Poemas neste tema
Corpo
António Ramos Rosa
Dá-Me a Cor do Tempo
Dá-me a cor do tempo
numa lâmpada
formada pela carícia
das tuas mãos sedentas.
numa lâmpada
formada pela carícia
das tuas mãos sedentas.
945
António Ramos Rosa
Enquanto Estamos Vivos
Enquanto estamos vivos
procuramos saber e, mais do que saber,
o sabor que dilata espesso e fúlgido
e que queima como uma axila ou como um púbis
e é nostalgia, paixão, ignorância,
vazio vibrante
e a delícia sem máscaras em que o ar resplandece.
procuramos saber e, mais do que saber,
o sabor que dilata espesso e fúlgido
e que queima como uma axila ou como um púbis
e é nostalgia, paixão, ignorância,
vazio vibrante
e a delícia sem máscaras em que o ar resplandece.
967
António Ramos Rosa
O Corpo do Vento
Obstinado, volve o vento a areia. Sulcos ou palavras de metal alegre e trémulo, despertas e ao acaso, embriagadas de vento, voltijantes, fugidias. De que boca ou lâmpada saiu este vento que revolve a areia como um corpo? Obstinado, leve, invade, confunde, acaricia, sonha. Abre suavemente lábios, inscreve delicadamente umbigos, modela seios, desenha púbis evanescentes. É um corpo, um corpo de vento que voltija, incandescente, na geometria branca do ar. Que são as palavras agora se não forem as pétalas deste corpo vertiginoso? Elas correm, elas querem nascer entre os cabelos e o mar, como lâmpadas verdes, como latidos nupciais.
1 300
António Ramos Rosa
A Terra
Um corpo estende-se no pó, entre estrelas, paredes, folhas. Tem o céu inteiro sobre a sombra intacta. A plenitude do espaço é um relâmpago perfeito. A grande respiração da noite, cálida e serena, é a língua da unidade com os seus cães e astros gloriosos. A distância já não anula nem separa na sua única vibração monótona. Tudo se reúne e se compreende sob a sombra da noite porque a terra nos rodeia sem confusão nem imagens ilusórias. A terra é agora um barco tranquilo. Abertas estão as portas do mundo silencioso adormecido e vivo.
1 079
António Ramos Rosa
A Palavra Viva
Muro em vez de boca, cal em vez de língua. Boca em vez de muro, língua em vez de cal. Um ímpeto, uma cor, uma mancha, uma marca escrita, um círculo de terra, uma coisa viva. Tantos astros de areia, tantos rostos de pedra! E o céu vasto, redondo, completo, os vultos vivos, ligeiros, matinais. Ritmo, crescimento, inundação. Por toda a parte o silencioso calor de um animal aéreo. O mundo acendeu-se com as suas árvores transparentes. Tudo é fácil, tudo é fluido. Suavemente vazio, na nudez intacta, o corpo escreve com a espuma do ar.
1 165
António Ramos Rosa
O Silêncio No Corpo
Procuro o espaço, procuro o corpo. Escrevo, não para confirmar, mas para descobrir, para iniciar. Como que procuro o gesto que seja o gesto do ar, que inaugure um lugar aberto e transparente. A substância é imponderável, nada prescreve a ordem libertadora, não a conheço, não a pressinto no silêncio e na ausência. Continuo todavia à superfície e é aí, entre a folhagem das letras, que a palavra pode consumar-se e abrir o espaço inteiro. O silêncio que escuto é o silêncio dela e pela sua própria ausência ela me é de algum modo sempre presente. Não posso ouvi-la, mas sem palavras ou mesmo através delas, bebo inteiramente o seu silêncio. Dentro do corpo, o sono, o sangue, a sombra da palavra. A plenitude de uma nascente serena. Não será já preciso dizer a frase que abriria o espaço e inauguraria o lugar aberto e transparente?
1 195
António Ramos Rosa
Em Todo o Corpo Lúcido
Em todo o corpo lúcido
a luz e a música
com o brilho da brisa
e os véus vegetais.
a luz e a música
com o brilho da brisa
e os véus vegetais.
907
António Ramos Rosa
Tenaz Tambor
Tenaz tambor
através de fibras e veias
como uma fonte absoluta.
através de fibras e veias
como uma fonte absoluta.
