Poemas neste tema
Corpo
António Ramos Rosa
Mediadora do Real
Suavidade e tumulto.
Aroma da nudez.
Luz redonda, luz delícia
de evidência.
Prodígio da terra, grande
enlace
de imediatas moradas
confiantes.
Profusa maravilha, o centro
abriu-se.
Júbilo da nudez. Delírio fulvo.
A alegria lê a fábula real.
Aroma da nudez.
Luz redonda, luz delícia
de evidência.
Prodígio da terra, grande
enlace
de imediatas moradas
confiantes.
Profusa maravilha, o centro
abriu-se.
Júbilo da nudez. Delírio fulvo.
A alegria lê a fábula real.
1 221
António Ramos Rosa
Mediadora Dos Frutos Nocturnos
Estão acesos os obscuros
frutos. É o espaço da noite.
As ruas ascendem por escadas verdes.
O viajante viu de longe cintilar um dorso.
Rede cinzenta e ainda azul
como se fosse a casa em oscilação tranquila.
Entre lâmpadas e sombras
respira-se o unânime.
Os ombros pulsam. O corpo confia
na música nocturna. Plenitude
de uma esfera de água. Opulência
suave. Cresce o fulgor dos frutos.
frutos. É o espaço da noite.
As ruas ascendem por escadas verdes.
O viajante viu de longe cintilar um dorso.
Rede cinzenta e ainda azul
como se fosse a casa em oscilação tranquila.
Entre lâmpadas e sombras
respira-se o unânime.
Os ombros pulsam. O corpo confia
na música nocturna. Plenitude
de uma esfera de água. Opulência
suave. Cresce o fulgor dos frutos.
1 080
António Ramos Rosa
Mediadora do Opaco
Para o mínimo olhar a terra negativa,
os poços infantis,
lanças, palmas, dentes,
concavidades, placas, declives.
Não já a flor nem a folha soberana
mas os impulsos negros, a incoerência viva
do informulado: algo entre
vermes e excrementos explode
no opaco. Onde as palavras
circulares, concêntricas
se apagam.
os poços infantis,
lanças, palmas, dentes,
concavidades, placas, declives.
Não já a flor nem a folha soberana
mas os impulsos negros, a incoerência viva
do informulado: algo entre
vermes e excrementos explode
no opaco. Onde as palavras
circulares, concêntricas
se apagam.
1 044
António Ramos Rosa
Mediadora Imediata
Com as ancas da terra, num sopro
de poeira e sol, um despertar
profuso. Um sonho de estuário.
Solstício no quarto. Flagrante
corpo imediato. Cabeleira
habitada. Mecânica matinal
das mãos e da água. Magia
do mínimo. Tranquilidade verde.
Cinza e espuma, o simples
perfume do ar, levíssima.
No limiar sempre onde nasce
tudo está salvo sem história.
de poeira e sol, um despertar
profuso. Um sonho de estuário.
Solstício no quarto. Flagrante
corpo imediato. Cabeleira
habitada. Mecânica matinal
das mãos e da água. Magia
do mínimo. Tranquilidade verde.
Cinza e espuma, o simples
perfume do ar, levíssima.
No limiar sempre onde nasce
tudo está salvo sem história.
1 021
António Ramos Rosa
Mediadora Leve
De que suaves declives
ela desce, tão efémera
em sua fresca lucidez.
Imediata fluência
perfumada. Com um hálito
de espuma transparece
entre vertentes e vértices.
Não é mais que folha ou água.
Nada pesa e tudo queda
no seu círculo subtil:
cada vez mais leve o ar
entre a penumbra dos músculos.
Nada oculta sob as pedras
do vento. A claridade lisa.
O espaço escuta. Uma fábula
de calma profundidade.
Tão próxima sempre, aviva
o fulgor dos ângulos, o brilho
do pensamento das lâmpadas.
Rosa de um círculo latente.
Ninguém a espera e é esperada
no seu fluxo de inocência.
A densidade é mais leve.
Carne da luz e da alma.
Enquanto dura o seu estar
tudo é sossego e visão
ama-se a água na água.
Amam-se as veias da sombra.
ela desce, tão efémera
em sua fresca lucidez.
Imediata fluência
perfumada. Com um hálito
de espuma transparece
entre vertentes e vértices.
Não é mais que folha ou água.
