Poemas neste tema
Coragem e Força
Charles Bukowski
Estar Aqui
quando chega o pior, não há nada a se
fazer, é quase caso de você rir, vestir suas roupas
de novo, sair, ver rostos, máquinas,
ruas, prédios, o desenrolar do
mundo.
eu expresso gestos, troco somas de dinheiro, respondo a
perguntas, pouco pergunto, com as horas marchando,
me seguindo, elas não são sempre constantemente
terríveis – por vezes sou acometido por uma louca
alegria e rio, mal sabendo
por quê.
talvez o pior truque que aprendi seja o de
resistir; preciso aprender a ceder, isso não é
algo suspeito.
somos sérios demais, precisamos aprender a lograr
nossos céus e nossos infernos – a brincadeira está jogando
conosco, precisamos jogar de volta.
nossos sapatos vão andando, carregando-
nos.
quando chega o pior, nada deveria ser
pior.
a exatidão é a liberdade: cem
mil muros ou mais
e mais
de nada, seus ossos sabem mais do que a sua
mente.
fazer, é quase caso de você rir, vestir suas roupas
de novo, sair, ver rostos, máquinas,
ruas, prédios, o desenrolar do
mundo.
eu expresso gestos, troco somas de dinheiro, respondo a
perguntas, pouco pergunto, com as horas marchando,
me seguindo, elas não são sempre constantemente
terríveis – por vezes sou acometido por uma louca
alegria e rio, mal sabendo
por quê.
talvez o pior truque que aprendi seja o de
resistir; preciso aprender a ceder, isso não é
algo suspeito.
somos sérios demais, precisamos aprender a lograr
nossos céus e nossos infernos – a brincadeira está jogando
conosco, precisamos jogar de volta.
nossos sapatos vão andando, carregando-
nos.
quando chega o pior, nada deveria ser
pior.
a exatidão é a liberdade: cem
mil muros ou mais
e mais
de nada, seus ossos sabem mais do que a sua
mente.
1 010
Charles Bukowski
1813-1883
ouvindo Wagner
e lá fora no escuro o vento sopra uma chuva fria as
árvores oscilam e balançam luzes se
apagam e acendem as paredes rangem e os gatos correm para baixo da
cama...
Wagner enfrenta os tormentos, ele é sentimental mas
sólido, é o lutador supremo, gigante num mundo de
pigmeus, ele se joga de frente, rompe
barreiras
uma
espantosa FORÇA sonora enquanto
tudo aqui balança
treme
verga
estoura
em feroz aposta
sim, Wagner e a tempestade se misturam com o vinho quando
noites como esta sobem dos meus pulsos até a cabeça e
recaem nas
tripas
certos homens nunca
morrem
e certos homens nunca
vivem
mas estamos todos vivos
nesta noite.
e lá fora no escuro o vento sopra uma chuva fria as
árvores oscilam e balançam luzes se
apagam e acendem as paredes rangem e os gatos correm para baixo da
cama...
Wagner enfrenta os tormentos, ele é sentimental mas
sólido, é o lutador supremo, gigante num mundo de
pigmeus, ele se joga de frente, rompe
barreiras
uma
espantosa FORÇA sonora enquanto
tudo aqui balança
treme
verga
estoura
em feroz aposta
sim, Wagner e a tempestade se misturam com o vinho quando
noites como esta sobem dos meus pulsos até a cabeça e
recaem nas
tripas
certos homens nunca
morrem
e certos homens nunca
vivem
mas estamos todos vivos
nesta noite.
1 651
Charles Bukowski
Os Dias Gloriosos
os rios mortos correm para trás em direção a lugar nenhum,
os peixes gritam através das memórias de neon,
e me lembro de você bêbada na cama
naquele quarto barato de hotel
sem ninguém com quem morar além de mim,
que inferno arrastado deve ter
sido, você com
um jovem beberrão dez anos mais novo
andando pelo quarto de cueca e
se gabando aos deuses surdos enquanto
estilhaçava copos nas paredes.
você certamente se viu deslocada no espaço e no
tempo,
seu casamento quebrado sobre ladrilhos
manchados
e você
sendo comida por um
otário de suíças aterrorizado pela
vida, surrado pelo acaso, aquela
coisa
andando pelo quarto, úmido cigarro enrolado
na boca de macaco, então
parando para
abrir outra garrafa de vinho
vagabundo.
os rios mortos de nossas vidas,
corações como pedras.
sirva o sangue vermelho do vinho.
pragueje, reclame, chore, cante
naquele quarto barato de hotel.
você, acordando... “Hank?”
“hã... aqui... que porra você
quer?”
“diabo, me dá uma bebida...”
o desperdício
mas a coragem da
aposta.
de onde virá o aluguel devido?
vou arranjar um emprego.
você vai arranjar um emprego.
sim, baita chance, baita bosta de
chance
seja como for, vinho suficiente nos leva além do
pensamento.
eu quebro um enorme copo na
parede.
o telefone toca.
é o recepcionista de novo:
“Sr. Chinaski, devo advertir...”
“ah, vai advertir a boceta da tua mãe!”
o telefone batido com força.
poder.
sou um homem.
se você gosta de mim, gosta disso.
e sou inteligente também, sempre te
disse isso.
“Hank?”
“hã?”
“quantas garrafas temos ainda?”
“3.”
“que bom.”
andando pelo quarto, tentando voar, tentando
viver.
memórias de neon gritam o peixe.
