Poemas neste tema
Destino e Superação
Fernando Pessoa
Com que vida encherei os poucos breves
Com que vida encherei os poucos breves
Dias que me são dados? Será minha
A minha vida ou dada
A outros ou a sombras?
À sombra de nós mesmos quantos homens
Inconscientes nos sacrificamos,
E um destino cumprimos
Nem nosso nem alheio!
Ó deuses imortais, saiba eu ao menos
Aceitar sem querê-lo, sorridente,
O curso áspero e duro
Da estrada permitida.
Porém nosso destino é o que for nosso,
Que nos deu a sorte, ou, alheio fado,
Anónimo a um anónimo,
Nos arrasta a corrente.
Dias que me são dados? Será minha
A minha vida ou dada
A outros ou a sombras?
À sombra de nós mesmos quantos homens
Inconscientes nos sacrificamos,
E um destino cumprimos
Nem nosso nem alheio!
Ó deuses imortais, saiba eu ao menos
Aceitar sem querê-lo, sorridente,
O curso áspero e duro
Da estrada permitida.
Porém nosso destino é o que for nosso,
Que nos deu a sorte, ou, alheio fado,
Anónimo a um anónimo,
Nos arrasta a corrente.
972
Fernando Pessoa
Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre
Sem clepsidra ou relógio o tempo escorre
E nós com ele, nada o árbitro escravo
Pode contra o destino
Nem contra os deuses o mortal desejo
Hoje, quais servos com ausentes deuses,
Na alheia casa, um dia sem o juiz,
Bebamos e comamos.
Será para amanhã o que aconteça.
Tombai mancebos, o vinho em nobre taça
E o braço nu com que o entornais fique
No lembrando olhar
Como uma água que parece vinho!
Sim, heróis somos todos amanhã.
Hoje adiemos. E na erguida taça
O roxo vinho espelhe
Depois — porque a noite nunca falta.
E nós com ele, nada o árbitro escravo
Pode contra o destino
Nem contra os deuses o mortal desejo
Hoje, quais servos com ausentes deuses,
Na alheia casa, um dia sem o juiz,
Bebamos e comamos.
Será para amanhã o que aconteça.
Tombai mancebos, o vinho em nobre taça
E o braço nu com que o entornais fique
No lembrando olhar
Como uma água que parece vinho!
Sim, heróis somos todos amanhã.
Hoje adiemos. E na erguida taça
O roxo vinho espelhe
Depois — porque a noite nunca falta.
1 002
Fernando Pessoa
Quero, da vida, só não conhecê-la.
Quero, da vida, só não conhecê-la.
Bastam, a quem o Fado pôs na vida,
As formas sucessórias
Da vida insubsistente.
Pouco serve pensar que são eternos
Os nossos nadas com que na alma amamos
Os outros pobres nadas
Que (...)
Gratos aos deuses, menos pela incerta
Posse do sonhado certo, recolhamos
A mercê passageira
De instantes que não duram.
Bastam, a quem o Fado pôs na vida,
As formas sucessórias
Da vida insubsistente.
Pouco serve pensar que são eternos
Os nossos nadas com que na alma amamos
Os outros pobres nadas
Que (...)
Gratos aos deuses, menos pela incerta
Posse do sonhado certo, recolhamos
A mercê passageira
De instantes que não duram.
1 291
Fernando Pessoa
Fui passear no jardim
Fui passear no jardim
Sem saber se tinha flores
Assim passeia na vida
Quem tem ou não tem amores.
Sem saber se tinha flores
Assim passeia na vida
Quem tem ou não tem amores.
2 857
Fernando Pessoa
Se em verdade não sabes (nem sustentas
Se em verdade não sabes (nem sustentas
Que sabes) que há na vida mais que a vida,
Porque com tanto esforço e cura tanta,
Operoso a não vives?
Porque, sem paraíso que apeteças,
Amontoas riquezas, nem as gastas,
É para teu cadáver que amontoas?
Gozas menos que ganhas.
Ah, se não tens que esperes, salvo a morte,
Não cures mais que do preciso esforço
Para passar incólume na vida
De (...)
Sim, gozas. Mas mais rico és que ditoso
Se só para o que perdes gozas,
Menos te o esforço oneraria,
Sem ele. (...)
Ah servidão irreprimível, nada
Da vida breve subsiste, que sabes
Que morre toda, e gasta-se nas obras
Egoísta de um futuro que não é seu.
Mas respondes-me: E os poemas que escreves
A quem os dás futuro? A obra obrigas
E o homem só por semear semeia
O que o Destino manda.