1 114
António Ramos Rosa
Corpo Nocturno
Suspenso de uma varanda nocturna, na densa evanescência da noite, quem escuta, quem vê as sílabas derrubadas, as vogais e as gotas noctâmbulas, as miríades estilhaçadas de um dédalo que é talvez o corpo incendiado, o corpo inacessível? Todo o desejo é desejo de espaço e das gargantas que o habitam, despertas, vivíssimas. Um sombrio sangue mistura-se à espuma do ar, combina-se com o silêncio das árvores, penetra nas bocas com um delicado calor. Breve maravilha imóvel. Que música de minúcias leves! É apenas um lábio ou uma boca que crepita na sombra? Os ombros respiram como barcos, as palavras enrolam-se como folhas calmas no corpo que se abandona à terra numa obscura e ardente lucidez.
1 181
António Ramos Rosa
Eu Vi o Corpo Em Fogo
Eu vi o ouro e o desenho de água que vibrava
em suaves membros, em veios de alegria,
e numa trança cintilante e curva. Vi o corpo em fogo
e vi a sua música, a transparência ardente e alta,
as suas sílabas fulvas, as suas lâmpadas verdes.
Era um incêndio claro e uma vertigem lenta
e uma melodia vagarosa, aérea
e um riso da folhagem e uma coluna transparente.
Não era a cinza trémula, nem uma obscura pomba.
Era uma lisura de estar nos seus contornos leves
e um ardor feliz de lâmpada que descia
num gracioso vagar uma colina repousada.
Acendia-se o lugar que somos na matéria amorosa
e as nascentes jorravam num delírio de brancura.
As palavras renasciam nas sílabas vermelhas.
em suaves membros, em veios de alegria,
e numa trança cintilante e curva. Vi o corpo em fogo
e vi a sua música, a transparência ardente e alta,
as suas sílabas fulvas, as suas lâmpadas verdes.
Era um incêndio claro e uma vertigem lenta
e uma melodia vagarosa, aérea
e um riso da folhagem e uma coluna transparente.
Não era a cinza trémula, nem uma obscura pomba.
Era uma lisura de estar nos seus contornos leves
e um ardor feliz de lâmpada que descia
num gracioso vagar uma colina repousada.
Acendia-se o lugar que somos na matéria amorosa
e as nascentes jorravam num delírio de brancura.
As palavras renasciam nas sílabas vermelhas.
957
António Ramos Rosa
Sobre o Seu Sono Ardente
Sobre o seu sono ardente, sobre o seu corpo
sonoro, esta dança da escrita, esta obscura
mão. Entre um vaso de sangue e um vaso de cinza
o poema ergue uma arcada branca. Como a fuga de um pássaro
a palavra levanta-se dos ombros, o mundo recomeça.
Tão fluida é a felicidade das sílabas, tão lúcidas
as câmaras onde se anuncia o sangue. Tão claro é o ritmo
por um nome silencioso que circula em minhas veias.
Já não sonho, conheço o gérmen e a sua dança imóvel,
durmo nas virilhas de uma ilha incandescente.
Recebo as ondas da inteligência mais suave,
a água do seu corpo é mais leve que a das árvores.
O mundo dança em torno da sua cintura verde.
Uma sede se desenha nos vocábulos vibrantes.
O olhar vê com a boca o ouro azul.
sonoro, esta dança da escrita, esta obscura
mão. Entre um vaso de sangue e um vaso de cinza
o poema ergue uma arcada branca. Como a fuga de um pássaro
a palavra levanta-se dos ombros, o mundo recomeça.
Tão fluida é a felicidade das sílabas, tão lúcidas
as câmaras onde se anuncia o sangue. Tão claro é o ritmo
por um nome silencioso que circula em minhas veias.
Já não sonho, conheço o gérmen e a sua dança imóvel,
durmo nas virilhas de uma ilha incandescente.
Recebo as ondas da inteligência mais suave,
a água do seu corpo é mais leve que a das árvores.
O mundo dança em torno da sua cintura verde.
Uma sede se desenha nos vocábulos vibrantes.
O olhar vê com a boca o ouro azul.
1 048
António Ramos Rosa
O Crescimento Escreve
A trama é verde num clima de brancura.
O crescimento escreve. Como uma flor se forma
em eficaz simplicidade. A energia é lenta
de uma lentidão silenciosa. Somos um fragmento
de um obstinado discurso de brancos arabescos.
Matéria porosa, transparente. Eclosão de torsos
sumptuosos, delicados. Génese violenta, límpida
dos corpos. Lisas, flexíveis, insinuantes formas.
