Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Fernando Pessoa
Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido.
Para não pensar em coisa nenhuma,
Para nem me sentir viver,
Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido.
1 300
Fernando Pessoa
Pétala dobrada para trás da rosa que outros dizem de veludo.
Pétala dobrada para trás da rosa que outros dizem de veludo.
Apanho-te do chão e, de perto, contemplo-te de longe.
Não há rosas no meu quintal: que vento te trouxe?
Mas chego de longe de repente. Estive doente um momento.
Nenhum vento te trouxe agora.
Agora estás aqui.
O que foste não és tu, se não toda a rosa estava aqui.
Apanho-te do chão e, de perto, contemplo-te de longe.
Não há rosas no meu quintal: que vento te trouxe?
Mas chego de longe de repente. Estive doente um momento.
Nenhum vento te trouxe agora.
Agora estás aqui.
O que foste não és tu, se não toda a rosa estava aqui.
1 296
Fernando Pessoa
XI - Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
XI
Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.
Que importa o tédio que dentro em mim gela,
E o leve Outono, e as galas, e o marfim,
E a congruência da alma que se vela
Com os sonhados pálios de cetim?
Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se...
E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do voo começado
Pestaneja no campo abandonado...
Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.
Que importa o tédio que dentro em mim gela,
E o leve Outono, e as galas, e o marfim,
E a congruência da alma que se vela
Com os sonhados pálios de cetim?
Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se...
E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do voo começado
Pestaneja no campo abandonado...
1 680
Fernando Pessoa
O quê? Valho mais que uma flor
O quê? Valho mais que uma flor
Porque ela não sabe que tem cor e eu sei,
Porque ela não sabe que tem perfume e eu sei,
Porque ela não tem consciência de mim e eu tenho consciência dela?
Mas o que tem uma coisa com a outra
Para que seja superior ou inferior a ela?
Sim tenho consciência da planta e ela não a tem de mim.
Mas se a forma da consciência é ter consciência, que há nisso?
A planta, se falasse, podia dizer-me: E o teu perfume?
Podia dizer-me: Tu tens consciência porque ter consciência é uma qualidade humana
E só não tenho uma porque sou flor senão seria homem.
Tenho perfume e tu não tens, porque sou flor...
Mas para que me comparo com uma flor, se eu sou eu
E a flor é a flor?
Ah, não comparemos coisa nenhuma, olhemos.
Deixemos análises, metáforas, símiles.
Comparar uma coisa com outra é esquecer essa coisa.
Nenhuma coisa lembra outra se repararmos para ela.
Cada coisa só lembra o que é
E só é o que nada mais é.
Separa-a de todas as outras o facto de que é ela.
(Tudo é nada sem outra coisa que não é).
Porque ela não sabe que tem cor e eu sei,
Porque ela não sabe que tem perfume e eu sei,
Porque ela não tem consciência de mim e eu tenho consciência dela?
Mas o que tem uma coisa com a outra
Para que seja superior ou inferior a ela?
Sim tenho consciência da planta e ela não a tem de mim.
Mas se a forma da consciência é ter consciência, que há nisso?
A planta, se falasse, podia dizer-me: E o teu perfume?
Podia dizer-me: Tu tens consciência porque ter consciência é uma qualidade humana
E só não tenho uma porque sou flor senão seria homem.
Tenho perfume e tu não tens, porque sou flor...
Mas para que me comparo com uma flor, se eu sou eu
E a flor é a flor?
Ah, não comparemos coisa nenhuma, olhemos.
Deixemos análises, metáforas, símiles.
Comparar uma coisa com outra é esquecer essa coisa.
Nenhuma coisa lembra outra se repararmos para ela.
Cada coisa só lembra o que é
E só é o que nada mais é.
Separa-a de todas as outras o facto de que é ela.
(Tudo é nada sem outra coisa que não é).
1 604
Fernando Pessoa
X - Aconteceu-me do alto do infinito
X
Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e através estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...
Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma coisa de alma do que é meu.
Narrei-me a sombra e não me achei sentido
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...
Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e através estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...
Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma coisa de alma do que é meu.
Narrei-me a sombra e não me achei sentido
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...
827
Fernando Pessoa
Sempre que penso uma coisa, traio-a.
