Poemas neste tema
Desejo
Fernando Pessoa
Tenho um desejo comigo/Que me traz longe de mim.
Tenho um desejo comigo
Que me traz longe de mim.
É saber se isto é contigo
Quando isto não é assim.
Que me traz longe de mim.
É saber se isto é contigo
Quando isto não é assim.
985
Fernando Pessoa
IV - Leva-me longe, meu suspiro fundo.
IV
Leva me longe, meu suspiro fundo,
Além do que deseja e que começa,
Lá muito longe, onde o viver se esqueça
Das formas metafísicas do mundo.
Aí que o meu sentir vago e profundo
O seu lugar exterior conheça,
Aí durma em fim, aí enfim faleça
O cintilar do espírito fecundo.
Aí... mas de que serve imaginar
Regiões onde o sonho é verdadeiro
Ou terras para o ser atormentar?
É elevar demais a aspiração,
E, falhado esse sonho derradeiro,
Encontrar mais vazio o coração.
Leva me longe, meu suspiro fundo,
Além do que deseja e que começa,
Lá muito longe, onde o viver se esqueça
Das formas metafísicas do mundo.
Aí que o meu sentir vago e profundo
O seu lugar exterior conheça,
Aí durma em fim, aí enfim faleça
O cintilar do espírito fecundo.
Aí... mas de que serve imaginar
Regiões onde o sonho é verdadeiro
Ou terras para o ser atormentar?
É elevar demais a aspiração,
E, falhado esse sonho derradeiro,
Encontrar mais vazio o coração.
1 286
Fernando Pessoa
Lenço preto de orla branca —
Lenço preto de orla branca —
Ataste-o mal a valer
À roda desse pescoço
Que tem que se lhe dizer.
Ataste-o mal a valer
À roda desse pescoço
Que tem que se lhe dizer.
1 035
Fernando Pessoa
14 - Fierce dreams of something else!
Fierce dreams of something else!
Frenzy to go away
(O wave in me that swells!)
From life, where life must stay -
Life ever at to‑day!
Some other place and thing!
Not a life! not mine so!
O to be a wind, a wing.
A bark me there to bring!
Whither? If I could know,
I would not wish to go.
Frenzy to go away
(O wave in me that swells!)
From life, where life must stay -
Life ever at to‑day!
Some other place and thing!
Not a life! not mine so!
O to be a wind, a wing.
A bark me there to bring!
Whither? If I could know,
I would not wish to go.
1 291
Fernando Pessoa
Loura dos olhos dormentes,
Loura dos olhos dormentes,
Que são azuis e amarelos,
Se as minhas mãos fossem pentes,
Penteavam-te os cabelos.
Que são azuis e amarelos,
Se as minhas mãos fossem pentes,
Penteavam-te os cabelos.
1 264
Fernando Pessoa
Castanhetas, castanholas —
Castanhetas, castanholas —
Tudo é barulho a estalar.
As que ao negar são mais tolas
São mais espertas ao dar.
Tudo é barulho a estalar.
As que ao negar são mais tolas
São mais espertas ao dar.
1 406
Fernando Pessoa
O manjerico e a bandeira
O manjerico e a bandeira
Que há no cravo de papel —
Tudo isso enche a noite inteira,
Ó boca de sangue e mel.
Que há no cravo de papel —
Tudo isso enche a noite inteira,
Ó boca de sangue e mel.
1 561
Fernando Pessoa
Trincaste, para o partir,
Trincaste, para o partir,
O retrós de costurar.
Quem não soubesse diria
Que o estavas a beijar.
O retrós de costurar.
Quem não soubesse diria
Que o estavas a beijar.
1 551
Fernando Pessoa
Tens uns brincos sem valia
Tens uns brincos sem valia
E um lenço que não é nada,
Mas quem dera ter o dia
De quem és a madrugada.
E um lenço que não é nada,
Mas quem dera ter o dia
De quem és a madrugada.
1 467
Fernando Pessoa
Loura, teus olhos de céu
Loura, teus olhos de céu
Têm um azul que é fatal.