Nada pesa e tudo queda
no seu círculo subtil:
cada vez mais leve o ar
entre a penumbra dos músculos.
Nada oculta sob as pedras
do vento. A claridade lisa.
O espaço escuta. Uma fábula
de calma profundidade.
Tão próxima sempre, aviva
o fulgor dos ângulos, o brilho
do pensamento das lâmpadas.
Rosa de um círculo latente.
Ninguém a espera e é esperada
no seu fluxo de inocência.
A densidade é mais leve.
Carne da luz e da alma.
Enquanto dura o seu estar
tudo é sossego e visão
ama-se a água na água.
Amam-se as veias da sombra.
1 118
António Ramos Rosa
A Mão Silenciosa Percorre o Dorso Cálido
A mão silenciosa percorre o dorso cálido
que é um adormecer contínuo nos limites.
Nada mais que terra e solidão solar.
Nada treme e tudo está suspenso no vazio.
Nada se diz. É o silêncio da palavra.
que é um adormecer contínuo nos limites.
Nada mais que terra e solidão solar.
Nada treme e tudo está suspenso no vazio.
Nada se diz. É o silêncio da palavra.
1 117
António Ramos Rosa
Na Iminência
Lentidão de membros voluptuosa
Um turbilhão compacto de sinais evola-se
Este é o vazio secreto da iminência
Do fundo das pedras nasce uma respiração
A serenidade da suspensão não insegura
mas atenta vibrante o esplendor
que se demora em seu arco de estar
Sabemos na claridade um saber de vento e ervas
Ser aqui
no sopro da aragem vago e amplo
De novo a promessa nos limites
Eclipse talvez de tanta coisa
Terra que promete o corpo que o corpo compreende
Ar ignorado ar do ignorado
aérea lucidez nos corpos nus
Um turbilhão compacto de sinais evola-se
Este é o vazio secreto da iminência
Do fundo das pedras nasce uma respiração
A serenidade da suspensão não insegura
mas atenta vibrante o esplendor
que se demora em seu arco de estar
Sabemos na claridade um saber de vento e ervas
Ser aqui
no sopro da aragem vago e amplo
De novo a promessa nos limites
Eclipse talvez de tanta coisa
Terra que promete o corpo que o corpo compreende
Ar ignorado ar do ignorado
aérea lucidez nos corpos nus
1 040
António Ramos Rosa
Nela Se Curva a Luz
Nela se curva a luz
como se um feixe de músculos tocássemos
sob a pele.
como se um feixe de músculos tocássemos
sob a pele.
1 131
António Ramos Rosa
Na Lucidez do Corpo
Na lucidez do corpo
num impulso de terra
alcançar sem entraves o domínio mais suave.
num impulso de terra
alcançar sem entraves o domínio mais suave.
1 107
António Ramos Rosa
Uma Delícia Intacta É o Seu Corpo
Uma delícia intacta é o seu corpo
numa irradiante atmosfera luminosa.
Gracioso repouso de irredutível sentido
e de enigma suave. Nudez de água
intensa
sobre areias verdes.
Um sopro grácil conduz o seu trabalho.
numa irradiante atmosfera luminosa.
Gracioso repouso de irredutível sentido
e de enigma suave. Nudez de água
intensa
sobre areias verdes.
Um sopro grácil conduz o seu trabalho.
1 074
António Ramos Rosa
Na Cavidade da Simplicidade
Na cavidade da simplicidade
deslizando no imóvel
somos animais marinhos de uma delícia verde.
deslizando no imóvel
somos animais marinhos de uma delícia verde.
588
António Ramos Rosa
Na Densidade Em Que Nada Se Repete
Na densidade em que nada se repete
irradiam sombras leves, nomes
vindos do ritmo profundo.
O corpo arde no início. Tudo é um âmbito.
irradiam sombras leves, nomes
vindos do ritmo profundo.
O corpo arde no início. Tudo é um âmbito.
1 120
António Ramos Rosa
Gravitação Total Em Torno
Gravitação total em torno
de um contorno adormecido, forma ausente
de uma dança germinal que se retrai,
carícia de um sono imaculado.
de um contorno adormecido, forma ausente
de uma dança germinal que se retrai,
carícia de um sono imaculado.
1 018
António Ramos Rosa
No Extremo da Abolição, a Entrega Toda.
No extremo da abolição, a entrega toda.
