Poemas neste tema
Cidade e Cotidiano
Charles Bukowski
É Engraçado, Não É? #1
nós estávamos ali de pé
numa festa de aniversário
num restaurante
chique
e
havia
muitas pessoas especiais
em volta
pavoneando sua
fama.
eu queria sair
correndo
quando um homem
parado perto de nós
disse algo
exatamente apropriado
para a
ocasião.
“ei”, eu disse à
minha esposa, “esse
cara vale a
pena. quando formos
sentar
vamos tentar
sentar perto
dele.”
fizemos isso e enquanto
as bebidas eram
servidas
o homem começou
a falar
ele começou uma
longa história
que estava
se encaminhando para uma
frase
de efeito.
o problema
era que
eu já adivinhava
qual
iria ser
a
frase de efeito.
e
ele falou
e
falou
e aí
soltou a
frase.
“que merda”, eu
disse a ele, “essa
foi horrível, você
realmente
me
decepcionou...”
ele
apenas começou
a contar outra
história.
eu fui até
outra mesa
e parei atrás
do agora
grande
astro do cinema.
“olha só,
quando nós nos
conhecemos
você não passava de um amável
garoto alemão.
agora
você se transformou
num
otário
presunçoso. você
realmente
me
decepcionou.”
o grande astro do
cinema (que era um
homem
de poderosa
musculatura) rosnou
e
deu de
ombros.
aí eu fui até
a mesa
onde a dama aniversariante estava
sentada
cercada por
um monte de
gente da
mídia.
“olhar pra
vocês”, eu disse, “me dá
vontade de
vomitar
em cima das
suas
ineptas
plausibilidades!”
“ah”, disse a dama
para seus
convidados, “ele
sempre fala
desse
jeito!”
e ela deu uma
risada, pobre
coitada.
então
eu disse “Feliz
aniversário,
mas
eu tinha avisado
a você que nunca deveria
me convidar para essas
coisas.”
aí
eu retornei à
minha mesa
gesticulei para o garçom
trazer
mais uma
bebida.
o homem
estava contando
mais uma
história
mas
ela não era nem
de longe
tão boa
quanto
esta
aqui.
numa festa de aniversário
num restaurante
chique
e
havia
muitas pessoas especiais
em volta
pavoneando sua
fama.
eu queria sair
correndo
quando um homem
parado perto de nós
disse algo
exatamente apropriado
para a
ocasião.
“ei”, eu disse à
minha esposa, “esse
cara vale a
pena. quando formos
sentar
vamos tentar
sentar perto
dele.”
fizemos isso e enquanto
as bebidas eram
servidas
o homem começou
a falar
ele começou uma
longa história
que estava
se encaminhando para uma
frase
de efeito.
o problema
era que
eu já adivinhava
qual
iria ser
a
frase de efeito.
e
ele falou
e
falou
e aí
soltou a
frase.
“que merda”, eu
disse a ele, “essa
foi horrível, você
realmente
me
decepcionou...”
ele
apenas começou
a contar outra
história.
eu fui até
outra mesa
e parei atrás
do agora
grande
astro do cinema.
“olha só,
quando nós nos
conhecemos
você não passava de um amável
garoto alemão.
agora
você se transformou
num
otário
presunçoso. você
realmente
me
decepcionou.”
o grande astro do
cinema (que era um
homem
de poderosa
musculatura) rosnou
e
deu de
ombros.
aí eu fui até
a mesa
onde a dama aniversariante estava
sentada
cercada por
um monte de
gente da
mídia.
“olhar pra
vocês”, eu disse, “me dá
vontade de
vomitar
em cima das
suas
ineptas
plausibilidades!”
“ah”, disse a dama
para seus
convidados, “ele
sempre fala
desse
jeito!”
e ela deu uma
risada, pobre
coitada.
então
eu disse “Feliz
aniversário,
mas
eu tinha avisado
a você que nunca deveria
me convidar para essas
coisas.”
aí
eu retornei à
minha mesa
gesticulei para o garçom
trazer
mais uma
bebida.
o homem
estava contando
mais uma
história
mas
ela não era nem
de longe
tão boa
quanto
esta
aqui.
1 021
Charles Bukowski
Achei o Gosto do Troço Pior do Que de Costume
eu costumava beber com Jane
toda noite
até duas ou
três
da manhã
e eu precisava
me apresentar no
trabalho
às 5:30
da manhã
certa manhã
eu estava sentado
encaixotando correspondência
perto de um
sujeito
saudável e
religioso
e ele disse
“ei, tô sentindo
um cheiro, você
não?”
eu respondi
negativamente.
“na verdade”, ele disse,
“o cheiro é meio parecido
com
gasolina.”
“bem”, eu disse a
ele, “não acenda um
fósforo porque
eu posso
explodir.”
toda noite
até duas ou
três
da manhã
e eu precisava
me apresentar no
trabalho
às 5:30
da manhã
certa manhã
eu estava sentado
encaixotando correspondência
perto de um
sujeito
saudável e
religioso
e ele disse
“ei, tô sentindo
um cheiro, você
não?”
eu respondi
negativamente.
“na verdade”, ele disse,
“o cheiro é meio parecido
com
gasolina.”
“bem”, eu disse a
ele, “não acenda um
fósforo porque
eu posso
explodir.”
1 202
Charles Bukowski
Meu Truque do Desaparecimento
quando eu enchia o saco de ficar no bar
e às vezes eu enchia
eu tinha um lugar para ir:
era um campo de capim alto
um cemitério
abandonado.
eu não via aquilo como sendo um
passatempo mórbido.
aquele só me parecia ser o melhor
lugar para estar.
ele oferecia uma generosa cura para
ressacas violentas.
através do capim dava para ver
as lápides,
muitas pendiam
em ângulos estranhos
contra a gravidade
como se precisassem
cair
mas nunca vi nenhuma
cair
embora houvesse muitas delas
no cemitério.
era fresco e escuro
com uma brisa
e várias vezes eu dormia
lá.
nunca fui
incomodado.
toda vez que eu retornava para o bar
depois de uma ausência
era sempre a mesma história com
eles:
“onde diabos você
andava? achamos que você tinha
morrido!”
para eles eu era o monstro do bar, eles precisavam de mim
para que se sentissem
melhor.
assim como eu, às vezes, precisava daquele
cemitério.
e às vezes eu enchia
eu tinha um lugar para ir:
era um campo de capim alto
um cemitério
abandonado.
eu não via aquilo como sendo um
passatempo mórbido.
aquele só me parecia ser o melhor
lugar para estar.
ele oferecia uma generosa cura para
ressacas violentas.
através do capim dava para ver
as lápides,
muitas pendiam
em ângulos estranhos
contra a gravidade
como se precisassem
cair
mas nunca vi nenhuma
cair
embora houvesse muitas delas
no cemitério.
era fresco e escuro
com uma brisa
e várias vezes eu dormia
lá.
nunca fui
incomodado.
toda vez que eu retornava para o bar
depois de uma ausência
era sempre a mesma história com
eles:
“onde diabos você
andava? achamos que você tinha
morrido!”
para eles eu era o monstro do bar, eles precisavam de mim
para que se sentissem
melhor.
assim como eu, às vezes, precisava daquele
cemitério.
1 084
Charles Bukowski
A Louca Verdade
o doido de traje vermelho
vinha andando pela rua
conversando sozinho
quando um maioral num carro
esportivo
dobrou numa travessa
bem na frente do doido
que berrou “EI, MIJO DE CÃO!
MERDA DE PORCO! VOCÊ TEM AMENDOINS NO LUGAR DOS
MIOLOS?”
o maioral freou seu carro
esportivo, deu ré até o doido,
parou,
disse: “O QUE FOI QUE VOCÊ DISSE,
AMIGÃO?’”
“eu disse ‘É MELHOR
DAR NO PÉ ENQUANTO PODE,
BABACA!”
o maioral estava acompanhado de sua
namorada no carro e começou a
abrir a porta.
“É MELHOR VOCÊ NÃO SAIR DESSE
CARRO, MIOLO DE AMENDOIM!”
a porta se fechou e o carro esportivo
se foi
rugindo.
o doido de traje vermelho então
continuou andando pela
rua.
