Poemas neste tema
Justiça e Igualdade
Pablo Neruda
Dívida Externa
Entre graissage, lavage e o dia Dimanche
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
transcorre o traje verde desta viagem:
atravessando cervejarias vai-se ao mar:
derrubando palavras se chega ao silêncio:
à terceira solidão, a escolhida.
(Montenegro, o cavalheiro sem espelho,
sai, assustado com as conversações,
e avalia com gravidade que chegou a hora
de interromper com sua presença a natureza.)
Compreendemos esta nova estirpe de prisioneiros:
o que ficou dentro de uma reunião interminável
onde sem saber quando nem como,
imóvel como uma estalactite polar,
dedicou-se, indefeso entre os capitalistas,
a olhar os rostos frios de cada um:
estavam reunidos para julgar o Chile
que lhes devia mil milhões de dólares por cabeça.
Montenegro nunca soube como chegou a essa jaula:
contudo sua vida não fora isenta
de aventuras com panteras delicadamente sangrentas,
ou com serpentes píton de respeitável poderio:
percorrera a selva de Ceilão ao amanhecer
disfarçado de crocodilo para assustar os elefantes:
mas nunca se sentiu tão perdido como desta vez,
neste ministério de lábios finos e olhar abstrato
em que se lançavam números com frio furor.
Nenhum dos banqueiros olhou para Montenegro. A verdade
é que não se olhavam um ao outro (no fundo
se conheciam), (opacos e também transparentes),
estavam todos de acordo em não aceitar os intrusos,
as moscas que caíam sem cessar no frio.
Agora parecia nadar em água celeste,
voar na respiração dos bosques, nascer,
não tinha rumo o precitado, nem alegria,
era o fugitivo das bocas de Paris,
o inexato, o partidário de gregários costumes
que fora perfurado por miradas de revólver
e se embandeirara, ao estar a ponto de se dessangrar
para passar um agradável dia campestre.
Deixemos o senhor Montenegro reintegrar-se a seus bares,
a seus barulhentos amigos de colégio
e esqueçamos nesta rodovia da França
o automóvel que se dirige a Rouen
com um mortal qualquer chamado Montenegro.
Quando a Dívida Externa ia matá-lo de medo,
ele escapou pelos campos da França.
Peço respeito por sua escapatória!
566
Pablo Neruda
Passou Por Aqui
Que companheiro saudável!
Dá voltas pelo picadeiro
de minha república, e me parece
que seu sorriso já caía
lá do tablado, da bicicleta,
ou na praça taurina, planetária,
maior ainda sob a luz política,
e nada, nunca, sempre o impertérrito.
o intergérrimo e sua dentadura.
Este outro com sua verdade e a minha,
a verdade verdadeira,
amarrada a um lenho, a uma ameaça,
buscando a quem acertar na cabeça
com o frágil nariz da justiça.
E assim, através de séculos, que saúde
este meu amigo na verdade, e o outro
em outro picadeiro, e na mentira.
Assim aplaudo e bem, com reticência,
certo pudor de pobre que vai ao circo
e tem que voltar de noite à aldeia
pelos maus caminhos de minha terra.
E ao outro, saudável e adversário,
frenético malvado, com seu círculo
sim, sim, de estupefatos roedores,
eu, sectário, condeno e destituo.
Com quem, irmão de manhã,
com quem me ficarás, te ficarei?
Qual das duas metades energúmenas
terá seu monumento no caminho?
Façamos com que se juntem a fogo e lágrimas,
que se reúnam de uma vez por todas
e não molestem com tanta bondade
nem com tanta maldade: já compreendemos
que nunca conseguiremos ser tão bons,
nem chegaremos a ser tão perversos:
muito cuidado com mudar a vida
e ficarmos vivendo de um só lado!
Dá voltas pelo picadeiro
de minha república, e me parece
que seu sorriso já caía
lá do tablado, da bicicleta,
ou na praça taurina, planetária,
maior ainda sob a luz política,
e nada, nunca, sempre o impertérrito.
o intergérrimo e sua dentadura.
Este outro com sua verdade e a minha,
a verdade verdadeira,
amarrada a um lenho, a uma ameaça,
buscando a quem acertar na cabeça
com o frágil nariz da justiça.
E assim, através de séculos, que saúde
este meu amigo na verdade, e o outro
em outro picadeiro, e na mentira.
Assim aplaudo e bem, com reticência,
certo pudor de pobre que vai ao circo
e tem que voltar de noite à aldeia
pelos maus caminhos de minha terra.
E ao outro, saudável e adversário,
frenético malvado, com seu círculo
sim, sim, de estupefatos roedores,
eu, sectário, condeno e destituo.
Com quem, irmão de manhã,
com quem me ficarás, te ficarei?
Qual das duas metades energúmenas
terá seu monumento no caminho?
Façamos com que se juntem a fogo e lágrimas,
que se reúnam de uma vez por todas
e não molestem com tanta bondade
nem com tanta maldade: já compreendemos
que nunca conseguiremos ser tão bons,
nem chegaremos a ser tão perversos:
muito cuidado com mudar a vida
e ficarmos vivendo de um só lado!
661
Pablo Neruda
Canto XIII - Coral de Ano-Novo para a Pátria em trevas
I
Saudação (1949)
De arames oxidados pela água salobre?
É Pisagua também teu rosto agora?
Quem te fez mal, como atravessaram
com um punhal o teu mel despido?
Antes de ninguém, para eles minha saudação,
para os homens, para o plinto de dores,
para as mulheres, ramos de mañio,
para as crianças, escolas transparentes,
que sobre as areias de Pisagua
foram a pátria perseguida, foram
toda a honra da terra que amo.
Será a honra sagrada de amanhã
ter sido arrojado a tuas areias,
Pisagua: ter sido de repente
recolhido à noite do terror
por ordem de um traidor envilecido
e ter chegado a teu calcário inferno
para defender a dignidade do homem.
II Os homens de Pisagua
Não esquecerei as tuas costas mortas onde
do mar hostil a suja dentada
ataca as paredes do tormento
e a pique se levantam os baluartes
dos pelados cerros infernais:
não esquecerei como olhais as águas,
para o mundo que esquece os vossos rostos,
não esquecerei quando de olhos cheios
de interrogante luz, voltais
o rosto às terras pálidas do Chile
dominadas por lobos e ladrões.
Sei como vos lançaram a comida,
como a cães sarnentos, no chão,
até que fizestes de pequenas latas
vazias os vossos pratos:
sei como vos lançaram para dormir
e como em fila recebestes,
carrancudos e valentes,
os imundos feijões
que tantas vezes às areias lançastes.
Sei como, quando recebíeis
roupa, alimentos que de toda
a extensão da pátria se juntaram,
sentistes com orgulho
que talvez, que talvez não estáveis sós.
Valentes, temperados compatriotas
que dais um novo sentido à terra:
fostes os escolhidos na caçada,
para que por vós todo o povo
sofresse em desterrados areais.
E escolheram inferno examinando
o mapa, até que acharam
este salobre cárcere, estes muros
de solidão, de surpreendedora
angústia, para que golpeareis a cabeça
sob os pés do ínfimo tirano.
Mas não acharam sua própria matéria:
não sois feitos de esterco como o pútrido,
vermiforme traidor: mentiram
seus informes, acharam
a firmeza metálica do povo,
o coração do cobre e seu silêncio.
É o metal que fundará a pátria
quando o vento do povo areento
expulsar o capitão da imundície.
Firmes, firmes irmãos,
firmes quando em caminhões, agredidos
à noite nas cabanas, empurrados,
amarrados os braços com arame,
sem despertar, apenas surpreendidos
e atropelados, fostes para Pisagua,
levados por armados carcereiros.
Depois voltaram eles
e encheram caminhões com famílias
desamparadas, batendo nas crianças.
E um pranto de filhos doces aparece
ainda na noite do deserto, um pranto
de milhares de bocas infantis,
como um coro que busca o duro vento
para que escutemos, para que não nos esqueçamos.
III
Os heróis
Félix Morales, Ángel Vcas,
assassinados em Pisagua,
feliz ano-novo, irmãos,
sob a dura terra que amastes,
que defendestes.
Hoje estais
sob as salinas que rangem
dizendo os vossos nomes puros,
sob as rosas estendidas
do salitre, sob a areia
cruel do deserto ilimitado.
Feliz ano-novo, irmãos
meus, quanto amor
me ensinastes, quanto
domínio sobre a ternura
abarcastes na morte!
Sois como as ilhas que nascem
de repente no meio do oceano,
sustentadas pelo espaço
e pela firmeza marinha.
Aprendi o mundo de vós:
a pureza, o pão infinito.
Me mostrastes a vida, a área
do sal, a cruz dos pobres.
Cruzei as vidas do deserto
como um barco num mar escuro
e me mostráveis a meu lado
os trabalhos do homem, o solo,
a casa andrajosa, o silvo
da miséria nas planuras.
Félix Morales, te recordo
pintando um retrato alto, fino
esbelto e jovem como uma nova
algarobeira, nas extensões
sedentas do pampa.
Tuas melenas bravias batiam
em teu rosto pálido, pintavas
o retrato de um demagogo
para as próximas eleições.
Te recordo dando a vida
em tua pintura, encarapitado
na escada, resumindo
toda a sua doce juventude.
Ias fazendo o sorriso
de teu verdugo na tela,
agregando branco, medindo,
acrescentando luz na boca
que ordenou depois tua agonia.
Ángel, Ángel, Ángel Veas,
operário do pampa, puro
como o metal desenterrado,
já te assassinaram, já estás
onde quiseram que estivesses
os amos do chão do Chile:
debaixo das pedras devoradoras
que com as tuas mãos tantas vezes
levantaste para a grandeza.
Nada mais puro que a tua vida.
Só as pálpebras dos ares.
Só as águas mananciais.
Só o metal inacessível.
Levarei pela vida inteira
a honra de ter estreitado
tua nobre mão combatente.
Eras tranqüilo, eras madeira
educada no sofrimento
até ser ferramenta pura.
Te recordo quando se honrava
a intendência de Iquique contigo,
trabalhador, asceta, irmão.
Faltava pão, farinha.
Então
levantavas antes da aurora
e com as tuas mãos repartias
o pão para todos.
Nunca
te vi tão grande, eras o pão,
eras o pão do povo, aberto
com o teu coração na terra.
E quando tarde na jornada
voltavas carregando o volume
do dia de luta terrível,
sorrias como a farinha,
entravas em tua paz de pão,
e te repartias de novo,
até que o sonho reunia
teu debulhado coração.
IV
González Videla
Quem foi? Quem é? onde estou, me perguntam,
em outras terras onde vou errante.
No Chile não perguntam, os punhos contra o vento,
os olbos nas minas se dirigcm a um ponto,
a um vicíoso traidor que com eles chorava
quando pediu seus votos para trepar ao trono.
Viram-no estes homens de Pisagua, os bravos
titãs do carvão: derramava as lágrimas,
arrancava os dentes prometendo,
abraçava e beijava as crianças que agora
limpam com areia a marca de sua pústula.
Fm minha cidade, em minha terra o conhecemos.
Dorme
o lavrador pensando quando suas duras mãos
poderão cercar seu pescoço de cão mentiroso,
e o mineiro na sombra de sua cova intranqüila
estira o pé sonhando que esmagou com a sola
este piolho maligno, degradado insaciável.
Sabe quem é o que fala atrás duma cortina
de baionetas, ou atrás de animais de feira,
ou atrás dos novos mercadores,
mas nunca atrás do povo que o procura
para falar uma hora com ele, sua última hora.
A meu povo arrancou a esperança, sorrindo,
vendeu-a nas trevas a seu melhor licitador,
e em vez de casas frescas e liberdades, feriram-no,
espancaram-no na garganta da mina,
lhe decretaram o salário atrás duma coronha,
enquanto uma tertúlia governava dançando
com dentes afiados de jacarés noturnos.
V
Eu não sofri
Mas não sofreste tu? Eu não sofri.
Eu sofro
só os sofrimentos do meu povo.
Eu vivo
por dentro, por dentro de minha pátria, célula
de seu infinito e abrasado sangue.
Não tenho tempo para as minhas dores.
Nada me faz sofrer além destas vidas
que a mim deram sua confiança pura,
e que um traidor fez rolar para o fundo
do buraco morto, de onde
é preciso de novo erguer-se a rosa.
Quando o verdugo pressionou os juízes
para que condenassem
o meu coração, meu enxame decidido,
o povo abriu seu labirinto imenso,
o porão em que dormem os seus amores,
e lá me sustentaram, vigiando
até a entrada da luz e do ar.
Me disseram: “Somos teus credores,
és o que há de pôr a marca fria
sobre os sujos nomes do perverso”.
E só sofri de não ter sofrido.
Só de não ter percorrido os escuros
cárceres de meu irmão e de meu irmão,
com toda a minha paixão como uma ferida,
e cada passo falso a mim rolava.
cada golpe nas tuas costas me machucava,
cada gota de sangue do martírio
resvalou até meu canto que sangrava.
VI
Neste tempo
Feliz ano.
.
.
Hoje que tens
minha terra a teus dois lados, és feliz, irmão.
Eu sou errante filho do que amo.
Responde-me, pensa que estou contigo
a perguntar-te, pensa que sou o vento de janeiro,
vento puelche, vento velho das montanhas
que quando abres a porta te visita
sem entrar, ventilando suas rápidas perguntas.
Dize-me, entraste por um campo de trigo ou de cevada,
estão dourados? Fala-me de um dia de cerejas.
Longe do Chile penso num dia redondo,
cor de amora, transparente, de açúcar em cachos,
e de grãos espessos e azuis que gotejam
em minha boca as suas taças carregadas de delícia.
Dize-me, mordeste hoje a anca pura
de um pêssego, e enchendo-te de imortal ambrosia,
até que também foste fonte da terra,
fruto c fruto entregues ao esplendor do mundo?
VII
Antes me falaram
Por estas mesmas terras forasteiras andei
eu outro tempo: o nome de minha pátria brilhava
como os constelados segredos de seu céu.
O perseguido de todas as latitudes, cego,
oprimido pela ameaça e pela ignomínia,
me tocava as mãos, me dizia “chileno”
com uma voz manchada pela esperança.
Então
a tua voz tinha o eco de um hino, eram pequenas
as tuas mãos arenosas, pátria, mas cobriram
mais de uma ferida, resgataram
mais de uma primavera desolada.
Levas guardada toda essa esperança,
reprimida em tua paz, sob a terra,
vasta semente para todo homem,
ressurreição segura da estrela.
VIII
As vozes do Chile
Antes a voz do Chile foi metálica
voz da liberdade, de vento e prata,
antes ressoou nas alturas
do planeta recém-cicatrizado,
de nossa América agredida
por matagais e centauros.
Até à neve intacta subiu, no desvelo,
subiu o teu coro de folhas honoráveis,
o canto de águas livres de teus rios,
a majestade azul de teu decoro.
Era Isidoro Errázuriz vertendo
sua combatente estrela cristalina,
sobre cidades obscuras e amarradas,
era Bilbao com sua cara
de pequeno planeta tumultuoso,
foi Vicuña Mackenna transportando
sua inumerável e germinal folhagem
prenhe de indícios e sementes
por outras cidades em que a janela
foi fechada á luz.
Eles entraram
e acenderam a lâmpada na noite,
e no amargo do dia de outras cidades
foram a luz mais alta da neve.
IX
Os mentirosos
Hoje se chamam Gajardo, Manuel Trucco,
Hernán Santa Cruz, Enrique Berstein,
Germán Vergara, os que - pagamento adiantado -
dizem falar, ó Pátria, em teu sagrado
nome e pretendem defender-te afundando
a tua herança de leão na imundície.
Anões amassados como pílulas
na botica do traidor, ratazanas
do pressuposto, mínimos
mentirosos, esporeadores
de nossa força, pobres
mercenários de mãos estendidas
e línguas de coelhos caluniadores.
Não são minha pátria, eu o declaro
a quem me queira ouvir por estas terras,
não são o homem grande do salitre,
não são o sal do povo transparente,
não são as lentas mãos que constroem
o monumento da agricultura,
não são, não existem, mentem e arrazoam
para continuar, sem existir, cobrando.
X
Serão nomeados
Enquanto escrevo minha mão esquerda me reprova.
Me diz: por que os nomeias, que são, que valem?
Por que não os deixaste em seu anônimo lodo
de inverno, nesse lodo em que urinam os cavalos?
E minha mão direita lhe responde: “Nasci
para bater nas portas, para brandir os golpes,
para acender as últimas retiradas sombras
nas quais se alimenta a aranha venenosa”.
Serão nomeados.
Não me entregaste, pátria,
o doce privilégio de nomear-te
apenas em teus alhelies e tua espuma,
não me deste palavras, pátria, para chamar-te
apenas com nomes de ouro, de pólen, de fragrância,
para esparzir semeando as gotas de orvalho
que caem de tua negra cabeleira imperiosa:
me deste com o leite e a carne as sílabas
que nomearão também os pálidos vermes
que viajam no teu ventre,
os que acossam o teu sangue, saqueando-te a vida.
XI
Os vermes do bosque
Algo do bosque antigo caiu, foi a tormenta
talvez, purificando crescimentos e camadas,
e nos troncos caídos fermentaram os fungos,
as lesmas cruzaram seus fios nauseabundos,
e a madeira morta que caiu das alturas
encheu-se de buracos e de larvas espantosas.