O insondável puro é o vazio da água.
A terra inteira entrega-se num corpo.
O insondável puro é o vazio da água.
A terra inteira entrega-se num corpo.
880
António Ramos Rosa
Impenetrável Gérmen Que Adormece
Impenetrável gérmen que adormece
no livre abandono de uma pálpebra.
Lento equilíbrio que suporta
o súbito vagar do ar.
no livre abandono de uma pálpebra.
Lento equilíbrio que suporta
o súbito vagar do ar.
1 184
António Ramos Rosa
No Abrigo Idêntico Ao Intacto Aceso,
No abrigo idêntico ao intacto aceso,
habitando o esplendor
da nudez material. Sentir
a morada íntegra, primeira
sobre o suporte imprescrutável.
habitando o esplendor
da nudez material. Sentir
a morada íntegra, primeira
sobre o suporte imprescrutável.
1 060
António Ramos Rosa
Vem Secretamente Aberta
Vem secretamente aberta
para nascer no sedento repouso
de estar sentindo o sabor do ilimite
tão simplesmente côncava no rumor
que germina em palavras silenciosas.
para nascer no sedento repouso
de estar sentindo o sabor do ilimite
tão simplesmente côncava no rumor
que germina em palavras silenciosas.
1 109
António Ramos Rosa
No Vislumbre da Visão
No vislumbre da visão
o tacto do repouso a dispersão
do acaso e os campos de abandono
onde a nudez habita.
o tacto do repouso a dispersão
do acaso e os campos de abandono
onde a nudez habita.
1 116
António Ramos Rosa
A Nudez Mais Completa
uma área branca
sem uma árvore um texto opaco
com frases apressadas nuas
com chuva sobre as pedras
sobre os poros
e o desejo do desejo e a sombra nua
palavras animais cor de relâmpago
frutos da sombra e do esplendor
solidárias lâmpadas no deserto
animais animais à chuva à sombra
abrem o espaço ao desejo ao espaço
palavras dilacerando outras palavras
tronco e lua suor e sempre
tecla tábua espuma pedra
vocábulos que desfiguram as imagens
palavras que só amam a figura
da nudez mais completa
do intacto
sem uma árvore um texto opaco
com frases apressadas nuas
com chuva sobre as pedras
sobre os poros
e o desejo do desejo e a sombra nua
palavras animais cor de relâmpago
frutos da sombra e do esplendor
solidárias lâmpadas no deserto
animais animais à chuva à sombra
abrem o espaço ao desejo ao espaço
palavras dilacerando outras palavras
tronco e lua suor e sempre
tecla tábua espuma pedra
vocábulos que desfiguram as imagens
palavras que só amam a figura
da nudez mais completa
do intacto
1 109
António Ramos Rosa
Tudo Começa Aqui
Tudo começa aqui
no desamparo do horizonte nulo
aqui nasce o corpo no seu espaço virgem
de súbito uma espiral se ergue
ou quase o arco ainda entre o céu e o céu.
no desamparo do horizonte nulo
aqui nasce o corpo no seu espaço virgem
de súbito uma espiral se ergue
ou quase o arco ainda entre o céu e o céu.
1 183
António Ramos Rosa
No Limiar da Claridade Móvel
No limiar da claridade móvel
um só trajecto até à opacidade
um frémito de abandono e de silêncio
nas vertentes
mais frescas e mais fundas
Impossível relatar o que tu vês
inesgotáveis são as folhas
as relações inúmeras gotas de água
os objectos sucessivos simultâneos
o corpo desagrega-se
recompõe-se
o mesmo corpo e outro e outro
a distância mantém-se e é abolida
Figura do desejo e da nudez
perseguida
a transparência é livre
à superfície de
uma escrita que se abre ao obscuro
Uma festa se promove
uma aliança do ar com um fogo de ervas
o combate pela claridade
na carne mesma do poema
Corpo a corpo
letra a letra
pelos sulcos não sulcados
algo que começa e é sem nome
e sem imagem
um só trajecto até à opacidade
um frémito de abandono e de silêncio
nas vertentes
mais frescas e mais fundas
Impossível relatar o que tu vês
inesgotáveis são as folhas
as relações inúmeras gotas de água
os objectos sucessivos simultâneos
o corpo desagrega-se
recompõe-se
o mesmo corpo e outro e outro
a distância mantém-se e é abolida
Figura do desejo e da nudez
perseguida
a transparência é livre
à superfície de
uma escrita que se abre ao obscuro
Uma festa se promove
uma aliança do ar com um fogo de ervas
o combate pela claridade
na carne mesma do poema
Corpo a corpo
letra a letra
pelos sulcos não sulcados
algo que começa e é sem nome
e sem imagem
1 070
António Ramos Rosa
Caos Aberto
Para aquém dos sinais definidos para aquém do silêncio
o fundo à superfície o furor formidável
turbilhão da génese turbulência marinha
multiplicidade sem soma dança flutuações
Marinho deus ou deusa marginal
deus original do clamor ódio primeiro
ódio verde ódio da treva
que ruído pode impor silêncio ao ruído
que furor pode ordenar este furor
…………………………………………….
