Poemas neste tema
Alma
Álvares de Azevedo
Tarde de Outono
Un souvenir heureux est peut-être sur terre
Plus vrai que le bonheur.
Alfred de Musset
O Poeta:
Oh! Musa, por que vieste,
E contigo me trouxeste
A vagar na solidão?
Tu não sabes que a lembrança
De meus anos de esperança
Aqui fala ao coração?
A Saudade:
De um puro amor a lânguida Saudade
É doce como a lágrima perdida
Que banha no cismar um rosto virgem,
Volta o rosto ao passado, e chora a vida.
O Poeta:
Não sabe o quanto dói
Uma lembrança quye rói
A fibra que adormeuceu?...
Foi neste vale que amei,
Que a primavera sonhei,
Aqui minha alma viveu.
A Saudade:
Pálidos sonhos no passado morto
É dove reviver mesmo chorando.
A alma refez-se pura. Um vento aéreo
Parece que de amor nos vai roubando.
O Poeta:
Eu vejo ainda a janela
Onde à tarde junto dela
Eu lia versos de amor...
Como eu vivia d’enleio
No bater daquele seio,
Naquele aroma de flor!
Creio vê-la inda formosa,
Nos cabelos uma rosa,
De leve a janela abrir...
Tão bela, meu Deus, tão bela!
Por que amei tanto, donzela,
Se devias me trair ?
A Saudade:
A casa está deserta. A parasita
Das paredes estala a negra cor.
Os aposentos o ervaçal povoa.
A porta é franca... Entremos, trovador!
O Poeta:
Derramai-vos, prantos meus!
Dai-me prantos, ó meu Deus!
Eu quero chorar aqui!
Em que sonhos de ebriedade
No arrebol da mocidade
Eu nesta sombra dormi!
Passado, por que murchaste?
Ventura, por que passaste
Degenerando em Saudade?
Do estio secou-se a fonte,
Só ficou na minha fronte
A febre da mocidade.
A Saudade:
Sonha, Poeta, sonha! Ali sentado
No tosco assento da janela antiga,
Apóia sobre a mão a face pálida,
Sorrindo - dos amores à cantiga.
O Poeta:
Minha alma triste se enluta,
Quando a voz interna escuta
Que blasfema da esperaçança,
Aqui tudo se perdeu,
Minha pureza morreu
Com o enlevo de criança!
Ali amante ditoso,
Delirante, suspiroso,
Eflúvios dela sorvi.
No seu colo eu me deitava...
E ela tão doce cantava!
De amor e canto vivi!
Na sombra deste arvoredo
Oh! quantas vezes a medo
Nossos lábios se tocaram!
E os seios onde gemia
Uma voz que amor dizia,
Desmaiando me apertaram!
Foi doce nos braços teus,
Meu anjo belo de Deus,
Um instante do viver!
Tão doce, que em mim sentia
Que minhalma se esvaía
E eu pensava ali morrer!
A Saudade:
É berço de mistério e dharmonia
Seio mimoso de adorada amante.
A alma bebe nos sons que amor suspira
A voz, a doce voz de uma alma errante.
Tingem-se os olhos de amorosa sombra,
Os lábios convulsivos estremecem,
E a vida foge ao peito ... apenas tinge
As faces que de amor empalidecem.
Parece então que o agitar do gozo
Nossos lábios atrai a um bem divino:
Da amante o beijo é puro como as flores
E a voz dela é um hino.
Dizei-o vós, dizei, ternos amantes,
Almas ardentes que a paixão palpita,
Dizei essa emoção que o peito gela
E os frios nervos num espasmo agita.
Vinte anos! como tens doirados sonhos!
E como a névoa de falaz ventura
Que se estende nos olhos do Poeta
Doira a amante de nova formosura!
O Poeta:
Que gemer! não me enganava?
Era o anjo que velava
Minha casta solidão?
São minhas noites gozadas,
As venturas tão choradas
Que vibram meu coração?
É tarde, amores, é tarde;
Uma centelha não arde
Na cinza dos seios meus...
.........................................
.........................................
Plus vrai que le bonheur.
Alfred de Musset
O Poeta:
Oh! Musa, por que vieste,
E contigo me trouxeste
A vagar na solidão?
Tu não sabes que a lembrança
De meus anos de esperança
Aqui fala ao coração?
A Saudade:
De um puro amor a lânguida Saudade
É doce como a lágrima perdida
Que banha no cismar um rosto virgem,
Volta o rosto ao passado, e chora a vida.
O Poeta:
Não sabe o quanto dói
Uma lembrança quye rói
A fibra que adormeuceu?...
Foi neste vale que amei,
Que a primavera sonhei,
Aqui minha alma viveu.
A Saudade:
Pálidos sonhos no passado morto
É dove reviver mesmo chorando.
A alma refez-se pura. Um vento aéreo
Parece que de amor nos vai roubando.
O Poeta:
Eu vejo ainda a janela
Onde à tarde junto dela
Eu lia versos de amor...
Como eu vivia d’enleio
No bater daquele seio,
Naquele aroma de flor!
Creio vê-la inda formosa,
Nos cabelos uma rosa,
De leve a janela abrir...
Tão bela, meu Deus, tão bela!
Por que amei tanto, donzela,
Se devias me trair ?
A Saudade:
A casa está deserta. A parasita
Das paredes estala a negra cor.
Os aposentos o ervaçal povoa.
A porta é franca... Entremos, trovador!
O Poeta:
Derramai-vos, prantos meus!
Dai-me prantos, ó meu Deus!
Eu quero chorar aqui!
Em que sonhos de ebriedade
No arrebol da mocidade
Eu nesta sombra dormi!
Passado, por que murchaste?
Ventura, por que passaste
Degenerando em Saudade?
Do estio secou-se a fonte,
Só ficou na minha fronte
A febre da mocidade.
A Saudade:
Sonha, Poeta, sonha! Ali sentado
No tosco assento da janela antiga,
Apóia sobre a mão a face pálida,
Sorrindo - dos amores à cantiga.
