Poemas neste tema
Felicidade e Alegria
Carlos Drummond de Andrade
Passeio Geral
Uma vez por mês
café da manhã
com pão e manteiga.
Nesse pão de sempre
a manteiga é signo
de um dia feliz.
Uma vez por mês
passeio geral.
Saímos aos três
em fila informal,
vigilante ao lado,
no rumo sabido:
chácara do Braga.
Manhãzinha branca,
fantasmas nevoentos
saindo da bruma,
passamos na ponte
do Rio Bengalas.
Latões de tutu,
de linguiça e arroz
vão na carrocinha.
Uma vez por mês
é a liberdade
ou seu faz de conta
por algumas horas:
água, mato, riso,
canto, bola, gruta
onde se penetra
um de cada vez
e só entra quem
no peito escorraça
outro candidato.
Lá dentro gritamos
sob o teto baixo
chamando o paciente
mistério do eco.
Diverte-se o medo
na volta instantânea
ao adormecido
homem da caverna.
Que estrondo lá fora
transforma o brinquedo
em puro terror?
Os maximalistas
chegam a Friburgo
instaurando a guerra
em pleno passeio?
Saio a quatro pernas:
o boneco estranho,
o bicho-preguiça
que o Irmão Primavera
preparou com arte
e gordo recheio
de bombas e traques
explode na luz
qual fosse o demônio.
Uma vez por mês
acontecem coisas
não convencionais.
Sentados no chão
ou em tocos de árvore
nosso piquenique
é comer de deuses.
Come-se dobrado,
come-se com fome
de comer o raro
prazer do ar livre.
Mas que é isso? Um pingo,
outro pingo, pingos
na minha comida
que já se derrete
sob a chuva forte.
Depressa, correr
e pedir abrigo
na casa do Braga
onde uma sanfona
acompanha lenta
o chicote rápido
da chuva nas folhas.
Uma vez por mês
essa expectativa
de um dia feliz
ou dia frustrado.
Vigilante ao lado,
em fila de três
depois da estiada
a volta na lama
do chão encharcado.
Todo um mês à frente
a passar na espera
dessa vez por mês.
café da manhã
com pão e manteiga.
Nesse pão de sempre
a manteiga é signo
de um dia feliz.
Uma vez por mês
passeio geral.
Saímos aos três
em fila informal,
vigilante ao lado,
no rumo sabido:
chácara do Braga.
Manhãzinha branca,
fantasmas nevoentos
saindo da bruma,
passamos na ponte
do Rio Bengalas.
Latões de tutu,
de linguiça e arroz
vão na carrocinha.
Uma vez por mês
é a liberdade
ou seu faz de conta
por algumas horas:
água, mato, riso,
canto, bola, gruta
onde se penetra
um de cada vez
e só entra quem
no peito escorraça
outro candidato.
Lá dentro gritamos
sob o teto baixo
chamando o paciente
mistério do eco.
Diverte-se o medo
na volta instantânea
ao adormecido
homem da caverna.
Que estrondo lá fora
transforma o brinquedo
em puro terror?
Os maximalistas
chegam a Friburgo
instaurando a guerra
em pleno passeio?
Saio a quatro pernas:
o boneco estranho,
o bicho-preguiça
que o Irmão Primavera
preparou com arte
e gordo recheio
de bombas e traques
explode na luz
qual fosse o demônio.
Uma vez por mês
acontecem coisas
não convencionais.
Sentados no chão
ou em tocos de árvore
nosso piquenique
é comer de deuses.
Come-se dobrado,
come-se com fome
de comer o raro
prazer do ar livre.
Mas que é isso? Um pingo,
outro pingo, pingos
na minha comida
que já se derrete
sob a chuva forte.
Depressa, correr
e pedir abrigo
na casa do Braga
onde uma sanfona
acompanha lenta
o chicote rápido
da chuva nas folhas.
Uma vez por mês
essa expectativa
de um dia feliz
ou dia frustrado.
Vigilante ao lado,
em fila de três
depois da estiada
a volta na lama
do chão encharcado.
Todo um mês à frente
a passar na espera
dessa vez por mês.
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Carlos Drummond de Andrade
Epitalâmio
Para Márcia e Luís Hamilton
Musas latinas, musas gregas, musas
do velho Olimpo e do moderno mundo,
com alto sopro bafejai-me a lira
e dai-lhe o sentimento mais profundo.
Tenho a cumprir nobre missão de bardo,
devo cantar o amor naquele instante
miraculoso, antigo e sempre novo,
de transpassar em luz o peito amante.
Hoje Márcia gentil, neta de Horácio
(poeta ele também, por seus cabelos
de argêntea messe, e ardente coração),
une-se a Luís Hamilton. Só de vê-los,
sinto surdir de oculta fonte o som
de música celeste, que às esferas
sublimes reconduz o ser humano,
e impregna de doçura as próprias feras;
o som da força cósmica, movente
do sol e das estrelas, conhecida,
que o florentino pôs em nobre verso,
e no meu tosco verso eis refletida:
o som do amor, o som do ameno grito
melodioso e santo e grave e jovial,
dramático, dolente, sobre-humano,
trazendo à vida uma razão geral.
Vai, Márcia, sê feliz, e teu esposo
contigo de mãos dadas, tempo afora,
um só sejam os dois, de tal maneira
que pouse a eternidade em cada hora.
Vosso himeneu, dos astros protegido,
seja lição de bem amar, oferta
a quantos, imaturos, desnorteados,
em vão tentam seguir a rota certa.