O olhar vê e adere e escreve as carícias voluptuosas
deste caminho silencioso. Em fogo, em água, em terra
e ar. Que multidão tão branca e nua,
que exuberância calma, que prodígio aberto!
A afirmação do fundo é evidência aérea.
A luz nasce da água, tudo está suspenso,
as figuras dançam no círculo do princípio.
O crescimento escreve. Como uma flor se forma
em eficaz simplicidade. A energia é lenta
de uma lentidão silenciosa. Somos um fragmento
de um obstinado discurso de brancos arabescos.
Matéria porosa, transparente. Eclosão de torsos
sumptuosos, delicados. Génese violenta, límpida
dos corpos. Lisas, flexíveis, insinuantes formas.
O olhar vê e adere e escreve as carícias voluptuosas
deste caminho silencioso. Em fogo, em água, em terra
e ar. Que multidão tão branca e nua,
que exuberância calma, que prodígio aberto!
A afirmação do fundo é evidência aérea.
A luz nasce da água, tudo está suspenso,
as figuras dançam no círculo do princípio.
1 036
António Ramos Rosa
A Casa do Mar
Esta é a casa na areia incerta e fresca.
Um rio a atravessa no coração dos nomes.
Quantas pedras sólidas, quantas arestas vivas!
Enlaço-te na frescura das folhas que estremecem.
Nas cavernas de sombras há um odor a chuva e vento.
Uma sílaba no silêncio, uma sílaba vermelha
como se o coração batesse no coração da noite.
Quantos rostos habitam uma só face imóvel,
quanta invenção de espuma nas bocas distraídas!
A minha pele grita o ardor de uma frase única.
Cada coisa cintila na pupila luminosa
abrindo em música o sítio do abandono.
As veias das pétalas são palavras minúsculas.
A sombra se conhece em redonda suavidade.
A escrita respira onde o mar principia.
Um rio a atravessa no coração dos nomes.
Quantas pedras sólidas, quantas arestas vivas!
Enlaço-te na frescura das folhas que estremecem.
Nas cavernas de sombras há um odor a chuva e vento.
Uma sílaba no silêncio, uma sílaba vermelha
como se o coração batesse no coração da noite.
Quantos rostos habitam uma só face imóvel,
quanta invenção de espuma nas bocas distraídas!
A minha pele grita o ardor de uma frase única.
Cada coisa cintila na pupila luminosa
abrindo em música o sítio do abandono.
As veias das pétalas são palavras minúsculas.
A sombra se conhece em redonda suavidade.
A escrita respira onde o mar principia.
1 072
António Ramos Rosa
O Presente Absoluto
Duas bocas descobrem o veludo incandescente
e saboreiam o sabor perfeito de um fruto liso
que é um sumo do universo. Com a sua espuma constante
os amantes tecem uma abóbada leve de seda e espaço.
Vivem num volume cintilante o presente absoluto.
Corpos encerrados em superfícies delicadas
abrem-se como velas vermelhas e o calor brilha,
clareiras acendem-se numa tranquilidade branca,
os olhos embriagam-se de miríades de cores
e todos os vocábulos são recentes como o orvalho.
Criam a origem pela origem, num corpo duplo e uno,
transformam-se subindo morrendo em verde orgia,
inertes renascem de onda em onda radiantes,
reconhecem-se no vento que os expande e os dissolve,
o mundo é uma brecha um esplendor um redemoinho.
e saboreiam o sabor perfeito de um fruto liso
que é um sumo do universo. Com a sua espuma constante
os amantes tecem uma abóbada leve de seda e espaço.
Vivem num volume cintilante o presente absoluto.
Corpos encerrados em superfícies delicadas
abrem-se como velas vermelhas e o calor brilha,
clareiras acendem-se numa tranquilidade branca,
os olhos embriagam-se de miríades de cores
e todos os vocábulos são recentes como o orvalho.
Criam a origem pela origem, num corpo duplo e uno,
transformam-se subindo morrendo em verde orgia,
inertes renascem de onda em onda radiantes,
reconhecem-se no vento que os expande e os dissolve,
o mundo é uma brecha um esplendor um redemoinho.
899
António Ramos Rosa
Um Rio
Um rio entre as nuvens, um rio que tu ignoras,
um rio de mãos e de árvores, um rio de música
e de ilhas, um rio do alento, um rio de argila.
Delicadas formas na espuma e nas areias.
O corpo sente o vaivém melodioso e vazio.
São figuras que adormecem na luz entre os navios?
Quem vê, ama o segredo na evidência fugitiva.
