Poemas neste tema
Consciência e autoconhecimento
Fernando Pessoa
O bêbado caía de bêbado
O bêbado caía de bêbado
E eu, que passava,
Não o ajudei, pois caía de bêbado,
E eu só passava.
O bêbado caiu de bêbado
No meio da rua.
E eu não me voltei, mas ouvi. Eu bêbado
E a sua queda na rua.
O bêbado caiu de bêbado
Na rua da vida.
Meu Deus! Eu também caí de bêbado
Deus (...)
E eu, que passava,
Não o ajudei, pois caía de bêbado,
E eu só passava.
O bêbado caiu de bêbado
No meio da rua.
E eu não me voltei, mas ouvi. Eu bêbado
E a sua queda na rua.
O bêbado caiu de bêbado
Na rua da vida.
Meu Deus! Eu também caí de bêbado
Deus (...)
1 888
Fernando Pessoa
PASSAGEM DAS HORAS OU WALT WHITMAN
PASSAGEM DAS HORAS OU WALT WHITMAN
Eu, o ritmista febril
Para quem o parágrafo de versos é uma pessoa inteira,
Para quem, por baixo da metáfora aparente,
Como em estrofe, anti-estrofe, epodo o poema que escrevo,
Que por detrás do delírio construo
Que por detrás de sentir penso
Que amo, expludo, rujo, com ordem e oculta medida,
Eu ante ti quereria ter menos de engenheiro na alma,
Menos de grego das máquinas, de Bacante de Apolo
Nos meus momentos de alma multiplicados em verso.
Mas o ar do mar alto
Chega, por um influxo de dentro do meu sangue
Ao meu cérebro desterrado em terra,
E a fúria com que medito, a raiva com que me domino
Abre-se como uma vela, tomada de vento, aos ares
Ampla servidão ao rasgo de assombro dos (...)
Eu, o ritmista febril
Para quem o parágrafo de versos é uma pessoa inteira,
Para quem, por baixo da metáfora aparente,
Como em estrofe, anti-estrofe, epodo o poema que escrevo,
Que por detrás do delírio construo
Que por detrás de sentir penso
Que amo, expludo, rujo, com ordem e oculta medida,
Eu ante ti quereria ter menos de engenheiro na alma,
Menos de grego das máquinas, de Bacante de Apolo
Nos meus momentos de alma multiplicados em verso.
Mas o ar do mar alto
Chega, por um influxo de dentro do meu sangue
Ao meu cérebro desterrado em terra,
E a fúria com que medito, a raiva com que me domino
Abre-se como uma vela, tomada de vento, aos ares
Ampla servidão ao rasgo de assombro dos (...)
1 336
Fernando Pessoa
The sky is a great turquoise shining glee
The sky is a great turquoise shining glee,
All the earth is gathered up in the blue sea
Ev'n the green fields tend thereto in their joy,
The whole day playeth like a happy boy
Among the dales the hours build with their glee.
How happy, had I no cares, would I be!
But there is too much sorrow in mere seeing
The feminine disease of consciousness
Eats like a worm into the source of being.
The very thought I live gives me distress.
My heart is felt by me like some heavy place.
All the earth is gathered up in the blue sea
Ev'n the green fields tend thereto in their joy,
The whole day playeth like a happy boy
Among the dales the hours build with their glee.
How happy, had I no cares, would I be!
But there is too much sorrow in mere seeing
The feminine disease of consciousness
Eats like a worm into the source of being.
The very thought I live gives me distress.
My heart is felt by me like some heavy place.
1 210
Fernando Pessoa
Todas as horas faço gaffes de civilidade e etiqueta,
Todas as horas faço gaffes de civilidade e etiqueta
(A vida social é complexa para a minha fraqueza de nervos)
Mas nunca existiu quem só tivesse vivido em alma
Numa eterna luta de Janus.
Arre, a humanidade é uma coisa muito complexa...
Tenho-a observado com os olhos e os
nervos, e ainda não percebi.
(Compreender é um navio ao longe)
Toda a gente que tenho conhecido
Estou farto de semi-deuses!
Onde é que há gente no mundo?
Não tenho um amigo, um conhecido, em quem batessem
Ninguém que eu conheça perdeu o amor de uma mulher.
Tenho feito muitas coisas más, muitas coisas reles, muitas infâmias.
Tenho sido cobarde, revoltante, sujo.
Não encontro ninguém assim.
