Poemas neste tema
Dor e Desespero
Manuel Bandeira
Soneto Italiano
Frescura das sereias e do orvalho,
Graça dos brancos pés dos pequeninos,
Voz das manhãs cantando pelos sinos,
Rosa mais alta no mais alto galho:
De quem me valerei, se não me valho
De ti, que tens a chave dos destinos
Em que arderam meus sonhos cristalinos
Feitos cinza que em pranto ao vento espalho?
Também te vi chorar... Também sofreste
A dor de ver secarem pela estrada
As fontes da esperança... E não cedeste!
Antes, pobre, despida e trespassada,
Soubeste dar à vida, em que morreste,
Tudo — à vida, que nunca te deu nada!
28 de janeiro de1939
Graça dos brancos pés dos pequeninos,
Voz das manhãs cantando pelos sinos,
Rosa mais alta no mais alto galho:
De quem me valerei, se não me valho
De ti, que tens a chave dos destinos
Em que arderam meus sonhos cristalinos
Feitos cinza que em pranto ao vento espalho?
Também te vi chorar... Também sofreste
A dor de ver secarem pela estrada
As fontes da esperança... E não cedeste!
Antes, pobre, despida e trespassada,
Soubeste dar à vida, em que morreste,
Tudo — à vida, que nunca te deu nada!
28 de janeiro de1939
1 442
Manuel Bandeira
Noturno da Parada Amorim
O violoncelista estava a meio do Concerto de Schumann
Subitamente o coronel ficou transportado e começou a gritar: — Je vois des anges! Je vois des anges! — E deixou-se escorregar sentado pela escada abaixo.
O telefone tilintou.
Alguém chamava?... Alguém pedia socorro?...
Mas do outro lado não vinha senão o rumor de um pranto desesperado!...
(Eram três horas.
Todas as agências postais estavam fechadas.
Dentro da noite a voz do coronel continuava gritando: — Je vois des anges! Je vois de anges!)
Subitamente o coronel ficou transportado e começou a gritar: — Je vois des anges! Je vois des anges! — E deixou-se escorregar sentado pela escada abaixo.
O telefone tilintou.
Alguém chamava?... Alguém pedia socorro?...
Mas do outro lado não vinha senão o rumor de um pranto desesperado!...
(Eram três horas.
Todas as agências postais estavam fechadas.
Dentro da noite a voz do coronel continuava gritando: — Je vois des anges! Je vois de anges!)
1 012
Manuel Bandeira
Canção do Suicida
Não me matarei, meus amigos.
Não o farei, possivelmente.
Mas que tenho vontade, tenho.
Tenho, e, muito curiosamente,
Com um tiro. Um tiro no ouvido,
Vingança contra a condição
Humana, ai de nós! sobre-humana
De ser dotado de razão.
Não o farei, possivelmente.
Mas que tenho vontade, tenho.
Tenho, e, muito curiosamente,
Com um tiro. Um tiro no ouvido,
Vingança contra a condição
Humana, ai de nós! sobre-humana
De ser dotado de razão.
1 579
Manuel Bandeira
Boca de Forno
Cara de cobra,
Cobra!
Olhos de louco
Louca!
Testa insensata
Nariz Capeto
Cós do Capeta
Donzela rouca
Porta-estandarte
Jóia boneca
De maracatu!
Pelo teu retrato
Pela tua cinta
Pela tua carta
Ah tôtô meu santo
Eh Abaluaêé
Iansã boneca
De maracatu!
No fundo do mar
Há tanto tesouro!
No fundo do céu
Há tanto suspiro!
No meu coração
Tanto desespero!
Ah tôtô meu pai
Quero me rasgar
Quero me perder!
Cara de cobra.
Cobra!
Olhos de louco,
Louca!
Cussaruim boneca
De maracatu!
Cobra!
Olhos de louco
Louca!
Testa insensata
Nariz Capeto
Cós do Capeta
Donzela rouca
Porta-estandarte
Jóia boneca
De maracatu!
Pelo teu retrato
Pela tua cinta
Pela tua carta
Ah tôtô meu santo
Eh Abaluaêé
Iansã boneca
De maracatu!
No fundo do mar
Há tanto tesouro!
No fundo do céu
Há tanto suspiro!
No meu coração
Tanto desespero!
Ah tôtô meu pai
Quero me rasgar
Quero me perder!
Cara de cobra.
Cobra!
Olhos de louco,
Louca!
Cussaruim boneca
De maracatu!
1 423
Manuel Bandeira
Conto Cruel
A uremia não o deixava dormir. A filha deu uma injeção de sedol.
— Papai verá que vai dormir.
O pai aquietou-se e esperou. Dez minutos... Quinze minutos... Vinte minutos... Quem disse que o sono chegava? Então, ele implorou chorando:
— Meu Jesus-Cristinho!
Mas Jesus-Cristinho nem se incomodou.
— Papai verá que vai dormir.
O pai aquietou-se e esperou. Dez minutos... Quinze minutos... Vinte minutos... Quem disse que o sono chegava? Então, ele implorou chorando:
— Meu Jesus-Cristinho!
Mas Jesus-Cristinho nem se incomodou.
2 539
Manuel Bandeira
A Minha Irmã
Depois que a dor, depois que a desventura
Caiu sobre o meu peito angustiado,
Sempre te vi, solícita, a meu lado,
Cheia de amor e cheia de ternura.
É que em teu coração ainda perdura,
Entre doces lembranças conservado,
Aquele afeto simples e sagrado
De nossa infância, ó meiga criatura.
Por isso aqui minh'alma te abençoa:
Tu foste a voz compadecida e boa
Que no meu desalento me susteve.
Por isso eu te amo, e, na miséria minha,
Suplico aos céus que a mão de Deus te leve
E te faça feliz, minha irmãzinha...
Clavadel, 1913
Caiu sobre o meu peito angustiado,
Sempre te vi, solícita, a meu lado,
Cheia de amor e cheia de ternura.
É que em teu coração ainda perdura,
Entre doces lembranças conservado,
Aquele afeto simples e sagrado
De nossa infância, ó meiga criatura.
Por isso aqui minh'alma te abençoa:
Tu foste a voz compadecida e boa
Que no meu desalento me susteve.
Por isso eu te amo, e, na miséria minha,
Suplico aos céus que a mão de Deus te leve
E te faça feliz, minha irmãzinha...
