Poemas neste tema
Corpo
António Ramos Rosa
No Vértice Obscuro do Encontro
Como se abre um corpo? Como as águas descem
da tua cintura, como as mãos cegas se incendeiam?
Até ao vértice escuro do encontro, até à terrível margem
da sede. Um negro peixe do fundo gira entre os limos.
Entro no redemoinho: toda a sombra é meu corpo.
Eleva-se o amor com seus tentáculos para fundar a vertigem.
Quem cai em mim, quem ascende em minhas veias?
Obscura é a gruta, obscuras as delícias.
Um odor perfeito, um odor animal desprende-se da terra.
As raízes do corpo têm a força dos deuses.
Como se conquistássemos uma colina próxima do sol,
somos um corpo na veemente limpidez da água.
Distinguimos na luz uma luz desconhecida.
Que nitidez de alegria nas veias silenciosas!
Das gargantas da sombra sobem folhas ligeiras.
da tua cintura, como as mãos cegas se incendeiam?
Até ao vértice escuro do encontro, até à terrível margem
da sede. Um negro peixe do fundo gira entre os limos.
Entro no redemoinho: toda a sombra é meu corpo.
Eleva-se o amor com seus tentáculos para fundar a vertigem.
Quem cai em mim, quem ascende em minhas veias?
Obscura é a gruta, obscuras as delícias.
Um odor perfeito, um odor animal desprende-se da terra.
As raízes do corpo têm a força dos deuses.
Como se conquistássemos uma colina próxima do sol,
somos um corpo na veemente limpidez da água.
Distinguimos na luz uma luz desconhecida.
Que nitidez de alegria nas veias silenciosas!
Das gargantas da sombra sobem folhas ligeiras.
1 078
António Ramos Rosa
Extremamente Nua
Extremamente nua. E através dela a sombra
luminosa, a mais íntima coisa e a mais externa,
que aflora em ondas e folhas vulneráveis,
exposta como a lua na sua incerta malícia.
Ela é a ilusão essencial e completamente física
entre nuvens e árvores, entre pedras e ondas.
Quando a conhecemos dir-se-ia que anoitece
e que na escuridão entramos, num turbilhão de espuma.
São dela as imaculadas sílabas, o frágil timbre
cristalino, a delícia subtil dos lábios e do sexo.
Tocá-la é concebê-la na indolência perfeita
e com as palavras do mundo dizer a vida do mundo.
O real é uma invenção deste opaco amplexo
em que o prodígio é a simplicidade e a opulência
de uma ignorância que habita a medula dos sentidos.
luminosa, a mais íntima coisa e a mais externa,
que aflora em ondas e folhas vulneráveis,
exposta como a lua na sua incerta malícia.
Ela é a ilusão essencial e completamente física
entre nuvens e árvores, entre pedras e ondas.
Quando a conhecemos dir-se-ia que anoitece
e que na escuridão entramos, num turbilhão de espuma.
São dela as imaculadas sílabas, o frágil timbre
cristalino, a delícia subtil dos lábios e do sexo.
Tocá-la é concebê-la na indolência perfeita
e com as palavras do mundo dizer a vida do mundo.
O real é uma invenção deste opaco amplexo
em que o prodígio é a simplicidade e a opulência
de uma ignorância que habita a medula dos sentidos.
1 086
António Ramos Rosa
Uma Sombra
Perto do corpo, perto da alegria. Nasceu uma sombra
e abriu-se. E habitei-a bebendo a água limpa.
Era uma corola de sombra e um bosque de silêncio.
Quem cantava? Era o silêncio ou era um eco?
Dormi na água da sombra, numa clara solidão.
Nada me separava da terra, era uma lâmpada oculta
e iluminada pela sombra. Estendi-me na casa
e fluí abandonado nas suas veias verdes.
Entrava na água, entrava nos lábios da sombra
e o corpo abriu-se à frescura do olvido
num campo completo. Era o cristal da noite
e uma tristeza alta e transparente. Era um arco
de espuma entre as ervas e as pedras.
Quem cantava? Era uma semente no escuro,
era talvez o ser aberto oculto na sua sombra.
e abriu-se. E habitei-a bebendo a água limpa.
Era uma corola de sombra e um bosque de silêncio.
Quem cantava? Era o silêncio ou era um eco?
Dormi na água da sombra, numa clara solidão.
Nada me separava da terra, era uma lâmpada oculta
e iluminada pela sombra. Estendi-me na casa
e fluí abandonado nas suas veias verdes.
Entrava na água, entrava nos lábios da sombra
e o corpo abriu-se à frescura do olvido
num campo completo. Era o cristal da noite
e uma tristeza alta e transparente. Era um arco
de espuma entre as ervas e as pedras.
Quem cantava? Era uma semente no escuro,
era talvez o ser aberto oculto na sua sombra.