“NÃO TEM NADA EM LUGAR NENHUM”,
ele disse, “E A CADA SEGUNDO TÁ
FICANDO MENOS DO QUE
NADA!”
foi um grande dia
lá na 7th Street logo depois da
Weymouth
Drive.
vinha andando pela rua
conversando sozinho
quando um maioral num carro
esportivo
dobrou numa travessa
bem na frente do doido
que berrou “EI, MIJO DE CÃO!
MERDA DE PORCO! VOCÊ TEM AMENDOINS NO LUGAR DOS
MIOLOS?”
o maioral freou seu carro
esportivo, deu ré até o doido,
parou,
disse: “O QUE FOI QUE VOCÊ DISSE,
AMIGÃO?’”
“eu disse ‘É MELHOR
DAR NO PÉ ENQUANTO PODE,
BABACA!”
o maioral estava acompanhado de sua
namorada no carro e começou a
abrir a porta.
“É MELHOR VOCÊ NÃO SAIR DESSE
CARRO, MIOLO DE AMENDOIM!”
a porta se fechou e o carro esportivo
se foi
rugindo.
o doido de traje vermelho então
continuou andando pela
rua.
“NÃO TEM NADA EM LUGAR NENHUM”,
ele disse, “E A CADA SEGUNDO TÁ
FICANDO MENOS DO QUE
NADA!”
foi um grande dia
lá na 7th Street logo depois da
Weymouth
Drive.
1 219
Charles Bukowski
Juntos
EI, berrei de longe para ela
no quarto,
BEBE UM POUCO DE VINHO NO
SEU SAPATO!
POR QUÊ?, ela
gritou.
PORQUE ESSA INUTILIDADE
PRECISA DE UM POUCO DE
RISCO!,
bradei
de volta.
EI, bateu na parede
o cara do apartamento
ao lado, EU PRECISO LEVANTAR
DE MANHÃ PRA IR
TRABALHAR ENTÃO PELO AMOR
DE DEUS, CALEM
A BOCA!
ele não quebrou a parede
por um triz e tinha uma
voz
poderosíssima.
eu fui até
ela, falei, seguinte, vamos
ficar quietos, ele tem seus
direitos.
VAI SE FODER, BABACA!,
ela gritou
para mim.
o cara começou a socar
a parede
outra vez.
ela tinha razão e ele tinha
razão.
transportei a garrafa até
a janela e
contemplei a noite
lá fora.
então dei um bom e vigoroso
gole
e pensei, estamos todos
condenados
juntos, é só o que se pode
dizer
disso. (era só o que se podia
dizer daquele gole em particular, assim
como de todos os
outros.)
então voltei
até ela e
ela estava adormecida em
sua
cadeira.
eu a carreguei até
a cama
desliguei as
luzes
então me sentei na
cadeira junto à
janela
sugando a garrafa, pensando,
bem, cheguei
até aqui
e já é
bastante.
e agora
ela está dormindo
e
talvez
ele também
consiga.
no quarto,
BEBE UM POUCO DE VINHO NO
SEU SAPATO!
POR QUÊ?, ela
gritou.
PORQUE ESSA INUTILIDADE
PRECISA DE UM POUCO DE
RISCO!,
bradei
de volta.
EI, bateu na parede
o cara do apartamento
ao lado, EU PRECISO LEVANTAR
DE MANHÃ PRA IR
TRABALHAR ENTÃO PELO AMOR
DE DEUS, CALEM
A BOCA!
ele não quebrou a parede
por um triz e tinha uma
voz
poderosíssima.
eu fui até
ela, falei, seguinte, vamos
ficar quietos, ele tem seus
direitos.
VAI SE FODER, BABACA!,
ela gritou
para mim.
o cara começou a socar
a parede
outra vez.
ela tinha razão e ele tinha
razão.
transportei a garrafa até
a janela e
contemplei a noite
lá fora.
então dei um bom e vigoroso
gole
e pensei, estamos todos
condenados
juntos, é só o que se pode
dizer
disso. (era só o que se podia
dizer daquele gole em particular, assim
como de todos os
outros.)
então voltei
até ela e
ela estava adormecida em
sua
cadeira.
eu a carreguei até
a cama
desliguei as
luzes
então me sentei na
cadeira junto à
janela
sugando a garrafa, pensando,
bem, cheguei
até aqui
e já é
bastante.
e agora
ela está dormindo
e
talvez
ele também
consiga.
1 397
Charles Bukowski
Todo Mundo Fala Demais
quando
o guarda me fez
parar
eu
entreguei a ele minha
habilitação.
ele
voltou
para transmitir
a marca
e o modelo
do meu carro
e
ver se estava tudo limpo com
as minhas placas.
ele preencheu
a multa
se
aproximou
me entregou
o bilhete
para
assinar.
eu assinei
ele me
devolveu
a
habilitação.
“como pode
que o senhor
não
diz
nada?”,
ele perguntou.
eu dei
de
ombros.
“bem, senhor”,
ele
disse, “tenha
um
bom dia
e
dirija
com cuidado.”
eu
notei
um pouco de suor
em sua
testa
e a
mão
que segurava
o
bilhete
parecia
estar
tremendo
ou
será que
eu
estava apenas
imaginando?
de todo modo
eu
olhei o guarda
se afastar
na direção
de sua
moto
então
pisei
no acelerador...
quando confrontado
com
policiais
zelosos
ou
mulheres
rancorosas
eu
nada tenho
para
dizer
a eles
pois
se eu
realmente
abrisse a boca
a história
terminaria
com
a morte
de alguém:
a deles ou
a minha
portanto
eu
permito que
desfrutem
de suas
pequenas
vitórias
das quais
eles precisam
bem
mais
do
que
eu.
o guarda me fez
parar
eu
entreguei a ele minha
habilitação.
ele
voltou
para transmitir
a marca
e o modelo
do meu carro
e
ver se estava tudo limpo com
as minhas placas.
ele preencheu
a multa
se
aproximou
me entregou
o bilhete
para
assinar.
eu assinei
ele me
devolveu
a
habilitação.
“como pode
que o senhor
não
diz
nada?”,
ele perguntou.
eu dei
de
ombros.
“bem, senhor”,
ele
disse, “tenha
um
bom dia
e
dirija
com cuidado.”
eu
notei
um pouco de suor
em sua
testa
e a
mão
que segurava
o
bilhete
parecia
estar
tremendo
ou
será que
eu
estava apenas
imaginando?
de todo modo
eu
olhei o guarda
se afastar
na direção
de sua
moto
então
pisei
no acelerador...
quando confrontado
com
policiais
zelosos
ou
mulheres
rancorosas
eu
nada tenho
para
dizer
a eles
pois
se eu
realmente
abrisse a boca
a história
terminaria
com
a morte
de alguém:
a deles ou
a minha
portanto
eu
permito que
desfrutem
de suas
pequenas
vitórias
das quais
eles precisam
bem
mais
do
que
eu.
1 085
Charles Bukowski
Café
eu estava tomando café no
balcão
quando um homem
3 ou 4 banquinhos abaixo
me perguntou
“vem cá, não era você o
cara que estava
pendurado pelos
calcanhares
daquele quarto de hotel
no quarto andar
outra
noite?”
“sim”, eu respondi, “eu
mesmo.”
“o que te levou a fazer
aquilo?”, ele perguntou.
“bem, é bastante
complicado.”
então ele virou a
cara.
a garçonete
que tinha ficado
ali parada
me perguntou
“ele estava brincando,
não
estava?”
“não”, eu
disse.
paguei, levantei, fui
até a porta,
abri.
ouvi o homem
dizendo “esse cara é
maluco”.
na rua eu fui
andando para o norte
me sentindo
curiosamente
homenageado.
balcão
quando um homem
3 ou 4 banquinhos abaixo
me perguntou
“vem cá, não era você o
cara que estava
pendurado pelos
calcanhares
daquele quarto de hotel
no quarto andar
outra
noite?”
“sim”, eu respondi, “eu
mesmo.”
“o que te levou a fazer
aquilo?”, ele perguntou.
