Poemas neste tema
Família
Martha Medeiros
vestidos muito longos e justos incomodam
vestidos muito longos e justos incomodam
o beijo dos galãs não tem sabor
e Hollywood fica longe demais
do meu supermercado favorito
ser bela e calma, quanta inutilidade
mais vale um bom olhar profundo
e uma vida de verdade
dois filhos de cabeça boa
um marido bem tarado
uma empregada chamada Maria
cinema de mãos dadas
um salário legal no fim do mês
aquela viagem marcada
novela, trânsito, profissão
sexo, banho morno, musse de limão
me corrijam se eu estiver errada
a realidade é nossa maior fantasia
o beijo dos galãs não tem sabor
e Hollywood fica longe demais
do meu supermercado favorito
ser bela e calma, quanta inutilidade
mais vale um bom olhar profundo
e uma vida de verdade
dois filhos de cabeça boa
um marido bem tarado
uma empregada chamada Maria
cinema de mãos dadas
um salário legal no fim do mês
aquela viagem marcada
novela, trânsito, profissão
sexo, banho morno, musse de limão
me corrijam se eu estiver errada
a realidade é nossa maior fantasia
697
Martha Medeiros
minha bisavó reclamava que minha avó
minha bisavó reclamava que minha avó
era muito tímida
minha avó pressionou minha mãe a ser
menos cética
minha mãe me educou para ser bem lúcida
e eu espero que minhas filhas fujam desse
cárcere
que é passar a vida transferindo dívidas
era muito tímida
minha avó pressionou minha mãe a ser
menos cética
minha mãe me educou para ser bem lúcida
e eu espero que minhas filhas fujam desse
cárcere
que é passar a vida transferindo dívidas
1 647
Martha Medeiros
aventura não é escalar montanhas
aventura não é escalar montanhas
não é atravessar desertos
não é preciso bravura
aventura não é saltar de avião
não é descer cachoeira
não é preciso tontura
aventura não é comer bicho vivo
não é beber aguardente
não é preciso angustura
aventura não é morar em castelo
não é correr de ferrari
não é preciso frescura
aventura é tudo o que faz
uma pessoa tornar-se capaz
de abrir mão da loucura
aventura é ser mãe e pai
não é atravessar desertos
não é preciso bravura
aventura não é saltar de avião
não é descer cachoeira
não é preciso tontura
aventura não é comer bicho vivo
não é beber aguardente
não é preciso angustura
aventura não é morar em castelo
não é correr de ferrari
não é preciso frescura
aventura é tudo o que faz
uma pessoa tornar-se capaz
de abrir mão da loucura
aventura é ser mãe e pai
1 570
Martha Medeiros
habito um castelo que cabe
habito um castelo que cabe
na página dupla de uma revista semanal
não tem piscina nem árvores centenárias
mas tem eu cozinhando um espagueti
ele experimentando outro tempero
e nossa filha encantada nos provando
tem uma cortina que se abre
e deixa entrar o sol de fevereiro
tem um tapete que compramos outro dia
uma garagem entulhada de bagulhos
e nossa filha cantando no chuveiro
habitamos um castelo de verdade
que fica entre uma casa e uma igreja
não temos uma pia de granito
nem um lustre imitando os de Versailles
mas tem eu experimentando uma camisa
ele servindo outra fatia
e nossa filha alinhavando esse segredo
na página dupla de uma revista semanal
não tem piscina nem árvores centenárias
mas tem eu cozinhando um espagueti
ele experimentando outro tempero
e nossa filha encantada nos provando
tem uma cortina que se abre
e deixa entrar o sol de fevereiro
tem um tapete que compramos outro dia
uma garagem entulhada de bagulhos
e nossa filha cantando no chuveiro
habitamos um castelo de verdade
que fica entre uma casa e uma igreja
não temos uma pia de granito
nem um lustre imitando os de Versailles
mas tem eu experimentando uma camisa
ele servindo outra fatia
e nossa filha alinhavando esse segredo
1 147
Martha Medeiros
tão urbana
tão urbana
de repente me falando
de galinhas, porcos, cavalos
