Poemas neste tema
Corpo
António Ramos Rosa
Nuvens
Encantei-me com as nuvens, como se fossem calmas
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio vi-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.
Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela
as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.
Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.
locuções de um pensamento aberto. No vazio de tudo
eram frontes do universo deslumbrantes.
Em silêncio vi-as deslizar num gozo obscuro
e luminoso, tão suave na visão que se dilata.
Que clamor, que clamores mas em silêncio
na brancura unânime! Um sopro do desejo
que repousa no seio do movimento, que modela
as formas amorosas, os cavalos, os barcos
com as cabeças e as proas na luz que é toda sonho.
Unificado olho as nuvens no seu suave dinamismo.
Sou mais que um corpo, sou um corpo que se eleva
ao espaço inteiro, à luz ilimitada.
No gozo de ver num sono transparente
navego em centro aberto, o olhar e o sonho.
1 127
António Ramos Rosa
Um Cenário de Rochedos E de Mar
Um cenário de rochedos e de mar
(A água não cintila não reflecte)
é uma discreta superfície
ela
bruscamente vê-se figurada
pela presença de uma multidão
indivisível
Desliza ainda mas sem rosto
esperando vertical
Veloz caminha no ar negro e brilhante
afunda-se cada vez mais reduz-se
a um ponto luminoso
sem jamais desaparecer
Ouvem-se ao longe detonações surdas
de uma tempestade subterrânea
Eis o momento da primeira cintilação
A cena é apenas indicada nos limites
Não é o projecto de uma história
mas anuncia-o
Breves estilhas
segmentos separados poderiam reunir-se
noutro lado
Há o gesto de duas mãos que se encontram
os quartos o bosque uma sombria álea
o alvorecer numa praia deserta
Uma das mãos corre ao longo das pernas
à superfície do corpo buscando
apoderar-se de uma forma de um centro líquido
Surge uma clareira de ramos baixos
O gesto desfaz-se num refluxo
ouvem-se golpes passam sombras húmidas
traços cada vez mais desligados
antes que o outro desapareça sob o nome
Eis os nomes aprendidos em que se dissimula
o fundo sem nome em que ela se transforma
terra idêntica música ventre
tempestade matéria muro animal
azul vermelho chuva chão madeira…
(A água não cintila não reflecte)
é uma discreta superfície
ela
bruscamente vê-se figurada
pela presença de uma multidão
indivisível
Desliza ainda mas sem rosto
esperando vertical
Veloz caminha no ar negro e brilhante
afunda-se cada vez mais reduz-se
a um ponto luminoso
sem jamais desaparecer
Ouvem-se ao longe detonações surdas
de uma tempestade subterrânea
Eis o momento da primeira cintilação
A cena é apenas indicada nos limites
Não é o projecto de uma história
mas anuncia-o
Breves estilhas
segmentos separados poderiam reunir-se
noutro lado
Há o gesto de duas mãos que se encontram
os quartos o bosque uma sombria álea
o alvorecer numa praia deserta
Uma das mãos corre ao longo das pernas
à superfície do corpo buscando
apoderar-se de uma forma de um centro líquido
Surge uma clareira de ramos baixos
O gesto desfaz-se num refluxo
ouvem-se golpes passam sombras húmidas
traços cada vez mais desligados
antes que o outro desapareça sob o nome
Eis os nomes aprendidos em que se dissimula
o fundo sem nome em que ela se transforma
terra idêntica música ventre
tempestade matéria muro animal
azul vermelho chuva chão madeira…
1 064
António Ramos Rosa
A Coisa Sem Nome
Um disco de uma negra densidade,
a coisa sem nome, irradiante embriaguez.
Terei tocado a sombra, a sequiosa luz?
Vibro no vazio do vento, vivo com as pedras,
em ondas oscilantes, entre pequenas ilhas.
Uma coisa germina, volúvel, subtil,
da guerra silenciosa à silenciosa música.
Um tranquilo relâmpago, um gesto da paisagem.