Bem sei: foi Deus que tos deu.
Mas então Deus fez o mal?
Têm um azul que é fatal.
Bem sei: foi Deus que tos deu.
Mas então Deus fez o mal?
1 420
Fernando Pessoa
Puseste por brincadeira
Puseste por brincadeira
A touca da tua irmã.
Ó corpo de bailadeira,
Toda a noite tem manhã.
A touca da tua irmã.
Ó corpo de bailadeira,
Toda a noite tem manhã.
1 321
Fernando Pessoa
Ah, quem me dera ser desempregado!
Ah, quem me dera ser desempregado!
Não ter que fazer a valer, mas de dentro!
Ter (...)
Não ter que fazer a valer, mas de dentro!
Ter (...)
1 637
Fernando Pessoa
ADORNED
Great Venus' statue, as men do conceive,
Wore it a jewel would all spoiled be;
Yet beauty's not alone simplicity.
Thus men with thoughts the eyes of sense deceive.
Oh, on a lake did they never perceive
A perfect boat, or a sail in the sea
At night that passes, far, mysteriously,
And in the heart a pining strange doth leave?
Ah, me! Upon a young and virgin breast
When it a jewel richly doth adorn,
Each to the other lends beauty and splendour,
As o'er the tremulous sea the stars at rest,
As flow'r and dew - but more; my heart is torn
That neither words nor thoughts that spell can render.
Wore it a jewel would all spoiled be;
Yet beauty's not alone simplicity.
Thus men with thoughts the eyes of sense deceive.
Oh, on a lake did they never perceive
A perfect boat, or a sail in the sea
At night that passes, far, mysteriously,
And in the heart a pining strange doth leave?
Ah, me! Upon a young and virgin breast
When it a jewel richly doth adorn,
Each to the other lends beauty and splendour,
As o'er the tremulous sea the stars at rest,
As flow'r and dew - but more; my heart is torn
That neither words nor thoughts that spell can render.
1 455
Fernando Pessoa
... Mas eu não ouso. Ó horror e tortura
... Mas eu não ouso. Ó horror e tortura!
O transcendente horror de um ser humano!
Beijar na boca uma consciência, um ser humano!
Beijar na boca uma consciência, um ser,
O mistério encarnado em nu e sólido.
A nudez(...)
Há entre alma e alma um abismo. Saber
Que me está vendo uma alma em (...), nudez
E acto de amor!
Não a nudez da estátua,
Mas a nudez viva, cheia de olhar-me
Até que me apavoro de pensá-lo.
Nem tenho gestos para saber amar,
Nem alma para tirar ao mero-oco
Pensar aqueles gestos, o horror
Que vem de eles saberem a mistério.
O transcendente horror de um ser humano!
Beijar na boca uma consciência, um ser humano!
Beijar na boca uma consciência, um ser,
O mistério encarnado em nu e sólido.
A nudez(...)
Há entre alma e alma um abismo. Saber
Que me está vendo uma alma em (...), nudez
E acto de amor!
Não a nudez da estátua,
Mas a nudez viva, cheia de olhar-me
Até que me apavoro de pensá-lo.
Nem tenho gestos para saber amar,
Nem alma para tirar ao mero-oco
Pensar aqueles gestos, o horror
Que vem de eles saberem a mistério.
1 483
Fernando Pessoa
ASPIRATION
Joyless seeing me to be
Mother Nature asked of me:
«What desirest thou?
Whence comes this thy misery?
Whence the sadness on thy brow?
Tell me what thy wish is.»
- «To give it thou art powerless.
Something lovelier than love,
Bluer than the sky above,
Truer than the truth we have
Something better than the grave,
Aught that in the soul has root,
Something that no mistress' kiss
Nor mother's love can substitute.
But I, dreaming, do pollute
With my dream its object's day.»
In the silence absolute
Of my soul I hear it say:
´'Love can make me but to weep,
Glory maketh me but pine.
Give the world with my keep,
And still nothing will be mine.'»