1 194
António Ramos Rosa
Escrita Ou Corpo
Ele prepara os incertos lugares. Escreve
o que escreveria um réptil pulsando sobre as pedras.
Segue a linha do braço da mulher até ao obscuro
lábio. Penetra na musgosa gruta
incandescente. Que perfume ancestral,
que orvalho ardente! Ele aprende a suavidade
da sombra e a luz de um aroma. É uma escrita
de voluptuosas armas nas páginas do vento.
Quando a pedra encontra a transparência
ou a transparência se tornou uma pedra,
abre-se o espaço das palavras que nós somos.
Monotonia alegre de uma serpente de água.
Que insensatez tão certa, nada começa, nada acaba.
Quantos astros cintilam sob as pálpebras!
Quantos barcos se acendem na folhagem!
o que escreveria um réptil pulsando sobre as pedras.
Segue a linha do braço da mulher até ao obscuro
lábio. Penetra na musgosa gruta
incandescente. Que perfume ancestral,
que orvalho ardente! Ele aprende a suavidade
da sombra e a luz de um aroma. É uma escrita
de voluptuosas armas nas páginas do vento.
Quando a pedra encontra a transparência
ou a transparência se tornou uma pedra,
abre-se o espaço das palavras que nós somos.
Monotonia alegre de uma serpente de água.
Que insensatez tão certa, nada começa, nada acaba.
Quantos astros cintilam sob as pálpebras!
Quantos barcos se acendem na folhagem!
580
António Ramos Rosa
Terraço de Alegria
Há um terraço de alegria onde desperta
o corpo do sono e onde se amplia
a substância do vento e a nua perfeição
de estar a uma mesa aberta ao horizonte
e em volta unânime a vegetal frescura.
Tudo apresenta campo ao corpo ardente
que em seus meandros busca o coração
do jogo cintilante e vivo. Uma estria
vinca-se ao ritmo da distância lúcida
que no centro se abre em transparência azul.
Inebriada a inteligência singra a superfície
em que se esquece e esquecendo-se respira
as pausas da residência imóvel da alegria
que habita como se fosse a história viva
que está suspensa e no entanto principia.
o corpo do sono e onde se amplia
a substância do vento e a nua perfeição
de estar a uma mesa aberta ao horizonte
e em volta unânime a vegetal frescura.
Tudo apresenta campo ao corpo ardente
que em seus meandros busca o coração
do jogo cintilante e vivo. Uma estria
vinca-se ao ritmo da distância lúcida
que no centro se abre em transparência azul.
Inebriada a inteligência singra a superfície
em que se esquece e esquecendo-se respira
as pausas da residência imóvel da alegria
que habita como se fosse a história viva
que está suspensa e no entanto principia.
1 051
António Ramos Rosa
A Substância Dos Amantes
No escuro círculo em que se expande a ferida
palpita o abismo de uma forma feminina.
Que corpo de nebulosas e de cinza, uma árvore ainda?
Como semear neste corpo o esperma cintilante?
Toda a energia toda a ternura toda a chama
poderão reacender a substância dos amantes?
Aqui, na saliva do sabor, no vazio do gérmen,
a força cresce para abolir e renascer
na órbita do vento em seus flancos de horizonte.
Vermelha é a corola que se abre ao espaço inteiro.
Uma única pulsação de árvore liberta,
sílaba plena de água e sol numa boca silenciosa,
nascente que se enreda nas árvores, numa lua lúcida,
braços que poderiam abraçar a cintura da terra,
amor do fundo com sangue onde se reflecte o firmamento.
palpita o abismo de uma forma feminina.
Que corpo de nebulosas e de cinza, uma árvore ainda?
Como semear neste corpo o esperma cintilante?
Toda a energia toda a ternura toda a chama
poderão reacender a substância dos amantes?
Aqui, na saliva do sabor, no vazio do gérmen,
a força cresce para abolir e renascer
na órbita do vento em seus flancos de horizonte.
Vermelha é a corola que se abre ao espaço inteiro.
Uma única pulsação de árvore liberta,
sílaba plena de água e sol numa boca silenciosa,
nascente que se enreda nas árvores, numa lua lúcida,
braços que poderiam abraçar a cintura da terra,
amor do fundo com sangue onde se reflecte o firmamento.
990
António Ramos Rosa
Na Esfera do Repouso
Abre-se o ventre ubiquamente no repouso
que o arqueia e estende ao horizonte.
Como regressa ao seio, como descansa
erguendo a torre branca no lugar do abismo!
Como uma só concha com os redondos membros
abre todo o espaço de velas harmoniosas.
Sossegado navio entre ramos e sombras.
Revolução lenta e clara entre colinas.
Move-se o fundo num vagar de anoitecer.