O Poeta:
Minha alma triste se enluta,
Quando a voz interna escuta
Que blasfema da esperaçança,
Aqui tudo se perdeu,
Minha pureza morreu
Com o enlevo de criança!
Ali amante ditoso,
Delirante, suspiroso,
Eflúvios dela sorvi.
No seu colo eu me deitava...
E ela tão doce cantava!
De amor e canto vivi!
Na sombra deste arvoredo
Oh! quantas vezes a medo
Nossos lábios se tocaram!
E os seios onde gemia
Uma voz que amor dizia,
Desmaiando me apertaram!
Foi doce nos braços teus,
Meu anjo belo de Deus,
Um instante do viver!
Tão doce, que em mim sentia
Que minhalma se esvaía
E eu pensava ali morrer!
A Saudade:
É berço de mistério e dharmonia
Seio mimoso de adorada amante.
A alma bebe nos sons que amor suspira
A voz, a doce voz de uma alma errante.
Tingem-se os olhos de amorosa sombra,
Os lábios convulsivos estremecem,
E a vida foge ao peito ... apenas tinge
As faces que de amor empalidecem.
Parece então que o agitar do gozo
Nossos lábios atrai a um bem divino:
Da amante o beijo é puro como as flores
E a voz dela é um hino.
Dizei-o vós, dizei, ternos amantes,
Almas ardentes que a paixão palpita,
Dizei essa emoção que o peito gela
E os frios nervos num espasmo agita.
Vinte anos! como tens doirados sonhos!
E como a névoa de falaz ventura
Que se estende nos olhos do Poeta
Doira a amante de nova formosura!
O Poeta:
Que gemer! não me enganava?
Era o anjo que velava
Minha casta solidão?
São minhas noites gozadas,
As venturas tão choradas
Que vibram meu coração?
É tarde, amores, é tarde;
Uma centelha não arde
Na cinza dos seios meus...
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3 153
Aleilton Fonseca
Um Poema de Jorge de Lima
Jorge de Lima (1893-1953) escreveu um poema intitulado "O grande desastre aéreo de ontem", dedicado ao pintor Cândido Portinari (Cf: LIMA, Jorge de. Poesia completa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1980, 2 v, v 1, p. 237) que ficou praticamente esquecido pelos estudiosos. Isto talvez se deva ao fato deste poema estar, de certa forma, fora das características gerais da poesia do poeta alagoano. Trata-se de um poema em prosa, condensado em apenas um parágrafo, no qual podemos perceber duas partes justapostas. Eis a primeira:
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor.
Jorge de Lima inicia o poema com o registro de uma constatação, introduzida através do verbo no presente (vejo), seguindo-se a enumeração dos objetos de sua percepção, cujo sentido irá constituir-se no conjunto do texto. Na segunda parte, há uma retomada do impulso poético, com a repetição da frase inicial e nova enumeração dos objetos e seres percebidos, chegando a uma espécie de chave de ouro nas duas frases finais:
Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.
"Não faça poesia com acontecimentos", afirmou Carlos Drummond de Andrade em seu antológico poema "A procura da poesia". Esta posição, assumida em pleno exercício de reflexão sobre o fazer poético, lembra o ponto de vista clássico sobre a poesia lírica, que a considerava o resultado da projeção da subjetividade sobre o mundo, tradução em palavras da experiência emotiva do poeta.
Até hoje a divisão de gênero ainda opõe a subjetividade da lírica à objetividade da prosa. Dessa forma, o dado objetivo - acontecimento em si - não seria propriamente poético. Um fato que se pode narrar, mesmo recriado literariamente, pertenceria propriamente ao campo da prosa como matéria da ficção. Mas, como se sabe, o próprio Drummond fez muitos poemas de acontecimentos, haja vista a grande coletânea intitulada Boitempo, suas memórias em verso. Manuel Bandeira também deixou vários poemas sobre fatos, inclusive o famoso "Poema tirado de uma notícia de jornal". E há vários outros exemplos que se podem citar.
Ocorre que os poetas modernos definitivamente incorporaram o dado factual como matéria da poesia, estabelecendo o estatuto do poético a partir de uma perspectiva centrada na forma/linguagem. O fato, o "acontecimento", real ou imaginário, torna-se uma referência externa ao texto, seu elo motivador, seu marco inicial de senntido. O poema, assim originado, poderá, se bem realizado, adquirir permanência e estatura literárias, uma vez que, por sua construção enquanto linguagem poética, torna-se um valor em si mesmo, descolado do fato que o tenha motivado.
O poema de Jorge de Lima é um exemplo disso. Aparentemente, em seu título, se anuncia como registro de um fato, mas desde a primeira frase evolui para um jogo de imagens de grande beleza plástica, com um efeito poético notável. O título do poema se assemelha a uma manchete de jornal a abrir mais uma notícia. De saída, isso levaria a esperar um texto referencial, como se fôssemos ter a crônica de um acontecimento, uma pequena descrição do fato, ou informações detalhadas sobre o "grande desastre". O texto se desenvolve rápido num só parágrafo e a leitura nos mostra que não estamos diante da simples informação e/ou descrição de um fato. Estamos diante de um jorro de palavras que explode em metáforas diante de nossos olhos, no espaço da folha, num continuum lírico que comunica a projeção da subjetividade do eu poético sobre a experiência do fato, vivido ao nível da imaginação.
Edgar Allan Poe, no texto "A Filosofia da Composição", descreve os mecanismos por ele desenvolvidos para conseguir determinados efeitos poéticos em seu célebre poema The raven (o corvo). Segundo Poe, é muito difícil manter o fluxo lírico em alta, à medida que o poema avança. Assim, o poeta precisa introduzir imagens de reforço e reiterar motivos, de modo a avivar e manter a força lírica do poema. Embora seja um texto curto, o poema de Jorge de Lima parece utilizar-se desse procedimento formal.