Clavadel, 1913
1 428
Manuel Bandeira
A Vida assim nos Afeiçoa
Se fosse dor tudo na vida,
Seria a morte o grande bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: — "Vem!
"Quer para a bem-aventurança
"A Leves de um mundo espiritual
"A minha essência, onde a esperança
"Pôs o seu hálito vital;
"Quer, no mistério que te esconde
"Tu sejas, tão-somente, o fim:
"— Olvido imperturbável, onde
“Não restará nada de mim!”
Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.
Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.
E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.
A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
Seria a morte o grande bem.
Libertadora apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: — "Vem!
"Quer para a bem-aventurança
"A Leves de um mundo espiritual
"A minha essência, onde a esperança
"Pôs o seu hálito vital;
"Quer, no mistério que te esconde
"Tu sejas, tão-somente, o fim:
"— Olvido imperturbável, onde
“Não restará nada de mim!”
Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.
Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.
E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.
A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel...
1 100
Manuel Bandeira
Desalento
Uma pesada, rude canseira
Toma-me todo. Por mal de mim,
Ela me é cara... De tal maneira,
Que às vezes gosto que seja assim...
É bem verdade que me tortura
Mais do que as dores que já conheço.
E em tais momentos se me afigura
Que estou morrendo... que desfaleço...
Lembrança amarga do meu passado...
Como ela punge! Como ela dói!
Porque hoje o vejo mais desolado,
Mais desgraçado do que ele foi...
Tédios e penas cuja memória
Me era mais leve que a cinza leve,
Pesam-me agora... contam-me a história
Do que a minh'alma quis e não teve...
O ermo infinito do meu desejo
Alonga, amplia cada pesar...
Pesar doentio... Tudo o que vejo
Tem uma tinta crepuscular...
Faço em segredo canções mais tristes
E mais ingênuas que as de Fortúnio:
Canções ingênuas que nunca ouvistes,
Volúpia obscura deste infortúnio...
Às vezes volvo, por esquecê-la,
À vista súplice em derredor.
Mas tenho medo de que sem ela
A desventura seja maior...
Sem pensamentos e sem cuidados,
Minh'alma tímida e pervertida,
Queda-se de olhos desencantados
Para o sagrado labor da vida...
Teresópolis, 1912
Toma-me todo. Por mal de mim,
Ela me é cara... De tal maneira,
Que às vezes gosto que seja assim...
É bem verdade que me tortura
Mais do que as dores que já conheço.
E em tais momentos se me afigura
Que estou morrendo... que desfaleço...
Lembrança amarga do meu passado...
Como ela punge! Como ela dói!
Porque hoje o vejo mais desolado,
Mais desgraçado do que ele foi...
Tédios e penas cuja memória
Me era mais leve que a cinza leve,
Pesam-me agora... contam-me a história
Do que a minh'alma quis e não teve...
O ermo infinito do meu desejo
Alonga, amplia cada pesar...
Pesar doentio... Tudo o que vejo
Tem uma tinta crepuscular...
Faço em segredo canções mais tristes
E mais ingênuas que as de Fortúnio:
Canções ingênuas que nunca ouvistes,
Volúpia obscura deste infortúnio...
Às vezes volvo, por esquecê-la,
À vista súplice em derredor.
Mas tenho medo de que sem ela
A desventura seja maior...
Sem pensamentos e sem cuidados,
Minh'alma tímida e pervertida,
Queda-se de olhos desencantados
Para o sagrado labor da vida...
Teresópolis, 1912
1 141
Manuel Bandeira
Tema e Voltas
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento.
Cheira a flor da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento.
Cheira a flor da noite?
Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?
1 333
Manuel Bandeira
Elegia para Minha Mãe
Nesta quebrada de montanha, donde o mar
Parece manso como em recôncavo de angra,
Tudo o que há de infantil dentro em minh'alma sangra
Na dor de te ter visto, é Mãe, agonizar!
Entregue à sugestão evocadora do ermo,
Em pranto rememoro o teu lento martírio
Até quando exalaste, à ardente luz de um círio,
A alma que se transia atada ao corpo enfermo.
Relembro o rosto magro, onde a morte deixou
Uma expressão como que atônita de espanto.
(Que imagem de tão grave e prestigioso encanto
Em teus olhos já meio inânimes passou?)
Revejo os teus pequenos pés... A mão franzina...
Tão musical... A fronte baixa... A boca exangue...
A duas gerações passara já teu sangue,
— Eras avó —, e morta eras uma menina.
No silêncio daquela noite funeral
Ouço a voz de meu pai chamando por teu nome.
Mas não posso pensar em ti sem que me tome
Todo a recordação medonha de teu mal!
Tu, cujo coração era cheio de medos
— Temias os trovões, o telegrama, o escuro —
Ah, pobrezinha! um fim terrível, o mais duro,
É que te sufocou com implacáveis dedos.
Agora se me despedaça o coração
A cada pormenor, e o revivo cem vezes,
E choro neste instante o pranto de três meses
(Durante os quais sorri para tua ilusão!),
Enquanto que a buscar as solitárias ânsias,
As mágoas sem consolo, as vontades quebradas,
Voa, diluindo-se no longe das distâncias,
A prece vesperal em fundas badaladas!
Parece manso como em recôncavo de angra,
Tudo o que há de infantil dentro em minh'alma sangra
Na dor de te ter visto, é Mãe, agonizar!
Entregue à sugestão evocadora do ermo,
Em pranto rememoro o teu lento martírio
Até quando exalaste, à ardente luz de um círio,
A alma que se transia atada ao corpo enfermo.
Relembro o rosto magro, onde a morte deixou
Uma expressão como que atônita de espanto.
(Que imagem de tão grave e prestigioso encanto
Em teus olhos já meio inânimes passou?)
Revejo os teus pequenos pés... A mão franzina...
Tão musical... A fronte baixa... A boca exangue...
A duas gerações passara já teu sangue,
— Eras avó —, e morta eras uma menina.
No silêncio daquela noite funeral
Ouço a voz de meu pai chamando por teu nome.
Mas não posso pensar em ti sem que me tome
Todo a recordação medonha de teu mal!
Tu, cujo coração era cheio de medos
— Temias os trovões, o telegrama, o escuro —
Ah, pobrezinha! um fim terrível, o mais duro,
É que te sufocou com implacáveis dedos.
Agora se me despedaça o coração
A cada pormenor, e o revivo cem vezes,
E choro neste instante o pranto de três meses
(Durante os quais sorri para tua ilusão!),
Enquanto que a buscar as solitárias ânsias,
As mágoas sem consolo, as vontades quebradas,
Voa, diluindo-se no longe das distâncias,
A prece vesperal em fundas badaladas!