Que sabes) que há na vida mais que a vida,
Porque com tanto esforço e cura tanta,
Operoso a não vives?
Porque, sem paraíso que apeteças,
Amontoas riquezas, nem as gastas,
É para teu cadáver que amontoas?
Gozas menos que ganhas.
Ah, se não tens que esperes, salvo a morte,
Não cures mais que do preciso esforço
Para passar incólume na vida
De (...)
Sim, gozas. Mas mais rico és que ditoso
Se só para o que perdes gozas,
Menos te o esforço oneraria,
Sem ele. (...)
Ah servidão irreprimível, nada
Da vida breve subsiste, que sabes
Que morre toda, e gasta-se nas obras
Egoísta de um futuro que não é seu.
Mas respondes-me: E os poemas que escreves
A quem os dás futuro? A obra obrigas
E o homem só por semear semeia
O que o Destino manda.
1 425
Fernando Pessoa
ARETHUSA
Still Arethusa keeps her course,
For, though the corporal dark of earth
Stifle, like an unconscious nurse,
The impulse for her second birth,
Yet her true will must ever be
These captive waves that shall be free.
So the forgotten water ever
With withdrawn life and hid emotion
Moves on in darkness, still a river,
Towards a sun upon an ocean;
And the found place there will not cease
To be the river's, not the sea's.
So keeps she, under the void dark
Of her oppressed seclusion still
Her careful self, whose soul shall work
Towards the outlet from the hill,
Past hived vaults and humid walls
And her dropped noise of waterfalls.
Uncaught throughout the spell of caves,
Forlorn under the mother stone,
Still the great destined river craves
Its purpose, liquid and alone,
And more, yet less, under the hills
Its unresisting motion wills.
And ever, while time frets the rocks
And space shuts dark the godless flow,
She runs, a will in waves that flocks
Around a darkness for a glow;
And onward still, because it is
What shall be, and the Gods are this.
And, still remembering to forget,
Still onward because Fate inclines,
Veiled Arethusa still doth wet
With purpose the weird cavern shrines,
Where, past their blind, dead, solid being,
Her watery will moves on to seeing.
Dim under phosphorescent zones
Of darkness wronged and stalactites,
Or complete darkness, where the moans
Of waters wail for destined sights,
Her course, that knows no day, doth still
Work out to day its nightly will.
Till, bright at last in the aired arms
Of the lone rocks laid in the sea,
Bare Arethusa free her charms
To light and to its panic glee,
And the sea clasp her, as she were
Venus there born and mistress there.
For, though the corporal dark of earth
Stifle, like an unconscious nurse,
The impulse for her second birth,
Yet her true will must ever be
These captive waves that shall be free.
So the forgotten water ever
With withdrawn life and hid emotion
Moves on in darkness, still a river,
Towards a sun upon an ocean;
And the found place there will not cease
To be the river's, not the sea's.
So keeps she, under the void dark
Of her oppressed seclusion still
Her careful self, whose soul shall work
Towards the outlet from the hill,
Past hived vaults and humid walls
And her dropped noise of waterfalls.
Uncaught throughout the spell of caves,
Forlorn under the mother stone,
Still the great destined river craves
Its purpose, liquid and alone,
And more, yet less, under the hills
Its unresisting motion wills.
And ever, while time frets the rocks
And space shuts dark the godless flow,
She runs, a will in waves that flocks
Around a darkness for a glow;
And onward still, because it is
What shall be, and the Gods are this.
And, still remembering to forget,
Still onward because Fate inclines,
Veiled Arethusa still doth wet
With purpose the weird cavern shrines,
Where, past their blind, dead, solid being,
Her watery will moves on to seeing.
Dim under phosphorescent zones
Of darkness wronged and stalactites,
Or complete darkness, where the moans
Of waters wail for destined sights,
Her course, that knows no day, doth still
Work out to day its nightly will.
Till, bright at last in the aired arms
Of the lone rocks laid in the sea,
Bare Arethusa free her charms
To light and to its panic glee,
And the sea clasp her, as she were
Venus there born and mistress there.
1 580
Fernando Pessoa
S. DÂMASO PORTUGUÊS
1 .
Depois de se ter passado
Os noventa mais vereis
Vir aquele desejado
Que há-de fundar novas leis.
2 .
Verá o Leão fatal
Que de Portugal lhe vem
O que lhe há-de fazer mal,
Aquele escondido Rei.
3.
Aquela manhã chuvosa
Com névoa muito escura
Verá de Deus a figura
Fazer Lisboa ditosa.