O poema do poeta alagoano se desenvolve a partir de uma imagem básica, "sangue/cor", que é reiterada duas vezes, retomando o fôlego lírico: "Vejo sangue no ar" e "chove sangue". Esta imagem dá a tonalidade pictórica do poema, fixa o quadro, estabelecendo a idéia de um instantâneo, como uma pintura moderna, com o motivo no primeiro plano de visão que "choca", trazendo de permeio os detalhes. Essa motivação se esclarece pela circunstância em que foi produzido, pelo seu tema e pela intenção de homenagear o pintor Cândido Portinari. As imagens que seguem, a partir de pretensas informações acerca dos passageiros, não estão numa ordem secundária no poema, antes funcionam para intensificar o fluxo lírico de maneira crescente, até a retomada da imagem básica, que realimenta o processo e fecha em clímax, na última reiteração.
A idéia do "instantâneo" lírico é garantida no plano textual através da reiteração da forma verbal sempre no presente, em que "vejo" (7 vezes) e "vem" (5 vezes) marcam, na seqüência lingüística, o que poeticamente é um instante, uma explosão lírica: a imagem que o poeta traduz.
Vejamos as imagens complementares que intensificam o fluxo poético: O poeta "vê" primeiro o piloto, referência inicial à dicotomia segurança/desastre, que a circunstância "estar num avião" impõe. Mas não é apenas um registro: é a imagem da quebra da seqüência dos gestos de vida, representados pela "flor para a noiva". A perda aí não é apenas de um piloto, mas do homem em si, e de seus gestos inerentes a sua condição de humanidade. Essa condição está representada pelo sentimento (o amor) interrompido num irônico/amargo "abraço à hélice". E se seguem: o violinista e seu estradivários/ mãos e pernas de dançarina / meninas que caem como se dançassem/ a prima-dona riscando o ceú. Esse feixe de imagens compõem nessa aquarela um tom musical trágico-lírico, transferindo a imagem potencial dos gestos ordenados da partitura e da coreografia, para outro plano em que são associadas aos movimentos da explosão, noutra ordem natural, como partitura-ao-acaso. A imagem musical aí composta traduz a idéia da vida submetida, num instante, a outro ritmo não dominado pelo homem (a pane, a explosão), que o surpreende, configurando uma imagem lírico-coreográfica da vida que explode em morte. Isto lembra o auge operístico trágico-lírico, pois também no poema os detalhes se somam num avolumar-se até chegar ao clímax, causando a "explosão" emotiva no leitor-fruidor do texto.
As imagens da quebra do ritmo da vida pela explosão/ morte se consolida nas passagens seguintes: o salto da nadadora, a louca abraçada ao ramalhete de rosas/paraquedas, o "paralítico que vem com extrema rapidez". A explosão subverte o ritmo natural da vida e precipita as personagens num ritmo não mais intrínseco a si mesmas, mas ao próprio movimento em si, enquanto propriedade inerente à matéria. Essa força projeta-os noutra lógica - surrealista - que anc
Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius. Há mãos e pernas de dançarinas arremessadas na explosão. Corpos irreconhecíveis identificados pelo Grande Reconhecedor.
Jorge de Lima inicia o poema com o registro de uma constatação, introduzida através do verbo no presente (vejo), seguindo-se a enumeração dos objetos de sua percepção, cujo sentido irá constituir-se no conjunto do texto. Na segunda parte, há uma retomada do impulso poético, com a repetição da frase inicial e nova enumeração dos objetos e seres percebidos, chegando a uma espécie de chave de ouro nas duas frases finais:
Vejo sangue no ar, vejo chuva de sangue caindo nas nuvens batizadas pelo sangue dos poetas mártires. Vejo a nadadora belíssima, no seu último salto de banhista, mais rápida porque vem sem vida. Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem ainda. E vejo a louca abraçada ao ramalhete de rosas que ela pensou ser o paraquedas, e a prima-dona com a longa cauda de lantejoulas riscando o céu como um cometa. E o sino que ia para uma capela do oeste, vir dobrando finados pelos pobres mortos. Presumo que a moça adormecida na cabine ainda vem dormindo, tão tranqüila e cega! Ó amigos, o paralítico vem com extrema rapidez, vem como uma estrela cadente, vem com as pernas do vento. Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.
"Não faça poesia com acontecimentos", afirmou Carlos Drummond de Andrade em seu antológico poema "A procura da poesia". Esta posição, assumida em pleno exercício de reflexão sobre o fazer poético, lembra o ponto de vista clássico sobre a poesia lírica, que a considerava o resultado da projeção da subjetividade sobre o mundo, tradução em palavras da experiência emotiva do poeta.
Até hoje a divisão de gênero ainda opõe a subjetividade da lírica à objetividade da prosa. Dessa forma, o dado objetivo - acontecimento em si - não seria propriamente poético. Um fato que se pode narrar, mesmo recriado literariamente, pertenceria propriamente ao campo da prosa como matéria da ficção. Mas, como se sabe, o próprio Drummond fez muitos poemas de acontecimentos, haja vista a grande coletânea intitulada Boitempo, suas memórias em verso. Manuel Bandeira também deixou vários poemas sobre fatos, inclusive o famoso "Poema tirado de uma notícia de jornal". E há vários outros exemplos que se podem citar.
Ocorre que os poetas modernos definitivamente incorporaram o dado factual como matéria da poesia, estabelecendo o estatuto do poético a partir de uma perspectiva centrada na forma/linguagem. O fato, o "acontecimento", real ou imaginário, torna-se uma referência externa ao texto, seu elo motivador, seu marco inicial de senntido. O poema, assim originado, poderá, se bem realizado, adquirir permanência e estatura literárias, uma vez que, por sua construção enquanto linguagem poética, torna-se um valor em si mesmo, descolado do fato que o tenha motivado.
