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Poemas neste tema

Cidade e Cotidiano

Charles Bukowski

Charles Bukowski

Uma Festa Aqui – Metralhadoras, Tanques, Um Exército Lutando Contra Homens Nos Telhados

se o amor pudesse continuar como papel de piche
ou até mesmo na medida do significado
mas não funciona
não pode funcionar
há babacas demais
mulheres que escondem suas pernas demais
exceto em camas especiais
há moscas demais no
teto e tem sido um verão
quente
e os distúrbios em Los Angeles
terminaram faz uma semana
e queimaram prédios e mataram policiais e
homens brancos e
eu sou um homem branco e acho que não fiquei particularmente
alvoroçado porque sou um homem branco e sou pobre
e pago por ser pobre
porque faço tão poucas paradas de mão para os outros quanto
possível
e então sou pobre porque escolhi ser e acho que
não é tão desconfortável desse
jeito
e então ignorei os distúrbios
porque concluí que ambos negros e brancos
queriam várias coisas que não interessavam
a mim
além disso tendo uma mulher aqui que fica muito alvoroçada com
discriminação a Bomba segregação
você sabe você sabe
eu deixo ela ir falando até que por fim a conversa
me cansa
pois não ligo muito para a
resposta padrão
ou as confusas criaturas solitárias que gostam de se unir a uma
CAUSA simplesmente porque uma causa as arranca de sua
babosa
imbecilidade rumo a um fluxo de
ação. já eu gosto de tempo para pensar, pensar, pensar...
mas foi uma festa aqui, sério, metralhadoras, tanques,
o exército lutando contra homens nos telhados...
a mesma coisa que acusamos a Rússia de fazer. bem, é
um jogo escroto, e não sei o que fazer, exceto
se for como um amigo meu disse que eu disse certa noite quando
eu estava bêbado: “Nunca mate alguém, mesmo que pareça
ser a última ou a única coisa a fazer”.
riso. tudo bem. poderia deixar você feliz
que eu até tenha um fluxo de remorso quando mato uma
mosca. uma formiga. uma pulga. mas vou em frente. eu as mato e
vou em frente.
deus, o amor é mais estranho do que numerais mais estranho
do que
relva pegando fogo mais estranho do que o corpo morto de uma criança
afogada no fundo de uma banheira, sabemos tão
pouco, sabemos tanto, não sabemos
o bastante.
de qualquer forma, realizamos nossos movimentos, intestinais,
às vezes
sexuais, às vezes celestiais, às vezes espúrios, ou
às vezes percorremos um museu para ver o que
restou de nós ou disso, a triste paralisia estrangulada de fundo
de manicômio envidraçado e congelado e estéril
suficiente para fazer você querer sair para o sol de novo
e dar uma olhada, mas no parque e nas ruas
os mortos continuam passando como se já estivessem
num museu. talvez o amor seja sexo. talvez o amor seja uma tigela de
mingau. talvez o amor seja um rádio desligado.
de qualquer jeito, foi uma festa.
uma semana atrás.
hoje fui à pista com rosas nos meus olhos. dólares no
meu
bolso. manchetes no beco. são mais de cento e cinquenta quilômetros de
trem,
só de ida. um grupo de bêbados voltando, duros de novo, o
sonho
abatido de novo, corpos oscilando; tagarelando no vagão do bar e eu
estou ali
também, bebendo, rabiscando a esperança que resta na penumbra,
o
barman era um negro e eu era branco. maus lençóis. demos
um jeito.
nada de festa.
os jornais ricos ficam falando “A Revolução
Negra” e
“A Ruptura da Família Negra”. o trem entrou na cidade
afinal,
e eu me livrei dos 2 homossexuais que estavam me pagando
bebidas, e
fui mijar e fazer uma ligação e enquanto eu passava
pelo
acesso rumo à latrina masculina havia 2 negros numa
banca de engraxate
engraxando sapatos de homens brancos e os homens brancos lhes
permitiam fazê-lo.
caminhei até um bar mexicano
e tomei alguns uísques e quando saí a garçonete me deu um
papelzinho com seu nome, endereço e número de telefone
escritos, e quando cheguei na rua joguei o papel na sarjeta
entrei no meu carro e dirigi rumo à Zona Oeste de Los
Angeles
e tudo parecia igual igual como sempre foi
e na Alvarado com a Sunset eu reduzi pra 65
vi um policial gordo em sua moto
com uma cara hedionda e alerta
e fiquei enojado comigo mesmo e com
todo mundo, todo o pouco que qualquer um de nós
tinha feito, amor, amor, amor,
e as torres balançavam como velhas stripteasers
rezando pela mágica perdida, e eu segui dirigindo
engraxando os sapatos de todos os negros e gringos da
América, incluindo
os meus.
706
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Sorrindo, Brilhando, Cantando

minha filha parecia uma Katharine Hepburn muito jovem
na apresentação de Natal da escola primária.
estava lá com os outros
sorrindo, brilhando, cantando
no vestido longo que eu tinha comprado pra ela.
ela parece a Katharine Hepburn, falei à mãe dela
que estava sentada à minha esquerda.
ela parece a Katharine Hepburn, falei à minha namorada
que estava sentada à minha direita.
a vó da minha filha estava a dois assentos de mim;
não falei nada pra ela.
nunca gostei das atuações de Katharine Hepburn,
mas sempre gostei de sua aparência,
de sua classe, sabe,
alguém com quem você podia conversar na cama
por uma hora e meia antes de pegar no
sono.
posso ver que minha filha vai ser uma
mulher belíssima.
um dia quando eu estiver bastante velho
ela provavelmente vai me trazer o urinol com um sorriso
dos mais amáveis.
e ela provavelmente vai se casar com um caminhoneiro que
caminha pesadão
e joga boliche todas as quintas à noite
com a rapaziada.
bem, nada disso importa.
o que importa é o agora.
sua avó é uma grande mulher de rapina.
sua mãe é uma liberal psicótica e amante da vida.
seu pai é um bêbado.
minha filha parecia uma Katharine Hepburn muito jovem.
depois da apresentação de Natal
nós fomos ao McDonald’s e comemos, e alimentamos os pardais.
faltava uma semana para o Natal.
estávamos menos preocupados com isso do que nove décimos da cidade.
isso é classe, nós dois temos classe.
ignorar a vida no momento certo exige uma sabedoria especial:
como um Feliz Ano-Novo para
todos vocês.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Conheço o Famoso Poeta