Ainda não um nome. Uma dança. Um desenho.
Uma poeira de ferrugem na água transparente.
Este é o lugar do meu desejo, na leveza
de uma estrela. O obscuro liberta-se em miríades
fosforescentes. As linhas cantam ao primeiro álcool
da respiração. O corpo completa-se
no vermelho sono de uma vibrante folha.
Aniquilado, vagaroso rosto, que se forma no centro
da folha inicial. As pedras ouvem, o arbusto vê.
O mar, não uma lâmpada, acende a mão deserta.
Ninguém separa já a palavra dos meus dedos.
A presença é o esquecimento no seio do abandono.
a coisa sem nome, irradiante embriaguez.
Terei tocado a sombra, a sequiosa luz?
Vibro no vazio do vento, vivo com as pedras,
em ondas oscilantes, entre pequenas ilhas.
Uma coisa germina, volúvel, subtil,
da guerra silenciosa à silenciosa música.
Um tranquilo relâmpago, um gesto da paisagem.
Ainda não um nome. Uma dança. Um desenho.
Uma poeira de ferrugem na água transparente.
Este é o lugar do meu desejo, na leveza
de uma estrela. O obscuro liberta-se em miríades
fosforescentes. As linhas cantam ao primeiro álcool
da respiração. O corpo completa-se
no vermelho sono de uma vibrante folha.
Aniquilado, vagaroso rosto, que se forma no centro
da folha inicial. As pedras ouvem, o arbusto vê.
O mar, não uma lâmpada, acende a mão deserta.
Ninguém separa já a palavra dos meus dedos.
A presença é o esquecimento no seio do abandono.
1 142
António Ramos Rosa
Falo de Um Desequilíbrio
Falo de um desequilíbrio gracioso
de um corpo. Linhas que se desagregam quase
unidas, na violência da sombra, por um raio de sol.
Pressinto a terra da minha sede, a terra do meu desejo,
escura, saborosa. E falo aqui da noite
e da figura frágil que eu amo, o seu espaço
que ignoro, o seu quarto intacto, o seu odor de rapariga.
Estes traços são negros como árvores. Uma parede
abriu-me os olhos: vejo linhas que dançam e brilham,
segredos que cintilam, sopros cegos, vocábulos da terra.
Oscilante, sempre, uma figura está entre as árvores, triste.
Que sei eu destas pétalas, destes pulsos, desta água?
Há uma felicidade fulgurante na sua nostalgia.
Eu desejo as palavras das suas fibras, a saliva da sua língua.
Desejaria habitar o seu caminho, bater à sua porta.
Eu não pertenço a nenhum reino, sou uma árvore
que não sabe ser imóvel para estar em tudo.
Sou esta mão que procura as evidências mais simples.
A figura amanhece entre oblíquas brisas, solitária.
Nada obscurece o canto da água nem as mãos antigas.
de um corpo. Linhas que se desagregam quase
unidas, na violência da sombra, por um raio de sol.
Pressinto a terra da minha sede, a terra do meu desejo,
escura, saborosa. E falo aqui da noite
e da figura frágil que eu amo, o seu espaço
que ignoro, o seu quarto intacto, o seu odor de rapariga.
Estes traços são negros como árvores. Uma parede
abriu-me os olhos: vejo linhas que dançam e brilham,
segredos que cintilam, sopros cegos, vocábulos da terra.
Oscilante, sempre, uma figura está entre as árvores, triste.
Que sei eu destas pétalas, destes pulsos, desta água?
Há uma felicidade fulgurante na sua nostalgia.
Eu desejo as palavras das suas fibras, a saliva da sua língua.
Desejaria habitar o seu caminho, bater à sua porta.
Eu não pertenço a nenhum reino, sou uma árvore
que não sabe ser imóvel para estar em tudo.
Sou esta mão que procura as evidências mais simples.
A figura amanhece entre oblíquas brisas, solitária.
Nada obscurece o canto da água nem as mãos antigas.