Todos têm sido príncipes, os que têm andado comigo
(A vida social é complexa para a minha fraqueza de nervos)
Mas nunca existiu quem só tivesse vivido em alma
Numa eterna luta de Janus.
Arre, a humanidade é uma coisa muito complexa...
Tenho-a observado com os olhos e os
nervos, e ainda não percebi.
(Compreender é um navio ao longe)
Toda a gente que tenho conhecido
Estou farto de semi-deuses!
Onde é que há gente no mundo?
Não tenho um amigo, um conhecido, em quem batessem
Ninguém que eu conheça perdeu o amor de uma mulher.
Tenho feito muitas coisas más, muitas coisas reles, muitas infâmias.
Tenho sido cobarde, revoltante, sujo.
Não encontro ninguém assim.
Todos têm sido príncipes, os que têm andado comigo
1 271
Fernando Pessoa
Meu coração, mistério batido pelas lonas dos ventos...
Meu coração, mistério batido pelas lonas dos ventos...
Bandeira a estralejar desfraldadamente ao alto,
Árvore misturada, curvada, sacudida pelo vendaval,
Agitada como uma espuma verde pegada a si mesma,
(...)
Para sempre condenada à raiz de não se poder exprimir!
Queria gritar alto com uma voz que dissesse!
Queria levar ao menos a um outro coração a consciência do meu!
Queria ser lá fora...
Mas o que Sou? O trapo que foi bandeira,
As folhas varridas para o canto que foram ramos,
As palavras socialmente desentendidas, até por quem as aprecia,
Eu que quis fora a minha alma inteira,
E ficou só a chapéu do mendigo debaixo do automóvel,
Estragado estragado,
E o riso dos rápidos Soou para trás na estrada dos felizes...
Bandeira a estralejar desfraldadamente ao alto,
Árvore misturada, curvada, sacudida pelo vendaval,
Agitada como uma espuma verde pegada a si mesma,
(...)
Para sempre condenada à raiz de não se poder exprimir!
Queria gritar alto com uma voz que dissesse!
Queria levar ao menos a um outro coração a consciência do meu!
Queria ser lá fora...
Mas o que Sou? O trapo que foi bandeira,
As folhas varridas para o canto que foram ramos,
As palavras socialmente desentendidas, até por quem as aprecia,
Eu que quis fora a minha alma inteira,
E ficou só a chapéu do mendigo debaixo do automóvel,
Estragado estragado,
E o riso dos rápidos Soou para trás na estrada dos felizes...
1 196
Fernando Pessoa
Occasion cannot make me weak or strong
Occasion cannot make me weak or strong
For mine own soul the true occasion is,
Nor shall I measure fact more short or long
Except the soul's rod space exceed or miss.
Like a revolving many‑coloured sphere
My soul turns to the event one casual side,
And shows to it what was already there;
Its hue with the turned hue the effect decide.
So, various by position, not by shape,
Outward in truth but by its motion’s seeing,
The produced act cannot foreseeing escape
Save it take colour of act for shape of being.
I am the same; change cannot change me for
More than mine own illusion of what is more.
For mine own soul the true occasion is,
Nor shall I measure fact more short or long
Except the soul's rod space exceed or miss.
Like a revolving many‑coloured sphere
My soul turns to the event one casual side,
And shows to it what was already there;
Its hue with the turned hue the effect decide.
So, various by position, not by shape,
Outward in truth but by its motion’s seeing,
The produced act cannot foreseeing escape
Save it take colour of act for shape of being.
I am the same; change cannot change me for
More than mine own illusion of what is more.
850
Fernando Pessoa
O abismo é o muro que tenho
O abismo é o muro que tenho
Ser eu não tem um tamanho.
Ser eu não tem um tamanho.
1 825
Fernando Pessoa
CORPOS
O meu corpo é o abismo entre eu e eu.
Se tudo é um sonho sob o sonho aberto
Do céu irreal, sonhar-te é possuir-te,
E possuir-te é sonhar-te de mais perto
As almas sempre separadas,
Os corpos são o sonho de uma ponte
Sobre um abismo que nem margens tem
Eu porque me conheço, me separo
De mim, e penso, e o pensamento é avaro
A hora passa. Mas meu sonho é meu.
Se tudo é um sonho sob o sonho aberto
Do céu irreal, sonhar-te é possuir-te,
E possuir-te é sonhar-te de mais perto
As almas sempre separadas,
Os corpos são o sonho de uma ponte
Sobre um abismo que nem margens tem
Eu porque me conheço, me separo
De mim, e penso, e o pensamento é avaro
A hora passa. Mas meu sonho é meu.