4o andar de um hotel da 6th street, janelas
abertas para a cidade do inferno, a preciosa respiração
dos pombos solitários.
você bêbada na cama, eu brincando de milagre,
rolhas de garrafa de vinho e cinzeiros cheios.
e como se todo mundo estivesse morto, todo mundo
morto com as cabeças no lugar,
precisamos conquistar o açoite do
lugar nenhum.
me veja de camiseta e cueca,
pés descalços sangrando cacos de vidro.
existe certa saída que começa com
3 garrafas
restantes.
os peixes gritam através das memórias de neon,
e me lembro de você bêbada na cama
naquele quarto barato de hotel
sem ninguém com quem morar além de mim,
que inferno arrastado deve ter
sido, você com
um jovem beberrão dez anos mais novo
andando pelo quarto de cueca e
se gabando aos deuses surdos enquanto
estilhaçava copos nas paredes.
você certamente se viu deslocada no espaço e no
tempo,
seu casamento quebrado sobre ladrilhos
manchados
e você
sendo comida por um
otário de suíças aterrorizado pela
vida, surrado pelo acaso, aquela
coisa
andando pelo quarto, úmido cigarro enrolado
na boca de macaco, então
parando para
abrir outra garrafa de vinho
vagabundo.
os rios mortos de nossas vidas,
corações como pedras.
sirva o sangue vermelho do vinho.
pragueje, reclame, chore, cante
naquele quarto barato de hotel.
você, acordando... “Hank?”
“hã... aqui... que porra você
quer?”
“diabo, me dá uma bebida...”
o desperdício
mas a coragem da
aposta.
de onde virá o aluguel devido?
vou arranjar um emprego.
você vai arranjar um emprego.
sim, baita chance, baita bosta de
chance
seja como for, vinho suficiente nos leva além do
pensamento.
eu quebro um enorme copo na
parede.
o telefone toca.
é o recepcionista de novo:
“Sr. Chinaski, devo advertir...”
“ah, vai advertir a boceta da tua mãe!”
o telefone batido com força.
poder.
sou um homem.
se você gosta de mim, gosta disso.
e sou inteligente também, sempre te
disse isso.
“Hank?”
“hã?”
“quantas garrafas temos ainda?”
“3.”
“que bom.”
andando pelo quarto, tentando voar, tentando
viver.
memórias de neon gritam o peixe.
4o andar de um hotel da 6th street, janelas
abertas para a cidade do inferno, a preciosa respiração
dos pombos solitários.
você bêbada na cama, eu brincando de milagre,
rolhas de garrafa de vinho e cinzeiros cheios.
e como se todo mundo estivesse morto, todo mundo
morto com as cabeças no lugar,
precisamos conquistar o açoite do
lugar nenhum.
me veja de camiseta e cueca,
pés descalços sangrando cacos de vidro.
existe certa saída que começa com
3 garrafas
restantes.
1 003
Charles Bukowski
Roído Por Maçante Crise
não é fácil
mandar esses foguetes para
lugar nenhum.
não paro de queimar meus dedos,
ganho manchas de luz perante meus
olhos.
os gatos ficam me encarando.
o calendário cai da parede.
preciso de uma meia-noite tranquila nas
Bahamas.
preciso contemplar
cascatas de glória.
preciso dos dedos de uma donzela
amarrando meus sapatos.
preciso do sonho
do doce sonho azul
do doce sonho verde
do elevado sonho de lavanda.
preciso dos passos tranquilos para o Paraíso.
preciso rir como eu costumava rir.
preciso ver um bom filme numa sala escura.
preciso ser um bom filme numa sala escura.
preciso tomar emprestado um pouco da natural coragem
do tigre.
preciso andar pelos becos da China
bêbado.
preciso metralhar a andorinha.
preciso beber vinho com os assassinos.
onde será que os dentes falsos de Clark Gable estão
nesta noite?
quero que John Fante tenha pernas e olhos de novo.
sei que os cães virão para
arrancar a carne dos ossos.
como podemos ficar sentados olhando jogos de beisebol?
enquanto penso em arrebatar os céus
uma mosca dá rodopios e mais rodopios nesta
sala.
mandar esses foguetes para
lugar nenhum.
não paro de queimar meus dedos,
ganho manchas de luz perante meus
olhos.
os gatos ficam me encarando.
o calendário cai da parede.
preciso de uma meia-noite tranquila nas
Bahamas.
preciso contemplar
cascatas de glória.
preciso dos dedos de uma donzela
amarrando meus sapatos.
preciso do sonho
do doce sonho azul
do doce sonho verde
do elevado sonho de lavanda.
preciso dos passos tranquilos para o Paraíso.
preciso rir como eu costumava rir.
preciso ver um bom filme numa sala escura.
preciso ser um bom filme numa sala escura.
preciso tomar emprestado um pouco da natural coragem
do tigre.
preciso andar pelos becos da China
bêbado.
preciso metralhar a andorinha.
preciso beber vinho com os assassinos.
onde será que os dentes falsos de Clark Gable estão
nesta noite?
quero que John Fante tenha pernas e olhos de novo.
sei que os cães virão para
arrancar a carne dos ossos.
como podemos ficar sentados olhando jogos de beisebol?
enquanto penso em arrebatar os céus
uma mosca dá rodopios e mais rodopios nesta
sala.