O sonho em vós se cristaliza e assume
o contorno sensível da existência.
Cada palavra e beijo que trocardes
dos deuses conterá a pura essência.
Aqui vos deixo. Aqui vossos amigos,
os da alegria ritos celebrando,
despedem-se de vós. Eia, a caminho.
Tende por certo: amar se aprende amando.
Musas latinas, musas gregas, musas
do velho Olimpo e do moderno mundo,
com alto sopro bafejai-me a lira
e dai-lhe o sentimento mais profundo.
Tenho a cumprir nobre missão de bardo,
devo cantar o amor naquele instante
miraculoso, antigo e sempre novo,
de transpassar em luz o peito amante.
Hoje Márcia gentil, neta de Horácio
(poeta ele também, por seus cabelos
de argêntea messe, e ardente coração),
une-se a Luís Hamilton. Só de vê-los,
sinto surdir de oculta fonte o som
de música celeste, que às esferas
sublimes reconduz o ser humano,
e impregna de doçura as próprias feras;
o som da força cósmica, movente
do sol e das estrelas, conhecida,
que o florentino pôs em nobre verso,
e no meu tosco verso eis refletida:
o som do amor, o som do ameno grito
melodioso e santo e grave e jovial,
dramático, dolente, sobre-humano,
trazendo à vida uma razão geral.
Vai, Márcia, sê feliz, e teu esposo
contigo de mãos dadas, tempo afora,
um só sejam os dois, de tal maneira
que pouse a eternidade em cada hora.
Vosso himeneu, dos astros protegido,
seja lição de bem amar, oferta
a quantos, imaturos, desnorteados,
em vão tentam seguir a rota certa.
O sonho em vós se cristaliza e assume
o contorno sensível da existência.
Cada palavra e beijo que trocardes
dos deuses conterá a pura essência.
Aqui vos deixo. Aqui vossos amigos,
os da alegria ritos celebrando,
despedem-se de vós. Eia, a caminho.
Tende por certo: amar se aprende amando.
1 269
Carlos Drummond de Andrade
Ver E Ouvir, Sem Brincar
Ninguém pergunta mais:
— Você vai brincar no carnaval?
Brincar, irmão, quem pode brincar
se perdida foi a ideia de brinquedo?
Alguns ainda perguntam:
— Como é? Vai pular no carnaval?
Então é isso a festa: um pulo
e outro pulo e mais outro? Neste caso,
campeoníssimo seria o João do Pulo.
O que ouço dizer é simplesmente:
— Vai ver o carnaval?
Conclusão, ano 80:
Carnaval
é o visual.
Você não brinca mais,
nem mesmo pula mais
na rua hoje deserta, no salão
onde um suor se liga a outro suor
e ar condicionado é falta de ar.
Que pode o folião? Acaso existe ainda,
e funciona, essa palavra folião?
Folia, antiga dança rápida
que o adufe acompanha, no dizer
de sábio, antigo, dicionário.
Quem me dança a folia, quem folia,
quem, fol ou fou, folâtre, folichon, folle,
fool, pratica o foliar?
Ah, sim, o sambista e sua escola
foliando para turistas e a distinta
Comissão Julgadora. Pontos! Pontos!
Quesitos mais quesitos! Briga feia
nessa programação oficial
que garimpa e governa o carnaval.
Foliam para os outros. Não foliam
pelo gosto,
pela graça,
pelo orgasmo de foliar, loucura santa,
desabrochar do corpo em rosa súbita,
em penacho, batuque, diabo, mico,
chama, cometa, esguicho, gargalhada,
a cambalhota em si, o riso puro,
o puro libertar-se da prisão
que cada um carrega em sua liberdade
vigiada, medida, escriturada.
Então pego uma sobra, vou olhar,
ouvir
a cor, o som, o balancê padronizado
que rioturisticamente se oferece
ao mercado da vista e dos ouvidos.
Eu vejo, não me integro,
não participo, não sou o grande todo,
nem o grande todo é mesmo todo e tudo.
Entre o olho e o desfile,
a arquibancada corta o meu impulso
de ser um com eles, ir com eles
pela rua afora,
pelo sonho afora.
A rua, onde ficou
a velha rua, seu espaço de brincar,
seu aberto salão a céu aberto,
sem entrada paga, sem cambistas
e fiscais?
O carnaval é rua, não teatro,
não show, produto industrial
monumental
a ser consumido numa noite
de lenta evolução
e classes divididas
pelo respeitável público pagante.
Como comprar, como pagar
o que não tem preço e chama-se
alegria?
16/02/1980
— Você vai brincar no carnaval?
Brincar, irmão, quem pode brincar
se perdida foi a ideia de brinquedo?
Alguns ainda perguntam:
— Como é? Vai pular no carnaval?
Então é isso a festa: um pulo
e outro pulo e mais outro? Neste caso,
campeoníssimo seria o João do Pulo.
O que ouço dizer é simplesmente:
— Vai ver o carnaval?
Conclusão, ano 80:
Carnaval
é o visual.
Você não brinca mais,
nem mesmo pula mais
na rua hoje deserta, no salão
onde um suor se liga a outro suor
e ar condicionado é falta de ar.
Que pode o folião? Acaso existe ainda,
e funciona, essa palavra folião?
Folia, antiga dança rápida
que o adufe acompanha, no dizer
de sábio, antigo, dicionário.
Quem me dança a folia, quem folia,
quem, fol ou fou, folâtre, folichon, folle,
fool, pratica o foliar?
Ah, sim, o sambista e sua escola
foliando para turistas e a distinta
Comissão Julgadora. Pontos! Pontos!