2 236
Fernando Pessoa
Há entre mim e a humanidade um golfo,
Há entre mim e a humanidade um golfo,
E esse golfo está dentro do meu ser.
Quer solitário, quer com outros, eu
Estou sempre só, nem a mim mesmo faço
A companhia de sentir. Navego,
Desabitada nau no mar da vida,
Mais só que a solidão. Sou um estranho
Ao que em mim pensa. Sou de qualquer modo
Dois, para que, quando passageira
Alegria do esforço de pensar (
A única alegria que me resta (
Me (...), eu tenha a consciência dela
Como vazia, como o prazer todo.
E esse golfo está dentro do meu ser.
Quer solitário, quer com outros, eu
Estou sempre só, nem a mim mesmo faço
A companhia de sentir. Navego,
Desabitada nau no mar da vida,
Mais só que a solidão. Sou um estranho
Ao que em mim pensa. Sou de qualquer modo
Dois, para que, quando passageira
Alegria do esforço de pensar (
A única alegria que me resta (
Me (...), eu tenha a consciência dela
Como vazia, como o prazer todo.
1 319
Fernando Pessoa
Ânsia infinda
Ânsia infinda
De reaver o direito à sensação,
Que é humano em mim e que esquecido tinha;
Ânsia de vã paixão que muito parte
Do (...) desesperado sofrimento;
Ânsia de sentir e (...)
E antes de ser amado que de amar.
Mas ah, não sei se já — estranho ser (
Volver eu posso à vida, pois me sinto
Estranho ao mundo, à vida e aos olhares,
Um Incapaz de ser irmão. Dum salto
Queria reaver meu natural
Como homem. E depois? Depois não sei.
Ah, nem no sonho, forte pensamento,
Me deixas, seco e argumentador.
É necessário pois não pensar mais.
Mas não; não pode ser, a abdicação.
Mas o quê — abdicar do pensamento
Em proveito da mera sensação?
De reaver o direito à sensação,
Que é humano em mim e que esquecido tinha;
Ânsia de vã paixão que muito parte
Do (...) desesperado sofrimento;
Ânsia de sentir e (...)
E antes de ser amado que de amar.
Mas ah, não sei se já — estranho ser (
Volver eu posso à vida, pois me sinto
Estranho ao mundo, à vida e aos olhares,
Um Incapaz de ser irmão. Dum salto
Queria reaver meu natural
Como homem. E depois? Depois não sei.
Ah, nem no sonho, forte pensamento,
Me deixas, seco e argumentador.
É necessário pois não pensar mais.
Mas não; não pode ser, a abdicação.
Mas o quê — abdicar do pensamento
Em proveito da mera sensação?
1 616
Fernando Pessoa
I - Todas as coisas são impressionantes.
I
Todas as coisas são impressionantes.
Enquanto houver no mundo sangue e rosas
Há-de haver sempre certos bons instantes
Em que se passam coisas sem ser coisas.
Meu coração, um solavanco, ou antes
Em intervalo consciente. Lousas
Cobrem os que como eu tinham rompantes
Em que iam à conquista das teimosas.
Mas o foguete é um símbolo que sobe
Para cair, depois de ruídos no alto
Mera cana caduca, e até sobre
Quem o deitou... E o que um garoto leva
Da rua — a cana ardida — é quanto falto...
Que absurdo pirotécnico me eleva?
Todas as coisas são impressionantes.
Enquanto houver no mundo sangue e rosas
Há-de haver sempre certos bons instantes
Em que se passam coisas sem ser coisas.
Meu coração, um solavanco, ou antes
Em intervalo consciente. Lousas
Cobrem os que como eu tinham rompantes
Em que iam à conquista das teimosas.
Mas o foguete é um símbolo que sobe
Para cair, depois de ruídos no alto
Mera cana caduca, e até sobre
Quem o deitou... E o que um garoto leva
Da rua — a cana ardida — é quanto falto...
Que absurdo pirotécnico me eleva?
1 277
Fernando Pessoa
BLIND EAGLE
What is thy name? and is it true that thou
A land unknown of men inhabitest?
What pain obscure is figured on thy brow?
What cares upon thy heart contrive their nest?
Of human things the purest and the best
No constant beauty doth thy soul allow;
And through the world thou bear'st thy deep unrest
Lock'd in a smile thine eyes do disavow.