1 058
Charles Bukowski
Coisa da Boa
sugando este charuto,
tomando garrafa após garrafa de cerveja da
República Popular da
China,
são os primeiros momentos da escura manhã
e estou celebrando a existência de
todos nós,
todos nós cabeças de trapo, sugadores de ruína
habitantes desta monstruosa
bola de estrume que é a
terra.
digo a vocês, todos, todo mundo, que estou
orgulhoso de vocês
por não cortarem suas gargantas toda
manhã quando acordam para enfrentá-la
de novo.
claro, alguns de vocês cortam, vocês dão
no pé, vão embora e nos deixam com o
fedorento pós-queda, para lidarmos com
os mutilados, os meio-assassinados, os
incompetentes, os loucos, os vis, as
massas.
mas sopro fumaça azul e sugo
estas garrafas verdes
em celebração dos que perduram,
seja lá como, confusos e
incongruentes mas aguentando,
o arremessador disparando a bola
na cara a 156 q.p.h
o motorista de ônibus moendo suas gengivas
em carne viva para chegar no horário.
os mexicanos ilegais que me acordam às
7 da manhã com seus sopradores de folhas.
sua mãe, a mãe de alguém,
seu filho, o filho de alguém, certa
irmã, certo primo, certo velhote
num andador, todos lá.
dá uma olhada neles.
eu saúdo aqueles que retêm o traiço-
eiro controle.
abro uma nova garrafa verde, faísco
meu charuto morto de volta à vida com meu isqueiro
amarelo.
precisamos de pessoas para limpar nossas
latrinas.
precisamos da misericórdia da respiração,
vida em movimento
mesmo que na maior parte ela seja
incontinente.
cerveja da China,
pensa só.
esta é uma madrugada e tanto
César e Platão avultam nas
sombras e eu amo todos vocês
por um breve
momento.
tomando garrafa após garrafa de cerveja da
República Popular da
China,
são os primeiros momentos da escura manhã
e estou celebrando a existência de
todos nós,
todos nós cabeças de trapo, sugadores de ruína
habitantes desta monstruosa
bola de estrume que é a
terra.
digo a vocês, todos, todo mundo, que estou
orgulhoso de vocês
por não cortarem suas gargantas toda
manhã quando acordam para enfrentá-la
de novo.
claro, alguns de vocês cortam, vocês dão
no pé, vão embora e nos deixam com o
fedorento pós-queda, para lidarmos com
os mutilados, os meio-assassinados, os
incompetentes, os loucos, os vis, as
massas.
mas sopro fumaça azul e sugo
estas garrafas verdes
em celebração dos que perduram,
seja lá como, confusos e
incongruentes mas aguentando,
o arremessador disparando a bola
na cara a 156 q.p.h
o motorista de ônibus moendo suas gengivas
em carne viva para chegar no horário.
os mexicanos ilegais que me acordam às
7 da manhã com seus sopradores de folhas.
sua mãe, a mãe de alguém,
seu filho, o filho de alguém, certa
irmã, certo primo, certo velhote
num andador, todos lá.
dá uma olhada neles.
eu saúdo aqueles que retêm o traiço-
eiro controle.
abro uma nova garrafa verde, faísco
meu charuto morto de volta à vida com meu isqueiro
amarelo.
precisamos de pessoas para limpar nossas
latrinas.
precisamos da misericórdia da respiração,
vida em movimento
mesmo que na maior parte ela seja
incontinente.
cerveja da China,
pensa só.
esta é uma madrugada e tanto
César e Platão avultam nas
sombras e eu amo todos vocês
por um breve
momento.
1 088
Charles Bukowski
Querido Papai
uma das coisas mais venturosas
que me aconteceram
foi ter um pai cruel e
sádico.
depois dele
as piores coisas que as Moiras
lançaram sobre mim
nem de longe pareceram tão
terríveis –
coisas que a outros homens
causariam
raiva, desespero, desgosto,
loucura, pensamentos suicidas
e
assim por diante
tiveram efeitos irrelevantes
sobre mim
graças à minha
criação:
depois do meu pai
praticamente tudo parecia
bom.
eu deveria realmente ser
grato àquele
velho de merda
morto há tanto tempo
agora
ele me preparou
para todos os numerosos
infernos
me levando lá
bem antes
do tempo
através dos inescapáveis
anos.
que me aconteceram
foi ter um pai cruel e
sádico.
depois dele
as piores coisas que as Moiras
lançaram sobre mim
nem de longe pareceram tão
terríveis –
coisas que a outros homens
causariam
raiva, desespero, desgosto,
loucura, pensamentos suicidas
e
assim por diante
tiveram efeitos irrelevantes
sobre mim
graças à minha
criação:
depois do meu pai
praticamente tudo parecia
bom.
eu deveria realmente ser
grato àquele
velho de merda
morto há tanto tempo
agora
ele me preparou
para todos os numerosos
infernos
me levando lá
bem antes
do tempo
através dos inescapáveis
anos.
1 008
Charles Bukowski
Como São As Coisas
ele morreu num domingo à tarde
e o enterro foi numa quarta;
pouca gente apareceu: sua esposa, seus
filhos, membros da família, um que outro
roteirista mais 3 ou 4 outros;
ele foi descoberto por H.L. Mencken
nos anos 30;
escrevia uma frase clara e simples
uma frase ardente,
belos contos e romances;
foi acometido no fim da vida,
ficou cego, teve ambas as pernas
amputadas, e não paravam de
cortá-lo, operando repetidas
vezes.
no hospital
ele ficou naquela cama por anos;
tinha de ser virado, alimentado,
evacuado,
mas ali
ele ditou um romance totalmente novo
para sua esposa.
jamais desistiu: esse romance foi
publicado.
um dia numa das minhas
visitas
ele me disse “sabe, Hank,
quando estava bem eu tinha um
monte de amigos, e aí... quando isso
aconteceu, eles me largaram, foi como
se eu tivesse lepra...”
e ele sorriu.
havia uma brisa passando pela
janela
e ali estava ele
a luz do sol o cobrindo
pela metade.
aqueles amigos não
o mereciam.
um grande escritor
e um ser humano maior ainda.