Quesitos mais quesitos! Briga feia
nessa programação oficial
que garimpa e governa o carnaval.
Foliam para os outros. Não foliam
pelo gosto,
pela graça,
pelo orgasmo de foliar, loucura santa,
desabrochar do corpo em rosa súbita,
em penacho, batuque, diabo, mico,
chama, cometa, esguicho, gargalhada,
a cambalhota em si, o riso puro,
o puro libertar-se da prisão
que cada um carrega em sua liberdade
vigiada, medida, escriturada.
Então pego uma sobra, vou olhar,
ouvir
a cor, o som, o balancê padronizado
que rioturisticamente se oferece
ao mercado da vista e dos ouvidos.
Eu vejo, não me integro,
não participo, não sou o grande todo,
nem o grande todo é mesmo todo e tudo.
Entre o olho e o desfile,
a arquibancada corta o meu impulso
de ser um com eles, ir com eles
pela rua afora,
pelo sonho afora.
A rua, onde ficou
a velha rua, seu espaço de brincar,
seu aberto salão a céu aberto,
sem entrada paga, sem cambistas
e fiscais?
O carnaval é rua, não teatro,
não show, produto industrial
monumental
a ser consumido numa noite
de lenta evolução
e classes divididas
pelo respeitável público pagante.
Como comprar, como pagar
o que não tem preço e chama-se
alegria?
16/02/1980
1 263
Carlos Drummond de Andrade
A Bolsa, o Bolso
“À Bolsa!” é o novo grito. A Bolsa, a vida
em milhares de ações reflorescida.
Investir é o mot d’ordre. Investimento
com sua rima de financiamento.
A Belgo deu filhote? A Brahma chama?
A Sousa Cruz do lucro atiça a flama?
Estou de olho na José Olympio
(Querer uma bolada não é ímpio.)
Discutem dois garotos. Investiram.
No quadro as cotações, atentos, miram.
Aquela é sua, bicho? Ai, antes fosse.
(Ao portador: Vale do Rio Doce.)
Viu mulher investindo? E como investe
em indústrias no Norte e no Nordeste.
Já não fala em dez-mais, em longo e mídi:
é Bradesco, Banespa, BEG e BIDE.
Compre na baixa, venda na alta. Eis tudo
que se exige. De leve, de veludo.
O Banco do Brasil, a Petrobras
estão enchendo de ouro o meu cabaz.
Que fazer com o excesso de tutu,
de que meu bolso outrora andava nu?
Rumo à Bolsa de Arte, e arrematar
dois Volpi, três Dacosta e mais Guignard,
não esquecendo, é claro, Cavalcanti
(Di), Djanira, Pancetti, tutti quanti
couber na cobertura da Lagoa.
Não tenho cobertura? Oh, essa é boa.
Compro-a logo na Barra da Tijuca,
de faz de conta, sonho. Minha cuca
vai abrindo outras Bolsas de Valores:
de Glória, de Poder, de Amor-Amores.
A Bolsa de Beleza, a de Romance,
a de Poesia, pelo maior lance.
Ações de tudo. Até de não agir,
de quedar no Arpoador, calmo, a sorrir.
A Bolsa de Viver em Paz… existe
só na Utopia, que, teimosa, insiste?
Uma Bolsa onde todos os papéis
se despojassem de signos cruéis,
e os bens tivessem nome de Alegria,
de Tolerância como de Harmonia.
Estou pedindo muito. Os pacifistas,
eles próprios, violentos, jogam cristas
com os belicosos. Só me resta, mesmo,
em verso pobre divagar a esmo.
O índice BV (Boa Vontade)
bate de porta em porta na cidade
de muros de granito ou de basalto,
mas quem abre, com medo de um assalto,
nas partes repartidas do planeta
cada vez mais confuso e de veneta?
Enquanto não se adensa tal miragem,
vou também, parafuso na engrenagem,
tentando o meu joguinho. À Bolsa! O bolso,
quero-o bem cheio, múltiplo reembolso.
Que títulos comprar? Aço, tecidos?
Docas, brinquedos, plásticos, sabidos
negócios, ou empresas de futuro?
Não sei se vejo claro ou vejo escuro.
Vale-me, corretor, vale-me, sorte,
nas jogadas de macro ou micro porte,
que eu prometo, se acerto na tacada,
a dica fornecer para a moçada,
e fundarei também a minha empresa
de capital aberto, em volta à mesa
de papo ameno e dose bem legal
de escocês dividendo… Então, que tal?
09/05/1971
em milhares de ações reflorescida.
Investir é o mot d’ordre. Investimento
com sua rima de financiamento.
A Belgo deu filhote? A Brahma chama?
A Sousa Cruz do lucro atiça a flama?
Estou de olho na José Olympio
(Querer uma bolada não é ímpio.)
Discutem dois garotos. Investiram.
No quadro as cotações, atentos, miram.
Aquela é sua, bicho? Ai, antes fosse.
(Ao portador: Vale do Rio Doce.)
Viu mulher investindo? E como investe
em indústrias no Norte e no Nordeste.
Já não fala em dez-mais, em longo e mídi:
é Bradesco, Banespa, BEG e BIDE.
Compre na baixa, venda na alta. Eis tudo
que se exige. De leve, de veludo.
O Banco do Brasil, a Petrobras
estão enchendo de ouro o meu cabaz.
Que fazer com o excesso de tutu,
de que meu bolso outrora andava nu?