Assim está o teu costado, pátria, a desditada
governação de insetos que povoam tuas feridas,
os grossos traficantes que mastigam arame,
os que desde palácio negociam com o ouro,
os vermes que juntam micros e pescarias,
os que te roem algo cobertos pelo manto
do traidor que dança sua zamba excitada,
o jornalista que encarcera seus companheiros,
o sujo delator que faz governo,
o pedante que se apodera duma revista pedante
com o ouro roubado dos yaganes,
o almirante tonto como um tomate, o gringo
que cospe a seus vassalos uma bolsa com dólares
XII
Pátria, querem te repartir
“Chamavam-no de chileno”, dizem de mim estas larvas.
Querem tirar-me a pátria sob os pés, desejam
corrar-te para eles como um baralho sujo
e repartir-te entre eles como uma carne gordurosa.
Não os amo.
Crêem eles que já te têm morta,
esquartejada, e na orgia de seus desígnios sujos
te gastam como donos.
Não os amo.
A mim deixa-me
amar-te em terra e povo, deixa-me perseguir
o meu sonho em tuas fronteiras marinhas e nevadas,
deixa-me recolher todo o perfume amargo
teu que numa taça levo pelos caminhos,
mas não posso estar com eles, não me peças
quando sacudires os ombros e tombem no chão
com suas germinações de animais apodrecidos,
não me peças que acredite que sejam teus filhos.
É outra
a madeira sagrada de meu povo.
Amanhã
serás na estreitem da tua embarcação cingida,
entre as duas marés de oceano e de neve,
a mais amada, o pão, a terra, o filho.
De dia o nobre rito do tempo libertado,
de noite a entidade estrelada do céu.
XIII
Recebem ordens contra o Chile
Mas atrás de todos eles há que buscar, há algo
atrás dos traidores e dos ratos que roem,
há um império que põe a mesa,
que serve a comida e as balas.
Querem fazer de ti o que logram na Grécia.
Os señoritos gregos no banquete, c balas
ao povo nas montanhas: há que extirpar o vôo
da nova Vitória de Samotrácia, há que enforcar,
matar, perder, mergulhar o punhal assassino
empunhado em Nova York, há que romper com fogo
o orgulho do homem que assomava
por todas as partes como se nascesse
da terra regada pelo sangue.
Há que armar Chianga e o ínfimo Videla,
há que dar-lhes dinheiro para cárceres, asas
para que bombardeiem compatriotas, há que dar-lhes
um pão velho, alguns dólares, fazem eles o resto,
eles mentem, corrompem, dançam sobre os mortos
e suas esposas reluzem os visões mais caros.
Não importa a agonia do povo, deste martírio
necessitam os amos donos do cobre: há fatos:
os generais deixam o exército e servem
de assistentes no staff de Chuquicamata,
e no salitre o general “chileno”
ordena com sua espada quanto devem pedir
como aumento de salário os filhos do pampa.
Assim ordenam de cima, da bolsa com dólares,
assim recebe a ordem o anão traidor,
assim os generais se fazem de polícias,
assim apodrece o tronco da árvore da pátria.
XIV
Recordo o mar
Chileno, tens ido ao mar neste tempo?
Vai em meu nome, molha tuas mãos e levanta-as
e eu de outras terras adorarei essas gotas
que caem da água infinita em teu rosto.
Eu conheço, vivi toda a minha costa,
o grosso mar do norte, dos páramos, até
o peso tempestuoso da espuma nas ilhas.
Recordo o mar, as costas gretadas e férreas
de Coquimbo, as águas altaneiras de Tralca,
as solitárias ondas do sul, que me criaram.
Recordo em Puerto Montt e nas ilhas, à noite,
ao voltar pela praia, a embarcação que espera,
e nossos pés deixavam em suas marcas o fogo,
as chamas misteriosas de um deus fosforescente.
Cada pisada era um regueiro de fósforo.
Íamos escrevendo com estrelas a terra.
E no mar resvalando a barca sacudia
uma ramagem de fogo marinho, de vaga-lumes,
uma onda inumerável de olhos que despertavam
uma vez c tornavam a dormir em seu abismo.
XV
Não há perdão
Eu quero terra, fogo, pão, açúcar, farinha,
mar, livros, pátria para todos, por isso
ando errante: os juízes do traidor me perseguem
e seus turiferários tratam, como os micos
amestrados, de encharcar minha lembrança.
Fui eu com ele, com esse que preside, à boca
da mina, ao deserto da aurora esquecida,
eu fui com ele e disse a meus pobres irmãos:
“Não guardareis os fios da roupa esfarrapada,
não tereis este dia sem pão, sereis tratados
como se fôsseis filhos da pátria”.
“Agora
vamos repartir a beleza, e os olhos
das mulheres não chorarão por seus filhos.
”
E quando em vez de amor repartido, na noite
à fome e ao martírio lançaram a esse mesmo,
a esse que o escutou, a esse que sua força
e sua ternura de árvore poderosa entregara,
então eu não estive com o pequeno sátrapa,
mas com aquele homem sem nome, com meu povo.
Eu quem a minha pátria para os meus, quero
a luz igual sobre a cabeleira
de minha pátria acesa,
quero o amor do dia e do arado,
quero apagar a linha que com ódio
fazem para apartar o pão do povo,
e ao que desviou a linha da pátria
até entregá-la como carcereiro,
atada, aos que pagam para feri-la,
eu não vou cantá-lo nem calá-lo,
vou deixar seu número e seu nome
cravado na parede da desonra.
XVI
Tu lutarás
Este ano-novo, compatriota, é teu.
Nasceu mais de ti do que do tempo, escolhe
o melhor de tua vida e o entrega ao combate.
Este ano que caiu como morto em seu túmulo
não pode repousar com amor e com medo.
Este ano morto é ano de dores que acusam.
E quando suas raízes amargas, na hora
da festa, à noite, se desprenderem e caírem
e subir outro cristal ignorado até o vazio
de um ano que a tua vida encherá pouco a pouco,
dá-lhe a dignidade que requer a minha pátria,
a tua, esta estreiteza de vulcões e vinhos.
Eu não sou cidadão de meu país: me escrevem
que o clown indecoroso que governa apagou
com outros milhares de nomes o meu
das listas que eram as leis da República.
Meu nome está apagado para que eu não exista,
para que o torvo abutre da masmorra vote
e votem os bestiais encarregados que dão
pancadas e o tormento nos porões
do governo, para que votem bem garantidos
os mordomos, caporais, sócios
do negociante que entregou a Pátria.
Eu estou errante, vivo a angústia de estar longe
do preso e da flor, do homem e da terra,
porém tu lutarás para apagar a mancha
de esterco sobre o mapa, tu lutarás sem dúvida
para que a vergonha deste tempo termine
e se abram as prisões do povo e se levantem
as asas da vitória traída.
XVII
Feliz ano-novo para minha pátria em trevas
Feliz ano este ano, para ti, para todos
os homens, e as terras, Araucania amada.
Entre ti e minha existência há esta noite nova
que nos separa, e bosques e rios e caminhos.
Porém até a ti, pequena pátria minha,
como um cavalo escuro meu coração galopa:
entro por seus desertos de pura geografia,
passo pelos vales verdes onde a uva acumula
seus verdes álcoois, o mar de seus cachos.
Entro em tuas aldeias de jardim fechado,
brancas como camélias, no acre
odor de tuas adegas, e penetro
como um madeiro a água dos rios que tremem
trepidando e cantando com lábios transbordados.
Recordo, nos caminhos, talvez neste tempo,
ou melhor no outono, sobre as casas deixam
as espigas douradas do milho secando,
e quantas vezes fui como um menino extasiado
a ver o ouro nos retos dos pobres.
Te abraço, devo agora
retornar a meu lugar escondido.
Te abraço
sem conhecer-te: dize-me quem és, reconheces
a minha voz no coro do que está nascendo?
Entre todas as coisas que te rodeiam, ouves
minha voz, não sentes como te cerca meu acento
emanado como água natural da terra?
Sou eu que abraço toda a superfície doce,
a cintura florida de minha pátria e te chamo
para que falemos quando se apague a alegria
e entregar-te esta hora como uma flor fechada.
Feliz ano-novo para minha pátria em trevas.
Vamos juntos, está o mundo coroado de trigo,
o alto céu corre deslizando e rompendo
suas altas pedras puras contra a noite: apenas
se encheu a nova taça com um minuto
que há de juntar-se ao rio do tempo que nos leva.
Este tempo, esta taça, esta terra são teus:
conquista-os e escuta como nasce a aurora.
Saudação (1949)
De arames oxidados pela água salobre?
É Pisagua também teu rosto agora?
Quem te fez mal, como atravessaram
com um punhal o teu mel despido?
Antes de ninguém, para eles minha saudação,
para os homens, para o plinto de dores,
para as mulheres, ramos de mañio,
para as crianças, escolas transparentes,
que sobre as areias de Pisagua
foram a pátria perseguida, foram
toda a honra da terra que amo.
Será a honra sagrada de amanhã
ter sido arrojado a tuas areias,
Pisagua: ter sido de repente
recolhido à noite do terror
por ordem de um traidor envilecido
e ter chegado a teu calcário inferno
para defender a dignidade do homem.
II Os homens de Pisagua
Não esquecerei as tuas costas mortas onde
do mar hostil a suja dentada
ataca as paredes do tormento
e a pique se levantam os baluartes
dos pelados cerros infernais:
não esquecerei como olhais as águas,
para o mundo que esquece os vossos rostos,
não esquecerei quando de olhos cheios
de interrogante luz, voltais
o rosto às terras pálidas do Chile
dominadas por lobos e ladrões.
Sei como vos lançaram a comida,
como a cães sarnentos, no chão,
até que fizestes de pequenas latas
vazias os vossos pratos:
sei como vos lançaram para dormir
e como em fila recebestes,
carrancudos e valentes,
os imundos feijões
que tantas vezes às areias lançastes.
Sei como, quando recebíeis
roupa, alimentos que de toda
a extensão da pátria se juntaram,
sentistes com orgulho
que talvez, que talvez não estáveis sós.
Valentes, temperados compatriotas
que dais um novo sentido à terra:
fostes os escolhidos na caçada,
para que por vós todo o povo
sofresse em desterrados areais.
E escolheram inferno examinando
o mapa, até que acharam
este salobre cárcere, estes muros
de solidão, de surpreendedora
angústia, para que golpeareis a cabeça
sob os pés do ínfimo tirano.
Mas não acharam sua própria matéria:
não sois feitos de esterco como o pútrido,
vermiforme traidor: mentiram
seus informes, acharam
a firmeza metálica do povo,
o coração do cobre e seu silêncio.
É o metal que fundará a pátria
quando o vento do povo areento
expulsar o capitão da imundície.
Firmes, firmes irmãos,
firmes quando em caminhões, agredidos
à noite nas cabanas, empurrados,
amarrados os braços com arame,
sem despertar, apenas surpreendidos
e atropelados, fostes para Pisagua,
levados por armados carcereiros.
Depois voltaram eles
e encheram caminhões com famílias
desamparadas, batendo nas crianças.
E um pranto de filhos doces aparece
ainda na noite do deserto, um pranto
de milhares de bocas infantis,
como um coro que busca o duro vento
para que escutemos, para que não nos esqueçamos.
III
Os heróis
Félix Morales, Ángel Vcas,
assassinados em Pisagua,
feliz ano-novo, irmãos,
sob a dura terra que amastes,
que defendestes.
Hoje estais
sob as salinas que rangem
dizendo os vossos nomes puros,
sob as rosas estendidas
do salitre, sob a areia
cruel do deserto ilimitado.
Feliz ano-novo, irmãos
meus, quanto amor
me ensinastes, quanto
domínio sobre a ternura
abarcastes na morte!
Sois como as ilhas que nascem
de repente no meio do oceano,
sustentadas pelo espaço
e pela firmeza marinha.
Aprendi o mundo de vós:
a pureza, o pão infinito.
Me mostrastes a vida, a área
do sal, a cruz dos pobres.
Cruzei as vidas do deserto
como um barco num mar escuro
e me mostráveis a meu lado
os trabalhos do homem, o solo,
a casa andrajosa, o silvo
da miséria nas planuras.
Félix Morales, te recordo
pintando um retrato alto, fino
esbelto e jovem como uma nova
algarobeira, nas extensões
sedentas do pampa.
Tuas melenas bravias batiam
em teu rosto pálido, pintavas
o retrato de um demagogo
para as próximas eleições.
Te recordo dando a vida
em tua pintura, encarapitado
na escada, resumindo
toda a sua doce juventude.
Ias fazendo o sorriso
de teu verdugo na tela,
agregando branco, medindo,
acrescentando luz na boca
que ordenou depois tua agonia.
Ángel, Ángel, Ángel Veas,
operário do pampa, puro
como o metal desenterrado,
já te assassinaram, já estás
onde quiseram que estivesses
os amos do chão do Chile:
debaixo das pedras devoradoras
que com as tuas mãos tantas vezes
levantaste para a grandeza.
Nada mais puro que a tua vida.
Só as pálpebras dos ares.
Só as águas mananciais.
Só o metal inacessível.
Levarei pela vida inteira
a honra de ter estreitado
tua nobre mão combatente.
Eras tranqüilo, eras madeira
educada no sofrimento
até ser ferramenta pura.
Te recordo quando se honrava
a intendência de Iquique contigo,
trabalhador, asceta, irmão.
Faltava pão, farinha.
Então
levantavas antes da aurora
e com as tuas mãos repartias
o pão para todos.
Nunca
te vi tão grande, eras o pão,
eras o pão do povo, aberto
com o teu coração na terra.
E quando tarde na jornada
voltavas carregando o volume
do dia de luta terrível,
sorrias como a farinha,
entravas em tua paz de pão,
e te repartias de novo,
até que o sonho reunia
teu debulhado coração.
IV
González Videla
Quem foi? Quem é? onde estou, me perguntam,
em outras terras onde vou errante.
No Chile não perguntam, os punhos contra o vento,
os olbos nas minas se dirigcm a um ponto,
a um vicíoso traidor que com eles chorava
quando pediu seus votos para trepar ao trono.
Viram-no estes homens de Pisagua, os bravos
titãs do carvão: derramava as lágrimas,
arrancava os dentes prometendo,
abraçava e beijava as crianças que agora
limpam com areia a marca de sua pústula.
Fm minha cidade, em minha terra o conhecemos.
Dorme
o lavrador pensando quando suas duras mãos
poderão cercar seu pescoço de cão mentiroso,
e o mineiro na sombra de sua cova intranqüila
estira o pé sonhando que esmagou com a sola
este piolho maligno, degradado insaciável.
Sabe quem é o que fala atrás duma cortina
de baionetas, ou atrás de animais de feira,
ou atrás dos novos mercadores,
mas nunca atrás do povo que o procura
para falar uma hora com ele, sua última hora.
A meu povo arrancou a esperança, sorrindo,
vendeu-a nas trevas a seu melhor licitador,
e em vez de casas frescas e liberdades, feriram-no,
espancaram-no na garganta da mina,
lhe decretaram o salário atrás duma coronha,
enquanto uma tertúlia governava dançando
com dentes afiados de jacarés noturnos.
V
Eu não sofri
Mas não sofreste tu? Eu não sofri.
Eu sofro
só os sofrimentos do meu povo.
Eu vivo
por dentro, por dentro de minha pátria, célula
de seu infinito e abrasado sangue.
Não tenho tempo para as minhas dores.
Nada me faz sofrer além destas vidas
que a mim deram sua confiança pura,
e que um traidor fez rolar para o fundo
do buraco morto, de onde
é preciso de novo erguer-se a rosa.
Quando o verdugo pressionou os juízes
para que condenassem
o meu coração, meu enxame decidido,
o povo abriu seu labirinto imenso,
o porão em que dormem os seus amores,
e lá me sustentaram, vigiando
até a entrada da luz e do ar.
Me disseram: “Somos teus credores,
és o que há de pôr a marca fria
sobre os sujos nomes do perverso”.
E só sofri de não ter sofrido.
Só de não ter percorrido os escuros
cárceres de meu irmão e de meu irmão,
com toda a minha paixão como uma ferida,
e cada passo falso a mim rolava.
cada golpe nas tuas costas me machucava,
cada gota de sangue do martírio
resvalou até meu canto que sangrava.
VI
Neste tempo
Feliz ano.
.
.
Hoje que tens
minha terra a teus dois lados, és feliz, irmão.
Eu sou errante filho do que amo.
Responde-me, pensa que estou contigo
a perguntar-te, pensa que sou o vento de janeiro,
vento puelche, vento velho das montanhas
que quando abres a porta te visita
sem entrar, ventilando suas rápidas perguntas.
Dize-me, entraste por um campo de trigo ou de cevada,
estão dourados? Fala-me de um dia de cerejas.
Longe do Chile penso num dia redondo,
cor de amora, transparente, de açúcar em cachos,
e de grãos espessos e azuis que gotejam
em minha boca as suas taças carregadas de delícia.
Dize-me, mordeste hoje a anca pura
de um pêssego, e enchendo-te de imortal ambrosia,
até que também foste fonte da terra,
fruto c fruto entregues ao esplendor do mundo?