fogos e figueiras
do ritual dos bois
no velório dos cachorros
no leite fresco
nas estrelas e nas primas
nos banquetes lá de fora
no frio, no vento
na emoção da natureza
andarilha
criança e nostálgica
romântica
verdadeira e surpreendente
minha mãe
de repente me falando
de galinhas, porcos, cavalos
fogos e figueiras
do ritual dos bois
no velório dos cachorros
no leite fresco
nas estrelas e nas primas
nos banquetes lá de fora
no frio, no vento
na emoção da natureza
andarilha
criança e nostálgica
romântica
verdadeira e surpreendente
minha mãe
659
Martha Medeiros
você pra lá com seus cachorros
você pra lá com seus cachorros
sua insônia de madrugada
sua mania de roer as unhas
suas brigas pelo telefone
e seus acessos de fúria e nostalgia
eu pra cá com minhas doses de uísque
meus porta-retratos, meus diários
minha luz acesa até tarde
minha tosse e meus suspiros
meu amor e loucura, minha alergia
você pra lá com seus sonhos de cowboy
com suas entranhas, sua família
eu pra cá com minhas filhas
meus desmaios e suor
você pra lá
eu pra cá
enfim, sós
sua insônia de madrugada
sua mania de roer as unhas
suas brigas pelo telefone
e seus acessos de fúria e nostalgia
eu pra cá com minhas doses de uísque
meus porta-retratos, meus diários
minha luz acesa até tarde
minha tosse e meus suspiros
meu amor e loucura, minha alergia
você pra lá com seus sonhos de cowboy
com suas entranhas, sua família
eu pra cá com minhas filhas
meus desmaios e suor
você pra lá
eu pra cá
enfim, sós
1 244
Sophia de Mello Breyner Andresen
Electra
Os muros da casa dos Manon escorrem sangue
E as árvores do jardim escorrem lágrimas.
O lago busca em vão o reflexo antigo duma infância
Que se tornou homens, mulheres, ódios e armas.
Numa janela aparecem duas mãos torcidas
E nos corredores ressoam as palavras
Da traição, da náusea, da mentira
E o tempo vestido de verde senta-se nas salas.
O rosto de Electra é absurdo.
Ninguém o pediu e não pertence ao jogo.
As suas mãos vingadoras destoam na conversa
Assustam a penumbra e ofendem o pecado.
E as árvores do jardim escorrem lágrimas.
O lago busca em vão o reflexo antigo duma infância
Que se tornou homens, mulheres, ódios e armas.
Numa janela aparecem duas mãos torcidas
E nos corredores ressoam as palavras
Da traição, da náusea, da mentira
E o tempo vestido de verde senta-se nas salas.
O rosto de Electra é absurdo.
Ninguém o pediu e não pertence ao jogo.
As suas mãos vingadoras destoam na conversa
Assustam a penumbra e ofendem o pecado.
1 403
Sophia de Mello Breyner Andresen
Velório Rico
O morto está sinistro e amortalhado
Rodeado de herdeiros inquietos como sombras
Que atormentam o ar com seus pecados
Rodeado de herdeiros inquietos como sombras
Que atormentam o ar com seus pecados
1 324
Adélia Prado
Uma Pergunta
Vede como nossos filhos nos olham,
como nos lançam em rosto
uma conta que ignorávamos.
Não cariciosos, convertem em pura dor
a paixão que os gerou.
Por qual ilusão poderosa
nos veem assim tão maus,
a nós que, tal como eles,
buscamos a mesma mãe,
concha blindada a salvo de predadores.
como nos lançam em rosto
uma conta que ignorávamos.
Não cariciosos, convertem em pura dor
a paixão que os gerou.
Por qual ilusão poderosa
nos veem assim tão maus,
a nós que, tal como eles,
buscamos a mesma mãe,
concha blindada a salvo de predadores.
1 104
Adélia Prado
Sacramental
É um modo de expiação a que nada escapa,
a árvore seca, o padre cansado
tomando comprimidos pra dormir,
a esforçada alegria de quem não sabe que é triste.
Vidas a meu encargo, interpoladas de excesso, falhas
por onde altissonante o vozerio dos mortos nos avisa.
Mas no grande Bazar ninguém escuta,
a semijoia, a missa temática
falam a mesma língua e têm o mesmo preço
do ‘Concurso de miss pra criancinhas’.