2 522
Marina Colasanti
Com seu grito imenso
O moço meu vizinho
jogou-se da janela.
Quinze andares
abismo de pastilhas azuis
céu vertical
que acaba no cimento.
Nenhum arbusto ou galho
na descida
nenhuma mão estendida
e as janelas iguais
que ninguém abre.
Agora
quando olho da rua
o meu edifício
vejo um corpo caindo
ao lado esquerdo
caindo sempre
e sempre ali suspenso
um corpo mudo
com seu grito imenso.
jogou-se da janela.
Quinze andares
abismo de pastilhas azuis
céu vertical
que acaba no cimento.
Nenhum arbusto ou galho
na descida
nenhuma mão estendida
e as janelas iguais
que ninguém abre.
Agora
quando olho da rua
o meu edifício
vejo um corpo caindo
ao lado esquerdo
caindo sempre
e sempre ali suspenso
um corpo mudo
com seu grito imenso.
1 140
Marina Colasanti
MULHERES SUICIDAS
Mulheres suicidas
mulheres despidas varando
a vidraça
mulheres no espaço baço
do formicida
cabeça no forno sem fogo
cabeça servida
pescoço quebrado pendente
da viga
cadeira caída
gilete na veia esvaída
mulheres suicidas
sem rumo
sem brida
entregando as chaves
da vida.
mulheres despidas varando
a vidraça
mulheres no espaço baço
do formicida
cabeça no forno sem fogo
cabeça servida
pescoço quebrado pendente
da viga
cadeira caída
gilete na veia esvaída
mulheres suicidas
sem rumo
sem brida
entregando as chaves
da vida.
572
Marina Colasanti
HORA DO EMBARQUE
Respirou fundo
descalçou sapatos
agarrou-se perdida nos metais.
E com olhar viajante
já sem volta
ou perdão
embarcou suspirando
na balança.
descalçou sapatos
agarrou-se perdida nos metais.
E com olhar viajante
já sem volta
ou perdão
embarcou suspirando
na balança.
1 048
Allen Ginsberg
A Kerouac no Hospital
Gentis nos faz a morte; a dor que mata
a besta abate o hostil orgulho do destino
de saúde e desatino
Morta a besta, sua alma está liberta.
Um poeta na companhia de santos,
você deita e esconde o fumo que bafora.
Como num sonho conhecido: você,
exausto do hospital da vida,
conheceu a enfermidade eterna.
Não desejo,
Jack, que você melhore, pois há sempre
uma ferida; cujo corte mais profundo
é a consciência fútil da espera
vaidosa pela sua felicidade
Eu lhe desejo apenas necessidade.
Dezembro, 1945
a besta abate o hostil orgulho do destino
de saúde e desatino
Morta a besta, sua alma está liberta.
Um poeta na companhia de santos,
você deita e esconde o fumo que bafora.
Como num sonho conhecido: você,
exausto do hospital da vida,
conheceu a enfermidade eterna.
Não desejo,
Jack, que você melhore, pois há sempre
uma ferida; cujo corte mais profundo
é a consciência fútil da espera
vaidosa pela sua felicidade
Eu lhe desejo apenas necessidade.
Dezembro, 1945
788
Allen Ginsberg
Ácido lisérgico
Ele é um monstro múltiplo de um milhão de olhos
ele está escondido em todos os seus elefantes e eus
ele zumbe na máquina de escrever elétrica
ele é eletricidade ligada nela mesma, se tiver fios
ele é uma enorme teia de aranha
e eu estou no último milionésimo tentáculo infinito da teia, ansioso,
perdido, separado, um verme, um pensamento, um eu
um dos milhões de esqueletos da China
uma das partículas de erros
eu Alien Ginsberg uma consciência separada
eu que quero ser Deus
eu que quero ouvir a infinitésima minúscula vibração da harmonia eterna
eu que espero trêmulo pela minha destruição por essa música etérea do fogo
eu que detesto Deus lhe dou um nome
eu que cometo erros na eterna máquina de escrever
eu que estou Condenado
Mas na extremidade final do universo a Aranha sem nome com milhões de olhos
tecendo-se interminavelmente
o monstro que não é um monstro chega perto de mim com maçãs, perfumes, ferrovias, televisores, crânios
um universo que se come e se bebe a si mesmo
sangue do meu crânio
criatura tibetana de peito cabeludo e Zodíaco no meu estômago
esta vítima sacrificial incapaz de estar numa boa
Meu rosto no espelho, o cabelo fino, sangue congestionado em listas sob os olhos, chupador de caralhos, uma ruína, uma luxúria falante
um estalo, um rosnado, um tique de consciência no infinito
um miserável aos olhos de todos os Universos
tentando escapar do meu Ser, incapaz de chegar até o Olho
eu vomito, eu estou em transe, meu corpo é tomado por convulsões, meu estômago se revolta, água saindo da minha boca, aqui estou eu no inferno
ossos secos de miríades de múmias sem vida nuas na teia, os Fantasmas, eu sou um Fantasma
eu grito de onde estou na música, para o quarto, para quem mais estiver perto, você, É você Deus?
Não, você quer que eu seja o seu Deus?
Não haverá Resposta?
É preciso haver sempre uma resposta? responde você,
como se dependesse de mim dizer Sim ou Não
Graças a Deus que eu não sou Deus! Graças a Deus que eu não sou Deus!