VII
Antes me falaram
Por estas mesmas terras forasteiras andei
eu outro tempo: o nome de minha pátria brilhava
como os constelados segredos de seu céu.
O perseguido de todas as latitudes, cego,
oprimido pela ameaça e pela ignomínia,
me tocava as mãos, me dizia “chileno”
com uma voz manchada pela esperança.
Então
a tua voz tinha o eco de um hino, eram pequenas
as tuas mãos arenosas, pátria, mas cobriram
mais de uma ferida, resgataram
mais de uma primavera desolada.
Levas guardada toda essa esperança,
reprimida em tua paz, sob a terra,
vasta semente para todo homem,
ressurreição segura da estrela.
VIII
As vozes do Chile
Antes a voz do Chile foi metálica
voz da liberdade, de vento e prata,
antes ressoou nas alturas
do planeta recém-cicatrizado,
de nossa América agredida
por matagais e centauros.
Até à neve intacta subiu, no desvelo,
subiu o teu coro de folhas honoráveis,
o canto de águas livres de teus rios,
a majestade azul de teu decoro.
Era Isidoro Errázuriz vertendo
sua combatente estrela cristalina,
sobre cidades obscuras e amarradas,
era Bilbao com sua cara
de pequeno planeta tumultuoso,
foi Vicuña Mackenna transportando
sua inumerável e germinal folhagem
prenhe de indícios e sementes
por outras cidades em que a janela
foi fechada á luz.
Eles entraram
e acenderam a lâmpada na noite,
e no amargo do dia de outras cidades
foram a luz mais alta da neve.
IX
Os mentirosos
Hoje se chamam Gajardo, Manuel Trucco,
Hernán Santa Cruz, Enrique Berstein,
Germán Vergara, os que - pagamento adiantado -
dizem falar, ó Pátria, em teu sagrado
nome e pretendem defender-te afundando
a tua herança de leão na imundície.
Anões amassados como pílulas
na botica do traidor, ratazanas
do pressuposto, mínimos
mentirosos, esporeadores
de nossa força, pobres
mercenários de mãos estendidas
e línguas de coelhos caluniadores.
Não são minha pátria, eu o declaro
a quem me queira ouvir por estas terras,
não são o homem grande do salitre,
não são o sal do povo transparente,
não são as lentas mãos que constroem
o monumento da agricultura,
não são, não existem, mentem e arrazoam
para continuar, sem existir, cobrando.
X
Serão nomeados
Enquanto escrevo minha mão esquerda me reprova.
Me diz: por que os nomeias, que são, que valem?
Por que não os deixaste em seu anônimo lodo
de inverno, nesse lodo em que urinam os cavalos?
E minha mão direita lhe responde: “Nasci
para bater nas portas, para brandir os golpes,
para acender as últimas retiradas sombras
nas quais se alimenta a aranha venenosa”.
Serão nomeados.
Não me entregaste, pátria,
o doce privilégio de nomear-te
apenas em teus alhelies e tua espuma,
não me deste palavras, pátria, para chamar-te
apenas com nomes de ouro, de pólen, de fragrância,
para esparzir semeando as gotas de orvalho
que caem de tua negra cabeleira imperiosa:
me deste com o leite e a carne as sílabas
que nomearão também os pálidos vermes
que viajam no teu ventre,
os que acossam o teu sangue, saqueando-te a vida.
XI
Os vermes do bosque
Algo do bosque antigo caiu, foi a tormenta
talvez, purificando crescimentos e camadas,
e nos troncos caídos fermentaram os fungos,
as lesmas cruzaram seus fios nauseabundos,
e a madeira morta que caiu das alturas
encheu-se de buracos e de larvas espantosas.
Assim está o teu costado, pátria, a desditada
governação de insetos que povoam tuas feridas,
os grossos traficantes que mastigam arame,
os que desde palácio negociam com o ouro,
os vermes que juntam micros e pescarias,
os que te roem algo cobertos pelo manto
do traidor que dança sua zamba excitada,
o jornalista que encarcera seus companheiros,
o sujo delator que faz governo,
o pedante que se apodera duma revista pedante
com o ouro roubado dos yaganes,
o almirante tonto como um tomate, o gringo
que cospe a seus vassalos uma bolsa com dólares
XII
Pátria, querem te repartir
“Chamavam-no de chileno”, dizem de mim estas larvas.
Querem tirar-me a pátria sob os pés, desejam
corrar-te para eles como um baralho sujo
e repartir-te entre eles como uma carne gordurosa.
Não os amo.
Crêem eles que já te têm morta,
esquartejada, e na orgia de seus desígnios sujos
te gastam como donos.
Não os amo.
A mim deixa-me
amar-te em terra e povo, deixa-me perseguir
o meu sonho em tuas fronteiras marinhas e nevadas,
deixa-me recolher todo o perfume amargo
teu que numa taça levo pelos caminhos,
mas não posso estar com eles, não me peças
quando sacudires os ombros e tombem no chão
com suas germinações de animais apodrecidos,
não me peças que acredite que sejam teus filhos.
É outra
a madeira sagrada de meu povo.
Amanhã
serás na estreitem da tua embarcação cingida,
entre as duas marés de oceano e de neve,
a mais amada, o pão, a terra, o filho.
De dia o nobre rito do tempo libertado,
de noite a entidade estrelada do céu.
XIII
Recebem ordens contra o Chile
Mas atrás de todos eles há que buscar, há algo
atrás dos traidores e dos ratos que roem,
há um império que põe a mesa,
que serve a comida e as balas.
Querem fazer de ti o que logram na Grécia.
Os señoritos gregos no banquete, c balas
ao povo nas montanhas: há que extirpar o vôo
da nova Vitória de Samotrácia, há que enforcar,
matar, perder, mergulhar o punhal assassino
empunhado em Nova York, há que romper com fogo
o orgulho do homem que assomava
por todas as partes como se nascesse
da terra regada pelo sangue.
Há que armar Chianga e o ínfimo Videla,
há que dar-lhes dinheiro para cárceres, asas
para que bombardeiem compatriotas, há que dar-lhes
um pão velho, alguns dólares, fazem eles o resto,
eles mentem, corrompem, dançam sobre os mortos
e suas esposas reluzem os visões mais caros.
Não importa a agonia do povo, deste martírio
necessitam os amos donos do cobre: há fatos:
os generais deixam o exército e servem
de assistentes no staff de Chuquicamata,
e no salitre o general “chileno”
ordena com sua espada quanto devem pedir
como aumento de salário os filhos do pampa.
Assim ordenam de cima, da bolsa com dólares,
assim recebe a ordem o anão traidor,
assim os generais se fazem de polícias,
assim apodrece o tronco da árvore da pátria.
XIV
Recordo o mar
Chileno, tens ido ao mar neste tempo?
Vai em meu nome, molha tuas mãos e levanta-as
e eu de outras terras adorarei essas gotas
que caem da água infinita em teu rosto.
Eu conheço, vivi toda a minha costa,
o grosso mar do norte, dos páramos, até
o peso tempestuoso da espuma nas ilhas.
Recordo o mar, as costas gretadas e férreas
de Coquimbo, as águas altaneiras de Tralca,
as solitárias ondas do sul, que me criaram.
Recordo em Puerto Montt e nas ilhas, à noite,
ao voltar pela praia, a embarcação que espera,
e nossos pés deixavam em suas marcas o fogo,
as chamas misteriosas de um deus fosforescente.
Cada pisada era um regueiro de fósforo.
Íamos escrevendo com estrelas a terra.
E no mar resvalando a barca sacudia
uma ramagem de fogo marinho, de vaga-lumes,
uma onda inumerável de olhos que despertavam
uma vez c tornavam a dormir em seu abismo.
XV
Não há perdão
Eu quero terra, fogo, pão, açúcar, farinha,
mar, livros, pátria para todos, por isso
ando errante: os juízes do traidor me perseguem
e seus turiferários tratam, como os micos
amestrados, de encharcar minha lembrança.
Fui eu com ele, com esse que preside, à boca
da mina, ao deserto da aurora esquecida,
eu fui com ele e disse a meus pobres irmãos:
“Não guardareis os fios da roupa esfarrapada,
não tereis este dia sem pão, sereis tratados
como se fôsseis filhos da pátria”.
“Agora
vamos repartir a beleza, e os olhos
das mulheres não chorarão por seus filhos.
”
E quando em vez de amor repartido, na noite
à fome e ao martírio lançaram a esse mesmo,
a esse que o escutou, a esse que sua força
e sua ternura de árvore poderosa entregara,
então eu não estive com o pequeno sátrapa,
mas com aquele homem sem nome, com meu povo.
Eu quem a minha pátria para os meus, quero
a luz igual sobre a cabeleira
de minha pátria acesa,
quero o amor do dia e do arado,
quero apagar a linha que com ódio
fazem para apartar o pão do povo,
e ao que desviou a linha da pátria
até entregá-la como carcereiro,
atada, aos que pagam para feri-la,
eu não vou cantá-lo nem calá-lo,
vou deixar seu número e seu nome
cravado na parede da desonra.
XVI
Tu lutarás
Este ano-novo, compatriota, é teu.
Nasceu mais de ti do que do tempo, escolhe
o melhor de tua vida e o entrega ao combate.
Este ano que caiu como morto em seu túmulo
não pode repousar com amor e com medo.
Este ano morto é ano de dores que acusam.
E quando suas raízes amargas, na hora
da festa, à noite, se desprenderem e caírem
e subir outro cristal ignorado até o vazio
de um ano que a tua vida encherá pouco a pouco,
dá-lhe a dignidade que requer a minha pátria,
a tua, esta estreiteza de vulcões e vinhos.
Eu não sou cidadão de meu país: me escrevem
que o clown indecoroso que governa apagou
com outros milhares de nomes o meu
das listas que eram as leis da República.
Meu nome está apagado para que eu não exista,
para que o torvo abutre da masmorra vote
e votem os bestiais encarregados que dão
pancadas e o tormento nos porões
do governo, para que votem bem garantidos
os mordomos, caporais, sócios
do negociante que entregou a Pátria.
Eu estou errante, vivo a angústia de estar longe
do preso e da flor, do homem e da terra,
porém tu lutarás para apagar a mancha
de esterco sobre o mapa, tu lutarás sem dúvida
para que a vergonha deste tempo termine
e se abram as prisões do povo e se levantem
as asas da vitória traída.
XVII
Feliz ano-novo para minha pátria em trevas
Feliz ano este ano, para ti, para todos
os homens, e as terras, Araucania amada.
Entre ti e minha existência há esta noite nova
que nos separa, e bosques e rios e caminhos.
Porém até a ti, pequena pátria minha,
como um cavalo escuro meu coração galopa:
entro por seus desertos de pura geografia,
passo pelos vales verdes onde a uva acumula
seus verdes álcoois, o mar de seus cachos.
Entro em tuas aldeias de jardim fechado,
brancas como camélias, no acre
odor de tuas adegas, e penetro
como um madeiro a água dos rios que tremem
trepidando e cantando com lábios transbordados.
Recordo, nos caminhos, talvez neste tempo,
ou melhor no outono, sobre as casas deixam
as espigas douradas do milho secando,
e quantas vezes fui como um menino extasiado
a ver o ouro nos retos dos pobres.
Te abraço, devo agora
retornar a meu lugar escondido.
Te abraço
sem conhecer-te: dize-me quem és, reconheces
a minha voz no coro do que está nascendo?
Entre todas as coisas que te rodeiam, ouves
minha voz, não sentes como te cerca meu acento
emanado como água natural da terra?
Sou eu que abraço toda a superfície doce,
a cintura florida de minha pátria e te chamo
para que falemos quando se apague a alegria
e entregar-te esta hora como uma flor fechada.
Feliz ano-novo para minha pátria em trevas.
Vamos juntos, está o mundo coroado de trigo,
o alto céu corre deslizando e rompendo
suas altas pedras puras contra a noite: apenas
se encheu a nova taça com um minuto
que há de juntar-se ao rio do tempo que nos leva.
Este tempo, esta taça, esta terra são teus:
conquista-os e escuta como nasce a aurora.
605
Pablo Neruda
Vi - Os Homens
Eu sou Ramón Gonzáles Barbagelata, de qualquer parte,
de Cucuy, de Paraná, de Rio Turbio, de Oruro,
de Maracaibo, de Parrai, de Ovalle, de Loncomilla,
tanto faz, sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo,
o passageiro de terceira instalado, Jesus!,
na luxuosa brancura das cordilheiras nevadas,
dissimulado entre as orquídeas de fina idiossincrasia.
Cheguei a este famoso ano 2000, e que ganho,
o que me adianta, o que tenho a ver
com os três zeros que se ostentam gloriosos
sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Ai daquele coração que esperou sua bandeira
ou do homem enredado pelo amor mais terno,
hoje não resta nada além do meu vago esqueleto,
meus olhos arruinados diante do tempo inicial.
Tempo inicial: são estes barracões perdidos,
estas pobres escolas, estes ainda farrapos,
esta insegurança terrosa de minhas pobres famílias,
este é o dia, o século inicial, a porta de ouro?
Eu, pelo menos, sem falar de mais, quieto,
como fui na fábrica, remendado e absorto,
proclamo o supérfluo da inauguração:
aqui cheguei com tudo que andou comigo,
a má sorte e os piores empregos,
a miséria esperando sempre de par em par,
a mobilização da gente amontoada
e a geografia numerosa da fome.
de Cucuy, de Paraná, de Rio Turbio, de Oruro,
de Maracaibo, de Parrai, de Ovalle, de Loncomilla,
tanto faz, sou o pobre diabo do pobre Terceiro Mundo,
o passageiro de terceira instalado, Jesus!,
na luxuosa brancura das cordilheiras nevadas,
dissimulado entre as orquídeas de fina idiossincrasia.
Cheguei a este famoso ano 2000, e que ganho,
o que me adianta, o que tenho a ver
com os três zeros que se ostentam gloriosos
sobre meu próprio zero, sobre minha inexistência?
Ai daquele coração que esperou sua bandeira
ou do homem enredado pelo amor mais terno,
hoje não resta nada além do meu vago esqueleto,
meus olhos arruinados diante do tempo inicial.
Tempo inicial: são estes barracões perdidos,
estas pobres escolas, estes ainda farrapos,
esta insegurança terrosa de minhas pobres famílias,
este é o dia, o século inicial, a porta de ouro?
Eu, pelo menos, sem falar de mais, quieto,
como fui na fábrica, remendado e absorto,
proclamo o supérfluo da inauguração:
aqui cheguei com tudo que andou comigo,
a má sorte e os piores empregos,
a miséria esperando sempre de par em par,
a mobilização da gente amontoada
e a geografia numerosa da fome.
1 017
Pablo Neruda
Meio-Dia - XLII
Radiantes dias balançados pela água marinha,
concentrados como o interior de uma pedra amarela
cujo esplendor de mel não derrubou a desordem:
preservou sua pureza de retângulo.
Crepita, sim, a hora como fogo ou abelhas
e é verde a tarefa de submergir em folhas,
até que para a altura é a folhagem
um mundo cintilante que se apaga e sussurra.
Sede do fogo, abrasadora multidão do estio
que constrói um Éden com algumas quantas folhas,
porque a terra de rosto escuro não quer sofrimentos,
mas frescor ou fogo, água ou pão para todos,
e nada deverá dividir os homens
senão o sol ou a noite, a lua ou as espigas.
concentrados como o interior de uma pedra amarela
cujo esplendor de mel não derrubou a desordem:
preservou sua pureza de retângulo.
Crepita, sim, a hora como fogo ou abelhas
e é verde a tarefa de submergir em folhas,
até que para a altura é a folhagem
um mundo cintilante que se apaga e sussurra.
Sede do fogo, abrasadora multidão do estio
que constrói um Éden com algumas quantas folhas,
porque a terra de rosto escuro não quer sofrimentos,
mas frescor ou fogo, água ou pão para todos,
e nada deverá dividir os homens
senão o sol ou a noite, a lua ou as espigas.
1 237
Pablo Neruda
VIII. Um homem no Sul
Chegou o marinheiro! Os mares do Sul acolheram o homem que fugiu da névoa
e o Chile lhe estende suas mãos escuras mostrando o perigo.
E não é arrogante o guerreiro que quando sua nave recebe os quatro presentes,
a Cruz Estrelada do céu do Sul, o trevo de quatro diamantes
e baixa os olhos a minha pobre pátria andrajosa e sangrante,
compreende que aqui seu destino é fundar outra estrela no vasto vazio,
uma estrela no mar que defenda com raios de ferro o berço dos ofendidos.
e o Chile lhe estende suas mãos escuras mostrando o perigo.
E não é arrogante o guerreiro que quando sua nave recebe os quatro presentes,
a Cruz Estrelada do céu do Sul, o trevo de quatro diamantes
e baixa os olhos a minha pobre pátria andrajosa e sangrante,
compreende que aqui seu destino é fundar outra estrela no vasto vazio,
uma estrela no mar que defenda com raios de ferro o berço dos ofendidos.
1 031
Pablo Neruda
Canto VIII - A terra se chama Juan
I
Cristóbal Miranda
(“palero”, Tocopilla)
Te conheci, Cristóbal, nas lanchas
da baía, quando desce
o salitre, para o mar, na queimante
vestimenta de um dia de novembro.
