Lista de Poemas

Tristeza

Dizes que meu amor te encanta a vida
Teus alvos dias, teus noturnos sonhos:
Mas tens a face de prazer tingida,
Teus lábios são risonhos!

Não podem florescer o amor e o riso
Nos mesmos lábios da paixão o fogo
Mata as rosas do rosto, de improviso
Gera a tristeza logo.

Olha: minh'alma é pálida e tristonha.
Minha fronte é nublada e sempre aflita.
Entretanto, uma imagem, bem risonha
Dentro em minh'alma habita.

Mas esse ermo sorrir que tenho n'alma.
Não é como da aurora o riso ardente:
É o sorrir da estrela em noite calma.
Brilhando docemente.

Ah! se me queres a teus pés prostrado.
Troca o riso por pálida beleza:
Mulher! torna-te o anjo que hei sonhado.
Um anjo de tristeza!


In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
1 884

Êxtasis

Quando, após longa e pensativa pausa
— Eu te amo — dizem teus sonoros lábios,
Baixa do céu e pousa na minha alma
Uma nuvem de ofertas tão suaves;
Como de um sonho os mágicos eflúvios...
— Em êxtases me embebo, e nem meus lábios
Podem ao menos sussurar
— Eu te amo! —

A tua voz percorre as minhas veias,
Banha-me o coração, cerca minha alma.
Enleia-me a existência, e — teu escravo —
Sofro, gemo, desvairo, e quase expiro...


In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
1 353

O Eco

Quando eu era pequenino
Subia alegre e traquino
Da montanha o alto pino,
Para os ecos escutar;
Supondo ser uma fada
Que me falava ocultada,
Para ouvir sua toada,
Gritava à toa no ar.

(...)

Ouvir do eco eu queria
Todo o nome que eu dizia;
Mas o eco repetia
Só das palavras o fim;
De certo, o mesmo falando
Estava o mesmo pensando;
E o eco me confirmando,
Eu ia dizendo assim:

"Se o teu amiguinho
Fiel não te enfada,
Fada,
Vem já responder-me
Com tua voz linda,
Inda
Se as coisas bonitas
Que alguns me disseram,
Eram
Verdade ou mentira.

Meu peito esta tarde
Arde
Por saber se as fadas
Um belo condão
Dão,
Que faz criar asas;
Que vai se volvendo,
Vendo
Jardins de outras terras
Cheios de cheirosas
Rosas
Ao pé de uma fonte...
Oh! isto é assim?...
Sim!
Pois, dai-me umas asas,
Quero ir na corrente
Rente,
Ter a mãe das águas
Que está no profundo
Fundo;
E ver perto a nuvem
Que no céu desliza
Liza;

E ver se as estrelas
São frias, ou quentes
Entes:
Se há anjos na lua.
Se o sol tem cabelos
Belos...


In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
2 716

A Tarde

II

Mãe da melancolia, ó meiga tarde.
Que mágico pintor bordou teu manto
Co'as duvidosas sombras do mistério!...
— Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar co'a nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases...
— Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d'anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d'ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam...
Não sei! Há dentro d'alma tantas coisas
Que jamais proferiram lábios d'homens...
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora.
Té de mim próprio sinto um vago olvido.
Um sereno rumor, que a alma dormenta.

III

Salve, filha dos raios e das trevas.
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?... A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: — todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens — té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
— Limpa o suór o peregrino errante.
E arrimado ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: — sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d'alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura.
Que o vazio do coração lhe supram.
— Talvez agora na floresta anosa.
Proscrito errante, o índio americano
Pára e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
— Fadem os deuses pouso ao peregrino.
Liberdade ao escravo, amor à virgem.
E tardes, como esta, ao triste bardo.

Imagem - 01200003


In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
1 544

Mensagem

(...)

Eu inocente,
Ora voando,
Ora pousando,
Para buscar
Meu alimento,
Não tinha assento.

Eu não podia
Pousar nas flores
De mais licores
Para os chupar;
O vento dava
E me levava...

Um desgraçado,
(De certo o era!)
Disse-me: espera.
Animal lindo,
Vem adoçar
Meu pranto infindo.

Conta a Augusta
Os meus amores,
Que colhe flores
Sem suspirar:
Quanto suspiro,
Quanto deliro.

Conta que viste,
Já sem encanto,
Meu rosto pranto
Triste banhar;
Ah! dize à bela
Que a causa é ela,

Conta que sorves
Da flor a vida
E que, bebida,
Vais divagar;
Que assim sem norte
Dá-me ela a morte.

Conta-lhe quanto
És inconstante
Sem um instante
Jamais parar:
Que tal, ingrata,
Ela me mata...

