Poemas neste tema
Felicidade e Alegria
António Ramos Rosa
A Palavra
Eleva-se entre a espuma, verde e cristalina
e a alegria aviva-se em redonda ressonância.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios.
Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.
O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano.
e a alegria aviva-se em redonda ressonância.
O seu olhar é um sonho porque é um sopro indivisível
que reconhece e inventa a pluralidade delicada.
Ao longe e ao perto o horizonte treme entre os seus cílios.
Ela encanta-se. Adere, coincide com o ser mesmo
da coisa nomeada. O rosto da terra se renova.
Ela aflui em círculos desagregando, construindo.
Um ouvido desperta no ouvido, uma língua na língua.
Sobre si enrola o anel nupcial do universo.
O gérmen amadurece no seu corpo nascente.
Nas palavras que diz pulsa o desejo do mundo.
Move-se aqui e agora entre contornos vivos.
Ignora, esquece, sabe, vive ao nível do universo.
Na sua simplicidade terrestre há um ardor soberano.
1 089
António Ramos Rosa
Onde Li Eu Os Amplos Caminhos
Onde li eu os amplos caminhos, os carros
de madeira perfumada, os bois obscuros,
os brancos cavalos? Onde li os jardins
das mulheres e dos pássaros nocturnos, dos sussurros
marinhos? Como se alguém tocasse suavemente as nuvens.
Como se alguém unisse num abraço ligeiro
o esquecimento e as formas, o negro interno
e a brancura exterior. Um planeta vibrava.
Não sei que dia foi, não sei que nome tinha,
era um jardim, ou talvez uma casa, o mar, um monte.
Tu preenchias o círculo completo, totalidade limpa.
Acordavas sorrindo em segurança clara.
Quantas arcadas brancas na tua dança viva!
Que maravilha despertar ou adormecer contigo!
Que intensa luz de sombra, que rotação imensa!
de madeira perfumada, os bois obscuros,
os brancos cavalos? Onde li os jardins
das mulheres e dos pássaros nocturnos, dos sussurros
marinhos? Como se alguém tocasse suavemente as nuvens.
Como se alguém unisse num abraço ligeiro
o esquecimento e as formas, o negro interno
e a brancura exterior. Um planeta vibrava.
Não sei que dia foi, não sei que nome tinha,
era um jardim, ou talvez uma casa, o mar, um monte.
Tu preenchias o círculo completo, totalidade limpa.
Acordavas sorrindo em segurança clara.
Quantas arcadas brancas na tua dança viva!
Que maravilha despertar ou adormecer contigo!
Que intensa luz de sombra, que rotação imensa!
893
António Ramos Rosa
Descoberta
Ela procura o sílex e a pura sombra sossegada.
Um aroma nasce entre os cabelos, entre as páginas.
A cabeça ligeira inclina-se para uma incerta música.
Escreve com o seu hálito entre a espuma fugidia.
Sente o mundo rodar sob os seus pés, pressente o espaço.
Amanhece nos ombros ou é o mar nos ombros
e quase está no cimo. Ouvem-se pássaros silvestres
na espessura do estio. A sua garganta acende-se.
Quase feliz, beijada, ela descobre o mundo.
Sente o corpo vivo no vento, como um arbusto leve.
Já não existe e existe, o seu segredo abriu-se inteiro
no espaço. É um corpo quase transparente
que canta porque encontrou o mar. Não clama, não grita.
Toda a sua alegria é o silêncio de uma pedra ardente.
À beira de água é uma nuvem que se levanta de si mesma.
Um aroma nasce entre os cabelos, entre as páginas.
A cabeça ligeira inclina-se para uma incerta música.
Escreve com o seu hálito entre a espuma fugidia.
Sente o mundo rodar sob os seus pés, pressente o espaço.
Amanhece nos ombros ou é o mar nos ombros
e quase está no cimo. Ouvem-se pássaros silvestres
na espessura do estio. A sua garganta acende-se.
Quase feliz, beijada, ela descobre o mundo.
Sente o corpo vivo no vento, como um arbusto leve.
Já não existe e existe, o seu segredo abriu-se inteiro
no espaço. É um corpo quase transparente
que canta porque encontrou o mar. Não clama, não grita.
Toda a sua alegria é o silêncio de uma pedra ardente.
À beira de água é uma nuvem que se levanta de si mesma.