Dia após dia,
o homem cuidou de sua irmã enferma
e no dia em que ela morreu foi à cozinha
como sempre fazia àquela hora da tarde
e tomou duas cervejas.
Não pegou em armas contra o aguilhão da morte.
Ó Deus, perdoai-me o equivocado zelo em Vos servir,
o não tomar cerveja por orgulho
de ser a mãe perfeita dos viventes.
a árvore seca, o padre cansado
tomando comprimidos pra dormir,
a esforçada alegria de quem não sabe que é triste.
Vidas a meu encargo, interpoladas de excesso, falhas
por onde altissonante o vozerio dos mortos nos avisa.
Mas no grande Bazar ninguém escuta,
a semijoia, a missa temática
falam a mesma língua e têm o mesmo preço
do ‘Concurso de miss pra criancinhas’.
Dia após dia,
o homem cuidou de sua irmã enferma
e no dia em que ela morreu foi à cozinha
como sempre fazia àquela hora da tarde
e tomou duas cervejas.
Não pegou em armas contra o aguilhão da morte.
Ó Deus, perdoai-me o equivocado zelo em Vos servir,
o não tomar cerveja por orgulho
de ser a mãe perfeita dos viventes.
1 294
Adélia Prado
Capela Sistina
Expropriando a palavra
do ‘r’ impossível à sua língua gentia,
o padre falava perturbado de pânico:
‘Eternidade! Palavra horível! Preparai-vos!’
Circundava-o e a nós no apertado redil
a própria mão de Deus.
Então o que fazer com pastos,
grinalda de nuvens sobre os morros,
neblina criando abismos,
inefáveis belezas entre véus?
Que palavras escuras eram aquelas
sopesadas de raios?
Eternidade? E a relva?
E repousar nela sem interdições,
sem ninguém me gritar: ô preguiçosa.
Céu de estrelas, sustos novos,
calores bons e esquisitos à vista de meninos.
As axilas da mãe me protegiam,
virtuoso amuleto o cinto com que o pai me batia.
Eles não iam morrer.
Estávamos seguros contra Deus e a eternidade horrível.
Até que dormiram pela última vez
e pela primeira vez eu fiquei velha.
Minha casamata agora,
as axilas do Deus de Michelangelo,
profundas, musculosas, bravas,
abundantes do suor de quem trabalha duro.
— Uma doutrina severa faz sofrer,
mas a ninguém perderá se for doutrina bela.
do ‘r’ impossível à sua língua gentia,
o padre falava perturbado de pânico:
‘Eternidade! Palavra horível! Preparai-vos!’
Circundava-o e a nós no apertado redil
a própria mão de Deus.
Então o que fazer com pastos,
grinalda de nuvens sobre os morros,
neblina criando abismos,
inefáveis belezas entre véus?
Que palavras escuras eram aquelas
sopesadas de raios?
Eternidade? E a relva?
E repousar nela sem interdições,
sem ninguém me gritar: ô preguiçosa.
Céu de estrelas, sustos novos,
calores bons e esquisitos à vista de meninos.
As axilas da mãe me protegiam,
virtuoso amuleto o cinto com que o pai me batia.
Eles não iam morrer.
Estávamos seguros contra Deus e a eternidade horrível.
Até que dormiram pela última vez
e pela primeira vez eu fiquei velha.
Minha casamata agora,
as axilas do Deus de Michelangelo,
profundas, musculosas, bravas,
abundantes do suor de quem trabalha duro.
— Uma doutrina severa faz sofrer,
mas a ninguém perderá se for doutrina bela.
838
Adélia Prado
Contramor
O amor tomava a carne das horas
e sentava-se entre nós.
Era ele mesmo a cadeira, o ar, o tom da voz:
Você gosta mesmo de mim?
Entre pergunta e resposta, vi o dedo,
o meu, este que, dentro de minha mãe,
a expensas dela formou-se
e sem ter aonde ir fica comigo,
serviçal e carente.
Onde estás agora?
Sou-lhe tão grata, mãe,
sinto tanta saudade da senhora...
Fiz-lhe uma pergunta simples, disse o noivo.
Por que esse choro agora?
e sentava-se entre nós.
Era ele mesmo a cadeira, o ar, o tom da voz:
Você gosta mesmo de mim?