“bem, é bastante
complicado.”
então ele virou a
cara.
a garçonete
que tinha ficado
ali parada
me perguntou
“ele estava brincando,
não
estava?”
“não”, eu
disse.
paguei, levantei, fui
até a porta,
abri.
ouvi o homem
dizendo “esse cara é
maluco”.
na rua eu fui
andando para o norte
me sentindo
curiosamente
homenageado.
1 245
Charles Bukowski
Ajudar Os Mais Velhos
eu estava parado na fila do banco hoje
quando o velhinho na minha frente
deixou cair os óculos (por sorte, dentro do
estojo)
e enquanto ele se curvava
eu vi como era difícil para
ele
e falei “espera, deixa que eu
pego...”
mas enquanto eu apanhava os óculos
ele deixou cair a bengala
uma linda, negra e reluzente
bengala
e eu lhe devolvi os óculos
então resgatei a bengala
firmando o velhinho
enquanto lhe dava sua bengala.
ele não disse nada,
apenas sorriu para mim.
então se virou
para a frente.
fiquei atrás dele esperando
a minha vez.
quando o velhinho na minha frente
deixou cair os óculos (por sorte, dentro do
estojo)
e enquanto ele se curvava
eu vi como era difícil para
ele
e falei “espera, deixa que eu
pego...”
mas enquanto eu apanhava os óculos
ele deixou cair a bengala
uma linda, negra e reluzente
bengala
e eu lhe devolvi os óculos
então resgatei a bengala
firmando o velhinho
enquanto lhe dava sua bengala.
ele não disse nada,
apenas sorriu para mim.
então se virou
para a frente.
fiquei atrás dele esperando
a minha vez.
1 147
Charles Bukowski
Tempos Difíceis
quando desci do meu carro no cais
dois homens começaram a caminhar na minha
direção.
um parecia velho e mau e o outro era
grande e sorridente.
ambos usavam
quepes.
eles continuaram andando na minha direção.
eu me preparei.
“tem algo incomodando vocês?”
“não”, disse o cara
velho.
ambos pararam.
“você não se lembra da gente?”
“não tenho certeza...”
“nós pintamos a sua casa.”
“ah, sim... venham comigo, eu pago uma cerveja pra
vocês...”
nós fomos até um café.
“você foi um dos caras mais legais pra quem a gente
já trabalhou...”
“é?”
“é, você ficava nos trazendo cerveja...”
nós ocupamos uma daquelas mesas rústicas
com vista para o porto. nós
sugamos as nossas
cervejas.
“você ainda mora com aquela mulher
novinha?”, perguntou o cara
velho.
“moro. como andam vocês?”
“não tem trabalho agora...”
tirei uma nota de dez e entreguei para o
velho.
“olha só, eu esqueci de dar gorjeta pra vocês...”
“obrigado.”
ficamos ali com a nossa cerveja.
as fábricas de conserva haviam fechado.
o estaleiro havia falido
e estava
no processo de
desmonte.
San Pedro tinha voltado aos
anos 30.
eu terminei minha cerveja.
“bem, rapazes, preciso ir.”
“pra onde você vai?”
“vou comprar uns peixes...”
eu saí andando na direção do mercado de peixes,
me virei na metade do caminho
mandei para eles
um polegar pra cima
com a mão direita.
ambos tiraram seus quepes e
os acenaram.
eu ri, me virei, saí
andando.
às vezes é difícil saber
o que
fazer.
dois homens começaram a caminhar na minha
direção.
um parecia velho e mau e o outro era
grande e sorridente.
ambos usavam
quepes.
eles continuaram andando na minha direção.
eu me preparei.
“tem algo incomodando vocês?”
“não”, disse o cara
velho.
ambos pararam.
“você não se lembra da gente?”
“não tenho certeza...”
“nós pintamos a sua casa.”
“ah, sim... venham comigo, eu pago uma cerveja pra
vocês...”
nós fomos até um café.
“você foi um dos caras mais legais pra quem a gente
já trabalhou...”
“é?”
“é, você ficava nos trazendo cerveja...”
nós ocupamos uma daquelas mesas rústicas
com vista para o porto. nós
sugamos as nossas
cervejas.
“você ainda mora com aquela mulher
novinha?”, perguntou o cara
velho.
“moro. como andam vocês?”
“não tem trabalho agora...”
tirei uma nota de dez e entreguei para o
velho.
“olha só, eu esqueci de dar gorjeta pra vocês...”
“obrigado.”
ficamos ali com a nossa cerveja.
as fábricas de conserva haviam fechado.
o estaleiro havia falido
e estava
no processo de
desmonte.
San Pedro tinha voltado aos
anos 30.
eu terminei minha cerveja.
“bem, rapazes, preciso ir.”
“pra onde você vai?”
“vou comprar uns peixes...”
eu saí andando na direção do mercado de peixes,
me virei na metade do caminho
mandei para eles
um polegar pra cima
com a mão direita.
ambos tiraram seus quepes e
os acenaram.
eu ri, me virei, saí
andando.
às vezes é difícil saber
o que
fazer.
1 328
Charles Bukowski
O Furúnculo
eu estava me dando bem com as garotas na linha de montagem na
Nabisco, eu tinha pouco antes arrebentado a cara do valentão da
empresa
no meu horário de almoço,
as coisas estavam indo bem, eu era de outra
cidade, o estranho que raramente conversava com
alguém, eu era o personagem misterioso, eu era o
fodão,
quase todas aquelas mocinhas tinham interesse
por mim
e os caras não sabiam
que diabos.
aí certa manhã eu acordei no meu
quarto
com um vasto furúnculo num lado da
minha cabeça (bochecha direita)
e
a desgraça tinha quase o tamanho de uma
bola de golfe.
eu devia ter tirado licença médica
mas
não tive o bom senso e
fui trabalhar
mesmo assim.
aquilo fez a diferença: os olhos das mulheres
evitavam os meus, e os caras
já não se comportavam com temor
e eu me senti derrotado pelo
destino.
o furúnculo permaneceu
por
2 dias
3 dias
4 dias.
no quinto dia o capataz me entregou
meus documentos: “estamos cortando pessoal, você
já era”.
isso foi uma hora antes
do almoço.
eu fui até o meu armário, abri,
tirei meu avental e meu quepe
joguei os dois ali dentro
junto com a
chave e saí
caminhando
uma caminhada verdadeiramente horrível
até a rua
onde me virei
para trás e olhei o prédio
com a sensação de que eles haviam
descoberto
algo
medonhamente indecente
a meu respeito.
Nabisco, eu tinha pouco antes arrebentado a cara do valentão da
empresa
no meu horário de almoço,
as coisas estavam indo bem, eu era de outra
cidade, o estranho que raramente conversava com
alguém, eu era o personagem misterioso, eu era o
fodão,
quase todas aquelas mocinhas tinham interesse
por mim
e os caras não sabiam
que diabos.
aí certa manhã eu acordei no meu
quarto
com um vasto furúnculo num lado da
minha cabeça (bochecha direita)
e
a desgraça tinha quase o tamanho de uma
bola de golfe.
eu devia ter tirado licença médica
mas
não tive o bom senso e
fui trabalhar
mesmo assim.
aquilo fez a diferença: os olhos das mulheres
evitavam os meus, e os caras
já não se comportavam com temor
e eu me senti derrotado pelo
destino.
o furúnculo permaneceu
por
2 dias
3 dias
4 dias.
no quinto dia o capataz me entregou
meus documentos: “estamos cortando pessoal, você
já era”.
isso foi uma hora antes
do almoço.
eu fui até o meu armário, abri,
tirei meu avental e meu quepe
joguei os dois ali dentro
junto com a
chave e saí
caminhando
uma caminhada verdadeiramente horrível
até a rua
onde me virei
para trás e olhei o prédio
com a sensação de que eles haviam
descoberto
algo
medonhamente indecente
a meu respeito.