1 086
António Ramos Rosa
O Corpo Fugitivo
Avanço ou não avanço. Nada muda.
O fulgor de um animal furta-se aos sinais.
Violentos raios sinuosos, pulsações
de uma trama verde ilimitada.
Separar. Dizer. A noite cintilante.
O sopro incerto prepara um outro corpo
na deriva do fogo que corre em águas negras.
Vegetais se desenham as manchas mais escuras.
Em traços verticais compõe-se a transparência.
De uma frase a outra respiro o ar da ferida.
Membro a membro toco o corpo que inicio
no desejo de chegar ao vivo, num trabalho líquido.
É o mundo que se esvai, o corpo fugitivo,
todo o amor nos olhos claros se incendeia,
a altura arde, a nudez é imensa.
O fulgor de um animal furta-se aos sinais.
Violentos raios sinuosos, pulsações
de uma trama verde ilimitada.
Separar. Dizer. A noite cintilante.
O sopro incerto prepara um outro corpo
na deriva do fogo que corre em águas negras.
Vegetais se desenham as manchas mais escuras.
Em traços verticais compõe-se a transparência.
De uma frase a outra respiro o ar da ferida.
Membro a membro toco o corpo que inicio
no desejo de chegar ao vivo, num trabalho líquido.
É o mundo que se esvai, o corpo fugitivo,
todo o amor nos olhos claros se incendeia,
a altura arde, a nudez é imensa.
1 026
António Ramos Rosa
Entre Duas Páginas
Aqui as palavras chegam ou não chegam.
Entre duas páginas ninguém dorme, ninguém morre.
Apago com a tua pele a pele do muro.
Estou rodeado de indícios silenciosos.
Leio axilas, pedras, dorsos, mãos.
Há uma pedra enterrada na carne ou uma árvore.
Apunhalo um punhal que não se apaga.
Repito com um lábio o que o outro cala.
Escuto o rumor de feridas que não sangram.
Não canto a luz na pedra fecundada.
Queria dizer, queria dizer a nudez da tua pele,
os ventos afectuosos, a chuva nos teus ombros,
queria tocar, queria tocar-te, queria encontrar-me,
queria saciar a sede que inventa tantos nomes,
queria libertar a língua e ser o mundo.
Entre duas páginas ninguém dorme, ninguém morre.
Apago com a tua pele a pele do muro.
Estou rodeado de indícios silenciosos.
Leio axilas, pedras, dorsos, mãos.
Há uma pedra enterrada na carne ou uma árvore.
Apunhalo um punhal que não se apaga.
Repito com um lábio o que o outro cala.
Escuto o rumor de feridas que não sangram.
Não canto a luz na pedra fecundada.
Queria dizer, queria dizer a nudez da tua pele,
os ventos afectuosos, a chuva nos teus ombros,
queria tocar, queria tocar-te, queria encontrar-me,
queria saciar a sede que inventa tantos nomes,
queria libertar a língua e ser o mundo.
1 100
António Ramos Rosa
Caminhar Através de Corredores Intermináveis
Caminhar através de corredores intermináveis
brancos
Caminhar entre paredes lisas brancas
sem que nenhuma porta se abra sem que
nenhuma luz me ilumine
a não ser esta
sem sombra
sem origem
Quartos vazios amplos e vazios
mas sem dimensões concretas corredores
paredes brancas
o lugar está exposto
com uma evidência violenta irrecusável
Uma figura surge no centro de uma sala
É a mesma de outrora
e é a única aqui neste momento
De pé e destroçada ela vacila
É preciso desenhá-la, fixá-la talvez
A imagem repercute-se
no espelho
É este o corpo idêntico nu e nulo?
A figura desvanece-se por ser tão só imagem?