Porém eu anseio por um Sim ou por uma Harmonia para penetrar nela
em qualquer canto do universo, em qualquer condição seja qual for
um Sim Há . . . um Sim eu Sou . .. um Sim você É .. . um Nós
Um Nós
e isso deve ser um Ele, e um Eles, e uma Coisa Sem Resposta
Ele rasteja, ele espera, ele pára, ele começa, ele é as Trombetas
da Batalha na sua Múltipla Esclerose
ele não é minha esperança
ele não é minha morte na Eternidade
ele não é minha palavra, nem a poesia
atenção à minha palavra
Ele é uma Armadilha Fantasma tecida pelos sacerdotes em Sikkim ou no Tibet
um telão no qual mil fios de cores diferentes
estão entretecidos, uma raquete espiritual de tênis
da qual quando a olho irradiam-se ondas etéreas de luz
energia brilhante passando pelos fios como por bilhões de anos
os feixes de fios trocando de tonalidade transformando-se um no outro como se a
Armadilha Fantasma
fosse uma imagem do Universo em miniatura
parte consciente sensível da máquina interligada
fazendo ondas que saem do Tempo até o Observador
exibindo sua própria imagem em miniatura de uma vez por todas
repetida minúscula cada vez menor com intermináveis variações através de si mesma
sendo o mesmo em cada parte
Esta imagem da energia que se reproduz a si mesma nas profundezas do espaço do próprio Princípio
naquilo que poderia ser um 0 ou Aum
e variações seguidas feitas da mesma Palavra círculos que se sucedem no mesmo molde da sua Aparição original
criando uma imagem maior de si mesma através das profundezas do Tempo
girando para fora pelas faixas de distantes Nebulosas & vastas astrologias
contidas, para serem fiéis a si mesmas, numa Mandala pintada na pele de um Elefante
ou na fotografia de uma pintura no flanco de um Elefante imaginário que sorri, pois com que o elefante se parece é uma piada irrelevante -
ele pode ser um Signo sustentado por um Demônio Flamejante, ou um Ogro da Transciência,
ou numa fotografia da minha própria barriga no vazio
ou no meu olho
ou no olho do monge que fez o Signo
ou no Seu próprio Olho que Se encara finalmente e morre
e contudo um olho pode morrer
e contudo meu olho pode morrer
o monstro do bilhão de olhos, o Inominável, o Irrespondível, o
Escondido-de-mim, o interminável Ser
uma criatura que se pars a si mesma
freme na sua mais recôndita partícula, vê simultaneamente por todos os seus olhos em cada qual de um modo diferente
o Uno e o não uno se movem por seus próprios caminhos
não consigo acompanhar
E eu fiz uma imagem do monstro aqui
e farei outra ele dá sensação de Criptozóides
ele rasteja e ondula sob o mar
ele está chegando para ocupar a cidade
ele invade o cerne de cada Consciência
ele é delicado como o Universo
ele me faz vomitar
pois eu tenho medo de perder sua aparição
ele aparece de qualquer maneira
ele aparece de qualquer maneira no espelho
ele escorre para fora do espelho como o mar
ele é uma miríade de ondulações
ele escorre para fora do espelho e afoga quem o olha
ele afoga o mundo quando afoga o mundo
ele se afoga a si mesmo
ele flutua para longe como um cadáver cheio de música
com o barulho da guerra na sua cabeça
um riso de bebê na sua barriga
um grito de agonia no escuro mar
um sorriso nos lábios de uma estátua cega
ele estava lá
ele não era meu
eu queria usá-lo para mim
ser heróico
mas ele não está à venda para esta consciência
ele segue por seu caminho para sempre
ele completará todas as criaturas
ele será o rádio do futuro
ele se ouvirá a si mesmo no tempo
ele quer um descanso
ele está cansado de se ouvir e se ver
ele quer outra forma outra vítima
ele me quer
elé me dá bons motivos
ele me dá motivos para existir
ele me dá intermináveis respostas
uma consciência para separar-se e uma consciência para ver
eu sou chamado para ser Um ou o outro, para dizer se sou ambos e ser nenhum
ele pode cuidar de si sem mim
ele é o Duplamente sem Resposta (não responde a esse nome)
ele zumbe na máquina de escrever elétrica
ele bate uma palavra fragmentária que é
uma palavra fragmentária,
MANDALA
Deuses dançam nos seus próprios corpos
Novas flores abrem-se esquecendo a Morte
Olhos celestiais acima do desconsolo da ilusão
Eu vejo o alegre Criador
Faixas elevam-se num hino aos mundos
Bandeiras e estandartes tremulando na transcendência
Uma imagem permanece no final com miríades de olhos na Eternidade
Esta é a Obra! Este é o Saber! Este é o Fim do homem!
SF, 2 de junho, 1959
ele está escondido em todos os seus elefantes e eus
ele zumbe na máquina de escrever elétrica
ele é eletricidade ligada nela mesma, se tiver fios
ele é uma enorme teia de aranha
e eu estou no último milionésimo tentáculo infinito da teia, ansioso,
perdido, separado, um verme, um pensamento, um eu
um dos milhões de esqueletos da China
uma das partículas de erros
eu Alien Ginsberg uma consciência separada
eu que quero ser Deus
eu que quero ouvir a infinitésima minúscula vibração da harmonia eterna
eu que espero trêmulo pela minha destruição por essa música etérea do fogo
eu que detesto Deus lhe dou um nome
eu que cometo erros na eterna máquina de escrever
eu que estou Condenado
Mas na extremidade final do universo a Aranha sem nome com milhões de olhos
tecendo-se interminavelmente
o monstro que não é um monstro chega perto de mim com maçãs, perfumes, ferrovias, televisores, crânios
um universo que se come e se bebe a si mesmo
sangue do meu crânio
criatura tibetana de peito cabeludo e Zodíaco no meu estômago
esta vítima sacrificial incapaz de estar numa boa
Meu rosto no espelho, o cabelo fino, sangue congestionado em listas sob os olhos, chupador de caralhos, uma ruína, uma luxúria falante
um estalo, um rosnado, um tique de consciência no infinito
um miserável aos olhos de todos os Universos
tentando escapar do meu Ser, incapaz de chegar até o Olho
eu vomito, eu estou em transe, meu corpo é tomado por convulsões, meu estômago se revolta, água saindo da minha boca, aqui estou eu no inferno
ossos secos de miríades de múmias sem vida nuas na teia, os Fantasmas, eu sou um Fantasma
eu grito de onde estou na música, para o quarto, para quem mais estiver perto, você, É você Deus?
Não, você quer que eu seja o seu Deus?
Não haverá Resposta?
É preciso haver sempre uma resposta? responde você,
como se dependesse de mim dizer Sim ou Não
Graças a Deus que eu não sou Deus! Graças a Deus que eu não sou Deus!