1 247
Charles Bukowski
Supostamente Famoso
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada,
minha esposa, coitada, no andar de baixo,
e eu o dia todo no hipódromo e
aqui a noite toda com a garrafa e
esta máquina.
minha esposa, coitada, que ela possa encontrar seu lugar
no céu.
só que também
as poucas pessoas que eu
conheci, aquelas que me pareceram ter uma
chaminha extra
certa humanidade inventiva, bem, elas
se dissolveram
mas
sendo um solitário por natureza
não esquento muito
a cabeça –
restam meus 5
gatos: Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
sou agora um
escritor supostamente
famoso
influenciando hordas de
datilógrafos.
bem
que eu gostaria de poder
rir
de tudo
isso.
a Fama é a última puta, todas as outras se
foram.
bem, a competição não tem sido
dura
mas não tenho nada com
isso: percebi tudo
muito tempo atrás enquanto
passava fome e
mijava pela
janela
enquanto atirava copos de
trago nas
paredes
de-aluguel-atrasado.
Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
agora a Morte é uma planta crescendo em minha
mente
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
fico triste pelos mortos e fico triste pelos vivos
mas não por meus 5 gatos ou
por minha esposa, minha esposa que vai
encontrar seu lugar no
céu.
e quanto às pessoas
dissolvidas
eu não as dissolvi, elas mesmas se
dissolveram.
e que as calçadas estejam vazias e ao mesmo tempo
cheias de pés
passando –
isso é obra do
caminho.
nada de muito sólido
enquanto
um homem toca piano
no meu rádio e
as paredes
se erguem e
baixam
e a coragem de tudo
até das pulgas
dos piolhos
da tarântula
me assombra
nestes rosnados
da madrugada.
minha esposa, coitada, no andar de baixo,
e eu o dia todo no hipódromo e
aqui a noite toda com a garrafa e
esta máquina.
minha esposa, coitada, que ela possa encontrar seu lugar
no céu.
só que também
as poucas pessoas que eu
conheci, aquelas que me pareceram ter uma
chaminha extra
certa humanidade inventiva, bem, elas
se dissolveram
mas
sendo um solitário por natureza
não esquento muito
a cabeça –
restam meus 5
gatos: Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
sou agora um
escritor supostamente
famoso
influenciando hordas de
datilógrafos.
bem
que eu gostaria de poder
rir
de tudo
isso.
a Fama é a última puta, todas as outras se
foram.
bem, a competição não tem sido
dura
mas não tenho nada com
isso: percebi tudo
muito tempo atrás enquanto
passava fome e
mijava pela
janela
enquanto atirava copos de
trago nas
paredes
de-aluguel-atrasado.
Ting, Ding, Beeker, Bleeker e
Blob.
agora a Morte é uma planta crescendo em minha
mente
nada de muito sólido nestes rosnados da madrugada.
fico triste pelos mortos e fico triste pelos vivos
mas não por meus 5 gatos ou
por minha esposa, minha esposa que vai
encontrar seu lugar no
céu.
e quanto às pessoas
dissolvidas
eu não as dissolvi, elas mesmas se
dissolveram.
e que as calçadas estejam vazias e ao mesmo tempo
cheias de pés
passando –
isso é obra do
caminho.
nada de muito sólido
enquanto
um homem toca piano
no meu rádio e
as paredes
se erguem e
baixam
e a coragem de tudo
até das pulgas
dos piolhos
da tarântula
me assombra
nestes rosnados
da madrugada.
1 147
Charles Bukowski
Alegre Parri
os cafés em Paris são bem como você imagina
que são:
pessoas muito bem-vestidas, esnobes, e
o garçom-esnobe vem e anota o seu
pedido
como se você fosse um
leproso.
mas depois de tomar o seu vinho
você se sente melhor
você mesmo começa a se sentir um
esnobe
e lança para o cara da mesa ao lado
um olhar de soslaio
ele flagra o seu olhar e
você torce o nariz
meio como se você tivesse acabado de cheirar
merda de cachorro
então você
desvia o olhar.
e a comida
quando chega
tem sempre um sabor suave demais.
os franceses são delicados com seus
temperos.
e
enquanto vai comendo e bebendo
você percebe que todo mundo está
aterrorizado:
que pena
que pena
uma cidade tão adorável
cheia de
covardes.
então
mais vinho gera mais
percepção:
Paris é o mundo e o mundo
é
Paris.
beba à saúde disso
e
por causa
disso.
que são:
pessoas muito bem-vestidas, esnobes, e
o garçom-esnobe vem e anota o seu
pedido
como se você fosse um
leproso.
mas depois de tomar o seu vinho
você se sente melhor
você mesmo começa a se sentir um
esnobe
e lança para o cara da mesa ao lado
um olhar de soslaio
ele flagra o seu olhar e
você torce o nariz
meio como se você tivesse acabado de cheirar
merda de cachorro
então você
desvia o olhar.
e a comida
quando chega
tem sempre um sabor suave demais.
os franceses são delicados com seus
temperos.
e
enquanto vai comendo e bebendo
você percebe que todo mundo está
aterrorizado:
que pena
que pena
uma cidade tão adorável
cheia de
covardes.
então
mais vinho gera mais
percepção:
Paris é o mundo e o mundo
é
Paris.
beba à saúde disso
e
por causa
disso.
1 114
Charles Bukowski
Exame de Direção
motoristas
em reação de defesa e raiva
com frequência mostram o
dedo
àqueles
que se envolvem em seus
problemas de direção.
tenho noção daquilo que o
sinal do dedo
sugere
mas quando ele é dirigido
a mim
às vezes
não consigo deixar de rir dos
rubicundos
semblantes
retorcidos
e do
gesto.
mas hoje
eu me vi
mostrando o dedo
para um cara que
se atravessou
na minha pista
sem esperar
na saída de um
supermercado.
mostrei o dedo para
ele.
ele viu
e eu fui dirigindo colado em seu
para-choque
traseiro.
foi a minha primeira
vez.
eu era um membro do
clube
e me senti um
puta
idiota.
em reação de defesa e raiva
com frequência mostram o
dedo
àqueles
que se envolvem em seus
problemas de direção.
tenho noção daquilo que o
sinal do dedo
sugere
mas quando ele é dirigido
a mim
às vezes
não consigo deixar de rir dos
rubicundos
semblantes
retorcidos
e do
gesto.
mas hoje
eu me vi
mostrando o dedo
para um cara que
se atravessou
na minha pista
sem esperar
na saída de um
supermercado.
mostrei o dedo para
ele.
ele viu
e eu fui dirigindo colado em seu
para-choque
traseiro.
foi a minha primeira
vez.
eu era um membro do
clube
e me senti um
puta
idiota.
1 313
Charles Bukowski
A Vida Estradeira
um idiota ficou me fechando e por fim consegui passar por ele, e na
exaltação da liberdade eu acelerei até 135 (naturalmente, não sem antes ver no retrovisor
se havia presença dos nossos protetores de uniforme azul); aí senti e ouvi o CHOQUE de um objeto
duro contra o fundo do meu carro, mas querendo chegar a tempo ao hipódromo me convenci
a ignorá-lo (como se isso eliminasse o problema) muito embora eu começasse a sentir
o cheiro de gasolina.
conferi o medidor do tanque e o nível parecia estável...
já tinha sido uma semana terrível
mas, sabe como é, a derrota pode fortalecer assim como a vitória pode enfraquecer, e se
você tiver a devida sorte e a santa paciência os deuses até poderão conceder
a devida dose...
aí
o tráfego se congestionou e parou, e aí o cheiro de gasolina ficou forte pra valer e eu vi meu
medidor despencando rapidamente, aí meu rádio me informou que um homem 5 quilômetros adiante
no viaduto de Vernon estava sentado na grade de proteção e ameaçava
suicídio,
e assim me vi sob ameaça de ser mandado ao inferno numa explosão
com as pessoas me gritando que meu tanque estava rachado e vazando gasolina;
sim, eu assentia em resposta, eu sei, eu sei...
enquanto isso, enxotando carros com a mão e abrindo caminho rumo à faixa externa
pensando, eles estão mais aterrorizados do que eu:
se eu me ferrar, quem estiver perto é capaz de se ferrar também.
não havia o menor movimento no tráfego – o suicida ainda tentava se
decidir e o meu medidor de gasolina caiu no vermelho
e aí a necessidade de ser um cidadão exemplar e de esperar pela oportunidade
desapareceu e tratei de manobrar
por cima de um anteparo de cimento
entortando minha roda dianteira direita
consegui chegar à saída da autoestrada que estava totalmente
livre
aí rodei como deu até um posto de gasolina na Imperial Highway
estacionei
ainda pingando gasolina, saí, fui até o telefone, chamei um
guincho, não demorou nem um pouco, bela carona de volta com um camarada
negro que me contou histórias estranhas sobre motoristas em apuros...