1 094
António Ramos Rosa
Dança
Dançam ligeiras nas varandas leves,
a nudez é para elas o veludo da pele
onde passa o sono e a sombra circular.
A nostalgia acende-se. Dilata-se a alegria.
As palavras respiram, obedecem aos anéis.
Boca aberta para a vogal inicial
que tudo pronuncia e nunca é pronunciada.
Deusa mais nua do que a noite, dúctil e concêntrica
deusa que modelas a perfeita forma e a desfazes
em miríades de formas incessantes. Génese
oval em que a carícia lavra em branco igual
até ao horizonte. Então o nada fulge
num côncavo habitável de aquática verdura.
Apagam-se, acendem-se os vasos da visão.
Ilumina-se o sono longínquo da matéria.
a nudez é para elas o veludo da pele
onde passa o sono e a sombra circular.
A nostalgia acende-se. Dilata-se a alegria.
As palavras respiram, obedecem aos anéis.
Boca aberta para a vogal inicial
que tudo pronuncia e nunca é pronunciada.
Deusa mais nua do que a noite, dúctil e concêntrica
deusa que modelas a perfeita forma e a desfazes
em miríades de formas incessantes. Génese
oval em que a carícia lavra em branco igual
até ao horizonte. Então o nada fulge
num côncavo habitável de aquática verdura.
Apagam-se, acendem-se os vasos da visão.
Ilumina-se o sono longínquo da matéria.
1 090
António Ramos Rosa
Estendida Sobre a Idade
Estendida sobre a idade sente-se germinar
na solidão que está sendo até ao horizonte
pura virtualidade que ondula interminavelmente
no ardor feliz em que o pensamento limpa
de si o que não é timbre ou transparência ou água.
Consuma-se carregada de aromas e de ócio
tão por fora de si que a embriaga a terra
a que se enlaça na verdura intensa
ao encontrar cada vez muito mais perto
o longe a que aspirava em busca de si mesma.
Espraia-se em paz de ardente imensidade
o seu desejo é tempo espaço movimento.
Tudo é claro porque tudo o que a habita é campo livre
e um sono que vem da luz e da folhagem canta.
Irrigam-se os veios do verão e todo o azul é sítio.
na solidão que está sendo até ao horizonte
pura virtualidade que ondula interminavelmente
no ardor feliz em que o pensamento limpa
de si o que não é timbre ou transparência ou água.
Consuma-se carregada de aromas e de ócio
tão por fora de si que a embriaga a terra
a que se enlaça na verdura intensa
ao encontrar cada vez muito mais perto
o longe a que aspirava em busca de si mesma.
Espraia-se em paz de ardente imensidade
o seu desejo é tempo espaço movimento.
Tudo é claro porque tudo o que a habita é campo livre
e um sono que vem da luz e da folhagem canta.
Irrigam-se os veios do verão e todo o azul é sítio.
1 064
António Ramos Rosa
O Jardim
Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas,
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.
Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.
Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.
calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes.
Sequências de convergências e divergências,
ordem e dispersões, transparência de estruturas,
pausas de areia e de água, fábulas minúsculas.
Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.
Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.
1 298
António Ramos Rosa
No Centro da Aparência
Repousa no espaço de um olhar. O ar dança na rua.
Sombras e ruídos. As árvores têm uma idade clara.
Vagarosa persistência, a alguns metros do solo.
O enigma está vivo no centro da aparência.
Uma criança designa o mar. Alguém traz uma folha.
Alguém compreende a sede de uma pedra?
Quem estuda a felicidade? Quem define um jardim?
Que linguagem é a do espaço? O que é o sal da sombra?
Esquecemos a linguagem do vento e do vazio.
Nunca houve um encontro. Quando será o início?
Vejo a folhagem e os frutos da distância.
Olho longamente até ao cimo da ternura.
Vivo na luz extrema em todas as direcções.
O pequeno e o grande conjugam-se, consagram-se.
Canto na luz suave e bebo o espaço.
Sombras e ruídos. As árvores têm uma idade clara.
Vagarosa persistência, a alguns metros do solo.
O enigma está vivo no centro da aparência.
Uma criança designa o mar. Alguém traz uma folha.
Alguém compreende a sede de uma pedra?
Quem estuda a felicidade? Quem define um jardim?
Que linguagem é a do espaço? O que é o sal da sombra?
Esquecemos a linguagem do vento e do vazio.