Sempre que penso uma coisa, traio-a.
Só tendo-a diante de mim devo pensar nela.
Não pensando, mas vendo,
Não com o pensamento, mas com os olhos.
Uma coisa que é visível existe para se ver,
E o que existe para os olhos não tem que existir para o pensamento;
Só existe verdadeiramente para o pensamento e não para os olhos.
Olho, e as coisas existem.
Penso e existo só eu.
Só tendo-a diante de mim devo pensar nela.
Não pensando, mas vendo,
Não com o pensamento, mas com os olhos.
Uma coisa que é visível existe para se ver,
E o que existe para os olhos não tem que existir para o pensamento;
Só existe verdadeiramente para o pensamento e não para os olhos.
Olho, e as coisas existem.
Penso e existo só eu.
963
Fernando Pessoa
Sim, talvez tenham razão.
Sim, talvez tenham razão.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.
Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.
No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.
E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.
E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.
Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.
No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.
E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.
E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada.
1 616
Fernando Pessoa
VI - Venho de longe e trago no perfil,
VI
Venho de longe e trago no perfil,
Em forma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu actual recorte humano e vil.
Outrora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero último olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil...
Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi...
E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia glória marginal
Os girassóis do império que morri...
Venho de longe e trago no perfil,
Em forma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu actual recorte humano e vil.
Outrora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero último olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil...
Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi...
E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia glória marginal
Os girassóis do império que morri...
1 197
Fernando Pessoa
Enquanto ao longe os bardos perturbarem
Enquanto ao longe os bardos perturbarem
Com a dos seus combates longa lista
A parca e humilde chama
De cada flébil vida,
E nem um palmo mais sequer conquistam
De riqueza ou de calma em suas almas,
Nem são mais do que jogo
Da ira (...) dos deuses,
Quero, livre de humanas (...)
De concordância com o sentir de outros
Mais firmemente minha
Possuir minha vida.
Com a dos seus combates longa lista
A parca e humilde chama
De cada flébil vida,
E nem um palmo mais sequer conquistam
De riqueza ou de calma em suas almas,
Nem são mais do que jogo
Da ira (...) dos deuses,
Quero, livre de humanas (...)
De concordância com o sentir de outros
Mais firmemente minha
Possuir minha vida.
828
Fernando Pessoa
Manhã que raias sem olhar a mim,
Manhã que raias sem olhar a mim,
Sol que luzes sem querer saber de eu ver-te,
É para mim que sois
Reais e verdadeiros;
Porque é na oposição ao que eu desejo
Que sinto real a natureza e a vida.
No que me nega sinto
Que existe e eu sou pequeno.
E nesta consciência torno a grande
Como a onda, que as tormentas atiraram
Ao alto ar, regressa
Pesada a um mar mais fundo.
Sol que luzes sem querer saber de eu ver-te,
É para mim que sois
Reais e verdadeiros;
Porque é na oposição ao que eu desejo
Que sinto real a natureza e a vida.
No que me nega sinto
Que existe e eu sou pequeno.
E nesta consciência torno a grande
Como a onda, que as tormentas atiraram
Ao alto ar, regressa
Pesada a um mar mais fundo.
802
Fernando Pessoa
Não quero a fama, que comigo a têm
Não quero a fama, que comigo a têm
Erostrato e o pretor
Ser olhado de todos — que se eu fosse
Só belo, me olhariam.
O fausto repúdio, porque o compram.
O amor, porque acontece.
Amigo fui, talvez não contente,
Porém nato e sem erro.
Erostrato e o pretor
Ser olhado de todos — que se eu fosse
Só belo, me olhariam.
O fausto repúdio, porque o compram.
O amor, porque acontece.
Amigo fui, talvez não contente,
Porém nato e sem erro.
1 284
Fernando Pessoa
Maior é quem a passo e passo avança
Maior é quem a passo e passo avança
Na sua consciência do Universo
E palmo a palmo ganha
O domínio dos deuses.
Porque quanto mais certas vê as cousas
Mais por seu par os deuses o consentem
Até sentir seu corpo
Roçar corpos eternos.