(como certa mulher, suas mãos estavam grudadas no volante, levaram 15 minutos
conversando e forçando até fazê-la soltar.)
peguei o carro de volta uns dois dias depois, estava voltando do hipódromo,
pisei no freio e o pedal não descia, por sorte eu não estava na autoestrada
mesmo assim desliguei o motor, deslizei até o meio-fio, notei que a cobertura
da coluna de direção havia se soltado e bloqueado o freio, arranquei ela dali, aí
arranquei um pouco mais para garantir, aí jorrou todo um emaranhado de fios,
m e r d a...
girei a chave, pisei no acelerador mas o motor PEGOU
e saí rodando com os fios pendentes derramados na minha perna
pensando
será que essas coisas acontecem com as outras
pessoas ou sou
eu justamente o escolhido?
decidi que era o segundo caso e entrei na autoestrada onde
um cara num fusca me cortou a frente e trancou minha
faixa
consequentemente eu costurei para passar o filho da puta e pisei até
120, 130, 140...
pensando, a coragem necessária para sair da cama toda
manhã
para encarar as mesmas coisas
outra e outra vez
era
enorme.
exaltação da liberdade eu acelerei até 135 (naturalmente, não sem antes ver no retrovisor
se havia presença dos nossos protetores de uniforme azul); aí senti e ouvi o CHOQUE de um objeto
duro contra o fundo do meu carro, mas querendo chegar a tempo ao hipódromo me convenci
a ignorá-lo (como se isso eliminasse o problema) muito embora eu começasse a sentir
o cheiro de gasolina.
conferi o medidor do tanque e o nível parecia estável...
já tinha sido uma semana terrível
mas, sabe como é, a derrota pode fortalecer assim como a vitória pode enfraquecer, e se
você tiver a devida sorte e a santa paciência os deuses até poderão conceder
a devida dose...
aí
o tráfego se congestionou e parou, e aí o cheiro de gasolina ficou forte pra valer e eu vi meu
medidor despencando rapidamente, aí meu rádio me informou que um homem 5 quilômetros adiante
no viaduto de Vernon estava sentado na grade de proteção e ameaçava
suicídio,
e assim me vi sob ameaça de ser mandado ao inferno numa explosão
com as pessoas me gritando que meu tanque estava rachado e vazando gasolina;
sim, eu assentia em resposta, eu sei, eu sei...
enquanto isso, enxotando carros com a mão e abrindo caminho rumo à faixa externa
pensando, eles estão mais aterrorizados do que eu:
se eu me ferrar, quem estiver perto é capaz de se ferrar também.
não havia o menor movimento no tráfego – o suicida ainda tentava se
decidir e o meu medidor de gasolina caiu no vermelho
e aí a necessidade de ser um cidadão exemplar e de esperar pela oportunidade
desapareceu e tratei de manobrar
por cima de um anteparo de cimento
entortando minha roda dianteira direita
consegui chegar à saída da autoestrada que estava totalmente
livre
aí rodei como deu até um posto de gasolina na Imperial Highway
estacionei
ainda pingando gasolina, saí, fui até o telefone, chamei um
guincho, não demorou nem um pouco, bela carona de volta com um camarada
negro que me contou histórias estranhas sobre motoristas em apuros...
(como certa mulher, suas mãos estavam grudadas no volante, levaram 15 minutos
conversando e forçando até fazê-la soltar.)
peguei o carro de volta uns dois dias depois, estava voltando do hipódromo,
pisei no freio e o pedal não descia, por sorte eu não estava na autoestrada
mesmo assim desliguei o motor, deslizei até o meio-fio, notei que a cobertura
da coluna de direção havia se soltado e bloqueado o freio, arranquei ela dali, aí
arranquei um pouco mais para garantir, aí jorrou todo um emaranhado de fios,
m e r d a...
girei a chave, pisei no acelerador mas o motor PEGOU
e saí rodando com os fios pendentes derramados na minha perna
pensando
será que essas coisas acontecem com as outras
pessoas ou sou
eu justamente o escolhido?
decidi que era o segundo caso e entrei na autoestrada onde
um cara num fusca me cortou a frente e trancou minha
faixa
consequentemente eu costurei para passar o filho da puta e pisei até
120, 130, 140...
pensando, a coragem necessária para sair da cama toda
manhã
para encarar as mesmas coisas
outra e outra vez
era
enorme.
1 133
Charles Bukowski
Tempestade Para Os Vivos E Para Os Mortos
você não me pega, a chuva está entrando pela
porta e estou na frente do computador enquanto
ouço Rachmaninov no rádio,
a chuva entrando de lado pela porta,
pancadas dela e sopro fumaça de charuto nela e
sorrio.
depois da porta tem uma sacadinha e há
uma cadeira lá.
às vezes sento naquela cadeira quando as coisas vão
mal aqui.
(caramba está caindo água agora!
ótimo! ensopando meu assento de madeira
lá fora!
as árvores balançam na chuva e os
fios telefônicos.)
às vezes sento naquela cadeira quando as coisas
vão mal
e bebo cerveja lá fora,
olho os carros da noite na autoestrada,
também noto quantas luzes são necessárias
numa cidade, tantas.
e fico lá sentado e penso, bem, pode
ser um momento estagnado
mas pelo menos você não está morando na rua.
você não está nem no cemitério ainda.
ânimo, garotão, você já superou
coisa pior...
beba sua cerveja.
mas hoje estou aqui,
e Rachmaninov ainda toca para mim.
quando eu era jovem em São
Francisco, ou razoavelmente jovem, eu era
um pouco mentalmente desequilibrado, achava
que era um grande artista e passava fome por
isso.
estou querendo dizer é que Rachmaninov ainda
estava vivo na época
e de algum modo eu poupara dinheiro
suficiente para ir vê-lo tocar no
auditório.
só que quando cheguei lá
anunciaram que ele estava doente
e que um substituto iria
tocar no lugar dele.
fiquei com raiva.
não deveria ter ficado pois dentro
de uma semana ele estava
morto.
mas ele está tocando para mim agora.
uma de suas próprias composições,
e se saindo muito bem.
com a chuva batendo nesta sala,
agora um vento de temporal escancara
totalmente a porta.
papéis voam pela sala.
há uma batida na porta,
a porta atrás de mim.
ela se abre.
minha esposa entra.
“é um furacão!”, ela diz,
“um furacão de gelo, você vai morrer
congelado!”
“não, não”, digo a ela, “estou bem!”
ela toca os meus braços,
eles estão quentes.
ela fica me encarando.
às vezes ela se pergunta.
eu também.
agora estou sozinho.
Rachmaninov terminou
e a chuva
parou.
e o vento.
agora sinto frio.
eu me levanto e visto um roupão de banho.
sou um velho escritor.
uma conta de telefone olha para mim
de ponta-cabeça.
a festa acabou.
San Pedro, 1993,
no Senhor do nosso
Ano.
sentado aqui.
porta e estou na frente do computador enquanto
ouço Rachmaninov no rádio,
a chuva entrando de lado pela porta,
pancadas dela e sopro fumaça de charuto nela e
sorrio.
depois da porta tem uma sacadinha e há
uma cadeira lá.
às vezes sento naquela cadeira quando as coisas vão
mal aqui.
(caramba está caindo água agora!
ótimo! ensopando meu assento de madeira
lá fora!
as árvores balançam na chuva e os
fios telefônicos.)
às vezes sento naquela cadeira quando as coisas
vão mal
e bebo cerveja lá fora,
olho os carros da noite na autoestrada,
também noto quantas luzes são necessárias
numa cidade, tantas.
e fico lá sentado e penso, bem, pode
ser um momento estagnado
mas pelo menos você não está morando na rua.
você não está nem no cemitério ainda.