Relembro aquele garbo extático,
os cerros de metal, a água quieta.
E só o homem das lanchas, úmido
de suor, removendo neve.
Neve dos nitratos, derramada
sobre os ombros da dor, caindo
na barriga cega das naves.
Ali, sapadores, heróis de uma aurora
carcomida por ácidos, sujeita
aos destinos da morte, firmes,
recebendo o nitrato caudaloso.
Cristóbal, esta lembrança para ti.
Para os camaradas da sapa,
em cujos peitos entra o ácido
e as emanações assassinas,
inchando como águias machucadas
os corações, até que tomba o homem,
até que role o homem pelas ruas,
para as cruzes quebradas do pampa.
Bem, não digamos mais nada, Cristóbal, agora
este papel que te recorda, a todos,
aos lancheiros da baía, ao homem
enegrecido dos barcos, meus olhos
seguem com vocês nesta jornada
e minha alma é uma pá que se ergue
carregando e descarregando sangue e neve,
junto de vocês, vida do deserto.
II
Jesús Gutiérrez
(“agrarista”)
Em Monterrey morreu meu pai
Genovevo Gutiérrez, se foi
com Zapata.
De noite os cavalos
perto de casa, a fumaça
dos federais, os tiros no vento,
o furacão que sai do milho,
levei o fuzil de lado a lado,
desde as terras de Sonora,
dormíamos de vez em quando, medíamos
rios e bosques, a cavalo,
entre mortos, a defender
a terra do pobre, feijões,
omelete, guitarra, rolávamos
até o limite, éramos pó,
os senhores nos faziam madrugar,
até que de cada pedra
nasciam os nossos fuzis.
Aqui está minha casa, minha terra
pequena, o certificado
firmado por meu general
Cárdenas, os perus,
os patinhos na lagoa,
agora já não se luta,
meu pai ficou em Monterrey
e aqui pendurado na parede
junto à porta a cartucheira,
o fuzil pronto, o cavalo pronto,
pela terra, por nosso pão,
amanhã talvez a galope,
se o meu general me aconselha.
III
Luis Cortés
(de Tocopilla)
Camarada, meu nome é Luis Cortés.
Quando veio a repressão, em Tocopilla
me agarraram.
Me atiraram em Pisagua.
Você, camarada, sabe como é isso.
Muitos caíram doentes, outros
enlouqueceram.
É o pior
campo de concentração de González
Videla.
Vi Ángel Veas morrer,
do coração, uma manhã.
Foi horrível
ver Veas morrer nessa areia assassina,
rodeado de cercas de arame, depois de toda
sua vida generosa.
Quando me senti doente
também do coração, me mudaram
para Garitaya.
Você não conhece, camarada.
É lá no alto, na fronteira com a Bolívia.
Um ponto desolado, a 5000 metros de altura.
Há uma água salobre para beber, mais
salobre que a água do mar, e cheia de pulgões
como vermes rosados que pululam.
Faz frio e parece que o céu em cima
da solidão vai cair sobre nós,
sobre meu coração que já mal se agüenta.
Os próprios carabineiros tiveram pena
e contra a ordem de deixar a gente morrer
sem querer nunca mandar uma maca,
me amarraram a uma mula e descemos as montanhas:
26 horas caminhou a mula, e meu corpo
já não resistia, camarada, entre a cordilheira sem caminhos,
e meu coração doente, e aqui estou eu, olhe
os machucados, não sei até quando vou viver,
mas você sente, não quero pedir nada,
conte você, camarada, o que faz ao povo o desgraçado,
a nós que o levamos à altura em que ri
com um riso de hiena em cima de nossas dores,
conte, você, camarada, conte, conte, pouco importa minha morte,
nem os nossos sofrimentos, pois a nossa luta é grande,
mas que fiquem sabendo destes sofrimentos,
que fiquem sabendo, camarada, não se esqueça.
IV
Olegario Sepúlveda
(sapateiro, Talcahuano)
Olegario Sepúlveda é meu nome.
Sou sapateiro, fiquei
coxo desde o grande terremoto.
Sobre o cortiço um pedaço de morro
e o mundo em cima de minha perna.
Lá gritei dois dias,
mas minha boca ficou cheia de terra,
gritei mais mansamente
até que adormeci para morrer.
Foi um grande silêncio o terremoto,
o terror dos morros,
as lavadeiras choravam,
uma montanha de pó
enterrou as palavras.
Aqui está me vendo com esta sola
defronte do mar, o único limpo,
as ondas nem eram pra chegar
azuis na minha porta.
Talcahuano, tuas grades sujas,
teus corredores de pobreza,
nos morros água podre,
madeira quebrada, covas negras
onde o chileno mata e morre.
(Ó dores do fio aberto
da miséria, lepra do mundo,
arrabalde dos mortos, gangrena
acusadora e venenosa!
Haveis vindo do sombrio
Pacífico, à noite, ao porto?
Haveis tocado entre as pústulas
a mão do menino, a rosa
salpicada de sangue e urina?
Haveis erguido os olhos
para os degraus retorcidos?
Haveis visto a mendiga
com um arame na lixeira
tremer, levantar os joelhos
e olhar lá do fundo onde
já não restam lágrimas nem ódio?)
Sou sapateiro em Talcahuano.
Sepúlveda, na frente do dique Grande.
Quando quiser, meu senhor, pobre
nunca fecha a porta.
V Arturo Carrión
(navegante, Iquique)
junho, 1948.
Querida Rosaura, aqui
estou eu, em Iquique, preso, me mande uma camisa
e fumo.
Não sei
até quando vai durar este baile.
Quando embarquei no Glenfoster
pensei em você, escrevi de Cádiz,
ali fuzilaram à vontade, e aí foi mais
triste em Atenas, naquela manhã
no cárcere mataram com tiro
duzentos e setenta e três moços:
o sangue corria até fora do muro,
vimos saírem os oficiais
gregos com os chefes norte-americanos, vinham rindo:
eles gostam do sangue do povo,
mas tinha um espécie de fumo preto
na cidade, estava escondido o choro, a dor, o luto,
comprei pra você uma carteira de cartões de visita, lá
conheci um patrício de Chiloé,
tem um pequeno restaurante, me disse
as coisas andam ruíns, há ódio:
mas ficou melhor na Hungria,
os camponeses têm terra,
distribuem livros, em Nova York
encontrei tua carta, mas todos
se juntam, pau e pau no pobre,
está vendo só, eu, marinheiro velho
e porque sou do sindicato,
já na coberta
me pegaram, me perguntaram
besteiras, me deixaram preso,
polícia em toda parte.
lágrimas também no pampa:
até quando estas coisas
vão continuar, perguntam todos, hoje é um
e outro pau para o pobre,
dizem que em Pisagua há dois mil,
eu pergunto o que está acontecendo no mundo,
mas não se tem direito de perguntar
assim, diz a polícía: não esqueça o fumo, fale com o Rojas
se ele não está preso, não chores,
o mundo já tem lágrimas
demais, outra coisa é que faz falta
e aqui digo até breve pra você, um
abraço e um beijo do esposo amoroso
Arturo Carrión Cornejo, cárcere de Iquiyue.
VI
Abraham Jesús Brito
(poeta popular)
Jesús Brito é seu nome, Jesús Parreira ou povo,
e foi-se fazendo água pelos olhos,
e pelas mãos se foi fazendo raízes.
até que o plantaram de novo onde esteve
antes de ser, antes que brotasse
do território, entre as pedras pobres.
E foi entre mina e marinheiro uma ave
nodosa, um patriarcal seleiro
da cortiça suave da pátria terrível:
quanto mais fria, mais luz a encontrava:
quanto mais duro o solo, mais lua lhe saía:
quanto mais fome, mais cantava.
E todo o mundo ferroviário abria
com sua chave e sua lira sarmentosa,
e pela espuma da pátria caminhava
cheio de pacotinhos estrelados,
ele, a árvore do cobre, ia regando
cada pequeno trevo acontecido,
o espantoso crime, o incêndio,
e o ramo dos rios tutelares.
Sua voz era a dos gritos roucos
perdidos na noite dos raptos,
ele levava sinos torrenciais
recolhidos à noite em seu chapéu,
e recolhia em seu casaco esfarrapado
as transbordantes lágrimas do povo.
Ia pelos ramais arenosos,
pelo espaço afundado do salitre,
pelos ásperos montes litorâneos
construindo o romance prego a prego,
e telha a telha levantando o verso:
deixando nele a mancha das mãos
e as goteiras da ortografia.
Brito, pelas paredes capitais,
entre o rumor dos cafés,
andavas como uma árvore peregrina
procurando terra com os pés profundos,
até que foste te fazendo raízes,
pedra e torrão e mineração escura.
Brito, a tua majestade foi batida
como um tambor de majestoso couro
e era uma monarquia à intempérie
a tua altivez de arvoredo e povo.
Árvore errante, agora as tuas raízes
cantam debaixo da terra, e em silêncio.
Um pouco mais profundo és agora.
Agora tens terra e tens tempo.
VII
Antonino Bernales
(pescador, Colômbia)
No rio Magdalena anda como a lua,
lento pelo planeta de folhas verdes,
uma ave vermelha ulula, zumbe o som
de velhas asas negras, as margens
têm o transcorrer de águas e águas.
Tudo ê o rio, toda vida é rio,
e Antonino Bernales era rio.
Pescador, carpinteiro, voga, agulha
de rede, prego para as tábuas,
martelo e canto, tudo era Antonino
enquanto o Magdalena como a lua lenta
arrastava o caudal das vidas do rio.
Mais alto em Bogotá, chamas, incêndio,
sangue, se diz, não é bem claro,
Gaytán morreu.
Entre as folhas
como um chacal o riso de Laureano
açula as fogueiras, um tremor
de povo como um calafrio
percorre o Magdalena.
É Antonino Bernales o culpado.
Não se mexeu de sua pequena choça.
Passou dormindo aqueles dias.
Mas os advogados o intimam,
Enrique Santos deseja sangue.
Unem-se todos debaixo dos fraques.
Antonino Bernales tombou
assassinado na vingança,
caiu abrindo os braços no rio,
voltou ao rio como à água mãe.
O Magdalena leva ao mar seu corpo
e do mar a outros rios, a outras águas
e a outros mares e a outros pequenos rios
girando em redor da terra.
Outra vez
entra no Magdalena, são as margens
que ele ama, abre os braços de água vermelha,
passa entre sombras, entre luz espessa,
e outra vez segue o seu caminho de água.
Antonino Bernales, ninguém pode
distinguir-te na torrente, eu sim, eu te recordo
e ouço arrastar teu nome que não pode
morrer, e que envolve a terra,
nome apenas, entre os nomes, povo.
VIII
Margarita Naranjo
(Salitreira María Elena, Antofagasta)
Estou morta.
Sou de María Elena.
Vivi a vida toda no pampa.
Demos o sangue para a companhia
norte-americana, meus pais antes, meus irmãos.
Sem greve nenhuma, sem nada, nos cercaram.
Era de noite, veio todo o Exército,
iam de casa em casa acordando a gente,
levando todos para o campo de concentração.
Eu esperava que nós não fôssemos.
Meu marido trabalhou tanto para a companhia,
e para o presidente, foi o mais esforçado,
conseguindo os votos aqui, é tão querido,
ninguém tem nada pra dizer dele, ele luta
por seus ideais, é puro e honrado
como poucos.
Aí chegaram à nossa porta,
mandados pelo Coronel Urízar,
e o pegaram ainda se vestindo e a empurrões
o lançaram no caminhão que partiu na noite,
para Pisagua, para a escuridão.
Então
achei que já não podia mais respirar, parecia
que a terra me faltava debaixo dos pés,
é tanta traição, tanta injustiça,
que me subiu à garganta algo como um soluço
que não me deixou mais viver.
Me trouxeram comida
as companheiras, e eu lhes disse: “Não comerei até que ele volte”.
Três dias depois falaram com o Sr.
Urízar,
que deu grandes gargalhadas, mandaram
telegramas e telegramas que o tirano em Santiago
não respondeu.
E eu fui dormindo e morrendo,
sem comer, apertei os dentes para não receber
nem mesmo sopa ou água.
Não voltou, não voltou,
e pouco a pouco fiquei morta, e me enterraram:
aqui, no cemitério do escritório salitreiro,
havia naquela tarde um vento de areia,
choravam os velhos e as mulheres cantavam
as canções que tantas vezes cantei com elas.
Se eu pudesse, teria espiado para ver se lá estava
Antonio, meu marido, mas não estava, não estava,
não o deixaram vir nem a minha morte: agora
aqui estou morta, no cemitério do pampa
só tenho a solidão ao redor de mim, que já não existo,
que já não existirei sem ele, nunca mais, sem ele.
IX
José Cruz Achachalla
(mineiro, Bolívia)
Sim, senhor, José Cruz Achachalla,
da serra de Granito, no sul de Oruro.
Pois lá deve viver ainda
minha mãe Rosalía:
trabalha para uns senhores,
pois é, lavando roupa.
A gente passava fome, capitão,
e com uma varinha batiam
em minha mãe todos os dias.
Por isso virei mineiro.
Fugi pelas grandes serras,
uma folhinha de coca, senhor,
uns ramos na cabeça
e andar, andar, andar.
Os abutres
me perseguiam lá do céu,
e eu pensava: são melhores
que os senhores brancos de Oruro,
e assim andei até o território
das minas.
Já faz
quarenta anos, eu era então
um menino faminto.
Os mineiros
me receberam.
Fui aprendiz
nas galerias escuras,
unha por unha contra a terra,
apanhei o estanho escondido.
Não sei aonde nem pra quê
saem os lingotes prateados:
vivemos mal, as casas em ruínas,
e a fome, outra vez, senhor,
e quando
a gente se juntava, capitão,
para mais um peso de salário,
o vento vermelho, o pau, o fogo,
a polícia nos batia,
e aqui estou, pois é, capitão,
despedido do serviço,
me diga pra onde eu vou,
ninguém me conhece em Oruro,
estou velho como as pedras,
já não posso cruzar os montes,
que posso fazer por esses caminhos,
aqui mesmo agora eu fico,
podem me enterrar no estanho,
pois só o estanho me conhece.
José Cruz Achachalla, sim,
não continues a bater pernas,
até aqui chegaste, até aqui,
Achachalla, até aqui chegaste.
X
Eufrosino Ramírez
(Casa Verde, Chuquicamata)
Tínhamos de tomar as pranchas quentes
de cobre com as mãos, e entregá-las
à pá mecânica.
Saíam quase ardendo,
pesavam mais que o mundo, íamos extenuados
transportando as lâminas do mineral, às vezes
uma delas caía sobre um pé e o quebrava,
sobre uma mão que virava um coto.
Vieram os gringos e disseram: “Trabalhem
mais depressa e podem ir pra casa”.
A duras penas, pra sair mais cedo,
fizemos o trabalho.
Mas eles voltaram:
“Agora trabalhem menos, ganhem menos”.
Foi a greve na Casa Verde, dez semanas,
greve, e quando voltamos ao trabalho,
com um pretexto: onde está a tua ferramenta?
me atiraram na rua.
Olhe o senhor estas mãos,
é um calo só que o cobre fez,
escute meu coração, não parece
que dá pulos?, é o cobre que machuca,
e mal posso andar de um lugar pra outro,
procurando, faminto, serviço que não encontro:
parece que me enxergam agachado, levando
as folhas invisíveis do cobre que me mata.
XI
Juan Figueroa
(Casa do Iodo, María Elena, Antofagasta)
O senhor é Neruda? Entre, camarada.
É, da Casa do Iodo, já não existem
outros vivendo.
Eu me agüento.
Sei que não estou mais vivo, que me espera
a terra do pampa.
São quatro horas
por dia, na Casa do Iodo.
Chega por uns tubos, sai como uma massa,
como uma goma roxa.
Nós a passamos
de bateia em bateia, nós a envolvemos
como um recém-nascido.
Enquanto isso,
o ácido nos corrói, nos consome,
entrando pelos olhos, pela boca,
pela pele, pelas unhas.
Da Casa do Iodo ninguém sai
cantando, companheiro.
E se pedimos
mais uns pesos de salário
para os filhos sem sapatos,
dizem: “Moscou vai mandar”, camarada,
e declaram estado de sítio, e nos cercam,
como se a gente fosse uns animais e nos batem,
eles são assim, camarada, estes filhos da puta!
Aqui estou eu, já sou o último:
onde está Sánchez? onde está Rodríguez?
Podres debaixo do pó de Polvillo.
Afinal a morte deu a eles o que pedíamos:
seus rostos estão com máscaras de iodo.
XII
O mestre Huerta
(da mina A Desprezada, Antofagasta)
Quando o senhor for ao norte,
vá até a mina A Desprezada,
pergunte lá pelo mestre Huerta.
De longe não vai o senhor ver nada,
só os areais cinzentos.
Depois, verá as estruturas,
o corrimão, os desmontes.
Os cansaços, os sofrimentos
a gente não vê, estão debaixo da terra
mexendo, partindo seres,
ou então descansam, estendidos,
se transformando, silenciosos.
Era “picano” o mestre Huerta.
Media um metro e noventa e cinco.
