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Poemas neste tema

Desejo

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Palavra No Deserto

à Lia
Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal?

Era uma paisagem a pique. Respirava.
Uma obscura claridade e o vigor da terra
conjugavam-se numa boca. Era a frescura
de uma vigília, um sopro de vida ardente.

A clareira de ervas de aromas tensos.
O poema escrevia-se de poros abertos.
Uma camisa branca e leve flutuava
no corpo flexível.
Todos os frémitos eram sílabas de um Verão feliz.

Entre o sabor das coisas e as palavras
uma transparência quase.
A invenção do ar e do espaço
com uma varanda onde a ânsia refrescava
a sua febre na visão do mar.

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Que procuro ainda?
A inesperada ardência, a vida
de um gesto novo?
Restituir-me-á a palavra
a maravilha nua do encontro,
a surpresa que lava o olhar, o pulso vivo?

Que miragem é esta? Viver só
o instante de um desejo
ou apenas o desejo de um desejo?

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Uma palavra de vida. O nascimento
de uma erva alta onde o céu dance.
Antes direi o nada que me cerca
e marcarei a pedra escura.
A sombra passará. A sede límpida
encontrará a fonte?
Se um caule verde nasce,
se eu ouvir um insecto crepitar no calor da terra?
Ou serão na noite os estalidos das estrelas?

Será este o sinal? As palavras nascem?

Tudo já passou. Ou nem chegou a ser.
E de novo preso à fixidez da página.
Que secreta origem, que presença branca
eu quero sentir pulsar. À minha frente
este desejo de nascer ainda em vida.
A esperança desesperada. A desesperada esperança.

Nenhuma palavra nasce. Nenhum sinal.

Porque o sinal seria… Como o saberei?
Uma esperança paciente. A invenção
de tudo a cada instante. Uma linguagem
viva.
E não a aridez e a solidão sem vida.

O frio avança nos ossos e no sangue.
De novo a agonia e a dor sem horizonte.
Um escuro frenesim me invade contra
a sabedoria e a prometida paz.
O sinal que espero virá do mais obscuro.
Tudo se apagará. O nascimento é agora.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Horizontal Linguagem

Há demasiadas sombras sobre a pedra
aqui o sol é branco            o sol é branco
nenhum animal avança sobre o ramo
se nada vejo já e não verei é porque vejo
o desejo e a sombra         a sombra e o desejo

Ruptura ou inversão do objecto
do desejo        a sua cor é a do animal
na água         a água aqui no novo
espaço

A boca bebe sombra e água
bebe
sombra
e
água

Na página         o sol é branco
o sol
*
Estas pedras sem aranhas
são palavras
nuas
uma corrente límpida atravessa a página
uma árvore irrompe
nova edição de folhas
um sopro sobre os olhos sobre as pernas
a fenda negra e crespa sangra sobre a boca
sangue e cal
saliva sombra
*
Mutação de cores e música de lâmpadas

Em qualquer outra parte dir-se-ia um beijo
aqui é a trajectória da sombra branca

e de súbito vermelha num território de verdura ardente

Noutro país seria o mistério do crepúsculo
sobre um corpo inerme e verde
noutro país
mas aqui

Esplendor de um corpo penetração solar
mutação da lua em sol de língua em língua
livre caos na caverna limpidez nas trevas
e o que é a boca na boca a música do sol
e a densidade azul a aliança lisa
os nomes com os nomes lâminas lábios
fogo água argila sangue

Corrente de lâmpadas
brancas
os arcos
da água sobre as ancas destes deuses ou insectos
os números e as formigas doces as árvores das muralhas
a terra
e os seus ombros descobertos gotejantes
a tua garganta alta
as tuas pernas altas
o esplendor e a sombra do teu corpo
tudo se transforma no esplendor
da página
mutação rumor ou música
*
O corpo e a terra uniram-se num corpo
numa página
as pernas sobre as pernas eis o sol
o novo sol nos braços
e
nos dentes
eu como-te nas ervas
no silêncio da folhagem

E eu digo que tu és o meu silêncio
e bebo-te

Esta é a terra do corpo
e a cúpula do desejo com a sombra
e
uma espécie de música incerta o sussurro de um insecto

Que violência nova na muralha
do teu corpo
e nas palavras do teu corpo
incandescente

Entre os dentes da sombra
uma agonia verde um esplendor
o enigma da terra
o silêncio
*
Que terra ainda e sempre
a amplitude        Agora

ouvimos outras bocas entre as lâmpadas
latejantes
quem canta? Ninguém Alguém
Entre ouvir e não ouvir existe um sim
Se soubéssemos o que sabemos não saberíamos
A torre transformou-se numa planície vermelha
A caverna mudou-se num rio luminoso
*
Quando viveste
se é agora que vives
se é agora agora
que caminhas
no sol novo