ânimo, garotão, você já superou
coisa pior...
beba sua cerveja.
mas hoje estou aqui,
e Rachmaninov ainda toca para mim.
quando eu era jovem em São
Francisco, ou razoavelmente jovem, eu era
um pouco mentalmente desequilibrado, achava
que era um grande artista e passava fome por
isso.
estou querendo dizer é que Rachmaninov ainda
estava vivo na época
e de algum modo eu poupara dinheiro
suficiente para ir vê-lo tocar no
auditório.
só que quando cheguei lá
anunciaram que ele estava doente
e que um substituto iria
tocar no lugar dele.
fiquei com raiva.
não deveria ter ficado pois dentro
de uma semana ele estava
morto.
mas ele está tocando para mim agora.
uma de suas próprias composições,
e se saindo muito bem.
com a chuva batendo nesta sala,
agora um vento de temporal escancara
totalmente a porta.
papéis voam pela sala.
há uma batida na porta,
a porta atrás de mim.
ela se abre.
minha esposa entra.
“é um furacão!”, ela diz,
“um furacão de gelo, você vai morrer
congelado!”
“não, não”, digo a ela, “estou bem!”
ela toca os meus braços,
eles estão quentes.
ela fica me encarando.
às vezes ela se pergunta.
eu também.
agora estou sozinho.
Rachmaninov terminou
e a chuva
parou.
e o vento.
agora sinto frio.
eu me levanto e visto um roupão de banho.
sou um velho escritor.
uma conta de telefone olha para mim
de ponta-cabeça.
a festa acabou.
San Pedro, 1993,
no Senhor do nosso
Ano.
sentado aqui.
1 186
Charles Bukowski
Ovo Desestrelado
NADA. sentados num café tomando café da manhã. NADA. a garçonete,
e as pessoas comendo. o tráfego passa. não importa o que
Napoleão fez, o que Platão fez. Turguêniev poderia ter sido uma mosca. estamos
esgotados, esperança erradicada. pegamos xícaras de café como os robôs que tomarão em breve
o nosso lugar. coragem em Salerno, banhos de sangue no front oriental não
importaram. sabemos que estamos derrotados. NADA. agora é só uma questão de
continuar
de alguma maneira –
mastigar a comida e ler o jornal. nós
lemos sobre nós mesmos. a notícia é
ruim. algo sobre
NADA.
Joe Louis morto há muito enquanto a mosca-da-fruta invade Beverly Hills.
bem, pelo menos podemos sentar e
comer. tem sido uma viagem
árdua. poderia ser
pior. poderia ser pior do que
NADA.
peçamos mais café à
garçonete.
a vadia! ela sabe que estamos tentando chamar sua
atenção.
ela só fica lá parada fazendo
NADA.
não importa que o príncipe Charles caia do cavalo
ou que o beija-flor seja tão raramente
visto
ou que sejamos insensatos demais para
enlouquecer.
café. sirvam-nos mais desse café do
NADA.
e as pessoas comendo. o tráfego passa. não importa o que
Napoleão fez, o que Platão fez. Turguêniev poderia ter sido uma mosca. estamos
esgotados, esperança erradicada. pegamos xícaras de café como os robôs que tomarão em breve
o nosso lugar. coragem em Salerno, banhos de sangue no front oriental não
importaram. sabemos que estamos derrotados. NADA. agora é só uma questão de
continuar
de alguma maneira –
mastigar a comida e ler o jornal. nós
lemos sobre nós mesmos. a notícia é
ruim. algo sobre
NADA.
Joe Louis morto há muito enquanto a mosca-da-fruta invade Beverly Hills.
bem, pelo menos podemos sentar e
comer. tem sido uma viagem
árdua. poderia ser
pior. poderia ser pior do que
NADA.
peçamos mais café à
garçonete.
a vadia! ela sabe que estamos tentando chamar sua
atenção.
ela só fica lá parada fazendo
NADA.
não importa que o príncipe Charles caia do cavalo
ou que o beija-flor seja tão raramente
visto
ou que sejamos insensatos demais para
enlouquecer.
café. sirvam-nos mais desse café do
NADA.
1 152
Charles Bukowski
Diversão
veja bem, ela disse, estirada na cama, eu não quero nada
pessoal, vamos só transar, eu não quero me envolver,
sacou?
ela chutou pra longe os sapatos de salto alto...
claro, ele disse, de pé ali, vamos só fingir que
já transamos, não existe nada menos envolvido do que isso,
existe?
que diabos você quer dizer?, ela perguntou.
quero dizer, ele disse, que prefiro beber
de qualquer maneira.
e ele se serviu de bebida.
era uma noite péssima em Vegas e ele foi até a janela e
olhou as luzes estúpidas lá fora.
você é bicha? ela perguntou, você é bicha, seu
desgraçado?
não, ele disse.
você não precisa agir como um bosta, ela disse, só porque perdeu nas
mesas – dirigimos todo esse caminho até aqui em busca de diversão e
agora olha só você: sugando esse trago, cê podia tê feito isso em
L.A.!
certo, ele disse, se tem uma coisa com a qual eu gosto de me envolver é a
maldita garrafa.
eu quero que você me leve pra casa, ela disse.
com todo prazer, ele disse, vamos
nessa.
foi uma dessas ocasiões em que nada se perdeu porque nada
tinha sido encontrado e enquanto ela se vestia foi triste para
ele
não por causa dele e da mulher mas por causa de todos os milhões como ele e a mulher
enquanto as luzes piscavam lá fora, tudo tão facilmente falso.
ela se aprontou depressa: vamos dar o fora daqui, ela
disse.
certo, ele disse, e os dois saíram pela porta juntos.
pessoal, vamos só transar, eu não quero me envolver,
sacou?
ela chutou pra longe os sapatos de salto alto...
claro, ele disse, de pé ali, vamos só fingir que
já transamos, não existe nada menos envolvido do que isso,
existe?
que diabos você quer dizer?, ela perguntou.
quero dizer, ele disse, que prefiro beber
de qualquer maneira.
e ele se serviu de bebida.
era uma noite péssima em Vegas e ele foi até a janela e
olhou as luzes estúpidas lá fora.
você é bicha? ela perguntou, você é bicha, seu
desgraçado?
não, ele disse.
você não precisa agir como um bosta, ela disse, só porque perdeu nas
mesas – dirigimos todo esse caminho até aqui em busca de diversão e
agora olha só você: sugando esse trago, cê podia tê feito isso em
L.A.!
certo, ele disse, se tem uma coisa com a qual eu gosto de me envolver é a
maldita garrafa.
eu quero que você me leve pra casa, ela disse.
com todo prazer, ele disse, vamos
nessa.
foi uma dessas ocasiões em que nada se perdeu porque nada
tinha sido encontrado e enquanto ela se vestia foi triste para
ele
não por causa dele e da mulher mas por causa de todos os milhões como ele e a mulher
enquanto as luzes piscavam lá fora, tudo tão facilmente falso.
ela se aprontou depressa: vamos dar o fora daqui, ela
disse.
certo, ele disse, e os dois saíram pela porta juntos.
1 219
Charles Bukowski
Estar Aqui
quando chega o pior, não há nada a se
fazer, é quase caso de você rir, vestir suas roupas
de novo, sair, ver rostos, máquinas,
ruas, prédios, o desenrolar do
mundo.
eu expresso gestos, troco somas de dinheiro, respondo a
perguntas, pouco pergunto, com as horas marchando,
me seguindo, elas não são sempre constantemente
terríveis – por vezes sou acometido por uma louca
alegria e rio, mal sabendo
por quê.
talvez o pior truque que aprendi seja o de
resistir; preciso aprender a ceder, isso não é
algo suspeito.
somos sérios demais, precisamos aprender a lograr
nossos céus e nossos infernos – a brincadeira está jogando
conosco, precisamos jogar de volta.
nossos sapatos vão andando, carregando-
nos.
quando chega o pior, nada deveria ser
pior.
a exatidão é a liberdade: cem
mil muros ou mais
e mais
de nada, seus ossos sabem mais do que a sua
mente.
fazer, é quase caso de você rir, vestir suas roupas
de novo, sair, ver rostos, máquinas,
ruas, prédios, o desenrolar do
mundo.
eu expresso gestos, troco somas de dinheiro, respondo a
perguntas, pouco pergunto, com as horas marchando,
me seguindo, elas não são sempre constantemente
terríveis – por vezes sou acometido por uma louca
alegria e rio, mal sabendo
por quê.
talvez o pior truque que aprendi seja o de
resistir; preciso aprender a ceder, isso não é
algo suspeito.
somos sérios demais, precisamos aprender a lograr
nossos céus e nossos infernos – a brincadeira está jogando
conosco, precisamos jogar de volta.
nossos sapatos vão andando, carregando-
nos.
quando chega o pior, nada deveria ser
pior.
a exatidão é a liberdade: cem
mil muros ou mais
e mais
de nada, seus ossos sabem mais do que a sua
mente.