Os picanos são os que abrem
o terreno até o desnível,
quando o veio se rebaixa.
Quinhentos metros abaixo,
com água até a cintura,
o picano, pica, pica, vai furando.
Só pode sair do inferno
cada quarenta e oito horas,
até que as perfuradoras
na rocha, na escuridão,
no barro, deixam a polpa
por onde a mina caminha.
O mestre Huerta, grande picano,
parecia que enchia a picada
com as suas costas.
Entrava
cantando como um capitão.
Saía gretado, amarelo,
encurvado, ressecado, e seus olhos
olhavam como olho de morto.
Depois se arrastou pela mina.
Já não podia descer à galeria.
O antimônio lhe comeu as tripas.
Emagreceu de dar medo.
Mas nem podia andar.
Tinha as pernas picadas
como por pontas, e como era
tão alto, parecia
um fantasma faminto
pedindo sem pedir, o senhor sabe.
Ainda não tinha trinta anos.
Pergunte onde está enterrado.
Ninguém sabe dizer,
porque a areia e o vento derrubam
e enterram as cruzes, mais tarde.
Ainda não tinha trinta anos.
É em cima, na Desprezada,
onde trabalhou o mestre Huerta.
XIII
Amador Cea
(de Coronel, Chile, 1949)
Como tinham detido meu pai
e entrou o presidente que elegemos
e disse que éramos livres, eu pedi que soltassem o meu velho.
Me levaram e me bateram um dia inteiro.
Não conheço ninguém no quartel.
Não sei, não posso
nem me lembrar das caras deles.
Era a polícia.
Quando perdia o sentido, me atiravam
água no corpo e continuavam batendo.
Numa tarde, antes de sair, me levaram
arrastado a um banheiro,
me enfiaram a cabeça dentro dum vaso
de WC cheio de excrementos.
Ia me afogando.
“Agora, vai pedir liberdade ao presidente,
que te manda este presente”, me diziam.
Me sinto arrebentado, me quebraram esta costela.
Mas por dentro estou como antes, camarada.
A gente eles só quebram matando.
XIV Benilda Varela
(Concepción, Cidade Universitária, Chile, 1949)
Arrumei a comida das criancinhas e saí.
Quis entrar em Lota para ver meu marido.
Como se sabe, mandam a polícia
e ninguém pode entrar sem sua licença.
Minha cara não agradou.
Eram ordens
de González Videla, antes de começar
a dizer seus discursos, para que nossa gente
tenha medo.
Foi assim: me agarraram,
me despiram, me atiraram ao chão com pancadas.
Perdi o sentido.
Acordei no chão
nua, com um lençol molhado sobre
o meu corpo em sangue.
Reconheci um verdugo:
chama-se Víctor Molina esse bandido.
Mal abri os olhos, continuaram me batendo
com pedaços de borracha.
Estou toda roxa
de sangue, e nem posso me mexer.
Eram cinco, e os cinco me espancavam
como um saco.
Durou seis horas isso.
Só não morri para dizer a vocês, camaradas:
temos de lutar muito mais, até que desapareçam
esses verdugos da face da terra.
Que os povos conheçam seus discursos
Na ONU sobre a “liberdade”,
enquanto os bandidos matam de pancadas as mulheres
nos porões, sem ninguém ficar sabendo.
Aqui não aconteceu nada, vão dizer, e Dom Enrique
Molina nos vai falar do triunfo do “espírito”.
Mas isto não vai acontecer pra sempre.
Um fantasma percorre o mundo, e podem começar de novo
a espancar nos porões: vão pagar por seus crimes, não demora.
XV
Calero, trabalhador dos bananais
(Costa Rica, 1940)
Não te conheço.
Nas páginas de Fallas li a tua vida,
gigante obscuro, menino batido, esfarrapado e errante.
Dessas páginas voam o teu riso e as tuas canções
entre os bananais, no barro sombrio, a chuva e o suor.
Que vida a dos nossos, que alegrias ceifadas,
que forças destruídas pela comida ignóbil,
que cantos derrubados pela moradia em pedaços,
que poderes do homem desfeitos pelo homem!
Porém mudaremos a terra.
Não irá a tua sombra alegre
de charco em charco até a morte desnuda.
Mudaremos, juntando tua mão com a minha,
a noite que te cobre com a sua abóbada verde.
(As mãos dos mortos que tombaram
com estas e outras mãos que constroem
estão seladas como as alturas andinas
com a profundidade de seu ferro enterrado.
)
Mudaremos a vida para que a tua linhagem
sobreviva e construa sua luz organizada.
XVI
Catástrofe em Sewell
Sánchez, Reyes, Ramírez, Núnez, Alvarez.
Estes nomes são como o cimento do Chile.
O povo é o cimento da pátria.
Se os deixais morrer, a pátria vai caindo,
vai sangrando-se até ficar vazia.
O campo nos disse: cada minuto
há um ferido, e cada hora um morto.
Cada minuto e cada hora
o nosso sangue cai, o Chile morre.
Hoje é o fumo do incêndio, ontem foi o gás grisu,
anteontem o despenhadeiro, amanhã o mar ou o frio,
a máquina ou a fome, a imprevisão ou o ácido.
Mas lá onde morre o marinheiro,
mas lá onde morrem os pampeiros,
mas lá em Sewell onde se perderam,
está todo o cuidado, as máquinas, as vidraças,
os ferros, os papéis,
menos o homem, a mulher ou o menino.
Não é o gás: é a cobiça que mata em Sewell.
Essa torneira fechada de Sewell para que não caísse
nem uma gota d'água para o pobre café dos mineiros,
aí está o crime, o fogo não é culpado.
Por todas as partes se fecham as torneiras ao povo
para que não se distribua a água da vida.
Mas a fome e o frio e o fogo que devora
a nossa raça, a flor, os cimentos do Chile,
os farrapos, a casa miserável,
isso não se raciona, sempre há bastante
para que cada minuto haja um ferido
e cada hora um morto.
Não temos nós deuses que nos socorram.
As pobres mães vestidas de preto
terão rezado depois de choradas todas as suas lágrimas.
Nós não rezamos.
Stálin disse: “Nosso melhor tesouro
é o homem”,
os cimentos, o povo.
Stálin ergue, limpa, constrói, fortifica,
preserva, olha, protege, alimenta,
porém também castiga.
E isto é que desejava dizer-vos, camaradas:
faz falta o castigo.
Não pode ser esse desmoronamento humano,
esta sangria da pátria amada,
este sangue que cai do coração do povo
cada minuto, esta morte
de cada hora.
Eu me chamo como eles, como os que morreram.
Eu também sou Ramírez, Munoz, Pérez, Fernández.
Me chamo Álvarez, Núnez, Tapia, López, Contreras.
Sou parente de todos os que morrem, sou povo
e por todo este sangue que tomba estou de luto.
Compatriotas, irmãos mortos, de Sewell, mortos
do Chile, operários, irmãos, camaradas,
hoje que estais silenciosos, vamos conversar.
E que vosso martírio nos ajude
a construir uma pátria severa
que saiba florescer e castigar.
XVII
A terra se chama Juan
Atrás dos libertadores estava Juan
trabalhando, pescando e combatendo,
em seu trabalho de carpintaria ou em sua mina molhada.
Suas mãos araram a terra e mediram
os caminhos.
Seus ossos estão em todos os lugares.
Mas vive.
Regressou da terra.
Nasceu.
Nasceu de novo como uma planta eterna.
Toda a noite impura tratou de submergi-lo
e hoje afirma na aurora seus lábios indomáveis.
Amarraram-no, e é agora decidido soldado.
Feriram-no, e conserva sua saúde de maçã.
Cortaram-lhe as mãos, e hoje fere com elas.
Enterraram-no, e vem cantando conosco.
Juan, é tua a porta e o caminho.
A terra
é tua, povo, a verdade nasceu
contigo, de teu sangue.
Não puderam exterminar-te.
Tuas raízes,
árvore de humanidade,
árvore de eternidade,
hoje estão defendidas com aço,
hoje estão defendidas com tua própria grandeza
na pátria soviética, blindada
contra as mordeduras do lobo agonizante.
Povo, do sofrimento nasceu a ordem.
Da ordem a tua bandeira de vitória nasceu.
Levanta-a com todas as mãos que tombaram,
Defenda-a com todas as mãos que se juntam:
E que avance até a luta final, até a estrela
A unidade de teus rostos invencíveis.
Cristóbal Miranda
(“palero”, Tocopilla)
Te conheci, Cristóbal, nas lanchas
da baía, quando desce
o salitre, para o mar, na queimante
vestimenta de um dia de novembro.
Relembro aquele garbo extático,
os cerros de metal, a água quieta.
E só o homem das lanchas, úmido
de suor, removendo neve.
Neve dos nitratos, derramada
sobre os ombros da dor, caindo
na barriga cega das naves.
Ali, sapadores, heróis de uma aurora
carcomida por ácidos, sujeita
aos destinos da morte, firmes,
recebendo o nitrato caudaloso.
Cristóbal, esta lembrança para ti.
Para os camaradas da sapa,
em cujos peitos entra o ácido
e as emanações assassinas,
inchando como águias machucadas
os corações, até que tomba o homem,
até que role o homem pelas ruas,
para as cruzes quebradas do pampa.
Bem, não digamos mais nada, Cristóbal, agora
este papel que te recorda, a todos,
aos lancheiros da baía, ao homem
enegrecido dos barcos, meus olhos
seguem com vocês nesta jornada
e minha alma é uma pá que se ergue
carregando e descarregando sangue e neve,
junto de vocês, vida do deserto.
II
Jesús Gutiérrez
(“agrarista”)
Em Monterrey morreu meu pai
Genovevo Gutiérrez, se foi
com Zapata.
De noite os cavalos
perto de casa, a fumaça
dos federais, os tiros no vento,
o furacão que sai do milho,
levei o fuzil de lado a lado,
desde as terras de Sonora,
dormíamos de vez em quando, medíamos
rios e bosques, a cavalo,
entre mortos, a defender
a terra do pobre, feijões,
omelete, guitarra, rolávamos
até o limite, éramos pó,
os senhores nos faziam madrugar,
até que de cada pedra
nasciam os nossos fuzis.
Aqui está minha casa, minha terra
pequena, o certificado
firmado por meu general
Cárdenas, os perus,
os patinhos na lagoa,
agora já não se luta,
meu pai ficou em Monterrey
e aqui pendurado na parede
junto à porta a cartucheira,
o fuzil pronto, o cavalo pronto,
pela terra, por nosso pão,
amanhã talvez a galope,
se o meu general me aconselha.
III
Luis Cortés
(de Tocopilla)
Camarada, meu nome é Luis Cortés.
Quando veio a repressão, em Tocopilla
me agarraram.
Me atiraram em Pisagua.
Você, camarada, sabe como é isso.
Muitos caíram doentes, outros
enlouqueceram.
É o pior
campo de concentração de González
Videla.
Vi Ángel Veas morrer,
do coração, uma manhã.
Foi horrível
ver Veas morrer nessa areia assassina,
rodeado de cercas de arame, depois de toda
sua vida generosa.
Quando me senti doente
também do coração, me mudaram
para Garitaya.
Você não conhece, camarada.
É lá no alto, na fronteira com a Bolívia.
Um ponto desolado, a 5000 metros de altura.
Há uma água salobre para beber, mais
salobre que a água do mar, e cheia de pulgões
como vermes rosados que pululam.
Faz frio e parece que o céu em cima
da solidão vai cair sobre nós,
sobre meu coração que já mal se agüenta.
Os próprios carabineiros tiveram pena
e contra a ordem de deixar a gente morrer
sem querer nunca mandar uma maca,
me amarraram a uma mula e descemos as montanhas:
26 horas caminhou a mula, e meu corpo
já não resistia, camarada, entre a cordilheira sem caminhos,
e meu coração doente, e aqui estou eu, olhe
os machucados, não sei até quando vou viver,
mas você sente, não quero pedir nada,
conte você, camarada, o que faz ao povo o desgraçado,
a nós que o levamos à altura em que ri
com um riso de hiena em cima de nossas dores,
conte, você, camarada, conte, conte, pouco importa minha morte,
nem os nossos sofrimentos, pois a nossa luta é grande,
mas que fiquem sabendo destes sofrimentos,
que fiquem sabendo, camarada, não se esqueça.
IV
Olegario Sepúlveda
(sapateiro, Talcahuano)
Olegario Sepúlveda é meu nome.
Sou sapateiro, fiquei
coxo desde o grande terremoto.
Sobre o cortiço um pedaço de morro
e o mundo em cima de minha perna.
Lá gritei dois dias,
mas minha boca ficou cheia de terra,
gritei mais mansamente
até que adormeci para morrer.
Foi um grande silêncio o terremoto,
o terror dos morros,
as lavadeiras choravam,
uma montanha de pó
enterrou as palavras.
Aqui está me vendo com esta sola
defronte do mar, o único limpo,
as ondas nem eram pra chegar
azuis na minha porta.
Talcahuano, tuas grades sujas,
teus corredores de pobreza,
nos morros água podre,
madeira quebrada, covas negras
onde o chileno mata e morre.
(Ó dores do fio aberto
da miséria, lepra do mundo,
arrabalde dos mortos, gangrena
acusadora e venenosa!
Haveis vindo do sombrio
Pacífico, à noite, ao porto?
Haveis tocado entre as pústulas
a mão do menino, a rosa
salpicada de sangue e urina?
Haveis erguido os olhos
para os degraus retorcidos?
Haveis visto a mendiga
com um arame na lixeira
tremer, levantar os joelhos
e olhar lá do fundo onde
já não restam lágrimas nem ódio?)
Sou sapateiro em Talcahuano.
Sepúlveda, na frente do dique Grande.
Quando quiser, meu senhor, pobre
nunca fecha a porta.
V Arturo Carrión
(navegante, Iquique)
junho, 1948.
Querida Rosaura, aqui
estou eu, em Iquique, preso, me mande uma camisa
e fumo.
Não sei
até quando vai durar este baile.
Quando embarquei no Glenfoster
pensei em você, escrevi de Cádiz,
ali fuzilaram à vontade, e aí foi mais
triste em Atenas, naquela manhã
no cárcere mataram com tiro
duzentos e setenta e três moços:
o sangue corria até fora do muro,
vimos saírem os oficiais
gregos com os chefes norte-americanos, vinham rindo:
eles gostam do sangue do povo,
mas tinha um espécie de fumo preto
na cidade, estava escondido o choro, a dor, o luto,
comprei pra você uma carteira de cartões de visita, lá
conheci um patrício de Chiloé,
tem um pequeno restaurante, me disse
as coisas andam ruíns, há ódio:
mas ficou melhor na Hungria,
os camponeses têm terra,
distribuem livros, em Nova York
encontrei tua carta, mas todos
se juntam, pau e pau no pobre,
está vendo só, eu, marinheiro velho
e porque sou do sindicato,
já na coberta
me pegaram, me perguntaram
besteiras, me deixaram preso,
polícia em toda parte.
lágrimas também no pampa:
até quando estas coisas
vão continuar, perguntam todos, hoje é um
e outro pau para o pobre,
dizem que em Pisagua há dois mil,
eu pergunto o que está acontecendo no mundo,
mas não se tem direito de perguntar
assim, diz a polícía: não esqueça o fumo, fale com o Rojas
se ele não está preso, não chores,
o mundo já tem lágrimas
demais, outra coisa é que faz falta
e aqui digo até breve pra você, um
abraço e um beijo do esposo amoroso
Arturo Carrión Cornejo, cárcere de Iquiyue.
VI
Abraham Jesús Brito
(poeta popular)
Jesús Brito é seu nome, Jesús Parreira ou povo,
e foi-se fazendo água pelos olhos,
e pelas mãos se foi fazendo raízes.
até que o plantaram de novo onde esteve
antes de ser, antes que brotasse
do território, entre as pedras pobres.
E foi entre mina e marinheiro uma ave
nodosa, um patriarcal seleiro
da cortiça suave da pátria terrível:
quanto mais fria, mais luz a encontrava:
quanto mais duro o solo, mais lua lhe saía:
quanto mais fome, mais cantava.
E todo o mundo ferroviário abria
com sua chave e sua lira sarmentosa,
e pela espuma da pátria caminhava
cheio de pacotinhos estrelados,
ele, a árvore do cobre, ia regando
cada pequeno trevo acontecido,
o espantoso crime, o incêndio,
e o ramo dos rios tutelares.
Sua voz era a dos gritos roucos
perdidos na noite dos raptos,
ele levava sinos torrenciais
recolhidos à noite em seu chapéu,
e recolhia em seu casaco esfarrapado
as transbordantes lágrimas do povo.
Ia pelos ramais arenosos,
pelo espaço afundado do salitre,
pelos ásperos montes litorâneos
construindo o romance prego a prego,
e telha a telha levantando o verso:
deixando nele a mancha das mãos
e as goteiras da ortografia.
Brito, pelas paredes capitais,
entre o rumor dos cafés,
andavas como uma árvore peregrina
procurando terra com os pés profundos,
até que foste te fazendo raízes,
pedra e torrão e mineração escura.
Brito, a tua majestade foi batida
como um tambor de majestoso couro
e era uma monarquia à intempérie
a tua altivez de arvoredo e povo.
Árvore errante, agora as tuas raízes
cantam debaixo da terra, e em silêncio.