Entre pergunta e resposta, vi o dedo,
o meu, este que, dentro de minha mãe,
a expensas dela formou-se
e sem ter aonde ir fica comigo,
serviçal e carente.
Onde estás agora?
Sou-lhe tão grata, mãe,
sinto tanta saudade da senhora...
Fiz-lhe uma pergunta simples, disse o noivo.
Por que esse choro agora?
1 189
Adélia Prado
A Que Não Existe
Meus pais morreram,
posso conferir na lápide,
nome, data e a inscrição: SAUDADES!
Não me consolo dizendo
‘em minha lembrança permanecem vivos’,
é pouco, é fraco, frustrante como o cometa
que ninguém viu passar.
De qualquer língua, a elementar gramática
declina e conjuga o tempo,
nos serve a vida em fatias,
a eternidade em postas.
Daí acharmos que se findam as coisas,
os espessos cabelos, os quase verdes olhos.
O que chamamos morte
é máscara do que não há.
Pois apenas repousa
o que não pulsa mais.
posso conferir na lápide,
nome, data e a inscrição: SAUDADES!
Não me consolo dizendo
‘em minha lembrança permanecem vivos’,
é pouco, é fraco, frustrante como o cometa
que ninguém viu passar.
De qualquer língua, a elementar gramática
declina e conjuga o tempo,
nos serve a vida em fatias,
a eternidade em postas.
Daí acharmos que se findam as coisas,
os espessos cabelos, os quase verdes olhos.
O que chamamos morte
é máscara do que não há.
Pois apenas repousa
o que não pulsa mais.
1 185
Adélia Prado
Expiatório
Meus ancestrais levantam-se das tumbas,
tiram o dia pra me flagelar.
O que tinha apego a moedas,
a que morreu num parto de trigêmeos,
tão pobre,
mal coube no casebre seu caixão.
Minha mãe a minutos da morte me ordenou profética:
‘Vai calçar um trem,
agora mesmo a casa enche de gente.’
Urge consolar os mortos,
fazer por eles a oferenda da tarde
para que voltem, espectros, às suas tumbas
e chegando a noite
me permitam dormir.
tiram o dia pra me flagelar.
O que tinha apego a moedas,
a que morreu num parto de trigêmeos,
tão pobre,
mal coube no casebre seu caixão.
Minha mãe a minutos da morte me ordenou profética:
‘Vai calçar um trem,
agora mesmo a casa enche de gente.’
Urge consolar os mortos,
fazer por eles a oferenda da tarde
para que voltem, espectros, às suas tumbas
e chegando a noite
me permitam dormir.
727
Adélia Prado
Aqui, Tão Longe
Neste bairro pobre todos têm um real
para comprar as frutas
do caminhão de São Paulo.
Homens não pagam às mulheres.
Todas da vida, dão de comer e comem
coisas, de si, agradecidas.
Só morrem os muito velhinhos
que pedem pra descansar.
Pais e mães vão-se às camas
pra fazerem seus filhinhos,
cadelas e cães à rua
fazerem seus cachorrinhos.
Ao crepúsculo me visita
essa memória dourada,
mentira meio existida,
verdade meio inventada.
O sol da tarde finando-se,
ao cheiro de lenha queimada
todos se vão à fogueira
dançar em volta das chamas
para um deus ainda sem nome,
um medo lhes protegendo,
um ritmo lhes ordenando,
jarro, caneca, bacia,
cama, coberta, desejo
que amanhã seja outro dia,
igual a este dia, igual,
igual a este dia, igual.
para comprar as frutas
do caminhão de São Paulo.
Homens não pagam às mulheres.
Todas da vida, dão de comer e comem
coisas, de si, agradecidas.
Só morrem os muito velhinhos
que pedem pra descansar.
Pais e mães vão-se às camas
pra fazerem seus filhinhos,
cadelas e cães à rua
fazerem seus cachorrinhos.
Ao crepúsculo me visita
essa memória dourada,
mentira meio existida,
verdade meio inventada.
O sol da tarde finando-se,
ao cheiro de lenha queimada
todos se vão à fogueira
dançar em volta das chamas
para um deus ainda sem nome,
um medo lhes protegendo,
um ritmo lhes ordenando,
jarro, caneca, bacia,
cama, coberta, desejo
que amanhã seja outro dia,
igual a este dia, igual,
igual a este dia, igual.