Detonações sílabas oscilações
Algo começa começa como começa o tempo
Rumor rumor incessante
oiço pelos ouvidos pelas papilas por toda a minha pele
estou mergulhado no som no ar na luz
ó alimento perene vivacidade do rumor
oiço e compreendo cegamente as evidências
O ruído e o furor incessante é quase a deusa branca
sobre o marulho negro
Não não fales a linguagem do rigor
o canal está cheio de ruídos de rumor de imagens
Ao alto o silêncio branco das nuvens silenciosas
O animal ou deus é pouco mais do que água
A crepitação longa do rumor fragmenta-se
flutuações flutuações a língua dança
tudo recomeça tudo cresce tudo morre
O rumor não cessa rumor quase de dança
quase a luz de um corpo e cinza resplandecente
nenhum alvor nenhuma mensagem nenhuma palavra
o furor cresce continua verde e cinza
flutuações flutuações crepitação sem fim
o fundo à superfície o furor formidável
turbilhão da génese turbulência marinha
multiplicidade sem soma dança flutuações
Marinho deus ou deusa marginal
deus original do clamor ódio primeiro
ódio verde ódio da treva
que ruído pode impor silêncio ao ruído
que furor pode ordenar este furor
…………………………………………….
Detonações sílabas oscilações
Algo começa começa como começa o tempo
Rumor rumor incessante
oiço pelos ouvidos pelas papilas por toda a minha pele
estou mergulhado no som no ar na luz
ó alimento perene vivacidade do rumor
oiço e compreendo cegamente as evidências
O ruído e o furor incessante é quase a deusa branca
sobre o marulho negro
Não não fales a linguagem do rigor
o canal está cheio de ruídos de rumor de imagens
Ao alto o silêncio branco das nuvens silenciosas
O animal ou deus é pouco mais do que água
A crepitação longa do rumor fragmenta-se
flutuações flutuações a língua dança
tudo recomeça tudo cresce tudo morre
O rumor não cessa rumor quase de dança
quase a luz de um corpo e cinza resplandecente
nenhum alvor nenhuma mensagem nenhuma palavra
o furor cresce continua verde e cinza
flutuações flutuações crepitação sem fim
1 152
António Ramos Rosa
Não Já Sinais Nem Tropos Nem Imagens
Não já sinais nem tropos nem imagens
mas só o corpo na noite do contacto
o interior obscuro mas sem lugar
o espaço em que os traçados
se desfazem.
mas só o corpo na noite do contacto
o interior obscuro mas sem lugar
o espaço em que os traçados
se desfazem.
1 083
António Ramos Rosa
A Deusa Visível
¿Cómo decir lo que veo tan claro?
ÁNGEL CRESPO
Tão viva e ardente e tão clara
no ar em que ela ondula e treme
mais brilhante do que a luz e mais serena
não se adivinha não se imagina a deusa
que não vi e claramente vejo
dormindo no silêncio sem latidos
Como dizer o que é mais claro que a claridade
a visão nua de uma mulher na luz
mais completa e mais diurna
do que o dia?
A claridade apaga a claridade
ÁNGEL CRESPO
Tão viva e ardente e tão clara
no ar em que ela ondula e treme
mais brilhante do que a luz e mais serena
não se adivinha não se imagina a deusa
que não vi e claramente vejo
dormindo no silêncio sem latidos
Como dizer o que é mais claro que a claridade
a visão nua de uma mulher na luz
mais completa e mais diurna
do que o dia?
A claridade apaga a claridade
1 145