Rumo à Bolsa de Arte, e arrematar
dois Volpi, três Dacosta e mais Guignard,
não esquecendo, é claro, Cavalcanti
(Di), Djanira, Pancetti, tutti quanti
couber na cobertura da Lagoa.
Não tenho cobertura? Oh, essa é boa.
Compro-a logo na Barra da Tijuca,
de faz de conta, sonho. Minha cuca
vai abrindo outras Bolsas de Valores:
de Glória, de Poder, de Amor-Amores.
A Bolsa de Beleza, a de Romance,
a de Poesia, pelo maior lance.
Ações de tudo. Até de não agir,
de quedar no Arpoador, calmo, a sorrir.
A Bolsa de Viver em Paz… existe
só na Utopia, que, teimosa, insiste?
Uma Bolsa onde todos os papéis
se despojassem de signos cruéis,
e os bens tivessem nome de Alegria,
de Tolerância como de Harmonia.
Estou pedindo muito. Os pacifistas,
eles próprios, violentos, jogam cristas
com os belicosos. Só me resta, mesmo,
em verso pobre divagar a esmo.
O índice BV (Boa Vontade)
bate de porta em porta na cidade
de muros de granito ou de basalto,
mas quem abre, com medo de um assalto,
nas partes repartidas do planeta
cada vez mais confuso e de veneta?
Enquanto não se adensa tal miragem,
vou também, parafuso na engrenagem,
tentando o meu joguinho. À Bolsa! O bolso,
quero-o bem cheio, múltiplo reembolso.
Que títulos comprar? Aço, tecidos?
Docas, brinquedos, plásticos, sabidos
negócios, ou empresas de futuro?
Não sei se vejo claro ou vejo escuro.
Vale-me, corretor, vale-me, sorte,
nas jogadas de macro ou micro porte,
que eu prometo, se acerto na tacada,
a dica fornecer para a moçada,
e fundarei também a minha empresa
de capital aberto, em volta à mesa
de papo ameno e dose bem legal
de escocês dividendo… Então, que tal?
09/05/1971
1 406
Carlos Drummond de Andrade
Brinquedos Para Homens
Embora eu seja adulto,
não me seduzem os brinquedos eletrônicos
que a moda, irônica, me oferece.
E excogito:
Que brinquedo inventar para o adulto,
privativo dele, sangue e riso dele,
brinquedo desenganado mas eficiente?
Tenho de inventar o meu brinquedo,
mola saltando no meu íntimo,
alegria gerada por mim mesmo,
e fácil, fluida, pluma,
pétala.
Sem o pedir às máquinas e aos deuses,
que cada um invente o seu brinquedo.
28/06/1980
não me seduzem os brinquedos eletrônicos
que a moda, irônica, me oferece.
E excogito:
Que brinquedo inventar para o adulto,
privativo dele, sangue e riso dele,
brinquedo desenganado mas eficiente?
Tenho de inventar o meu brinquedo,
mola saltando no meu íntimo,
alegria gerada por mim mesmo,
e fácil, fluida, pluma,
pétala.
Sem o pedir às máquinas e aos deuses,
que cada um invente o seu brinquedo.
28/06/1980
1 416
Carlos Drummond de Andrade
Seis Manequins
Ully, Ully, lullaby,
vou contigo para a Lua,
luarando vais levando
uma luz leve de linho,
de trigal maduro e lã.
De passagem no Oriente,
Mailu surge de repente
e todos os véus da Ásia,
as arômatas do Egito,
as musicálias hindus
florescem na flor do ar.
Ó Zula, que noite azul
clareia na tua pele
um mistério que escurece
quando tento decifrá-lo?
Já se dilata a pupila
ante a passagem de Mila,
que, se para ou se desfila,
tantaliza a própria argila.
E Nice, que vem da neve
e da pelúcia mais suave,
incenso, anjinho de nave,
cantando na Lua Nova?
Que não me falte Beatriz,
jardim moreno de altura
para me fazer feliz
no meu reino de aventura!
vou contigo para a Lua,
luarando vais levando
uma luz leve de linho,
de trigal maduro e lã.
De passagem no Oriente,
Mailu surge de repente
e todos os véus da Ásia,
as arômatas do Egito,
as musicálias hindus
florescem na flor do ar.
Ó Zula, que noite azul
clareia na tua pele
um mistério que escurece
quando tento decifrá-lo?
Já se dilata a pupila
ante a passagem de Mila,
que, se para ou se desfila,
tantaliza a própria argila.
E Nice, que vem da neve
e da pelúcia mais suave,
incenso, anjinho de nave,
cantando na Lua Nova?
Que não me falte Beatriz,
jardim moreno de altura
para me fazer feliz
no meu reino de aventura!
1 399
Carlos Drummond de Andrade
A Festa de Ziraldo
Vou à festa de Ziraldo,
vou levando Jeremias.
Ziraldo vai me mostrando
o tom de Flicts da Lua.
Jeremias, meu compadre,
meu anjo da guarda de óculos,
dá uma de milagreiro
fazendo que a supermãe
largue o súper, se tornando
mãe comum, ao natural.
A festa vai esquentando
dentro e fora da piscina.
Jeremias e Ziraldo
ao soar a concertina
já se tornam Jerizaldo
e Ziralmias, no caos?
Entra a Rainha, entra o Príncipe
da Grã-Britânia ou Caxias,
entra toda a macacada
com sentido na cerveja,
no hot-dog e no restante
que se pega ou se fareja,
mas Ziraldo, ziraldando,
e Jeremias, quebrando
o galho de toda gente,
me mostram que a melhor festa,
de todas a mais bacana,
inserida no contexto,
está nos livros-mandinga,
nos cartoons, bonecos, bolas
incomparáveis de um certo
mineiro de Caratinga.
vou levando Jeremias.