Nunca houve um encontro. Quando será o início?
Vejo a folhagem e os frutos da distância.
Olho longamente até ao cimo da ternura.
Vivo na luz extrema em todas as direcções.
O pequeno e o grande conjugam-se, consagram-se.
Canto na luz suave e bebo o espaço.
1 010
António Ramos Rosa
Onde As Águas
Onde as águas se sublevam inesperadas, brancas
num prodigioso silêncio. É a visão mais viva,
a mais violenta e mais suave, quase imperceptível.
Respiramos o ar na incandescência calma.
A boca desliza sem verdades, livre nas evidências.
A luz é vagarosa, vemos como animais
através da água. As coisas têm a cor do sangue
ou da sombra. Cada forma difunde o seu silêncio.
Todos os corpos são formosos como criações repentinas.
Respiro na corola imensa todo o azul aberto.
Tanto azul, tanta brancura! Aqui é um templo
natural. Tudo pulsa num nítido tremor.
Corpo com um odor a terra, corpo desperto, alegre.
Os ombros inclinam-se ao rumor da confiança.
As bocas iluminam-se nas lúcidas colinas.
num prodigioso silêncio. É a visão mais viva,
a mais violenta e mais suave, quase imperceptível.
Respiramos o ar na incandescência calma.
A boca desliza sem verdades, livre nas evidências.
A luz é vagarosa, vemos como animais
através da água. As coisas têm a cor do sangue
ou da sombra. Cada forma difunde o seu silêncio.
Todos os corpos são formosos como criações repentinas.
Respiro na corola imensa todo o azul aberto.
Tanto azul, tanta brancura! Aqui é um templo
natural. Tudo pulsa num nítido tremor.
Corpo com um odor a terra, corpo desperto, alegre.
Os ombros inclinam-se ao rumor da confiança.
As bocas iluminam-se nas lúcidas colinas.
1 180
António Ramos Rosa
Vejo o Fogo
Vejo o fogo (os dedos e a sombra), vejo os caminhos,
a matéria das árvores. Bebo um rumor de abelhas.
Estou cego talvez, deslumbro-me, no deserto
sobre uma boca pura. Aqui durmo, aqui desenho
a felicidade da chama, as ondas e as pedras.
Na folhagem ascendo àquele poder intenso
que se deslumbra em delícia que roda até ao cimo.
O tempo doura o silêncio e a penumbra dos caminhos.
Entro por um país de minúcias transparentes.
Que é a distância agora? A perspectiva do gérmen.
Encontro-me no mundo, sou o ar que desce
alegre, o ar, o sol, o sangue. O corpo é tão feliz
que reina na extensão em transparência verde.
É o amor que bebe o fogo branco das colinas,
e que deslumbra e se deslumbra e acaricia e arde.
a matéria das árvores. Bebo um rumor de abelhas.
Estou cego talvez, deslumbro-me, no deserto
sobre uma boca pura. Aqui durmo, aqui desenho
a felicidade da chama, as ondas e as pedras.
Na folhagem ascendo àquele poder intenso
que se deslumbra em delícia que roda até ao cimo.
O tempo doura o silêncio e a penumbra dos caminhos.
Entro por um país de minúcias transparentes.
Que é a distância agora? A perspectiva do gérmen.
Encontro-me no mundo, sou o ar que desce
alegre, o ar, o sol, o sangue. O corpo é tão feliz
que reina na extensão em transparência verde.
É o amor que bebe o fogo branco das colinas,
e que deslumbra e se deslumbra e acaricia e arde.
995
António Ramos Rosa
Tangência No Centro
Até à terra, sem me inclinar, inclinando-me,
a cabeça idêntica ao solo circular,
lenta velocidade num fundo indefinido,
relação de folha e língua e pedra e água
e ar, leve tangência de um imenso sopro.
Cheguei a um silencioso, a um suave centro.
Desperto um fogo errante em minúsculas crateras.
Estou isolado, aberto a uma vida repentina.
A minha boca é incestuosa, os meus lábios verdes.
Há vozes submersas, há palavras que requerem
a visão das pálpebras. Sinto-me ligeiro
como um pequeno peixe, uma coisa vagarosa.
Feliz, feliz, na frescura das veias, nos músculos libertos.
Ouço as flores bebendo luz, ouço o esplendor
absoluto. Como saberei cantar no grande círculo móvel?
