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Poemas neste tema

Desejo

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Horizontal Linguagem

Há demasiadas sombras sobre a pedra
aqui o sol é branco            o sol é branco
nenhum animal avança sobre o ramo
se nada vejo já e não verei é porque vejo
o desejo e a sombra         a sombra e o desejo

Ruptura ou inversão do objecto
do desejo        a sua cor é a do animal
na água         a água aqui no novo
espaço

A boca bebe sombra e água
bebe
sombra
e
água

Na página         o sol é branco
o sol
*
Estas pedras sem aranhas
são palavras
nuas
uma corrente límpida atravessa a página
uma árvore irrompe
nova edição de folhas
um sopro sobre os olhos sobre as pernas
a fenda negra e crespa sangra sobre a boca
sangue e cal
saliva sombra
*
Mutação de cores e música de lâmpadas

Em qualquer outra parte dir-se-ia um beijo
aqui é a trajectória da sombra branca

e de súbito vermelha num território de verdura ardente

Noutro país seria o mistério do crepúsculo
sobre um corpo inerme e verde
noutro país
mas aqui

Esplendor de um corpo penetração solar
mutação da lua em sol de língua em língua
livre caos na caverna limpidez nas trevas
e o que é a boca na boca a música do sol
e a densidade azul a aliança lisa
os nomes com os nomes lâminas lábios
fogo água argila sangue

Corrente de lâmpadas
brancas
os arcos
da água sobre as ancas destes deuses ou insectos
os números e as formigas doces as árvores das muralhas
a terra
e os seus ombros descobertos gotejantes
a tua garganta alta
as tuas pernas altas
o esplendor e a sombra do teu corpo
tudo se transforma no esplendor
da página
mutação rumor ou música
*
O corpo e a terra uniram-se num corpo
numa página
as pernas sobre as pernas eis o sol
o novo sol nos braços
e
nos dentes
eu como-te nas ervas
no silêncio da folhagem

E eu digo que tu és o meu silêncio
e bebo-te

Esta é a terra do corpo
e a cúpula do desejo com a sombra
e
uma espécie de música incerta o sussurro de um insecto

Que violência nova na muralha
do teu corpo
e nas palavras do teu corpo
incandescente

Entre os dentes da sombra
uma agonia verde um esplendor
o enigma da terra
o silêncio
*
Que terra ainda e sempre
a amplitude        Agora

ouvimos outras bocas entre as lâmpadas
latejantes
quem canta? Ninguém Alguém
Entre ouvir e não ouvir existe um sim
Se soubéssemos o que sabemos não saberíamos
A torre transformou-se numa planície vermelha
A caverna mudou-se num rio luminoso
*
Quando viveste
se é agora que vives
se é agora agora
que caminhas
no sol novo

A terra Aqui escrita uma vez mais Uma única vez
aqui a folhagem límpida
sobre a muralha
e o teu próprio corpo contra
é ainda uma muralha
contra a muralha verde e sombria, gotejante

Ouvimos agora a torrente do silêncio
ouvimos o silêncio e
os nomes
*
Ascendem brancas pernas bocas entre lâmpadas
altos seios
e o interior de um barco os sexos verdes
braços ou polvos estrelas animais redondos

Não dissemos amor mas aqui e agora
é um rio, um rio e não sabemos
o que sabemos: água ou fogo, água e fogo, sangue

Caminhamos Flutuamos Navegamos no fogo
da água
é o nosso sangue, o sangue de outros, o sangue
de ninguém
e onde termina
o que principia?

Aqui, do sangue, nasceu o encontro
o esplendor
bocas vivas braços vivos olhos vivos
e mãos vivas
escrevem
como se fossem apenas
esta mão
sobre esta folha
o rio de fogo que não cessa
*
E eis que de novo a sombra cai
sobre a pedra
ou sobre a mão

Onde de novo a luz do sol

Recomeço o que nunca cessa
a outra mão
aquela
que descreve o que a outra escreve
e a surpresa nasce de um novo sol
jogo de sombras e reflexos pálpebras
dedos suaves sobre suaves sexos olhos
que são palavras e palavras que são olhos
dizem tudo o que não dizem, dizem,
inexplicável corrente em mutação constante,
espelho e muralha, luz e sombra,
entre a terra e a página, entre a treva e a música
animais animais são bocas que dizem bocas
e são formas de amor sofrimento e medo
atravessam écrans entre ofuscantes lâmpadas
esgueiram-se, fluidas, em rios e rios de espelhos
*
Por vezes as palavras quase se perdem quase
nem música nem treva,
mas uma mancha de cal
uma mão decepada
mas apenas um sombrio sussurro

Mas tudo podem ser e mesmo nada
e entre nada e nada
lançam ainda um arco
que pode ser de água ou de silêncio

Sangue
argila
fogo
ou terra

Incessantes entre o branco e o sangue
entre a terra e a página
elas recomeçam Chamo-lhes pedras
ou folhagem
e são surpresas de água ou fogo e sombra

E recomeçam E recomeçam
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

3. Para o Incêndio da Festa

Eis a língua em fogo
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue

O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar

Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue

Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa

Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia

Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca     estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa

Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa

E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa

Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza

Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?

Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste

Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa

Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

1. a (In)Coerência do Fogo

O desenho a fogo: os dedos e o sopro.
As pedras soltas suscitam algo,
uma textura sem segredo, aberta.
Como se não procurasse olho: sempre o deserto?

O corpo e essa onda, essa pedra — é uma linha
e o tumulto dos músculos no mar
eis o desejo da perda e do encontro
contra a parede, contra esta página
este deserto — o mar.

O sopro do incêndio da folhagem
esta rasura
no raso da inércia
ó apagada força amor do mar deserto força

reúno ou disperso     pedras sobre o mar
ou pedras

Onde o corpo     onde o desejo
perante o vento
a frágil força do corpo (aranha inerme)?

Se eu soprar as vértebras do fogo aqui
se subverter a folha e nu gritar

Eu continuo com estas pedras no deserto — no mar?
Nem são pedras estas pedras mas a garganta
enfrenta o vento — e o deserto,
que corpo que corpo se perde ao rés da página
ou terra?

Mas se não fosse o deserto — se fosse a praia
a música do corpo
e o vento no mar
e o teu corpo no meu corpo?

Mas tu esperas três palavras
três pedras
— e sem o fogo sem a folhagem sem o mar

Se um signo fosse a coluna do sangue
perante a maré perante o fogo
e não a morte este céu deserto
esta outra morte cega ao vento
este silêncio contra o peito?

Escrever assim mesmo com os ossos
com a proa do externo
com a morte no deserto
com as sílabas no deserto

Mas se o silêncio da praia — onde o mar? —
o silêncio da página
suscitassem essa música do corpo
aqueles membros brancos
vermelhos
em torno ao centro — e a respiração do mar?

Um braço, uma torção do braço pela violência do vento
um cântico na praia
o corpo contra o corpo amante amado?

Uma sílaba apenas verde ou branca
e não o torso musical
e não a pedra do mar o esplendor da praia?

Ninguém ouve o grito sobre o vento
sobre o ventre de ninguém
nada se ouve entre estas pedras
nada é aqui neste deserto

Mas isto é, isto é, como se
um signo
fosse o sangue da lâmpada?

Desenho as formas vivas na areia
desenho este sulco no meu corpo
soçobro sobre o sulco — em frente o mar?

Que corpo se levanta? É um corpo, um outro corpo?
Um corpo que se ergue sobre a espuma
ou um sinal apenas sem o sangue?

A boca morde os dentes
a página está deserta
a praia está deserta.

A minha mão ergue-se num sinal vão
como se não desistisse.

As pedras nem são pedras
mas palavras
mas o desejo de um contacto incandescente
mas o ardor de um persistente insecto.

Praia, mar, sulcos na areia, vento
ou só deserto
eu vos invoco e vos insuflo a chama
da garganta,
eu apelo para o cântico. Caminho?

Mais do que a sílaba do mar
mais do que a flor imprevista
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que o ouro da areia
eu subscrevo o branco     um novo corpo.
Ainda que nada veja senão as pedras
que delimitam o vazio
eu estou à beira de     eu sou o intervalo
entre a folhagem e o fogo
e o silêncio é um sinal
do corpo.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Corpo Sob As Palavras

à Maria Eduarda
Dorme o sono na folha dorme o braço na folha
O que desperta é um olho verde sob o musgo da árvore

Dorme o ar em torno
da página dorme sob o pólen
das pálpebras de terra

Dorme o corpo sob a mão inerte Dorme a boca do barco
Dorme uma nuvem devagar
Quando quando
se abrirão os lábios
daquela ferida vermelha     Para quando
a dança sobre a pedra negra e o furor branco
das palavras no corpo?
*
Chamar-lhe-ia barco pedra dança
chamar-lhe-ia pedra
chamar-lhe-ia dança
mas seria mulher seria praia
seria areia acesa

Chamar-lhe-ia se pudesse
a alegria ávida
ávida
de uma boca
sobre a espuma da praia

Chamar-lhe-ia o centro
da espessura
roxa
de um bosque
e beijá-la-ia como um olho

Mas não posso acordá-la
sob tantas pálpebras
São palavras demais
se eu soubesse
dizia
só a sua sombra na água
*
Como acender o corpo? Estou atento à pedra sobre a pedra e vejo a água nua no silêncio

O corpo possui uma ferida violenta um lugar branco um ombro na muralha

Ouço o muro ouço o ar da praia A casa é uma carícia pressentida um olho oculto na sombra     azul

Esta é a folha sobre as pálpebras do corpo adormecido. Nenhum nome acorda. É uma pedra que toco ou uma sombra?