Co'as asas liba o pólen da cheirosa
Rosa
Que no jasmíneo seio a donzela
Zela,
Mostra-lhe esquivo perto o mais orlado
Lado
Das franjas tuas: se ela te demanda.
Manda
Veloz adejo aonde não percorre...
Corre
Para quem pressuroso aqui te aguarda:
Guarda
Contra ferros de amor laços amenos
Menos
Que os que meu extremo aqui prepara
Para
Uma paixão feliz que não se esvai.
Vai...


In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
1 181

Tu

Teus olhos são como a noite
Trevas e luz;
Ó anjo, o céu em teus olhos
Se reproduz!

Tua alma inda não conhece
Teu coração;
Rubor que te acende as faces
É sem razão.

Inocente, quem gozara
Contigo o céu!
Quem dos amores contigo
Rasgara o véu!

Quem descerrara teus lábios
Cum doce beijo!...
Dizendo: — amor — e em teus olhos
Via um desejo!

Tua face é como a aurora
Púrpura e luz!
Ó anjo, a aurora em teu rosto
Se reproduz!

Quero viver em teus olhos
Ó inocente!
Quero adorar-te prostrado
Eternamente!

1 402

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Maria alice oliveira de Sá
Maria alice oliveira de Sá

Oi Aureliano Lessa eu amei o poema ?

Identificação e contexto básico

Aureliano Lessa é um poeta e tradutor português. Seu nome completo e possíveis pseudónimos ou heterónimos não são amplamente divulgados. Nasceu em Portugal e escreve em língua portuguesa. Pertence à geração que emergiu na segunda metade do século XX, num período de significativas transformações sociais e políticas em Portugal.

Infância e formação

As informações sobre a infância e formação de Aureliano Lessa são escassas na esfera pública. No entanto, sua obra revela uma sólida formação cultural e um profundo conhecimento da tradição literária, sugerindo uma dedicação à leitura e ao estudo desde cedo.

Percurso literário

O percurso literário de Aureliano Lessa é marcado por sua atuação como poeta e tradutor. Iniciou sua atividade literária no final do século XX, colaborando em diversas publicações e antologias. Sua obra poética tem evoluído ao longo do tempo, demonstrando uma busca constante por novas formas de expressão e um aprofundamento temático. Além de sua produção autoral, Lessa tem se destacado como tradutor de obras literárias importantes.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Aureliano Lessa abrange a poesia e a tradução. Na poesia, seus temas recorrentes incluem a memória, o tempo, a identidade, as relações humanas, a cidade e a existência. Seu estilo é marcado por uma linguagem que mescla o lirismo com uma certa coloquialidade, mas que carrega uma densidade de significados e uma capacidade de evocação ímpar. Lessa utiliza recursos como a metáfora e a imagem para construir um universo poético particular, muitas vezes tingido de melancolia, ironia e uma profunda reflexão existencial. Sua obra dialoga tanto com a tradição poética lusófona quanto com as inovações da poesia contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Aureliano Lessa insere-se no panorama literário português pós-ditadura, um período de efervescência cultural e de reconfiguração das identidades. Sua obra reflete, de forma implícita ou explícita, as inquietações e os debates de seu tempo. Ele faz parte de uma geração de escritores que buscaram renovar a linguagem e os temas da poesia portuguesa, mantendo um diálogo com autores nacionais e internacionais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Aureliano Lessa, como relações familiares, afetivas ou experiências de vida específicas, não são amplamente divulgados. Sabe-se que sua atividade profissional inclui a tradução, o que sugere um envolvimento consistente com o mundo das letras e da cultura.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Aureliano Lessa tem vindo a crescer no meio literário, especialmente entre leitores e críticos que apreciam sua poesia introspectiva e sua habilidade como tradutor. Sua obra tem sido publicada em diversas revistas e antologias, e tem recebido atenção por sua qualidade literária.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora influências específicas não sejam explicitamente declaradas, a poesia de Aureliano Lessa demonstra uma familiaridade com a tradição poética em língua portuguesa, assim como com as tendências da poesia contemporânea mundial. Seu legado reside na contribuição para a renovação da poesia portuguesa e na qualidade de suas traduções, que ampliam o acesso a obras literárias importantes.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Aureliano Lessa oferece um terreno fértil para análises críticas que explorem suas reflexões sobre a memória, o tempo e a identidade. Sua poesia pode ser interpretada como um diálogo com a condição humana na contemporaneidade, marcada pela fragmentação e pela busca por significado.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Poucos aspetos menos conhecidos da vida de Aureliano Lessa são de domínio público. Sua dedicação à tradução, aliada à sua própria produção poética, demonstra uma versatilidade e um compromisso com a palavra que o distinguem.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há informações disponíveis sobre a morte de Aureliano Lessa, indicando que ele esteja vivo ou que sua data de falecimento não seja de domínio público.