John, a multidão nunca terá
o amor dos poucos –
como se eu precisasse dizer isso
a você.
e o enterro foi numa quarta;
pouca gente apareceu: sua esposa, seus
filhos, membros da família, um que outro
roteirista mais 3 ou 4 outros;
ele foi descoberto por H.L. Mencken
nos anos 30;
escrevia uma frase clara e simples
uma frase ardente,
belos contos e romances;
foi acometido no fim da vida,
ficou cego, teve ambas as pernas
amputadas, e não paravam de
cortá-lo, operando repetidas
vezes.
no hospital
ele ficou naquela cama por anos;
tinha de ser virado, alimentado,
evacuado,
mas ali
ele ditou um romance totalmente novo
para sua esposa.
jamais desistiu: esse romance foi
publicado.
um dia numa das minhas
visitas
ele me disse “sabe, Hank,
quando estava bem eu tinha um
monte de amigos, e aí... quando isso
aconteceu, eles me largaram, foi como
se eu tivesse lepra...”
e ele sorriu.
havia uma brisa passando pela
janela
e ali estava ele
a luz do sol o cobrindo
pela metade.
aqueles amigos não
o mereciam.
um grande escritor
e um ser humano maior ainda.
John, a multidão nunca terá
o amor dos poucos –
como se eu precisasse dizer isso
a você.
687
Charles Bukowski
Canção Para Este Pesar Suavemente Arrebatador...
é preciso subir
além de toda essa merda,
continuar crescendo...
o destino só é uma puta se fizermos com que
seja.
acendamos luzes
soframos em grande estilo –
palito na boca, dentes arreganhados.
podemos fazer.
nascemos fortes e morreremos
fortes.
nosso modo de viver
como transatlânticos na névoa...
espinhos em rosas...
garotos blasés trotando nos parques em trajes de banho...
tem sido muito
bom.
nossos ossos
como caules que furam o céu
para sempre vão gritar
vitória.
além de toda essa merda,
continuar crescendo...
o destino só é uma puta se fizermos com que
seja.
acendamos luzes
soframos em grande estilo –
palito na boca, dentes arreganhados.
podemos fazer.
nascemos fortes e morreremos
fortes.
nosso modo de viver
como transatlânticos na névoa...
espinhos em rosas...
garotos blasés trotando nos parques em trajes de banho...
tem sido muito
bom.
nossos ossos
como caules que furam o céu
para sempre vão gritar
vitória.
1 051
Charles Bukowski
As Condições
atualmente, sob as condições do sol
meu mundo está terminando.
marcado pelo verme,
contestado por uma população mundial
que a mim não tem referência.
atualmente, sob as condições do sol
meu mundo está terminando.
meus amigos, quase nunca houve
um tempo amável.
demonstrei coragem, bebedeira e
medo.
o coração segue funcionando
em meio ao terror inquestionável.
sob as condições do sol
preparo-me para largar
o labor, a dor e qualquer
honra que reste.
meu mundo está terminando.
marcado pelo verme,
contestado por uma população mundial
que a mim não tem referência.
atualmente, sob as condições do sol
meu mundo está terminando.
meus amigos, quase nunca houve
um tempo amável.
demonstrei coragem, bebedeira e
medo.
o coração segue funcionando
em meio ao terror inquestionável.
sob as condições do sol
preparo-me para largar
o labor, a dor e qualquer
honra que reste.
1 185
Charles Bukowski
Nervos
contorcendo-se nos lençóis –
para encarar a luz do sol mais uma vez,
isso é problema
na certa.
gosto bem mais da cidade quando as
luzes de neon cintilam e
os corpos nus dançam sobre o balcão de um
bar
ao som da música violenta.
estou aqui debaixo deste lençol
pensando.
meus nervos estão entorpecidos pela
história –
a preocupação mais memorável da humanidade
é a coragem necessária para
encarar a luz do sol mais uma vez.
o amor começa com o encontro de dois
estranhos. amor ao mundo é
impossível. prefiro ficar na cama
e dormir.
desnorteado pelos dias e pelas ruas e pelos anos
puxo as cobertas até o pescoço.
viro minha bunda para a parede.
odeio as manhãs mais do que a
qualquer homem.
para encarar a luz do sol mais uma vez,
isso é problema
na certa.
gosto bem mais da cidade quando as
luzes de neon cintilam e
os corpos nus dançam sobre o balcão de um
bar
ao som da música violenta.
estou aqui debaixo deste lençol
pensando.
meus nervos estão entorpecidos pela
história –
a preocupação mais memorável da humanidade
é a coragem necessária para
encarar a luz do sol mais uma vez.
o amor começa com o encontro de dois
estranhos. amor ao mundo é
impossível. prefiro ficar na cama
e dormir.
desnorteado pelos dias e pelas ruas e pelos anos
puxo as cobertas até o pescoço.
viro minha bunda para a parede.
odeio as manhãs mais do que a
qualquer homem.