Próximo o lugar ausente reflexos Não são
palavras Neste momento surgem espaços
profundidades manchas cintilantes
Clareiras
brancos
Caminhar entre paredes lisas brancas
sem que nenhuma porta se abra sem que
nenhuma luz me ilumine
a não ser esta
sem sombra
sem origem
Quartos vazios amplos e vazios
mas sem dimensões concretas corredores
paredes brancas
o lugar está exposto
com uma evidência violenta irrecusável
Uma figura surge no centro de uma sala
É a mesma de outrora
e é a única aqui neste momento
De pé e destroçada ela vacila
É preciso desenhá-la, fixá-la talvez
A imagem repercute-se
no espelho
É este o corpo idêntico nu e nulo?
A figura desvanece-se por ser tão só imagem?
Próximo o lugar ausente reflexos Não são
palavras Neste momento surgem espaços
profundidades manchas cintilantes
Clareiras
655
António Ramos Rosa
Violenta Vaga E o Esquecimento Subsequente
Violenta vaga e o esquecimento subsequente
Violência que é preciso discernir
de cada vez que a Figura se mostra
(Ela não é mais que um tecido vermelho
impelido pelo vento)
É pela violência repetida que se pode conquistar
as marcas legíveis da sua presença aqui
A corrente repele-a Mas que dizer
da luz
que a fere dos cabelos flutuantes
Ela deixa-se arrastar responde apenas
por movimentos de superfície
aos reflexos que se afastam dela
Ela repele as semelhanças Tudo
se torna esplendor ou linhas negras
Vidraças brilhantes palavras
de metal e aquele olhar (temor?
consentimento?) antes da calma
O corpo liquefeito consumido
Água diferente em que penetro
para chegar ao esquecido rectângulo
que lhe cobre o peito a boca os olhos
Violência que é preciso discernir
de cada vez que a Figura se mostra
(Ela não é mais que um tecido vermelho
impelido pelo vento)
É pela violência repetida que se pode conquistar
as marcas legíveis da sua presença aqui
A corrente repele-a Mas que dizer
da luz
que a fere dos cabelos flutuantes
Ela deixa-se arrastar responde apenas
por movimentos de superfície
aos reflexos que se afastam dela
Ela repele as semelhanças Tudo
se torna esplendor ou linhas negras
Vidraças brilhantes palavras
de metal e aquele olhar (temor?
consentimento?) antes da calma
O corpo liquefeito consumido
Água diferente em que penetro
para chegar ao esquecido rectângulo
que lhe cobre o peito a boca os olhos
525
António Ramos Rosa
Vejo o Fogo
Vejo o fogo (os dedos e a sombra), vejo os caminhos,
a matéria das árvores. Bebo um rumor de abelhas.
Estou cego talvez, deslumbro-me, no deserto
sobre uma boca pura. Aqui durmo, aqui desenho
a felicidade da chama, as ondas e as pedras.
Na folhagem ascendo àquele poder intenso
que se deslumbra em delícia que roda até ao cimo.
O tempo doura o silêncio e a penumbra dos caminhos.
Entro por um país de minúcias transparentes.
Que é a distância agora? A perspectiva do gérmen.
Encontro-me no mundo, sou o ar que desce
alegre, o ar, o sol, o sangue. O corpo é tão feliz
que reina na extensão em transparência verde.
É o amor que bebe o fogo branco das colinas,
e que deslumbra e se deslumbra e acaricia e arde.
a matéria das árvores. Bebo um rumor de abelhas.
Estou cego talvez, deslumbro-me, no deserto
sobre uma boca pura. Aqui durmo, aqui desenho
a felicidade da chama, as ondas e as pedras.
Na folhagem ascendo àquele poder intenso
que se deslumbra em delícia que roda até ao cimo.
O tempo doura o silêncio e a penumbra dos caminhos.
Entro por um país de minúcias transparentes.
Que é a distância agora? A perspectiva do gérmen.
Encontro-me no mundo, sou o ar que desce
alegre, o ar, o sol, o sangue. O corpo é tão feliz
que reina na extensão em transparência verde.
É o amor que bebe o fogo branco das colinas,
e que deslumbra e se deslumbra e acaricia e arde.