Ziraldo vai me mostrando
o tom de Flicts da Lua.
Jeremias, meu compadre,
meu anjo da guarda de óculos,
dá uma de milagreiro
fazendo que a supermãe
largue o súper, se tornando
mãe comum, ao natural.
A festa vai esquentando
dentro e fora da piscina.
Jeremias e Ziraldo
ao soar a concertina
já se tornam Jerizaldo
e Ziralmias, no caos?
Entra a Rainha, entra o Príncipe
da Grã-Britânia ou Caxias,
entra toda a macacada
com sentido na cerveja,
no hot-dog e no restante
que se pega ou se fareja,
mas Ziraldo, ziraldando,
e Jeremias, quebrando
o galho de toda gente,
me mostram que a melhor festa,
de todas a mais bacana,
inserida no contexto,
está nos livros-mandinga,
nos cartoons, bonecos, bolas
incomparáveis de um certo
mineiro de Caratinga.
1 204
António Ramos Rosa
O Círculo da Casa
Sem te nomear e quase sem te ver, tu és o círculo
que me envolve quotidiano na sua luz pacífica.
Não te dissimulas, estás aqui, obliquamente
ao meu olhar, enquanto escrevo e em ti reparo.
A sabedoria simples seria estar em ti e onde estou
com todos os objectos calmos e as cores vivas
e a luz que em seus rectângulos é já presença
de quanto não sabemos e ainda esperamos.
O solo é um enigma simples, suave amêndoa
e é talvez o centro de um ser que se distrai.
Tácito é o amor que, sem o saber, é espaço
e adere à paz de um latente paraíso.
Aqui mesmo, sem pressa, é o gérmen e o aberto.
E o ócio e o sabor do mundo numa corrente sossegada.
que me envolve quotidiano na sua luz pacífica.
Não te dissimulas, estás aqui, obliquamente
ao meu olhar, enquanto escrevo e em ti reparo.
A sabedoria simples seria estar em ti e onde estou
com todos os objectos calmos e as cores vivas
e a luz que em seus rectângulos é já presença
de quanto não sabemos e ainda esperamos.
O solo é um enigma simples, suave amêndoa
e é talvez o centro de um ser que se distrai.
Tácito é o amor que, sem o saber, é espaço
e adere à paz de um latente paraíso.
Aqui mesmo, sem pressa, é o gérmen e o aberto.
E o ócio e o sabor do mundo numa corrente sossegada.
703
António Ramos Rosa
A Filha do Sono
Tu és a filha do sono e cintilas na folhagem.
Vieste do fundo do rio ainda envolta na noite.
O meu apelo recebeste-o e é a claridade que vibra.
A confiança nasceu numa onda mais verde
e inclinei-me sobre os teus joelhos num ardor tranquilo
para que a verdadeira chama fosse reconhecida na árvore do desejo.
De caminhos, de árvores, de nascentes,
de signos impenetráveis que se tornaram vibrantes
eras o corpo que se reunia na alegria partilhada
e consentias a palavra como um redemoinho
que culminava numa tranquila abóbada.
Que serenidade nas claras árvores
e nas folhas profusas onde repousam novos frutos!
Os desejos adormecem no silêncio e entre as pedras.
A infinita sede acalma-se e a ausência desce até à terra nua.
Vieste do fundo do rio ainda envolta na noite.
O meu apelo recebeste-o e é a claridade que vibra.
A confiança nasceu numa onda mais verde
e inclinei-me sobre os teus joelhos num ardor tranquilo
para que a verdadeira chama fosse reconhecida na árvore do desejo.
De caminhos, de árvores, de nascentes,
de signos impenetráveis que se tornaram vibrantes
eras o corpo que se reunia na alegria partilhada
e consentias a palavra como um redemoinho
que culminava numa tranquila abóbada.
Que serenidade nas claras árvores
e nas folhas profusas onde repousam novos frutos!
Os desejos adormecem no silêncio e entre as pedras.
A infinita sede acalma-se e a ausência desce até à terra nua.
631
António Ramos Rosa
Palavras Terrestres
Ante a imensa e silenciosa insistência de um céu imaculado, os lábios libertam-se, dilatam-se, dissipam-se e reúnem-se, flexíveis, numa boca de sombra e esquecimento. Palavras ou não palavras, nomes silenciosos, ascendem de um fundo ilimitado e obscuro. Um corpo em formação dilata-se, volátil. Na velocidade lenta que se espraia, corola imensa, a felicidade grita. Impaciência ou paciência, a vigilância infinita do poema. Escreve-se agora surpresa, sabor, sílex, espaço, palavras talvez, palavras terrestres, mas nada mais que folhagem, brancura e sopro.
1 186
António Ramos Rosa
A Presença
Entre o não saber e o poder
a mais ligeira ponte.
Entre as ruínas dos olhos e a limpidez da luz
as frágeis escadas de sombra.
Entre a língua cega e as palavras intactas
a mão que procura o hálito de um deus
na revelação do mar e do poema.
O que se resolve em espuma no final de uma frase,
o que vem do fundo ininteligível da noite
e é uma súbita ordenação transparente
e o frémito de um equilíbrio, uma modulação, uma frescura
e o reino absoluto no instante, o verdadeiro lugar
e um grito, um grito de alegria na sua forma pura.
Simplicidade da presença discreta, furtiva e no entanto límpida.