Um pouco mais profundo és agora.
Agora tens terra e tens tempo.
VII
Antonino Bernales
(pescador, Colômbia)
No rio Magdalena anda como a lua,
lento pelo planeta de folhas verdes,
uma ave vermelha ulula, zumbe o som
de velhas asas negras, as margens
têm o transcorrer de águas e águas.
Tudo ê o rio, toda vida é rio,
e Antonino Bernales era rio.
Pescador, carpinteiro, voga, agulha
de rede, prego para as tábuas,
martelo e canto, tudo era Antonino
enquanto o Magdalena como a lua lenta
arrastava o caudal das vidas do rio.
Mais alto em Bogotá, chamas, incêndio,
sangue, se diz, não é bem claro,
Gaytán morreu.
Entre as folhas
como um chacal o riso de Laureano
açula as fogueiras, um tremor
de povo como um calafrio
percorre o Magdalena.
É Antonino Bernales o culpado.
Não se mexeu de sua pequena choça.
Passou dormindo aqueles dias.
Mas os advogados o intimam,
Enrique Santos deseja sangue.
Unem-se todos debaixo dos fraques.
Antonino Bernales tombou
assassinado na vingança,
caiu abrindo os braços no rio,
voltou ao rio como à água mãe.
O Magdalena leva ao mar seu corpo
e do mar a outros rios, a outras águas
e a outros mares e a outros pequenos rios
girando em redor da terra.
Outra vez
entra no Magdalena, são as margens
que ele ama, abre os braços de água vermelha,
passa entre sombras, entre luz espessa,
e outra vez segue o seu caminho de água.
Antonino Bernales, ninguém pode
distinguir-te na torrente, eu sim, eu te recordo
e ouço arrastar teu nome que não pode
morrer, e que envolve a terra,
nome apenas, entre os nomes, povo.
VIII
Margarita Naranjo
(Salitreira María Elena, Antofagasta)
Estou morta.
Sou de María Elena.
Vivi a vida toda no pampa.
Demos o sangue para a companhia
norte-americana, meus pais antes, meus irmãos.
Sem greve nenhuma, sem nada, nos cercaram.
Era de noite, veio todo o Exército,
iam de casa em casa acordando a gente,
levando todos para o campo de concentração.
Eu esperava que nós não fôssemos.
Meu marido trabalhou tanto para a companhia,
e para o presidente, foi o mais esforçado,
conseguindo os votos aqui, é tão querido,
ninguém tem nada pra dizer dele, ele luta
por seus ideais, é puro e honrado
como poucos.
Aí chegaram à nossa porta,
mandados pelo Coronel Urízar,
e o pegaram ainda se vestindo e a empurrões
o lançaram no caminhão que partiu na noite,
para Pisagua, para a escuridão.
Então
achei que já não podia mais respirar, parecia
que a terra me faltava debaixo dos pés,
é tanta traição, tanta injustiça,
que me subiu à garganta algo como um soluço
que não me deixou mais viver.
Me trouxeram comida
as companheiras, e eu lhes disse: “Não comerei até que ele volte”.
Três dias depois falaram com o Sr.
Urízar,
que deu grandes gargalhadas, mandaram
telegramas e telegramas que o tirano em Santiago
não respondeu.
E eu fui dormindo e morrendo,
sem comer, apertei os dentes para não receber
nem mesmo sopa ou água.
Não voltou, não voltou,
e pouco a pouco fiquei morta, e me enterraram:
aqui, no cemitério do escritório salitreiro,
havia naquela tarde um vento de areia,
choravam os velhos e as mulheres cantavam
as canções que tantas vezes cantei com elas.
Se eu pudesse, teria espiado para ver se lá estava
Antonio, meu marido, mas não estava, não estava,
não o deixaram vir nem a minha morte: agora
aqui estou morta, no cemitério do pampa
só tenho a solidão ao redor de mim, que já não existo,
que já não existirei sem ele, nunca mais, sem ele.
IX
José Cruz Achachalla
(mineiro, Bolívia)
Sim, senhor, José Cruz Achachalla,
da serra de Granito, no sul de Oruro.
Pois lá deve viver ainda
minha mãe Rosalía:
trabalha para uns senhores,
pois é, lavando roupa.
A gente passava fome, capitão,
e com uma varinha batiam
em minha mãe todos os dias.
Por isso virei mineiro.
Fugi pelas grandes serras,
uma folhinha de coca, senhor,
uns ramos na cabeça
e andar, andar, andar.
Os abutres
me perseguiam lá do céu,
e eu pensava: são melhores
que os senhores brancos de Oruro,
e assim andei até o território
das minas.
Já faz
quarenta anos, eu era então
um menino faminto.
Os mineiros
me receberam.
Fui aprendiz
nas galerias escuras,
unha por unha contra a terra,
apanhei o estanho escondido.
Não sei aonde nem pra quê
saem os lingotes prateados:
vivemos mal, as casas em ruínas,
e a fome, outra vez, senhor,
e quando
a gente se juntava, capitão,
para mais um peso de salário,
o vento vermelho, o pau, o fogo,
a polícia nos batia,
e aqui estou, pois é, capitão,
despedido do serviço,
me diga pra onde eu vou,
ninguém me conhece em Oruro,
estou velho como as pedras,
já não posso cruzar os montes,
que posso fazer por esses caminhos,
aqui mesmo agora eu fico,
podem me enterrar no estanho,
pois só o estanho me conhece.
José Cruz Achachalla, sim,
não continues a bater pernas,
até aqui chegaste, até aqui,
Achachalla, até aqui chegaste.
X
Eufrosino Ramírez
(Casa Verde, Chuquicamata)
Tínhamos de tomar as pranchas quentes
de cobre com as mãos, e entregá-las
à pá mecânica.
Saíam quase ardendo,
pesavam mais que o mundo, íamos extenuados
transportando as lâminas do mineral, às vezes
uma delas caía sobre um pé e o quebrava,
sobre uma mão que virava um coto.
Vieram os gringos e disseram: “Trabalhem
mais depressa e podem ir pra casa”.
A duras penas, pra sair mais cedo,
fizemos o trabalho.
Mas eles voltaram:
“Agora trabalhem menos, ganhem menos”.
Foi a greve na Casa Verde, dez semanas,
greve, e quando voltamos ao trabalho,
com um pretexto: onde está a tua ferramenta?
me atiraram na rua.
Olhe o senhor estas mãos,
é um calo só que o cobre fez,
escute meu coração, não parece
que dá pulos?, é o cobre que machuca,
e mal posso andar de um lugar pra outro,
procurando, faminto, serviço que não encontro:
parece que me enxergam agachado, levando
as folhas invisíveis do cobre que me mata.
XI
Juan Figueroa
(Casa do Iodo, María Elena, Antofagasta)
O senhor é Neruda? Entre, camarada.
É, da Casa do Iodo, já não existem
outros vivendo.
Eu me agüento.
Sei que não estou mais vivo, que me espera
a terra do pampa.
São quatro horas
por dia, na Casa do Iodo.
Chega por uns tubos, sai como uma massa,
como uma goma roxa.
Nós a passamos
de bateia em bateia, nós a envolvemos
como um recém-nascido.
Enquanto isso,
o ácido nos corrói, nos consome,
entrando pelos olhos, pela boca,
pela pele, pelas unhas.
Da Casa do Iodo ninguém sai
cantando, companheiro.
E se pedimos
mais uns pesos de salário
para os filhos sem sapatos,
dizem: “Moscou vai mandar”, camarada,
e declaram estado de sítio, e nos cercam,
como se a gente fosse uns animais e nos batem,
eles são assim, camarada, estes filhos da puta!
Aqui estou eu, já sou o último:
onde está Sánchez? onde está Rodríguez?
Podres debaixo do pó de Polvillo.
Afinal a morte deu a eles o que pedíamos:
seus rostos estão com máscaras de iodo.
XII
O mestre Huerta
(da mina A Desprezada, Antofagasta)
Quando o senhor for ao norte,
vá até a mina A Desprezada,
pergunte lá pelo mestre Huerta.
De longe não vai o senhor ver nada,
só os areais cinzentos.
Depois, verá as estruturas,
o corrimão, os desmontes.
Os cansaços, os sofrimentos
a gente não vê, estão debaixo da terra
mexendo, partindo seres,
ou então descansam, estendidos,
se transformando, silenciosos.
Era “picano” o mestre Huerta.
Media um metro e noventa e cinco.
Os picanos são os que abrem
o terreno até o desnível,
quando o veio se rebaixa.
Quinhentos metros abaixo,
com água até a cintura,
o picano, pica, pica, vai furando.
Só pode sair do inferno
cada quarenta e oito horas,
até que as perfuradoras
na rocha, na escuridão,
no barro, deixam a polpa
por onde a mina caminha.
O mestre Huerta, grande picano,
parecia que enchia a picada
com as suas costas.
Entrava
cantando como um capitão.
Saía gretado, amarelo,
encurvado, ressecado, e seus olhos
olhavam como olho de morto.
Depois se arrastou pela mina.
Já não podia descer à galeria.
O antimônio lhe comeu as tripas.
Emagreceu de dar medo.
Mas nem podia andar.
Tinha as pernas picadas
como por pontas, e como era
tão alto, parecia
um fantasma faminto
pedindo sem pedir, o senhor sabe.
Ainda não tinha trinta anos.
Pergunte onde está enterrado.
Ninguém sabe dizer,
porque a areia e o vento derrubam
e enterram as cruzes, mais tarde.
Ainda não tinha trinta anos.
É em cima, na Desprezada,
onde trabalhou o mestre Huerta.
XIII
Amador Cea
(de Coronel, Chile, 1949)
Como tinham detido meu pai
e entrou o presidente que elegemos
e disse que éramos livres, eu pedi que soltassem o meu velho.
Me levaram e me bateram um dia inteiro.
Não conheço ninguém no quartel.
Não sei, não posso
nem me lembrar das caras deles.
Era a polícia.
Quando perdia o sentido, me atiravam
água no corpo e continuavam batendo.
Numa tarde, antes de sair, me levaram
arrastado a um banheiro,
me enfiaram a cabeça dentro dum vaso
de WC cheio de excrementos.
Ia me afogando.
“Agora, vai pedir liberdade ao presidente,
que te manda este presente”, me diziam.
Me sinto arrebentado, me quebraram esta costela.
Mas por dentro estou como antes, camarada.
A gente eles só quebram matando.
XIV Benilda Varela
(Concepción, Cidade Universitária, Chile, 1949)
Arrumei a comida das criancinhas e saí.
Quis entrar em Lota para ver meu marido.
Como se sabe, mandam a polícia
e ninguém pode entrar sem sua licença.
Minha cara não agradou.
Eram ordens
de González Videla, antes de começar
a dizer seus discursos, para que nossa gente
tenha medo.
Foi assim: me agarraram,
me despiram, me atiraram ao chão com pancadas.
Perdi o sentido.
Acordei no chão
nua, com um lençol molhado sobre
o meu corpo em sangue.
Reconheci um verdugo:
chama-se Víctor Molina esse bandido.
Mal abri os olhos, continuaram me batendo
com pedaços de borracha.
Estou toda roxa
de sangue, e nem posso me mexer.
Eram cinco, e os cinco me espancavam
como um saco.
Durou seis horas isso.
Só não morri para dizer a vocês, camaradas:
temos de lutar muito mais, até que desapareçam
esses verdugos da face da terra.
Que os povos conheçam seus discursos
Na ONU sobre a “liberdade”,
enquanto os bandidos matam de pancadas as mulheres
nos porões, sem ninguém ficar sabendo.
Aqui não aconteceu nada, vão dizer, e Dom Enrique
Molina nos vai falar do triunfo do “espírito”.
Mas isto não vai acontecer pra sempre.
Um fantasma percorre o mundo, e podem começar de novo
a espancar nos porões: vão pagar por seus crimes, não demora.
XV
Calero, trabalhador dos bananais
(Costa Rica, 1940)
Não te conheço.
Nas páginas de Fallas li a tua vida,
gigante obscuro, menino batido, esfarrapado e errante.
Dessas páginas voam o teu riso e as tuas canções
entre os bananais, no barro sombrio, a chuva e o suor.
Que vida a dos nossos, que alegrias ceifadas,
que forças destruídas pela comida ignóbil,
que cantos derrubados pela moradia em pedaços,
que poderes do homem desfeitos pelo homem!
Porém mudaremos a terra.
Não irá a tua sombra alegre
de charco em charco até a morte desnuda.
Mudaremos, juntando tua mão com a minha,
a noite que te cobre com a sua abóbada verde.
(As mãos dos mortos que tombaram
com estas e outras mãos que constroem
estão seladas como as alturas andinas
com a profundidade de seu ferro enterrado.
)
Mudaremos a vida para que a tua linhagem
sobreviva e construa sua luz organizada.
XVI
Catástrofe em Sewell
Sánchez, Reyes, Ramírez, Núnez, Alvarez.
Estes nomes são como o cimento do Chile.
O povo é o cimento da pátria.
Se os deixais morrer, a pátria vai caindo,
vai sangrando-se até ficar vazia.
O campo nos disse: cada minuto
há um ferido, e cada hora um morto.
Cada minuto e cada hora
o nosso sangue cai, o Chile morre.
Hoje é o fumo do incêndio, ontem foi o gás grisu,
anteontem o despenhadeiro, amanhã o mar ou o frio,
a máquina ou a fome, a imprevisão ou o ácido.
Mas lá onde morre o marinheiro,
mas lá onde morrem os pampeiros,
mas lá em Sewell onde se perderam,
está todo o cuidado, as máquinas, as vidraças,
os ferros, os papéis,
menos o homem, a mulher ou o menino.
Não é o gás: é a cobiça que mata em Sewell.
Essa torneira fechada de Sewell para que não caísse
nem uma gota d'água para o pobre café dos mineiros,
aí está o crime, o fogo não é culpado.
Por todas as partes se fecham as torneiras ao povo
para que não se distribua a água da vida.
Mas a fome e o frio e o fogo que devora
a nossa raça, a flor, os cimentos do Chile,
os farrapos, a casa miserável,
isso não se raciona, sempre há bastante
para que cada minuto haja um ferido
e cada hora um morto.
Não temos nós deuses que nos socorram.
As pobres mães vestidas de preto
terão rezado depois de choradas todas as suas lágrimas.
Nós não rezamos.
Stálin disse: “Nosso melhor tesouro
é o homem”,
os cimentos, o povo.
Stálin ergue, limpa, constrói, fortifica,
preserva, olha, protege, alimenta,
porém também castiga.
E isto é que desejava dizer-vos, camaradas:
faz falta o castigo.
Não pode ser esse desmoronamento humano,
esta sangria da pátria amada,
este sangue que cai do coração do povo
cada minuto, esta morte
de cada hora.
Eu me chamo como eles, como os que morreram.
Eu também sou Ramírez, Munoz, Pérez, Fernández.
Me chamo Álvarez, Núnez, Tapia, López, Contreras.
Sou parente de todos os que morrem, sou povo
e por todo este sangue que tomba estou de luto.
Compatriotas, irmãos mortos, de Sewell, mortos
do Chile, operários, irmãos, camaradas,
hoje que estais silenciosos, vamos conversar.
E que vosso martírio nos ajude
a construir uma pátria severa
que saiba florescer e castigar.
XVII
A terra se chama Juan
Atrás dos libertadores estava Juan
trabalhando, pescando e combatendo,
em seu trabalho de carpintaria ou em sua mina molhada.
Suas mãos araram a terra e mediram
os caminhos.
Seus ossos estão em todos os lugares.
Mas vive.
Regressou da terra.
Nasceu.
Nasceu de novo como uma planta eterna.
Toda a noite impura tratou de submergi-lo
e hoje afirma na aurora seus lábios indomáveis.
Amarraram-no, e é agora decidido soldado.
Feriram-no, e conserva sua saúde de maçã.
Cortaram-lhe as mãos, e hoje fere com elas.
Enterraram-no, e vem cantando conosco.
Juan, é tua a porta e o caminho.
A terra
é tua, povo, a verdade nasceu
contigo, de teu sangue.
Não puderam exterminar-te.
Tuas raízes,
árvore de humanidade,
árvore de eternidade,
hoje estão defendidas com aço,
hoje estão defendidas com tua própria grandeza
na pátria soviética, blindada
contra as mordeduras do lobo agonizante.
Povo, do sofrimento nasceu a ordem.
Da ordem a tua bandeira de vitória nasceu.
Levanta-a com todas as mãos que tombaram,
Defenda-a com todas as mãos que se juntam:
E que avance até a luta final, até a estrela
A unidade de teus rostos invencíveis.
1 194
Pablo Neruda
XXX
Quando escreveu seu livro azul
Rubén Darío não era verde?
Não era escarlate Rimbaud e
Gôngora cor de violeta?
E Victor Hugo tricolor?
E eu listões amarelos?
Juntam-se todas as lembranças
dos pobres das aldeias?
E em uma caixa mineral
guardaram seus sonhos os ricos?
Rubén Darío não era verde?
Não era escarlate Rimbaud e
Gôngora cor de violeta?
E Victor Hugo tricolor?
E eu listões amarelos?
Juntam-se todas as lembranças
dos pobres das aldeias?