A terra Aqui escrita uma vez mais Uma única vez
aqui a folhagem límpida
sobre a muralha
e o teu próprio corpo contra
é ainda uma muralha
contra a muralha verde e sombria, gotejante

Ouvimos agora a torrente do silêncio
ouvimos o silêncio e
os nomes
*
Ascendem brancas pernas bocas entre lâmpadas
altos seios
e o interior de um barco os sexos verdes
braços ou polvos estrelas animais redondos

Não dissemos amor mas aqui e agora
é um rio, um rio e não sabemos
o que sabemos: água ou fogo, água e fogo, sangue

Caminhamos Flutuamos Navegamos no fogo
da água
é o nosso sangue, o sangue de outros, o sangue
de ninguém
e onde termina
o que principia?

Aqui, do sangue, nasceu o encontro
o esplendor
bocas vivas braços vivos olhos vivos
e mãos vivas
escrevem
como se fossem apenas
esta mão
sobre esta folha
o rio de fogo que não cessa
*
E eis que de novo a sombra cai
sobre a pedra
ou sobre a mão

Onde de novo a luz do sol

Recomeço o que nunca cessa
a outra mão
aquela
que descreve o que a outra escreve
e a surpresa nasce de um novo sol
jogo de sombras e reflexos pálpebras
dedos suaves sobre suaves sexos olhos
que são palavras e palavras que são olhos
dizem tudo o que não dizem, dizem,
inexplicável corrente em mutação constante,
espelho e muralha, luz e sombra,
entre a terra e a página, entre a treva e a música
animais animais são bocas que dizem bocas
e são formas de amor sofrimento e medo
atravessam écrans entre ofuscantes lâmpadas
esgueiram-se, fluidas, em rios e rios de espelhos
*
Por vezes as palavras quase se perdem quase
nem música nem treva,
mas uma mancha de cal
uma mão decepada
mas apenas um sombrio sussurro

Mas tudo podem ser e mesmo nada
e entre nada e nada
lançam ainda um arco
que pode ser de água ou de silêncio

Sangue
argila
fogo
ou terra

Incessantes entre o branco e o sangue
entre a terra e a página
elas recomeçam Chamo-lhes pedras
ou folhagem
e são surpresas de água ou fogo e sombra

E recomeçam E recomeçam
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Caminho Na Ausência

à Ângela Maria
É talvez uma pedra ou talvez uma folha
uma pedra sem sombra uma folha sem sangue

Talvez o primeiro nome o primeiro grito
seja esta pedra ou esta folha ou este nome

Este é o único lado da sombra
mas qual é a ferida
de que lado é a boca
a sombra oculta um rosto
o muro terá uma boca?
onde é que a ferida fala?

A mão conhece a pedra
o lugar do silêncio
mas o frio desta pedra
a sombra desta folha
não desoculta o nome
e apenas no branco
um ombro se desenha
o ombro do muro e não do corpo

A sede desta boca sobre a página
não inicia o nome que a mão tacteia em vão
Onde é que a folha ou a boca sabe a sangue
onde está o sangue desta sombra?

A porta aonde bate a mão não soa
são pedras e folhas nomes sem o nome
abraço os braços mas são braços de terra
e a terra é uma palavra no papel

Digo árvore árvore como um grito
ou chamo as folhas o vento a terra o fogo
Onde é que o pulso vibra com a tensão do nome?
Onde é que pedra a pedra se diz o nome e a ferida?

O grito desenha um rasto na sombra das palavras
O corpo encontrará sobre os ossos das letras
a graça dos músculos a música da água?

O que resta é a ferida silenciosa
a pedra silenciosa
resíduos filamentos ervas palavras sombras
entre as folhas
uma lâmpada escura
entre as mãos
esta folha
esta folha
silenciosa

O quarto está vazio e o eco só responde
a palavras indistintas

Interrogo a página
a porta branca do vazio
Até a sede morreu junto ao poço de escombros
A mão desenha o gesto vão de afugentar
a própria mão
O pulso ainda palpita
e a boca ainda deseja

Mas a mão não desiste de tocar pedras sombras
as raízes duras das palavras escuras
as pálpebras vazias
e o vazio entre as letras
e nunca a serenidade do nome