Coerência fragílima, claridade confiante à beira de ser nada.
Era o que esperava, era o que não esperava no imediato sabor
das palavras e das coisas.
a mais ligeira ponte.
Entre as ruínas dos olhos e a limpidez da luz
as frágeis escadas de sombra.
Entre a língua cega e as palavras intactas
a mão que procura o hálito de um deus
na revelação do mar e do poema.
O que se resolve em espuma no final de uma frase,
o que vem do fundo ininteligível da noite
e é uma súbita ordenação transparente
e o frémito de um equilíbrio, uma modulação, uma frescura
e o reino absoluto no instante, o verdadeiro lugar
e um grito, um grito de alegria na sua forma pura.
Simplicidade da presença discreta, furtiva e no entanto límpida.
Coerência fragílima, claridade confiante à beira de ser nada.
Era o que esperava, era o que não esperava no imediato sabor
das palavras e das coisas.
995
António Ramos Rosa
Abertura
Abrem-se os espaços calmos
abrem-se clareiras para estar indefinidamente num repouso fresco.
Que inexplicável confiança
removeu os últimos obstáculos!
As orientações são outras e são todas para o Único.
Abertura como uma avalancha de tranquilidade.
A altitude enche o peito de uma leveza vasta.
Um sabor de lucidez aérea tomou conta de mim.
Já nada me falta vibro à beira do incompreendido.
O que procurei explode em evidências que me inundam.
Nada mais sou do que uma vibração unânime.
O ignorado habita o elementar sem impaciência.
Algo se completa a cada momento algo principia.
Ideias como brisas inteligência de horizonte.
Um soterrado corpo despertou e dilata-se luminoso.
Sem palavras respiro o gérmen que dá magnanimamente.
Sublime e simples é o lugar onde a luz domina.
Que presenças nas imagens que estremecem na brancura!
Modelado pelo imponderável o alento purifica-se
e une-se à inalterável continuidade do ser.
Longínquas reminiscências cristalizam no ar
e são gestos do ar e de um prodígio suave.
Como que do fundo da pedra me liberto e sou o espaço
que diz na vasta luz o sim do universo.
abrem-se clareiras para estar indefinidamente num repouso fresco.
Que inexplicável confiança
removeu os últimos obstáculos!
As orientações são outras e são todas para o Único.
Abertura como uma avalancha de tranquilidade.
A altitude enche o peito de uma leveza vasta.
Um sabor de lucidez aérea tomou conta de mim.
Já nada me falta vibro à beira do incompreendido.
O que procurei explode em evidências que me inundam.
Nada mais sou do que uma vibração unânime.
O ignorado habita o elementar sem impaciência.
Algo se completa a cada momento algo principia.
Ideias como brisas inteligência de horizonte.
Um soterrado corpo despertou e dilata-se luminoso.
Sem palavras respiro o gérmen que dá magnanimamente.
Sublime e simples é o lugar onde a luz domina.
Que presenças nas imagens que estremecem na brancura!
Modelado pelo imponderável o alento purifica-se
e une-se à inalterável continuidade do ser.
Longínquas reminiscências cristalizam no ar
e são gestos do ar e de um prodígio suave.
Como que do fundo da pedra me liberto e sou o espaço
que diz na vasta luz o sim do universo.
1 114
António Ramos Rosa
Meio-Dia
Contemplo a mulher adormecida. Ocupa uma metade do terraço, longa e voluptuosamente extensa, constelada de um silêncio que é todo aéreo e ondulante. Em volta o mundo converteu-se num pomar unânime. É um meio-dia interminável. Tudo está imóvel, fixo, como um centro. As superfícies lisas, brancas, sem reflexos, sem sombras. Imperceptível, insondável é o gesto fulgurante da imobilidade. A intensidade da presença identifica-se com o vazio da ausência. O meu corpo entende o corpo da mulher, enrola-se nas volutas da sua música silenciosa, adere às paisagens brancas do seu sono completo. Imóvel, não procuro palavras, nem as mais leves e transparentes: sinto-me fluido, extremamente aberto. Conheço as sensações da mulher nua: água, terra, fogo e vento. Conheço-a e amo-a através delas, numa relação de felicidade intensa e ao mesmo tempo imponderável. O sono da mulher é de horizontes múltiplos e em si germina o centro abrindo o aberto sem limites.
1 260
António Ramos Rosa
O Instante
Quem posso eu chamar, que palavras lúcidas
e sóbrias, veementes
poderão despertar as ondas felizes,
que outro apelo, que outro alento
aproximará as árvores, o hálito das suas frases?
Quem me oferecerá no seu corpo o estuário das mãos,
que prodígios da terra deslizarão no repouso,
que declives, que jardins, que palácios diminutos,
que intangíveis enlaces, que adoráveis volumes?
Quem me dará o sossego da fábula mais pura
com o exacto relevo imediata e vagarosa?
Real e perfeita
num deslizar de gozo, em lábios que emudecem deslumbrados,
real e completo, secreto, imediato, maravilhoso
é o instante que descobre o animal mais ardente,
a mais ardente exactidão
a mais oferecida à claridade,
a mais contínua, a mais profunda suavidade.
Estamos dentro de um seio donde nascemos
como de uma montanha latente, somos a nascente confusão
de murmúrios silvestres e a magia natural
de um silêncio límpido, abraçamos a maravilha
aqui e agora, reconcentração na felicidade,
na evidência de delícias, múltiplas, fatais.
e sóbrias, veementes
poderão despertar as ondas felizes,
que outro apelo, que outro alento
aproximará as árvores, o hálito das suas frases?