E em uma caixa mineral
guardaram seus sonhos os ricos?
1 031
Pablo Neruda
XVIII
Como conheceram as uvas
a propaganda do cacho?
E sabes o que é mais difícil
entre granar e debulhar?
É mau viver sem inferno:
não podemos reconstruí-lo?
E colocar o triste Nixon
com o traseiro sobre o braseiro?
Queimando-o a fogo pausado
com napalm norte-americano?
a propaganda do cacho?
E sabes o que é mais difícil
entre granar e debulhar?
É mau viver sem inferno:
não podemos reconstruí-lo?
E colocar o triste Nixon
com o traseiro sobre o braseiro?
Queimando-o a fogo pausado
com napalm norte-americano?
1 027
Pablo Neruda
A máscara marinha
Resvala na úmida soma a lua
sorteando a sala com sua sussurrante saída
as aves do suave solstício os voos alçaram
e o sol da aurora auroreia na sopa do mar
a sopa do mar sopa negra passou pela sombra
parece que se abre uma caixa se sai a aurora
como um leque fechado é o sol em seu céu
saiu da caixa a luz da caixa de jacarandá
saiu perfumada a luz saiu alaranjada a luz saiu luz
leque era então em cima esplendor era fria esperança
e eu vou que vou no navio eu não voo nem corro nem nado
eu na proa celeste de acordo azutrina21 amaranto de acordo
de acordo com o leque crescente de acordo chovia de repente
e estátua de sal transparente na chuva ou arroxeada senhora
ofereci meu crepúsculo ao vento à noite que me devorava
e segui solitária na noite no dia nua turgente
era o mar do navio a rota a linha a mesma salmoura
e outro dia outra greta em minhas mãos em minha vestimenta
eu não olho os portos fechei os olhos ao dano
amo só o elemento a luz que transcorre as lanças do frio
sob o sol ao zênite uva a uva até ser um racimo
e de noite a sombra resvala a lua no vinho
o mar álcool do planeta a rosa que ferve e a água que arde eu sigo eu somo
não movo os olhos não canto não tenho palavras não sonho
me movem me cantam me sonham me some a onda
salpica levanta minha desventurada cabeça na eterna intempérie
eu vivo no grande movimento do orbe na nave
sou parte incessante da direção da essência
não tenho contrato assinado com gotas de sangue nem rainha nem escrava
eu sei que armadores inflados pagaram dores com dólares
a barca a branca vestida a Vênus de baleiaria
as velas ao vento sobre a multidão do mar para o Chile
mas aquelas moedas caíram nos cofres do padre artesão
e logo rodaram pagando ataúdes garrafas sapatos escolas ou flores
eu fui liberada e entrei no navio sem dívida de sangue
não compro a aurora não saio não movo os braços não reino
e só obedeço o palpitar da água na proa como uma maçã
obedece à seiva que sobe e navega na árvore da primavera
o sangue cetáceo o esperma violeta do assassinato nas ondas
não vejo nem o círculo frio do duro petrel no vento
nem o peixe arrancado de uma garra e partido por uma bicada
sem dúvida um caminho de sangue sulcou a salmoura
ouviu o espantoso silêncio depois das chamas da artilharia
no território inocente outros homens vestidos de ouro
com máscaras brancas metiam em redes seus semelhantes
corriam uivando mulheres entre os castigos morriam de amor e de fúria
as redes subiam repletas de olhares sombrios e mãos feridas
eu vi dessangrar-se os rios dos territórios e sei como
choram as pedras
oh raio do mar amedronta teus filhos castiga os cruéis
dizia a terra e o mar continuou e subiu o movimento para meu peito
e eu me incorporo ao caminho meus olhos não sabem chorar
sou só uma forma na luz uma vértebra da alegoria.
sorteando a sala com sua sussurrante saída
as aves do suave solstício os voos alçaram
e o sol da aurora auroreia na sopa do mar
a sopa do mar sopa negra passou pela sombra
parece que se abre uma caixa se sai a aurora
como um leque fechado é o sol em seu céu
saiu da caixa a luz da caixa de jacarandá
saiu perfumada a luz saiu alaranjada a luz saiu luz
leque era então em cima esplendor era fria esperança
e eu vou que vou no navio eu não voo nem corro nem nado
eu na proa celeste de acordo azutrina21 amaranto de acordo
de acordo com o leque crescente de acordo chovia de repente
e estátua de sal transparente na chuva ou arroxeada senhora
ofereci meu crepúsculo ao vento à noite que me devorava
e segui solitária na noite no dia nua turgente
era o mar do navio a rota a linha a mesma salmoura
e outro dia outra greta em minhas mãos em minha vestimenta
eu não olho os portos fechei os olhos ao dano
amo só o elemento a luz que transcorre as lanças do frio
sob o sol ao zênite uva a uva até ser um racimo
e de noite a sombra resvala a lua no vinho
o mar álcool do planeta a rosa que ferve e a água que arde eu sigo eu somo
não movo os olhos não canto não tenho palavras não sonho
me movem me cantam me sonham me some a onda
salpica levanta minha desventurada cabeça na eterna intempérie
eu vivo no grande movimento do orbe na nave
sou parte incessante da direção da essência
não tenho contrato assinado com gotas de sangue nem rainha nem escrava
eu sei que armadores inflados pagaram dores com dólares
a barca a branca vestida a Vênus de baleiaria
as velas ao vento sobre a multidão do mar para o Chile
mas aquelas moedas caíram nos cofres do padre artesão
e logo rodaram pagando ataúdes garrafas sapatos escolas ou flores
eu fui liberada e entrei no navio sem dívida de sangue
não compro a aurora não saio não movo os braços não reino
e só obedeço o palpitar da água na proa como uma maçã
obedece à seiva que sobe e navega na árvore da primavera
o sangue cetáceo o esperma violeta do assassinato nas ondas
não vejo nem o círculo frio do duro petrel no vento
nem o peixe arrancado de uma garra e partido por uma bicada
sem dúvida um caminho de sangue sulcou a salmoura
ouviu o espantoso silêncio depois das chamas da artilharia
no território inocente outros homens vestidos de ouro
com máscaras brancas metiam em redes seus semelhantes
corriam uivando mulheres entre os castigos morriam de amor e de fúria
as redes subiam repletas de olhares sombrios e mãos feridas
eu vi dessangrar-se os rios dos territórios e sei como
choram as pedras
oh raio do mar amedronta teus filhos castiga os cruéis
dizia a terra e o mar continuou e subiu o movimento para meu peito
e eu me incorporo ao caminho meus olhos não sabem chorar
sou só uma forma na luz uma vértebra da alegoria.
577
Pablo Neruda
Prólogo - Tendes Que Ouvir-Me
Eu fui cantando errante,
entre as uvas
da Europa e
sob o vento,
sob o vento na Ásia.
O melhor das vidas
e a vida,
a doçura terrestre,
a paz pura,
fui recolhendo, errante,
recolhendo.
O melhor de uma terra
e outra terra
levantei em minha boca
com meu canto:
a liberdade do vento,
a paz entre as uvas.
Pareciam os homens
inimigos,
mas a mesma noite
os cobria
e era uma só claridade
que os despertava:
a claridade do mundo.
Eu entrei nas casas quando
comiam na mesa,
vinham das fábricas,
riam ou choravam.
Todos eram iguais.
Todos tinham olhos
para a luz, buscavam
os caminhos.
Todos tinham boca,
cantavam
para a primavera.
Todos.
Por isso
eu busquei entre as uvas
e o vento
o melhor dos homens.
Agora tendes de ouvir-me.
entre as uvas
da Europa e
sob o vento,
sob o vento na Ásia.
O melhor das vidas
e a vida,
a doçura terrestre,
a paz pura,
fui recolhendo, errante,
recolhendo.
O melhor de uma terra
e outra terra
levantei em minha boca
com meu canto:
a liberdade do vento,
a paz entre as uvas.
Pareciam os homens
inimigos,
mas a mesma noite
os cobria
e era uma só claridade
que os despertava:
a claridade do mundo.
Eu entrei nas casas quando
comiam na mesa,
vinham das fábricas,
riam ou choravam.
Todos eram iguais.
Todos tinham olhos
para a luz, buscavam
os caminhos.
Todos tinham boca,
cantavam
para a primavera.
Todos.
Por isso
eu busquei entre as uvas
e o vento
o melhor dos homens.
Agora tendes de ouvir-me.
1 192
Pablo Neruda
II. O processo
Vive a névoa como um grande octópode inchado de gás amarelo
e cai seu gelatinoso ramal emaranhando a insigne cabeça.
É Londres, a Casa Redonda e a Justiça é a boca do polvo.
A besta desliza por ruas de sombra seus braços, seus
passos, seus pés resvalosos,
buscando Tomás, o Marinheiro, buscando seu pescoço nu:
porque a Justiça agoniza em sua Casa Redonda e exige alimento,
alimentos do mar, cavalheiros da água e do fogo.
A Justiça dourada te busca e tem fome de carne marinha.
Tomás, marinheiro, levanta tua espada de guerra!
Descarrega teu braço salgado e divide os braços do polvo de ouro!
Rechaça as cruéis ventosas que buscam detrás da névoa!
Esconde, Tomás, teu semblante delgado de falcão oceânico!
Defende a proa intranquila de tua embarcação orgulhosa!
Protege os olhos da águia que espera minha pátria em seu berço
e deixa perdido na névoa o octópode de boca amarela!
e cai seu gelatinoso ramal emaranhando a insigne cabeça.
É Londres, a Casa Redonda e a Justiça é a boca do polvo.
A besta desliza por ruas de sombra seus braços, seus
passos, seus pés resvalosos,
buscando Tomás, o Marinheiro, buscando seu pescoço nu:
porque a Justiça agoniza em sua Casa Redonda e exige alimento,
alimentos do mar, cavalheiros da água e do fogo.
A Justiça dourada te busca e tem fome de carne marinha.
Tomás, marinheiro, levanta tua espada de guerra!
Descarrega teu braço salgado e divide os braços do polvo de ouro!
Rechaça as cruéis ventosas que buscam detrás da névoa!
Esconde, Tomás, teu semblante delgado de falcão oceânico!
Defende a proa intranquila de tua embarcação orgulhosa!
Protege os olhos da águia que espera minha pátria em seu berço
e deixa perdido na névoa o octópode de boca amarela!
1 186
Pablo Neruda
Noite - LXXX
De viagens e dores eu regressei, amor meu,
a tua voz, a tua mão voando na guitarra,
ao fogo que interrompe com beijos o outono,
à circulação da noite no céu.
Para todos os homens peço pão e reinado,
peço terra para o lavrador sem-ventura,
que ninguém espere trégua de meu sangue ou meu canto.
Mas a teu amor não posso renunciar sem morrer.
Por isso toca a valsa da serena lua,
a barcarola na água da guitarra
até que se dobre minha cabeça sonhando:
que todos os desvelos de minha vida teceram
esta ramagem onde tua mão vive e voa
custodiando a noite do viageiro dormido.
a tua voz, a tua mão voando na guitarra,
ao fogo que interrompe com beijos o outono,
à circulação da noite no céu.
Para todos os homens peço pão e reinado,
peço terra para o lavrador sem-ventura,
que ninguém espere trégua de meu sangue ou meu canto.
Mas a teu amor não posso renunciar sem morrer.
Por isso toca a valsa da serena lua,
a barcarola na água da guitarra
até que se dobre minha cabeça sonhando:
que todos os desvelos de minha vida teceram
esta ramagem onde tua mão vive e voa
custodiando a noite do viageiro dormido.
1 274
José Saramago
28
Uma após a outra as cidades foram reconquistadas e de todos os lugares afluíam as hordas que outro nome começavam a merecer
Vinham uns pelas planícies como vagarosos formigueiros outros subindo e descendo pelas lombas das colinas outros cortando caminho a meia encosta das montanhas
E todos vadeando os rios ou neles navegando nos barcos que restavam ou em jangadas que derivavam nas correntes rápidas
E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas
E diziam os sofrimentos mútuos e riam chorando e mostravam as feridas dos combates e depois iam aos julgamentos dos invasores que todos seriam condenados à morte sem excepção
Porque eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam
Porém muitas batalhas farão ainda mortos entre os que riem agora e choram não a morte para eles próxima mas a alegria de estar vivo
Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos e as aranhas da contagem se somem no chão
Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade
E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos
E arrancar pedra a pedra porque faltam os explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um
Para que verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles
Vinham uns pelas planícies como vagarosos formigueiros outros subindo e descendo pelas lombas das colinas outros cortando caminho a meia encosta das montanhas
E todos vadeando os rios ou neles navegando nos barcos que restavam ou em jangadas que derivavam nas correntes rápidas
E quando chegavam à vista das cidades vinham os de dentro a recebê-los levando flores e pão porque de ambos tinham fome os que haviam vivido nas terras devastadas
E diziam os sofrimentos mútuos e riam chorando e mostravam as feridas dos combates e depois iam aos julgamentos dos invasores que todos seriam condenados à morte sem excepção
Porque eram os senhores da morte os empresários da tortura e por isso tinham de ser retribuídos na única moeda que conheciam
Porém muitas batalhas farão ainda mortos entre os que riem agora e choram não a morte para eles próxima mas a alegria de estar vivo
Ó este povo que corre nas ruas e estas bandeiras e estes gritos e estes punhos fechados enquanto as cobras os ratos e as aranhas da contagem se somem no chão
Ó estes olhos luminosos que apagam um a um os frios olhos de mercúrio que flutuavam sobre as cabeças da gente da cidade
E agora é necessário ir ao deserto destruir a pirâmide que os faraós fizeram construir sobre o dorso dos escravos e com o suor dos escravos
E arrancar pedra a pedra porque faltam os explosivos mas sobretudo porque este trabalho deve ser feito com as nuas mãos de cada um
Para que verdadeiramente seja um trabalho nosso e comecem a ser possíveis todas as coisas que ninguém prometeu aos homens mas que não poderão existir sem eles
1 070
José Saramago
13
Todo o sistema prisional foi reformado pelo ocupante incluindo os próprios edifícios
Acabaram as enxovias subterrâneas as masmorras as celas escuras as grades os muros altos os espigões de ferro
No lugar das antigas cadeias construíram-se edifícios de seis andares todos de vidro transparente
Os únicos elementos opacos são as enxergas e as fechaduras das portas
Cada prisão tem centenas de celas de forma hexagonal como favos de colmeia
Tudo quanto um preso faz o tem de fazer à vista dos outros presos dos guardas e da cidade sem espectáculos públicos
À mais grave ocupação de todas que é a de pensar ninguém dá atenção
Mas consoante os gostos não faltam espectadores para os actos de comer defecar masturbar com perdão dos olhos delicados
Ou para as sessões de interrogatório e de tortura que se praticam à luz do dia
Como prova de que o novo sistema prisional aceita a livre observação e se oferece ao testemunho geral
As paredes só se tornam opacas quando todos os presos dormem e não há mais nada para ver
Acabaram as enxovias subterrâneas as masmorras as celas escuras as grades os muros altos os espigões de ferro
No lugar das antigas cadeias construíram-se edifícios de seis andares todos de vidro transparente
Os únicos elementos opacos são as enxergas e as fechaduras das portas
Cada prisão tem centenas de celas de forma hexagonal como favos de colmeia
Tudo quanto um preso faz o tem de fazer à vista dos outros presos dos guardas e da cidade sem espectáculos públicos
À mais grave ocupação de todas que é a de pensar ninguém dá atenção
Mas consoante os gostos não faltam espectadores para os actos de comer defecar masturbar com perdão dos olhos delicados
Ou para as sessões de interrogatório e de tortura que se praticam à luz do dia
Como prova de que o novo sistema prisional aceita a livre observação e se oferece ao testemunho geral
As paredes só se tornam opacas quando todos os presos dormem e não há mais nada para ver
1 051
José Saramago
7
O comandante das tropas de ocupação tem um feiticeiro no seu estado-maior
Mas o sentido da honra militar embora condescendente noutros casos sempre o impediu de utilizar esses poderes sobrenaturais para ganhar batalhas
O feiticeiro apenas intervém quando ao comandante das tropas de ocupação apraz usar o chicote
Nessas ocasiões saem ambos para os arredores da cidade e postos num ponto alto convoca o mágico os poderes ocultos e por eles reduz a cidade ao tamanho de um corpo humano
Então o comandante das tropas de ocupação faz estalar três vezes a ponta para habituar o braço e logo a seguir chicoteia a cidade até se cansar
O feiticeiro que entretanto assistira respeitosamente afastado apela para os poderes ocultos contrários e a cidade torna ao seu tamanho natural
Sempre que isto acontece os habitantes ao encontrarem-se nas ruas perguntam uns aos outros que sinais são aqueles de chicotadas na cara
Quando tão seguros estão de que ninguém os chicoteou nem tal consentiriam
Mas o sentido da honra militar embora condescendente noutros casos sempre o impediu de utilizar esses poderes sobrenaturais para ganhar batalhas
O feiticeiro apenas intervém quando ao comandante das tropas de ocupação apraz usar o chicote
Nessas ocasiões saem ambos para os arredores da cidade e postos num ponto alto convoca o mágico os poderes ocultos e por eles reduz a cidade ao tamanho de um corpo humano
Então o comandante das tropas de ocupação faz estalar três vezes a ponta para habituar o braço e logo a seguir chicoteia a cidade até se cansar
