Lista de Poemas

Cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim
7 101

Coisa Mais Linda que Existe

coisa linda nesse mundo
é sair por um segundo
e te encontrar por aí
pra fazer festa ou comício
com você perto de mim
na cidade em que me perco
na praça em que me resolvo
na noite da noite escura
é lindo ter junto ao corpo
ternura de um corpo manso
na noite da noite escura
a coisa mais linda que existe
é ter você perto de mim
o apartamento, o jornal
o pensamento, a navalha
a sorte que o vento espalha
essa alegria, o perigo
eu quero tudo contigo
com você perto de mim
coisa linda nesse mundo
é sair por um segundo
e te encontrar por aí
e ficar sem compromisso
pra fazer festa ou comício
com você perto de mim
a coisa mais linda que existe
é ter você perto de mim


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Gilberto Gi
3 084

Lua Nova

é lua nova
é noite derradeira
vou passar a vida inteira
esperando por você

andei perdido
nas veredas da saudade
veio o dia, veio a tarde
veio a noite e me cobriu
é lua nova
nesta noite derradeira
vou-me embora dentro dela
perguntar por quem te viu

é lua nova
é noite derradeira
vou passar a vida inteira
esperando por você

essa noite é que é meu dia
essa lua é quem me guia
e você é meu amor
vou pela estrada tão comprida
quem me diz não ser perdida
essa viagem em que eu vou

é lua nova
é noite derradeira
vou passar a vida inteira
esperando por você.


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Edu Lob
2 675

Agora não se fala mais

Agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início:


Agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.


Você não tem que me dizer
o número de mundo deste mundo
não tem que me mostrar
a outra face
face ao fim de tudo:


só tem que me dizer
o nome da república do fundo
o sim do fim
do fim de tudo
e o tem do tempo vindo:


não tem que me mostrar
a outra mesma face ao outro mundo
(não se fala. não é permitido:
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos.
está vetado qualquer movimento



2 800

Literato cantabile

agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto pode ser o fim
do seu início
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em minha orla
os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício:


a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde quer que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício
e não se sabe nunca mais do mim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim. a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.



21-10

3 627

A Rua

toda rua tem seu curso
tem seu leito de água clara
por onde passa a memória
lembrando histórias de um tempo
que não acaba

de uma rua de uma rua
eu lembro agora
que o tempo ninguém mais
ninguém mais canta
muito embora de cirandas
(oi de cirandas)
e de meninos correndo
atrás de bandas

atrás de bandas que passavam
como o rio parnaíba
rio manso
passava no fim da rua
e molhava seu lajedos
onde a noite refletia
o brilho manso
o tempo claro da lua

ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão
ê parnaíba passando
separando a minha rua
das outras, do maranhão

de longe pensando nela
meu coração de menino
bate forte como um sino
que anuncia procissão

ê minha rua meu povo
ê gente que mal nasceu
das dores que morreu cedo
luzia que se perdeu
macapreto zé velhinho
esse menino crescido
que tem o peito ferido
anda vivo, não morreu

ê pacatuba
meu tempo de brincar
já foi-se embora
ê parnaíba
passando pela rua
até agora
agora por aqui estou
com vontade
e eu vou volto pra matar
essa saudade

ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão.


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Gilberto Gi
1 944

Quando o Santo Guerreiro Entrega as Pontas

letra de música para um plano geral
dedicateded to the one i loved
ou
atenção imbecis: o cinema é novo
e só se vê muita galinha e pouco ovo
ou melhor ainda:

QUANDO O SANTO GUERREIRO ENTREGA AS PONTAS

nada de mais:
o muro pintado de verde
e ninguém que precise dizer-me
que esse verde que não quero verde
lírico
mais planos e mais planos
se desfaz:
nada demais:
aqui de dentro eu pego e furo a fogo
e luz
(é movimento)
vosso sistema protetor de incêndios
e pinto a tela o muro diferente
porque uso como quero minhas lentes
e filmo o verde,
que eu não temo o verde,
de outra cor:
diariamente encaro bem de perto
e escarro sobre o muro:
nada demais

a fruta não está verde nem madura
é dura
e dura
e dura o tempo
contratempo
de escolher
o enquadramento melhor — ver do outro lado
com olhos livres
(nem deus nem diabo), projetar
lado de dentro — a luz mais pura
embora a sala do cinema seja escura:
nada demais:
planos gerais sobre a paisagem
sobre o muro da passagem proibida
enquanto procuramos (encontramos)
infinitas brechas escondidas.
cuidado madame.
nada de mais: cadê o câncer
daquela tarde alucinante?
ai de mim, copacabana, desvairada, mon amour.
nada de mais
na tela do cinema oficial:
já não estamos nos formando com o tal,
o general da banda do cinema que deserta:
a arqueologia é na cinemateca. esquece.
e tudo começou de novo e já acontece
(sentença de deus)
e o resto aconteceu: the end.
fim.
não falem mais dessa mulher perto de mim.
depois da fruta podreverde que apodrece — a tela livre
de quem só tem memória
a aí só conta história,
o muro iluminado de outra cor
e outra glória
pois quem não morre não deserta nem se entrega
desprega o comovido verde lírico
e apronta e inventa e acontece com o perigo
(poesia)
a imagem nova — o arco tenso
os nove fora
(tema: cinema: lema)
a prova.