esse poeta era famoso fazia muito tempo
e após algumas décadas de
obscuridade eu
tive sorte
e o poeta apareceu
interessado
e me convidou a visitar seu
apartamento na praia.
ele era homossexual e eu era
hétero, e pior, um
beberrão.

fui lá, dei uma
olhada em volta e
declamei (como se eu não
soubesse) “ei, cadê a
porra das
gatas?”

ele apenas sorriu e acariciou
seu bigode.
ele tinha pequenas alfaces e
queijos delicados e
outras iguarias
em sua geladeira.
“onde você guarda a porra da sua
cerveja, cara?”, eu
perguntei.

não fazia mal, eu tinha
trazido as minhas próprias
garrafas e tratei de abrir
uma.

ele começou a parecer
alarmado: “ouvi falar da
sua brutalidade, por favor
queira
desistir!”

eu desabei em seu
sofá, arrotei,
ri: “ah, caralho, bebê, não
vou te machucar! ha, ha,
ha!”

“você é um ótimo escritor”, ele
disse, “mas como pessoa você é
completamente
desprezível!”

“é disso que eu mais gosto
em mim, bebê!”, eu
continuei virando as
cervejas.

num átimo
ele pareceu sumir por trás
de umas portas deslizantes
de madeira.

“ei, bebê, sai
daí! não vou fazer nada de
mal! podemos sentar e
ficar nessa idiotice de papo literário
furado a noite
toda! não vou
brutalizar você,
caralho, eu
prometo!”

“não confio em você”,
veio a voz
fina.

bem, não havia o que
fazer
a não ser abraçar a garrafa, eu estava
bêbado demais para dirigir
de volta.

quando acordei de
manhã ele estava de pé ao meu
lado
sorrindo.

“hã”, eu disse,
“oi...”

“foi pra valer o que você
disse ontem à noite?”, ele
perguntou.

“hã, quefoique eu
falei?”

“eu abri as portas e fiquei
ali parado e você me
viu e disse que
parecia que eu estava vagando na
proa de um grande navio
marítimo... você disse que eu parecia um
escandinavo! é
verdade?”

“ah, sim, sim, você
parecia mesmo...”

ele me preparou chá quente
com torrada
e eu engoli
tudo.

“bem”, eu disse, “foi bom
ter conhecido
você...”

“estou certo disso”, ele
respondeu.

a porta se fechou atrás
de mim
e eu encontrei o elevador
para descer
e
depois de alguma perambulação pela
praia
encontrei meu carro,
entrei, parti
em termos que aparentavam ser
favoráveis
entre mim e o famoso
poeta
mas
não era
o caso:

ele começou a escrever coisas
inacreditavelmente odientas
a meu
respeito
e eu
devolvi alguns disparos na direção
dele.
a história toda
foi praticamente
igual
a qualquer outro primeiro encontro
entre escritores

e
de qualquer forma
aquela parte sobre
chamá-lo de
escandinavo
não era nem um pouco
verdade: eu o chamei
de
viking

e também
não é verdade
que sem sua
ajuda
eu jamais teria
aparecido na
Coleção Penguin de
Poetas Modernos
junto com ele
e com quem
mais mesmo?

ah sim:
Lamantia.
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Diversão Das 3 da Manhã:

a pior coisa é
estar bêbado

todos os isqueiros sem
faísca

cartelas de fósforos
vazias

tocos de cigarros e charutos
por todos os lados

você encontra uma pequena embalagem de
fósforos
com 3 fósforos
de papelão

mas os fósforos raspam
moles contra o gasto fósforo da
caixa

merda:
bebida sem fumo é como
pau sem
boceta

você bebe um pouco
mais
procura em volta

encontra um fósforo de papelão
de pura felicidade
cuidadosamente o raspa
contra a menos gasta
das embalagens
vazias

ele chameja!
você pode
fumar!

você acende
o fumo

você lança o fósforo
num piparote rumo a um
cinzeiro

você erra a mira
e
do nada...

sobe uma chama

tudo está QUEIMANDO
afinal!

: um recibo da
American Express

: algumas das embalagens de fósforos
vazias

: até mesmo um dos isqueiros
mortos

a chama rodopia e
salta
então todo o cinzeiro de
tocos de cigarro e charuto
começa a produzir fumaça
como se bocas os estivessem
tragando

você combate as chamas com
vários e sortidos objetos
incluindo suas
mãos

até que finalmente a chama se
vai e não há nada senão
fumaça

e outra vez lhe vem aquele
pensamento recorrente: só posso estar
louco.

você ouve a voz da sua
esposa:

“Hank, você está
bem?”

ela está no outro lado da
parede no
quarto

“ah, estou ótimo...”

“tem cheiro de fumaça... a casa está pegando
fogo?”

“foi só um foguinho, Linda... eu
apaguei... dorme...”

foi ela que comprou pra você
a lixeira de aço
depois de uma ocorrência
similar

logo ela está dormindo
de novo

e você está procurando
mais
fósforos.
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