Onde é o outro lado da sombra?
A mão busca entre as folhas a lâmpada clara
Há um caminho que conduz ao horizonte
à casa
onde as palavras repousam
e a ferida fala o seu nome obscuro

A ausência renasce sob cada palavra
Um paciente furor apossa-se do corpo
Um paciente furor rasga a folha violenta
arranca a primeira pedra
o primeiro passo
sobre a água
de uma boca outra boca outro corpo

O caminho não cessa entre esta mão
e a folha
A mão há-de encontrar a mão
novas palavras nascerão
sobre outros lábios noutro muro noutro caminho

E talvez o caminho seja o princípio sempre
Sempre a ausência e o desejo ardente
Sempre o grito a renascer da ferida silenciosa
Sempre o silêncio e o seu nome incessante
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

As Palavras No Centro Vazio

à Cinda
Deixa as palavras caírem sobre o chão
vazias
Talvez uma forma silenciosa
se liberte
talvez um gesto em chamas
se levante

O pudor do toque sobre a página
uma colina uma porosa
lâmpada
onde nada se passa

a não ser talvez
a língua que se acende
áspera e verde
sobre a sombra
sobre o vento

Talvez o corpo se liberte
das mandíbulas dos insectos
talvez um olho brilhe
nas palavras entre as pedras

Deixa as palavras caírem sobre o muro
talvez elas caminhem
para a única
forma
de silêncio
verde

Talvez elas repousem no espaço
Talvez melhor do que o silêncio
nesta folha
digam o que o silêncio quer dizer

Deixa as palavras caírem sobre o centro
vazio

Talvez só a pálpebra de uma sombra
ou um leve movimento da folhagem
seja o breve sinal
de ser
ou de não ser

Talvez o corpo se erga da sombra
e do vazio da página
cheio do silêncio
da sua própria forma
no simples esplendor
do seu nascer

Deixa as palavras caminharem na sombra
em busca da sua própria boca
ávidas do corpo
entreaberto
trémulas como as folhas
de uma árvore

Talvez nada se passe
ou quase nada
e isso seja o todo do que é
que nunca é

A dança quase imóvel a palavra à beira do seu ser o princípio do desejo que não cessa a chama do corpo nas palavras

Ou a chama do silêncio
entre as palavras
que dizem
e não dizem o que são

O corpo livre enfim
no seu começo
tudo o que no silêncio nasce
e morre sem cessar Talvez
renasça no poema         Talvez
recomece
por nunca ser senão pelo desejo
de um quase nada
que é todo o seu ser
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Delírio Legível

à Maria Teresa Dias Furtado
Porque se tornou ilegível o canto é preciso ir de pedra em pedra No turbilhão das árvores sem nome (No muro lêem-se linhas ardem cores)

Tocar a nudez Quando? É o vento
nas pedras e no pulso intenso

Aqui é um quarto e uma trave o suor de um corpo os dedos duros sobre os nomes poucos Quando é o princípio da terra rente à mão A liberdade escura do desejo: o rude e espesso nome inominável Tudo se transforma na passagem que se lê de pedra em pedra de água em água

Aqui é o princípio das evidências
inacessíveis (Aqui o centro
das raízes onde um insecto se revolve
quando se escreve no ardor das letras)

Um bicho obsceno e puro muito frágil seco
Um ponto Um sinal da terra A liberdade de estar
no caos verde a liberdade de respirar ainda e sempre
com a tenacidade da terra
no ardor completo da palavra

Aqui é o turbilhão legível O quarto está coberto de pedras as paredes abriram a mão pode estender-se até um tronco arrancar uma raiz A secura branca entra na garganta as palavras mais rasas cobertas de poeira

Deixou de ser um crime estar vivo
no desejo de tudo
no nada de não saber e ser
há um conjunto impossível que principia algures
a arder
a terra o sol e a água uniram-se numa parede
cada vez mais branca e mais solar

Habito um movimento no impossível acto de ser
um murmúrio vem dos lábios escritos da terra
estou pronto para a liberdade de nascer com as palavras
e de nelas me perder até que o turbilhão
se torne o vocábulo vivo e habitável

Aqui é um lugar neutro o lugar nu O lugar livre
Lugar inacessivelmente pobre e nulo
Porque não se pode começar no princípio
Aqui nada se disse e por isso está tudo por dizer
e por isso nada se dirá e por isso tudo se dirá
Aqui não é o caminho
nada poderá sair daqui
aqui é a brecha do muro
a fissura inicial em que se inscrevem os sinais