- «But what feelest thou in thee?»
- «Hope and misery the first,
Then despair and misery.
´Oh, it is a desire, a thirst
The limits of my soul to burst,
To spring outside my consciousness,
I know not how nor why;
A wish with moonlight wings to fly
Past the high walls of distress.
Lifting my most daring flight
Up, far up, beyond all night,
More than eagles fly in air
Would I in that atmosphere.
«Something more near to me in space
Than my body is. In fine
Something than myself more mine.
Something (in what words to trace
Its nature?) nearer in its bliss
To me than my own consciousness.
The Something I desire is this.
It is further than far away
And yet (its nature how to find?)
Closer to me than my mind,
Nearer to me than to-day.»
Mother Nature asked of me:
«What desirest thou?
Whence comes this thy misery?
Whence the sadness on thy brow?
Tell me what thy wish is.»
- «To give it thou art powerless.
Something lovelier than love,
Bluer than the sky above,
Truer than the truth we have
Something better than the grave,
Aught that in the soul has root,
Something that no mistress' kiss
Nor mother's love can substitute.
But I, dreaming, do pollute
With my dream its object's day.»
In the silence absolute
Of my soul I hear it say:
´'Love can make me but to weep,
Glory maketh me but pine.
Give the world with my keep,
And still nothing will be mine.'»
- «But what feelest thou in thee?»
- «Hope and misery the first,
Then despair and misery.
´Oh, it is a desire, a thirst
The limits of my soul to burst,
To spring outside my consciousness,
I know not how nor why;
A wish with moonlight wings to fly
Past the high walls of distress.
Lifting my most daring flight
Up, far up, beyond all night,
More than eagles fly in air
Would I in that atmosphere.
«Something more near to me in space
Than my body is. In fine
Something than myself more mine.
Something (in what words to trace
Its nature?) nearer in its bliss
To me than my own consciousness.
The Something I desire is this.
It is further than far away
And yet (its nature how to find?)
Closer to me than my mind,
Nearer to me than to-day.»
1 446
Fernando Pessoa
FAUSTO: É isto amor? Só isto! Sinto como
FAUSTO: (vindo de casa [...])
É isto amor? Só isto! Sinto como
O cérebro oscilante, um gozo
Mas o coração pesado, frio, e mudo.
Sinto ânsias, desejos
Mas não com meu ser todo. Alguma cousa
No íntimo meu, alguma coisa ali,
Fria, pesada, muda permanece.
Para isto deixei eu a vida antiga
Que já bem não concebo, parecendo
Vaga já.
Já não sinto a agonia muda e funda
Mas uma menos funda e dolorosa
Mas mais terrível raiva e (...)
De movimentos íntimos, desejos
Que são como rancores.
Um cansaço violento e desmedido
De existir e sentir-me aqui e um ódio
Nascido disto vago e horroroso
A tudo e todos por não saber
A causa exacta de tudo.
É isto amor? Só isto! Sinto como
O cérebro oscilante, um gozo
Mas o coração pesado, frio, e mudo.
Sinto ânsias, desejos
Mas não com meu ser todo. Alguma cousa
No íntimo meu, alguma coisa ali,
Fria, pesada, muda permanece.
Para isto deixei eu a vida antiga
Que já bem não concebo, parecendo
Vaga já.
Já não sinto a agonia muda e funda
Mas uma menos funda e dolorosa
Mas mais terrível raiva e (...)
De movimentos íntimos, desejos
Que são como rancores.
Um cansaço violento e desmedido
De existir e sentir-me aqui e um ódio
Nascido disto vago e horroroso
A tudo e todos por não saber
A causa exacta de tudo.
883
Fernando Pessoa
Heia o quê? Heia porquê? Heia p’ra onde?
Heia o quê? Heia porquê? Heia p’ra onde?
Heia até onde?
Heia p’ra onde, corcel suposto?
Heia p’ra onde, comboio imaginário?
Heia p’ra onde, seta, pressa, velocidade
Todas só eu a penar por elas
Todas só eu a não tê-las por todos os meus nervos fora.