Being of wild and weird imaginings,
Whose thoughts are greater than mere things can bind,
What is the thing thou seekest within things?
What is that thought thy thinking cannot find?
For what high air has thy strong spirit wings?
To what high vision aches it to be blind?
A land unknown of men inhabitest?
What pain obscure is figured on thy brow?
What cares upon thy heart contrive their nest?
Of human things the purest and the best
No constant beauty doth thy soul allow;
And through the world thou bear'st thy deep unrest
Lock'd in a smile thine eyes do disavow.
Being of wild and weird imaginings,
Whose thoughts are greater than mere things can bind,
What is the thing thou seekest within things?
What is that thought thy thinking cannot find?
For what high air has thy strong spirit wings?
To what high vision aches it to be blind?
1 660
Fernando Pessoa
DIAGNÓSTICO
DIAGNÓSTICO
Pouca verdade! Pouca verdade!
Tenho razão enquanto não penso.
Pouca verdade...
Devagar...
Pode alguém chegar à vidraça...
Nada de emoções!...
Cautela!
Sim, se mo dessem aceitaria...
Não precisas insistir, aceitaria...
Para quê?
Que pergunta! Aceitaria...
Pouca verdade! Pouca verdade!
Tenho razão enquanto não penso.
Pouca verdade...
Devagar...
Pode alguém chegar à vidraça...
Nada de emoções!...
Cautela!
Sim, se mo dessem aceitaria...
Não precisas insistir, aceitaria...
Para quê?
Que pergunta! Aceitaria...
1 541
Fernando Pessoa
PARAGEM. ZONA
PARAGEM. ZONA
Tragam-me esquecimento em travessas!
Quero comer o abandono da vida!
Quero perder o hábito de gritar para dentro.
Arre, já basta! Não sei o quê. mas já basta...
Então viver amanhã, hein?... E o que se faz de hoje?
Viver amanhã por ter adiado hoje?
Comprei por acaso um bilhete para esse espectáculo?
Que gargalhadas daria quem pudesse rir!
E agora aparece o eléctrico — o de que eu estou à espera —
Antes fosse outro... Ter de subir já!
Ninguém me obriga, mas deixai-o passar, porquê?
Só deixando passar todos, e a mim mesmo, e à vida...
Que náusea no estômago real que é a alma consciente!
Que sono bom o ser outra pessoa qualquer...
Já compreendo porque é que as crianças querem ser guarda-freios...
Não, não compreendo nada...
Tarde de azul e ouro, alegria das gentes, olhos claros da vida...
Tragam-me esquecimento em travessas!
Quero comer o abandono da vida!
Quero perder o hábito de gritar para dentro.
Arre, já basta! Não sei o quê. mas já basta...
Então viver amanhã, hein?... E o que se faz de hoje?
Viver amanhã por ter adiado hoje?
Comprei por acaso um bilhete para esse espectáculo?
Que gargalhadas daria quem pudesse rir!
E agora aparece o eléctrico — o de que eu estou à espera —
Antes fosse outro... Ter de subir já!
Ninguém me obriga, mas deixai-o passar, porquê?
Só deixando passar todos, e a mim mesmo, e à vida...
Que náusea no estômago real que é a alma consciente!
Que sono bom o ser outra pessoa qualquer...
Já compreendo porque é que as crianças querem ser guarda-freios...
Não, não compreendo nada...
Tarde de azul e ouro, alegria das gentes, olhos claros da vida...
2 363
Fernando Pessoa
Quando penso
Quando penso
Em glória, fama, (...)
(...) tudo acabando em morte
Eu sinto um frio n'alma, um confranger,
Obscurecer de todo o pensamento,
Dissolver da clareza da consciência
Nos seus (...) elementos escuros.
Tudo formas
Do gélido sentimento de existir
Que é o frio habitual do meu sentir;
Sentir a vida como um arrepio,
Como um horror, como uma morte consciente.
O frio do mistério enche tudo
Porque o mistério é tudo e é tudo a vida.
Em glória, fama, (...)
(...) tudo acabando em morte
Eu sinto um frio n'alma, um confranger,
Obscurecer de todo o pensamento,
Dissolver da clareza da consciência
Nos seus (...) elementos escuros.
Tudo formas
Do gélido sentimento de existir
Que é o frio habitual do meu sentir;
Sentir a vida como um arrepio,
Como um horror, como uma morte consciente.