Porém eu anseio por um Sim ou por uma Harmonia para penetrar nela
em qualquer canto do universo, em qualquer condição seja qual for
um Sim Há . . . um Sim eu Sou . .. um Sim você É .. . um Nós
Um Nós
e isso deve ser um Ele, e um Eles, e uma Coisa Sem Resposta
Ele rasteja, ele espera, ele pára, ele começa, ele é as Trombetas
da Batalha na sua Múltipla Esclerose
ele não é minha esperança
ele não é minha morte na Eternidade
ele não é minha palavra, nem a poesia
atenção à minha palavra
Ele é uma Armadilha Fantasma tecida pelos sacerdotes em Sikkim ou no Tibet
um telão no qual mil fios de cores diferentes
estão entretecidos, uma raquete espiritual de tênis
da qual quando a olho irradiam-se ondas etéreas de luz
energia brilhante passando pelos fios como por bilhões de anos
os feixes de fios trocando de tonalidade transformando-se um no outro como se a
Armadilha Fantasma
fosse uma imagem do Universo em miniatura
parte consciente sensível da máquina interligada
fazendo ondas que saem do Tempo até o Observador
exibindo sua própria imagem em miniatura de uma vez por todas
repetida minúscula cada vez menor com intermináveis variações através de si mesma
sendo o mesmo em cada parte
Esta imagem da energia que se reproduz a si mesma nas profundezas do espaço do próprio Princípio
naquilo que poderia ser um 0 ou Aum
e variações seguidas feitas da mesma Palavra círculos que se sucedem no mesmo molde da sua Aparição original
criando uma imagem maior de si mesma através das profundezas do Tempo
girando para fora pelas faixas de distantes Nebulosas & vastas astrologias
contidas, para serem fiéis a si mesmas, numa Mandala pintada na pele de um Elefante
ou na fotografia de uma pintura no flanco de um Elefante imaginário que sorri, pois com que o elefante se parece é uma piada irrelevante -
ele pode ser um Signo sustentado por um Demônio Flamejante, ou um Ogro da Transciência,
ou numa fotografia da minha própria barriga no vazio
ou no meu olho
ou no olho do monge que fez o Signo
ou no Seu próprio Olho que Se encara finalmente e morre
e contudo um olho pode morrer
e contudo meu olho pode morrer
o monstro do bilhão de olhos, o Inominável, o Irrespondível, o
Escondido-de-mim, o interminável Ser
uma criatura que se pars a si mesma
freme na sua mais recôndita partícula, vê simultaneamente por todos os seus olhos em cada qual de um modo diferente
o Uno e o não uno se movem por seus próprios caminhos
não consigo acompanhar
E eu fiz uma imagem do monstro aqui
e farei outra ele dá sensação de Criptozóides
ele rasteja e ondula sob o mar
ele está chegando para ocupar a cidade
ele invade o cerne de cada Consciência
ele é delicado como o Universo
ele me faz vomitar
pois eu tenho medo de perder sua aparição
ele aparece de qualquer maneira
ele aparece de qualquer maneira no espelho
ele escorre para fora do espelho como o mar
ele é uma miríade de ondulações
ele escorre para fora do espelho e afoga quem o olha
ele afoga o mundo quando afoga o mundo
ele se afoga a si mesmo
ele flutua para longe como um cadáver cheio de música
com o barulho da guerra na sua cabeça
um riso de bebê na sua barriga
um grito de agonia no escuro mar
um sorriso nos lábios de uma estátua cega
ele estava lá
ele não era meu
eu queria usá-lo para mim
ser heróico
mas ele não está à venda para esta consciência
ele segue por seu caminho para sempre
ele completará todas as criaturas
ele será o rádio do futuro
ele se ouvirá a si mesmo no tempo
ele quer um descanso
ele está cansado de se ouvir e se ver
ele quer outra forma outra vítima
ele me quer
elé me dá bons motivos
ele me dá motivos para existir
ele me dá intermináveis respostas
uma consciência para separar-se e uma consciência para ver
eu sou chamado para ser Um ou o outro, para dizer se sou ambos e ser nenhum
ele pode cuidar de si sem mim
ele é o Duplamente sem Resposta (não responde a esse nome)
ele zumbe na máquina de escrever elétrica
ele bate uma palavra fragmentária que é
uma palavra fragmentária,
MANDALA
Deuses dançam nos seus próprios corpos
Novas flores abrem-se esquecendo a Morte
Olhos celestiais acima do desconsolo da ilusão
Eu vejo o alegre Criador
Faixas elevam-se num hino aos mundos
Bandeiras e estandartes tremulando na transcendência
Uma imagem permanece no final com miríades de olhos na Eternidade
Esta é a Obra! Este é o Saber! Este é o Fim do homem!
SF, 2 de junho, 1959
1 513
Affonso Romano de Sant'Anna
Quando Viajas
Viajas, e desespero.
E peno.
Despassarado
vou ficando murcho
num canto, mudo.
Viajas
e me sequestras
equestre amada
onde o coração galopa galopa galopa
no meu ser paralisado
exposto
na publicada praça dos meus versos.
E peno.
Despassarado
vou ficando murcho
num canto, mudo.
Viajas
e me sequestras
equestre amada
onde o coração galopa galopa galopa
no meu ser paralisado
exposto
na publicada praça dos meus versos.
1 005
Allen Ginsberg
Salmo mágico
Porque o mundo está à beira do abismo e ninguém sabe o quevirá depois
Oh Fantasma que minha mente persegue de ano para ano desce do céu para esta carne trêmula
colhe meu olho fugitivo no vasto Raio que não conhece limites — Inseparável - Mestre
Gigante fora do tempo com todas as suas folhas caindo - Gênio do Universo - Mágico do Nada onde nuvens vermelhas aparecem -
Indizível Rei das rodovias que se foram - Ininteligível Cavalo saltando fora do sepulcro - Poente sobre a grande Cordilheira e inseto - Cupim -
Lamentoso - Riso sem boca, Coração que nunca teve carne para morrer - Promessa que não foi feita - Consolador, cujo sangue arde em um milhão de animais feridos -
Oh Misericórdia, Destruidor do Mundo, Oh Misericórdia, Criador das Ilusões Acalentadas, Oh Misericórdia, arrulho cacofônico da boca quente, Vem,
invade meu corpo com o sexo de Deus, sufoca minhas narinas com a infinita carícia da corrupção,
transfigura-me em vermes viscosos de pura transcendência sensorial, ainda estou vivo,
grasna minha voz com o mais feio que a realidade, um tomate psíquico falando-Te por milhões de bocas,
Alma minha com miríades de línguas, Monstro ou Anjo, Amante que vem foder-me para sempre - véu branco do Polvo sem Olhos -
Cu do Universo no qual desapareço - Mão Elástica que falou com Crane128 —Música que toca na vitrola dos anos vinda de outro Milênio - Ouvido dos edifícios de NY
Aquilo em que acredito - que vi - procurei incessantemente na folha cachorro olho - sempre culpa, falta, - o que me faz pensar -
Desejo que me criou, Desejo que escondo no meu corpo, Desejo que todo Homem conhece Morte, Desejo ultrapassando o mundo Babilônico possível
que faz minha carne sacudir-se em orgasmos do Teu Nome que não conheço nunca conseguirei nunca dizer -
Dizer à Humanidade para dizer que o grande sino toca um tom dourado nos balcões de ferro em cada milhão de universos,
eu sou Teu profeta volta para casa para este mundo para gritar um insuportável Nome pelo odioso sexto dos meus 5 sentidos
que conhece Tua mão em seu falo invisível, coberta pelos bulbos elétricos da morte -
Paz, Solucionador onde embaralho ilusões, vagina de Boca Moleque entra no meu cérebro por cima, Pomba da Arca com um ramo de Morte.
