Poemas neste tema
Desejo
António Ramos Rosa
59. Consoladora (Como) Considerando Estrelas
59
Consoladora (como) considerando estrelas
imprevistas aqui a mão mantendo a mão
como parte inerente a outro corpo escrito
inversão não ou vida, inclusão no viver.
Perante um tu que não se evoca aqui
perante um tu que é desejo de
invocação e terra, negação do sangue,
ou inscrição do sangue na madeira negra.
Tudo o que consome o sabor da terra
será a consumação do culto desta terra
que não é jardim mas cujo espaço é o espaço
e um jardim que se ama: o jardim do espaço.
Consoladora (como) considerando estrelas
imprevistas aqui a mão mantendo a mão
como parte inerente a outro corpo escrito
inversão não ou vida, inclusão no viver.
Perante um tu que não se evoca aqui
perante um tu que é desejo de
invocação e terra, negação do sangue,
ou inscrição do sangue na madeira negra.
Tudo o que consome o sabor da terra
será a consumação do culto desta terra
que não é jardim mas cujo espaço é o espaço
e um jardim que se ama: o jardim do espaço.
988
António Ramos Rosa
66. Arma de Folhas E de Folhas
66
Arma de folhas e de folhas
sobre o seio nu
na folha transparente.
O animal suspenso
pela forma do fruto incandescente
brilhando e fugindo entre a folhagem
ou o sangue fugitivo na praia do teu peito.
Na erva, ausente, respiro o ar da erva
busco a arma de folhas numa sombra
transparente que é o desenho das armas do teu peito.
Arma de folhas e de folhas
sobre o seio nu
na folha transparente.
O animal suspenso
pela forma do fruto incandescente
brilhando e fugindo entre a folhagem
ou o sangue fugitivo na praia do teu peito.
Na erva, ausente, respiro o ar da erva
busco a arma de folhas numa sombra
transparente que é o desenho das armas do teu peito.
1 117
António Ramos Rosa
72. Porquê o Porquê a Sombra Viva, a Sobrevida
72
Porquê o porquê a sombra viva, a sobrevida
e escrever estes sinais na folha e não saber
e escrever ainda sem esperança e no desejo
dos sinais de uma paisagem acesa, o esplendor.
O esplendor. O encontro. Aqui jamais
eis o epitáfio e o motor da imagem
negra ou branca na incerta curva
de um verso e outro verso entre os espaços.
E se ela fosse vermelha, ah vermelha!
ela quem? — ela, o esplendor do encontro
tão raro e tão pouco no pouco que é
viver sem esperar, escrever sem esperar,
mas no movimento da imagem interior
acender a imagem da face ou o esplendor.
Porquê o porquê a sombra viva, a sobrevida
e escrever estes sinais na folha e não saber
e escrever ainda sem esperança e no desejo
dos sinais de uma paisagem acesa, o esplendor.
O esplendor. O encontro. Aqui jamais
eis o epitáfio e o motor da imagem
negra ou branca na incerta curva
de um verso e outro verso entre os espaços.
E se ela fosse vermelha, ah vermelha!
ela quem? — ela, o esplendor do encontro
tão raro e tão pouco no pouco que é
viver sem esperar, escrever sem esperar,
mas no movimento da imagem interior
acender a imagem da face ou o esplendor.
1 103
António Ramos Rosa
60. Não Oculto a Visão Da
60
Não oculto a visão da
variável paisagem mínima que
seria do desejo sanguíneo deste dedo
nem a pulsão de uma palavra insecto.
O que oculto não sei, o que desejo é a árvore,
a expulsão do pai, substituto, o verde
crepúsculo de uma escrita pobre
no pré-formal desejo da forma e da não forma.
O mais depressa cai sobre a folha: escreve-se
sem a razão do ritmo, o espaço e ainda um ritmo,
uma pressão ou um quase nada, umas palavras
que não dão vida, que não vivem, aqui são.
Não oculto a visão da
variável paisagem mínima que
seria do desejo sanguíneo deste dedo
nem a pulsão de uma palavra insecto.
O que oculto não sei, o que desejo é a árvore,
a expulsão do pai, substituto, o verde
crepúsculo de uma escrita pobre
no pré-formal desejo da forma e da não forma.