995
António Ramos Rosa
Encontro No Vazio
Apenas uma luz ínfima num verde subterrâneo.
A textura mais secreta, o esplendor inerme.
Um corpo, um corpo ainda suavemente amoroso,
mas em ruínas, em cal, em transparência vazia.
Uma esfera partida em ombros e cabeças,
em volumes exíguos, em palavras esquecidas.
Tudo se perdeu no vazio, tudo se encontra no vazio.
Intacta é a matéria materna, a nocturna folhagem.
Fragilidade da montanha, aérea a brisa subterrânea.
Que idade recomeça no princípio da música?
Uma cálida cabeça ama as folhas de mercúrio
e sombra, a pausa harmoniosa, a linha de equilíbrio
e de repouso. Lentamente tudo se desloca
para uma luminosa boca de água e pedra.
Ó delicada pele, ó melodia nua do vazio!
A textura mais secreta, o esplendor inerme.
Um corpo, um corpo ainda suavemente amoroso,
mas em ruínas, em cal, em transparência vazia.
Uma esfera partida em ombros e cabeças,
em volumes exíguos, em palavras esquecidas.
Tudo se perdeu no vazio, tudo se encontra no vazio.
Intacta é a matéria materna, a nocturna folhagem.
Fragilidade da montanha, aérea a brisa subterrânea.
Que idade recomeça no princípio da música?
Uma cálida cabeça ama as folhas de mercúrio
e sombra, a pausa harmoniosa, a linha de equilíbrio
e de repouso. Lentamente tudo se desloca
para uma luminosa boca de água e pedra.
Ó delicada pele, ó melodia nua do vazio!
1 091
António Ramos Rosa
Não Sei Escrever
Não sei escrever, oscilo no obscuro, a terra adormeceu.
Formas obscuras, ecos, sons, suspiros
e areias estéreis, o móvel sono do vento.
A calma completa do inerte sobre as pálpebras.
Vacuidade mineral sem vibrações.
Escrevo titubeante. Nada se move. Desço talvez
a uma sombra. Procuro minúsculos
prodígios, descubro insectos, pedras negras.
Onde o corpo errante? Que seja agora a folha
e o sangue verde, a pulsação do vento.
Escrevo, não sei escrever. Nada tenho a dizer.
Respiro algumas vezes. Respiro. É uma nuvem
incandescente na folhagem. É um espaço fundo e plano
e alto. O corpo inteiro na claridade azul.
Não está comigo agora e é um planeta branco.
Formas obscuras, ecos, sons, suspiros
e areias estéreis, o móvel sono do vento.
A calma completa do inerte sobre as pálpebras.
Vacuidade mineral sem vibrações.
Escrevo titubeante. Nada se move. Desço talvez
a uma sombra. Procuro minúsculos
prodígios, descubro insectos, pedras negras.
Onde o corpo errante? Que seja agora a folha
e o sangue verde, a pulsação do vento.
Escrevo, não sei escrever. Nada tenho a dizer.
Respiro algumas vezes. Respiro. É uma nuvem
incandescente na folhagem. É um espaço fundo e plano
e alto. O corpo inteiro na claridade azul.
Não está comigo agora e é um planeta branco.
1 135
António Ramos Rosa
Figuras do Ar E da Terra
A língua liberta-se no silêncio e no espaço.
As graciosas folhas, as feridas nas colinas, os declives
incendeiam-se no azul. Alguma coisa se altera
subtil, inominável. Figuras do ar
enlaçam-se, dissipam-se, renovam-se.
É a hora da paixão das árvores e da inocência selvagem.
Entre o verde divisam-se flancos amorosos.
Uma espádua adormece na brancura dos murmúrios.
Sobre as coxas da terra caem as cascatas obscuras.
A vida ondula como uma árvore sob o sol.
Em suave indolência de seiva os músculos movem-se.
Respiram os contrários em formas simultâneas.
É uma fábula completa, é um país de silêncios.
