Poemas neste tema
Corpo
Vinicius de Moraes
Suspensão
Fora de mim, fora de nós, no espaço, no vago
A música dolente de uma valsa
Em mim, profundamente em mim
A música dolente do teu corpo
E em tudo, vivendo o momento de todas as coisas
A música da noite iluminada.
O ritmo do teu corpo no meu corpo...
O giro suave da valsa longínqua, da valsa suspensa...
Meu peito vivendo teu peito
Meus olhos bebendo teus olhos, bebendo teu rosto...
E a vontade de chorar que vinha de todas as coisas.
A música dolente de uma valsa
Em mim, profundamente em mim
A música dolente do teu corpo
E em tudo, vivendo o momento de todas as coisas
A música da noite iluminada.
O ritmo do teu corpo no meu corpo...
O giro suave da valsa longínqua, da valsa suspensa...
Meu peito vivendo teu peito
Meus olhos bebendo teus olhos, bebendo teu rosto...
E a vontade de chorar que vinha de todas as coisas.
1 299
Martha Medeiros
quem é você dentro de mim
quem é você dentro de mim
que não teme a opinião alheia
que se alimenta de dinamite
que explodindo não incendeia
quem é você por trás dos meus atos
que quando concordo suspeita
que quando aceito discorda
que quando adormeço não deita
quem é você escondida em meu corpo
que arranca as folhas da agenda
que vive fazendo a minha mala
que não reconhece a minha letra
quem é você invisível no espelho
que sempre me despenteia
que não teme a opinião alheia
que se alimenta de dinamite
que explodindo não incendeia
quem é você por trás dos meus atos
que quando concordo suspeita
que quando aceito discorda
que quando adormeço não deita
quem é você escondida em meu corpo
que arranca as folhas da agenda
que vive fazendo a minha mala
que não reconhece a minha letra
quem é você invisível no espelho
que sempre me despenteia
1 078
Martha Medeiros
estarei em torno dos quarenta
estarei em torno dos quarenta
já terei passado pela Grécia e pelo Egito
e por algumas dificuldades
terei mais rugas, não morarei mais nesta rua
meus manuscritos estarão publicados
terei dois filhos e voltarei a ler os livros
que li na adolescência
terei um pouco mais de paciência, menos medo
da verdade e vou deixar de herança
um segredo enfim revelado
já terei passado pela Grécia e pelo Egito
e por algumas dificuldades
terei mais rugas, não morarei mais nesta rua
meus manuscritos estarão publicados
terei dois filhos e voltarei a ler os livros
que li na adolescência
terei um pouco mais de paciência, menos medo
da verdade e vou deixar de herança
um segredo enfim revelado
1 105
Martha Medeiros
cinderela insone
cinderela insone
idade postiça
decote remunerado
recheio de silicone
coxas de paetê
oferta de camelô
bustiê bordô
carinha de fome
idade postiça
decote remunerado
recheio de silicone
coxas de paetê
oferta de camelô
bustiê bordô
carinha de fome
1 107
Martha Medeiros
não passem batom nos meus lábios
não passem batom nos meus lábios
nem esmalte em unhas que não crescem mais
nada de rímel em olhos fechados
nem beijos de despedida
serei um dia a mais pálida e forte
será da morte o encargo de me levar vestida
nem esmalte em unhas que não crescem mais
nada de rímel em olhos fechados
nem beijos de despedida
serei um dia a mais pálida e forte
será da morte o encargo de me levar vestida
1 141
Martha Medeiros
ele corre
ele corre
e abre a grande angular
eu foco a fantasia
e a gente ri que dói
ele Fórmula 1
eu capa da Playboy
e abre a grande angular
eu foco a fantasia
e a gente ri que dói
ele Fórmula 1
eu capa da Playboy
1 173
Martha Medeiros
duas longas lindas
duas longas lindas
pernas no divã
convido pro cinema o analista
e resolvo este problema
amanhã
pernas no divã
convido pro cinema o analista
e resolvo este problema
amanhã
1 100
Martha Medeiros
tango ensaiado
tango ensaiado
boca pintada
só de danada
lasco um decote
profundo
rosa vermelha
batom maravilha
só de rasteira
lasco um pingente
na orelha
don’t cry for me
segunda-feira
boca pintada
só de danada
lasco um decote
profundo
rosa vermelha
batom maravilha
só de rasteira
lasco um pingente
na orelha
don’t cry for me
segunda-feira
1 091
Martha Medeiros
quero um homem quente
quero um homem quente
que me queira beijar fundo e único
que me queira cheirar