O poema de Jorge de Lima é um exemplo disso. Aparentemente, em seu título, se anuncia como registro de um fato, mas desde a primeira frase evolui para um jogo de imagens de grande beleza plástica, com um efeito poético notável. O título do poema se assemelha a uma manchete de jornal a abrir mais uma notícia. De saída, isso levaria a esperar um texto referencial, como se fôssemos ter a crônica de um acontecimento, uma pequena descrição do fato, ou informações detalhadas sobre o "grande desastre". O texto se desenvolve rápido num só parágrafo e a leitura nos mostra que não estamos diante da simples informação e/ou descrição de um fato. Estamos diante de um jorro de palavras que explode em metáforas diante de nossos olhos, no espaço da folha, num continuum lírico que comunica a projeção da subjetividade do eu poético sobre a experiência do fato, vivido ao nível da imaginação.
Edgar Allan Poe, no texto "A Filosofia da Composição", descreve os mecanismos por ele desenvolvidos para conseguir determinados efeitos poéticos em seu célebre poema The raven (o corvo). Segundo Poe, é muito difícil manter o fluxo lírico em alta, à medida que o poema avança. Assim, o poeta precisa introduzir imagens de reforço e reiterar motivos, de modo a avivar e manter a força lírica do poema. Embora seja um texto curto, o poema de Jorge de Lima parece utilizar-se desse procedimento formal.
O poema do poeta alagoano se desenvolve a partir de uma imagem básica, "sangue/cor", que é reiterada duas vezes, retomando o fôlego lírico: "Vejo sangue no ar" e "chove sangue". Esta imagem dá a tonalidade pictórica do poema, fixa o quadro, estabelecendo a idéia de um instantâneo, como uma pintura moderna, com o motivo no primeiro plano de visão que "choca", trazendo de permeio os detalhes. Essa motivação se esclarece pela circunstância em que foi produzido, pelo seu tema e pela intenção de homenagear o pintor Cândido Portinari. As imagens que seguem, a partir de pretensas informações acerca dos passageiros, não estão numa ordem secundária no poema, antes funcionam para intensificar o fluxo lírico de maneira crescente, até a retomada da imagem básica, que realimenta o processo e fecha em clímax, na última reiteração.
A idéia do "instantâneo" lírico é garantida no plano textual através da reiteração da forma verbal sempre no presente, em que "vejo" (7 vezes) e "vem" (5 vezes) marcam, na seqüência lingüística, o que poeticamente é um instante, uma explosão lírica: a imagem que o poeta traduz.
Vejamos as imagens complementares que intensificam o fluxo poético: O poeta "vê" primeiro o piloto, referência inicial à dicotomia segurança/desastre, que a circunstância "estar num avião" impõe. Mas não é apenas um registro: é a imagem da quebra da seqüência dos gestos de vida, representados pela "flor para a noiva". A perda aí não é apenas de um piloto, mas do homem em si, e de seus gestos inerentes a sua condição de humanidade. Essa condição está representada pelo sentimento (o amor) interrompido num irônico/amargo "abraço à hélice". E se seguem: o violinista e seu estradivários/ mãos e pernas de dançarina / meninas que caem como se dançassem/ a prima-dona riscando o ceú. Esse feixe de imagens compõem nessa aquarela um tom musical trágico-lírico, transferindo a imagem potencial dos gestos ordenados da partitura e da coreografia, para outro plano em que são associadas aos movimentos da explosão, noutra ordem natural, como partitura-ao-acaso. A imagem musical aí composta traduz a idéia da vida submetida, num instante, a outro ritmo não dominado pelo homem (a pane, a explosão), que o surpreende, configurando uma imagem lírico-coreográfica da vida que explode em morte. Isto lembra o auge operístico trágico-lírico, pois também no poema os detalhes se somam num avolumar-se até chegar ao clímax, causando a "explosão" emotiva no leitor-fruidor do texto.
As imagens da quebra do ritmo da vida pela explosão/ morte se consolida nas passagens seguintes: o salto da nadadora, a louca abraçada ao ramalhete de rosas/paraquedas, o "paralítico que vem com extrema rapidez". A explosão subverte o ritmo natural da vida e precipita as personagens num ritmo não mais intrínseco a si mesmas, mas ao próprio movimento em si, enquanto propriedade inerente à matéria. Essa força projeta-os noutra lógica - surrealista - que anc
1 908
Alfredo José Assunção
Lembranças
Um violino, uma mulher.Um trago, uma dose.Um alguém que não quis.
Este alguém que me falta.esta luz que perdi,é o violino sozinho.Sou uma orquestra sem solo.
O beijo que bebiaé a dose que não tenho.O trago, transe maior,é o gozo que me foste.
Sem ti sou tão só!...Masturbo lembrançasde um violino, uma mulher,um trago, uma dose...
Este alguém que me falta.esta luz que perdi,é o violino sozinho.Sou uma orquestra sem solo.
O beijo que bebiaé a dose que não tenho.O trago, transe maior,é o gozo que me foste.
Sem ti sou tão só!...Masturbo lembrançasde um violino, uma mulher,um trago, uma dose...
1 057
Adão José Pereira
A Vida
A vida é um poema mui lindo
Que o Pai Celeste assinou,
E com habilidade infinda
Afeto e ternura expressou.
Porém ela é veloz e passageira,
Corre tão rapidamente!
E qual uma águia ligeira,
Passa e nos leva de repente.
Ma enquanto existe há esperança
De que melhores dias virão!
Trazendo paz, amor e bonança,
Fartura, prosperidade e realização.
Que o Pai Celeste assinou,
E com habilidade infinda
Afeto e ternura expressou.
Porém ela é veloz e passageira,
Corre tão rapidamente!
E qual uma águia ligeira,
Passa e nos leva de repente.
Ma enquanto existe há esperança
De que melhores dias virão!
Trazendo paz, amor e bonança,
Fartura, prosperidade e realização.
961
Antônio Massa
Revelação
Uma única testemunha;
emulsão chapeada
isolada no escuro
por quem me viu
A luztestemunha e tudo
fotografado
em sais de prata
banhados por breu
em busca
eu
do meu
reflexo
E quantos vi?