O mais depressa cai sobre a folha: escreve-se
sem a razão do ritmo, o espaço e ainda um ritmo,
uma pressão ou um quase nada, umas palavras
que não dão vida, que não vivem, aqui são.
1 142
António Ramos Rosa
39. Esta É a Folha, E a Folha
39
Esta é a folha, e a folha
de terra, mas a água da lâmpada
breve.
Que ela me diga a não-palavra
de palavra, a terra
e o corpo renascendo sob a árvore
e o espaço que é o espaço
o espaço.
E a terra da terra, o corpo
da figura
soprando a nuvem sobre as pernas
da mulher descoberta na ilha do seu quarto.
Esta é a folha, e a folha
de terra, mas a água da lâmpada
breve.
Que ela me diga a não-palavra
de palavra, a terra
e o corpo renascendo sob a árvore
e o espaço que é o espaço
o espaço.
E a terra da terra, o corpo
da figura
soprando a nuvem sobre as pernas
da mulher descoberta na ilha do seu quarto.
600
António Ramos Rosa
42. Depressa Antes De
42
Depressa antes de
talvez seja o acto de ser na folha
talvez o sangue ascenda à lâmpada da língua.
Quando (aqui: é o desejo) a folha
na limpeza do vento
descubra as brancas pernas altas da mulher
a alegria da nudez
do súbito do ser.
Depressa na lentidão do acto azul
por dentro do opaco na direcção partida
fora do círculo no aberto instante.
Depressa antes de
talvez seja o acto de ser na folha
talvez o sangue ascenda à lâmpada da língua.
Quando (aqui: é o desejo) a folha
na limpeza do vento
descubra as brancas pernas altas da mulher
a alegria da nudez
do súbito do ser.
Depressa na lentidão do acto azul
por dentro do opaco na direcção partida
fora do círculo no aberto instante.
959
António Ramos Rosa
43. Definição do Dia Pela Palavra do Corpo
43
Definição do dia pela palavra do corpo
aceso: cintilação das imagens sob
a escrita não límpida e escrita impura
da negra verdura do não saber exacto.
A aranha verde da folhagem verde
tece as linhas de linguagem e sombra
ardente e esquece o que tece esquece a arma
o corpo do desejo armas discretas.
Quem saberá do silêncio das folhas
e da perspectiva incendiada sob
a não verdade a confusão o medo.
Definição do dia pela palavra do corpo
aceso: cintilação das imagens sob
a escrita não límpida e escrita impura
da negra verdura do não saber exacto.
A aranha verde da folhagem verde
tece as linhas de linguagem e sombra
ardente e esquece o que tece esquece a arma
o corpo do desejo armas discretas.
Quem saberá do silêncio das folhas
e da perspectiva incendiada sob
a não verdade a confusão o medo.
1 076
António Ramos Rosa
Terra Para Pronunciar…
Terra para pronunciar com os dentes da terra, terra escalavrada, presença e memória e espaço da ausência, espaço e desejo de espaço, e já o espaço do desejo, assim a terra negra, escalavrada, corpo branco e mudo.
1 330
António Ramos Rosa
9. Contra Algo, Inconsistente, Interrogado
9
Contra algo, inconsistente, interrogado
respiração de infância, insecto imperceptível
aranha de água brilhante aranha.
Contra algo — o quê? Contra isso
pelo desejo obscuro da terra obscura
pela respiração das imagens e dos lagos.
Pelos dados do não-dado contra
o contra que embranquece a página
contra a virgindade da árvore contra o seio.
Contra algo, inconsistente, interrogado
respiração de infância, insecto imperceptível
aranha de água brilhante aranha.
Contra algo — o quê? Contra isso
pelo desejo obscuro da terra obscura
pela respiração das imagens e dos lagos.
Pelos dados do não-dado contra
o contra que embranquece a página
contra a virgindade da árvore contra o seio.