Alguém dorme na imóvel residência?
Na esfera em que repousa o pensamento é água
e feliz na luz que passa com o vento.
Nela se habita o vagar da roda rescendente.
O coração sabe que ama e vive, o desejo conhece
a cintura da terra entre as águas abertas.
que o arqueia e estende ao horizonte.
Como regressa ao seio, como descansa
erguendo a torre branca no lugar do abismo!
Como uma só concha com os redondos membros
abre todo o espaço de velas harmoniosas.
Sossegado navio entre ramos e sombras.
Revolução lenta e clara entre colinas.
Move-se o fundo num vagar de anoitecer.
Alguém dorme na imóvel residência?
Na esfera em que repousa o pensamento é água
e feliz na luz que passa com o vento.
Nela se habita o vagar da roda rescendente.
O coração sabe que ama e vive, o desejo conhece
a cintura da terra entre as águas abertas.
820
António Ramos Rosa
Descoberta
Ela procura o sílex e a pura sombra sossegada.
Um aroma nasce entre os cabelos, entre as páginas.
A cabeça ligeira inclina-se para uma incerta música.
Escreve com o seu hálito entre a espuma fugidia.
Sente o mundo rodar sob os seus pés, pressente o espaço.
Amanhece nos ombros ou é o mar nos ombros
e quase está no cimo. Ouvem-se pássaros silvestres
na espessura do estio. A sua garganta acende-se.
Quase feliz, beijada, ela descobre o mundo.
Sente o corpo vivo no vento, como um arbusto leve.
Já não existe e existe, o seu segredo abriu-se inteiro
no espaço. É um corpo quase transparente
que canta porque encontrou o mar. Não clama, não grita.
Toda a sua alegria é o silêncio de uma pedra ardente.
À beira de água é uma nuvem que se levanta de si mesma.
Um aroma nasce entre os cabelos, entre as páginas.
A cabeça ligeira inclina-se para uma incerta música.
Escreve com o seu hálito entre a espuma fugidia.
Sente o mundo rodar sob os seus pés, pressente o espaço.
Amanhece nos ombros ou é o mar nos ombros
e quase está no cimo. Ouvem-se pássaros silvestres
na espessura do estio. A sua garganta acende-se.
Quase feliz, beijada, ela descobre o mundo.
Sente o corpo vivo no vento, como um arbusto leve.
Já não existe e existe, o seu segredo abriu-se inteiro
no espaço. É um corpo quase transparente
que canta porque encontrou o mar. Não clama, não grita.
Toda a sua alegria é o silêncio de uma pedra ardente.
À beira de água é uma nuvem que se levanta de si mesma.
1 094
António Ramos Rosa
A Mulher Feliz
Está de pé sobre as brancas dunas. As ondas conduziram-na
e os ventos empurraram-na. Está ali, na perfeição redonda
da oferenda. E como que adormece no esplendor sereno.
Diz luz porque diz agora e és tu e sou eu, num círculo
só. Está embriagada de ar como uma forte lâmpada.
É uma área de equilíbrio, de movimentos flexíveis,
um repouso incendiado, a vitória de uma pedra.
Abrem-se fundas águas e um novo fogo aparece.
Que lentas são as folhas largas e as areias!
Que denso é este corpo, esta lua de argila!
Nua como uma pedra ardente, mais do que uma promessa
fulgurante, a amorosa presença de uma mulher feliz.
Nela dormem os pássaros, dormem os nomes puros.
Agora crepita a noite, as línguas que circulam.
Crescem, crescem os músculos da mais íntima distância.
e os ventos empurraram-na. Está ali, na perfeição redonda
da oferenda. E como que adormece no esplendor sereno.
Diz luz porque diz agora e és tu e sou eu, num círculo
só. Está embriagada de ar como uma forte lâmpada.
É uma área de equilíbrio, de movimentos flexíveis,
um repouso incendiado, a vitória de uma pedra.
Abrem-se fundas águas e um novo fogo aparece.
Que lentas são as folhas largas e as areias!
Que denso é este corpo, esta lua de argila!
Nua como uma pedra ardente, mais do que uma promessa
fulgurante, a amorosa presença de uma mulher feliz.
Nela dormem os pássaros, dormem os nomes puros.
Agora crepita a noite, as línguas que circulam.
Crescem, crescem os músculos da mais íntima distância.
1 247
António Ramos Rosa
Esta Lacuna
Esta lacuna à qual adiro, mais próxima do que a mão,
e que se estende branca, interrompida, aberta,
semelhante aos lábios. Serão palavras, serão pedras
as formas que diviso antes de qualquer caminho?
São figuras do ar, são evidências do ar?
O fogo dissimula-se no espaço, o fogo pronuncia
espaço. Volúveis os dedos oblíquos
seguem um sinuoso rosto. Avançam e separam
até que o sol e a terra se confundam
numa densa folhagem verde e silenciosa.