Heia p’ra onde, se não há onde nem como?
Heia p’ra onde, se estou sempre onde estou e nunca adiante
Nunca adiante, nem sequer atrás,
Mas sempre fatalissimamente no lugar do meu corpo,
Humanissimamente no ponto-pensar da minha alma,
Sempre o mesmo átomo indivisível da personalidade divina?
Heia p’ra onde ó tristeza de não realizar o que quero?
Heia p’ra onde, para quê, o quê, sem o quê?
Heia, heia, heia, mas ó minha incerteza, p’ra onde?
Não escrever versos, versos, versos a respeito do ferro,
Mas ver, ter, ser o ferro e ser isso os meus versos,
Versos — ferro — versos, círculo material-psíquico-eu
(quando parte o último comboio?)
Heia até onde?
Heia p’ra onde, corcel suposto?
Heia p’ra onde, comboio imaginário?
Heia p’ra onde, seta, pressa, velocidade
Todas só eu a penar por elas
Todas só eu a não tê-las por todos os meus nervos fora.
Heia p’ra onde, se não há onde nem como?
Heia p’ra onde, se estou sempre onde estou e nunca adiante
Nunca adiante, nem sequer atrás,
Mas sempre fatalissimamente no lugar do meu corpo,
Humanissimamente no ponto-pensar da minha alma,
Sempre o mesmo átomo indivisível da personalidade divina?
Heia p’ra onde ó tristeza de não realizar o que quero?
Heia p’ra onde, para quê, o quê, sem o quê?
Heia, heia, heia, mas ó minha incerteza, p’ra onde?
Não escrever versos, versos, versos a respeito do ferro,
Mas ver, ter, ser o ferro e ser isso os meus versos,
Versos — ferro — versos, círculo material-psíquico-eu
(quando parte o último comboio?)
1 381
Fernando Pessoa
Nos dias de grandes acontecimentos
... Como, nos dias de grandes acontecimentos no centro da cidade,
Nos bairros quase-excêntricos as conversas em silêncio às portas
A expectativa em grupos...
Ninguém sabe nada.
Leve rastro de brisa
Coisa nenhuma que é real
E que, com um afago ou um sopro
Toca o que há até que seja...
Magnificência da naturalidade.
Coração.
Que Áricas inéditas em cada desejo!
Que melhores coisas que tudo lá longe!
Meu cotovelo toca no da vizinha do eléctrico
Com uma involuntariedade fruste
Curto-circuito da proximidade...
Ideias ao acaso
Como um balde que se entornou —
Fito-o é um balde entornado...
Jaz: jazo...
Nos bairros quase-excêntricos as conversas em silêncio às portas
A expectativa em grupos...
Ninguém sabe nada.
Leve rastro de brisa
Coisa nenhuma que é real
E que, com um afago ou um sopro
Toca o que há até que seja...
Magnificência da naturalidade.
Coração.
Que Áricas inéditas em cada desejo!
Que melhores coisas que tudo lá longe!
Meu cotovelo toca no da vizinha do eléctrico
Com uma involuntariedade fruste
Curto-circuito da proximidade...
Ideias ao acaso
Como um balde que se entornou —
Fito-o é um balde entornado...
Jaz: jazo...
1 269
Fernando Pessoa
Uma vontade física de comer o Universo
[1ª Ode]
Uma vontade física de comer o Universo
Toma às vezes o lugar do meu pensamento...
Uma fúria desmedida
A conquistar a pose como que observadora
Dos céus e das estrelas
Persegue-me como um remorso de não ter cometido um crime.
Como quem olha um mar
Olho os que partem em viagem...
Olho os comboios como quem os estranha
Grandes coisas férreas e absurdas que levam almas.
Que levam consciências da vida e de si-próprias
Para lugares verdadeiramente reais,
Para os lugares que — custa a crer — realmente existem
Não sei como, mas é no espaço e no tempo
E têm gente que tem vidas reais
Seguidas hora a hora como as nossas vidas...