Enlouquece-me, Deus estou pronto para a desintegração da minha mente, desgraça-me no olho da terra,
ataca meu coração cabeludo come meu caralho Invisível coaxar do sapo da morte salta em mim matilha de pesados cães salivando luz,
devora meu cérebro fluxo Uno de interminável consciência, tenho medo da tua promessa devo fazer que minha oração grite no medo -Desce Oh Luz Criador & Devorador da Humanidade, arrebenta o mundo na sua loucura de bombas e morticínio,
Vulcões de carne sobre Londres, em Paris uma chuva de olhos - caminhões carregados de corações de anjos para lambuzar as paredes do Kremlin - a caveira de luz para Nova York -
miríade de pés recobertos de jóias nos terraços de Pequim - véus de gás elétrico baixando sobre a índia - cidades de
Bactéria invadindo o cérebro - a Alma escapando para as ondulantes bocas de borracha do Paraíso -
Este é o Grande Chamado, esta é a Toxina da Guerra Eterna, este é o grito da Mente assassinada na Nebulosa,
este é o Sino Dourado da Igreja que nunca existiu, este é o Bum no coração do raio do sol, esta é a trombeta do Verme na Morte,
Apelo do agarrâo castrado sem mãos Doação da semente dourada do futuro pelo terremoto & vulcão do mundo -
Sepulta meus pés sob os Andes, esparrama meus miolos sobre a Esfinge, hasteia minha barba e cabelo no Empire State Building,
cobre minha barriga com mãos de musgo, enche meus ouvidos com teu clarão, cega-me com arco-íris proféticos
Que eu prove finalmente a merda de Ser, que eu toque Teus genitais na palmeira,
que o vasto Raio do Futuro entre pela minha boca para fazer soar Tua Criação Eternamente Não-nascida, Oh beleza invisível para meu Século!
que minha oração ultrapasse minha compreensão, que eu deposite minha vaidade a Teus pés, que eu não mais tema o Julgamento de Alien neste mundo
nascido em Newark chegado para a Eternidade em Nova York chorando novamente no Peru pela definitiva Língua para salmodiar o Indisível,
que eu ultrapasse o desejo de transcendência e entre nas calmas águas do universo
que eu cavalgue esta onda, não mais eternamente afogado na torrente da minha imaginação
que eu não seja assassinado pela minha própria doida magia, crime este a ser punido nos piedosos cárceres da Morte,
homens entendei minha fala fora de seus próprios corações turcos, ajudem-me os profetas com a Proclamação,
que os Serafins aclamem Teu Nome, Tu subitamente em uma imensa Boca do Universo fazendo a carne responder.
1960
Oh Fantasma que minha mente persegue de ano para ano desce do céu para esta carne trêmula
colhe meu olho fugitivo no vasto Raio que não conhece limites — Inseparável - Mestre
Gigante fora do tempo com todas as suas folhas caindo - Gênio do Universo - Mágico do Nada onde nuvens vermelhas aparecem -
Indizível Rei das rodovias que se foram - Ininteligível Cavalo saltando fora do sepulcro - Poente sobre a grande Cordilheira e inseto - Cupim -
Lamentoso - Riso sem boca, Coração que nunca teve carne para morrer - Promessa que não foi feita - Consolador, cujo sangue arde em um milhão de animais feridos -
Oh Misericórdia, Destruidor do Mundo, Oh Misericórdia, Criador das Ilusões Acalentadas, Oh Misericórdia, arrulho cacofônico da boca quente, Vem,
invade meu corpo com o sexo de Deus, sufoca minhas narinas com a infinita carícia da corrupção,
transfigura-me em vermes viscosos de pura transcendência sensorial, ainda estou vivo,
grasna minha voz com o mais feio que a realidade, um tomate psíquico falando-Te por milhões de bocas,
Alma minha com miríades de línguas, Monstro ou Anjo, Amante que vem foder-me para sempre - véu branco do Polvo sem Olhos -
Cu do Universo no qual desapareço - Mão Elástica que falou com Crane128 —Música que toca na vitrola dos anos vinda de outro Milênio - Ouvido dos edifícios de NY
Aquilo em que acredito - que vi - procurei incessantemente na folha cachorro olho - sempre culpa, falta, - o que me faz pensar -
Desejo que me criou, Desejo que escondo no meu corpo, Desejo que todo Homem conhece Morte, Desejo ultrapassando o mundo Babilônico possível
que faz minha carne sacudir-se em orgasmos do Teu Nome que não conheço nunca conseguirei nunca dizer -
Dizer à Humanidade para dizer que o grande sino toca um tom dourado nos balcões de ferro em cada milhão de universos,
eu sou Teu profeta volta para casa para este mundo para gritar um insuportável Nome pelo odioso sexto dos meus 5 sentidos
que conhece Tua mão em seu falo invisível, coberta pelos bulbos elétricos da morte -
Paz, Solucionador onde embaralho ilusões, vagina de Boca Moleque entra no meu cérebro por cima, Pomba da Arca com um ramo de Morte.