O frio do mistério enche tudo
Porque o mistério é tudo e é tudo a vida.
1 493
Fernando Pessoa
Estou cheio de tédio, de nada. Em cima da cama
Estou cheio de tédio, de nada. Em cima da cama
Leio, com uma minuciosidade atómica,
Lentamente, com uma atenção sem chama,
A Nova Enciclopédia Maçónica.
Penso no que fui (não me escapam as entrelinhas),
E o que a minha alma quis e a minha vida fez.
Coube-me, como a uma senhora um carrinho de linhas,
No meio do Grau 32 do Rito Escocês.
O que quis do passado por brisas se esfolha,
O que pude de oculto teve a tempo medo;
E olho a sorrir o título no alto da folha:
Sublime Príncipe do Real Segredo...
Leio, com uma minuciosidade atómica,
Lentamente, com uma atenção sem chama,
A Nova Enciclopédia Maçónica.
Penso no que fui (não me escapam as entrelinhas),
E o que a minha alma quis e a minha vida fez.
Coube-me, como a uma senhora um carrinho de linhas,
No meio do Grau 32 do Rito Escocês.
O que quis do passado por brisas se esfolha,
O que pude de oculto teve a tempo medo;
E olho a sorrir o título no alto da folha:
Sublime Príncipe do Real Segredo...
1 335
Fernando Pessoa
Há entre mim e o real um véu
Há entre mim e o real um véu
À própria concepção impenetrável.
Não me concebo amando, combatendo,
Vivendo como os outros. Há em mim,
Uma impossibilidade de existir
De que [abdiquei], vivendo.
À própria concepção impenetrável.
Não me concebo amando, combatendo,
Vivendo como os outros. Há em mim,
Uma impossibilidade de existir
De que [abdiquei], vivendo.
2 365
Fernando Pessoa
Horror! Não sei ser inconsciente
Horror! Não sei ser inconsciente
E tenho para tudo, do que é bom
À inconsciência, o pensamento aberto,
Tornando-o impossível.
O amor causa-me horror é abandono,
Intimidade, mostrar (...) do ser
E eu tenho do alto orgulho a timidez
E sinto horror a abrir o ser a alguém,
A confiar n'alguém. Horror eu sinto
A que prescrute alguém, ou levemente
Ou não, quaisquer recantos do meu ser.
Abandonar-me em braços nus e belos
(Inda que deles o amor viesse)
No conceber de tudo me horroriza;
Seria violar meu ser profundo,
Aproximar-me muito doutros homens;
Uma nudez qualquer — espírito ou corpo (
Confrange-me: acostumei-me cedo
Aos despimentos do meu ser,
A fixar olhos púdicos, conscientes
Demais. Pensar em dizer «amo-te»
E «amo-te» só — só isto me angustia...
Pensar que ao rir (e mesmo que o não seja)
Exponho uma íntima parte de mim,
Para poder amar eu precisava
Esquecer que sou Fausto o pensador.
Eu queria era dormir, dormi, dormir,
Longo dormir, meio sentindo em sono,
E dormir sempre, sem consciência ter
Do tempo, só do sono sonolento
E da vacuidade do meu ser;
Dormir sem vir a morte, nem sonhar
Mas dormir só dormir, sempre dormir.
Que hoje já de dormir desaprendi.
Cansado de pensar, a pensar fico,
E as noites longas, longas, longas, longas,
E o pálido raiar de inda doutro dia...
Inda outro dia que trará ainda
Uma outra noite e essa mais dias, mais...
Insone sentir isto, e o deslizar
Suave e horroroso do tempo.
Cai então sobre mim todo o horror claro
E nítido e visível do mistério,
E eu tal fico em abalo e em comoção
Que durmo — sim que durmo de pesar-me
Tudo de mais p'ra mais poder sentir.
Então durmo... e antes eu não dormisse
Porque desordenadas incoerências
Mas não visões, só abstracções terríveis
(...)
E tenho para tudo, do que é bom
À inconsciência, o pensamento aberto,
Tornando-o impossível.
O amor causa-me horror é abandono,
Intimidade, mostrar (...) do ser
E eu tenho do alto orgulho a timidez
E sinto horror a abrir o ser a alguém,
A confiar n'alguém. Horror eu sinto
A que prescrute alguém, ou levemente
Ou não, quaisquer recantos do meu ser.