Lugar de aroma e claridade e de palavras,
o ar e a água e o fogo, o murmúrio essencial.
A primavera ascende com uma leveza de sílaba.
Tudo oscila em hastes e flores e folhas.
Suave fulguração de horizonte a horizonte.
a cabeça idêntica ao solo circular,
lenta velocidade num fundo indefinido,
relação de folha e língua e pedra e água
e ar, leve tangência de um imenso sopro.
Cheguei a um silencioso, a um suave centro.
Desperto um fogo errante em minúsculas crateras.
Estou isolado, aberto a uma vida repentina.
A minha boca é incestuosa, os meus lábios verdes.
Há vozes submersas, há palavras que requerem
a visão das pálpebras. Sinto-me ligeiro
como um pequeno peixe, uma coisa vagarosa.
Feliz, feliz, na frescura das veias, nos músculos libertos.
Ouço as flores bebendo luz, ouço o esplendor
absoluto. Como saberei cantar no grande círculo móvel?
Lugar de aroma e claridade e de palavras,
o ar e a água e o fogo, o murmúrio essencial.
A primavera ascende com uma leveza de sílaba.
Tudo oscila em hastes e flores e folhas.
Suave fulguração de horizonte a horizonte.
1 030
António Ramos Rosa
Mediadora do Acaso
Nua, no acaso,
táctil, leve,
fácil, viva.
Júbilo cristalino,
hipérboles. Dançam
nas veias, diluem-se,
amanhecem.
Nomes do excesso
subtil, conciso.
Pleonasmos
do corpo
impenetrável.
táctil, leve,
fácil, viva.
Júbilo cristalino,
hipérboles. Dançam
nas veias, diluem-se,
amanhecem.
Nomes do excesso
subtil, conciso.
Pleonasmos
do corpo
impenetrável.
1 074
António Ramos Rosa
Mediadora do Dia
Sai do ventre da sombra,
de sonâmbulas nuvens.
A alma está no ar,
nas luminosas grutas,
nas brancas estridências.
Seus frutos de alegria,
suas alvas corolas
sobre a mesa do sol.
No acaso do ar vago
os nascimentos minúsculos,
efervescências, miríades,
as grandes áreas serenas.
Tudo é excesso e delícia,
evidências e acordes
num harmonioso tumulto.
Altos terraços da luz.
Frescor unânime, triunfo
de um confiante naufrágio
entre colinas e praias
em avidez fulgurante.
Figuras e figuras
nascem no imponderável.
Volúveis, frágeis
em galerias cálidas.
Ilhas, quantas ilhas
de felicidade viva,
tão verdes e claras,
selvagens, delicadas.
O corpo, só o corpo
é alma imediata.
Que maravilha total
na volúpia do ar!
de sonâmbulas nuvens.
A alma está no ar,
nas luminosas grutas,
nas brancas estridências.
Seus frutos de alegria,
suas alvas corolas
sobre a mesa do sol.
No acaso do ar vago
os nascimentos minúsculos,
efervescências, miríades,
as grandes áreas serenas.
Tudo é excesso e delícia,
evidências e acordes
num harmonioso tumulto.
Altos terraços da luz.
Frescor unânime, triunfo
de um confiante naufrágio
entre colinas e praias
em avidez fulgurante.
Figuras e figuras
nascem no imponderável.
Volúveis, frágeis
em galerias cálidas.
Ilhas, quantas ilhas
de felicidade viva,
tão verdes e claras,
selvagens, delicadas.
O corpo, só o corpo
é alma imediata.
Que maravilha total
na volúpia do ar!
1 007
António Ramos Rosa
Mediadora do Vento
Ligeira sobre o dia
ao som dos jogos,
desliza com o vento
num encantado gozo.
Pelas praias do ar
difunde-se em prodígios.
Tudo é acaso leve,
tudo é prodígio simples.
Pequena e magnífica
no seu amor volante
propaga sem destino
surpresas e carícias.
Pátria, só a do vento
de tão subtil e viva.
Azul, sempre azul
em completa alegria.
ao som dos jogos,
desliza com o vento
num encantado gozo.
Pelas praias do ar
difunde-se em prodígios.
Tudo é acaso leve,
tudo é prodígio simples.
Pequena e magnífica
no seu amor volante
propaga sem destino
surpresas e carícias.
Pátria, só a do vento
de tão subtil e viva.