Vibra, vibra o anel verde-negro da sombra.
Belo é o desejo e belo é o seu espaço.
As graciosas folhas, as feridas nas colinas, os declives
incendeiam-se no azul. Alguma coisa se altera
subtil, inominável. Figuras do ar
enlaçam-se, dissipam-se, renovam-se.
É a hora da paixão das árvores e da inocência selvagem.
Entre o verde divisam-se flancos amorosos.
Uma espádua adormece na brancura dos murmúrios.
Sobre as coxas da terra caem as cascatas obscuras.
A vida ondula como uma árvore sob o sol.
Em suave indolência de seiva os músculos movem-se.
Respiram os contrários em formas simultâneas.
É uma fábula completa, é um país de silêncios.
Vibra, vibra o anel verde-negro da sombra.
Belo é o desejo e belo é o seu espaço.
1 141
António Ramos Rosa
Mediadora do Corpo
Vive no meio de um incêndio
entre o silêncio e a água.
Azul veloz, o sangue do desejo.
Ninguém a defende da perfeita
noite. Move-se entre espelhos
e sombras. Cumpre-se a matéria
com as feridas do vento.
Incendeia os sulcos dos acordes.
Um tremor de planeta, um som negro,
reflexos de um confuso esplendor.
Pólen de pedra nos flancos.
Um voo permanente, submerso,
através dos dédalos, dos círculos,
das móveis dunas do deserto.
Estrela, sim, estrela de argila
em núpcias consigo e com o mundo.
entre o silêncio e a água.
Azul veloz, o sangue do desejo.
Ninguém a defende da perfeita
noite. Move-se entre espelhos
e sombras. Cumpre-se a matéria
com as feridas do vento.
Incendeia os sulcos dos acordes.
Um tremor de planeta, um som negro,
reflexos de um confuso esplendor.
Pólen de pedra nos flancos.
Um voo permanente, submerso,
através dos dédalos, dos círculos,
das móveis dunas do deserto.
Estrela, sim, estrela de argila
em núpcias consigo e com o mundo.
1 101
António Ramos Rosa
Mediadora do Acaso
Nua, no acaso,
táctil, leve,
fácil, viva.
Júbilo cristalino,
hipérboles. Dançam
nas veias, diluem-se,
amanhecem.
Nomes do excesso
subtil, conciso.
Pleonasmos
do corpo
impenetrável.
táctil, leve,
fácil, viva.
Júbilo cristalino,
hipérboles. Dançam
nas veias, diluem-se,
amanhecem.
Nomes do excesso
subtil, conciso.
Pleonasmos
do corpo
impenetrável.
1 074
António Ramos Rosa
Mediadora da Escrita
Precipita-se ou vacila cintilante
subterrânea selvagem
a transparente espuma atravessando.
Desenhando os obstinados traços
busca a figura do desejo e do repouso
numa superfície plana e verde.
Espessa e subtil entre o fulgor e a névoa,
interrompe, acumula, esquece,
forma a sua própria forma. Contornos
mais vibrantes do que o círculo.
A face que ela imprime é a do corpo.
subterrânea selvagem
a transparente espuma atravessando.
Desenhando os obstinados traços
busca a figura do desejo e do repouso
numa superfície plana e verde.
Espessa e subtil entre o fulgor e a névoa,
interrompe, acumula, esquece,
forma a sua própria forma. Contornos
mais vibrantes do que o círculo.
A face que ela imprime é a do corpo.
571
António Ramos Rosa
Mediadora da Nudez
Um corpo aquece
ascende
liberta-se
dos círculos cinzentos.
Uma língua se tece
dentro da pele
as pálpebras compreendem
as cordas do silêncio.
Aroma global
da ferida e da resina
os extremos são barcas
nudez completa.
ascende
liberta-se
dos círculos cinzentos.
Uma língua se tece
dentro da pele
as pálpebras compreendem
as cordas do silêncio.
Aroma global
da ferida e da resina
os extremos são barcas
nudez completa.
