Poemas neste tema
Corpo
António Ramos Rosa
Uma Felicidade Nos Dedos
Uma felicidade nos dedos
um fluir cálido o sol
captado no repouso sobre a mesa
e escrito aqui um sol tão rápido
Nada se separa sob os dedos
ignorantes da divisão do vidro
E se o pássaro fica
sem o canto
não o sabem os dedos
Eles deslizam sobre a superfície
na absoluta densidade indesvendável
um fluir cálido o sol
captado no repouso sobre a mesa
e escrito aqui um sol tão rápido
Nada se separa sob os dedos
ignorantes da divisão do vidro
E se o pássaro fica
sem o canto
não o sabem os dedos
Eles deslizam sobre a superfície
na absoluta densidade indesvendável
1 136
António Ramos Rosa
Um Corpo Se Retrai E Se Constrói
Um corpo se retrai e se constrói
pelo vazio que gira em torno deleo espaço é limitado
e se algo avança sem colunas
são formas que respiram na brancura
Aqui nesta procura a mão
dilata-se
A história que nos vence não nos vence
O desejo é o objecto da metamorfose
Com o desejo o corpo se levanta
As formas estão nas linhas
e um rosto se imagina
na árvore em ramos abstractos
pelo vazio que gira em torno deleo espaço é limitado
e se algo avança sem colunas
são formas que respiram na brancura
Aqui nesta procura a mão
dilata-se
A história que nos vence não nos vence
O desejo é o objecto da metamorfose
Com o desejo o corpo se levanta
As formas estão nas linhas
e um rosto se imagina
na árvore em ramos abstractos
969
António Ramos Rosa
O Caminho Errante
Talvez uma palavra… Sobre esta sombra nua e ofuscante. Escrevo. Talvez uma sombra, uma única sombra. Detenho-me… A visão desfoca-se, uma avidez hirta apossa-se da visão branca, perplexa, paralisante… Que sei eu demais para que a água não trabalhe o pulso, a água, o sangue, o ritmo do dia, a pulsação da noite? Quero respirar porque tu respiras ou porque sufocas, quero respirar por ti em cada palavra e cada palavra é fria e clara sem a respiração do caminho, sem o sopro obscuro. Não quero nem posso desistir, porque talvez, talvez os vocábulos de súbito se obscureçam e cada um deles fulgure com o fôlego da noite e da linguagem perdida. Detém-te mas não desistas. Como poderias desistir? Haverá algum apelo mais obstinado do que o da palavra nua que ainda não se ouviu e, ouvida, será sempre inaudita? Este — este?… — será o percurso mais sombrio e fresco onde todas as manchas serão máculas de um nocturno sangue, sangue que ainda não pulsou, que ainda não ascendeu, que está preso na parede negra do teu e do meu corpo. As palavras percorrem um caminho errante e cada uma é um muro e uma porta que se abre para outro muro e para uma outra porta. Eis que as palavras me inundam de sombras e são lâmpadas e lábios e sempre muros, sempre sombras que transportam um impossível desejo, o ardor do contacto original, da primeira febre e da primeira manhã. Que escreves? Estes primeiros lábios que se acendem de novo, estes lábios antigos, lábios já descritos em todos os livros ou no único Livro, lábios de mil leitores mas não do primeiro e do último leitor, o único de sempre, o único que vem restabelecer o circuito vivo e é a promessa constante destes vocábulos com que respiro de ferida em ferida, de pedra em pedra, de muro em muro, de porta em porta.
1 228
António Ramos Rosa
Descida Oblíqua Leve
Descida oblíqua leve
iluminação do corpo
Inclinas-te
para o ângulo direito fascinante
os traços negros
incendeiam-se
e algo se estende algo se ilumina
iluminação do corpo
Inclinas-te
para o ângulo direito fascinante
os traços negros
incendeiam-se
e algo se estende algo se ilumina
1 007
António Ramos Rosa
Ei-La Despida Ou
Ei-la despida ou
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada
A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde
O vento é a inteligência libertada
E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada
A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde
O vento é a inteligência libertada
E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
1 039
António Ramos Rosa
Verde a Lentidão
Verde A lentidão
da curva
A anca surge branca
A forma vive na folhagem o seu dia
Nuvem cintilante ou forma
sobre forma
Surpresa dita ou por dizer
um outro sempre
É preciso cingi-lo
inventar-lhe os limites
à superfície branca
Aqui quando se diz
da curva
A anca surge branca
A forma vive na folhagem o seu dia
Nuvem cintilante ou forma
sobre forma
Surpresa dita ou por dizer
um outro sempre
É preciso cingi-lo
inventar-lhe os limites
à superfície branca
Aqui quando se diz
1 170
António Ramos Rosa
O Desejo a Surpresa
O desejo A surpresa
Ou a maravilha
Não pela igual imagem
mas destroçando-a
Resíduos só ou a passagem dos sinais
que dizem a passagem
do que será
se for o contacto imprevisível
do obscuro
inacessível corpo em outro corpo vivo
Ou a maravilha
Não pela igual imagem
mas destroçando-a
Resíduos só ou a passagem dos sinais
que dizem a passagem
do que será
se for o contacto imprevisível
do obscuro
inacessível corpo em outro corpo vivo
1 065
António Ramos Rosa
A Que Aparece Nua
A que aparece nua
na trama variável
figura numa teia viva
entre rupturas
alta adormecida
ou sem pálpebras perante o monstro
e informe perde-se sonâmbula