Na frescura das volutas é o vazio que respira
sem suporte e sem espessura. Tudo se obscurece
ou ilumina. Abro os olhos no centro.
Amo tudo o que é vivo, falo às pedras e aos ramos.
Perco-me e encontro-me na leveza do desejo.
e que se estende branca, interrompida, aberta,
semelhante aos lábios. Serão palavras, serão pedras
as formas que diviso antes de qualquer caminho?
São figuras do ar, são evidências do ar?
O fogo dissimula-se no espaço, o fogo pronuncia
espaço. Volúveis os dedos oblíquos
seguem um sinuoso rosto. Avançam e separam
até que o sol e a terra se confundam
numa densa folhagem verde e silenciosa.
Na frescura das volutas é o vazio que respira
sem suporte e sem espessura. Tudo se obscurece
ou ilumina. Abro os olhos no centro.
Amo tudo o que é vivo, falo às pedras e aos ramos.
Perco-me e encontro-me na leveza do desejo.
1 067
António Ramos Rosa
Corpo Na Clareira
O sol repousa sobre os teus ombros, sobre as folhas
que te inundam, os teus pensamentos deslizam como a água
e há um silêncio há uma ferida há uma sombra que passa
o teu corpo na clareira é uma onda e um fruto.
É um sabor da luz é uma palavra e uma árvore.
Toco a tua pele de musgo, a cicatriz resplandecente.
És imensa e delicada entre incêndios errantes.
Como um desenho de água, como uma haste do tempo.
Que sossego o teu sexo entre pássaros e sombras!
Quero ouvir o que dizes, o teu silêncio de água,
quero ouvir o teu rio de sangue, o pulsar da tua noite.
Como um perfume que ascende, como uma onda que avança,
o teu silêncio é o teu grito, uma torre abandonada.
São quase palavras amantes de um alento sem destino,
são latidos negros que sobem numa espiral indecisa.
que te inundam, os teus pensamentos deslizam como a água
e há um silêncio há uma ferida há uma sombra que passa
o teu corpo na clareira é uma onda e um fruto.
É um sabor da luz é uma palavra e uma árvore.
Toco a tua pele de musgo, a cicatriz resplandecente.
És imensa e delicada entre incêndios errantes.
Como um desenho de água, como uma haste do tempo.
Que sossego o teu sexo entre pássaros e sombras!
Quero ouvir o que dizes, o teu silêncio de água,
quero ouvir o teu rio de sangue, o pulsar da tua noite.
Como um perfume que ascende, como uma onda que avança,
o teu silêncio é o teu grito, uma torre abandonada.
São quase palavras amantes de um alento sem destino,
são latidos negros que sobem numa espiral indecisa.
1 229
António Ramos Rosa
Antes Que Tudo Seja
Por ela os animais entram tão íntimos e lentos
no insondado centro onde invisíveis pastam.
Que clemência antiga, que cuidados suaves!
Sente uma alegria obscura, uma quase íntima glória.
Está assim contemplando a substância da inocência
e suspendendo intensos os círculos do desejo
treme da fome de ser em tudo antes que tudo
seja. Vê o inviolável por onde se move nua.
O orvalho cintila sobre os seus cabelos, os animais jubilam.
Descobre-se tão perto de onde está que principia.
Acende-se e já não sonha porque tudo é sempre o corpo
que liberta o lamento e a apaga e a levanta
e a leva por espaços transparentes onde o sopro
parece só sonhado e é o hálito da terra
que na simplicidade coroa a volúpia do desejo.
no insondado centro onde invisíveis pastam.
Que clemência antiga, que cuidados suaves!
Sente uma alegria obscura, uma quase íntima glória.
Está assim contemplando a substância da inocência
e suspendendo intensos os círculos do desejo
treme da fome de ser em tudo antes que tudo
seja. Vê o inviolável por onde se move nua.
O orvalho cintila sobre os seus cabelos, os animais jubilam.
Descobre-se tão perto de onde está que principia.
Acende-se e já não sonha porque tudo é sempre o corpo
que liberta o lamento e a apaga e a levanta
e a leva por espaços transparentes onde o sopro
parece só sonhado e é o hálito da terra
que na simplicidade coroa a volúpia do desejo.
539
António Ramos Rosa
Corpo de Argila
Aqui, para que se abram os poros na floresta.
Aqui o verde incendeia-se, os muros tornam-se aéreos.
Tudo é liso e nítido na grande folha do dia.
A terra mostra as fibras castanhas e vermelhas.
Um pássaro pousou algures na proa de uma pedra.
A ignorância, a inocência mais completa, mais nua.