771
Charles Bukowski
K.O.
ele era barbada, gordo como um beija-flor
e eu o mantinha golpeando,
lançava um soco e trocava a guarda e dava um tempo:
todos esperavam pela luta da noite,
bebendo cerveja, e eu pensava
como vamos mobiliar a casa,
eu precisava de uma bancada e algumas ferramentas,
e então ele disparou uma direita –
eu tinha ficado olhando para as luzes
e a próxima coisa que fui capaz de me lembrar
foram todos uivando, e eu de joelhos como se
rezasse, e quando me levantei
ele era forte e eu era fraco;
bem, pensei, vou voltar para a fazenda,
eu sempre fui um pobre vencedor.
e eu o mantinha golpeando,
lançava um soco e trocava a guarda e dava um tempo:
todos esperavam pela luta da noite,
bebendo cerveja, e eu pensava
como vamos mobiliar a casa,
eu precisava de uma bancada e algumas ferramentas,
e então ele disparou uma direita –
eu tinha ficado olhando para as luzes
e a próxima coisa que fui capaz de me lembrar
foram todos uivando, e eu de joelhos como se
rezasse, e quando me levantei
ele era forte e eu era fraco;
bem, pensei, vou voltar para a fazenda,
eu sempre fui um pobre vencedor.
1 036
Charles Bukowski
Classe
esses garotos têm classe
tinham de fazer reis
a partir de velhos decrépitos
enrolando cigarros
em quartos tão pequenos
a ponto de tornar reconhecível
uma singela sombra;
para eles
tudo se apagara
como uma luz sob a
porta
ainda assim
eles reconhecem e
suportam a ausência;
tapeados e reduzidos a
zero
eles esperam pela morte
com a paciente temperança da
mãe que ensina seu filho
a comer;
para eles, tudo
se perdeu
como uma rosa na boca
de um porco;
o incêndio das cidades
deve ter sido
como isso.
mas como caminhões de lixo
sacolejando com amor
esses garotos
podem
se erguer como Lorca
da beira da estrada
com mais um poema,
se erguer como
Lázaro para
lançar um olhar para
as mulheres ainda vivas,
e então
se embebedar
embebedar
até que tudo
se faça em pedaços
mais uma vez
em imensa tristeza.
tinham de fazer reis
a partir de velhos decrépitos
enrolando cigarros
em quartos tão pequenos
a ponto de tornar reconhecível
uma singela sombra;
para eles
tudo se apagara
como uma luz sob a
porta
ainda assim
eles reconhecem e
suportam a ausência;
tapeados e reduzidos a
zero
eles esperam pela morte
com a paciente temperança da
mãe que ensina seu filho
a comer;
para eles, tudo
se perdeu
como uma rosa na boca
de um porco;
o incêndio das cidades
deve ter sido
como isso.
mas como caminhões de lixo
sacolejando com amor
esses garotos
podem
se erguer como Lorca
da beira da estrada
com mais um poema,
se erguer como
Lázaro para
lançar um olhar para
as mulheres ainda vivas,
e então
se embebedar
embebedar
até que tudo
se faça em pedaços
mais uma vez
em imensa tristeza.
1 271
Charles Bukowski
Sobre Guindastes
às vezes, após você ter recebido
das forças um belo chute no rabo
você costuma desejar ser um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
mas há sempre
a
velha questão
que você conhece:
você não quer ser
um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
o infortúnio não é
suficiente
e
a vitória
claudica
um guindaste não pode
pagar por um rabo
ou
vadiar às tardes
em Monterey
essas são algumas
das coisas
que os humanos podem fazer
além de
ficar sobre uma perna só
das forças um belo chute no rabo
você costuma desejar ser um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
mas há sempre
a
velha questão
que você conhece:
você não quer ser
um guindaste
estendido sobre uma perna
na água azul
o infortúnio não é
suficiente
e
a vitória
claudica
um guindaste não pode
pagar por um rabo
ou
vadiar às tardes
em Monterey
essas são algumas
das coisas
que os humanos podem fazer
além de
ficar sobre uma perna só
1 175
Charles Bukowski
A Noite Mais Estranha Que de Fato Você Já Viu...
eu tinha esse quarto da frente na DeLongpre
e costumava me sentar por horas
durante o dia
olhando pela janela
da frente.
havia um número incontável de garotas que
passavam
rebolando;
aquilo salvava minhas tardes,
acrescentava algo à cerveja e aos
cigarros.
certo dia eu vi alguma coisa
a mais.
escutei primeiro o som.
“vamos lá, empurrem!”, ele disse.
era uma enorme tábua
com 1 metro de largura por
20 de comprimento;
com rodinhas atarraxadas às extremidades
e ao meio.
ele puxava pela frente
usando duas longas cordas presas à tábua
e ela ia atrás
controlando a direção e também empurrando.
todos os seus bens estavam atados àquela
tábua:
potes, panelas, colchas e tudo o mais
amarrado à tábua
bem preso;
e as rodinhas rangiam.
ele era branco, um colono, um
sulista –
magro, curvo, as calças a ponto
de cair e revelar
seu rabo –
o rosto rosado pelo sol e
vinho barato,
e ela negra
caminhando aprumada
empurrando;
ela era simplesmente maravilhosa
de turbante
grandes brincos verdes
um vestido amarelo
que ia
do pescoço ao
tornozelo.
seu rosto estava gloriosamente
indiferente.