Abandonar-me em braços nus e belos
(Inda que deles o amor viesse)
No conceber de tudo me horroriza;
Seria violar meu ser profundo,
Aproximar-me muito doutros homens;
Uma nudez qualquer — espírito ou corpo (
Confrange-me: acostumei-me cedo
Aos despimentos do meu ser,
A fixar olhos púdicos, conscientes
Demais. Pensar em dizer «amo-te»
E «amo-te» só — só isto me angustia...
Pensar que ao rir (e mesmo que o não seja)
Exponho uma íntima parte de mim,
Para poder amar eu precisava
Esquecer que sou Fausto o pensador.
Eu queria era dormir, dormi, dormir,
Longo dormir, meio sentindo em sono,
E dormir sempre, sem consciência ter
Do tempo, só do sono sonolento
E da vacuidade do meu ser;
Dormir sem vir a morte, nem sonhar
Mas dormir só dormir, sempre dormir.
Que hoje já de dormir desaprendi.
Cansado de pensar, a pensar fico,
E as noites longas, longas, longas, longas,
E o pálido raiar de inda doutro dia...
Inda outro dia que trará ainda
Uma outra noite e essa mais dias, mais...
Insone sentir isto, e o deslizar
Suave e horroroso do tempo.
Cai então sobre mim todo o horror claro
E nítido e visível do mistério,
E eu tal fico em abalo e em comoção
Que durmo — sim que durmo de pesar-me
Tudo de mais p'ra mais poder sentir.
Então durmo... e antes eu não dormisse
Porque desordenadas incoerências
Mas não visões, só abstracções terríveis
(...)
1 430
Fernando Pessoa
Tudo transcende tudo
Tudo transcende tudo
E é mais real e menor do que é.
Sinto-me perturbado
E a consciência da perturbação
Mais me perturba.
Não sei que desejar
Nem que desejável ser em mim.
Todo o modo de ser além da morte
Me apavora e confrange.
E é mais real e menor do que é.
Sinto-me perturbado
E a consciência da perturbação
Mais me perturba.
Não sei que desejar
Nem que desejável ser em mim.
Todo o modo de ser além da morte
Me apavora e confrange.
1 538
Fernando Pessoa
SOUL-SYMBOLS
My soul ‑ what is my soul? But symbols mute
Its horror and confusion can give out:
A desert out of space where absolute
Reigns expectation full of horrid doubt.
It gives the sense that giveth, strange and dark,
Some unknown river weird, hauntingly lone,
In some old picture storiless, sole work
Of some great painter horribly unknown.
It is an island out of human track,
Mysterious, old within the sea and full
Of caves and grottoes unexplored and black,
Pregnant with many horrors possible.
It is an olden inn with corridors
Woven in a labyrinth and scarce of light,
Where through the night the sound of shutting doors,
Vague in its cause and place, fills us with fright.
It is a mountain region wild and free,
Precipiced, hid and silent, never seen,
Where we dare not think of what might have been
Nor wish idea of what things may be.
If ever mystery, romance and fear
Have shown their heart on canvas and on scroll,
It must assuredly to men appear
As to mine inner sense appears my soul.
It is a vision-desert full of rocks
Where all than reason is both more and less,
'Tis a lone coast where the sea's endless shocks
Fill with an empty sound its lifelessness.
Something of lost, forgotten, vague and dead,
Yet waking, as a slumberer mystical
Seems to perceive, for who looks knows with dread
That something he doth see to make appal.
All this my soul is in its weak despair,
Full of sense unto pain, of thought to tears,
Having for meed of reason a mute care,
For company to feeling - woes and fears.
So to my glance, as if with opium wide,
My very self is grown a mystery;
In inexstatic fear Life doth abide
And madness like my breath is within me.
Its horror and confusion can give out:
A desert out of space where absolute
Reigns expectation full of horrid doubt.
It gives the sense that giveth, strange and dark,
Some unknown river weird, hauntingly lone,
In some old picture storiless, sole work
Of some great painter horribly unknown.
It is an island out of human track,
Mysterious, old within the sea and full
Of caves and grottoes unexplored and black,
Pregnant with many horrors possible.
It is an olden inn with corridors
Woven in a labyrinth and scarce of light,
Where through the night the sound of shutting doors,
Vague in its cause and place, fills us with fright.
It is a mountain region wild and free,
Precipiced, hid and silent, never seen,
Where we dare not think of what might have been
Nor wish idea of what things may be.
If ever mystery, romance and fear
Have shown their heart on canvas and on scroll,
It must assuredly to men appear
As to mine inner sense appears my soul.