937
António Ramos Rosa
Mediadora da Construção
Construir um corpo com as sílabas
do álcool. Contornar
o incompreensível.
Que grande dissonância azul e negra.
No limiar móvel
abarcar a cinza e o fruto,
passar pela brecha
branca.
Prelúdio
de sombras lúcidas.
Volumes de aromas,
ecos de espelhos.
Um trabalho de portas
e palavras. A nova epiderme
construída
pela água. Esquecimento
ardente obscuro solar.
Surpresa de uma ondulante
sombra.
Corola de um grito de água.
do álcool. Contornar
o incompreensível.
Que grande dissonância azul e negra.
No limiar móvel
abarcar a cinza e o fruto,
passar pela brecha
branca.
Prelúdio
de sombras lúcidas.
Volumes de aromas,
ecos de espelhos.
Um trabalho de portas
e palavras. A nova epiderme
construída
pela água. Esquecimento
ardente obscuro solar.
Surpresa de uma ondulante
sombra.
Corola de um grito de água.
516
António Ramos Rosa
Mediadora Irrevelada
Descalça e fulgurante
passageira das sombras.
Lâmpada sonâmbula
interrompendo as águas.
Não pousam pássaros
nos seus ombros escuros.
Corpo ainda aéreo
opaco e cristalino.
Não música nem pintura.
Eclipse do espelho.
Silenciosa energia
de um voo irrevelado.
passageira das sombras.
Lâmpada sonâmbula
interrompendo as águas.
Não pousam pássaros
nos seus ombros escuros.
Corpo ainda aéreo
opaco e cristalino.
Não música nem pintura.
Eclipse do espelho.
Silenciosa energia
de um voo irrevelado.
1 104
António Ramos Rosa
Mediadora da Coincidência Nupcial
Conheço a flora do seu corpo
e a sua cabeleira cintilante.
Dorme sob as axilas da água.
Nos seus olhos cintilam coincidências.
Claro apogeu de dança horizontal.
Evidência e enigma imediato.
Um sabor inesgotável, o mundo num só arco.
Oferta, já não promessa, lâmpada profunda.
Veemência de cimo à superfície,
pele e palavra, pálpebras e pétalas.
Um tumulto acende-se em relâmpagos de água.
Aflui a harmonia na violência calma.
Júbilo no vento, alegres coincidências
no movimento azul. Livre insensatez
de gestos nupciais. Frescura transparente.
Inocência absoluta.
e a sua cabeleira cintilante.
Dorme sob as axilas da água.
Nos seus olhos cintilam coincidências.
Claro apogeu de dança horizontal.
Evidência e enigma imediato.
Um sabor inesgotável, o mundo num só arco.
Oferta, já não promessa, lâmpada profunda.
Veemência de cimo à superfície,
pele e palavra, pálpebras e pétalas.
Um tumulto acende-se em relâmpagos de água.
Aflui a harmonia na violência calma.
Júbilo no vento, alegres coincidências
no movimento azul. Livre insensatez
de gestos nupciais. Frescura transparente.
Inocência absoluta.
1 067
António Ramos Rosa
Mediadora da Página
Desaparece. Renasce.
É um corpo ou um nome?
Florescência sem raízes. Cada imagem
gera outra imagem. Partículas
intermitentes. Tempestade
silenciosa. Como reencontrar
o negro e as raízes?
Algo tão pobre no silêncio
requer uma linguagem nua.
Surpreendente júbilo quando
na estrita área branca
a nudez profunda repercute.
É um corpo ou um nome?
Florescência sem raízes. Cada imagem
gera outra imagem. Partículas
intermitentes. Tempestade
silenciosa. Como reencontrar
o negro e as raízes?
Algo tão pobre no silêncio
requer uma linguagem nua.
Surpreendente júbilo quando
na estrita área branca
a nudez profunda repercute.
1 022
António Ramos Rosa
Mediadora Árida
Que pedra de música
subsiste
na argila cega?