Deixa, (...) meu, a ambição tua
De entre os homens por duque seres tido:
Deixa luzir p'ra outros
As lanças e as espadas
De pelo gládio à glória e à (...) vires .
E a confiança em (...)
A glória onde te leva
Mais que a onde não há glória?
Na sua consciência do Universo
E palmo a palmo ganha
O domínio dos deuses.
Porque quanto mais certas vê as cousas
Mais por seu par os deuses o consentem
Até sentir seu corpo
Roçar corpos eternos.
Deixa, (...) meu, a ambição tua
De entre os homens por duque seres tido:
Deixa luzir p'ra outros
As lanças e as espadas
De pelo gládio à glória e à (...) vires .
E a confiança em (...)
A glória onde te leva
Mais que a onde não há glória?
990
Fernando Pessoa
Amei-te e por te amar
Amei-te e por te amar
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...
Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.
Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.
Não sei o que eras. Creio
Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora...
Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar...
Nem foste um sonho meu...
Porque te choro eu?
Não sei... Perdi-te, e és hoje
Real no [...] real...
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.
Em que és [...J fictício,
Em que tempo parado
Foste o (...) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto...
[...] tuas mãos, contudo,
Sinto nas minhas mãos,
Nosso olhar fixo e mudo
Quantos momentos vãos
Pra além de nós viveu
Nem nosso, teu ou meu...
Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstracto
Que vai entre alma e alma…
Horas de inquieta calma!
E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei…
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo…
Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que Nós fomos de que voz
O duplo eco risonho
Que unidade tivemos?
O que foi que perdemos?
Nós não sonhámos. Eras
Real e eu era real.
Tuas mãos — tão sinceras…
Meu gesto — tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...
Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...
Amámo-nos deveras?
Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
A mesma que és... E finda
Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.
Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde?
Talvez sintas como eu
E não saibas sentil-o...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobril-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei...
Somos a nossa bruma…
É pra dentro que vemos...
Caem-nos uma a uma
As compreensões que temos
E ficamos no frio
Do Universo vazio...
Que importa? Se o que foi
Entre nós foi amor,
Se por te amar me dói
Já não te amar, e a dor
Tem um íntimo sentido,
Nada será perdido...
E além de nós, no Agora
Que não nos tem por véus
Viveremos a Hora
Virados para Deus
E n'um (...) mudo
Compreenderemos tudo.
Só a ti eu não via...
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia...
Só quando te perdi
É que eu te conheci...
Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho.
Estavas-me longe na alma,
Por isso eu não te via...
Presença em mim tão calma,
Que eu a não sentia.
Só quando meu ser te perdeu
Vi que não eras eu.
Não sei o que eras. Creio
Que o meu modo de olhar,
Meu sentir meu anseio
Meu jeito de pensar...
Eras minha alma, fora
Do Lugar e da Hora...
Hoje eu busco-te e choro
Por te poder achar
Não sequer te memoro
Como te tive a amar...
Nem foste um sonho meu...
Porque te choro eu?
Não sei... Perdi-te, e és hoje
Real no [...] real...
Como a hora que foge,
Foges e tudo é igual
A si-próprio e é tão triste
O que vejo que existe.
Em que és [...J fictício,
Em que tempo parado
Foste o (...) cilício
Que quando em fé fechado
Não sentia e hoje sinto
Que acordo e não me minto...
[...] tuas mãos, contudo,
Sinto nas minhas mãos,
Nosso olhar fixo e mudo
Quantos momentos vãos
Pra além de nós viveu
Nem nosso, teu ou meu...
Quantas vezes sentimos
Alma nosso contacto
Quantas vezes seguimos
Pelo caminho abstracto
Que vai entre alma e alma…
Horas de inquieta calma!
E hoje pergunto em mim
Quem foi que amei, beijei
Com quem perdi o fim
Aos sonhos que sonhei…
Procuro-te e nem vejo
O meu próprio desejo…
Que foi real em nós?
Que houve em nós de sonho?
De que Nós fomos de que voz
O duplo eco risonho
Que unidade tivemos?
O que foi que perdemos?
Nós não sonhámos. Eras
Real e eu era real.
Tuas mãos — tão sinceras…
Meu gesto — tão leal...
Tu e eu lado a lado...