A seiva respira a luz mais pura e mais ligeira.
O silêncio é uma atitude obscura e uma ponte,
a passagem de um olhar nos vales amorosos.
Conheço a linguagem da pedra e a linguagem da água.
Acumulo e desfaço, penetro e abro espaços.
Estas palavras são o movimento dos teus cílios.
Apreendo um fulgor, uma música quase imóvel.
Confundo-me com o rumor da tua vida que respira.
um rio de mãos e de árvores, um rio de música
e de ilhas, um rio do alento, um rio de argila.
Delicadas formas na espuma e nas areias.
O corpo sente o vaivém melodioso e vazio.
São figuras que adormecem na luz entre os navios?
Quem vê, ama o segredo na evidência fugitiva.
A seiva respira a luz mais pura e mais ligeira.
O silêncio é uma atitude obscura e uma ponte,
a passagem de um olhar nos vales amorosos.
Conheço a linguagem da pedra e a linguagem da água.
Acumulo e desfaço, penetro e abro espaços.
Estas palavras são o movimento dos teus cílios.
Apreendo um fulgor, uma música quase imóvel.
Confundo-me com o rumor da tua vida que respira.
1 136
António Ramos Rosa
A Mulher
Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura
e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.
Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura
e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.
Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.
1 256
António Ramos Rosa
Violenta No Obscuro
Por ímpetos de acaso tacteias o obscuro
violentamente nua na loucura das sílabas.
Com a agilidade do vento atravessas florestas
e torrentes. Num branco turbilhão te envolves
até te confundires toda com a areia
e a água. Não tens ainda um rosto, não inventaste
o rosto. Teus ombros acordam e devastam.
Propagas-te sem caminhos na fúria do desejo.
Entre pastores obscuros fertilizas a distância.
Sobes à tua sombra, mais vermelha do que nunca.
Em tuas formas de fogo e sangue e sémen
segues uma ordem secreta, uma coerência natural.
Quem poderá dizer, dançando como danças,
como vais terminar? Tu principias sempre.
És o corpo inesperado que se abre a todo o espaço.
violentamente nua na loucura das sílabas.
Com a agilidade do vento atravessas florestas
e torrentes. Num branco turbilhão te envolves
até te confundires toda com a areia
e a água. Não tens ainda um rosto, não inventaste
o rosto. Teus ombros acordam e devastam.
Propagas-te sem caminhos na fúria do desejo.
Entre pastores obscuros fertilizas a distância.
Sobes à tua sombra, mais vermelha do que nunca.
Em tuas formas de fogo e sangue e sémen
segues uma ordem secreta, uma coerência natural.
Quem poderá dizer, dançando como danças,
como vais terminar? Tu principias sempre.
És o corpo inesperado que se abre a todo o espaço.
553
António Ramos Rosa
Encontro
Como nasceste? Amadurecia o mundo. Ó impaciência
alegre, ó aérea sombra do desejo, ó dura sede
dos teus brilhos gloriosos, ó cabeleira vibrante,
fogo que me consome, folha iluminada,
extensa como uma praia viva e oferecida.
Todo o mistério te envolve enquanto a terra gira
com uma suave cabeça. Não sei o que é morrer.
Que brancas estrelas num mar constante e puro!
Somos, estamos na luz e no silêncio, num tranquilo presente.
Rimos entre folhas verdes, no calor das pedras.
É a terra que ascende, que tu acaricias,
é um voo de dois corpos em vagarosos relâmpagos,
é a espuma que arde, é o ar na liberdade das pétalas.
Que leveza ardente para o cimo com os teus olhos lentos,
ó recém-nascida, ó ignorante, ó viva!
alegre, ó aérea sombra do desejo, ó dura sede
dos teus brilhos gloriosos, ó cabeleira vibrante,
fogo que me consome, folha iluminada,
extensa como uma praia viva e oferecida.
Todo o mistério te envolve enquanto a terra gira
com uma suave cabeça. Não sei o que é morrer.
Que brancas estrelas num mar constante e puro!
Somos, estamos na luz e no silêncio, num tranquilo presente.
Rimos entre folhas verdes, no calor das pedras.
É a terra que ascende, que tu acaricias,
é um voo de dois corpos em vagarosos relâmpagos,
é a espuma que arde, é o ar na liberdade das pétalas.
Que leveza ardente para o cimo com os teus olhos lentos,
ó recém-nascida, ó ignorante, ó viva!