mas não o traço nem as sílabas
nem os resíduos de frescura
no obstinado escuro trajecto
na trama variável
figura numa teia viva
entre rupturas
alta adormecida
ou sem pálpebras perante o monstro
e informe perde-se sonâmbula
mas não o traço nem as sílabas
nem os resíduos de frescura
no obstinado escuro trajecto
1 069
António Ramos Rosa
As Pernas São o Grito
As pernas são o grito
no rosto no ventre A língua
contra a língua
ou antes as duas línguas que a destroem
Vertigem dos limites
contra a vertigem
Explosão esta figura
ao atingir a superfície branca
no rosto no ventre A língua
contra a língua
ou antes as duas línguas que a destroem
Vertigem dos limites
contra a vertigem
Explosão esta figura
ao atingir a superfície branca
1 065
António Ramos Rosa
Ancas Intermináveis Flancos
Ancas intermináveis Flancos
que trucidam quando oscilam dançam
(Trucidemo-las)
já que elas rasgam templos
e o próprio tempo
e o espaço
que trucidam quando oscilam dançam
(Trucidemo-las)
já que elas rasgam templos
e o próprio tempo
e o espaço
1 176
António Ramos Rosa
Limiar Ou o Silêncio
Limiar ou o silêncio
de um corpo obscuro e branco
As hastes vivas
envolvem-no na clareira
em que a sua nudez promete o nome
A fenda escura e verde
em que desliza a mão
sem atingir o inseparável ou o núcleo
Imagens múltiplas
até que os limites se conjuguem
no novo corpo ou na palavra
que o transpõe
de um corpo obscuro e branco
As hastes vivas
envolvem-no na clareira
em que a sua nudez promete o nome
A fenda escura e verde
em que desliza a mão
sem atingir o inseparável ou o núcleo
Imagens múltiplas
até que os limites se conjuguem
no novo corpo ou na palavra
que o transpõe
1 109
António Ramos Rosa
Ignorância do Caminho
Ignoro o caminho, a mais pura ciência de viver. Não importa já a razão dominadora com o seu cerco que expulsa o silêncio e disseca o próprio ar que se respira. A palavra só existe em função da realidade que cria e à qual se furta. A palavra viva é a impossível nudez do corpo, a lâmpada do silêncio, o retorno ao aqui. Estar aqui, voltar aqui é recomeçar o começo, é começar o que ainda e sempre está por começar. Todas as palavras são pedras de um exílio e todas nos abrem os lábios da ferida. Todo o vocábulo é nascimento e morte. O branco é cúmplice do exílio e do milagre da linguagem. Nenhuma sombra poderia respirar se não fosse a ficção nula da brancura da página. A página acende o obscuro sangue de uma lâmpada, de um corpo ou de um silêncio, e logo o apaga para reavivar a mesma chama de silêncio, a própria língua do corpo.
1 141
António Ramos Rosa
A Mão Baixa
A mão baixa
aranha de ar
rápida intranquila
as armas que respiram
o desejo e a surpresa
aranha de ar
rápida intranquila
as armas que respiram
o desejo e a surpresa
1 156
António Ramos Rosa
Toco Os Pés de Terra
Toco os pés de terra
e os ombros da parede
sobre as nuvens
e os ombros da parede
sobre as nuvens
1 099
António Ramos Rosa
Quase
Quase
a garganta forte a respiração do tronco
obsessão branca
a casa do nome
com o vento das ervas
e o fogo sem o nome
a garganta forte a respiração do tronco
obsessão branca
a casa do nome
com o vento das ervas
e o fogo sem o nome
1 091
António Ramos Rosa
Consonância do Intacto
Consonância do intacto
com o corpo
nudez
de pedra
exacta
com o corpo
nudez
de pedra
exacta
1 057
António Ramos Rosa
77. Inflectida a Figura Recebe a Face
77
Inflectida a figura recebe a face
que vive no discurso das pedras dos detritos.
Na ausência da paisagem a ausência da figura.
Ó noite não ó dia manhã da vida forte
aí a face na multidão vestida
ou na nudez da cama do miserável quarto.
Com o suor da face e as pernas negras húmidas
com a humildade do sono na urina breve
vive a figura aqui
Vive? Respira pobre.
Inflectida a figura recebe a face
que vive no discurso das pedras dos detritos.
Na ausência da paisagem a ausência da figura.
Ó noite não ó dia manhã da vida forte
aí a face na multidão vestida
ou na nudez da cama do miserável quarto.
Com o suor da face e as pernas negras húmidas
com a humildade do sono na urina breve
vive a figura aqui
Vive? Respira pobre.
1 043
António Ramos Rosa
Pedra de Sol Na Boca
Pedra de sol na boca
língua verde
ombros no horizonte
próximos
língua verde
ombros no horizonte
próximos
1 009
António Ramos Rosa
80. Anca, E Depois Campo, E Forte
80
Anca, e depois campo, e forte
a curva dançante mas discreta e dura
ela é campo não azul, corpo e dança
a deusa dos olhos e da rua e da dança.
Ela é o corpo, ela é a dança, ela é a rua
e os olhos brilham a boca arde no campo
arde no brilho do pássaro vivamente
desloca a pedra para que ela passe.
Anca na boca na língua quadril forte
dança no campo sem flores no passeio
passa sobre a capa da visão translúcida.
Anca, e depois campo, e forte
a curva dançante mas discreta e dura
ela é campo não azul, corpo e dança
a deusa dos olhos e da rua e da dança.
Ela é o corpo, ela é a dança, ela é a rua
e os olhos brilham a boca arde no campo
arde no brilho do pássaro vivamente
desloca a pedra para que ela passe.
Anca na boca na língua quadril forte
dança no campo sem flores no passeio
passa sobre a capa da visão translúcida.
1 222