1 014
Charles Bukowski
Vagabundeando Com Jane
não havia fogão
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
e colocávamos latas de feijão
na água quente da pia
para aquecê-las
e
nós líamos os jornais dominicais
na segunda-feira
depois de desenterrá-los nas
latas de lixo
mas de algum jeito arranjávamos
dinheiro para o vinho
e para o
aluguel
e o dinheiro vinha
das ruas
das lojas de penhores
do nada
e tudo que importava
era a próxima
garrafa
e bebíamos e cantávamos
e
brigávamos
dentro e fora
de detenções
por embriaguez
carros acidentados
hospitais
fazíamos barricadas
contra a
polícia
e os outros hóspedes
nos
detestavam
e o recepcionista
do hotel
nos
temia
e aquilo nunca
tinha
fim
e foi uma das
épocas mais maravilhosas
da minha
vida.
1 145
Charles Bukowski
Meu Amigo, o Atendente do Estacionamento
– ele é um dândi
– bigodinho preto
– geralmente sugando um charuto
ele costuma se debruçar para dentro dos carros enquanto
efetua negócios
na primeira vez em que o vi, ele disse
“ei! cê vai dar uma
matada?”
“talvez”, eu respondi.
na vez seguinte foi:
“ei, Pé de mesa! o que é que tá
rolando?”
“quase nada”, eu disse a
ele.
na vez seguinte minha namorada estava comigo
e ele apenas
sorriu.
na vez seguinte eu estava
sozinho.
“ei”, ele perguntou, “cadê a
jovenzinha?”
“deixei em casa...”
“Papo furado! aposto que ela te
largou!”
e na vez seguinte
ele realmente se debruçou para dentro do carro:
“como é que pode um cara como você dirigir
uma BMW? aposto que você herdou o seu
dinheiro, você não ganhou esse carro com o seu
cérebro!”
“como você adivinhou?”, eu
respondi.
isso foi algumas semanas atrás.
não tenho visto meu amigo nos últimos tempos.
um sujeito como aquele, provavelmente ele apenas avançou
para algo
melhor.
– bigodinho preto
– geralmente sugando um charuto
ele costuma se debruçar para dentro dos carros enquanto
efetua negócios
na primeira vez em que o vi, ele disse
“ei! cê vai dar uma
matada?”
“talvez”, eu respondi.
na vez seguinte foi:
“ei, Pé de mesa! o que é que tá
rolando?”
“quase nada”, eu disse a
ele.
na vez seguinte minha namorada estava comigo
e ele apenas
sorriu.
na vez seguinte eu estava
sozinho.
“ei”, ele perguntou, “cadê a
jovenzinha?”
“deixei em casa...”
“Papo furado! aposto que ela te
largou!”
e na vez seguinte
ele realmente se debruçou para dentro do carro:
“como é que pode um cara como você dirigir
uma BMW? aposto que você herdou o seu
dinheiro, você não ganhou esse carro com o seu
cérebro!”
“como você adivinhou?”, eu
respondi.
isso foi algumas semanas atrás.
não tenho visto meu amigo nos últimos tempos.
um sujeito como aquele, provavelmente ele apenas avançou
para algo
melhor.
1 102
Charles Bukowski
Caixa Postal 11946, Fresno, Calif. 93776
voltei de carro do hipódromo depois de perder $50.
um dia quente por lá
eles espremem gente nos sábados;
meus pés doíam e eu tinha dores no pescoço
e pelos ombros –
nervos: grandes multidões mais do que
me abalam.
subi a entrada da garagem e peguei a
correspondência
avancei e estacionei
entrei e abri a carta da Receita Federal
formulário 525 (SC) (Rec. 9-83)
li
e fui informado de que eu devia
DOZE MIL SEISCENTOSEQUATRO DÓLARES E
SETENTA E OITO CENTAVOS
do meu imposto de renda de 1981 mais
DOIS MIL OITOCENTOSEOITENTAETRÊS DÓLARES
E DOZE CENTAVOS de juros
e esses juros adicionais estavam sendo
reajustados
DIARIAMENTE.
entrei na cozinha e me servi uma
bebida.
a vida na América era uma coisa
curiosa.
bem, eu poderia deixar que os juros
aumentassem
isso era o que o governo
fazia
mas depois de um tempo eles
viriam atrás de mim
ou de fosse lá o que me
restasse.
pelo menos aquele prejuízo de $50 no
hipódromo não parecia mais
tão ruim.
eu teria de voltar no dia seguinte e
ganhar $15.487,90 mais
o reajuste diário
dos juros.
brindei a isso,
lamentando não ter comprado um
Programa das Corridas
na
saída.
um dia quente por lá
eles espremem gente nos sábados;
meus pés doíam e eu tinha dores no pescoço
e pelos ombros –
nervos: grandes multidões mais do que
me abalam.
subi a entrada da garagem e peguei a
correspondência
avancei e estacionei
entrei e abri a carta da Receita Federal
formulário 525 (SC) (Rec. 9-83)
li
e fui informado de que eu devia
DOZE MIL SEISCENTOSEQUATRO DÓLARES E
SETENTA E OITO CENTAVOS
do meu imposto de renda de 1981 mais
DOIS MIL OITOCENTOSEOITENTAETRÊS DÓLARES
E DOZE CENTAVOS de juros
e esses juros adicionais estavam sendo
reajustados
DIARIAMENTE.
entrei na cozinha e me servi uma
bebida.
a vida na América era uma coisa
curiosa.
bem, eu poderia deixar que os juros
aumentassem
isso era o que o governo
fazia
mas depois de um tempo eles
viriam atrás de mim
ou de fosse lá o que me
restasse.
pelo menos aquele prejuízo de $50 no
hipódromo não parecia mais
tão ruim.
eu teria de voltar no dia seguinte e
ganhar $15.487,90 mais
o reajuste diário
dos juros.
brindei a isso,
lamentando não ter comprado um
Programa das Corridas
na
saída.
1 060
Charles Bukowski
Janeiro
aqui
você vê esta
mão
aqui você vê este
céu
esta
ponte
ouve este
som
a agonia do
elefante
o pesadelo do
anão
enquanto
papagaios engaiolados
repousam num
floreio de
cor
enquanto pedaços de
pessoas
despencam pela
beira
como pedrinhas
como
rochas
manicômios gritando de
dor
enquanto a realeza do
mundo é
fotografada
digamos
a cavalo
ou
digamos
contemplando um desfile
em sua
honra
enquanto
os drogados se drogam
enquanto os bebuns bebem
enquanto as vadias vadiam
enquanto os matadores matam
o albatroz pisca seus
olhos
o clima continua
praticamente
o mesmo.
você vê esta
mão
aqui você vê este
céu
esta
ponte
ouve este
som
a agonia do
elefante
o pesadelo do
anão
enquanto
papagaios engaiolados
repousam num
floreio de
cor
enquanto pedaços de
pessoas
despencam pela
beira
como pedrinhas
como
rochas
manicômios gritando de
dor
enquanto a realeza do
mundo é
fotografada
digamos
a cavalo
ou
digamos
contemplando um desfile
em sua
honra
enquanto
os drogados se drogam
enquanto os bebuns bebem
enquanto as vadias vadiam
enquanto os matadores matam
o albatroz pisca seus
olhos
o clima continua
praticamente
o mesmo.