“não se preocupe!” ele gritou, voltando-se para
ela, “alguém vai
nos alugar um quarto!”
ela não respondeu.
então eles desapareceram
embora eu ainda ouvisse
as rodinhas.
eles iriam conseguir,
pensei.
tenho certeza que
sim.
e costumava me sentar por horas
durante o dia
olhando pela janela
da frente.
havia um número incontável de garotas que
passavam
rebolando;
aquilo salvava minhas tardes,
acrescentava algo à cerveja e aos
cigarros.
certo dia eu vi alguma coisa
a mais.
escutei primeiro o som.
“vamos lá, empurrem!”, ele disse.
era uma enorme tábua
com 1 metro de largura por
20 de comprimento;
com rodinhas atarraxadas às extremidades
e ao meio.
ele puxava pela frente
usando duas longas cordas presas à tábua
e ela ia atrás
controlando a direção e também empurrando.
todos os seus bens estavam atados àquela
tábua:
potes, panelas, colchas e tudo o mais
amarrado à tábua
bem preso;
e as rodinhas rangiam.
ele era branco, um colono, um
sulista –
magro, curvo, as calças a ponto
de cair e revelar
seu rabo –
o rosto rosado pelo sol e
vinho barato,
e ela negra
caminhando aprumada
empurrando;
ela era simplesmente maravilhosa
de turbante
grandes brincos verdes
um vestido amarelo
que ia
do pescoço ao
tornozelo.
seu rosto estava gloriosamente
indiferente.
“não se preocupe!” ele gritou, voltando-se para
ela, “alguém vai
nos alugar um quarto!”
ela não respondeu.
então eles desapareceram
embora eu ainda ouvisse
as rodinhas.
eles iriam conseguir,
pensei.
tenho certeza que
sim.
1 129
Charles Bukowski
O Pior E o Melhor
nos hospitais e nas cadeias
está o pior
nos hospícios
está o pior
nas coberturas
está o pior
nos albergues vagabundos
está o pior
nas leituras de poesia
nos concertos de rock
nos shows beneficentes para os inválidos
está o pior
nos funerais
nos casamentos
está o pior
nas paradas
nos rinques de patinação
nas orgias sexuais
está o pior
à meia-noite
às 3 da manhã
às 5h45 da tarde
está o pior
pelotões de fuzilamento
rasgando o céu
isto é o melhor
pensar na Índia
olhando para as carrocinhas de pipoca
assistindo ao touro pegar o matador
isto é o melhor
lâmpadas encaixotadas
um velho cão se coçando
amendoins em um saquinho
isto é o melhor
jogar inseticida nas baratas
um par de meias limpas
coragem natural vencendo o talento natural
isto é o melhor
de frente para pelotões de fuzilamento
lançar pedaços de pão às gaivotas
fatiar tomates
isto é o melhor
tapetes com marcas de cigarro
fendas nas calçadas
garçonetes que mantêm a sanidade
isto é o melhor
minhas mãos mortas
meu coração morto
silêncio
adágio de pedras
o mundo em chamas
isto é o melhor
para mim.
está o pior
nos hospícios
está o pior
nas coberturas
está o pior
nos albergues vagabundos
está o pior
nas leituras de poesia
nos concertos de rock
nos shows beneficentes para os inválidos
está o pior
nos funerais
nos casamentos
está o pior
nas paradas
nos rinques de patinação
nas orgias sexuais
está o pior
à meia-noite
às 3 da manhã
às 5h45 da tarde
está o pior
pelotões de fuzilamento
rasgando o céu
isto é o melhor
pensar na Índia
olhando para as carrocinhas de pipoca
assistindo ao touro pegar o matador
isto é o melhor
lâmpadas encaixotadas
um velho cão se coçando
amendoins em um saquinho
isto é o melhor
jogar inseticida nas baratas
um par de meias limpas
coragem natural vencendo o talento natural
isto é o melhor
de frente para pelotões de fuzilamento
lançar pedaços de pão às gaivotas
fatiar tomates
isto é o melhor
tapetes com marcas de cigarro
fendas nas calçadas
garçonetes que mantêm a sanidade
isto é o melhor
minhas mãos mortas
meu coração morto
silêncio
adágio de pedras
o mundo em chamas
isto é o melhor
para mim.
1 151
Manuel Bandeira
Oração a Teresinha do Menino Jesus
Perdi o jeito de sofrer.
Ora essa.
Não sinto mais aquele gosto cabotino da tristeza.
Quero alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!
Santa Teresa não, Teresinha...
Teresinha... Teresinha...
Teresinha do Menino Jesus.
Me dá alegria!
Me dá a força de acreditar de novo
No
Pelo Sinal
Da Santa
Cruz!
Me dá alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!...
Santa Teresa não, Teresinha...
Teresinha do Menino Jesus.
Ora essa.
Não sinto mais aquele gosto cabotino da tristeza.
Quero alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!
Santa Teresa não, Teresinha...
Teresinha... Teresinha...
Teresinha do Menino Jesus.
Me dá alegria!
Me dá a força de acreditar de novo
No
Pelo Sinal
Da Santa
Cruz!
Me dá alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!...
Santa Teresa não, Teresinha...
Teresinha do Menino Jesus.
1 268
Manuel Bandeira
Improviso
Para Odylo e Nazareth
Por ser quem era e filho de quem era,
Eu queria-lhe bem. Pouco eu sabia
Do que no coração ele trazia.