Azul, sempre azul
em completa alegria.
920
António Ramos Rosa
Mediadora do Princípio
Na primeira porta a primeira página.
Respiram escadas numa elipse frágil.
A mão é cega. As sombras esvaziam-se.
Escreve-se na pele de um planeta incerto.
Urgência de sílabas e de lábios.
Urgência de um fulgor, de uma matéria lúcida.
Alegria limpa. Lábios, lábios
sem ecos nem sombras, puríssimos, actuais.
O coração ascende. O pulso de um rio
freme. A folhagem acende-se.
Areia e sangue. Pedras ou pássaros.
Palavras de uma áspera primavera.
Respiram escadas numa elipse frágil.
A mão é cega. As sombras esvaziam-se.
Escreve-se na pele de um planeta incerto.
Urgência de sílabas e de lábios.
Urgência de um fulgor, de uma matéria lúcida.
Alegria limpa. Lábios, lábios
sem ecos nem sombras, puríssimos, actuais.
O coração ascende. O pulso de um rio
freme. A folhagem acende-se.
Areia e sangue. Pedras ou pássaros.
Palavras de uma áspera primavera.
1 086
António Ramos Rosa
Mediadora do Espaço
Dedos abertos ao sopro,
imensamente terrestre,
clara desordem ao vento.
Descalça, muda os caminhos
na viva avidez do ar.
Abre um mundo inesperado
que se propaga num arco.
Perfuma as formas, aflora.
Alma instantânea, dilata
e levanta, sol na água,
água de sol, livre, livre,
como um lúcido relâmpago.
Feliz energia de nada
faz a casa por viver
musical na coincidência
de com o espaço o secreto.
Quantos vales em seu corpo
de campo azul e silêncio!
Ó contínua suavidade
tão imediata e profusa!
Que frescura de distância
tão real e oferecida!
Fúria fresca de estar viva.
O sim total do presente.
imensamente terrestre,
clara desordem ao vento.
Descalça, muda os caminhos
na viva avidez do ar.
Abre um mundo inesperado
que se propaga num arco.
Perfuma as formas, aflora.
Alma instantânea, dilata
e levanta, sol na água,
água de sol, livre, livre,
como um lúcido relâmpago.
Feliz energia de nada
faz a casa por viver
musical na coincidência
de com o espaço o secreto.
Quantos vales em seu corpo
de campo azul e silêncio!
Ó contínua suavidade
tão imediata e profusa!
Que frescura de distância
tão real e oferecida!
Fúria fresca de estar viva.
O sim total do presente.
542
António Ramos Rosa
O Lugar
Alegria na madeira na claridade do ritmo
ímpeto redondo livremente circulando
aqui nas pedras e na língua e nos olhos
música do espaço terrível e feliz
perfeita confiança que se eleva em chamas
Tudo é liso tudo é vazio ou lúcido
Nenhuma agitação distrai a imóvel luz
O teu nome silencioso encanta-me os ouvidos
Vibram ao vento as surpresas simples
Estamos no lugar que não é uma miragem
O jardim junto à torre a claridade azul
A água treme no umbigo de uma pedra
Entramos na imobilidade de uma melodia nua.
ímpeto redondo livremente circulando
aqui nas pedras e na língua e nos olhos
música do espaço terrível e feliz
perfeita confiança que se eleva em chamas
Tudo é liso tudo é vazio ou lúcido
Nenhuma agitação distrai a imóvel luz
O teu nome silencioso encanta-me os ouvidos
Vibram ao vento as surpresas simples
Estamos no lugar que não é uma miragem
O jardim junto à torre a claridade azul
A água treme no umbigo de uma pedra
Entramos na imobilidade de uma melodia nua.
1 131
António Ramos Rosa
Mediadora da Coincidência Nupcial
Conheço a flora do seu corpo
e a sua cabeleira cintilante.
Dorme sob as axilas da água.
Nos seus olhos cintilam coincidências.
Claro apogeu de dança horizontal.
Evidência e enigma imediato.
Um sabor inesgotável, o mundo num só arco.
Oferta, já não promessa, lâmpada profunda.
Veemência de cimo à superfície,
pele e palavra, pálpebras e pétalas.
Um tumulto acende-se em relâmpagos de água.
Aflui a harmonia na violência calma.
Júbilo no vento, alegres coincidências
no movimento azul. Livre insensatez
de gestos nupciais. Frescura transparente.