Enlouquece-me, Deus estou pronto para a desintegração da minha mente, desgraça-me no olho da terra,
ataca meu coração cabeludo come meu caralho Invisível coaxar do sapo da morte salta em mim matilha de pesados cães salivando luz,
devora meu cérebro fluxo Uno de interminável consciência, tenho medo da tua promessa devo fazer que minha oração grite no medo -Desce Oh Luz Criador & Devorador da Humanidade, arrebenta o mundo na sua loucura de bombas e morticínio,
Vulcões de carne sobre Londres, em Paris uma chuva de olhos - caminhões carregados de corações de anjos para lambuzar as paredes do Kremlin - a caveira de luz para Nova York -
miríade de pés recobertos de jóias nos terraços de Pequim - véus de gás elétrico baixando sobre a índia - cidades de
Bactéria invadindo o cérebro - a Alma escapando para as ondulantes bocas de borracha do Paraíso -
Este é o Grande Chamado, esta é a Toxina da Guerra Eterna, este é o grito da Mente assassinada na Nebulosa,
este é o Sino Dourado da Igreja que nunca existiu, este é o Bum no coração do raio do sol, esta é a trombeta do Verme na Morte,
Apelo do agarrâo castrado sem mãos Doação da semente dourada do futuro pelo terremoto & vulcão do mundo -
Sepulta meus pés sob os Andes, esparrama meus miolos sobre a Esfinge, hasteia minha barba e cabelo no Empire State Building,
cobre minha barriga com mãos de musgo, enche meus ouvidos com teu clarão, cega-me com arco-íris proféticos
Que eu prove finalmente a merda de Ser, que eu toque Teus genitais na palmeira,
que o vasto Raio do Futuro entre pela minha boca para fazer soar Tua Criação Eternamente Não-nascida, Oh beleza invisível para meu Século!
que minha oração ultrapasse minha compreensão, que eu deposite minha vaidade a Teus pés, que eu não mais tema o Julgamento de Alien neste mundo
nascido em Newark chegado para a Eternidade em Nova York chorando novamente no Peru pela definitiva Língua para salmodiar o Indisível,
que eu ultrapasse o desejo de transcendência e entre nas calmas águas do universo
que eu cavalgue esta onda, não mais eternamente afogado na torrente da minha imaginação
que eu não seja assassinado pela minha própria doida magia, crime este a ser punido nos piedosos cárceres da Morte,
homens entendei minha fala fora de seus próprios corações turcos, ajudem-me os profetas com a Proclamação,
que os Serafins aclamem Teu Nome, Tu subitamente em uma imensa Boca do Universo fazendo a carne responder.
1960
1 807
Allen Ginsberg
A resposta
Deus responde com minha condenação!
esta poesia apagada do lenho ardente
minhas mentiras respondidas pelo verme no meu ouvido
minha visão pela mão que cai sobre meus olhos para cobri-los
diante da visão do meu esqueleto
—meu anseio de ser Deus pela trêmula carne barbada do maxilar
que cobre meu crânio como a pele de um monstro
Estômago vomitando a videira da alma, cadáver no
assoalho de uma cabana de bambu, carne do corpo rastejando
rumo a seu pesadelo do destino que cresce no meu cérebro
0 barulho do estrondo da criação adorando seu Carrasco, o salto
dos pássaros para o Infinito, latidos como o som
do vômito no ar, sapos coaxando Morte nas árvores
eu sou um Serafim e não sei se vou para dentro do Vazio
eu sou um homem e não sei se vou para dentro da Morte —
Cristo Cristo pobre desesperançado
alçado à Cruz entre as Dimensões —
para ver o Sempre-Incognoscível!
um som de gongo morto treme por toda a minha carne e um
imenso Ser entra no meu
cérebro vindo do longe que vive para sempre
Nada mais além da Presença poderosa demais para registrar!
a Presença
na Morte, diante da qual estou indefeso
transforma-me de Alien em uma caveira
Velho Caolho dos sonhos dos quais não acordo a não ser morto
mãos puxadas para a escuridão por uma horrenda Mão
—cego contorcer-se do verme, cortado —o arado
é o próprio Deus
Que monstruoso baile da escuridão anterior ao universo
volta para visitar-me como um comando cego!
e possa eu apagar esta consciência, fugir de volta
para o amor de Nova York e o farei
Pobre lamentável Cristo com medo da predita Cruz, Imortal —
Fugir, mas não para sempre —a Presença virá, a hora
chegará, uma estranha verdade penetra o universo, a morte
mostra seu Ser como antes
e eu me desesperarei por ter esquecido! esquecido a volta ao meu destino,
para morrer disso —
O que é sagrado quando a Coisa é todo o universo?
rasteja em cada alma como um órgão de vampiro cantando
atrás das nuvens iluminadas pela lua —
pobre criatura vem agachada
sob as estrelas barbudas num campo negro no Peru
para depositar minha carga —morrerei de horror de morrer!
Nem diques nem pirâmides, mas a morte, e devemos nos preparar para essa
nudez, pobres ossos sugados até ressecarem por Sua longa boca
de formigas e vento, & nossas almas assassinadaspara preparar Sua Perfeição!
O momento chegou, Ele fez Sua vontade ser revelada para sempre
e nenhuma fuga para o velho Ser além das estrelas não irá
chegar ao mesmo escuro porto oscilante
de insuportável música
Nenhum refúgio no Eu, que está em chamas
nem no Mundo que também é Seu para ser
bombardeado & Devorado!
Reconhece Seu poder! Larga
minhas mãos —minha atemorizada caveira
— pois eu havia escolhido a auto-estima —
meus olhos, meu nariz, minha cara, meu caralho,
minha alma —e agora
o Destruidor sem cara!
Um bilhão de portas para o mesmo novo ser!
O universo vira-se pelo avesso para devorar-me!
e a poderosa irrupção de música sai para fora da porta desumana —
1960
esta poesia apagada do lenho ardente
minhas mentiras respondidas pelo verme no meu ouvido
minha visão pela mão que cai sobre meus olhos para cobri-los
diante da visão do meu esqueleto
—meu anseio de ser Deus pela trêmula carne barbada do maxilar
que cobre meu crânio como a pele de um monstro
Estômago vomitando a videira da alma, cadáver no
assoalho de uma cabana de bambu, carne do corpo rastejando
rumo a seu pesadelo do destino que cresce no meu cérebro
0 barulho do estrondo da criação adorando seu Carrasco, o salto
dos pássaros para o Infinito, latidos como o som
do vômito no ar, sapos coaxando Morte nas árvores
eu sou um Serafim e não sei se vou para dentro do Vazio
eu sou um homem e não sei se vou para dentro da Morte —
Cristo Cristo pobre desesperançado
alçado à Cruz entre as Dimensões —
para ver o Sempre-Incognoscível!
um som de gongo morto treme por toda a minha carne e um
imenso Ser entra no meu
cérebro vindo do longe que vive para sempre
Nada mais além da Presença poderosa demais para registrar!