It is a vision-desert full of rocks
Where all than reason is both more and less,
'Tis a lone coast where the sea's endless shocks
Fill with an empty sound its lifelessness.
Something of lost, forgotten, vague and dead,
Yet waking, as a slumberer mystical
Seems to perceive, for who looks knows with dread
That something he doth see to make appal.
All this my soul is in its weak despair,
Full of sense unto pain, of thought to tears,
Having for meed of reason a mute care,
For company to feeling - woes and fears.
So to my glance, as if with opium wide,
My very self is grown a mystery;
In inexstatic fear Life doth abide
And madness like my breath is within me.
1 422
Fernando Pessoa
De vez em quando surge-me nos lábios
De vez em quando surge-me nos lábios
Uma canção de amor e, instintivo,
Nela choro unia amada morta. Sim.
É a noiva eterna morta de um eu
Que não soube amar.
Ah que feliz
Seria se eu pudesse aniquilar
O pensamento, a comoção — o que eu
Mais odeio e mais prezo — e m'envolver
Numa vida vazia e trabalhosa,
Com amores, ternura! Beberia
A alegria do regalo de existir
Sem perguntar onde era a sua origem
Nem onde tinha fim. Felicidade
Fez-se para quem a não pode sentir.
Completo e apreensível horror
Do mistério que eis volta ao pensamento!
Hoje se morre alguém que estimo — se eu
Estou ainda algo em mim absorto
No que é mais do que eu — se morre alguém
Que amo — admitamo-lo — já não choro,
Não sinto dor: gela-me apenas, muda,
A presença da morte que triplica
O sentimento do mistério em mim.
Uma canção de amor e, instintivo,
Nela choro unia amada morta. Sim.
É a noiva eterna morta de um eu
Que não soube amar.
Ah que feliz
Seria se eu pudesse aniquilar
O pensamento, a comoção — o que eu
Mais odeio e mais prezo — e m'envolver
Numa vida vazia e trabalhosa,
Com amores, ternura! Beberia
A alegria do regalo de existir
Sem perguntar onde era a sua origem
Nem onde tinha fim. Felicidade
Fez-se para quem a não pode sentir.
Completo e apreensível horror
Do mistério que eis volta ao pensamento!
Hoje se morre alguém que estimo — se eu
Estou ainda algo em mim absorto
No que é mais do que eu — se morre alguém
Que amo — admitamo-lo — já não choro,
Não sinto dor: gela-me apenas, muda,
A presença da morte que triplica
O sentimento do mistério em mim.
1 482
Fernando Pessoa
CUL DE LAMPE
CUL DE LAMPE
Pouco a pouco,
Sem que qualquer coisa me falte,
Sem que qualquer coisa me sobre,
Sem que qualquer coisa esteja exactamente na mesma posição,
Vou andando parado,
Vou vivendo morrendo,
Vou sendo eu através de uma quantidade de gente sem ser.
Vou sendo tudo menos eu.
Acabei.
Pouco a pouco,
Sem que ninguém me falasse
(Que importa tudo quanto me tem sido dito na vida?),
Sem que ninguém me escutasse
(Que importa quanto disse e me ouviram dizer?)
Sem que ninguém me quisesse
(Que importa o que disse quem me disse que queria?),
Muito bem...
Pouco a pouco,
Sem nada disso,
Sem nada que não seja isso,
Vou parando,
Vou parar,
Acabei.
Qual acabei!
Estou farto de sentir e de fingir em pensar,
E não acabei ainda.
Ainda estou a escrever versos.
Ainda estou a escrever.
Ainda estou.
(Não, não vou acabar
Ainda...
Não vou acabar.
Acabei.)
Subitamente, na rua transversal, uma janela no alto e que vulto nela?
E o horror de ter perdido a infância em que ali não estive
E o caminho vagabundo da minha consciência inexequível.
Que mais querem? Acabei.
Nem falta o canário da vizinha ó manhã de outro tempo,
Nem som (cheio de cesto) do padeiro na escada
Nem os pregões que não sei já onde estão —
Nem o enterro (ouço as vozes) na rua,
Nem trovão súbito da madeira das tabuinhas de defronte no ar de verão
Nem... quanta coisa, quanta alma, quanto irreparável!
Afinal, agora tudo cocaína...
Meu amor infância!
Meu passado bibe!
Meu repouso pão com manteiga boa à janela!