1 026
António Ramos Rosa
Oscilando Na Ligeireza
Urdindo talvez a água e as lâmpadas de madeira.
Abandonando ao ócio o tempo e as suas rodas cinzentas.
Oscilando na ligeireza, aliado ao vigor da sombra.
Linhas, linhas em radiações vagarosas, lúcidas.
A orfandade encontrou a clareira harmoniosa.
Em uníssono com a folhagem numa suavidade de seda
penetro num prisma onde tudo é reverência.
Carícias e carícias lavam o corpo ferido.
O ouro mais vibrante sai de incessantes ilhas.
Já não luto. Dilato-me. Pertenço.
Outros nomes, outros frémitos, noutros campos
que uma inteligência de dança transformou.
Escuto milhares de folhas e não palavras surdas.
Um declive me aspira num espaço adolescente.
Tenho a facilidade verde e a volúpia das vogais.
Abandonando ao ócio o tempo e as suas rodas cinzentas.
Oscilando na ligeireza, aliado ao vigor da sombra.
Linhas, linhas em radiações vagarosas, lúcidas.
A orfandade encontrou a clareira harmoniosa.
Em uníssono com a folhagem numa suavidade de seda
penetro num prisma onde tudo é reverência.
Carícias e carícias lavam o corpo ferido.
O ouro mais vibrante sai de incessantes ilhas.
Já não luto. Dilato-me. Pertenço.
Outros nomes, outros frémitos, noutros campos
que uma inteligência de dança transformou.
Escuto milhares de folhas e não palavras surdas.
Um declive me aspira num espaço adolescente.
Tenho a facilidade verde e a volúpia das vogais.
1 046
António Ramos Rosa
Escrevo Para o Teu Corpo
Escrevo para os teus olhos errantes, para o teu corpo
nupcial. Sou um incerto insecto num vaivém
de sílabas nuas, espessas. Reconheço-te no vinho
e na pedra. Amo o teu grito de árvore,
amo o móvel repouso das tuas veias escritas.
No tumulto do solo vejo os anéis de musgo,
as bocas circulares, as artérias brancas,
as estridências verdes, voluptuosas estâncias,
obscuridades côncavas, sedosas
pausas. Tudo se desenha na claridade
verde. É o barco da terra,
o campo da espessura incandescente,
o fundo completo da ausência respirada,
a sombra que incendeia, a redonda
e nocturna transparência.
nupcial. Sou um incerto insecto num vaivém
de sílabas nuas, espessas. Reconheço-te no vinho
e na pedra. Amo o teu grito de árvore,
amo o móvel repouso das tuas veias escritas.
No tumulto do solo vejo os anéis de musgo,
as bocas circulares, as artérias brancas,
as estridências verdes, voluptuosas estâncias,
obscuridades côncavas, sedosas
pausas. Tudo se desenha na claridade
verde. É o barco da terra,
o campo da espessura incandescente,
o fundo completo da ausência respirada,
a sombra que incendeia, a redonda
e nocturna transparência.
958
António Ramos Rosa
Nascimento
Na sua pele azulada e branca de astros
estão os anéis em que se inscreve o universo.
As galáxias brilham nos seus olhos. O orvalho vibra.
Ela é o canto de todas as palavras, de todas as carícias.
Solidão e fogo, plenitude, espuma, velocidade ardente.
Quem escreve este corpo escreve o latido do sangue,
a cabeça estrelada, o calor delicado? Quem modela
metal ou música, silêncio vegetal, ondas, espaços?
Uma colina, um ombro. Uma cabeleira respira. Vertiginosa ternura.
O mundo principia leve sob uma imensa pálpebra.
Longínqua sempre no silêncio entreaberto
com a larga lentidão dos músculos dos rios,
tão semelhantes à terra em seus anéis de sombra e musgo
e de água e luz, e o mar nos seus joelhos.
Tu nasces dos seus flancos e da sua branca membrana.
estão os anéis em que se inscreve o universo.
As galáxias brilham nos seus olhos. O orvalho vibra.
Ela é o canto de todas as palavras, de todas as carícias.
Solidão e fogo, plenitude, espuma, velocidade ardente.
Quem escreve este corpo escreve o latido do sangue,
a cabeça estrelada, o calor delicado? Quem modela
metal ou música, silêncio vegetal, ondas, espaços?
Uma colina, um ombro. Uma cabeleira respira. Vertiginosa ternura.
O mundo principia leve sob uma imensa pálpebra.