Acaricio as lâmpadas do corpo vegetal,
sulcos que não conheço, portas leves e verdes
de uma casa nua, o aroma do sono,
os simples sortilégios que se lêem nas árvores.
Algo nos cria e nos liberta dos absurdos cercos.
Despertámos para tocar a boca esquecida pela noite.
Somos a folhagem e o espaço, somos uma garganta fresca.
As sombras aquecem-nos e as estrelas visitam-nos.
O meu corpo é de argila estou vivo e aceito o dia.
Aqui o verde incendeia-se, os muros tornam-se aéreos.
Tudo é liso e nítido na grande folha do dia.
A terra mostra as fibras castanhas e vermelhas.
Um pássaro pousou algures na proa de uma pedra.
A ignorância, a inocência mais completa, mais nua.
Acaricio as lâmpadas do corpo vegetal,
sulcos que não conheço, portas leves e verdes
de uma casa nua, o aroma do sono,
os simples sortilégios que se lêem nas árvores.
Algo nos cria e nos liberta dos absurdos cercos.
Despertámos para tocar a boca esquecida pela noite.
Somos a folhagem e o espaço, somos uma garganta fresca.
As sombras aquecem-nos e as estrelas visitam-nos.
O meu corpo é de argila estou vivo e aceito o dia.
1 126
António Ramos Rosa
Fácil Escrever
Fácil escrever na inesperada leveza.
As mãos e as sombras numa folhagem única.
Portas acesas. Anéis ou astros.
As bocas seguem as alamedas sinuosas.
Multiplicam-se as luzes do teu vestido de ervas.
Uma cabeleira no flanco das colinas,
carícias deslumbradas, silenciosas folhas,
linhas de um corpo, linhas de um rio frágil e minúsculo,
corolas de veludo e barro, corolas de água.
Um gesto dissipa as letras, levanta o silêncio ágil.
Reflexos, raízes na água transparente,
monótonos caprichos de semelhanças leves.
Ao acaso libertam-se sombras mais profundas.
O olhar agora está ligado à terra.
Um animal levanta-se entre as pedras com as pedras.
As mãos e as sombras numa folhagem única.
Portas acesas. Anéis ou astros.
As bocas seguem as alamedas sinuosas.
Multiplicam-se as luzes do teu vestido de ervas.
Uma cabeleira no flanco das colinas,
carícias deslumbradas, silenciosas folhas,
linhas de um corpo, linhas de um rio frágil e minúsculo,
corolas de veludo e barro, corolas de água.
Um gesto dissipa as letras, levanta o silêncio ágil.
Reflexos, raízes na água transparente,
monótonos caprichos de semelhanças leves.
Ao acaso libertam-se sombras mais profundas.
O olhar agora está ligado à terra.
Um animal levanta-se entre as pedras com as pedras.
1 116
António Ramos Rosa
Onde As Águas
Onde as águas se sublevam inesperadas, brancas
num prodigioso silêncio. É a visão mais viva,
a mais violenta e mais suave, quase imperceptível.
Respiramos o ar na incandescência calma.
A boca desliza sem verdades, livre nas evidências.
A luz é vagarosa, vemos como animais
através da água. As coisas têm a cor do sangue
ou da sombra. Cada forma difunde o seu silêncio.
Todos os corpos são formosos como criações repentinas.
Respiro na corola imensa todo o azul aberto.
Tanto azul, tanta brancura! Aqui é um templo
natural. Tudo pulsa num nítido tremor.
Corpo com um odor a terra, corpo desperto, alegre.
Os ombros inclinam-se ao rumor da confiança.
As bocas iluminam-se nas lúcidas colinas.
num prodigioso silêncio. É a visão mais viva,
a mais violenta e mais suave, quase imperceptível.
Respiramos o ar na incandescência calma.
A boca desliza sem verdades, livre nas evidências.
A luz é vagarosa, vemos como animais
através da água. As coisas têm a cor do sangue
ou da sombra. Cada forma difunde o seu silêncio.
Todos os corpos são formosos como criações repentinas.
Respiro na corola imensa todo o azul aberto.
Tanto azul, tanta brancura! Aqui é um templo
natural. Tudo pulsa num nítido tremor.
Corpo com um odor a terra, corpo desperto, alegre.
Os ombros inclinam-se ao rumor da confiança.
As bocas iluminam-se nas lúcidas colinas.
1 180
António Ramos Rosa
Fronteiras Não Fronteiras
As fronteiras são estas não fronteiras.
No fundo, sempre, um elemento de negra exaltação.
Mas também o espaço, o círculo intacto
em que a beleza do mundo se oferece à superfície.
Imolam-se os sinais rígidos, arqueiam-se as hastes luminosas
e a fábula imediata brilha nas perspectivas.
O vento imita as árvores, o corpo imita o vento.