Inocência absoluta.
e a sua cabeleira cintilante.
Dorme sob as axilas da água.
Nos seus olhos cintilam coincidências.
Claro apogeu de dança horizontal.
Evidência e enigma imediato.
Um sabor inesgotável, o mundo num só arco.
Oferta, já não promessa, lâmpada profunda.
Veemência de cimo à superfície,
pele e palavra, pálpebras e pétalas.
Um tumulto acende-se em relâmpagos de água.
Aflui a harmonia na violência calma.
Júbilo no vento, alegres coincidências
no movimento azul. Livre insensatez
de gestos nupciais. Frescura transparente.
Inocência absoluta.
1 067
António Ramos Rosa
Mediadora do Real
Suavidade e tumulto.
Aroma da nudez.
Luz redonda, luz delícia
de evidência.
Prodígio da terra, grande
enlace
de imediatas moradas
confiantes.
Profusa maravilha, o centro
abriu-se.
Júbilo da nudez. Delírio fulvo.
A alegria lê a fábula real.
Aroma da nudez.
Luz redonda, luz delícia
de evidência.
Prodígio da terra, grande
enlace
de imediatas moradas
confiantes.
Profusa maravilha, o centro
abriu-se.
Júbilo da nudez. Delírio fulvo.
A alegria lê a fábula real.
1 220
António Ramos Rosa
Mediadora Terrestre
A sua língua é um jovem animal.
O seu sono um fruto transparente.
Uma criança vive sobre os ombros.
Ó evidência de fábula terrestre!
Alegria branca. Solidão verde.
Vagar feliz. Vendaval claríssimo.
Maravilha contínua. Juventude
das pedras. Aliança intacta.
O seu sono um fruto transparente.
Uma criança vive sobre os ombros.
Ó evidência de fábula terrestre!
Alegria branca. Solidão verde.
Vagar feliz. Vendaval claríssimo.
Maravilha contínua. Juventude
das pedras. Aliança intacta.
1 002
António Ramos Rosa
Mediadora Negra Iii
Germina ainda um desenho
de alegria? Quem ouve as densas
raízes, as constelações
do pólen?
de alegria? Quem ouve as densas
raízes, as constelações
do pólen?
1 028
António Ramos Rosa
Mediadora Dos Dias
Cada página um dia
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas
do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.
Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.
No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.
Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.
na alegria simples
de um jogo. Cada átrio
um grito. Pequenas chamas
do mar. Feliz sombra,
rumor de rio, silêncio
claro. Transparência.
Sabor do desejo salvo.
Respira a lâmpada
frágil. Tempo: repouso
na água. Vogais
entre os veios do sono.
No rumor dos frutos
simples, a plenitude
de estar. Vertentes
onde o silêncio aflui.
Colinas. Águas
de um tranquilo fulgor.
Pedras cintilam, sílabas
num mundo aéreo.
992
António Ramos Rosa
Ao Vento Leve do Sol
Ao vento leve do sol
num verde e fresco entusiasmo
propagando o antes em nova agilidade
no esplendor da espiral levíssima.
num verde e fresco entusiasmo
propagando o antes em nova agilidade
no esplendor da espiral levíssima.
1 057
António Ramos Rosa
Meditar a Pausa do Acaso Feliz
Meditar a pausa do acaso feliz.
Uma ordem dócil, subterrânea, fiel.
As formas ondulam na morada simples.
Uma efusão nasce do emergir de um mundo.
Uma ordem dócil, subterrânea, fiel.
As formas ondulam na morada simples.
Uma efusão nasce do emergir de um mundo.
977
António Ramos Rosa
Uma Felicidade Nos Dedos
Uma felicidade nos dedos
um fluir cálido o sol
captado no repouso sobre a mesa
e escrito aqui um sol tão rápido
Nada se separa sob os dedos
ignorantes da divisão do vidro
E se o pássaro fica
sem o canto
não o sabem os dedos
Eles deslizam sobre a superfície
na absoluta densidade indesvendável
um fluir cálido o sol
captado no repouso sobre a mesa
e escrito aqui um sol tão rápido
Nada se separa sob os dedos
ignorantes da divisão do vidro
E se o pássaro fica
sem o canto
não o sabem os dedos
Eles deslizam sobre a superfície
na absoluta densidade indesvendável
1 128