Quem me oferecerá no seu corpo o estuário das mãos,
que prodígios da terra deslizarão no repouso,
que declives, que jardins, que palácios diminutos,
que intangíveis enlaces, que adoráveis volumes?
Quem me dará o sossego da fábula mais pura
com o exacto relevo imediata e vagarosa?
Real e perfeita
num deslizar de gozo, em lábios que emudecem deslumbrados,
real e completo, secreto, imediato, maravilhoso
é o instante que descobre o animal mais ardente,
a mais ardente exactidão
a mais oferecida à claridade,
a mais contínua, a mais profunda suavidade.
Estamos dentro de um seio donde nascemos
como de uma montanha latente, somos a nascente confusão
de murmúrios silvestres e a magia natural
de um silêncio límpido, abraçamos a maravilha
aqui e agora, reconcentração na felicidade,
na evidência de delícias, múltiplas, fatais.
1 091
António Ramos Rosa
Na Plenitude do Espaço
Um rumor de jardim, luzes sobre as águas, num ramo de espaço em firme esplendor, calor de flancos brancos, estrela de sílex. Estou fixo e livre neste centro com uma intensidade monótona, habitado pelo vento, ao rumor das lâmpadas. Contente de ser teu e de ser meu, na expressão plana do desenho e na expressão redonda do volume, alto em densidade e transparente, animal de fundo e de ar, no equilíbrio fluido de um movimento sólido, glória claríssima que não explode, que não arde, imensa, imensa, mas à medida do corpo ardente, límpido, unificado. A integridade canta, a voluptuosidade canta em pássaro em ar em palavra em lábio em silêncio em corpo. Estou com a luz, na harmonia segura, nesta água viva do universo, alegre, alegre de ser a placidez imensa do azul, quase como um pássaro humilde, delicado, universal.
1 227
António Ramos Rosa
Nas Evidências do Calor
Nas evidências do calor, reconheço a primazia do solo e os músculos pacientes dos caminhos. Cada acaso do meu campo vital, cada pulsação e cada sopro afirmam a força da terra e a resina das palavras. As evidências respiram em uníssono com o corpo harmonioso. Pelo fogo, pela cinza, pela seiva. Algo se nos oferece e nos interroga, algo nos aceita. Simples, soberana é a voz silenciosa do espaço. À claridade das pedras e das árvores, eleva-se, num silencioso gesto de presença, a figura germinal de uma alegria terrestre.
672
António Ramos Rosa
A Volubilidade do Ser
Um sopro sobre as nuvens, sobre as ondas e as árvores
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
1 139
António Ramos Rosa
No Vaivém Imóvel
Nada mais que um pouco de luz e um pouco de vento. E umas quantas árvores cuja folhagem tremula e fulge, no delírio do ar. É real o que vejo, o que respiro: sou o próprio espaço em que estou. Trânsito fresco de minúsculas sombras e de folhas cintilantes. Circulam palavras leves de silêncio, de água, de ar. Ninguém é o sopro ligeiro que estimula e tranquiliza o vinho do sangue. Límpido o corpo, aberto e completo, límpida a sua ferida vertical. No vaivém imóvel há uma fulguração de um voo branco de sossegada iridiscência. Livre e certo, numa embriagada incerteza, o coração repousa e arde de luz e de alegria.
1 089
António Ramos Rosa
Estendida Sobre a Idade
Estendida sobre a idade sente-se germinar
na solidão que está sendo até ao horizonte
pura virtualidade que ondula interminavelmente
no ardor feliz em que o pensamento limpa
de si o que não é timbre ou transparência ou água.
Consuma-se carregada de aromas e de ócio
tão por fora de si que a embriaga a terra
a que se enlaça na verdura intensa
ao encontrar cada vez muito mais perto
o longe a que aspirava em busca de si mesma.
Espraia-se em paz de ardente imensidade
o seu desejo é tempo espaço movimento.
Tudo é claro porque tudo o que a habita é campo livre
e um sono que vem da luz e da folhagem canta.
Irrigam-se os veios do verão e todo o azul é sítio.
na solidão que está sendo até ao horizonte
pura virtualidade que ondula interminavelmente
no ardor feliz em que o pensamento limpa
de si o que não é timbre ou transparência ou água.
Consuma-se carregada de aromas e de ócio
tão por fora de si que a embriaga a terra
a que se enlaça na verdura intensa
ao encontrar cada vez muito mais perto
o longe a que aspirava em busca de si mesma.
Espraia-se em paz de ardente imensidade
o seu desejo é tempo espaço movimento.
Tudo é claro porque tudo o que a habita é campo livre
e um sono que vem da luz e da folhagem canta.
Irrigam-se os veios do verão e todo o azul é sítio.
1 073
António Ramos Rosa
Esta Alegria
Esta alegria
que de nada nasce
antes da palavra
sopro insubmisso
sortilégio do dia.
que de nada nasce
antes da palavra
sopro insubmisso
sortilégio do dia.
578
António Ramos Rosa
O Efémero Paraíso
Um mundo onde a ignorância é primavera
onde a alegria estremece deslumbrada
por um país que é um efémero paraíso
que se demora até ao fundo de uma esfera
por onde tudo se liberta com o vento e aclara.
O inalterável resplandece numa concha cristalina.
O próprio sopro é o movimento e as torrentes vibram.
Tudo se completa na unidade do silêncio.
Respira-se a folhagem com uma inteligência nova.
As linhas íntimas brilham na sombra do ar.