mundo e tímido
que me queira beijar fundo e único
que me queira cheirar
mundo e tímido
1 076
Martha Medeiros
rock
rock
me faz sentir
de preto
gostosa
me faz dançar o pelo
me pela
me faz sentar de cócoras
me faz sentir
de preto
gostosa
me faz dançar o pelo
me pela
me faz sentar de cócoras
1 100
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vi. Eu Vos Direi a Grande Praia Branca
Eu vos direi a grande praia branca
E os homens nus e negros que dançavam
Pra sustentar o céu com suas lanças
1982
E os homens nus e negros que dançavam
Pra sustentar o céu com suas lanças
1982
1 175
Sophia de Mello Breyner Andresen
V. (O Auriga)
A nudez dos pés que o escultor modelou com amor e minúcia
Mostra a pura nudez do teu estar na terra
A longa túnica em seu recto cair diz o austero
Aprumo de prumo da tua juventude
O pulso fino a concisa mão divina dizem
O pensamento rápido e subtil como Athena
E a vontade sensível e serena:
A ti mesmo te guias como a teus cavalos
Os beiços de seiva inchados como fruto
Dizem o teu amor da vida extasiado e grave
E sob as pestanas de bronze nos olhos de esmalte e de ónix
Fita-nos a tua paixão tranquila
O teu projecto
De em ti mesmo celebrares a ordem natural do divino
O número imanente
Mostra a pura nudez do teu estar na terra
A longa túnica em seu recto cair diz o austero
Aprumo de prumo da tua juventude
O pulso fino a concisa mão divina dizem
O pensamento rápido e subtil como Athena
E a vontade sensível e serena:
A ti mesmo te guias como a teus cavalos
Os beiços de seiva inchados como fruto
Dizem o teu amor da vida extasiado e grave
E sob as pestanas de bronze nos olhos de esmalte e de ónix
Fita-nos a tua paixão tranquila
O teu projecto
De em ti mesmo celebrares a ordem natural do divino
O número imanente
1 240
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Rapariga E a Praia
Uma rapariga vai como uma espiga
São cor de areia suas pernas finas
Seu íris é azul verde e cinzento
Uma rapariga vai como uma espiga
Carnal e cereal intacta cerrada
Mas nela enterra sua faca o vento
E tudo espalha com suas mãos o vento
São cor de areia suas pernas finas
Seu íris é azul verde e cinzento
Uma rapariga vai como uma espiga
Carnal e cereal intacta cerrada
Mas nela enterra sua faca o vento
E tudo espalha com suas mãos o vento
1 304
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vii. Eros, Neera, Sacudiu Os Seus
Eros, Neera, sacudiu os seus
Cabelos sobre a testa larga e baixa
Eros-Neera-Antinoos
Irrompe no terraço.
Palmeiras nas ruínas de Palmira.
Eros poisou seu rosto no teu ombro,
Eros soltou as feras
Do halali, Neera.
Cabelos sobre a testa larga e baixa
Eros-Neera-Antinoos
Irrompe no terraço.
Palmeiras nas ruínas de Palmira.
Eros poisou seu rosto no teu ombro,
Eros soltou as feras
Do halali, Neera.
1 132
Sophia de Mello Breyner Andresen
Eurydice
O teu rosto era mais antigo do que todos os navios
No gesto branco das tuas mãos de pedra
Ondas erguiam seu quebrar de pulso
Em ti eu celebrei minha união com a terra
No gesto branco das tuas mãos de pedra
Ondas erguiam seu quebrar de pulso
Em ti eu celebrei minha união com a terra
1 193
Sophia de Mello Breyner Andresen
Torso
Torcendo o torso virava o volante da escavadora
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas
Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos de Pérgamo
Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos
Ao cair da tarde num Setembro do século XX
Na estrada que vai de Patras para Atenas
Combatia no poente sua beleza helenística
As massas musculares inchadas pelo esforço
Construíam o tumulto de clarão e sombra
Que dobra os corpos dos deuses já perdidos
Dos frisos de Pérgamo
Pois também no poente onde eu habito
Os deuses são vencidos
1 272
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iii. Nus Se Banharam Em Grandes Praias Lisas
Nus se banharam em grandes praias lisas
Outros se perderam no repentino azul dos temporais
1982
Outros se perderam no repentino azul dos temporais
1982
1 289
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iii. (Antinoos)
Noite diurna
Até à mais funda limpidez do instinto
Sob os teus cabelos em anel sombria vinha