1 188
Adélia Prado
História Que Me Contaram
Vozes, lamparinas
e o cheiro de querosene da pobreza.
O órfão de um ano debatendo-se
choramingava no seu mar de fezes.
Deus está me mostrando o que será minha vida,
gemeu o viúvo,
arrepanhando o lençol por suas pontas.
Teve depois um sonho:
chegava em casa com uma nova mulher
e viu, da porteira, os filhos indo embora.
Ficou tão abalado, chorou tanto
que fez uma promessa: nunca mais casar-se.
Tinha beleza e fogo.
Mesmo sendo na história
me apaixonei pelo homem,
mesmo sem esperança.
e o cheiro de querosene da pobreza.
O órfão de um ano debatendo-se
choramingava no seu mar de fezes.
Deus está me mostrando o que será minha vida,
gemeu o viúvo,
arrepanhando o lençol por suas pontas.
Teve depois um sonho:
chegava em casa com uma nova mulher
e viu, da porteira, os filhos indo embora.
Ficou tão abalado, chorou tanto
que fez uma promessa: nunca mais casar-se.
Tinha beleza e fogo.
Mesmo sendo na história
me apaixonei pelo homem,
mesmo sem esperança.
1 101
Adélia Prado
A Escrivã Na Cozinha
Só Deus pode dar nome à obra completa
— de nossa vida, explico — mas sugiro
Ao meio-dia um rosal,
implica sol, calor, desejo de esponsais,
a mãe aflita com a festa,
pai orgulhoso de entregar sua filha
a moço tão escovado.
Nome é tão importante
quanto o jeito correto de se apresentar a entrevistas.
Melhor de barba feita e olho vivo,
ainda que por dentro
tenha a alma barbada e olhos de sono.
Sonhei com um forno desperdiçando calor,
eu querendo aproveitá-lo pra torrar amendoim
e um pau roliço em brasa.
Explodiria se me obrigassem a caminhar por ele.
Ninguém me tortura, pois desmaio antes.
A beleza transfixa,
as palavras cansam porque não alcançam,
e preciso de muitas pra dizer uma só.
Tão grande meu orgulho, parece mais
o de um ser divino em formação.
Neurônios não explicam nada.
Psicólogos só acertam se me ordenam:
Avia-te para sofrer — conselho pra distraídos —,
cristãos já sabem ao nascer
que este vale é de lágrimas.
— de nossa vida, explico — mas sugiro
Ao meio-dia um rosal,
implica sol, calor, desejo de esponsais,
a mãe aflita com a festa,
pai orgulhoso de entregar sua filha
a moço tão escovado.
Nome é tão importante
quanto o jeito correto de se apresentar a entrevistas.
Melhor de barba feita e olho vivo,
ainda que por dentro
tenha a alma barbada e olhos de sono.
Sonhei com um forno desperdiçando calor,
eu querendo aproveitá-lo pra torrar amendoim
e um pau roliço em brasa.
Explodiria se me obrigassem a caminhar por ele.
Ninguém me tortura, pois desmaio antes.
A beleza transfixa,
as palavras cansam porque não alcançam,
e preciso de muitas pra dizer uma só.
Tão grande meu orgulho, parece mais
o de um ser divino em formação.
Neurônios não explicam nada.
Psicólogos só acertam se me ordenam:
Avia-te para sofrer — conselho pra distraídos —,
cristãos já sabem ao nascer
que este vale é de lágrimas.
1 471
Adélia Prado
Abrasada
Só trinta anos tinha minha mãe
e já suspirava:
‘Por que não vai todo mundo pro convento?
Qualquer dia, ô cruz, estes peitinhos,
seus paninhos manchados...’
Por que me deixou órfã, minha mãe?
Apesar de seus olhos tristes
e sua boca selada,
vou me casar assim mesmo.
Só vai lhe doer agora
e não muito.
e já suspirava:
‘Por que não vai todo mundo pro convento?
Qualquer dia, ô cruz, estes peitinhos,
seus paninhos manchados...’
Por que me deixou órfã, minha mãe?
Apesar de seus olhos tristes
e sua boca selada,
vou me casar assim mesmo.
Só vai lhe doer agora
e não muito.