Basta, que já estou cego para o que vejo!
Arre, acabei!
Basta!
Pouco a pouco,
Sem que qualquer coisa me falte,
Sem que qualquer coisa me sobre,
Sem que qualquer coisa esteja exactamente na mesma posição,
Vou andando parado,
Vou vivendo morrendo,
Vou sendo eu através de uma quantidade de gente sem ser.
Vou sendo tudo menos eu.
Acabei.
Pouco a pouco,
Sem que ninguém me falasse
(Que importa tudo quanto me tem sido dito na vida?),
Sem que ninguém me escutasse
(Que importa quanto disse e me ouviram dizer?)
Sem que ninguém me quisesse
(Que importa o que disse quem me disse que queria?),
Muito bem...
Pouco a pouco,
Sem nada disso,
Sem nada que não seja isso,
Vou parando,
Vou parar,
Acabei.
Qual acabei!
Estou farto de sentir e de fingir em pensar,
E não acabei ainda.
Ainda estou a escrever versos.
Ainda estou a escrever.
Ainda estou.
(Não, não vou acabar
Ainda...
Não vou acabar.
Acabei.)
Subitamente, na rua transversal, uma janela no alto e que vulto nela?
E o horror de ter perdido a infância em que ali não estive
E o caminho vagabundo da minha consciência inexequível.
Que mais querem? Acabei.
Nem falta o canário da vizinha ó manhã de outro tempo,
Nem som (cheio de cesto) do padeiro na escada
Nem os pregões que não sei já onde estão —
Nem o enterro (ouço as vozes) na rua,
Nem trovão súbito da madeira das tabuinhas de defronte no ar de verão
Nem... quanta coisa, quanta alma, quanto irreparável!
Afinal, agora tudo cocaína...
Meu amor infância!
Meu passado bibe!
Meu repouso pão com manteiga boa à janela!
Basta, que já estou cego para o que vejo!
Arre, acabei!
Basta!
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Fernando Pessoa
Seria doce amar, cingir a mim
Seria doce amar, cingir a mim
Um corpo de mulher, mas fixo e grave
E feito em tudo transcendentalmente.
O pensamento impede-me e confrange-me
Do terror de ter perto e comungar
Em sensação ou ser com outro corpo.
Gelada mão misteriosa cai
Sobre a imaginação que nem em si
Me pode amante conceber.
Ó corpo! Amante, entrega-te! Talvez
Te salves entregando-te e amando!
Mas não! A consciência do mistério
Mantém-me isolado e em horror
Perante tudo.
Ah não poder
Arrancar de mim a consciência!
Um corpo de mulher, mas fixo e grave
E feito em tudo transcendentalmente.
O pensamento impede-me e confrange-me
Do terror de ter perto e comungar
Em sensação ou ser com outro corpo.
Gelada mão misteriosa cai
Sobre a imaginação que nem em si
Me pode amante conceber.
Ó corpo! Amante, entrega-te! Talvez
Te salves entregando-te e amando!
Mas não! A consciência do mistério
Mantém-me isolado e em horror
Perante tudo.
Ah não poder
Arrancar de mim a consciência!
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Fernando Pessoa
Diálogo na Noite
Ó vestidas razões! Dor que é vergonha
E por vergonha de si própria cala
A si mesma o seu nexo! Ó vil e baixa
Porca animalidade do animal,
Que se diz metafísica por medo
A saber-se só baixa e a si dá nomes
De (...)
Ó horror metafísico de ti!
Sentido pelo instinto, não na mente,
Vil metafísica do horror da carne,
Medo do amor...
Entre o teu corpo e o meu desejo dele
Stá o abismo de seres consciente;
Pudesse-te eu amar sem que existisses
E possuir-te sem que ali estivesses!
Ah, que hábito recluso de pensar
Tão desterra o animal, que ousar não ouso
E por vergonha de si própria cala
A si mesma o seu nexo! Ó vil e baixa
Porca animalidade do animal,
Que se diz metafísica por medo
A saber-se só baixa e a si dá nomes
De (...)
Ó horror metafísico de ti!
Sentido pelo instinto, não na mente,
Vil metafísica do horror da carne,
Medo do amor...
Entre o teu corpo e o meu desejo dele
Stá o abismo de seres consciente;
Pudesse-te eu amar sem que existisses
E possuir-te sem que ali estivesses!
Ah, que hábito recluso de pensar
Tão desterra o animal, que ousar não ouso
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