4.
Névoa já é levantada
Lá junto do meio-dia;
Haveis de a ver descoberta
A oitava maravilha.
Depois de se ter passado
Os noventa mais vereis
Vir aquele desejado
Que há-de fundar novas leis.
2 .
Verá o Leão fatal
Que de Portugal lhe vem
O que lhe há-de fazer mal,
Aquele escondido Rei.
3.
Aquela manhã chuvosa
Com névoa muito escura
Verá de Deus a figura
Fazer Lisboa ditosa.
4.
Névoa já é levantada
Lá junto do meio-dia;
Haveis de a ver descoberta
A oitava maravilha.
1 170
Fernando Pessoa
Filho das trevas,
Filho das trevas,
Não fites a luz
Ai de ti, se te elevas,
Tu apenas te elevas
Aos braços de uma cruz.
Filho das trevas!
Filho da noite,
A manhã não se afoite
Nunca, nunca se afoite.
Toda a esperança é vã,
Filho da noite!
Não fites a luz
Ai de ti, se te elevas,
Tu apenas te elevas
Aos braços de uma cruz.
Filho das trevas!
Filho da noite,
A manhã não se afoite
Nunca, nunca se afoite.
Toda a esperança é vã,
Filho da noite!
1 563
Fernando Pessoa
PERSEVERANCE
Say not that work is e'er ill‑spent,
Say not that effort fails or seems;
Say not that he o'er labour bent
Is one in the world's many dreams.
For not in vain with patient shocks,
With timely rush and quick'ning roar,
The ocean crashes on the rocks
And bounds on to the sounding shore.
They check, ‘tis true, his rolling rush,
His sturdy beat they seem to scorn,
His surging waves with force they crush
And turn in spray his billows torn.
But days and weeks and months and years
He strikes and strikes and strikes amain.
And dent on dent in them appears
That shows his weary, patient gain.
And years may pass or ages go,
Those eaten rocks will smaller stand;
Still he, with measured aim and slow
Shall bend his surging to the land.
Sure as the sun, and unperceived
As is the growing of a tree,
He works and works, nor is deceived
By sturdy from that men can see.
And when his object full he gains
With last and sounding, rending crash,
His mighty power he still sustains
And onward still his waters dash.
Say not that effort fails or seems;
Say not that he o'er labour bent
Is one in the world's many dreams.
For not in vain with patient shocks,
With timely rush and quick'ning roar,
The ocean crashes on the rocks
And bounds on to the sounding shore.
They check, ‘tis true, his rolling rush,
His sturdy beat they seem to scorn,
His surging waves with force they crush
And turn in spray his billows torn.
But days and weeks and months and years
He strikes and strikes and strikes amain.
And dent on dent in them appears
That shows his weary, patient gain.
And years may pass or ages go,
Those eaten rocks will smaller stand;
Still he, with measured aim and slow
Shall bend his surging to the land.
Sure as the sun, and unperceived
As is the growing of a tree,
He works and works, nor is deceived
By sturdy from that men can see.
And when his object full he gains
With last and sounding, rending crash,
His mighty power he still sustains
And onward still his waters dash.
1 687
Fernando Pessoa
XV - Este, seu escasso campo ora lavrando, [1]
Este, seu escasso campo ora lavrando,
Ora, solene, olhando-o com a vista
De quem a um filho olha, goza incerto
A não-pensada vida.
Das fingidas fronteiras a mudança
O arado lhe não tolhe, nem o empece
Per que concílios se o destino rege
Dos povos pacientes.
Pouco mais no presente do futuro
Que as ervas que arrancou, seguro vive
A antiga vida que não torna, e fica,
Filhos, diversa e sua.
Ora, solene, olhando-o com a vista
De quem a um filho olha, goza incerto
A não-pensada vida.
Das fingidas fronteiras a mudança
O arado lhe não tolhe, nem o empece
Per que concílios se o destino rege
Dos povos pacientes.
Pouco mais no presente do futuro
Que as ervas que arrancou, seguro vive
A antiga vida que não torna, e fica,
Filhos, diversa e sua.
909
Fernando Pessoa
Quem lavra julga que lavra
Quem lavra julga que lavra
Mas quem lavra é o que acontece...
Não me dás uma palavra
E a palavra não me esquece.
Mas quem lavra é o que acontece...
Não me dás uma palavra
E a palavra não me esquece.
1 216
Fernando Pessoa
Primeiro: D. SEBASTIÃO
Esperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
4 050
Fernando Pessoa
Aceita o universo
Aceita o universo
Como to deram os deuses.