O feiticeiro que entretanto assistira respeitosamente afastado apela para os poderes ocultos contrários e a cidade torna ao seu tamanho natural
Sempre que isto acontece os habitantes ao encontrarem-se nas ruas perguntam uns aos outros que sinais são aqueles de chicotadas na cara
Quando tão seguros estão de que ninguém os chicoteou nem tal consentiriam
622
José Saramago
10
Certos homens embora não adaptados morfologicamente passaram a viver debaixo do chão
Utilizaram a técnica da toupeira a céu fechado por sofrerem de limitações físicas semelhantes
E se é verdade que com o tempo desenvolveram as unhas em comprimento e resistência
Nunca puderam cavar galerias profundas
Custar-lhes-ia provavelmente distanciarem-se do sol
Caso em que teriam muito mais razão do que a toupeira que é cega ou quase e o homem não ainda que nesse sentido tenha feito alguns progressos
Por isso é fácil descobrir os túneis cavados por estes homens que se afastaram do mundo exterior
Com a preocupação de romperem caminho tão perto da luz estalam a crosta da terra e são como os avestruzes que se supõem escondidos
Os perseguidores nem mesmo hesitam entre os dois extremos do túnel como se poderia hesitar perante o risco feito na areia por aqueles bivalves de água doce que acreditam no destino
Porque onde a terra estiver mais fresca ali estará agitando-se devagar o oculto
Uma lança cravada a pique ou uma estaca trespassam pelas costas o homem de unhas longas e coragem insuficiente
Boa armadilha seria porém a galeria cavada à superfície
Se os homens que assim escolheram viver compreendessem que têm de cavar para baixo e fundo um poço antes que venham a lança e a estaca
Para que o perseguidor morra enterrado no preciso momento em que iria matar e para que comecem a igualar-se as perdas
Em nome da simples e necessária justiça
Utilizaram a técnica da toupeira a céu fechado por sofrerem de limitações físicas semelhantes
E se é verdade que com o tempo desenvolveram as unhas em comprimento e resistência
Nunca puderam cavar galerias profundas
Custar-lhes-ia provavelmente distanciarem-se do sol
Caso em que teriam muito mais razão do que a toupeira que é cega ou quase e o homem não ainda que nesse sentido tenha feito alguns progressos
Por isso é fácil descobrir os túneis cavados por estes homens que se afastaram do mundo exterior
Com a preocupação de romperem caminho tão perto da luz estalam a crosta da terra e são como os avestruzes que se supõem escondidos
Os perseguidores nem mesmo hesitam entre os dois extremos do túnel como se poderia hesitar perante o risco feito na areia por aqueles bivalves de água doce que acreditam no destino
Porque onde a terra estiver mais fresca ali estará agitando-se devagar o oculto
Uma lança cravada a pique ou uma estaca trespassam pelas costas o homem de unhas longas e coragem insuficiente
Boa armadilha seria porém a galeria cavada à superfície
Se os homens que assim escolheram viver compreendessem que têm de cavar para baixo e fundo um poço antes que venham a lança e a estaca
Para que o perseguidor morra enterrado no preciso momento em que iria matar e para que comecem a igualar-se as perdas
Em nome da simples e necessária justiça
987
José Saramago
19
Quando os habitantes da cidade se tinham já habituado ao domínio do ocupante
Determinou o ordenador que todos fossem numerados na testa como no braço se fizera cinquenta anos antes em Auschwitz e outros lugares
A operação era indolor e por isso mesmo não houve qualquer resistência nem sequer protestos
O próprio vocabulário sofrera transformações e haviam sido esquecidas as palavras que exprimiam a indignação e a cólera
Deste modo os habitantes da cidade se acharam numerados de 1 a 57.229 porque a cidade era pequena e fora escolhida para experimentação entre todas as cidades ocupadas
Dois meses depois o ordenador registava valores de comportamento e diferentes estados de espírito consoante o número que havia cabido a cada habitante
Entre 1 e 1.000 estava o perfeito contentamento de si próprio ainda assim dividido em mil exactas pequenas parcelas
Ninguém reconhecia autoridade a quem tivesse número superior ao seu o que explica que o 57.229 comesse com os cães e tivesse de masturbar-se porque nenhuma mulher queria dormir com ele
Os habitantes de 1 a 9 consideravam-se chefes da cidade e vestiam segundo as modas do ocupante
Mas o primeiro deles mandou fazer um aro de ouro que suspendia sobre a testa como sinal de poder e autoridade e hoje basta este sinal para que todas as cabeças se curvem a partir de 2
Porém só o ordenador sabe que estes números são provisórios e que dentro de vinte e quatro horas todos se apagarão para reaparecerem por ordem inversa
Processo tão bom como os animais mecânicos para prosseguir o extermínio da população ocupada
Pois todas as humilhações serão retribuídas cem por um até à morte
Enquanto os ocupantes se distraem nos espectáculos que para seu uso ainda funcionam
Determinou o ordenador que todos fossem numerados na testa como no braço se fizera cinquenta anos antes em Auschwitz e outros lugares
A operação era indolor e por isso mesmo não houve qualquer resistência nem sequer protestos
O próprio vocabulário sofrera transformações e haviam sido esquecidas as palavras que exprimiam a indignação e a cólera
Deste modo os habitantes da cidade se acharam numerados de 1 a 57.229 porque a cidade era pequena e fora escolhida para experimentação entre todas as cidades ocupadas
Dois meses depois o ordenador registava valores de comportamento e diferentes estados de espírito consoante o número que havia cabido a cada habitante
Entre 1 e 1.000 estava o perfeito contentamento de si próprio ainda assim dividido em mil exactas pequenas parcelas
Ninguém reconhecia autoridade a quem tivesse número superior ao seu o que explica que o 57.229 comesse com os cães e tivesse de masturbar-se porque nenhuma mulher queria dormir com ele
Os habitantes de 1 a 9 consideravam-se chefes da cidade e vestiam segundo as modas do ocupante
Mas o primeiro deles mandou fazer um aro de ouro que suspendia sobre a testa como sinal de poder e autoridade e hoje basta este sinal para que todas as cabeças se curvem a partir de 2
Porém só o ordenador sabe que estes números são provisórios e que dentro de vinte e quatro horas todos se apagarão para reaparecerem por ordem inversa
Processo tão bom como os animais mecânicos para prosseguir o extermínio da população ocupada
Pois todas as humilhações serão retribuídas cem por um até à morte
Enquanto os ocupantes se distraem nos espectáculos que para seu uso ainda funcionam
970
José Saramago
Sancho
Capaz de medos, sim, mas não de assombros.
Para assombros outra alma se precisa
Mais nua e desarmada.
Mas dessa bruta mão cai a semente
Que a teu amo sustenta, e sem o pão,
Até assombro é nada.
Para assombros outra alma se precisa
Mais nua e desarmada.
Mas dessa bruta mão cai a semente
Que a teu amo sustenta, e sem o pão,
Até assombro é nada.
988
Vinicius de Moraes
Mensagem À Poesia
Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu
encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso
reconquistar a vida.
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado — não a magoem... — que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.
Mas não a traí.
Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la.
A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim.
Vivo do desejo de revê-la
Num mundo em paz.
Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo.
Talvez eu deva
Morrer sem vê-la mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia.
Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia.
Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu
encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso
reconquistar a vida.
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado — não a magoem... — que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.
Mas não a traí.
Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la.
A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim.
Vivo do desejo de revê-la
Num mundo em paz.
Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo.
Talvez eu deva
Morrer sem vê-la mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia.
Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia.
Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.
1 181
Vinicius de Moraes
Notícia D’O Século
Nas terras do Geraz
Que compreendem três populosas freguesias
O povo ainda se mostra sucumbido
Com o bárbaro crime do lavrador Manuel da Névoa
E é curioso notar que ao toque das rezas
Os habitantes correm aos campos, matas e veigas
Gritando pelo assassino, para que apareça
Que não se esconda, pois se torna necessário fazer justiça.
Trata-se de um velho costume
Com o fim de exacerbar o remorso
Dos criminosos que andem a monte fugindo ao castigo
Nas terras do Geraz.
Que compreendem três populosas freguesias
O povo ainda se mostra sucumbido
Com o bárbaro crime do lavrador Manuel da Névoa
E é curioso notar que ao toque das rezas
Os habitantes correm aos campos, matas e veigas
Gritando pelo assassino, para que apareça
Que não se esconda, pois se torna necessário fazer justiça.
Trata-se de um velho costume
Com o fim de exacerbar o remorso
Dos criminosos que andem a monte fugindo ao castigo
Nas terras do Geraz.
802
Vinicius de Moraes
A Grande Voz
É terrível, Senhor! Só a voz do prazer cresce nos ares.
Nem mais um gemido de dor, nem mais um clamor de heroísmo
Só a miséria da carne, e o mundo se desfazendo na lama da carne.
É terrível, Senhor. Desce teus olhos.
As almas sãs clamam a tua misericórdia.
Elas creem em ti. Creem na redenção do sacrifício.
Dize-lhes, Senhor, que és o Deus da Justiça e não da covardia
Dize-lhes que o espírito é da luta e não do crime.
Dize-lhes, Senhor, que não é tarde!
Senhor! Tudo é blasfêmia e tudo é lodo.
Se um lembra que amanhã é o dia da miséria
Mil gritam que hoje é o dia da carne.
Olha, Senhor, antes que seja tarde
Abandona um momento os puros e os bem-aventurados
Desvia um segundo o teu olhar de Roma
Dá remédio a esta infelicidade sem remédio
Antes que ela corrompa os bem-aventurados e os puros.
Não, meu Deus. Não pode prevalecer o prazer e a mentira.
A Verdade é o Espírito. Tu és o Espírito supremo
E tu exigiste de Abraão o sacrifício de um filho.
Na verdade o que é forte é o que mata se o Espírito exige.
É o que sacrifica à causa do bem seu ouro e seu filho.
A alma do prazer é da terra. A alma da luta e do espaço.
E a alma do espaço aniquilará a alma da terra
Para que a Verdade subsista.
Talvez, Senhor meu Deus, fora melhor
Findar a humanidade esfacelada
Com o fogo sagrado de Sodoma.
Melhor fora, talvez, lançar teu raio
E terminar eternamente tudo.
Mas não, Senhor. A morte aniquila — ao fraco a morte inglória.
A luta redime — ao forte a luta e a vida.
Mais vale, Senhor, a tua piedade
Mais vale o teu amor concitando ao combate último.
Senhor, eu não compreendo os teus sagrados desígnios.
Jeová — tu chamaste à luta os homens fortes
Tua mão lançou pragas contra os ímpios
Tua voz incitou ao sacrifício da vida as multidões.
Jesus — tu pregaste a parábola suave
Tu apanhaste na face humildemente
E carregaste ao Gólgota o madeiro.
Senhor, eu não os compreendo, teus desígnios.
Senhor, antes de seres Jesus a humanidade era forte
Os homens bons ouviam a doçura da tua voz
Os maus sentiam a dureza da tua cólera.
E depois, depois que passaste pelo mundo
Teu doce ensinamento foi esquecido
Tua existência foi negada
Veio a treva, veio o horror, veio o pecado
Ressuscitou Sodoma.
Senhor, a humanidade precisa ouvir a voz de Jeová
Os fortes precisam se erguer de armas em punho
Contra o mal — contra o fraco que não luta.
A guerra, Senhor, é em verdade a lei da vida
O homem precisa lutar, porque está escrito
Que o Espírito há de permanecer na face da Terra.
Senhor! Concita os fortes ao combate
Sopra nas multidões inquietas o sopro da luta
Precipita-nos no horror da avalancha suprema.
Dá ao homem que sofre a paz da guerra
Dá à terra cadáveres heroicos
Dá sangue quente ao chão!
Senhor! Tu que criaste a humanidade.
Dize-lhe que o sacrifício será a redenção do mundo
E que os fracos hão de perecer nas mãos dos fortes.
Dá-lhe a morte no campo de batalha
Dá-lhe as grandes avançadas furiosas
Dá-lhe a guerra, Senhor!
Nem mais um gemido de dor, nem mais um clamor de heroísmo
Só a miséria da carne, e o mundo se desfazendo na lama da carne.
É terrível, Senhor. Desce teus olhos.
As almas sãs clamam a tua misericórdia.
Elas creem em ti. Creem na redenção do sacrifício.
Dize-lhes, Senhor, que és o Deus da Justiça e não da covardia
Dize-lhes que o espírito é da luta e não do crime.
Dize-lhes, Senhor, que não é tarde!
Senhor! Tudo é blasfêmia e tudo é lodo.
Se um lembra que amanhã é o dia da miséria
Mil gritam que hoje é o dia da carne.
Olha, Senhor, antes que seja tarde
Abandona um momento os puros e os bem-aventurados
Desvia um segundo o teu olhar de Roma
Dá remédio a esta infelicidade sem remédio
Antes que ela corrompa os bem-aventurados e os puros.
Não, meu Deus. Não pode prevalecer o prazer e a mentira.
A Verdade é o Espírito. Tu és o Espírito supremo
E tu exigiste de Abraão o sacrifício de um filho.
Na verdade o que é forte é o que mata se o Espírito exige.
É o que sacrifica à causa do bem seu ouro e seu filho.
A alma do prazer é da terra. A alma da luta e do espaço.
E a alma do espaço aniquilará a alma da terra
Para que a Verdade subsista.
Talvez, Senhor meu Deus, fora melhor
Findar a humanidade esfacelada
Com o fogo sagrado de Sodoma.
Melhor fora, talvez, lançar teu raio
E terminar eternamente tudo.
Mas não, Senhor. A morte aniquila — ao fraco a morte inglória.
A luta redime — ao forte a luta e a vida.
Mais vale, Senhor, a tua piedade
Mais vale o teu amor concitando ao combate último.
Senhor, eu não compreendo os teus sagrados desígnios.
Jeová — tu chamaste à luta os homens fortes
Tua mão lançou pragas contra os ímpios
Tua voz incitou ao sacrifício da vida as multidões.
Jesus — tu pregaste a parábola suave
Tu apanhaste na face humildemente
E carregaste ao Gólgota o madeiro.
Senhor, eu não os compreendo, teus desígnios.
Senhor, antes de seres Jesus a humanidade era forte
Os homens bons ouviam a doçura da tua voz
Os maus sentiam a dureza da tua cólera.
E depois, depois que passaste pelo mundo
Teu doce ensinamento foi esquecido
Tua existência foi negada
Veio a treva, veio o horror, veio o pecado
Ressuscitou Sodoma.
Senhor, a humanidade precisa ouvir a voz de Jeová
Os fortes precisam se erguer de armas em punho
Contra o mal — contra o fraco que não luta.
A guerra, Senhor, é em verdade a lei da vida
O homem precisa lutar, porque está escrito
Que o Espírito há de permanecer na face da Terra.
Senhor! Concita os fortes ao combate
Sopra nas multidões inquietas o sopro da luta
Precipita-nos no horror da avalancha suprema.
Dá ao homem que sofre a paz da guerra
Dá à terra cadáveres heroicos
Dá sangue quente ao chão!
Senhor! Tu que criaste a humanidade.
Dize-lhe que o sacrifício será a redenção do mundo
E que os fracos hão de perecer nas mãos dos fortes.
Dá-lhe a morte no campo de batalha
Dá-lhe as grandes avançadas furiosas
Dá-lhe a guerra, Senhor!
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Martha Medeiros
da janela da frente
da janela da frente
vejo uma delicatessen
uma praça e o salão de beleza
onde faço permanente
da janela dos fundos
vejo o pátio da vizinha
com seu varal cheio de trapos
e um sofá vagabundo
da janela da frente
vejo crianças na calçada
saindo da escola com a empregada
de uniforme reluzente
da janela dos fundos
vejo crianças ranhentas
comendo com as mãos
e deixando o chão imundo
da janela da frente
vejo carros estacionados
e uma loja de importados
que todo bairro é cliente
da janela dos fundos
vejo a área de serviço alheia
escuto gritos histéricos
e há um cheiro de urina profundo
da janela da frente
vejo um prédio de vidro fumê
sacadas organizadas
e bares de adolescentes
da janela dos fundos
vejo o crime organizado
dezenas de delinquentes
cheirando e queimando fumo
da janela da frente
eu vejo o mundo
da janela dos fundos
eu vejo a gente
vejo uma delicatessen
uma praça e o salão de beleza
onde faço permanente
da janela dos fundos
vejo o pátio da vizinha
com seu varal cheio de trapos
e um sofá vagabundo
da janela da frente
vejo crianças na calçada
saindo da escola com a empregada
de uniforme reluzente
da janela dos fundos
vejo crianças ranhentas
comendo com as mãos
e deixando o chão imundo
da janela da frente
vejo carros estacionados
e uma loja de importados
que todo bairro é cliente
da janela dos fundos
vejo a área de serviço alheia
escuto gritos histéricos
e há um cheiro de urina profundo
da janela da frente
vejo um prédio de vidro fumê
sacadas organizadas
e bares de adolescentes
da janela dos fundos
vejo o crime organizado
dezenas de delinquentes
cheirando e queimando fumo
da janela da frente
eu vejo o mundo
da janela dos fundos
eu vejo a gente
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