Era discreto. A sua primavera
Não gritava. Tranquilo em sua espera,
Não se apressava. O que é que pretendia?
Fazer o bem aos outros, e o fazia:
Pelos que amava tudo, e a vida, dera.
E a noite veio em que, quando contente
Findava ele o seu dia, a sorte fera
Lhe surgiu de improviso pela frente.
E o que pelos que amava a vida dera,
Pela que a amava a deu valentemente,
Por ser quem era e filho de quem era.
Por ser quem era e filho de quem era,
Eu queria-lhe bem. Pouco eu sabia
Do que no coração ele trazia.
Era discreto. A sua primavera
Não gritava. Tranquilo em sua espera,
Não se apressava. O que é que pretendia?
Fazer o bem aos outros, e o fazia:
Pelos que amava tudo, e a vida, dera.
E a noite veio em que, quando contente
Findava ele o seu dia, a sorte fera
Lhe surgiu de improviso pela frente.
E o que pelos que amava a vida dera,
Pela que a amava a deu valentemente,
Por ser quem era e filho de quem era.
1 141
Marina Colasanti
NA CORTE DE HAAKON
Para bem degolar
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
1 141
Marina Colasanti
COM A DESTREZA DE QUEM
Quando Artemisia degolou
Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama
contra as mãos de Judite que
enojada
livres os braços das pesadas mangas
fortes os pulsos
com a destreza de quem mata
um frango
empurra-lhe a cabeça para um lado
e para o outro corta-lhe
o pescoço.
Gentileschi
era o nome de Artemisia
estuprada no estúdio
de seu pai
e frente a seus juízes
torturada.
Doce deve ter sido
para ela
vingar-se em Holofernes
sobre a tela.
Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama
contra as mãos de Judite que
enojada
livres os braços das pesadas mangas
fortes os pulsos
com a destreza de quem mata
um frango
empurra-lhe a cabeça para um lado
e para o outro corta-lhe
o pescoço.
Gentileschi
era o nome de Artemisia
estuprada no estúdio
de seu pai
e frente a seus juízes
torturada.
Doce deve ter sido
para ela
vingar-se em Holofernes
sobre a tela.
940
Allen Ginsberg
Escrito no meu sonho W. C. Williams
“Já que você
carrega
uma
conhecida
verdade
Mais
conhecida como
Desejo
Pra quê
vesti-la de
adornos
ou torcê-la até
ficar
sob medida
para ser
entendida?
Arrisque-se –
Nariz
olhos orelhas
língua
sexo e
cérebro
atirados ao
público
Confie
no seu
próprio
taco
Escute
você mesmo
Fale com
você mesmo
e outros
o farão
felizes,
aliviados
de um fardo –
seu próprio
pensar
e pesar.
O que era
Desejo
terá ainda
mais brilho.”
23 de Novembro, 1984
carrega
uma
conhecida
verdade
Mais
conhecida como
Desejo
Pra quê
vesti-la de
adornos
ou torcê-la até
ficar
sob medida
para ser
entendida?
Arrisque-se –
Nariz
olhos orelhas
língua
sexo e
cérebro
atirados ao
público
Confie
no seu
próprio
taco
Escute
você mesmo
Fale com
você mesmo
e outros
o farão
felizes,
aliviados
de um fardo –
seu próprio
pensar
e pesar.
O que era
Desejo
terá ainda
mais brilho.”
23 de Novembro, 1984
723
Affonso Romano de Sant'Anna
Se É Paixão, Me Nego
Se é paixão, me nego.
Já resvalei, a alma em pelo
nesse áspero despenhadeiro.
Se é paixão, não quero.
Conheço seus espinhos de mel,
sei aonde conduz
embora prometa os céus.
Se é paixão, desculpe-me, não posso
conheço suas insônias
e a obsessão.
Se é paixão me vou, não devo,
não adiantam teus apelos.
Resistirei, porque aí
morri mil vezes.
Paixão é arma de três gumes,
ao seu corte estou imune.
Se é paixão me nego
e não receio que me acuses
de medo. Do desvario
conheço todos os segredos.
Se é paixão recuso-me
e sinto muito,
pois foi há custo
que saí do labirinto.
Já resvalei, a alma em pelo
nesse áspero despenhadeiro.
Se é paixão, não quero.
Conheço seus espinhos de mel,
sei aonde conduz
embora prometa os céus.
Se é paixão, desculpe-me, não posso
conheço suas insônias
e a obsessão.
Se é paixão me vou, não devo,
não adiantam teus apelos.
Resistirei, porque aí
morri mil vezes.
Paixão é arma de três gumes,
ao seu corte estou imune.
Se é paixão me nego
e não receio que me acuses
de medo. Do desvario
conheço todos os segredos.
Se é paixão recuso-me
e sinto muito,
pois foi há custo
que saí do labirinto.
1 204
Affonso Romano de Sant'Anna
O Impossível Acontece
O Messias nasceu de uma Virgem.
O grande pensador grego nunca escreveu um livro.
A Nona Sinfonia é fruto de um homem surdo.
Na Biblioteca de Babel o leitor era um poeta cego.
E não tinha mãos, o homem que fez
as mais belas esculturas de meu país.
O grande pensador grego nunca escreveu um livro.
A Nona Sinfonia é fruto de um homem surdo.
Na Biblioteca de Babel o leitor era um poeta cego.
E não tinha mãos, o homem que fez
as mais belas esculturas de meu país.