Se os deuses te quisessem dar outro
Ter-to-iam dado.
Se há outras matérias e outros mundos
Haja.
Como to deram os deuses.
Se os deuses te quisessem dar outro
Ter-to-iam dado.
Se há outras matérias e outros mundos
Haja.
1 971
Fernando Pessoa
Não sem lei, mas segundo leis diversas
Não sem lei, mas segundo leis diversas
Entre os homens reparte o fado e os deuses
Sem justiça ou injustiça
Prazeres, dores, gozos e perigos.
Bem ou mal, não terás o que mereces.
Querem os deuses a isto obrigar
Porque o Fado não tem
Leis nossas com que reja a sua lei.
Quem é rei hoje, amanhã escravo cruza
Com o escravo de ontem que é depois rei.
Sem razão um caiu,
Sem causa nele o outro ascenderá.
Não em nós, mas dos deuses no capricho
E nas sombras p'ra além do seu domínio
Está o que somos, e temos,
A vida e a morte do que somos nós.
Se te apraz mereceres, que te apraza
Por mereceres, não porque te o Fado
Dê o prémio ou a paga
De com constância haveres merecido.
Dúbia é a vida, inconstante o que a governa.
O que esperamos nem sempre acontece
Nem nos falece sempre,
Nem há com que a alma uma ou outra cousa espere.
Torna teu coração digno dos deuses
E deixa a vida incerta ser quem seja.
O que te acontecer
Aceita. Os deuses nunca se rebelam.
Nas mãos inevitáveis do destino
A roda rápida soterra hoje
Quem ontem viu o céu
Do transitório auge do seu giro.
Entre os homens reparte o fado e os deuses
Sem justiça ou injustiça
Prazeres, dores, gozos e perigos.
Bem ou mal, não terás o que mereces.
Querem os deuses a isto obrigar
Porque o Fado não tem
Leis nossas com que reja a sua lei.
Quem é rei hoje, amanhã escravo cruza
Com o escravo de ontem que é depois rei.
Sem razão um caiu,
Sem causa nele o outro ascenderá.
Não em nós, mas dos deuses no capricho
E nas sombras p'ra além do seu domínio
Está o que somos, e temos,
A vida e a morte do que somos nós.
Se te apraz mereceres, que te apraza
Por mereceres, não porque te o Fado
Dê o prémio ou a paga
De com constância haveres merecido.
Dúbia é a vida, inconstante o que a governa.
O que esperamos nem sempre acontece
Nem nos falece sempre,
Nem há com que a alma uma ou outra cousa espere.
Torna teu coração digno dos deuses
E deixa a vida incerta ser quem seja.
O que te acontecer
Aceita. Os deuses nunca se rebelam.
Nas mãos inevitáveis do destino
A roda rápida soterra hoje
Quem ontem viu o céu
Do transitório auge do seu giro.
1 300
Florbela Espanca
Viii
Abrir os olhos, procurar a luz,
De coração erguido ao alto, em chama,
Que tudo neste mundo se reduz
A ver os astros cintilar na lama!
Amar o sol da glória e a voz da fama
Que em clamorosos gritos se traduz!
Com misericórdia, amar quem nos não ama,
E deixar que nos preguem numa cruz!
Sobre um sonho desfeito erguer a torre
Doutro sonho mais alto e, se esse morre,
Mais outro e outro ainda, toda a vida!
Que importa que nos vençam desenganos,
Se pudermos contar os nossos anos
Assim como degraus duma subida?
De coração erguido ao alto, em chama,
Que tudo neste mundo se reduz
A ver os astros cintilar na lama!
Amar o sol da glória e a voz da fama
Que em clamorosos gritos se traduz!
Com misericórdia, amar quem nos não ama,
E deixar que nos preguem numa cruz!
Sobre um sonho desfeito erguer a torre
Doutro sonho mais alto e, se esse morre,
Mais outro e outro ainda, toda a vida!
Que importa que nos vençam desenganos,
Se pudermos contar os nossos anos
Assim como degraus duma subida?
2 083
Florbela Espanca
Quem Sabe?!...
Eu sigo-te e tu foges. É este o meu destino:
Beber o fel amargo em luminosa taça,
Chorar amargamente um beijo teu, divino,
E rir olhando o vulto altivo da desgraça!
Tu foges-me, e eu sigo o teu olhar bendito;
Por mais que fujas sempre, um sonho há de alcançar-te
Se um sonho pode andar por todo o infinito,
De que serve fugir se um sonho há de encontrar-te?!