Aqui estou à beira da origem
onde nada principia senão a sede
onde nada vive senão o desejo
nada cresce senão o nulo e neutro ser animal de água e ar
que me envolve como um olho
morada permanente interior inacessível
simples e prodigioso núcleo onde permanecer é começar sempre
e cada vez mais
o impossível acto de ser
a superabundância e a graça de nada ser
a ameaça suspensa e a angústia próxima de irrupção do exterior
a cada momento superado pelo movimento animal que escreve
em pleno delírio legível e branco

Aqui é a planície e o poço A dissidência originária
onde a boca bebe o princípio da alteridade acesa
Tudo se move num plano total que governa os movimentos paralelos
do corpo e da escrita
numa corrente que impele todas as sequências vivas da palavra
de argila e sangue

Eis uma nova brecha e outra rasgando-se no silêncio
Os sinais passam rápidos demais para se transformarem em palavras
A mão está seca sobre a pedra Aquelas árvores
não têm nome Quando é um indício apenas
para seguir uma chama branca antes do tempo
Abre-se um olho no tecto um cone de luz
onde perpassam sombras
e o pó a que se reduzem as palavras
A casa destruída aberta entre pedras e insectos
é o lugar nulo deserto no deserto
mas a página branca está cheia de caminhos
e a mão transforma o pó das palavras destruídas
noutras palavras novas frescas e rápidas
na parede cada vez mais branca e mais solar
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Imagem Que Conduz Ao Corpo

A mão dispersa na folhagem
a mão perdida a boca já exausta
onde tocar a pedra as sílabas da pedra?

Aqui uma sombra branca Não inicial
Este lugar inabitável não é o princípio nem o centro
Como alcançar o coração de alguma coisa
a substância o centro ou a terra do poema

Começo sem amor sempre demasiado cedo
Interrogo não um insecto nem uma pedra
Percorro um muro com um olhar cego
Estou tão longe da realidade como do poema
A distância é infinita Tu não estás aqui
E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos
e de mais

A mão toca não um silêncio não as sílabas
de um corpo longo e fresco mas uma corrente
congelada uma parede árida calcinada

Como encontrar a imagem que conduz ao corpo
como percorrer as veias vivas do silêncio
e fazer-te estremecer os leves lábios?
Como estar sendo ser estando
junto à boca unida e firme
e trémula
do poema?

Se soubesse desenhar as linhas negras
que abrem a brancura completa
do corpo
que deixam entrever a espuma nos cabelos
no sulco que divide as amorosas pernas
onde o murmúrio permanece do sangue sob as mãos
escreveria as linhas intensas do poema?

As mãos completar-se-iam no perfil ardente
O presente seria o instante do abrigo imenso
A luz dos teus olhos banharia as palavras
e tu serias o corpo luminoso
com os membros libertos sob a água viva

Escrever seria amar-te? Seria
interromper este deserto limpar a ferida aberta?
Seria entrar no interior do centro fresco
percorrer essa praia que ninguém ainda pisou
beijar os teus sinais e a sede límpida
que desenha toda a chama alta do teu corpo?

Escrever seria estar contigo no interior da chama
beber o orvalho das palavras nos teus lábios?
No interior de um barco de folhagem verde
animado de um braço intensamente vivo
ligando-me cada vez mais à linguagem do teu corpo?

Estou já tão perto de ti que uma sombra soluça
Estou tão perto de ti que o poema principia
Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo
A minha língua arde sobre o teu ombro frágil
O perdão do teu olhar é o amor da luz
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nascer Com a Palavra

à Eugénia Maria
e à Kitty
Nascer começa com o desejo? Com a sede do nome?
Que todo o sinal seja ao mesmo tempo carne
Se alguma coisa tu dizes acende-se na página

É um nome que eu quero dizer mas
o que eu desejo não tem nome porque
é anterior a todas as palavras
e é por ele que cada coisa ganha um nome

Aqui é o lugar onde se forma a face
visível e silenciosa das palavras
Neste instante desapareço
As palavras começam a ter cor
e um equilíbrio alto
um rio de formas surge
Neste momento vejo um verde ígneo e um cinzento suave

Escrever é como beber por um copo de barro
a água de um corpo em que sombras se movem
e as sombras iluminam-se e iluminam as coisas
e o secreto nome brilha na parede alta

Posso abrir um parêntesis e incluir nele o muro
Esqueço tudo para poder respirar o princípio de tudo
em que de súbito uma folhagem estremece e as palavras surgem
trémulas ainda de silêncio e de desejo

Ouço um rumor ou não A lâmpada que empunho é obscura
mas busco seguir devagar um ritmo do conjunto branco
em que todas as palavras se aniquilam e a abertura se abre.
…………………………………………………………..