Isto... e isto acabado...
Como houve em nós amor
E deixou de o haver?
Sei que hoje é vaga dor
O que era então prazer...
Mas não sei que passou
Por nós e acordou...
Amámo-nos deveras?
Amamo-nos ainda?
Se penso vejo que eras
A mesma que és... E finda
Tudo o que foi o amor;
Assim quase sem dor.
Sem dor... Um pasmo vago
De ter havido amar...
Quase que me embriago
De mal poder pensar...
O que mudou e onde?
O que é que em nós se esconde?
Talvez sintas como eu
E não saibas sentil-o...
Ser é ser nosso véu
Amar é encobril-o,
Hoje que te deixei
É que sei que te amei...
Somos a nossa bruma…
É pra dentro que vemos...
Caem-nos uma a uma
As compreensões que temos
E ficamos no frio
Do Universo vazio...
Que importa? Se o que foi
Entre nós foi amor,
Se por te amar me dói
Já não te amar, e a dor
Tem um íntimo sentido,
Nada será perdido...
E além de nós, no Agora
Que não nos tem por véus
Viveremos a Hora
Virados para Deus
E n'um (...) mudo
Compreenderemos tudo.
1 722
Fernando Pessoa
Que linda é quem não és!
Que linda é quem não és!
Teu anonimato vivo
Dorme, da cabeça aos pés,
Teu corpo, de ti cativo.
Teu corpo é teu prisioneiro.
Vive na cela de ti,
Íntegro, móbil, inteiro,
Ébrio de ti e de si.
És uma frase perfeita
De um livro escrito na vida.
E as vozes com que és eleita
Deixam-te falsa e esquecida.
Entre ti e o que és de bela
Grandes paisagens estão.
(…)
Não existes como estás.
Existe-te uma intenção
Que teu lindo corpo traz
À tona da sensação.
És uma alma em cuja vida
Puseram teu corpo a ser.
Essa beleza vivida
És tu, sem te pertencer.
Qualquer espírito alto
Serviu-se de haveres tu
Para esculpir no basalto
Do abismo teu corpo nu.
E assim olhas-me distante,
Mas não te olho. Vejo em ti
Não a alma flutuante
Que usas, mas teu corpo em si.
Bem podes usar em gozo
Do corpo que deram teu.
Fica sempre misterioso,
Filho da terra e do céu.
Não te pertence. Passou
Na terra como o que tem
Mais que tua alma sonhou.
Não vives, e ele é alguém.
Teu anonimato vivo
Dorme, da cabeça aos pés,
Teu corpo, de ti cativo.
Teu corpo é teu prisioneiro.
Vive na cela de ti,
Íntegro, móbil, inteiro,
Ébrio de ti e de si.
És uma frase perfeita
De um livro escrito na vida.
E as vozes com que és eleita
Deixam-te falsa e esquecida.
Entre ti e o que és de bela
Grandes paisagens estão.
(…)
Não existes como estás.
Existe-te uma intenção
Que teu lindo corpo traz
À tona da sensação.
És uma alma em cuja vida
Puseram teu corpo a ser.
Essa beleza vivida
És tu, sem te pertencer.
Qualquer espírito alto
Serviu-se de haveres tu
Para esculpir no basalto
Do abismo teu corpo nu.
E assim olhas-me distante,
Mas não te olho. Vejo em ti
Não a alma flutuante
Que usas, mas teu corpo em si.
Bem podes usar em gozo
Do corpo que deram teu.
Fica sempre misterioso,
Filho da terra e do céu.
Não te pertence. Passou
Na terra como o que tem
Mais que tua alma sonhou.
Não vives, e ele é alguém.
1 385
Fernando Pessoa
Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas.
Cumpre a lei, seja vil ou vil tu sejas.
Pouco pode o homem contra a externa vida.
Deixa haver a injustiça.
Nada muda, que mudes.
Não tens mais reino que a doada mente.
Essa, em que és servo, grato o Fado e os Deuses,
Governa, até à fronteira,
Onde a vontade finge.
Aí vencido, tu por vencedores
Os grandes deuses e o Destino ostentas.
Não há a dupla derrota
De derrota e vileza.