Papéis futilgráficos
retidos ao lixo,
e meus nitratos
sedentos de informação
A luz
cisão do meu ser,
das cópias negativas
di vi di da s
em minha dor
emulsão chapeada
isolada no escuro
por quem me viu
A luztestemunha e tudo
fotografado
em sais de prata
banhados por breu
em busca
eu
do meu
reflexo
E quantos vi?
Papéis futilgráficos
retidos ao lixo,
e meus nitratos
sedentos de informação
A luz
cisão do meu ser,
das cópias negativas
di vi di da s
em minha dor
992
Albano Dias Martins
Crepúsculo de Agosto
Para a minha filha
Dos amigos que perdi
não falo. Sei
que estamos em agosto, mês
dos remos escaldantes, sei
que há lodo sob as algas,
sob a pele. Oblíqua,
sei também, a sombra
cai sobre as oliveiras. É
tempo de içares
tuas velas, teus ergueres
teus guindastes
junto ao rio. Dis
poníveis estão
as luzes; preparadas,
ermas estão as águas.
Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tato.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.
Dos amigos que perdi
não falo. Sei
que estamos em agosto, mês
dos remos escaldantes, sei
que há lodo sob as algas,
sob a pele. Oblíqua,
sei também, a sombra
cai sobre as oliveiras. É
tempo de içares
tuas velas, teus ergueres
teus guindastes
junto ao rio. Dis
poníveis estão
as luzes; preparadas,
ermas estão as águas.
Preciso de arrumar a casa, rever o sistema, brunir
os móveis e o tato.
Preciso de opor o tempo ao tempo.
O espaço ao espaço.
1 455
Álvares de Azevedo
Dinheiro
Oh! argent! Avec toi on est beau, jeune, adoré; on a consideration,
honneur, qualités, vertus. Quand on n’a point d’argent, on est dans la
dépendance de toutes choses et de tout le monde.
Chateaubriand
Sem ele não há cova- quem enterra
Assim grátis, a Deo? O batizado
Também custa dinheiro. Quem namora
Sem pagar as pratinhas ao Mercúrio?
Demais, as Dânaes também o adoram...
Quem imprime seus versos, quem passeia,
Quem sobe a Deputado, até Ministro,
Quem é mesmo Eleitor, embora sábio,
Embora gênio, talentosa fronte,
Alma Romana, se não tem dinheiro?
Fora a canalha de vazios bolsos!
O mundo é para todos... Certamente
Assim o disse Deus mas esse texto
Explica-se melhor e doutro modo...
Houve um erro de imprensa no Evangelho:
O mundo é um festim, concordo nisso,
Mas não entra ninguém sem ter as louras.
honneur, qualités, vertus. Quand on n’a point d’argent, on est dans la
dépendance de toutes choses et de tout le monde.
Chateaubriand
Sem ele não há cova- quem enterra
Assim grátis, a Deo? O batizado
Também custa dinheiro. Quem namora
Sem pagar as pratinhas ao Mercúrio?
Demais, as Dânaes também o adoram...
Quem imprime seus versos, quem passeia,
Quem sobe a Deputado, até Ministro,
Quem é mesmo Eleitor, embora sábio,
Embora gênio, talentosa fronte,
Alma Romana, se não tem dinheiro?
Fora a canalha de vazios bolsos!
O mundo é para todos... Certamente
Assim o disse Deus mas esse texto
Explica-se melhor e doutro modo...
Houve um erro de imprensa no Evangelho:
O mundo é um festim, concordo nisso,
Mas não entra ninguém sem ter as louras.
2 712
Aureliano Lessa
Tu
Teus olhos são como a noite
Trevas e luz;
Ó anjo, o céu em teus olhos
Se reproduz!
Tua alma inda não conhece
Teu coração;
Rubor que te acende as faces
É sem razão.
Inocente, quem gozara
Contigo o céu!
Quem dos amores contigo
Rasgara o véu!
Quem descerrara teus lábios
Cum doce beijo!...
Dizendo: — amor — e em teus olhos
Via um desejo!
Tua face é como a aurora
Púrpura e luz!
Ó anjo, a aurora em teu rosto
Se reproduz!
Quero viver em teus olhos
Ó inocente!
Quero adorar-te prostrado
Eternamente!
Trevas e luz;
Ó anjo, o céu em teus olhos
Se reproduz!
Tua alma inda não conhece
Teu coração;
Rubor que te acende as faces
É sem razão.
Inocente, quem gozara
Contigo o céu!
Quem dos amores contigo
Rasgara o véu!
Quem descerrara teus lábios
Cum doce beijo!...
Dizendo: — amor — e em teus olhos
Via um desejo!
Tua face é como a aurora
Púrpura e luz!
Ó anjo, a aurora em teu rosto
Se reproduz!
Quero viver em teus olhos
Ó inocente!
Quero adorar-te prostrado
Eternamente!
1 445
Alexandre Marino
Avoagem
o velho guerreiro avoava sobre a vida
porque era grande nosso medo de tudo
e revolvia com as mãos a terra brava
plantando um sabor de coisa nova
sobre as coisas velhas que ele velho guerreava
ele se perdia sobre o chão cheirando a chuva
e nos arrastava pelas mãos pelos quintais
apontando com os dedos amarelos de cigarro
cada pedaço de mundo que por ali passava
e que nós despercebíamos no vento ou no barro
ele coçava a cabeça branca apoiado na bengala
e tamborilava as unhas grossas na madeira
e distribuía a cada um ao se sentar à mesa
os pedaços de história que catava na memória
e soltava pelos poros em forte correnteza
e quando começava a lhe fugir a lucidez
o velho guerreiro cavalgava de verdade
a égua fiel que antes de morrer no pasto
conduzia pelas ruas da cidade
esse seu olhar profundo do álbum de retratos.
porque era grande nosso medo de tudo
e revolvia com as mãos a terra brava
plantando um sabor de coisa nova
sobre as coisas velhas que ele velho guerreava
ele se perdia sobre o chão cheirando a chuva
e nos arrastava pelas mãos pelos quintais
apontando com os dedos amarelos de cigarro
cada pedaço de mundo que por ali passava
e que nós despercebíamos no vento ou no barro
ele coçava a cabeça branca apoiado na bengala
e tamborilava as unhas grossas na madeira
e distribuía a cada um ao se sentar à mesa
os pedaços de história que catava na memória
e soltava pelos poros em forte correnteza
e quando começava a lhe fugir a lucidez
o velho guerreiro cavalgava de verdade
a égua fiel que antes de morrer no pasto
conduzia pelas ruas da cidade
esse seu olhar profundo do álbum de retratos.