Ah, por uma nova sensação física
Pela qual eu possuísse o universo inteiro
Um uno tacto que fizesse pertencer-me,
A meu ser possuidor fisicamente,
O universo com todos os seus sóis e as suas estrelas
E as vidas múltiplas das suas almas...
Uma vontade física de comer o Universo
Toma às vezes o lugar do meu pensamento...
Uma fúria desmedida
A conquistar a pose como que observadora
Dos céus e das estrelas
Persegue-me como um remorso de não ter cometido um crime.
Como quem olha um mar
Olho os que partem em viagem...
Olho os comboios como quem os estranha
Grandes coisas férreas e absurdas que levam almas.
Que levam consciências da vida e de si-próprias
Para lugares verdadeiramente reais,
Para os lugares que — custa a crer — realmente existem
Não sei como, mas é no espaço e no tempo
E têm gente que tem vidas reais
Seguidas hora a hora como as nossas vidas...
Ah, por uma nova sensação física
Pela qual eu possuísse o universo inteiro
Um uno tacto que fizesse pertencer-me,
A meu ser possuidor fisicamente,
O universo com todos os seus sóis e as suas estrelas
E as vidas múltiplas das suas almas...
986
Fernando Pessoa
No ardor que não dista
No ardor que não dista
Mais que a voz e o braço
Da conquista,
No ardor que antecede
A sede
Do novo espaço...
No maior acaso,
No indeciso
Sol no seu ocaso
No siso
Do nodoso [?] atraso.
Mais que a voz e o braço
Da conquista,
No ardor que antecede
A sede
Do novo espaço...
No maior acaso,
No indeciso
Sol no seu ocaso
No siso
Do nodoso [?] atraso.
1 393
Fernando Pessoa
Tece, amor, as grinaldas com que queres
Tece, amor, as grinaldas com que queres
Coroar o amor que nem sabemos ter,
Com brancas mãos em lento movimento
De papoulas e pobres malmequeres...
Tece-as para que ao menos o momento
Em que as teces nos possa pertencer.
Se para coroar o amor as teces
Pensas no amor tecendo-as, e assim amas;
Se vendo-te, em ti vejo que o conheces
Amo contigo o amor em que tu pensas.
E um momento o amor queima as suas chamas
Na ara das nossas almas já pretensas.
Mas se a grinalda é feita, o amor cessou.
Se é preciso entre nós o gesto e o gozo
Nunca o pensado amor levanta o voo.
Nunca da nossa noite de sentir
Raiou o sol do acto, e o olhar cobiçou
Uma coisa real que vá fruir.
No sonho do que nunca pode haver
Entre nós, porque há em nós o pensamento,
Gastamos o desejo sem o ter.
A taça cai do gesto mal seguro
Porque pensamos em beber, e o intento
Cansa o braço, e é entornado o néctar puro.
Viemos, meu amor, no fim da tarde.
O que há de sol é o que resta acima
Dos montes, poesia baça e sonho que arde,
E só pura saudade os céus anima.
O nosso olhar não ousa olhar o outro.
Outros tiveram por seu tempo o dia
Gozaram outros quando o sol era alto,
A vergonha que há em nós de sua orgia
É a vergonha de nós a não ousarmos.
Nós pensamos no amor em sobressalto
E para amarmos só nos falta amarmos.
Os deuses foram-se, e consigo foi
A clareza de alma para (com) a vida.
O que ontem era o gozo, é o que hoje dói.
O que ontem era a coisa possuída
É hoje só a coisa apetecida,
Ainda desejada e não ousada.
Coroar o amor que nem sabemos ter,
Com brancas mãos em lento movimento
De papoulas e pobres malmequeres...
Tece-as para que ao menos o momento
Em que as teces nos possa pertencer.
Se para coroar o amor as teces
Pensas no amor tecendo-as, e assim amas;
Se vendo-te, em ti vejo que o conheces
Amo contigo o amor em que tu pensas.
E um momento o amor queima as suas chamas
Na ara das nossas almas já pretensas.