Junto à muralha onde os cães urinam o corpo adormeceu. Algo cessou há muito no silêncio

Como se nunca mais pudesse despertar como se houvesse um único nome: pedra. E o eco desse nome: pedra E nem sequer a memória do que foi outrora uma dança vermelha.

O que toco é a pedra do sono
*
(Foi outrora o corpo folha ardente
Foi mão de fogo abelha de alegria
Quando? Quando?)
*
Será o rumor do mar ou será na sombra o rumor do próprio corpo branco? Serão folhas que tombam sobre a pedra ou os olhos que se movem sob as pálpebras?

Eu nada espero e espero Caminho no silêncio da folha Será esta a praia onde o corpo deixou os seus sinais?

O fogo verde escuro daqueles olhos sob a sombra da muralha A antiga e branca árvore do mar
*
Tento acordar o corpo Toco a língua de pedra o sinal do fogo Toco uma palavra minúscula na erva

Toco a sombria perfeição da perna Toco membro a membro dedo a dedo todos os sinais do corpo apodrecido

Toco todos os nomes do corpo: os braços de água na sombra da pedra a clareira branca do umbigo o negro crespo onde a ferida sangra

Beijo pálpebras olhos ombros Toco o segredo mais ardente frio língua a língua insuflo o meu desejo respiro a boca branca húmida de sombra

As palavras não despertam os membros estão dispersos é quase noite sobre o muro
Uma folha cai sobre o rosto putrefacto Os insectos corroem-lhe os pulsos e o ventre O corpo não estremece
*
Uma paciência ardente uma paciência de sombra sinuosa uma alta pedra do silêncio

Um ardor pulso a pulso insuflado sobre a espuma negra dessa boca

Uma língua que suba as silenciosas colunas até à terna e alucinante perfeição redonda

Umas palavras rasgadas na muralha sangrando nas mãos sobre a brancura mortal do corpo
*
Boca a boca nesta folha no teu corpo respirar-te-ei pela primeira vez

Recém-acordada recém-nascida da pedra dilacerada da parede do sono

Beijo-te a língua verde a língua vermelha a língua ainda de sombra

e fria

O teu olhar atónito ofuscado é ainda uma palavra destroçada e branca

Libertas-te do sono e da vertigem com a lentidão de uma onda negra

O teu corpo forte estremece finalmente sob as minhas mãos sob o meu corpo sob as minhas palavras vivas
*
Que suavidade de lençol que língua que mão ou lâmpada
te desnudou tão lenta tão vermelha e branca

Levantas-te e és alta muito alta sobre pernas claras
e perfeitas

E a praia é tua Esta mão pertence-te Este pulso
rasgado
(Eu fui o teu sono
a tua pedra
negra)

Agora insuflo-te as palavras com que danças
sobre a praia Agora explode a boca em palavras
mudas como lâmpadas
secretas e nuas crespas e negras suaves crispadas
lâminas
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Nascer Com a Palavra

à Eugénia Maria
e à Kitty
Nascer começa com o desejo? Com a sede do nome?
Que todo o sinal seja ao mesmo tempo carne
Se alguma coisa tu dizes acende-se na página

É um nome que eu quero dizer mas
o que eu desejo não tem nome porque
é anterior a todas as palavras
e é por ele que cada coisa ganha um nome

Aqui é o lugar onde se forma a face
visível e silenciosa das palavras
Neste instante desapareço
As palavras começam a ter cor
e um equilíbrio alto
um rio de formas surge
Neste momento vejo um verde ígneo e um cinzento suave

Escrever é como beber por um copo de barro
a água de um corpo em que sombras se movem
e as sombras iluminam-se e iluminam as coisas
e o secreto nome brilha na parede alta

Posso abrir um parêntesis e incluir nele o muro
Esqueço tudo para poder respirar o princípio de tudo
em que de súbito uma folhagem estremece e as palavras surgem
trémulas ainda de silêncio e de desejo

Ouço um rumor ou não A lâmpada que empunho é obscura
mas busco seguir devagar um ritmo do conjunto branco
em que todas as palavras se aniquilam e a abertura se abre.
…………………………………………………………..

Nascer começa aqui onde se inaugura um incessante acto
em que se reúne o resto do que se produz continuamente
mas que é invisível deste lado do real
e é aí o centro líquido onde o corpo se refaz
a cada palavra que pronuncia a boca ferida

As palavras chamam as coisas e multiplicam-nas
sobre um fundo obscuro onde ressoam claras
Não é preciso saber não é preciso olhar
O contacto com o fundo produz a sequência feliz que principia

Um corpo desenha-se fora de nós habita o espaço
e é como se atingisse o solo onde se respira
Uma corrente única atravessa as coisas e as palavras
O mundo nasce a cada palavra e é a palavra que nasce
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