974
Almeida Garrett
Tronco Despido (1828)
Virgílio,
Sine nomine corpus
Qual tronco despido
De folha e de flores,
Dos ventos batido
No inverno gelado
De ardentes queimores
No estio abrasado,
De nada sentido,
Que nada ele sente...
Assim ao prazer,
À dor indifrente,
Vão-me as horas da vida
Comprida
Correndo,
Vivendo,
Se é vida
Tam triste viver.
Sine nomine corpus
Qual tronco despido
De folha e de flores,
Dos ventos batido
No inverno gelado
De ardentes queimores
No estio abrasado,
De nada sentido,
Que nada ele sente...
Assim ao prazer,
À dor indifrente,
Vão-me as horas da vida
Comprida
Correndo,
Vivendo,
Se é vida
Tam triste viver.
3 114
Almeida Garrett
A Tempestade (1828)
Virgílio,
Coeco carpitur igni
I
Sobre um rochedo
Que o mar batia,
Triste gemia
Um desgraçado,
Terno amador.
Já nem lhe caem
Dos olhos lágrimas,
Suspiros férvidos
Apenas contam
Seu triste amor.
II
Ondas, clamava o mísero,
Ondas que assim bramais,
Ouvi meus tristes ais!
Horrível tempestade,
Medonho furacão,
Não é mais agitado
Do que o meu coração,
O vosso despregado,
Horrisonoo bramar!
Ancia que atropela
Meu lânguido peito,
É mais violenta
Que o tempo desfeito,
Que a onda encapela,
Que a agita a tormenta
No seio do mar.
III
Mas, ah! se o negrume
O sol dissipara
Calmara
Seu nume,
O horror do tufão.
Assim à minha alma
A calma
Daria
De Armia
Um sorriso:
Um raio de esprança
Do paraíso
Traria
A bonança
Ao meu coração.
Coeco carpitur igni
I
Sobre um rochedo
Que o mar batia,
Triste gemia
Um desgraçado,
Terno amador.
Já nem lhe caem
Dos olhos lágrimas,
Suspiros férvidos
Apenas contam
Seu triste amor.
II
Ondas, clamava o mísero,
Ondas que assim bramais,
Ouvi meus tristes ais!
Horrível tempestade,
Medonho furacão,
Não é mais agitado
Do que o meu coração,
O vosso despregado,
Horrisonoo bramar!
Ancia que atropela
Meu lânguido peito,
É mais violenta
Que o tempo desfeito,
Que a onda encapela,
Que a agita a tormenta
No seio do mar.
III
Mas, ah! se o negrume
O sol dissipara
Calmara
Seu nume,
O horror do tufão.
Assim à minha alma
A calma
Daria
De Armia
Um sorriso:
Um raio de esprança
Do paraíso
Traria
A bonança
Ao meu coração.
2 400
Álvares de Azevedo
Trindade
A vida é uma planta misteriosa
Cheia d’espinhos, negra de amarguras
Onde só abrem duas flores puras -
Poesia e amor...
E a mulher... é a nota suspirosa
Que treme d’alma a corda estremecida,
_É fada que nos leva além da vida
Pálidos de langor!
A poesia é a luz da mocidade,
O amor é o poema dos sentidos,
A febre dos momentos não dormidos
E o sonhar da ventura...
Voltai, sonhos de amor e de saudade!
Quero ainda sentir arder-me o sangue,
Os olhos turvos, o meu peito langue,
E morrer de ternura!
Cheia d’espinhos, negra de amarguras
Onde só abrem duas flores puras -
Poesia e amor...
E a mulher... é a nota suspirosa
Que treme d’alma a corda estremecida,
_É fada que nos leva além da vida
Pálidos de langor!
A poesia é a luz da mocidade,
O amor é o poema dos sentidos,
A febre dos momentos não dormidos
E o sonhar da ventura...
Voltai, sonhos de amor e de saudade!
Quero ainda sentir arder-me o sangue,
Os olhos turvos, o meu peito langue,
E morrer de ternura!
3 715
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Nossa Senhora da Piedade
Acolho-te em meus braços
Corpo exangue no cansaço
Dos beijos e da comunhão.
És agora o filho que não tive:
Pernas distanciadas, flexionadas
Sobre meu corpo em solidão.
Foi tão profundo o encontro
Foi tão dor e alegria
E o momento eterno, agonia.
Não te vejo mais como humano,
Teus olhos semi - cerrados ardem
Na antiga posse já redimida.
Não te vejo mais como irmão,
Tua boca semi - aberta, dentes
Que foram instrumentos de paixão.
Foste um Deus em meu caminho,
Jato de luz, campo de flores e carinhos,
Plenitude de êxtase e desejos.
Foste um Deus vivo em minha vida
E agora, lasso, te sustento em meu abraço,
Homem que se entregou ao longe do espaço...
Corpo exangue no cansaço
Dos beijos e da comunhão.
És agora o filho que não tive:
Pernas distanciadas, flexionadas
Sobre meu corpo em solidão.
Foi tão profundo o encontro
Foi tão dor e alegria
E o momento eterno, agonia.
Não te vejo mais como humano,
Teus olhos semi - cerrados ardem
Na antiga posse já redimida.
Não te vejo mais como irmão,
Tua boca semi - aberta, dentes
Que foram instrumentos de paixão.
Foste um Deus em meu caminho,
Jato de luz, campo de flores e carinhos,
Plenitude de êxtase e desejos.