Corpo terrestre e solene como o azul mais aceso da montanha
O quase imóvel fogo dos teus beiços
Pesa como o fruto pleno no rumor de brisa da árvore
Porta aberta para toda a natureza
É através de ti que os meus rios caminham como veias
Novilho de testa curta no secreto silêncio do bosque
Sobre os teus ombros poisa terrível o meio-dia
Do divino celebrado no terrestre
Até à mais funda limpidez do instinto
Sob os teus cabelos em anel sombria vinha
Corpo terrestre e solene como o azul mais aceso da montanha
O quase imóvel fogo dos teus beiços
Pesa como o fruto pleno no rumor de brisa da árvore
Porta aberta para toda a natureza
É através de ti que os meus rios caminham como veias
Novilho de testa curta no secreto silêncio do bosque
Sobre os teus ombros poisa terrível o meio-dia
Do divino celebrado no terrestre
1 107
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Vaga
Como toiro arremete
Mas sacode a crina
Como cavalgada
Seu próprio cavalo
Como cavaleiro
Força e chicoteia
Porém é mulher
Deitada na areia
Ou é bailarina
Que sem pés passeia
Mas sacode a crina
Como cavalgada
Seu próprio cavalo
Como cavaleiro
Força e chicoteia
Porém é mulher
Deitada na areia
Ou é bailarina
Que sem pés passeia
1 639
Sophia de Mello Breyner Andresen
X. Aparição
Devagar devagar um homem morre
Escura no jardim a noite se abre
A noite com miríades de estrelas
Cintilantes límpidas sem mácula
Veloz veloz o sangue foge
Já não ouve cantar o moribundo
Sua interior exaltação antiga
Uma ferida no seu flanco o mata
Somente em sua frente vê paredes
Paredes onde o branco se retrata
Seus olhos devagar ficam de vidro
Uma ferida no seu flanco o mata
Já não tem esplendor nem tem beleza
Já não é semelhante ao sol e à lua
Seu corpo já não lembra uma coluna
É feito de suor o seu vestido
A sua face é dor e morte crua
E devagar devagar o rosto surge
O rosto onde outro rosto se retrata
O rosto desde sempre pressentido
Por aquele que ao viver o mata
Seus traços seu perfil mostra
A morte como um escultor
Os traços e o perfil
Da semelhança interior.
Escura no jardim a noite se abre
A noite com miríades de estrelas
Cintilantes límpidas sem mácula
Veloz veloz o sangue foge
Já não ouve cantar o moribundo
Sua interior exaltação antiga
Uma ferida no seu flanco o mata
Somente em sua frente vê paredes
Paredes onde o branco se retrata
Seus olhos devagar ficam de vidro
Uma ferida no seu flanco o mata
Já não tem esplendor nem tem beleza
Já não é semelhante ao sol e à lua
Seu corpo já não lembra uma coluna
É feito de suor o seu vestido
A sua face é dor e morte crua
E devagar devagar o rosto surge
O rosto onde outro rosto se retrata
O rosto desde sempre pressentido
Por aquele que ao viver o mata
Seus traços seu perfil mostra
A morte como um escultor
Os traços e o perfil
Da semelhança interior.
1 923
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iv. o Encontro
Redonda era a tarde
Sossegada e lisa
Na margem do rio
Alguém se despia.
Sozinho o cigano
Sozinho na tarde
Na margem do rio
Seu corpo surgia
Brilhante da água
Semelhante à lua
Que se vê de dia
Semelhante à lua
E semelhante ao brilho
De uma faca nua.
Redonda era a tarde.
Sossegada e lisa
Na margem do rio
Alguém se despia.
Sozinho o cigano
Sozinho na tarde
Na margem do rio
Seu corpo surgia
Brilhante da água
Semelhante à lua
Que se vê de dia
Semelhante à lua
E semelhante ao brilho
De uma faca nua.
Redonda era a tarde.
1 772
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sequência
A sua face transpôs os temporais
O vento azul rolou entre os seus braços
A penumbra subiu e rodeou
O seu rosto aceso as suas mãos iguais
Dos seus ombros nasceram as estátuas
E o gesto dos seus dedos
Encantou os navios
Baloiça um enforcado na baía
Mãos sem corpo levam castiçais
Uma cortina enrola-se na brisa
Uma porta bate e de repente
Um corredor fica vazio.
O vento azul rolou entre os seus braços
A penumbra subiu e rodeou
O seu rosto aceso as suas mãos iguais
Dos seus ombros nasceram as estátuas
E o gesto dos seus dedos
Encantou os navios
Baloiça um enforcado na baía
Mãos sem corpo levam castiçais
Uma cortina enrola-se na brisa
Uma porta bate e de repente
Um corredor fica vazio.
1 339