Assim penso, e esta súbita justiça
Com que queremos moderar as cousas,
Expilo, como a um servo
Intromissor da mente.
Se nem de mim posso ser dono, como
Quero ser dono ou lei do que acontece
Onde me a mente e corpo
Não são mais do que parte?
Basta-me que me baste, e o resto gire
Na órbita prevista, em que até os deuses
Giram, sois centros servos
De um movimento externo.
Pouco pode o homem contra a externa vida.
Deixa haver a injustiça.
Nada muda, que mudes.
Não tens mais reino que a doada mente.
Essa, em que és servo, grato o Fado e os Deuses,
Governa, até à fronteira,
Onde a vontade finge.
Aí vencido, tu por vencedores
Os grandes deuses e o Destino ostentas.
Não há a dupla derrota
De derrota e vileza.
Assim penso, e esta súbita justiça
Com que queremos moderar as cousas,
Expilo, como a um servo
Intromissor da mente.
Se nem de mim posso ser dono, como
Quero ser dono ou lei do que acontece
Onde me a mente e corpo
Não são mais do que parte?
Basta-me que me baste, e o resto gire
Na órbita prevista, em que até os deuses
Giram, sois centros servos
De um movimento externo.
1 130
Fernando Pessoa
IV - Conclusão a sucata!... Fiz o cálculo,
IV
Conclusão a sucata!... Fiz o cálculo,
Saiu-me certo, fui elogiado...
Meu coração é um enorme estrado
Onde se expõe um pequeno animálculo...
A microscópio de desilusões
Findei, prolixo nas minúcias fúteis...
Minhas conclusões práticas, inúteis...
Minhas conclusões teóricas, confusões...
Que teorias há para quem sente
O cérebro quebrar-se, como um dente
Dum pente de mendigo que emigrou?
Fecho o caderno dos apontamentos
E faço riscos moles e cinzentos
Nas costas do envelope do que sou...
Conclusão a sucata!... Fiz o cálculo,
Saiu-me certo, fui elogiado...
Meu coração é um enorme estrado
Onde se expõe um pequeno animálculo...
A microscópio de desilusões
Findei, prolixo nas minúcias fúteis...
Minhas conclusões práticas, inúteis...
Minhas conclusões teóricas, confusões...
Que teorias há para quem sente
O cérebro quebrar-se, como um dente
Dum pente de mendigo que emigrou?
Fecho o caderno dos apontamentos
E faço riscos moles e cinzentos
Nas costas do envelope do que sou...
1 389
Fernando Pessoa
I cannot well deceive me that there was
I cannot well deceive me that there was
In my love nobleness, even though ill.
Now that the tunnel through which I did pass
Yields to the glaring day, I can instil
Into my thought a wonder how I could
Suppose that way to be a place of staying;
Thus being a fool in the way all men should,
Yet not the complete fool to take no naying (!!!)
In my love nobleness, even though ill.
Now that the tunnel through which I did pass
Yields to the glaring day, I can instil
Into my thought a wonder how I could
Suppose that way to be a place of staying;
Thus being a fool in the way all men should,
Yet not the complete fool to take no naying (!!!)
1 378
Fernando Pessoa
Dizem que não és aquela
Dizem que não és aquela
Que te julgavam aqui.
Mas se és alguém e és bela
Que mais quererão de ti?
Que te julgavam aqui.
Mas se és alguém e és bela
Que mais quererão de ti?
744
Fernando Pessoa
Quantos gozam o gozo de gozar
Quantos gozam o gozo de gozar
Sem que gozem o gozo, e o dividem
Entre eles e o verem
Os outros que eles gozam.
Ah, Lídia, os trajos do gozar omite,
Que o gozo é um, se é nosso, nem o damos
Aos outros como prémio
De verem nosso gozo.
Cada um é ele só, e se com outros
Goza, dos outros goza, e não para eles.
Aprende o que te ensina
Teu corpo, teu limite.
Sem que gozem o gozo, e o dividem
Entre eles e o verem
Os outros que eles gozam.
Ah, Lídia, os trajos do gozar omite,
Que o gozo é um, se é nosso, nem o damos
Aos outros como prémio
De verem nosso gozo.