Foste um Deus vivo em minha vida
E agora, lasso, te sustento em meu abraço,
Homem que se entregou ao longe do espaço...
1 082
Antero Coelho Neto
Eu Aprendi a Dizer Sim
Eu aprendi a dizer sim quando via natureza
molhada na manhã alegre do primeiro dia novo.
Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome
no homem indefeso e não achei nenhuma razão.
Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu
e fiquei deslumbrado com a esperança renovada.
Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse
os princípios fundamentais da humanidade em luta.
Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola
de minha infância e corri, gritei e... aprendi.
E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis
durante todo o resto da vida, depois que aprendi.
molhada na manhã alegre do primeiro dia novo.
Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome
no homem indefeso e não achei nenhuma razão.
Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu
e fiquei deslumbrado com a esperança renovada.
Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse
os princípios fundamentais da humanidade em luta.
Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola
de minha infância e corri, gritei e... aprendi.
E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis
durante todo o resto da vida, depois que aprendi.
1 425
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Sempre em Todos na Manhã
Sempre em todos na manhã
A noite na face
De manhã
Ao meio-dia, à tarde,
À noite,
A noite na face.
Nos profundos
E magoados olhos fundos
A noite.
Na noite,
Pleno encontro de tudo,
De todos.
A noite na face
De manhã
Ao meio-dia, à tarde,
À noite,
A noite na face.
Nos profundos
E magoados olhos fundos
A noite.
Na noite,
Pleno encontro de tudo,
De todos.
796
Antero Coelho Neto
Estou Velho
Eu procuro as palavras certas
dos meus versos e elas faltam...
Não consigo juntá-las
na idéia clara do que pretendo...
A fantasia é solta
e não consigo revê-la...
Ela vai e não volta mais
enquanto o tempo rápido passa...
E fico eternamente velho
trocando palavras e sonhos
que não tem mais qualquer sentido
que não tem mais nenhum valor...
dos meus versos e elas faltam...
Não consigo juntá-las
na idéia clara do que pretendo...
A fantasia é solta
e não consigo revê-la...
Ela vai e não volta mais
enquanto o tempo rápido passa...
E fico eternamente velho
trocando palavras e sonhos
que não tem mais qualquer sentido
que não tem mais nenhum valor...
1 360
Aída Godinho
Haicai
Sabiás não cantam
nos ramos cheios de flor.
Onde está, amor?
No céu cintilante
mil vaga-lumes brincando:
Mil sonhos vagando.
nos ramos cheios de flor.
Onde está, amor?
No céu cintilante
mil vaga-lumes brincando:
Mil sonhos vagando.
1 073
Antero Coelho Neto
De Novo A Vida
Depois de um sopro,
de novo a vida.
Depois da grande inércia,
novamente o fluxo.
Depois dos tempos de nada,
novamente a emoção.
Depois da grande ausência,
a enorme alegria do movimento.
Depois de um enorme vácuo,
eis que sou alguém outra vez.
De repente,
o pulsar do sangue,
novamente,
rápido,
o coração a bater,
o sangue a correr.
Vivo de novo,
eu conheci você!
de novo a vida.
Depois da grande inércia,
novamente o fluxo.
Depois dos tempos de nada,
novamente a emoção.
Depois da grande ausência,
a enorme alegria do movimento.
Depois de um enorme vácuo,
eis que sou alguém outra vez.
De repente,
o pulsar do sangue,
novamente,
rápido,
o coração a bater,
o sangue a correr.
Vivo de novo,
eu conheci você!
1 150
António Osório
Sonetos da Ausência III
O que a memória havia sepultado
em sábia rejeição, nos seus arcanos
a ausência faz voltar, ressuscitados
a morta dor, o morto amor, os mortos anos.
As já esquecidas mágoas emergem
deste oceano de lágrimas revoltas
a sargaços se agarram, quase soltas
ao sal amargo dos infrenes ventos.
Em luta uns com os outros os sentidos
Sangue e mem6ria em guerra com o silêncio.
E surge a tentação nesta golfada
de pranto que sufoca as coronárias:
: melhor quem sabe o sofrimento antigo
do que este negror de tua ausência.
em sábia rejeição, nos seus arcanos
a ausência faz voltar, ressuscitados
a morta dor, o morto amor, os mortos anos.
As já esquecidas mágoas emergem
deste oceano de lágrimas revoltas
a sargaços se agarram, quase soltas
ao sal amargo dos infrenes ventos.
Em luta uns com os outros os sentidos
Sangue e mem6ria em guerra com o silêncio.
E surge a tentação nesta golfada
de pranto que sufoca as coronárias:
: melhor quem sabe o sofrimento antigo
do que este negror de tua ausência.
1 183
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Poema das Vinte Horas
Vinte horas...
E te quedas jogado no meio da estrada,
Livre do corpo
Morto.
Vinte horas...
A lua estática e longíqua
As estrelas, os brilhos, os sonhos
E te quedas alí
No meio da estrada...
Morto.
Vinte horas, vinte minutos
Vinte séculos
Eternidade.
Não verás mais o sol
Ou já chegaste ao centro dele?
Mas teu corpo jogado
No meio da estrada...
Morto.
Vinte horas....
Vinte amigos, vinte irmãs, vinte mães,
Vinte santos, vinte vidas, vinte mortos,
Vinte, vinte, vinte...
E no meio da estrada
Jogado o corpo morto.
E tua memória nas memórias dos que ficam.
Um momento às vinte horas
E trocaste teu corpo morto
Pela eternidade de tua alma?
Ou lembranças nos homens que ficam?
Dos que fica à espera...
À espera apenas
De suas próprias vinte horas!
E te quedas jogado no meio da estrada,
Livre do corpo
Morto.
Vinte horas...
A lua estática e longíqua
As estrelas, os brilhos, os sonhos
E te quedas alí
No meio da estrada...
Morto.
Vinte horas, vinte minutos
Vinte séculos
Eternidade.
Não verás mais o sol
Ou já chegaste ao centro dele?
Mas teu corpo jogado
No meio da estrada...