Nascer começa aqui onde se inaugura um incessante acto
em que se reúne o resto do que se produz continuamente
mas que é invisível deste lado do real
e é aí o centro líquido onde o corpo se refaz
a cada palavra que pronuncia a boca ferida

As palavras chamam as coisas e multiplicam-nas
sobre um fundo obscuro onde ressoam claras
Não é preciso saber não é preciso olhar
O contacto com o fundo produz a sequência feliz que principia

Um corpo desenha-se fora de nós habita o espaço
e é como se atingisse o solo onde se respira
Uma corrente única atravessa as coisas e as palavras
O mundo nasce a cada palavra e é a palavra que nasce
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

3. Para o Incêndio da Festa

Eis a língua em fogo
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue

O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar

Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue

Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa

Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia

Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca     estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa

Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa

E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa

Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza

Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?

Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste

Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa

Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Grito Cego

à Ana
e ao Raul
A forma do grito um reflexo ardente
no extremo do visível rosto cego
a chama alta nas vertentes negras

linguagem densa a desfazer-se em espuma
a nudez do olhar sem as árvores duras
como um músculo de água apenas sob as pálpebras

aqui quando deslizam
arcos sob as sombras do desejo
substância porosa verde inerte
a mão sem o olhar na líquida viuvez

caudal abrindo o ciclo do declive

A paisagem fechou-se sobre o corpo como um poço as evidências ruíram arrastando os limos sobre os membros o contínuo rumor do sangue inundou o espaço disponível da visão perderam-se os nomes das pedras a distância dissipou-se

a explosão do grito na ávida parede
das virilhas à garganta em frémitos de fulgor
corpo envolvido pelo corpo rio viscoso
epiderme ligada às trevas interiores

vagas de frémitos
ruídos que deslizam nas margens líquidas
interminável fluxo apagando os nomes e as formas
o infinito ardor em ínfimas vibrações
de uma língua sem língua de uma boca hiante
cavidade do inarticulado furor cavo do grito
incessante redemoinho a destruir a visão
das possíveis formas dos limites dos sinais
numa confusão de manchas e linhas fugitivas
nas raízes da água escura alucinada
……………………………………………
O cerne do grito
ponto infinito inesgotável nó
dilacerante lento
sem espaço

corpo negro informe enterrado
em si mesmo
com o sabor último da terra rente à boca
e todavia desperto difuso ardente
na oclusão compacta sem princípio
sem memória sem futuro
retornando a si
……………………………………………
grito
no espaço deserto
linguagem espessa em glóbulos densos
amálgama igual à polpa do seu antro
carne igual ao interior da terra
deflagração quase inaudível
enigma
resíduo apenas
numa praia invisível ainda
que forma primeira
que visão abres
nas margens já possíveis?
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

4. É Frágil Esta Sombra

É frágil esta sombra, frágil. E
esta escrita sem lâmpada, sem
cavalos na montanha.

É frágil este pulso, e este início.
Uma porta que não se abre, uma manhã tão triste.
Esta casa cheia de dias e de dias
e eu só desejo
abrir não sei que espaço, romper, abrir.

Sinais
sinais da terra outra.
Estacas.
Palavras.
Estacas.
Lâminas.

E não o jardim, não a folhagem nem o fogo.
Porque estes dedos são dedos de sombra
e o fruto perde-se, o fruto e a pedra
do fruto.
Os dentes desertaram da boca. E onde a boca?
Onde a água da boca aqui na folha?
Onde se levanta o vento, a linguagem do fogo?

Invento um arco? E sem o mar
sem o teu corpo.
Mas escrevo estes sinais contra o deserto.
Tantas marcas atrozes, tanto silêncio.

Inscrevo (eu sei) apenas inúteis setas
no círculo, entre tenazes.

Eu sei (aqui o digo) busco o seio límpido
e esta é a dor da terra mais triste
e eu não sei se desisti se ainda insisto.

Animal é o fogo e o espaço livre.
E se as bocas se encontram, se o fruto vive
sobre a pedra branca, se o círculo se abre
se nós quisermos que a terra seja a terra.

Quem clama no escuro, que outras sombras
se revoltam — que outras palavras
poderiam inscrever a terra nesta folha?

Eu desejo outro espaço o espaço do desejo
na folha mesma
onde inscrever
as palavras dos arcos do silêncio
ou as pedras da liberdade livre.

A flexão feliz dos membros nus
e esse canto que ascende para as árvores
e o rosto os rostos sinais transfigurados
essa luz vermelha sobre os cílios negros.
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