Um campo intenso recebe a grande luz. As sombras
cintilam na lucidez do repouso. A página abre-se.
Por graciosos canais circula o sentido iminente.
Uma única sílaba se respira ágil e leve.
Uma árvore marinha dá a resposta branca.
onde a alegria estremece deslumbrada
por um país que é um efémero paraíso
que se demora até ao fundo de uma esfera
por onde tudo se liberta com o vento e aclara.
O inalterável resplandece numa concha cristalina.
O próprio sopro é o movimento e as torrentes vibram.
Tudo se completa na unidade do silêncio.
Respira-se a folhagem com uma inteligência nova.
As linhas íntimas brilham na sombra do ar.
Um campo intenso recebe a grande luz. As sombras
cintilam na lucidez do repouso. A página abre-se.
Por graciosos canais circula o sentido iminente.
Uma única sílaba se respira ágil e leve.
Uma árvore marinha dá a resposta branca.
1 147
António Ramos Rosa
Livre E Perdido
Sei a fundura do não-saber: embriaguez perfeita. Como uma folha ou uma pedra ou uma sombra, eis que respiro sem uma ideia, sem uma forma, sem um começo. Não sou mais do que esta prolongada pausa evanescente, mas que se dilata e em si mesma se esconde como uma pedra. Nada tenho a dizer: sou um sopro, um esquecimento que estremece, uma sensação apenas, aérea, desprendida, total. Não fui nem serei, sou simplesmente um âmbito em que a fragilidade não é a fragilidade, e a leveza é a exacta leveza do desconhecido que respira através de mim, comigo. Estou claramente no abandono do obscuro, vivo no espaço, na liberdade simples do ar, ao nível do mínimo e do amplo, sem medidas seguras nem padrões conhecidos. Sou um astro apagado, liberto do seu fulgor, sem destino, sem órbita, mas verticalmente azul, entregue à ondulação de um absoluto que corre no sangue e à superfície da pele. Que embriagada é a fragilidade de estar vivo assim! Que deliciosamente inventada, que verdadeira é esta fuga no espaço, sereno e ébrio com o ar! Sem ilusões na ilusão mais completa, na mais viva, na mais aérea e elementar, sem palavras e com todas as palavras, sombras, pedras, folhas, estrelas, autos, animais, tudo aceso no apagamento interior onde tudo ressoa como liberdade interna, um voo frágil, incerto, vazio, mas viva e central plenitude prolongando-se, dissipando-se, repousando. Como se estivera na água e cego, vejo maravilhosamente as intensidades, as formas, os fluxos, os rios de sombra e luz, os caminhos flutuantes, a sombria folhagem que se dissipa, que renasce… Só, sem estar só, sou o âmbito natural, a inteligência vaga, ligeira, cúmplice do espaço. Ninguém me encontrará. Já não sou: sou o perdido no ar, no vazio: estou embriagado de ser.
1 240
António Ramos Rosa
Na Esfera do Repouso
Abre-se o ventre ubiquamente no repouso
que o arqueia e estende ao horizonte.
Como regressa ao seio, como descansa
erguendo a torre branca no lugar do abismo!
Como uma só concha com os redondos membros
abre todo o espaço de velas harmoniosas.
Sossegado navio entre ramos e sombras.
Revolução lenta e clara entre colinas.
Move-se o fundo num vagar de anoitecer.
Alguém dorme na imóvel residência?
Na esfera em que repousa o pensamento é água
e feliz na luz que passa com o vento.
Nela se habita o vagar da roda rescendente.
O coração sabe que ama e vive, o desejo conhece
a cintura da terra entre as águas abertas.
que o arqueia e estende ao horizonte.
Como regressa ao seio, como descansa
erguendo a torre branca no lugar do abismo!
Como uma só concha com os redondos membros
abre todo o espaço de velas harmoniosas.
Sossegado navio entre ramos e sombras.
Revolução lenta e clara entre colinas.
Move-se o fundo num vagar de anoitecer.
Alguém dorme na imóvel residência?
Na esfera em que repousa o pensamento é água
e feliz na luz que passa com o vento.
Nela se habita o vagar da roda rescendente.
O coração sabe que ama e vive, o desejo conhece
a cintura da terra entre as águas abertas.
826
António Ramos Rosa
Apenas Um Tremor
Vai-se tecendo a paz num caos contemplado
em que nada se retém à roda do vazio
senão o que o desejo suspende e inicia
para não ser mais que o movimento calmo
numa concha de sono vagarosa e vazia.
Apenas uma sílaba, um relâmpago subtil
abriu no seio da luz uma luz mais nua.
Uma nascente, um caminho? Apenas um tremor
em que tudo desperta em minúcias de alegria.
A página está vazia, ninguém fala na casa.
Vai-se tecendo a paz de uma lisura antiga
e a sombra do desejo é um movimento branco
que move obscuras sílabas e levanta o vento
que passa devagar e vai pousando dentro
da alegria calma em que repousa a casa.
em que nada se retém à roda do vazio
senão o que o desejo suspende e inicia
para não ser mais que o movimento calmo
numa concha de sono vagarosa e vazia.
Apenas uma sílaba, um relâmpago subtil
abriu no seio da luz uma luz mais nua.
Uma nascente, um caminho? Apenas um tremor
em que tudo desperta em minúcias de alegria.
A página está vazia, ninguém fala na casa.
Vai-se tecendo a paz de uma lisura antiga
e a sombra do desejo é um movimento branco
que move obscuras sílabas e levanta o vento
que passa devagar e vai pousando dentro
da alegria calma em que repousa a casa.
1 085