1 080
Charles Bukowski
Os Dias Gloriosos
os rios mortos correm para trás em direção a lugar nenhum,
os peixes gritam através das memórias de neon,
e me lembro de você bêbada na cama
naquele quarto barato de hotel
sem ninguém com quem morar além de mim,
que inferno arrastado deve ter
sido, você com
um jovem beberrão dez anos mais novo
andando pelo quarto de cueca e
se gabando aos deuses surdos enquanto
estilhaçava copos nas paredes.
você certamente se viu deslocada no espaço e no
tempo,
seu casamento quebrado sobre ladrilhos
manchados
e você
sendo comida por um
otário de suíças aterrorizado pela
vida, surrado pelo acaso, aquela
coisa
andando pelo quarto, úmido cigarro enrolado
na boca de macaco, então
parando para
abrir outra garrafa de vinho
vagabundo.
os rios mortos de nossas vidas,
corações como pedras.
sirva o sangue vermelho do vinho.
pragueje, reclame, chore, cante
naquele quarto barato de hotel.
você, acordando... “Hank?”
“hã... aqui... que porra você
quer?”
“diabo, me dá uma bebida...”
o desperdício
mas a coragem da
aposta.
de onde virá o aluguel devido?
vou arranjar um emprego.
você vai arranjar um emprego.
sim, baita chance, baita bosta de
chance
seja como for, vinho suficiente nos leva além do
pensamento.
eu quebro um enorme copo na
parede.
o telefone toca.
é o recepcionista de novo:
“Sr. Chinaski, devo advertir...”
“ah, vai advertir a boceta da tua mãe!”
o telefone batido com força.
poder.
sou um homem.
se você gosta de mim, gosta disso.
e sou inteligente também, sempre te
disse isso.
“Hank?”
“hã?”
“quantas garrafas temos ainda?”
“3.”
“que bom.”
andando pelo quarto, tentando voar, tentando
viver.
memórias de neon gritam o peixe.
4o andar de um hotel da 6th street, janelas
abertas para a cidade do inferno, a preciosa respiração
dos pombos solitários.
você bêbada na cama, eu brincando de milagre,
rolhas de garrafa de vinho e cinzeiros cheios.
e como se todo mundo estivesse morto, todo mundo
morto com as cabeças no lugar,
precisamos conquistar o açoite do
lugar nenhum.
me veja de camiseta e cueca,
pés descalços sangrando cacos de vidro.
existe certa saída que começa com
3 garrafas
restantes.
os peixes gritam através das memórias de neon,
e me lembro de você bêbada na cama
naquele quarto barato de hotel
sem ninguém com quem morar além de mim,
que inferno arrastado deve ter
sido, você com
um jovem beberrão dez anos mais novo
andando pelo quarto de cueca e
se gabando aos deuses surdos enquanto
estilhaçava copos nas paredes.
você certamente se viu deslocada no espaço e no
tempo,
seu casamento quebrado sobre ladrilhos
manchados
e você
sendo comida por um
otário de suíças aterrorizado pela
vida, surrado pelo acaso, aquela
coisa
andando pelo quarto, úmido cigarro enrolado
na boca de macaco, então
parando para
abrir outra garrafa de vinho
vagabundo.
os rios mortos de nossas vidas,
corações como pedras.
sirva o sangue vermelho do vinho.
pragueje, reclame, chore, cante
naquele quarto barato de hotel.
você, acordando... “Hank?”
“hã... aqui... que porra você
quer?”
“diabo, me dá uma bebida...”
o desperdício
mas a coragem da
aposta.
de onde virá o aluguel devido?
vou arranjar um emprego.
você vai arranjar um emprego.
sim, baita chance, baita bosta de
chance
seja como for, vinho suficiente nos leva além do
pensamento.
eu quebro um enorme copo na
parede.
o telefone toca.
é o recepcionista de novo:
“Sr. Chinaski, devo advertir...”
“ah, vai advertir a boceta da tua mãe!”
o telefone batido com força.
poder.
sou um homem.
se você gosta de mim, gosta disso.
e sou inteligente também, sempre te
disse isso.
“Hank?”
“hã?”
“quantas garrafas temos ainda?”
“3.”
“que bom.”
andando pelo quarto, tentando voar, tentando
viver.
memórias de neon gritam o peixe.
4o andar de um hotel da 6th street, janelas
abertas para a cidade do inferno, a preciosa respiração
dos pombos solitários.
você bêbada na cama, eu brincando de milagre,
rolhas de garrafa de vinho e cinzeiros cheios.
e como se todo mundo estivesse morto, todo mundo
morto com as cabeças no lugar,
precisamos conquistar o açoite do
lugar nenhum.
me veja de camiseta e cueca,
pés descalços sangrando cacos de vidro.
existe certa saída que começa com
3 garrafas
restantes.
1 008
Charles Bukowski
O Homem do Terno Marrom
porra, ele era pequeno
talvez 1 e 60,
60 quilos,
eu não gostava
dele,
ele ficava em sua mesa
lá no
banco
e enquanto eu esperava na fila
ele parecia ter um jeito
de olhar pra
mim
e eu encarava
de volta,
não sei o que
era
que causava a
animosidade.
ele tinha um bigodinho
que caía
nas pontas,
tinha uns quarenta e poucos anos
e como a maioria das pessoas que trabalhavam
em bancos
tinha uma personalidade
descompromissada mas
cheia de si.
um dia eu quase
pulei a grade
para lhe perguntar
que diabos
ele estava
olhando?
hoje entrei
e fiquei na fila
e o vi se afastar da
mesa.
uma das caixas estava
tendo problemas
com um homem
em seu
guichê
e o homem
do terno marrom
começou a trocar
ideia com os
dois.
de repente
o homem do terno marrom
saltou a
grade
parou atrás do outro
enlaçou seus braços
nos dele
então o arrastou
até uma passagem
com tranca
adiante na grade
esticou a mão
desenganchou a tranca
conseguindo mesmo assim
manter o homem
imobilizado.
então o arrastou
para dentro
trancou o
portão
e segurando ainda o
homem
disse para uma das
garotas
“Chame a
polícia”.
o homem que ele estava segurando era
negro, tinha uns 20 anos, uns bons 1 e 90,
talvez 85 quilos,
e eu pensei, ei,
cara, se solta, cadeia não é
brincadeira.
mas ele só ficou
ali
sendo
imobilizado.
saí antes que a
polícia
chegasse.
quando fui
de novo ao banco
o homem do terno marrom
estava atrás de sua
mesa.
e quando ele me lançou um
olhar
eu sorri só um
pouquinho.
talvez 1 e 60,
60 quilos,
eu não gostava
dele,
ele ficava em sua mesa
lá no
banco
e enquanto eu esperava na fila
ele parecia ter um jeito
de olhar pra
mim
e eu encarava
de volta,
não sei o que
era
que causava a
animosidade.
ele tinha um bigodinho
que caía
nas pontas,
tinha uns quarenta e poucos anos
e como a maioria das pessoas que trabalhavam
em bancos
tinha uma personalidade
descompromissada mas
cheia de si.
um dia eu quase
pulei a grade
para lhe perguntar
que diabos
ele estava
olhando?
hoje entrei
e fiquei na fila
e o vi se afastar da
mesa.
uma das caixas estava
tendo problemas
com um homem
em seu
guichê
e o homem
do terno marrom
começou a trocar
ideia com os
dois.
de repente
o homem do terno marrom
saltou a
grade
parou atrás do outro
enlaçou seus braços
nos dele
então o arrastou
até uma passagem
com tranca
adiante na grade
esticou a mão
desenganchou a tranca
conseguindo mesmo assim
manter o homem
imobilizado.
então o arrastou
para dentro
trancou o
portão
e segurando ainda o
homem
disse para uma das
garotas
“Chame a
polícia”.
o homem que ele estava segurando era
negro, tinha uns 20 anos, uns bons 1 e 90,
talvez 85 quilos,
e eu pensei, ei,
cara, se solta, cadeia não é
brincadeira.
mas ele só ficou
ali
sendo
imobilizado.
saí antes que a
polícia
chegasse.
quando fui
de novo ao banco
o homem do terno marrom
estava atrás de sua
mesa.
e quando ele me lançou um
olhar
eu sorri só um
pouquinho.
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