1 160
António Ramos Rosa
Pulsações da Terra
o gérmen na página o puro
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge
e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo
ávido silêncio
voracidade verde
a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro
o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia
e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever
e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos
no terraço branco
onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio
eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro
oiço o diálogo da terra
com a terra
vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
1 146
António Ramos Rosa
Ó Treva Ó Música Na Extensão do Vazio
Ó treva ó música na extensão do vazio
e o silêncio no teu pulso o silêncio dos teus ombros
como eu amo esses silêncios como eu amo o silêncio dos teus olhos
quero escrever aqui os cristais vibráteis
dessa folha frágil e violenta a que chamo o teu corpo
Ó treva ó música música entre os juncos claros
música sobre a mesa de madeira nua
música da tua língua enrolada e lisa como um jarro
ó treva e música dos teus olhos ó frémito
das tuas ancas rodando contra o furor das ondas contra uma quilha ardente
Ó música entre o branco e o negro ó migrações silenciosas
das aves do sangue ó longas pulsações do ventre
o que te atravessa identicamente o que arde na consistência indemne
ó espessura vermelha ó murmúrio da fábula e da folhagem
há um fragmento imóvel há um peixe de sombra na parede
Ó música ó treva somos nós que nos abrimos
como podemos estar tão perto do limiar da folha
como escrever estes silêncios estas latentes lâmpadas
e o silêncio no teu pulso o silêncio dos teus ombros
como eu amo esses silêncios como eu amo o silêncio dos teus olhos
quero escrever aqui os cristais vibráteis
dessa folha frágil e violenta a que chamo o teu corpo
Ó treva ó música música entre os juncos claros
música sobre a mesa de madeira nua
música da tua língua enrolada e lisa como um jarro
ó treva e música dos teus olhos ó frémito
das tuas ancas rodando contra o furor das ondas contra uma quilha ardente
Ó música entre o branco e o negro ó migrações silenciosas
das aves do sangue ó longas pulsações do ventre
o que te atravessa identicamente o que arde na consistência indemne
ó espessura vermelha ó murmúrio da fábula e da folhagem
há um fragmento imóvel há um peixe de sombra na parede
Ó música ó treva somos nós que nos abrimos
como podemos estar tão perto do limiar da folha
como escrever estes silêncios estas latentes lâmpadas
577
António Ramos Rosa
Ela Desloca o Corpo Ao Alto
Ela desloca o corpo ao alto, esse perfeito
campo
das palavras
As carícias nos ombros, nos seios ressoam
na linguagem
As densas coxas altas ostentam o suor
Lança as suas palmas brancas sobre as pernas
Sim Contra o seu ventre contra os seus dentes
contra o musgo, o centro
opaco e negro, vermelho e negro
A língua trabalha as suas cores, penetra
o sexo duro e aberto
E bebe a terra líquida, boca e mãos,
e alta desce aos pés, o sopro cálido
ascende até ao sexo, crispando as palmas brancas
abrindo
a fenda onde as palavras ferem
a fúria verde da sua língua salva
ela lança ela penetra ela levanta-se
branca no espasmo branca no espaço branco
como ela se levanta e arde branca
branca
coluna de silêncio, palmas, boca, espáduas
esplendor da água compacta e alta
horizontal linguagem
campo
das palavras
As carícias nos ombros, nos seios ressoam
na linguagem
As densas coxas altas ostentam o suor
Lança as suas palmas brancas sobre as pernas
Sim Contra o seu ventre contra os seus dentes
contra o musgo, o centro
opaco e negro, vermelho e negro
A língua trabalha as suas cores, penetra
o sexo duro e aberto
E bebe a terra líquida, boca e mãos,
e alta desce aos pés, o sopro cálido
ascende até ao sexo, crispando as palmas brancas
abrindo
a fenda onde as palavras ferem
a fúria verde da sua língua salva
ela lança ela penetra ela levanta-se
branca no espasmo branca no espaço branco
como ela se levanta e arde branca
branca
coluna de silêncio, palmas, boca, espáduas
esplendor da água compacta e alta
horizontal linguagem
1 086
António Ramos Rosa
22. a Pergunta da Mão Aberta
22
A pergunta da mão aberta
na manhã matinal do quarto
aberta ao espírito de suavidade.
Alimentando o fogo o feliz rosto
criando a lâmpada de amorosa noite
mão no puro centro do impuro centro
resumindo a luz em luz da boca.