Onde está o fim das coisas? Livre, livre é o espaço.
Onde estamos é um movimento leve e rápido.
O que dizemos é uma vibração do mundo.
O sim das árvores e dos caminhos, o sim do vento,
o sim do corpo, o sim do espaço, o sim da língua,
são páginas e páginas de ar leve e de silêncio
e de um fogo que nasce, na imóvel velocidade,
em que se adere ao mundo como a um corpo amado.
No fundo, sempre, um elemento de negra exaltação.
Mas também o espaço, o círculo intacto
em que a beleza do mundo se oferece à superfície.
Imolam-se os sinais rígidos, arqueiam-se as hastes luminosas
e a fábula imediata brilha nas perspectivas.
O vento imita as árvores, o corpo imita o vento.
Onde está o fim das coisas? Livre, livre é o espaço.
Onde estamos é um movimento leve e rápido.
O que dizemos é uma vibração do mundo.
O sim das árvores e dos caminhos, o sim do vento,
o sim do corpo, o sim do espaço, o sim da língua,
são páginas e páginas de ar leve e de silêncio
e de um fogo que nasce, na imóvel velocidade,
em que se adere ao mundo como a um corpo amado.
924
António Ramos Rosa
Os Campos Paralelos
Que chuvas despertam os campos paralelos?
Onde a pátria do corpo, a pantera do ar
delicioso? A realidade apaga as suas lâmpadas.
Resta uma estrela sem fogo, o abismo das moscas.
O corpo compreende o que significa ser corpo?
Num crepitar de gozo, sobre a impassível superfície
branca, inclino-me para a chama que se levanta
como um pássaro vigilante. Todas as feridas se iluminam.
Surgem formas nos seus nítidos contornos sossegados.
As corolas do ar voltijam num súbito esplendor.
Sei onde aguardar agora amorosamente
o barco que passa para o outro lado do rio.
Quero levantar a casa transparente sobre a água.
Quero conhecer o ar e o sexo de relâmpago
e barro. Quero ser um sopro da unidade perdida.
Onde a pátria do corpo, a pantera do ar
delicioso? A realidade apaga as suas lâmpadas.
Resta uma estrela sem fogo, o abismo das moscas.
O corpo compreende o que significa ser corpo?
Num crepitar de gozo, sobre a impassível superfície
branca, inclino-me para a chama que se levanta
como um pássaro vigilante. Todas as feridas se iluminam.
Surgem formas nos seus nítidos contornos sossegados.
As corolas do ar voltijam num súbito esplendor.
Sei onde aguardar agora amorosamente
o barco que passa para o outro lado do rio.
Quero levantar a casa transparente sobre a água.
Quero conhecer o ar e o sexo de relâmpago
e barro. Quero ser um sopro da unidade perdida.
555
António Ramos Rosa
Reconhecê-La É Feri-La Travejá-La
Reconhecê-la é feri-la Travejá-la
na pauta rígida transformá-la
em palavras e madeira em arvoredo à chuva
Aqui a violência lúcida penetra
no corpo fugidio que é já outro reflexo
e trabalha esse fragmento de vida errante
Não como um objecto tudo na água flui
e a rigidez articula-se em dicção metálica
Pedra é esse corpo o seu corpo marinho
mas também é água e vento nos meus dedos
Pedaço a pedaço desfibro um reflexo vivo
para construir um virtual fluxo ou linhas negras
Quem revolve a terra e nela acha um insecto
terá este prazer de inventar os cabelos
ao sol do muro alto na folhagem!
Maltrato-te Figura que foste imagem
corrente desabrida no frio de um outro mês
e dou-te as inflexões das sílabas do tempo
com a paciência dos dedos e dos dentes
para que neste exercício da paixão acordes nua
na pauta rígida transformá-la
em palavras e madeira em arvoredo à chuva
Aqui a violência lúcida penetra
no corpo fugidio que é já outro reflexo
e trabalha esse fragmento de vida errante
Não como um objecto tudo na água flui
e a rigidez articula-se em dicção metálica
Pedra é esse corpo o seu corpo marinho
mas também é água e vento nos meus dedos
Pedaço a pedaço desfibro um reflexo vivo
para construir um virtual fluxo ou linhas negras
Quem revolve a terra e nela acha um insecto
terá este prazer de inventar os cabelos
ao sol do muro alto na folhagem!
Maltrato-te Figura que foste imagem
corrente desabrida no frio de um outro mês
e dou-te as inflexões das sílabas do tempo
com a paciência dos dedos e dos dentes
para que neste exercício da paixão acordes nua
992
António Ramos Rosa
Nudez
Toquei um nome quando a luz amanhecia.
Era uma ferida menor do que um suspiro.
Ondulava um campo, um luminoso mar.
Nada podia faltar porque as palavras o diziam.