1 429
Adélia Prado
Mural
Recolhe do ninho os ovos
a mulher
nem jovem nem velha,
em estado de perfeito uso.
Não vem do sol indeciso
a claridade expandindo-se,
é dela que nasce a luz
de natureza velada,
seu próprio gosto
em ter uma família,
amar a aprazível rotina.
Ela não sabe que sabe,
a rotina perfeita é Deus:
as galinhas porão seus ovos,
ela porá sua saia,
a árvore a seu tempo
dará suas flores rosadas.
A mulher não sabe que reza:
que nada mude, Senhor.
a mulher
nem jovem nem velha,
em estado de perfeito uso.
Não vem do sol indeciso
a claridade expandindo-se,
é dela que nasce a luz
de natureza velada,
seu próprio gosto
em ter uma família,
amar a aprazível rotina.
Ela não sabe que sabe,
a rotina perfeita é Deus:
as galinhas porão seus ovos,
ela porá sua saia,
a árvore a seu tempo
dará suas flores rosadas.
A mulher não sabe que reza:
que nada mude, Senhor.
1 540
Adélia Prado
Vaso Noturno
À meia-noite, José dos Reis
— que namoro escondido —
vem fazer serenata para mim.
Papai tosse alto,
tropeça por querer nos urinóis.
Que vergonha, meu deus,
pai, cachorrinha plebeia,
couves na horta
geladas de orvalho e medo.
Me finjo de santa morta,
meu céu é gótico
e arde.
— que namoro escondido —
vem fazer serenata para mim.
Papai tosse alto,
tropeça por querer nos urinóis.
Que vergonha, meu deus,
pai, cachorrinha plebeia,
couves na horta
geladas de orvalho e medo.
Me finjo de santa morta,
meu céu é gótico
e arde.
1 257
Adélia Prado
A Boa Morte
Dona Dirce chorava a morte da filha
e com sincera dor o fazia,
estendendo a mão em direção ao café
que a irmã da morta servia.
Eu prestava atenção em Dona Dirce
que escutava Alzirinha, admirada:
...o médico me proibiu expressamente...
Alguém pôs a cara na porta procurando Dona Dirce:
A senhora sabe a placa da caminhonete do Artur?
Alzirinha não queria café, por motivo de regime,
era possível que Artur não fosse avisado a tempo.
A adolescente sardenta, visivelmente feliz,
chorava a morte da mãe.
Também eu quis chorar,
por diversos outros motivos,
mas era impossível ali,
celebrava-se a vida
sob as caras contritas,
sob os véus da morte,
mais que sete.
A cada desnudamento
ela própria cobria-se
visivelmente pra nos proteger:
Ninguém quer café mais não?
Modesta a morte, companheira,
nos consolando, quase da família.
Lucinda virou santa.
Não contei a ninguém,
pra não amolar a tristeza.
e com sincera dor o fazia,
estendendo a mão em direção ao café
que a irmã da morta servia.
Eu prestava atenção em Dona Dirce
que escutava Alzirinha, admirada:
...o médico me proibiu expressamente...
Alguém pôs a cara na porta procurando Dona Dirce:
A senhora sabe a placa da caminhonete do Artur?
Alzirinha não queria café, por motivo de regime,
era possível que Artur não fosse avisado a tempo.
A adolescente sardenta, visivelmente feliz,
chorava a morte da mãe.
Também eu quis chorar,
por diversos outros motivos,
mas era impossível ali,
celebrava-se a vida
sob as caras contritas,
sob os véus da morte,
mais que sete.
A cada desnudamento
ela própria cobria-se
visivelmente pra nos proteger:
Ninguém quer café mais não?
Modesta a morte, companheira,
nos consolando, quase da família.
Lucinda virou santa.
Não contei a ninguém,
pra não amolar a tristeza.
1 202
Adélia Prado
Bilhete da Ousada Donzela
Jonathan,
há nazistas desconfiados.
Põe aquela sua camisa que eu detesto
— comprada no Bazar Marrocos —
e venha como se fosse pra consertar meu chuveiro.
Aproveita na terça que meu pai vai com minha mãe
visitar tia Quita no Lajeado.
Se mudarem de ideia, mando novo bilhete.
Venha sem guarda-chuva — mesmo se estiver chovendo.