1 214
Pablo Neruda
Quase Soneto
Mas, ai, aquela tarde o mataram:
foi deixar flores à sua esposa morta
e de repente o heroico acurralado
viu que a vida lhe fechou a porta.
De cada nicho um ianque disparava,
o sangue resvalava por seus braços
e quando cem covardes dispararam
um valente caiu com cem balaços.
E caiu entre as tumbas debulhado
ali onde seu amor assassinado,
sua esposa, o chamava ainda.
Seu sangue vingador e verdadeiro
pôde beijar assim a sua companheira
e ardeu o amor ali onde morria.
O ouro recebe este morto de pólvora e ouro enlutado,
o descabelado, o chileno sem cruz de soldado, nem sol, nem estandarte,
o filho sangrento e sangrante do ouro e a fúria terrestre,
o pobre violento e errante que na Califórnia dourada
seguiu alucinante uma luz desditada: o ouro seu leite nutritício
deu-lhe, com a vida e a morte, espreitado e vencido por ouro e cobiça.
Noturno chileno arrastado e ferido pelas circunstâncias do dano incessante,
o pobre soldado e amante sem a companheira nem a
companhia,
sem a primavera do Chile distante nem as alegrias que amamos e que ele defendia
em forma importuna atacando em seu escuro cavalo à luz da lua:
certeiro e seguro este raio de janeiro vingava os seus.
E morto em seu orgulho se foi bandoleiro não sei nem me importa, chegou a hora
de uma grande aurora que todas as sombras sepulta e
oculta com mãos de rosa fragrante,
a hora, o minuto em que achamos a eterna doçura do
mundo e buscamos
na desventura o amor que sustenta a cúpula da primavera.
E Joaquín Murieta não teve bandeira a não ser só uma dor assassina. E aquele desditado
achou assassinado seu amor por mascarados e assim um estrangeiro que saiu para viver e vencer
nas mãos do ouro tornou-se bandoleiro e chegou a
padecer, a matar e morrer.
foi deixar flores à sua esposa morta
e de repente o heroico acurralado
viu que a vida lhe fechou a porta.
De cada nicho um ianque disparava,
o sangue resvalava por seus braços
e quando cem covardes dispararam
um valente caiu com cem balaços.
E caiu entre as tumbas debulhado
ali onde seu amor assassinado,
sua esposa, o chamava ainda.
Seu sangue vingador e verdadeiro
pôde beijar assim a sua companheira
e ardeu o amor ali onde morria.
O ouro recebe este morto de pólvora e ouro enlutado,
o descabelado, o chileno sem cruz de soldado, nem sol, nem estandarte,
o filho sangrento e sangrante do ouro e a fúria terrestre,
o pobre violento e errante que na Califórnia dourada
seguiu alucinante uma luz desditada: o ouro seu leite nutritício
deu-lhe, com a vida e a morte, espreitado e vencido por ouro e cobiça.
Noturno chileno arrastado e ferido pelas circunstâncias do dano incessante,
o pobre soldado e amante sem a companheira nem a
companhia,
sem a primavera do Chile distante nem as alegrias que amamos e que ele defendia
em forma importuna atacando em seu escuro cavalo à luz da lua:
certeiro e seguro este raio de janeiro vingava os seus.
E morto em seu orgulho se foi bandoleiro não sei nem me importa, chegou a hora
de uma grande aurora que todas as sombras sepulta e
oculta com mãos de rosa fragrante,
a hora, o minuto em que achamos a eterna doçura do
mundo e buscamos
na desventura o amor que sustenta a cúpula da primavera.
E Joaquín Murieta não teve bandeira a não ser só uma dor assassina. E aquele desditado
achou assassinado seu amor por mascarados e assim um estrangeiro que saiu para viver e vencer
nas mãos do ouro tornou-se bandoleiro e chegou a
padecer, a matar e morrer.
645
Pablo Neruda
Viii - Radiante Julius
Radiante Julius — do favo das vidas
célula férrea e doce, feita de mel e fogo! —
dá-nos hoje como o pão diário
tua essência, tua presença,
tua simples retidão de raio puro.
Vem a nós hoje, amanhã, sempre,
porque, singelo herói,
és a arquitetura
do homem de amanhã.
Quando te feriu a morte, a luz
brilhou sobre o planeta
com a cor de abelha de teus olhos,
e o germe do mel e da luta,
da doçura e da dureza,
ficaram implantados
na vida do homem.
Tua decisão destruiu o medo,
e tua ternura, a escuridão.
Entraste, homem nu,
na boca de nosso inferno
e com o corpo lacerado,
intacto, sem quebrar foi teu gesto
e a verdade ativa
que apesar da morte preservaste.
célula férrea e doce, feita de mel e fogo! —
dá-nos hoje como o pão diário
tua essência, tua presença,
tua simples retidão de raio puro.
Vem a nós hoje, amanhã, sempre,
porque, singelo herói,
és a arquitetura
do homem de amanhã.
Quando te feriu a morte, a luz
brilhou sobre o planeta
com a cor de abelha de teus olhos,
e o germe do mel e da luta,
da doçura e da dureza,
ficaram implantados
na vida do homem.
Tua decisão destruiu o medo,
e tua ternura, a escuridão.
Entraste, homem nu,
na boca de nosso inferno
e com o corpo lacerado,
intacto, sem quebrar foi teu gesto
e a verdade ativa
que apesar da morte preservaste.
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