1972

Imagem - 00360001


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Referência aos filmes O DRAGÃO DA MALDADE CONTRA O SANTO GUERREIRO e DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL, de Glauber Roch
2 286

Pra Dizer Adeus

adeus
vou pra não voltar
e onde quer que eu vá
sei que vou sozinho
tão sozinho amor
nem é bom pensar
que eu não volto mais
desse meu caminho

ah,
pena eu não saber
como te contar
que o amor foi tanto
e no entanto eu queria dizer
vem
eu só sei dizer
vem
nem que seja só
pra dizer adeus.


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982

NOTA: Música de Edu Lob
3 271

Marginália II

eu, brasileiro, confesso
minha culpa meu pecado
meu sonho desesperado
meu bem guardado segredo
minha aflição
eu, brasileiro, confesso
minha culpa meu degredo
pão seco de cada dia
tropical melancolia
negra solidão:
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
ou lá
aqui o terceiro mundo
pede a bênção e vai dormir
entre cascatas palmeiras
araçás e bananeiras
ao canto da juriti
aqui meu pânico e glória
aqui meu laço e cadeia
conheço bem minha história
começa na lua cheia
e termina antes do fim
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
ou lá
minha terra tem palmeiras
onde sopra o vento forte
da fome do medo e muito
principalmente
da morte
o-lelê, lalá
a bomba explode lá fora
e agora, o que vou temer?
yes: nós temos banana
até pra dar,
e vender
aqui é o fim do mundo
aqui é o fim do mundo
ou lá
In: Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 1982
NOTA: Música de Gilberto Gil; Paródia da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias
MOVIMENTOS LITERÁRIOS
1962/ - Tendências Contemporâneas
Canção Popular
TRAÇOS FORMAIS:
Anáfora
Citação
Letra de Música
Paródia
Refrão
Verso Livre
TEMAS/ASSUNTOS
ARTE
- Linguagem/Literatura
- Música
HUMOR
NOME
- Escritor
. Gonçalves Dia
5 132

Hoje Tem Espetáculo

Vá ao cinema: presta?
Vá ao teatro: presta?
Esses filmes servem a quê?
Servem a quem?
Essas peças: servem? Pra quê?
Divirta-se: teu programa é esse,
bicho: vá ao cinema
vá ao teatro, vá ao concerto
disco é cultura, vá para o inferno:
o paraíso na tela no palco na boca
do som
e nas palavras todas
na ferrugem dos gestos e nas trancas
da porta da rua
no movimento das imagens: violência
e frescura: montagem.
Divirta-se. O inferno
é perto é longe, o paraíso
custa muito pouco.
Pra que serve este filme, serve a
quem?
Pra que serve esse tema, serve a
quem?
De churrasco em churrasco encha
o seu caco,
amizade. Cante seresta na churrascaria
e arrote filmes-teatros-marchas-ranchos
alegrias e tal: volte (como sempre)
atrás,
fique na sua
bons tempos são para sempre — jamais
bata no peito, bata no prato, é
assim que se faz
a festa. Reclame isso: esse filme
não presta
o diretor é fraco e essa história eu
conheço
esse papo é pesado demais pras
crianças na sala
é macio, é demais: serve a quem,
amizade?
Teu roteiro hoje é esse, meu bicho: cante
tudo na churrascaria
não saia nunca mais da frente fria
sirva, serve, bicho, criança, bonecão
sirva sirva sirva mais
churrasco churrasquinho churrascão.
Sirva um samba de Noel, uma ciranda
uma toada do Gonzaga (o pai),
aquele samba
aquela exaltação de um iê-iê-iê
romanticosuavespuma
bem macio
um filme de mocinho e de bandidos
uma peça qualquer com muito
drama:
encha o caco, amizade, tudo é
porta
e vá entrando à vontade, a casa
é sua, entre
pelos filmes em cartaz, pelas peças
sobre os palcos
vá entrando pelo papo, entrando
pelo cano
geral; coma churrasco, sirva, vá
entrando
e servindo (a quê a quem?)
encha o seu caco. Divirta-se, bata
no prato
e peça bis, reclame, cante o quanto
queira
afaste o lixo, nem pense:
teu programa é esse mesmo, bicho.