Imediata era a sede, o coração na espuma.
Cheguei e era o espaço, a suave inteligência
de um corpo. Eram pálpebras e lábios.
Era um pássaro, o pulsar de uma pedra, os dedos
como um sopro cálido, o vento nos cabelos.
Era leve a nudez e a frescura da sombra.
Nasci dormindo, sonhando, abrindo os olhos
num pleno descanso transparente. Conheci
a realidade completa do desejo, o diamante
da água. Voluptuosa, a folhagem estremecia.
Eu adormecia a teu lado como um puro esquecimento.
Tu erguias-te da penumbra vegetal. Uma mulher
nasce sem cessar. Tu ardias na aresta azul
do horizonte. Um pássaro cantava
no centro de uma árvore. Eu vibrava
numa terra imóvel, num país imenso.
Era uma ferida menor do que um suspiro.
Ondulava um campo, um luminoso mar.
Nada podia faltar porque as palavras o diziam.
Imediata era a sede, o coração na espuma.
Cheguei e era o espaço, a suave inteligência
de um corpo. Eram pálpebras e lábios.
Era um pássaro, o pulsar de uma pedra, os dedos
como um sopro cálido, o vento nos cabelos.
Era leve a nudez e a frescura da sombra.
Nasci dormindo, sonhando, abrindo os olhos
num pleno descanso transparente. Conheci
a realidade completa do desejo, o diamante
da água. Voluptuosa, a folhagem estremecia.
Eu adormecia a teu lado como um puro esquecimento.
Tu erguias-te da penumbra vegetal. Uma mulher
nasce sem cessar. Tu ardias na aresta azul
do horizonte. Um pássaro cantava
no centro de uma árvore. Eu vibrava
numa terra imóvel, num país imenso.
1 130
António Ramos Rosa
Entre Pequenos Tumultos Brancos
Entre pequenos tumultos brancos, entre os cabelos do ar,
dentro de uma membrana verde, contra um peito redondo,
entre lâmpadas veladas, entre murmúrios do mar,
acaricio um corpo, uma árvore de argila,
ou a serpente do verão ou uma chama de vento.
A pedra pulsa no fundo, há uma escada que desce
para uma varanda branca. A terra volta a amanhecer
com a cabeça incendiada. Os barcos do vento
seguem entre as árvores, os armários do mar
soltam os seus pássaros verdes. Desperto transparente
e nu. Onde o abrigo? O abrigo do vento
é uma folha de vento. Quem se perde entre a folhagem,
entre as dunas, entre as ondas? Vou transformando a pedra
em bosque, vou abrindo os sulcos
das palavras em carícias de água libertada.
dentro de uma membrana verde, contra um peito redondo,
entre lâmpadas veladas, entre murmúrios do mar,
acaricio um corpo, uma árvore de argila,
ou a serpente do verão ou uma chama de vento.
A pedra pulsa no fundo, há uma escada que desce
para uma varanda branca. A terra volta a amanhecer
com a cabeça incendiada. Os barcos do vento
seguem entre as árvores, os armários do mar
soltam os seus pássaros verdes. Desperto transparente
e nu. Onde o abrigo? O abrigo do vento
é uma folha de vento. Quem se perde entre a folhagem,
entre as dunas, entre as ondas? Vou transformando a pedra
em bosque, vou abrindo os sulcos
das palavras em carícias de água libertada.
543
António Ramos Rosa
Maravilha Imóvel
Ninguém responde, nada responde. Não, tu não existes.
E todavia conheço as tuas pausas, o teu ardor, as vogais
incandescentes. Contigo escrevo na água, permaneço,
vibro, ondulo. Dilato-me. Alcanço o solo.
A minha boca ascende lentamente fulgurando.
És tu o corpo já sem distância, sem fronteiras?
O informulável, inacessível, ausente já?
O olhar penetrou até ao fundo o corpo amado.
Múltiplas as figuras multiplicam o deserto.
Que palavras se incendeiam, que cinzas ainda ardem?
Tudo se consumou. A maravilha imóvel
é agora uma cabeleira apagada, e não o azul
e não o verde. E no entanto algo flui e continua.
Como se a mão tocasse as veias negras da figura
ou as veias brancas, o silêncio desenhado.
E todavia conheço as tuas pausas, o teu ardor, as vogais
incandescentes. Contigo escrevo na água, permaneço,
vibro, ondulo. Dilato-me. Alcanço o solo.
A minha boca ascende lentamente fulgurando.
És tu o corpo já sem distância, sem fronteiras?
O informulável, inacessível, ausente já?
O olhar penetrou até ao fundo o corpo amado.
Múltiplas as figuras multiplicam o deserto.
Que palavras se incendeiam, que cinzas ainda ardem?