Morto.
Vinte horas....
Vinte amigos, vinte irmãs, vinte mães,
Vinte santos, vinte vidas, vinte mortos,
Vinte, vinte, vinte...
E no meio da estrada
Jogado o corpo morto.
E tua memória nas memórias dos que ficam.
Um momento às vinte horas
E trocaste teu corpo morto
Pela eternidade de tua alma?
Ou lembranças nos homens que ficam?
Dos que fica à espera...
À espera apenas
De suas próprias vinte horas!
972
Antônio Fernando Guardado
Haicai
no hálito do planeta
ligeiro sopro desbotado
asfixia
fragmento de azul
no espelho das águas
as nuvens despedem-se
ligeiro sopro desbotado
asfixia
fragmento de azul
no espelho das águas
as nuvens despedem-se
891
Afonso Duarte
Ex-voto da Paisagem
de Coimbra ao Pôr-do-Sol
Sangue de Inês, Coimbra, é o teu ex-voto.
Ah, quem o crime estranha, a morte chora?
Inês, ó miséria, teu nome invoco
Ao rito da paisagem que o memora.
Em teu perfil de magoada ausente
Que Coimbra de lágrimas incensa,
Teu sangue, à mártir, exilou em Poente,
Doou-te o amor espiritual presença.
Teu infortúnio, aos meus lábios, timbra,
Sangüínea a golpes na hora do sol-pôr,
Que aos outonais poentes de Coimbra
O sol é em sacrifício do teu amor,
E em teu lago, cismátíco paúl,
Olho as nuvens do Céu cor de martírios:
Anda tua Alma poluindo o Azul,
Dorida luz viática de círios.
E ao que esta luz fatídica delira
E ao que a paisagem tem de insatisfeito,
Com meus dedos em febre, as mãos na Lira,
Soluçarei cuidados do teu peito.
Teu vulto de "Mors-amor" recomponho
Quando cai em delíquio a tarde exangue:
— E é a paisagem minha Ágora de sonho ,
— E é o poente a Legenda do teu sangue.
"Mors-amor", sinto! é a expressão do Outono
Que vem dos choupos ao cair da folha!
"Mors-amor", ouço! em ritos de abandono
É o olor das pétalas que o vento esfolha!
Desígnio de algum choupo ou cedro velho
Quando o Sol abre o cálice vermelho
Da imensa flor da tarde, eu sinto, eu sei!
Oh!, mãos em holocausto, eu quero vê-los,
Ao Poente, libando os teus cabelos,
Como se fossem áulicos de El-Rei.
Sangue de Inês, Coimbra, é o teu ex-voto.
Ah, quem o crime estranha, a morte chora?
Inês, ó miséria, teu nome invoco
Ao rito da paisagem que o memora.
Em teu perfil de magoada ausente
Que Coimbra de lágrimas incensa,
Teu sangue, à mártir, exilou em Poente,
Doou-te o amor espiritual presença.
Teu infortúnio, aos meus lábios, timbra,
Sangüínea a golpes na hora do sol-pôr,
Que aos outonais poentes de Coimbra
O sol é em sacrifício do teu amor,
E em teu lago, cismátíco paúl,
Olho as nuvens do Céu cor de martírios:
Anda tua Alma poluindo o Azul,
Dorida luz viática de círios.
E ao que esta luz fatídica delira
E ao que a paisagem tem de insatisfeito,
Com meus dedos em febre, as mãos na Lira,
Soluçarei cuidados do teu peito.
Teu vulto de "Mors-amor" recomponho
Quando cai em delíquio a tarde exangue:
— E é a paisagem minha Ágora de sonho ,
— E é o poente a Legenda do teu sangue.
"Mors-amor", sinto! é a expressão do Outono
Que vem dos choupos ao cair da folha!
"Mors-amor", ouço! em ritos de abandono
É o olor das pétalas que o vento esfolha!
Desígnio de algum choupo ou cedro velho
Quando o Sol abre o cálice vermelho
Da imensa flor da tarde, eu sinto, eu sei!
Oh!, mãos em holocausto, eu quero vê-los,
Ao Poente, libando os teus cabelos,
Como se fossem áulicos de El-Rei.
1 153
André Ricardo Aguiar
Ancoradouros
lembrança boa
um mar maior
maior que um oceano
vou lendo ilhas
frequentemente distantes;
Kafka, Borges, Pessoa...
um mar maior
maior que um oceano
vou lendo ilhas
frequentemente distantes;
Kafka, Borges, Pessoa...
957
Arita Damasceno Pettená
Tarde demais
Tarde demais
Era frio, muito frio .
Frio na tarde, frio em mim..
Olhos em pranto,
Alma em desencanto,
Parti a caminhar .
E no melancólico crepúsculo,
Ouvi uma voz que dizia :
Esqueça !
ConTinuei a caminhada .
Era noite, muito noite então .
Estrelas perfilavam o firmamento,
Num brilho nostálgico o solitário .
E dentro da noite vazia,
Rosto banhado em luar,
Ouvi outra voz que dizia :
Perdoa !
Prossegui a cavalgada .
E já não havia mágoa
E nem mais ressentimento .
Foi quando então o coração falou :
Volta !
Voltei .
Mas era tarde,
Muito tarde então .
Nunca mais o encontrei!
Era frio, muito frio .
Frio na tarde, frio em mim..
Olhos em pranto,
Alma em desencanto,
Parti a caminhar .
E no melancólico crepúsculo,
Ouvi uma voz que dizia :
Esqueça !
ConTinuei a caminhada .
Era noite, muito noite então .
Estrelas perfilavam o firmamento,
Num brilho nostálgico o solitário .
E dentro da noite vazia,
Rosto banhado em luar,
Ouvi outra voz que dizia :
Perdoa !
Prossegui a cavalgada .
E já não havia mágoa
E nem mais ressentimento .
Foi quando então o coração falou :
Volta !
Voltei .
Mas era tarde,
Muito tarde então .
Nunca mais o encontrei!
1 141