Cada um é ele só, e se com outros
Goza, dos outros goza, e não para eles.
Aprende o que te ensina
Teu corpo, teu limite.
2 442
Fernando Pessoa
Toda a visão da crença se acompanha,
Toda visão da crença se acompanha,
Toda crença da acção; e a acção se perde,
Água em água entre tudo.
Conhece-te, se podes. Se não podes
Conhece que não podes. Saber sabe.
Sê teu. Não dês nem operes.
Toda crença da acção; e a acção se perde,
Água em água entre tudo.
Conhece-te, se podes. Se não podes
Conhece que não podes. Saber sabe.
Sê teu. Não dês nem operes.
1 314
Fernando Pessoa
Fica o coração pesado
Fica o coração pesado
Com o choro que chorei.
É um ficar engraçado
O ficar com o que dei...
Com o choro que chorei.
É um ficar engraçado
O ficar com o que dei...
1 528
Fernando Pessoa
Baila o trigo quando há vento
Baila o trigo quando há vento
Baila porque o vento o toca
Também baila o pensamento
Quando o coração provoca.
Baila porque o vento o toca
Também baila o pensamento
Quando o coração provoca.
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Fernando Pessoa
FLASHES OF MADNESS — IV
IV.
1.
When thou didst speak but now I felt
A terror mad and strange.
Conceive it thou. I could have knelt
To thy lips, to their curve, to its change.
The talking curve of thy lips
And thy teeth but slightly shown
Were my delirium's waking whips.
I felt my reason overthrown.
A super-sensual fetichism
Haunts my deep-raving brain.
Greater than ever grows the abysm
Of my reason's and feeling's schism,
Cut with the pickaxe of pain.
More than they show all things contain.
2.
Something not of this world doth lie
In thy smile, in thy lips live turn;
A figure, a form I know not why
That wakes in me — without a sigh
But with terror I cannot spurn
With terror wild and mute —
Is it remembrances, is it
Desires so vague half-known they flit
And not in thought nor sentiment take root?
My mind grows madder and more fit
In everything to catch and find
Meanings, resemblances defined
By not a form that thought can hit.
Smile not. Thou canst not comprehend!
What is this? What truth doth sleep
In these ravings without end
And beyond notion deep?
Laugh not. Know'st thou what madness is?
Wonder not. All is mysteries.
Ask not. For who can reply?
Weep for me, child, but do not love me
Who have in me too much that is above me,
Too much I cannot call «I».
Weep for the ruin of my mind
Weep rather, child, that things so deep should move me
To lose the clear thoughts that could prove me
One worthy of mankind.
1.
When thou didst speak but now I felt
A terror mad and strange.
Conceive it thou. I could have knelt
To thy lips, to their curve, to its change.
The talking curve of thy lips
And thy teeth but slightly shown
Were my delirium's waking whips.
I felt my reason overthrown.
A super-sensual fetichism
Haunts my deep-raving brain.
Greater than ever grows the abysm
Of my reason's and feeling's schism,
Cut with the pickaxe of pain.
More than they show all things contain.
2.
Something not of this world doth lie
In thy smile, in thy lips live turn;
A figure, a form I know not why
That wakes in me — without a sigh
But with terror I cannot spurn
With terror wild and mute —
Is it remembrances, is it
Desires so vague half-known they flit
And not in thought nor sentiment take root?
My mind grows madder and more fit
In everything to catch and find
Meanings, resemblances defined
By not a form that thought can hit.
Smile not. Thou canst not comprehend!
What is this? What truth doth sleep
In these ravings without end
And beyond notion deep?
Laugh not. Know'st thou what madness is?
Wonder not. All is mysteries.
Ask not. For who can reply?
Weep for me, child, but do not love me
Who have in me too much that is above me,
Too much I cannot call «I».
Weep for the ruin of my mind
Weep rather, child, that things so deep should move me
To lose the clear thoughts that could prove me
One worthy of mankind.
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Fernando Pessoa
III - Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
III
Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.
Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.
Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
De ser; mas como, aqui, a porta aberta?
......
Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Roseacruz conhece e cala.
Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.
Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.
Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
De ser; mas como, aqui, a porta aberta?
......
Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Roseacruz conhece e cala.
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