Resumindo o corpo e o lábio branco
luz que vive a palavra suavidade
que vive o viver do sangue amante.
A pergunta da mão aberta
na manhã matinal do quarto
aberta ao espírito de suavidade.
Alimentando o fogo o feliz rosto
criando a lâmpada de amorosa noite
mão no puro centro do impuro centro
resumindo a luz em luz da boca.
Resumindo o corpo e o lábio branco
luz que vive a palavra suavidade
que vive o viver do sangue amante.
961
António Ramos Rosa
20. de Amor — Na Pedra E Cinza Verde
20
De amor — na pedra e cinza verde
o corpo no húmus sem jardim
memória que perdeu o azul anel.
De amor por ela e por ele, o sim
da ausência neste espaço não
iluminado mas branco, imune
por amor do amor no vazio amado.
Qualidade do instante na boca, língua
de palpitante sede que ressurge o corpo
para além da memória, na pedra do incesto.
De amor — na pedra e cinza verde
o corpo no húmus sem jardim
memória que perdeu o azul anel.
De amor por ela e por ele, o sim
da ausência neste espaço não
iluminado mas branco, imune
por amor do amor no vazio amado.
Qualidade do instante na boca, língua
de palpitante sede que ressurge o corpo
para além da memória, na pedra do incesto.
922
António Ramos Rosa
Desejo E Deserto,…
Desejo e deserto, primeira e última sombra suscitando sobre o muro a respiração de um nada, estática sombra de ar, clarão de pedra negra que mal vejo, que retém o nada da sombra, a sombra de um nada quase terra, indelével a para sempre nesse instante perdida, aérea no muro.
1 306
António Ramos Rosa
A Boca Desviada,…
A boca desviada, sem o segredo do ar, sem o saber do outro, a boca solitária espera, sem sono e sem sombras, só com a água da sua sede, com o árido desejo da palavra dela e da outra boca que lê.
1 338
António Ramos Rosa
11. o Desenlace a Marca o Timbre
11
O desenlace a marca o timbre
razão de escrever viver morrer
na ideia exemplar do jamais aqui.
Mas será aqui o cacho apaixonante
da uva desses olhos de um frio branco
o rosto da irmã amante de altas pernas.
Será no pó sem a estrutura e na estrutura
do território agreste o rosto brusco
gritando o rosto aqui ou o rastro dele.
O desenlace a marca o timbre
razão de escrever viver morrer
na ideia exemplar do jamais aqui.
Mas será aqui o cacho apaixonante
da uva desses olhos de um frio branco
o rosto da irmã amante de altas pernas.
Será no pó sem a estrutura e na estrutura
do território agreste o rosto brusco
gritando o rosto aqui ou o rastro dele.
538
António Ramos Rosa
Os Primeiros Sinais Diferentes…
Os primeiros sinais diferentes no caminho, as sombras que afloram nas pedras escritas, nomes de nenhuma boca mas que aliciam a boca, a aligeiram até à saliva salva como a água do encontro entre boca e boca, palavra e palavra, pulso e terra.
1 395
António Ramos Rosa
Pedra Plana,…
Pedra plana, quase escrita e indelével, e a pulsação plana aflora o corpo e a frase estala, pedra e toalha, sinal vivo do caminho que não espera, que avança como se o mar aflorasse e o corpo vivo chegasse ao cimo da água, à frase sem memória, fonte de desejo.
1 281
António Ramos Rosa
2. a Perda da Pedra Inerte E Pobre
2
A perda da pedra inerte e pobre
e a exuberância do seio do corpo elástico
contrasta o negro e o rubro do viver a árvore
vermelha e negra musical secreta.
Contraste dos joelhos: no azul: no verde
e é ferida e não imagem que se beija
na selva do corpo em raiva rouca
tronco de beleza no não-instante instante.
Perda brusca descoberta límpida
das pernas em relevo viva água
da boca e dos seus dentes e das unhas
que rasgam os membros da matéria
nunca usada e não virgem e branca
elástico animal exuberante ardente
e grande e belo como o sol no seio.
A perda da pedra inerte e pobre
e a exuberância do seio do corpo elástico
contrasta o negro e o rubro do viver a árvore
vermelha e negra musical secreta.