Demais, nem eu talvez, perceba se o amor
É este perseguir de raiva, de furor,
Com que eu te sigo assim como os rafeiros leais.
Ou se é então a fuga eterna, misteriosa,
Com que me foges sempre, ó noite tenebrosa!
......................................................................
Por me fugires, sim, talvez me queiras mais!
5 353
Florbela Espanca
Ii
Meu Amor, meu Amado, vê... repara:
Poisa os teus lindos olhos de oiro em mim,
– Dos meus beijos de amor Deus fez-me
[avaraPara nunca os contares até ao fim.
Meus olhos têm tons de pedra rara,
– É só para teu bem que os tenho assim –
E as minhas mãos são fontes de água clara
A cantar sobre a sede dum jardim.
Sou triste como a folha ao abandono
Num parque solitário, pelo Outono,
Sobre um lago onde vogam nenúfares...
Deus fez-me atravessar o teu caminho...
– Que contas dás a Deus indo sozinho,
Passando junto a mim, sem me encontrares? –
Poisa os teus lindos olhos de oiro em mim,
– Dos meus beijos de amor Deus fez-me
[avaraPara nunca os contares até ao fim.
Meus olhos têm tons de pedra rara,
– É só para teu bem que os tenho assim –
E as minhas mãos são fontes de água clara
A cantar sobre a sede dum jardim.
Sou triste como a folha ao abandono
Num parque solitário, pelo Outono,
Sobre um lago onde vogam nenúfares...
Deus fez-me atravessar o teu caminho...
– Que contas dás a Deus indo sozinho,
Passando junto a mim, sem me encontrares? –
2 434
Antidio Cabal
Epitáfio de Clarisa Méndez
vulgo A Raíz
Sempre há saída para tudo, menos para o que somos.
Sempre há saída para tudo, menos para o que somos.
830
Antidio Cabal
Epitáfio de A.G., a Mulher da Penumbra
Eu, Amélia Garcia, aos dezessete anos
casei-me com um homem com sombra,
fugindo de pais que tinham sombra,
e de sombra em sombra cheguei à melhor de todas.
casei-me com um homem com sombra,
fugindo de pais que tinham sombra,
e de sombra em sombra cheguei à melhor de todas.
996
Abul ʿAla Al-Maʿarri
Abandona a mesquita e evita louvor
Abandona a mesquita e evita louvor,
Preces inúteis, sacrifício de ovelhas,
Pois o Destino trará cálice de sono
Ou cálice de insônia. O que vier, beba.
Preces inúteis, sacrifício de ovelhas,
Pois o Destino trará cálice de sono
Ou cálice de insônia. O que vier, beba.
739
Abul ʿAla Al-Maʿarri
teus sonhos de grande empresa
Vãos, teus sonhos de grande empresa,
De forma vã, tu velejas espaços novos,
Vão, ancorar nesse mundo só de rostos
Se é outro fim que o mundo te reserva.
De forma vã, tu velejas espaços novos,
Vão, ancorar nesse mundo só de rostos
Se é outro fim que o mundo te reserva.
662
Torquato Neto
Let’s Play That
quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let"s play that
4 384
Leónidas Lamborghini
Dados
Como aquele que no café
gira com fúria
os dados
no escuro do copo
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que concentra
todo o esforço
ali no alto
fazendo rugir os dados
no escuro
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que do alto
vai descarregar
os dados
e vocifera com fúria
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que com todas
as forças
agita os dados no alto
e dali
descarrega com fúria
na mesa
o copo
como esse
como esse
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
772
Arsenii Tarkovskii
Cai a noite sobre as montanhas da Geórgia;
Cai a noite sobre as montanhas da Geórgia;
À minha frente ruge o Aragva.
Estou em paz e triste; há um lampejo em meus suspiros,
Meus suspiros são todos teus,
Teus, e de mais ninguém... Minha melancolia
Está insensível a angústias e apreensões,
E meu coração arde e ama mais uma vez,
Pois nada pode fazer além de amar.
Todo instante que passávamos juntos
Era uma celebração, uma Epifania,
No mundo inteiro, nós os dois sozinhos.
Eras mais audaciosa, mais leve que a asa de um pássaro,
Estonteante como uma vertigem, corrias escada abaixo
Dois degraus por vez, e me conduzias
Por entre lilases úmidos, até teu domínio
No outro lado, para além do espelho.
Enquanto isso o destino seguia nossos passos
Como um louco de navalha na mão.
Arseni Tarkóvski (1907 - 1989)
1 290