Não aguento mais tio Emílio que sabe e finge não saber
que te namoro escondido e vive te pondo apelidos.
O que você disse outro dia na festa dos pecuaristas
até hoje soa igual música tocando no meu ouvido:
‘não paro de pensar em você’.
Eu também, Natinho, nem um minuto.
Na terça, às duas da tarde,
hora em que se o mundo acabar
eu nem vejo.
Com aflição,
Antônia.
há nazistas desconfiados.
Põe aquela sua camisa que eu detesto
— comprada no Bazar Marrocos —
e venha como se fosse pra consertar meu chuveiro.
Aproveita na terça que meu pai vai com minha mãe
visitar tia Quita no Lajeado.
Se mudarem de ideia, mando novo bilhete.
Venha sem guarda-chuva — mesmo se estiver chovendo.
Não aguento mais tio Emílio que sabe e finge não saber
que te namoro escondido e vive te pondo apelidos.
O que você disse outro dia na festa dos pecuaristas
até hoje soa igual música tocando no meu ouvido:
‘não paro de pensar em você’.
Eu também, Natinho, nem um minuto.
Na terça, às duas da tarde,
hora em que se o mundo acabar
eu nem vejo.
Com aflição,
Antônia.
1 491
Adélia Prado
A Esfinge
Ofélia tem os cabelos tão pretos
como quando casou.
Teve nove filhos, sendo que
tirante um que é homossexual
e outro que mexe com drogas,
os outros vão levando no normal.
Só mudou o penteado e botou dentes.
Não perdeu a cintura, nem
aquele ar de ainda serei feliz,
inocente e malvada
na mesma medida que eu,
que insisto em entender
a vida de Ofélia e a minha.
Ainda hoje passou de calça comprida
a caminho da cidade.
Os manacás cheiravam
como se o mundo não fosse o que é.
Ora, direis. Ora digo eu. Ora, ora.
Não quero contar histórias,
porque história é excremento do tempo.
Queria dizer-lhes é que somos eternos,
eu, Ofélia e os manacás.
como quando casou.
Teve nove filhos, sendo que
tirante um que é homossexual
e outro que mexe com drogas,
os outros vão levando no normal.
Só mudou o penteado e botou dentes.
Não perdeu a cintura, nem
aquele ar de ainda serei feliz,
inocente e malvada
na mesma medida que eu,
que insisto em entender
a vida de Ofélia e a minha.
Ainda hoje passou de calça comprida
a caminho da cidade.
Os manacás cheiravam
como se o mundo não fosse o que é.
Ora, direis. Ora digo eu. Ora, ora.
Não quero contar histórias,
porque história é excremento do tempo.
Queria dizer-lhes é que somos eternos,
eu, Ofélia e os manacás.
1 587
Adélia Prado
As Seis Badaladas do Entardecer
Cantores populares no Brasil
fizeram fama e fortuna
cantando-lhe o doce encanto.
Pinhos plangeram,
mágoas rolaram, dolentes,
flores após langores
e até lívidas papoulas
estremeceram de frio nestes versos:
‘Como lívidas papoulas
são teus olhos lantejoulas.’
Envém a noite com seu negro manto,
restos de luz no poente,
também chamado ocaso
e mais lindamente crepúsculo,
na voz do cantor do rádio.
Papai já jantou faz tempo,
mamãe já morreu faz tempo,
faz tempo que estou aqui
fingindo fazer chalaça.
Papai olha o relógio:
‘6 horas já. Quem não fez não faz mais.’
Vermelhidões de incêndio,
os rostos meio pálidos fulguravam.
fizeram fama e fortuna
cantando-lhe o doce encanto.
Pinhos plangeram,
mágoas rolaram, dolentes,
flores após langores
e até lívidas papoulas
estremeceram de frio nestes versos:
‘Como lívidas papoulas
são teus olhos lantejoulas.’
Envém a noite com seu negro manto,
restos de luz no poente,
também chamado ocaso
e mais lindamente crepúsculo,
na voz do cantor do rádio.
Papai já jantou faz tempo,
mamãe já morreu faz tempo,
faz tempo que estou aqui
fingindo fazer chalaça.
Papai olha o relógio:
‘6 horas já. Quem não fez não faz mais.’
Vermelhidões de incêndio,
os rostos meio pálidos fulguravam.
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