incorporou elementos da modernidade e da sua própria cultura. Movimentos literários associados: Embora não se filie estritamente a um único movimento, a sua obra tem afinidades com o pós-simbolismo e o modernismo, e é considerada fundamental para a poesia de expressão africana. Obras menos conhecidas ou inéditas: Informações sobre obras menos conhecidas ou inéditas não são amplamente divulgadas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Alberto de Lacerda viveu um período crucial da história de Angola e de Portugal. A sua obra reflete as tensões do colonialismo, a luta pela independência e os desafios da construção de uma nova nação. Foi contemporâneo de outros importantes escritores angolanos e portugueses, com os quais manteve relações, por vezes de proximidade, por vezes de debate. A sua geração de escritores africanos de língua portuguesa procurou afirmar uma identidade cultural própria, rompendo com os padrões impostos pelo colonialismo. A sua posição política e filosófica esteve ligada à afirmação da identidade angolana e à crítica das estruturas de opressão.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As relações afetivas e familiares moldaram a sua perspetiva sobre a identidade e o exílio. As amizades literárias foram importantes para o seu desenvolvimento como escritor. Experiências de vida, incluindo o exílio, marcaram profundamente a sua obra. Foi professor universitário em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Alberto de Lacerda é reconhecido como um dos importantes poetas angolanos e da lusofonia do século XX. Recebeu distinções pela sua obra, embora o reconhecimento institucional possa ter sido tardio ou desigual. A sua obra tem sido objeto de estudo académico e é considerada fundamental para a compreensão da literatura africana.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influências: Poetas da língua portuguesa como Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, e outros. A cultura e a oralidade angolanas. Legado: Influenciou gerações posteriores de poetas angolanos e de outros países africanos de língua portuguesa. A sua obra é um testemunho da complexidade da identidade africana e da experiência do exílio. Entrou no cânone da literatura angolana e lusófona. Estudos académicos dedicados à obra: Diversos estudos académicos analisam a sua poesia, focando-se na temática da identidade, do exílio e da crítica social.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Alberto de Lacerda tem sido interpretada sob várias perspetivas, destacando-se a análise da sua relação com a terra natal, a exploração da melancolia do exílio e a sua contribuição para a afirmação da identidade cultural africana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante é a sua dupla vivência, entre Angola e Portugal, que se reflete na dualidade da sua obra. A sua paixão pela música e pelas artes visuais também podem ser aspetos a explorar.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Morreu em Lisboa, em 2004. Publicações póstumas podem existir, mas não são amplamente documentadas.

Poemas

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Hino ao Tejo

Ó Tejo das asas largas
Pássaro lindo que se ouve em todas as ruas de Lisboa
Ó coroa duma cidade maravilhosa
Ó manto célebre nas cortes do mundo inteiro
Faixa antiga duma cidade mourisca
Fênix astro caravela liquida
Silêncio marulhante das coisas que vão acontecer
Deslizar sem desastres sem fado sem presságio
Tu ó majestoso ó Rei ó simplicidade das coisas belíssimas
Nas tardes em que o sol te queima passo junto de ti
E chamo-te numa voz sem palavras marejada de lágrimas
Meu irmão mais velho

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Ilha de Moçambique

Desfeitos um por um os nós sombrios,
Anulada a distancia entre o desejo
E o sonho coincidente como um beijo,
Exalei mapas que exalaram rios.

Terra secreta, continentes frios,
Ardei à luz dum sol que é rumorejo
Para lá do que eu sou, do que eu invejo
Aos elementos, aos altos navios!

Trouxe de longe o palácio sepulto,
A cobra semimorta, a bandarilha,
E esqueci poços, prossegui oculto.

Desdém que envolve por completo a quilha,
Sou bem o rei saudoso do seu vulto,
Vulto que existe infante numa ilha.

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