a Presença
na Morte, diante da qual estou indefeso
transforma-me de Alien em uma caveira
Velho Caolho dos sonhos dos quais não acordo a não ser morto
mãos puxadas para a escuridão por uma horrenda Mão
—cego contorcer-se do verme, cortado —o arado
é o próprio Deus
Que monstruoso baile da escuridão anterior ao universo
volta para visitar-me como um comando cego!
e possa eu apagar esta consciência, fugir de volta
para o amor de Nova York e o farei
Pobre lamentável Cristo com medo da predita Cruz, Imortal —
Fugir, mas não para sempre —a Presença virá, a hora
chegará, uma estranha verdade penetra o universo, a morte
mostra seu Ser como antes
e eu me desesperarei por ter esquecido! esquecido a volta ao meu destino,
para morrer disso —
O que é sagrado quando a Coisa é todo o universo?
rasteja em cada alma como um órgão de vampiro cantando
atrás das nuvens iluminadas pela lua —
pobre criatura vem agachada
sob as estrelas barbudas num campo negro no Peru
para depositar minha carga —morrerei de horror de morrer!
Nem diques nem pirâmides, mas a morte, e devemos nos preparar para essa
nudez, pobres ossos sugados até ressecarem por Sua longa boca
de formigas e vento, & nossas almas assassinadaspara preparar Sua Perfeição!
O momento chegou, Ele fez Sua vontade ser revelada para sempre
e nenhuma fuga para o velho Ser além das estrelas não irá
chegar ao mesmo escuro porto oscilante
de insuportável música
Nenhum refúgio no Eu, que está em chamas
nem no Mundo que também é Seu para ser
bombardeado & Devorado!
Reconhece Seu poder! Larga
minhas mãos —minha atemorizada caveira
— pois eu havia escolhido a auto-estima —
meus olhos, meu nariz, minha cara, meu caralho,
minha alma —e agora
o Destruidor sem cara!
Um bilhão de portas para o mesmo novo ser!
O universo vira-se pelo avesso para devorar-me!
e a poderosa irrupção de música sai para fora da porta desumana —
1960
986
Affonso Romano de Sant'Anna
Se É Paixão, Me Nego
Se é paixão, me nego.
Já resvalei, a alma em pelo
nesse áspero despenhadeiro.
Se é paixão, não quero.
Conheço seus espinhos de mel,
sei aonde conduz
embora prometa os céus.
Se é paixão, desculpe-me, não posso
conheço suas insônias
e a obsessão.
Se é paixão me vou, não devo,
não adiantam teus apelos.
Resistirei, porque aí
morri mil vezes.
Paixão é arma de três gumes,
ao seu corte estou imune.
Se é paixão me nego
e não receio que me acuses
de medo. Do desvario
conheço todos os segredos.
Se é paixão recuso-me
e sinto muito,
pois foi há custo
que saí do labirinto.
Já resvalei, a alma em pelo
nesse áspero despenhadeiro.
Se é paixão, não quero.
Conheço seus espinhos de mel,
sei aonde conduz
embora prometa os céus.
Se é paixão, desculpe-me, não posso
conheço suas insônias
e a obsessão.
Se é paixão me vou, não devo,
não adiantam teus apelos.
Resistirei, porque aí
morri mil vezes.
Paixão é arma de três gumes,
ao seu corte estou imune.
Se é paixão me nego
e não receio que me acuses
de medo. Do desvario
conheço todos os segredos.
Se é paixão recuso-me
e sinto muito,
pois foi há custo
que saí do labirinto.
1 211
Affonso Romano de Sant'Anna
Procura Antiga
Perdi qualquer coisa ali
entre o século onze ou dezesseis, não sei.
Qualquer coisa entre aqueles reis e servos
qualquer coisa entre a nobreza e os parvos
comensais à mesa
qualquer coisa entre as pedras de Siena
e as pernas das princesas de Viena.
Por isto procuro procuro procuro
entre
quadros portulanos estatuetas tapetes pianos
porcelanas cristais
e enternecidas madonas
como a cinderela o seu sapato perdido
na meia-noite da festa
e o maestro a semifusa confusa
que caiu no fosso da orquestra.
Procuro algo nas gretas
dos monumentos no musgo
do sofrimento no desejo
dos conventos e traças
dos documentos.
O que procuro não sei. Mas sei
que essa procura
me organiza o sofrimento.
entre o século onze ou dezesseis, não sei.
Qualquer coisa entre aqueles reis e servos
qualquer coisa entre a nobreza e os parvos
comensais à mesa
qualquer coisa entre as pedras de Siena
e as pernas das princesas de Viena.
Por isto procuro procuro procuro
entre
quadros portulanos estatuetas tapetes pianos
porcelanas cristais
e enternecidas madonas
como a cinderela o seu sapato perdido
na meia-noite da festa
e o maestro a semifusa confusa
que caiu no fosso da orquestra.
Procuro algo nas gretas
dos monumentos no musgo
do sofrimento no desejo
dos conventos e traças
dos documentos.
O que procuro não sei. Mas sei
que essa procura
me organiza o sofrimento.
1 067
Affonso Romano de Sant'Anna
O Deus de Santa Fina
Santa Fina, aos 10 anos, doente,
se meteu num catre
e morreu de paixão pelo Senhor.
Depois de morta, fez milagres
e os fiéis, por isto, vêm à igreja em seu louvor.
– Por que Deus tem que matar
uma menina de 10 anos
para nos mostrar seu amor?
se meteu num catre
e morreu de paixão pelo Senhor.
Depois de morta, fez milagres
e os fiéis, por isto, vêm à igreja em seu louvor.
– Por que Deus tem que matar
uma menina de 10 anos
para nos mostrar seu amor?
1 192
Affonso Romano de Sant'Anna
Ansiedade, 1983
Eu vi um homem
matar um animal
e ninguém o defendeu.
Eu vi um homem
matar outro homem
e ninguém o defendeu.
Eu vi um povo
exterminar outro povo
e ninguém o defendeu.
Prevejo homens
destruindo o mundo inteiro
e ninguém para detê-los.
Ninguém.
Nem você nem eu.
Nem Deus.
matar um animal
e ninguém o defendeu.
Eu vi um homem
matar outro homem
e ninguém o defendeu.
Eu vi um povo
exterminar outro povo
e ninguém o defendeu.
Prevejo homens
destruindo o mundo inteiro
e ninguém para detê-los.
Ninguém.
Nem você nem eu.
Nem Deus.
1 105