Que navios no subsolo?
Ouço a sombra árida
do corpo, ouço os animais
sem água
nas caves clandestinas.
Onde as vogais do fogo
no fulgor do vento?
subsiste
na argila cega?
Que navios no subsolo?
Ouço a sombra árida
do corpo, ouço os animais
sem água
nas caves clandestinas.
Onde as vogais do fogo
no fulgor do vento?
1 031
António Ramos Rosa
Mediadora do Dia
Sai do ventre da sombra,
de sonâmbulas nuvens.
A alma está no ar,
nas luminosas grutas,
nas brancas estridências.
Seus frutos de alegria,
suas alvas corolas
sobre a mesa do sol.
No acaso do ar vago
os nascimentos minúsculos,
efervescências, miríades,
as grandes áreas serenas.
Tudo é excesso e delícia,
evidências e acordes
num harmonioso tumulto.
Altos terraços da luz.
Frescor unânime, triunfo
de um confiante naufrágio
entre colinas e praias
em avidez fulgurante.
Figuras e figuras
nascem no imponderável.
Volúveis, frágeis
em galerias cálidas.
Ilhas, quantas ilhas
de felicidade viva,
tão verdes e claras,
selvagens, delicadas.
O corpo, só o corpo
é alma imediata.
Que maravilha total
na volúpia do ar!
de sonâmbulas nuvens.
A alma está no ar,
nas luminosas grutas,
nas brancas estridências.
Seus frutos de alegria,
suas alvas corolas
sobre a mesa do sol.
No acaso do ar vago
os nascimentos minúsculos,
efervescências, miríades,
as grandes áreas serenas.
Tudo é excesso e delícia,
evidências e acordes
num harmonioso tumulto.
Altos terraços da luz.
Frescor unânime, triunfo
de um confiante naufrágio
entre colinas e praias
em avidez fulgurante.
Figuras e figuras
nascem no imponderável.
Volúveis, frágeis
em galerias cálidas.
Ilhas, quantas ilhas
de felicidade viva,
tão verdes e claras,
selvagens, delicadas.
O corpo, só o corpo
é alma imediata.
Que maravilha total
na volúpia do ar!
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António Ramos Rosa
Mediadora Sonâmbula
Dançarina do sono,
a que raízes se ligam as pupilas
nocturnas? Obedece
à árvore dos seus passos.
Conduz os animais
minuciosos
do desejo errante.
Sua inocência
tem a forma do silêncio.
O vazio vibra na leveza
do andar.
Desenha o astro em que caminha.
a que raízes se ligam as pupilas
nocturnas? Obedece
à árvore dos seus passos.
Conduz os animais
minuciosos
do desejo errante.
Sua inocência
tem a forma do silêncio.
O vazio vibra na leveza
do andar.
Desenha o astro em que caminha.
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António Ramos Rosa
Mediadora Negra Ii
Cresce num turbilhão de areia
e vidro. É uma evidência negra.
Entre oblíquas aves gira.
Dorme nas gargantas da sombra.
O centro cintila? Relâmpagos
rápidos não arredondam o campo.
Como unir a terra à estrela?
Seu ardor negro separa.
Vibra a língua, vibra o corpo
da água cega que a nutre,
sem esplendor de inteligência.
Muralhas, muralhas densas.
Não perfaz, não principia
por terras, máquinas, sombras.
Gritos vãos e nenhum canto.
Sangue frio do movimento.
e vidro. É uma evidência negra.
Entre oblíquas aves gira.
Dorme nas gargantas da sombra.
O centro cintila? Relâmpagos
rápidos não arredondam o campo.
Como unir a terra à estrela?
Seu ardor negro separa.
Vibra a língua, vibra o corpo
da água cega que a nutre,
sem esplendor de inteligência.
Muralhas, muralhas densas.
Não perfaz, não principia
por terras, máquinas, sombras.
Gritos vãos e nenhum canto.
Sangue frio do movimento.
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