Imagem - 00360001


In: TORQUATO NETO. Os últimos dias de paupéria: do lado de dentro. Org. Ana Maria S. de Araújo Duarte e Waly Salomão. 2.ed. rev. e aum. São Paulo: M. Limonad, 198
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Talyta
Talyta

Lindos os poemas do Torquato Neto eu adorei

Aloísio
Aloísio

Grande POETA Torquato Neto. Grande MÚSICO Gilberto Gil Atual até hoje.

Identificação e contexto básico

Torquato Pereira de Araújo Neto, conhecido artisticamente como Torquato Neto, foi um poeta, jornalista, crítico de arte e cineasta brasileiro. Nasceu em Teresina, Piauí, em 9 de novembro de 1944, e faleceu no Rio de Janeiro em 10 de novembro de 1972. Era filho de Plínio Pereira de Araújo e Maria Lúcia de Araújo. Foi um dos expoentes da contracultura brasileira nos anos 1960 e 1970.

Infância e formação

Torquato Neto mudou-se com a família para o Rio de Janeiro ainda na infância. Teve uma formação cultural rica, tendo contato com importantes intelectuais e artistas desde jovem. Estudou na Universidade de Brasília (UnB) por um período, onde participou ativamente da efervescência cultural e política da época. Foi influenciado por leituras de poetas como Oswald de Andrade e também por movimentos artísticos e filosóficos que questionavam os padrões estabelecidos.

Percurso literário

O início de sua escrita poética se deu na adolescência, com uma produção que já revelava um espírito inquieto e experimental. Sua obra evoluiu rapidamente, passando por fases de maior experimentalismo formal e temático. Foi colaborador de importantes jornais e revistas da época, como o Correio da Manhã e a revista Civilização Brasileira, onde atuou também como crítico de arte. Participou da antologia "Poesia Hoje", marco da poesia marginal.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Sua obra poética principal está reunida em livros como "Heranças" (1962), "O Ungunto" (1963) e "Os Cem Melhores Poemas do Século XX" (póstumo, 2001). Os temas recorrentes em sua poesia incluem a alienação, a loucura, a droga, a sexualidade, a crítica social e a busca por uma identidade em meio ao caos urbano. Utilizava o verso livre, com uma linguagem crua, coloquial e por vezes agressiva, mas também capaz de grande lirismo. Seus poemas são marcados pela fragmentação, pela ironia e pela visceralidade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Torquato Neto viveu o auge da ditadura militar no Brasil, um período de forte repressão política e censura. Ele se tornou uma figura chave na contracultura brasileira, participando de festivais, manifestações e produzindo obras que desafiavam os costumes e a moral da época. Sua obra dialoga com o Tropicalismo, movimento cultural do qual se aproximou, compartilhando o espírito de experimentação e a crítica à sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Torquato Neto foi marcada pela intensidade e pela instabilidade. Teve relações significativas que o influenciaram, como a com a cantora Nara Leão. Sua luta contra a depressão e o uso de drogas é um tema presente em sua obra e em sua biografia. Trabalhou como jornalista e crítico, mas sua principal vocação sempre foi a poesia. Sua visão de mundo era frequentemente marcada por um profundo questionamento existencial.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Torquato Neto teve seu trabalho reconhecido por um nicho de artistas e intelectuais ligados à contracultura. No entanto, seu reconhecimento mais amplo veio postumamente. Sua obra passou a ser estudada e valorizada como um dos expoentes da poesia brasileira do século XX, especialmente pela sua capacidade de retratar o mal-estar da juventude em um período de crise social e política. Sua poesia é considerada ousada e precursora.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Torquato Neto foi influenciado por poetas como Oswald de Andrade, Arthur Rimbaud e os poetas beatniks americanos. Por sua vez, influenciou uma geração de poetas que buscaram na experimentação, na crueza e na temática existencial um novo caminho para a poesia brasileira. Seu legado reside na sua capacidade de dar voz a um sentir marginalizado e na sua ousadia estética e temática.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Torquato Neto é frequentemente interpretada como um grito de angústia existencial diante de um mundo em transformação e de uma sociedade repressora. Sua poesia expõe a fragilidade humana, a busca por liberdade e a confrontação com a própria identidade. As análises críticas destacam a sua originalidade formal e a força das suas imagens, bem como a sua capacidade de capturar o espírito de seu tempo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Torquato Neto era conhecido por seu humor ácido e por sua inteligência afiada. Sua relação com as drogas era complexa, sendo tanto uma fonte de inspiração quanto um caminho para o sofrimento. Ele também se aventurou no cinema, dirigindo curtas experimentais. Seus cadernos de anotações e a correspondência revelam um pensador profundo e um artista em constante busca.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Torquato Neto faleceu tragicamente em 10 de novembro de 1972, aos 28 anos, por suicídio. Sua morte precoce chocou o meio artístico e cultural. Publicações póstumas, como "Os Cem Melhores Poemas do Século XX", ajudaram a consolidar sua memória e a divulgar sua obra para novas gerações. Ele é lembrado como um dos poetas mais originais e impactantes da literatura brasileira.