Mas se a grinalda é feita, o amor cessou.
Se é preciso entre nós o gesto e o gozo
Nunca o pensado amor levanta o voo.
Nunca da nossa noite de sentir
Raiou o sol do acto, e o olhar cobiçou
Uma coisa real que vá fruir.
No sonho do que nunca pode haver
Entre nós, porque há em nós o pensamento,
Gastamos o desejo sem o ter.
A taça cai do gesto mal seguro
Porque pensamos em beber, e o intento
Cansa o braço, e é entornado o néctar puro.
Viemos, meu amor, no fim da tarde.
O que há de sol é o que resta acima
Dos montes, poesia baça e sonho que arde,
E só pura saudade os céus anima.
O nosso olhar não ousa olhar o outro.
Outros tiveram por seu tempo o dia
Gozaram outros quando o sol era alto,
A vergonha que há em nós de sua orgia
É a vergonha de nós a não ousarmos.
Nós pensamos no amor em sobressalto
E para amarmos só nos falta amarmos.
Os deuses foram-se, e consigo foi
A clareza de alma para (com) a vida.
O que ontem era o gozo, é o que hoje dói.
O que ontem era a coisa possuída
É hoje só a coisa apetecida,
Ainda desejada e não ousada.
1 359
Fernando Pessoa
Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda.
Ó meu amor! ó meu damasco, ó minha seda,
Ó meu guizo de prata,
Meu colar de pérolas deixado em cima da cómoda,
Minha aliança de ouro em dedos já velhinhos e fieis,
Minha cantiga de raparigas ao poente,
Ó meu fumo de cigarro, tão inútil e tão necessário,
Minha Bíblia para as crianças brincarem,
Minha amante que eu queria trazer ao colo como uma filha...
Olha, tenho as mãos em febre...
Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos...
Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles...
Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso
Porque se eu te tivesse como te quereria ter
(Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico)
Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder,
Nem os olhos secos, muito secos, sob a fronte...
Tu não sabes o que tem sido a minha vida!...
Tu não sabes que martírio tem sido o meu...
Se tu soubesses o que é amar as coisas simples e calmas
E não ter jeito para procurar senão as outras coisas!
Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia
Tenho saudades dela como se não estivesse lá...
Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas,
Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto...
Minha lantejoula, minha casa de bonecas,
Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis!
Ó meu regimento que passa com a banda à frente,
Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços...
Ó minha (...)
Ó meu guizo de prata,
Meu colar de pérolas deixado em cima da cómoda,
Minha aliança de ouro em dedos já velhinhos e fieis,
Minha cantiga de raparigas ao poente,
Ó meu fumo de cigarro, tão inútil e tão necessário,
Minha Bíblia para as crianças brincarem,
Minha amante que eu queria trazer ao colo como uma filha...
Olha, tenho as mãos em febre...
Tenho a testa a escaldar, tenho os olhos muito estranhos...
Todos olham para o brilho dos meus olhos e espetam-se neles...
Eu tenho febre e tenho sede e lembro-me de ti por causa disso
Porque se eu te tivesse como te quereria ter
(Não sei se é de um modo físico, ou de um modo psíquico)
Eu não teria nem febre, nem sede, nem a testa a arder,
Nem os olhos secos, muito secos, sob a fronte...
Tu não sabes o que tem sido a minha vida!...
Tu não sabes que martírio tem sido o meu...
Se tu soubesses o que é amar as coisas simples e calmas
E não ter jeito para procurar senão as outras coisas!
Se tu soubesses porque é que quando eu estou na minha quinta de dia
Tenho saudades dela como se não estivesse lá...
Se tu soubesses o que eu sinto à noite, nos hotéis, pelas ruas,
Se tu soubesses! Mas eu próprio não sei o que é que sinto...
Minha lantejoula, minha casa de bonecas,
Ó meus brinquedos da minha infância atados com cordéis!
Ó meu regimento que passa com a banda à frente,
Minha noite no circo, nos cavalinhos, a rir dos palhaços...
Ó minha (...)
1 656