Contraste dos joelhos: no azul: no verde
e é ferida e não imagem que se beija
na selva do corpo em raiva rouca
tronco de beleza no não-instante instante.
Perda brusca descoberta límpida
das pernas em relevo viva água
da boca e dos seus dentes e das unhas
que rasgam os membros da matéria
nunca usada e não virgem e branca
elástico animal exuberante ardente
e grande e belo como o sol no seio.
1 059
António Ramos Rosa
Eis a Primeira Proposição Clara
Eis a primeira proposição clara
a que trouxe o vinho e o cristal da terra
Derramaste o óleo no limiar da face
e sobre as pernas deslizou a chama verde
e sobre as pálpebras os cordões da terra
a boca soçobrou no limiar da treva
Eis a última proposição da terra
a tua língua abriu a ferida viva
a palavra soltou-se do sexo da terra
a que trouxe o vinho e o cristal da terra
Derramaste o óleo no limiar da face
e sobre as pernas deslizou a chama verde
e sobre as pálpebras os cordões da terra
a boca soçobrou no limiar da treva
Eis a última proposição da terra
a tua língua abriu a ferida viva
a palavra soltou-se do sexo da terra
996
António Ramos Rosa
O Sol Negro o Sol Branco
Pedras sombras árvores. Palavras
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
consciência negra do sol. Consciência da contínua
explosão.
Consciência do inifinitamente frágil e mortal.
Consciência da consciência efémera.
Sabor fúnebre da iminência.
Vácuo na cabeça e a mão que escreve
lenta, consciente? Estas palavras
que não são do desejo
nem de combate
nem são ainda do completo abandono
do desencontro mortal.
Podem dizer-me que estas pedras não são pedras
que acumulo sombras
e que não respiro as árvores
que ignoro tudo e escrevo nada.
Vivo ainda destas palavras
as mais pobres que encontro
nenhuma delas tão pobre como eu
nenhuma delas tão nua que te atinja a ti
a nós.
Disse sol outrora como se dissesse o sol
e era a morte viva que designava
era o negro esplendor do nada
era o vazio entre os espaços
de cada ser e cada coisa.
Mas era a vontade de um combate.
Era o desejo de alcançar a força viva
de lhe criar um espaço para mim e para ti
para viver ao sol desperto e nu
para viver no ser aberto
como um animal
como uma força fraterna
um corpo livre.
Cada palavra como uma pedra sobre a pedra
exacta e verdadeira.
E entre sombras e ramos entrar na clareira
do ser
onde a luz é a do encontro e do repouso
a perfeição tranquila e vegetal
a unidade íntima
o amor de estar.
647
António Ramos Rosa
Vem de Noite É Um Murmúrio
Vem de noite é um murmúrio
na mão sobre a areia
Vem não um volume aceso
mas quem o lê na folha quem
o transforma
nos sinais que buscam a imagem
que a outra boca
muda
modela
no próprio corpo diverso e semelhante
à sua imagem
Vem com a lâmpada da terra
e o sabor às raízes e aos dentes no deserto
na aridez que inflama os seus sinais
na mão sobre a areia
Vem não um volume aceso
mas quem o lê na folha quem
o transforma
nos sinais que buscam a imagem
que a outra boca
muda
modela
no próprio corpo diverso e semelhante
à sua imagem
Vem com a lâmpada da terra
e o sabor às raízes e aos dentes no deserto
na aridez que inflama os seus sinais
1 011
António Ramos Rosa
Quase Se Disse Quase
Quase se disse quase
sobre os joelhos sob os muros
quase os dedos no murmúrio lento
quase na ferida a ferida lábio e língua
e foram dois na muralha sem cavalos
folha a folha deitados sobre a sombra
e o verde crespo do sexo na boca
o esplendor obscuro entre as pernas claras
e foram um só na pedra branca
pela língua interior da terra e da folhagem
sobre os joelhos sob os muros
quase os dedos no murmúrio lento
quase na ferida a ferida lábio e língua
e foram dois na muralha sem cavalos
folha a folha deitados sobre a sombra
e o verde crespo do sexo na boca
o esplendor obscuro entre as pernas claras
e foram um só na pedra branca
pela língua interior da terra e da folhagem
1 084