Longínqua sempre no silêncio entreaberto
com a larga lentidão dos músculos dos rios,
tão semelhantes à terra em seus anéis de sombra e musgo
e de água e luz, e o mar nos seus joelhos.
Tu nasces dos seus flancos e da sua branca membrana.
1 079
António Ramos Rosa
O Que Designa o Desejo
O que designa o desejo, os primeiros dedos da água,
as colinas redondas, o orvalho sobre o seio,
alguma vespa febril, esguias formas nuas,
um animal, uma onda ou sucessivas ondas
de esfera em esfera e em espiral subindo.
Terrível turbilhão, prodigiosa dança
em que a energia se expande em oceanos de espaço
e os relâmpagos são lábios ou folhas que se alongam.
Que ligeira espuma nos dentes, que brisas tão marinhas,
que oscilantes planetas, que perfeitas carícias!
O ardor da terra canta a capacidade de estrela.
Palavras, mas só redondas pedras, corolas
de sangue, lâminas, ombros, garganta,
veias. Os cavalos remotos libertaram-se.
São longos os campos de seda acariciados.
as colinas redondas, o orvalho sobre o seio,
alguma vespa febril, esguias formas nuas,
um animal, uma onda ou sucessivas ondas
de esfera em esfera e em espiral subindo.
Terrível turbilhão, prodigiosa dança
em que a energia se expande em oceanos de espaço
e os relâmpagos são lábios ou folhas que se alongam.
Que ligeira espuma nos dentes, que brisas tão marinhas,
que oscilantes planetas, que perfeitas carícias!
O ardor da terra canta a capacidade de estrela.
Palavras, mas só redondas pedras, corolas
de sangue, lâminas, ombros, garganta,
veias. Os cavalos remotos libertaram-se.
São longos os campos de seda acariciados.
987
António Ramos Rosa
O Corpo E a Leitura
É talvez o sopro do horizonte, talvez o vento
que abre a corola do ventre na leitura
em que a sombra canta. E repentinos
entre árvores e aromas de planetas,
num túmido tumulto os potros saltam.
A mão quase toca as hastes e as nervuras
de um país que aflora num deslumbramento.
Uma atenção de antenas mais subtil e livre
vai seguindo o canto em que se move o fundo
incandescente. De cada sombra líquida desenreda-se
o globo que é fogo e água e ar unificados.
A inumerável trama é todo o corpo aceso
que treme em cada linha. Os instrumentos
se desatam e erram e irradiam
em torno de uma falha ou de uma folha branca.
que abre a corola do ventre na leitura
em que a sombra canta. E repentinos
entre árvores e aromas de planetas,
num túmido tumulto os potros saltam.
A mão quase toca as hastes e as nervuras
de um país que aflora num deslumbramento.
Uma atenção de antenas mais subtil e livre
vai seguindo o canto em que se move o fundo
incandescente. De cada sombra líquida desenreda-se
o globo que é fogo e água e ar unificados.
A inumerável trama é todo o corpo aceso
que treme em cada linha. Os instrumentos
se desatam e erram e irradiam
em torno de uma falha ou de uma folha branca.
1 086
António Ramos Rosa
Dança
Dançam ligeiras nas varandas leves,
a nudez é para elas o veludo da pele
onde passa o sono e a sombra circular.
A nostalgia acende-se. Dilata-se a alegria.
As palavras respiram, obedecem aos anéis.
Boca aberta para a vogal inicial
que tudo pronuncia e nunca é pronunciada.
Deusa mais nua do que a noite, dúctil e concêntrica
deusa que modelas a perfeita forma e a desfazes
em miríades de formas incessantes. Génese
oval em que a carícia lavra em branco igual
até ao horizonte. Então o nada fulge
num côncavo habitável de aquática verdura.
Apagam-se, acendem-se os vasos da visão.
Ilumina-se o sono longínquo da matéria.
a nudez é para elas o veludo da pele
onde passa o sono e a sombra circular.
A nostalgia acende-se. Dilata-se a alegria.
As palavras respiram, obedecem aos anéis.
Boca aberta para a vogal inicial
que tudo pronuncia e nunca é pronunciada.
Deusa mais nua do que a noite, dúctil e concêntrica
deusa que modelas a perfeita forma e a desfazes
em miríades de formas incessantes. Génese
oval em que a carícia lavra em branco igual
até ao horizonte. Então o nada fulge
num côncavo habitável de aquática verdura.
Apagam-se, acendem-se os vasos da visão.
Ilumina-se o sono longínquo da matéria.
1 090