Tudo se consumou. A maravilha imóvel
é agora uma cabeleira apagada, e não o azul
e não o verde. E no entanto algo flui e continua.
Como se a mão tocasse as veias negras da figura
ou as veias brancas, o silêncio desenhado.
1 080
António Ramos Rosa
Onde a Terra Será Branca
Onde a terra será branca. Num domínio
oblíquo. A liberdade silenciosa.
Lábios iluminados. Dedos quase felizes.
Um volume verde, a narrativa quase exacta.
Espaço e corpo no interior das linhas.
Que suave aventura descansar dentro de um corpo!
Com o ouvido no vento, com o coração no escuro,
digo o nome do indizível, sigo um fluxo
de minúsculas coisas, uma música de insectos.
O ar tornou-se branco através do silêncio.
Como uma mulher aberta, o poema é um pomar.
A terra inteira resplandece como um fruto.
Tudo parece imóvel como uma árvore transparente.
O tempo abriu espaços entre os muros.
Somos a incessante luz na água azul.
oblíquo. A liberdade silenciosa.
Lábios iluminados. Dedos quase felizes.
Um volume verde, a narrativa quase exacta.
Espaço e corpo no interior das linhas.
Que suave aventura descansar dentro de um corpo!
Com o ouvido no vento, com o coração no escuro,
digo o nome do indizível, sigo um fluxo
de minúsculas coisas, uma música de insectos.
O ar tornou-se branco através do silêncio.
Como uma mulher aberta, o poema é um pomar.
A terra inteira resplandece como um fruto.
Tudo parece imóvel como uma árvore transparente.
O tempo abriu espaços entre os muros.
Somos a incessante luz na água azul.
1 005
António Ramos Rosa
Mediadora Branca
Inacessível próxima
sim do vagar e de um cimo
magia de sempre e nunca
água que nasce da água
Branco jardim na noite
um acorde entre ruínas
de novo a beleza branca
a transparência do corpo
Continuamente desnuda
azulada inalcançada
nada acumula ou retém
no seu redondo horizonte
Que mensageira tu és
que só o branco revelas
inundas como se nada
em teus relâmpagos brancos
Presença feita de ausência
do silêncio estrela branca
em ti permanece o idêntico
sem miragens nem figura
Solitária e povoada
glória imóvel vigília
branco palácio do ar
balança sobre o vazio
Quieta de sílabas altas
fonte do espaço presença
tudo se apaga e exalta
em tua branca morada
Uma água de distância
flui em tuas largas veias
Magia íntima música
pureza metal brancura
Na pausa de um grande círculo
transpareces repentina
centro de ser incêndio liso
viva palavra da vida
sim do vagar e de um cimo
magia de sempre e nunca
água que nasce da água
Branco jardim na noite
um acorde entre ruínas
de novo a beleza branca
a transparência do corpo
Continuamente desnuda
azulada inalcançada
nada acumula ou retém
no seu redondo horizonte
Que mensageira tu és
que só o branco revelas
inundas como se nada
em teus relâmpagos brancos
Presença feita de ausência
do silêncio estrela branca
em ti permanece o idêntico
sem miragens nem figura
Solitária e povoada
glória imóvel vigília
branco palácio do ar
balança sobre o vazio
Quieta de sílabas altas
fonte do espaço presença
tudo se apaga e exalta
em tua branca morada
Uma água de distância
flui em tuas largas veias
Magia íntima música
pureza metal brancura
Na pausa de um grande círculo
transpareces repentina
centro de ser incêndio liso
viva palavra da vida
963
António Ramos Rosa
O Corpo Isolado, Maciço Provocante: a Ilha Lisa
O corpo isolado, maciço provocante: a ilha lisa
a velocidade do corpo na brancura: a cor do vinho
uma imagem fixa que persiste: a língua negra
forma excessiva do dia vegetação branca: os arames tremem
a insistência de um silêncio insuportável: os olhos líquidos
Agora o punho quase submerso revolve a água: o sol vacila
um campo inerte iluminado: a torre verde
depois
o centro neutro
silencioso de uma escrita flexível e furtiva
reflexos
sobreposições de letras
números
leitura do mais longínquo ao mais próximo
da profundeza indistinta aos incertos jogos
de uma incessante superfície branca e negra
a velocidade do corpo na brancura: a cor do vinho
uma imagem fixa que persiste: a língua negra
forma excessiva do dia vegetação branca: os arames tremem
a insistência de um silêncio insuportável: os olhos líquidos
Agora o punho quase submerso revolve a água: o sol vacila
um campo inerte iluminado: a torre verde
depois
o centro neutro
silencioso de uma escrita flexível e furtiva
reflexos
sobreposições de letras
números
leitura do mais longínquo ao mais próximo
da profundeza indistinta aos incertos jogos
de uma incessante superfície branca e negra
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